Um novo contrato motor nos domínios do esporte, lazer e Educação Física? Aportes para uma teoria reflexiva do movimento humano

A new movement contract in the domains of sport, leisure and Physical Education? Contributions to a reflexive theory of human movement

¿Un nuevo contrato de movimiento en los dominios del deporte, el ocio y la Educación Física? Contribuciones a una teoría reflexiva del movimiento humano

Juliano de Souza Vinicius Machado de Oliveira Rui Proença Garcia Sobre os autores

RESUMO

Esse artigo teve como objetivo compreender em que medida as dinâmicas da modernização reflexiva concorreram para que um novo contrato motor emergisse nos contextos do lazer, esporte e Educação Física na contemporaneidade. Frente a esse desiderato, o texto foi estruturado em três seções. Na primeira parte, discutimos como a modernização reflexiva impactou as relações sociais num contexto macrossociológico. Em seguida, abordamos como e em que sentido as autobiografias de movimento foram alteradas na modernidade tardia. Por fim, introduzimos algumas bases para a uma teoria do movimento humano que se apeteça potencial na tradução dos novos sentidos atribuídos ao lazer e ao esporte na sociedade contemporânea.

Palavras-chave:
Movimento humano; Lazer; Esporte; Educação Física reflexiva

ABSTRACT

This article aimed to understand to what extent the dynamics of reflexive modernization contributed to a new movement contract to emerge in the leisure, sport, and Physical Education contexts in contemporaneity. Given this objective, the text was structured in three sections. In the first part, we discuss how reflexive modernization has impacted social relations in a macro-sociological context. We then discuss how and in what sense movement autobiographies were altered in late modernity. Finally, we introduce some bases for a human movement theory that has the potential to translate the new meanings attributed to leisure and sport in contemporary society.

Keywords:
Human Movement; Leisure; Sport; Reflexive Physical Education

RESUMEN

Este artículo tuvo como objetivo comprender en qué medida la dinámica de la modernización reflexiva contribuyó al surgimiento de un nuevo contrato motor en los contextos del ocio, el deporte y la Educación Física en la época contemporánea. En vista de este objetivo, el texto se estructuró en tres apartados. En la primera parte, discutimos cómo la modernización reflexiva ha impactado las relaciones sociales en un contexto macrosociológico. A continuación, discutimos cómo y en qué sentido se alteraron las autobiografías de movimientos en la modernidad tardía. En la sección final, presentamos algunas bases para una teoría del movimiento humano que tiene potencial para traducir los nuevos significados atribuidos al ocio y al deporte en la sociedad contemporánea.

Palabras-clave:
Movimiento humano; Ocio; Deporte; Educación Física reflexiva

INTRODUÇÃO

Não há dúvidas de que nas últimas décadas as sociedades têm sido palco de intensas mudanças sociais (Giddens, 2012Giddens A. A vida em uma sociedade pós-tradicional. In: Beck U, Giddens A, Lash S, editors. Modernização reflexiva: política, tradição e estética na ordem social moderna. São Paulo: Editora da UNESP, 2012.; Beck, 2003Beck U. Risk society: towards a new modernity. London: Sage; 2003., 2016Beck U. The metamorphosis of the world. Cambridge: Polity Press; 2016.). Mais do que apenas alterações no tecido social, as novas configurações societárias, provenientes do mais recente estágio do processo civilizador (Elias, 2000Elias N. The civilizing process: sociogenetic and psychogenetic investigations. Hoboken: Blackwell; 2000.), têm alterado a forma com que os seres humanos se relacionam com os diferentes fenômenos e processos na contemporaneidade (Beck, 1994Beck U. The reinvention of politics: towards a theory of reflexive modernization. In: Beck U, Giddens A, Lash S, editors. Reflexive modernization: politics, tradition and aesthetics in the modern social order. California: Stanford University Press; 1994.; Giddens, 2012Giddens A. A vida em uma sociedade pós-tradicional. In: Beck U, Giddens A, Lash S, editors. Modernização reflexiva: política, tradição e estética na ordem social moderna. São Paulo: Editora da UNESP, 2012.). De acordo com Beck et al. (1994)Beck U, Giddens A, Scott L. Reflexive modernization: politics, tradition and aesthetics in the modern social order. California: Stanford University Press; 1994., esse novo tempo social pode ser denominado de “modernização reflexiva” ou “segunda modernidade”, momento distintivo que impele os agentes sociais a adotarem comportamentos e estilos de vida substancialmente divergentes daqueles ancorados no eixo das sociedades industriais ou da primeira modernidade.

De um modo geral, a modernização reflexiva emerge e balança os mais diferentes segmentos sociais, evidenciando novos padrões civilizatórios que incidem em mudanças tanto de ordem psicogenética como sociogenética (Elias, 2000Elias N. The civilizing process: sociogenetic and psychogenetic investigations. Hoboken: Blackwell; 2000.). Nesse contexto, entre os domínios da atividade social que se viram imersos nessa conjuntura reflexiva, encontra-se a esfera do movimentar-se humano (Souza, 2021Souza J. Do homo movens ao homo academicus: rumo a uma teoria reflexiva da Educação Física. São Paulo: Liber Ars; 2021.), ou melhor, o envolvente campo das atividades esportivas e de lazer. Em síntese, com o advento da modernização reflexiva, o movimentar-se ganhou novos significados, transcendendo as dimensões tradicionais como diria Giddens (2012)Giddens A. A vida em uma sociedade pós-tradicional. In: Beck U, Giddens A, Lash S, editors. Modernização reflexiva: política, tradição e estética na ordem social moderna. São Paulo: Editora da UNESP, 2012.. Isto é, não somente acontece uma revisão na hierarquia de oferta e demanda das práticas motrizes – a exemplo da inclusão de novas modalidades no programa dos Jogos Olímpicos de Tokyo/2020 (escalada, skate e surf) – bem como alterações na forma com que as pessoas desenvolvem suas autobiografias do movimento1 1 Esse conceito basilar das teses da Educação Física reflexiva refere-se às escolhas e às tomadas de decisões dos agentes sociais no domínio do movimentar-se. Isto é, as pessoas constroem as suas próprias narrativas nos campos do lazer e do esporte por meio da movência. É nesse domínio, inclusive, que se insere a importância da Educação Física, um sistema de conhecimento que de diferentes modos permite às pessoas arquitetarem suas autobiografias de movimento. (Souza, 2019Souza J. Educação Física Reflexiva – problemas, hipóteses e programa de pesquisa. Movimento. 2019;25:1-15. http://dx.doi.org/10.22456/1982-8918.78269.
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, 2021Souza J. Do homo movens ao homo academicus: rumo a uma teoria reflexiva da Educação Física. São Paulo: Liber Ars; 2021.), quer dizer, no modo como constroem suas relações com o mundo por meio do movimentar-se.

O presente artigo tem por objetivo justamente trazer à tona essas questões e, desde uma perspectiva relacional, compreender algumas das vias pelas quais a modernização reflexiva concorreu para que um novo contrato motor2 2 Quando falamos em um novo contrato motor, estamos fazendo referência a uma transição gradual das formas e símbolos pelas quais as pessoas realizam e significam suas práticas físicas, lúdicas e esportivas na contemporaneidade. Em linhas gerais, esse conceito sinaliza para mudanças que ocorreram em torno do movimentar-se no contexto de metamorfose de uma primeira para uma segunda modernidade. emergisse nos contextos do lazer, esporte e Educação Física. Diante desse desiderato, as digressões teóricas aqui delineadas se dão em três direções. Na primeira parte do manuscrito, discutimos como a modernização reflexiva impactou as relações sociais em um contexto de alcance macroteórico. Em seguida, subsidiados pelos aportes de uma teoria da Educação Física que se pretenda reflexiva (Souza, 2021Souza J. Do homo movens ao homo academicus: rumo a uma teoria reflexiva da Educação Física. São Paulo: Liber Ars; 2021.), apresentamos algumas reflexões acerca das autobiografias de movimento na modernidade tardia. Por fim, na terceira seção, trazemos algumas bases para uma teoria do movimento humano capaz de traduzir alguns dos sentidos atinentes às atividades esportivas e de lazer na contemporaneidade.

ALGUNS EFEITOS DA MODERNIZAÇÃO REFLEXIVA NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA

Como se sabe, as sociedades humanas no decorrer do tempo passaram por inúmeras transformações refletidas tanto nas estruturas sociais como na estrutura das personalidades (Elias, 2000Elias N. The civilizing process: sociogenetic and psychogenetic investigations. Hoboken: Blackwell; 2000.). Em que pesem muitas dessas transformações sejam naturais e façam parte de um “processo cego” ou “não planejado” de desenvolvimento social de longo prazo (Elias, 2000Elias N. The civilizing process: sociogenetic and psychogenetic investigations. Hoboken: Blackwell; 2000.), provavelmente, nunca na história tenhamos vivenciado mudanças tão velozes e radicais como aquelas que passamos a protagonizar nos diferentes setores da vida a partir dos anos 1990. De acordo com Beck (2016)Beck U. The metamorphosis of the world. Cambridge: Polity Press; 2016., a velocidade com que as coisas ocorrem na contemporaneidade é tanta, que o mundo não está apenas mudando, mas sim se reinventando de baixo para cima e se metamorfoseando.

Esse cenário de metamorfoses aludido por Beck (2016)Beck U. The metamorphosis of the world. Cambridge: Polity Press; 2016. remete à noção eliasiana de processo e sintetiza um quadro de mudanças que tem repercutido na própria produção teórica não só das Ciências Humanas e Sociais, mas também da Educação Física, do esporte e do lazer (Souza, 2021Souza J. Do homo movens ao homo academicus: rumo a uma teoria reflexiva da Educação Física. São Paulo: Liber Ars; 2021.). Em linhas gerais, sob o pano de fundo dessas metamorfoses, muitos intelectuais sensíveis às novas configurações societárias passaram a evocar uma nova ontologia e uma nova fenomenologia da contemporaneidade, não mais centrada em restituir o princípio de mudanças como aditivo ideológico ou ação discursiva. Modernidade líquida (Bauman, 2000Bauman Z. Liquid Modernity. Cambridge: Polity Press; 2000.), alta modernidade (Giddens, 1991aGiddens A. Modernity and self-identity: self and society in the late modern age. Cambridge: Polity Press; 1991a.), segunda modernidade (Beck, 1994Beck U. The reinvention of politics: towards a theory of reflexive modernization. In: Beck U, Giddens A, Lash S, editors. Reflexive modernization: politics, tradition and aesthetics in the modern social order. California: Stanford University Press; 1994.) sociedade de risco (Beck, 2003Beck U. Risk society: towards a new modernity. London: Sage; 2003.), sociedade pós-tradicional (Giddens, 2012Giddens A. A vida em uma sociedade pós-tradicional. In: Beck U, Giddens A, Lash S, editors. Modernização reflexiva: política, tradição e estética na ordem social moderna. São Paulo: Editora da UNESP, 2012.); pós-modernidade (Lyotard, 1984Lyotard JF. The postmodern condition: a report on knowledge. Minneapolis: University of Minnesota Press; 1984.; Featherstone; 2007Featherstone M. Consumer culture and postmodernism. London: Sage; 2007.), modernização reflexiva (Beck et al., 1994Beck U, Giddens A, Scott L. Reflexive modernization: politics, tradition and aesthetics in the modern social order. California: Stanford University Press; 1994.) são algumas das noções-síntese que endossam que o mundo já não é mais o mesmo de outrora.

Dentre esse variadíssimo menu teórico emergente com as próprias transformações da sociedade, uma perspectiva que tem chamado atenção na literatura pelas contribuições alçadas aos campos da Educação Física, do esporte e do lazer é a teoria da modernização reflexiva decorrente da ação teórica colaborativa estabelecida entre Beck e Giddens. Trata-se de uma teoria geral da sociedade com poder de análise ampla sobre os fatos sociais. Cumpre salientar que a teoria emerge quando os teóricos da modernidade reflexiva percebem que os modelos políticos da sociedade começam a apresentar dissonância às disposições dos agentes e às dinâmicas do tecido social em suas relações com o conhecimento e com os riscos. Isto é, verifica-se, sobretudo no caso das formulações teóricas de Giddens, que eixos de ação como radicalismo, liberalismo ou conservadorismo passam a dividir espaço com uma outra categoria política expressiva, a saber, a “política emancipatória” ou “política da vida” (Rojek, 2001Rojek C. Leisure and life politics. Leis Sci. 2001;23(2):115-25. http://dx.doi.org/10.1080/014904001300181701.
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). Percebe-se, portanto, que os indivíduos começam a sair de uma posição de passividade e submissão aos padrões para uma postura mais autoral nos mais diferentes setores de suas vidas (Giddens, 1991aGiddens A. Modernity and self-identity: self and society in the late modern age. Cambridge: Polity Press; 1991a.).

Todavia, há também perspectivas que rejeitem ou coloquem em suspeita essa maior autonomia dos agentes sociais na contemporaneidade, sobretudo em função de ambiguidades que rondam as relações de conhecimento no mundo social e afetam significativamente o modo como são produzidos. Pense-se, por exemplo, no crescimento das chamadas Fake News ou da cultura dos memes compartilhados nas diversas redes sociais, ações potencialmente sugestivas de que a humanidade ainda não teria rumado para uma sociedade reflexiva na medida em que endossar e replicar informações falsas indicaria um sinal de pouca criatividade ou de nenhuma reflexividade. Em que pese a legitimidade dessa dúvida colocada diante de fatos realmente ambíguos, há que se levar em conta que a própria dinâmica ou natureza dos memes e das Fake News sinaliza para níveis de criatividade e reflexividade (Ribeiro, 2018Ribeiro LM. Comunicação e reflexividade. In: Pôrto G Jr, Moraes NR, Oliveira DB, Santi VJ, Baptaglin LA, editors. Media effects: ensaios sobre teorias da Comunicação e do Jornalismo, Vol. 4: Reflexividade, hermenêutica e Fake News. Boa Vista: EdUFRR; 2018.). Há que se lembrar que reflexividade, tal como evocada pelos teóricos da modernização reflexiva, não constitui uma noção valorativa e chama atenção muito mais para o modo com que os agentes lidam com as dinâmicas de conhecimento na modernidade tardia, do que para um índice de positividade ou de negatividade das mensagens que mobilizam e põem para circular.

É curioso notar que se nos últimos anos a recorrência às Fake News cresceu com a proliferação das redes sociais, isso indica, entre outras coisas, que o contingente de “produtores de ideias” também aumentou (McQuail, 2010McQuail D. McQuail’s mass communication theory. London, Sage, 2010.), condição que não sinalizaria necessariamente para um aumento da consciência reflexiva em termos de uma dialética positiva. Como já dito, a reflexividade não está associada apenas com tomadas de decisões moralmente adequadas ou civilizadas. Há também, nesse quadro, o uso da reflexividade para a própria propagação da desinformação (Beck, 2003Beck U. Risk society: towards a new modernity. London: Sage; 2003.). Ou seja, a produção, recepção e replicação das Fake News é na maior parte das vezes uma ação consciente, seja para obter vantagens em determinado espaço ou simplesmente para reforçar uma crença ou ideologia. Dito de outra forma, os atores sociais, por convicções próprias, podem aceitar uma notícia falsa para criar uma atmosfera de conforto e aproximação com aquilo que acreditam.

Além disso, há que se observar que em tempos de surtos individualizatórios, muito dificilmente uma notícia propalada no tecido social poderia ser consumida e depreendida da mesma maneira por todos, conforme bem sinalizou Ribeiro (2018Ribeiro LM. Comunicação e reflexividade. In: Pôrto G Jr, Moraes NR, Oliveira DB, Santi VJ, Baptaglin LA, editors. Media effects: ensaios sobre teorias da Comunicação e do Jornalismo, Vol. 4: Reflexividade, hermenêutica e Fake News. Boa Vista: EdUFRR; 2018., p. 46) ao argumentar que: “Uma mesma informação, mensagem ou representação produzida pelos meios de comunicação adquire sentidos diversos para os indivíduos em função de sua própria interpretação reflexiva e das redes comunitárias com as quais se identifica e interage”. Portanto, uma mesma mensagem nunca terá efeito análogo para todas as pessoas, principalmente em contextos de metamorfoses sociais constantes tais como aqueles que testemunhamos (Beck, 2016Beck U. The metamorphosis of the world. Cambridge: Polity Press; 2016.) em virtude dos processos crescentes de individualização e destradicionalização.

Importa aqui ressaltar que quando Beck e Giddens se referem à individualização, eles na verdade estão sinalizando para o fato de que, em ambientes modelados reflexivamente, as pessoas passaram a adotar estilos de vida mais autônomos. Em outras palavras, como menciona Giddens (1991aGiddens A. Modernity and self-identity: self and society in the late modern age. Cambridge: Polity Press; 1991a., bGiddens A. The consequences of modernity. Cambridge: Polity Press; 1991b.) os indivíduos estabelecem projetos de vida mais reflexivos, ou melhor, “narrativas autobiográficas do eu”. Essa dinâmica, por seu turno, está diretamente imbricada ao processo de destradicionalização da sociedade, uma vez que na medida em que os agentes sociais vão construindo autobiografias mais endereçadas para o “eu”, a vida tradicional operada por um senso de decisão coletiva começa a perder força.

Não por acaso, a família deixa de ser o centro das decisões dos indivíduos (Beck, 2002Beck U. La sociedad del riesgo global. Madrid: Siglo XXI de España Editores; 2002., 2003Beck U. Risk society: towards a new modernity. London: Sage; 2003., 2016Beck U. The metamorphosis of the world. Cambridge: Polity Press; 2016.). Em que pese sua importância, no prisma da alta modernidade, a família já não tem a mesma influência que antes sobre as decisões pessoais de seus membros, uma vez que a própria configuração de família também se destradicionalizou a fim de encampar os novos estilos de vida (Beck, 2003Beck U. Risk society: towards a new modernity. London: Sage; 2003., 2016Beck U. The metamorphosis of the world. Cambridge: Polity Press; 2016.). Observa-se, por conseguinte, que a vida autoral das pessoas passa a atuar em primeiro plano, ainda que os indivíduos não se desconectem por completo das estruturas sociais tradicionais (Beck e Beck-Gernsheim, 1995Beck U, Beck-Gernsheim E. The normal chaos of love. Cambridge: Polity Press; 1995.). Ou seja, a tradição não deixa de existir, mas perde espaço ou passa coexistir com as novas configurações da modernização reflexiva.

Para além da família, outros setores da vida social, como localidade geográfica e classes também se dissolvem em alguma medida com o advento da modernidade reflexiva (Williams, 2002Williams DR. Leisure identities, globalization, and the politics of place. J Leis Res. 2002;34(4):351-67. http://dx.doi.org/10.1080/00222216.2002.11949976.
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; Harrington, 2014Harrington M. Practices and meaning of purposive family leisure among working- and middle-class families. Leis Stud. 2014;34(4):471-86. http://dx.doi.org/10.1080/02614367.2014.938767.
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). Conforme decorre o processo de individualização, os indivíduos passam a adotar identidades mais cosmopolitas, se distanciando das identidades tradicionais produzidas no interior dos grupos ou classes (Beck, 2006Beck U. The cosmopolitan vision. Cambridge: Polity Press; 2006., 2016Beck U. The metamorphosis of the world. Cambridge: Polity Press; 2016.). O próprio conceito de classe social já não tem a mesma a potência de explicação das relações sociais e das desigualdades, tendo em vista que apresenta limitações para compreender as novas fontes de identidade pessoal ou de grupo (Harrington, 2014Harrington M. Practices and meaning of purposive family leisure among working- and middle-class families. Leis Stud. 2014;34(4):471-86. http://dx.doi.org/10.1080/02614367.2014.938767.
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). Nesse sentido, os diferentes segmentos da vida, alicerçados em perspectivas tradicionais como a família, classe, educação, Estado-nação, trabalho, política, se veem balançados pela modernização reflexiva (Rojek, 2001Rojek C. Leisure and life politics. Leis Sci. 2001;23(2):115-25. http://dx.doi.org/10.1080/014904001300181701.
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).

Há, em suma, um rearranjo da sociedade em termos micro e macrossociológicos, muito em virtude dos efeitos colaterais do sucesso do processo de modernização (Beck, 2002Beck U. La sociedad del riesgo global. Madrid: Siglo XXI de España Editores; 2002.), cuja dinâmica pode ou não envolver a reflexão (Beck, 1994Beck U. The reinvention of politics: towards a theory of reflexive modernization. In: Beck U, Giddens A, Lash S, editors. Reflexive modernization: politics, tradition and aesthetics in the modern social order. California: Stanford University Press; 1994.), ou seja, pode se construir tanto por meio de uma relação com o conhecimento, como também pelo desconhecimento. É nesse sentido relacional, inclusive, que as diferentes esferas da vida foram se reorganizando na modernidade reflexiva, seja no trabalho, na religião, na política, na família, no esporte ou, mais amplamente, no setor das atividades de lazer. Na verdade, esses espaços estão imersos por reflexividade e denotam um novo estilo dos seres humanos se relacionarem com o mundo pelo movimentar-se. Nossa hipótese é que os universos da Educação Física, do esporte e do lazer sintetizam e traduzem simbolicamente o modo com que essas mudanças operam na estrutura da sociedade. As autobiografias do movimento na modernidade reflexiva sugerem a existência de um novo contrato motor da humanidade, tal qual discutiremos a seguir.

UM NOVO CONTRATO MOTOR NA MODERNIDADE TARDIA? AUTOBIOGRAFIAS DE MOVIMENTO NO CAMPO DO LAZER

O lazer e o esporte por muito tempo foram tidos como assuntos marginais nas agendas de estudos das Ciências Sociais. De acordo com Elias e Dunning (2008)Elias N, Dunning E. Quest for excitement: sport and leisure in the civilising process. Dublin: UCD Press; 2008., esses fenômenos eram pouco investigados porque eram compreendidos como temas de menor relevância no tecido social. No entanto, com o passar do tempo, percebeu-se que as atividades de lazer e esportivas tinham muito a dizer sobre a constituição e a formação das sociedades (Huizinga, 1947Huizinga J. Homo ludens. Abingdon: Routledge & Kegan Paul; 1947.; Mumford, 1967Mumford L. The myth of the machine. London: Secker and Warburg; 1967.; Elias e Dunning, 2008Elias N, Dunning E. Quest for excitement: sport and leisure in the civilising process. Dublin: UCD Press; 2008.). Na verdade, se aceitarmos a tese eliasiana, podemos dizer que as sociedades só alcançaram o estágio civilizacional que dispomos hoje, porque a humanidade conseguiu criar espaços e momentos de abrandamento das rotinas de seriedade (Elias e Dunning, 2008Elias N, Dunning E. Quest for excitement: sport and leisure in the civilising process. Dublin: UCD Press; 2008.). Sem dúvida, o esporte e o lazer como poderosas válvulas de escapes em sociedades como a nossa, ainda cumprem essa função. Mas não se reduzem a isso.

Há que se levar em conta que com a eclosão da modernidade reflexiva, o movimentar-se humano no lazer e no esporte ganhou novos aditivos para além da ideia de extravasamento das pulsões ou da ideia de liberdade incutida nessas atividades. Em síntese, com o processo de política emancipatória dos agentes, a distinção entre o lazer e as outras áreas da vida perdeu força, uma vez que assuntos recorrentes em outros segmentos também começaram a se fazer presentes no campo do lazer e do esporte (Rojek, 2001Rojek C. Leisure and life politics. Leis Sci. 2001;23(2):115-25. http://dx.doi.org/10.1080/014904001300181701.
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). Isto é, questões econômicas, políticas, éticas, sociais, morais também emergem dentro das aludidas esferas, exigindo um posicionamento reflexivo por parte dos indivíduos (Rojek, 2001Rojek C. Leisure and life politics. Leis Sci. 2001;23(2):115-25. http://dx.doi.org/10.1080/014904001300181701.
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, 2005Rojek C. An outline of the action approach to leisure studies. Leis Stud. 2005;24(1):13-25. http://dx.doi.org/10.1080/0201436042000250159.
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).

Um exemplo convincente dessa condição reflexiva se manifesta em atividades motrizes realizadas na natureza, onde o movimentar-se não ocorre apenas pela prática em si. De um modo geral, face aos riscos autofabricados pelo sucesso da modernização (Beck, 2003Beck U. Risk society: towards a new modernity. London: Sage; 2003., 2016Beck U. The metamorphosis of the world. Cambridge: Polity Press; 2016.), os efeitos climáticos impelem os indivíduos a olhar com outros olhos para a natureza. Prova inconteste dessa relação é observado no próprio “ativismo ambiental” ou na “política verde” que se encontram presentes em diferentes contextos de movência no meio natural (Rojek, 2001Rojek C. Leisure and life politics. Leis Sci. 2001;23(2):115-25. http://dx.doi.org/10.1080/014904001300181701.
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; Bramham, 2006Bramham P. Hard and disappearing work: making sense of the leisure project. Leis Stud. 2006;25(4):379-90. http://dx.doi.org/10.1080/02614360600896452.
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; Kaczynski e Henderson, 2007Kaczynski AT, Henderson KA. Environmental correlates of physical activity: a review of evidence about parks and recreation. Leis Sci. 2007;29(4):315-54. http://dx.doi.org/10.1080/01490400701394865.
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; Zhang et al., 2020Zhang S, Stewart WP, Chan ESW. Place-making upon return home: influence of greenway experiences. Leis Sci. 2020. In press. http://dx.doi.org/10.1080/01490400.2020.1782290.
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). Ou seja, junto com o movimentar-se esportivamente exercido nos espaços naturais, surgem uma série de questões reflexivas, tais como a preservação do meio ambiente, direito dos animais, desmatamento, aquecimento global, crise hídrica, enfim, uma gama de assuntos éticos que são lançados para os agentes que estabelecem conexão com a natureza na atualidade (Rojek, 2005Rojek C. An outline of the action approach to leisure studies. Leis Stud. 2005;24(1):13-25. http://dx.doi.org/10.1080/0201436042000250159.
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). Por isso, como assevera Rojek (2001)Rojek C. Leisure and life politics. Leis Sci. 2001;23(2):115-25. http://dx.doi.org/10.1080/014904001300181701.
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, as fronteiras entre o lazer e outros setores da vida parecem se embaralhar em contextos de ação reflexivamente modelados.

Todavia, é oportuno destacar que a reflexividade não é uma característica presente apenas na realização do esporte de contato com a natureza. Embora esse seja um nicho privilegiado para visualizar essas relações, a reflexividade é coextensiva ao esporte e ao universo da Educação Física como um todo. Além disso, como é sabido, na modernidade reflexiva, o acesso à informação foi potencializado de modo que os agentes sociais passam a ter a sua disposição diferentes conhecimentos que podem ou não ser mobilizados na tomada de decisões e escrita de suas narrativas autobiográficas (Souza, 2019Souza J. Educação Física Reflexiva – problemas, hipóteses e programa de pesquisa. Movimento. 2019;25:1-15. http://dx.doi.org/10.22456/1982-8918.78269.
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, 2021Souza J. Do homo movens ao homo academicus: rumo a uma teoria reflexiva da Educação Física. São Paulo: Liber Ars; 2021.). Assim, uma escrita autobiográfica da movência na modernidade tardia, pressupõe uma relação com o conhecimento que já não depende única e exclusivamente da ação direta dos especialistas, sendo também orientada pelos saberes e informações que se espraiam nas diferentes instâncias de comunicação e plataformas de interação virtual. Se uma biografia de movimento demanda a ação diretiva e normativa dos professores de Educação Física (Souza, 2021Souza J. Do homo movens ao homo academicus: rumo a uma teoria reflexiva da Educação Física. São Paulo: Liber Ars; 2021.), uma autobiografia de movimento, como noção de interesse às teorias do lazer e do esporte, sinaliza para uma relação transdisciplinar e que convoca diferentes agentes, saberes e vias de apropriações.

Importante salientar que essas múltiplas apropriações de informações levadas a efeito nos diferentes meios de comunicação, seja por meio de sistemas peritos ou até mesmo de sistemas não-peritos, não se encerram na primeira busca realizada, pois a reflexividade faz com que os agentes sociais analisem as diferentes opções e possibilidades antes de tomarem alguma decisão (Giddens, 1991aGiddens A. Modernity and self-identity: self and society in the late modern age. Cambridge: Polity Press; 1991a.). Dessa forma, como diz Williams (2002)Williams DR. Leisure identities, globalization, and the politics of place. J Leis Res. 2002;34(4):351-67. http://dx.doi.org/10.1080/00222216.2002.11949976.
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, as pessoas não assumem passivamente narrativas pré-embaladas. Pelo contrário, em que pese a existência dessas histórias pré-fabricadas, elas são modificadas de acordo com os interesses de cada indivíduo (Williams, 2002Williams DR. Leisure identities, globalization, and the politics of place. J Leis Res. 2002;34(4):351-67. http://dx.doi.org/10.1080/00222216.2002.11949976.
http://dx.doi.org/10.1080/00222216.2002....
), o que remete à noção de autobiografias do movimento reflexivamente modeladas nos contextos do lazer e do esporte (Souza, 2021Souza J. Do homo movens ao homo academicus: rumo a uma teoria reflexiva da Educação Física. São Paulo: Liber Ars; 2021.).

Portanto, está claro que os indivíduos deixam de ser leigos em vários domínios culturais e, na posse de informações para justificar a ação, também passam a emitir opiniões e críticas sobre o que consomem (Beck, 2003Beck U. Risk society: towards a new modernity. London: Sage; 2003.). Sob esse ponto de vista, nem mesmo os sistemas peritos ou científicos são poupados, pois se os produtos ou as informações fornecidas não se enquadram nas “narrativas do eu”, os agentes não têm problema nenhum em abandonar fontes e referências na busca de outras (Souza, 2019Souza J. Educação Física Reflexiva – problemas, hipóteses e programa de pesquisa. Movimento. 2019;25:1-15. http://dx.doi.org/10.22456/1982-8918.78269.
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). Por isso, um dos maiores desafios para a Educação Física como área não esvaziada axiologicamente é justamente estar atenta a essas novas configurações do movimentar-se no contexto do lazer e esporte, de modo a construir modelos de intervenção aderentes às necessidades prementes das pessoas, mas, ao mesmo tempo, primando pelo acrescento de valores que concorram para a elevação da dignidade da pessoa humana (Garcia, 2015Garcia RP. No labirinto do desporto: horizontes culturais contemporâneos. Belo horizonte: Casa da Educação Física; 2015.).

Subjacente a esse processo de reconfiguração do esporte e da Educação Física à luz das dinâmicas de conhecimento na sociedade de risco, está, como já dito, uma revisão da hierarquia das atividades motrizes. O trekking e demais tipos de caminhada outdoor, por exemplo, já se elencam como algumas das práticas motrizes mais realizadas no mundo (Puig, 2016Puig N. The sports participation: from research to sports policy. Phys Cult Sport Stud Res. 2016;70(1):5-17. http://dx.doi.org/10.1515/pcssr-2016-0009.
http://dx.doi.org/10.1515/pcssr-2016-000...
; Grima et al., 2017Grima S, Grima A, Thalassinos E, Seychell S, Spiteri JV. Theoretical models for sport participation: literature review. Int J Econ Bus Adm. 2017;5(3):94-116. http://dx.doi.org/10.35808/ijeba/138.
http://dx.doi.org/10.35808/ijeba/138...
; Marcen et al., 2022Marcen C, Piedrafita E, Oliván R, Arbones I. Physical activity participation in rural areas: a case study. Int J Environ Res Public Health. 2022;19(3):1-21. http://dx.doi.org/10.3390/ijerph19031161. PMid:35162185.
http://dx.doi.org/10.3390/ijerph19031161...
; Lee et al., 2022Lee O, Park S, Kim Y, So W. Participation in Sports Activities before and after the Outbreak of COVID-19: analysis of data from the 2020 korea national sports participation survey. Healthcare. 2022;10(1):1-12. http://dx.doi.org/10.3390/healthcare10010122. PMid:35052286.
http://dx.doi.org/10.3390/healthcare1001...
), estando, em alguns casos, inclusive, a frente de práticas esportivas mais tradicionais, o que endossa, em alguma medida, o abalo que a tradição sofreu nos últimos anos nos mais diferentes domínios da ação humana (Souza, 2021Souza J. Do homo movens ao homo academicus: rumo a uma teoria reflexiva da Educação Física. São Paulo: Liber Ars; 2021.). No Brasil, de acordo com alguns levantamentos, a caminhada outdoor já figura entre as atividades físicas mais predominantes (IBGE, 2017; Lima et al., 2019Lima MG, Malta DC, Monteiro CN, Sousa NFS, Stopa SR, Medina LPB, et al. Leisure-time physical activity and sports in the Brazilian population: a social disparity analysis. PLoS One. 2019;14(12):1-11. PMid:31805150.). Além disso, a própria literatura internacional já vem demonstrando uma maior participação dos agentes sociais em esportes individuais, o que também ratifica o cenário de individualização em que vivemos (Hallmann e Petry, 2013Hallmann K, Petry K. Comparative sport development systems, participation and public policy. Berlim: Springer; 2013. http://dx.doi.org/10.1007/978-1-4614-8905-4.
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; Llopis-Goig, 2016Llopis-Goig R. Participatión deportiva em Europa: políticas, culturas e prácticas. Catalunya: Editorial UOC; 2016.; Scheerder et al., 2017Scheerder J, Claes E, Willem A. Sport policy systems and sport federations: a cross-national perspective. London: Palgrave Macmillan; 2017. http://dx.doi.org/10.1057/978-1-137-60222-0.
http://dx.doi.org/10.1057/978-1-137-6022...
; Lee et al., 2022Lee O, Park S, Kim Y, So W. Participation in Sports Activities before and after the Outbreak of COVID-19: analysis of data from the 2020 korea national sports participation survey. Healthcare. 2022;10(1):1-12. http://dx.doi.org/10.3390/healthcare10010122. PMid:35052286.
http://dx.doi.org/10.3390/healthcare1001...
; Marcen et al., 2022Marcen C, Piedrafita E, Oliván R, Arbones I. Physical activity participation in rural areas: a case study. Int J Environ Res Public Health. 2022;19(3):1-21. http://dx.doi.org/10.3390/ijerph19031161. PMid:35162185.
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). Porém, cabe destacar que a dinâmica do self nada tem a ver com um comportamento egocêntrico ou atomístico (Souza, 2021Souza J. Do homo movens ao homo academicus: rumo a uma teoria reflexiva da Educação Física. São Paulo: Liber Ars; 2021.). Longe disso, nunca se houve tanta preocupação com o outro como agora, afinal a reflexividade da segunda modernidade faz com que os indivíduos estejam potencialmente mais sensíveis às dimensões éticas e relacionais da sociedade3 3 No momento em que fazemos incursões no presente texto, o mundo assiste o despertar de mais uma grande guerra. Em que pese, portanto, ainda não tenhamos atingido um estágio ideal de empatia entre nações, e, por vezes, surtos descivilizatórios venham à tona como o recente caso da invasão da Ucrânia pela Rússia em fevereiro de 2022, está claro que muitas das contendas e assuntos belicosos são resolvidos no domínio diplomático (Elias, 2000) e reflexivo (Beck et al., 1994), com o objetivo de preservar a vida e a integridade física um dos outros (Elias e Dunning, 2008). Perceba que umas das estratégias do ocidente para tentar condenar as ações russas em território ucraniano, tem sido a imposição de sanções que atingem diferentes campos, incluindo o âmbito esportivo, no qual atletas e equipes russas têm sido banidas de diferentes competições pelo globo (Grez, 2022). Isso é uma clara evidência de que o mundo é cosmopolita (Beck, 2006) e interdependente (Elias, 2008), muito embora as narrativas dos agentes sociais sejam construídas e apropriadas no plano individual. (Rojek, 2005Rojek C. An outline of the action approach to leisure studies. Leis Stud. 2005;24(1):13-25. http://dx.doi.org/10.1080/0201436042000250159.
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).

Por sinal, mesmo o esporte realizado individualmente não dispensa relações com os outros. Se há dúvidas nesse sentido, basta observar como as pessoas movimentam as diferentes mídias sociais, a fim de compartilhar ou trocar experiências sobre as práticas realizadas. Não se pode, portanto, esquecer que com o processo de globalização as dinâmicas sociais foram ressignificadas, pois por via da tecnologia, as fronteiras geográficas se desfizeram, permitindo aos indivíduos estabelecer conexões uns com os outros à distância. A própria pandemia de covid-19, um dos efeitos da globalização e da sociedade de risco, demonstrou como as redes foram importantes para manter as pessoas conectadas umas às outras, proporcionando aos agentes uma escrita autobiográfica de movimento nas esferas do esporte e do lazer mesmo em situação de lockdown (Son et al., 2020Son JS, Nimrod G, West ST, Janke MC, Liechty T, Naar JJ. Promoting older adults’ physical activity and social well-being during COVID-19. Leis Sci. 2020;43(1-2):287-94. http://dx.doi.org/10.1080/01490400.2020.1774015.
http://dx.doi.org/10.1080/01490400.2020....
; Rodrigues-Krause et al., 2021Rodrigues-Krause J, Santos GC, Krause M, Reischak-Oliveira A. Dancing at home during quarantine: considerations for session structure, aerobic fitness, and safety. J Phys Educ Recreat Dance. 2021;92(4):22-32. http://dx.doi.org/10.1080/07303084.2021.1894272.
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). Enfim, mudanças amplamente cristalizadas nos universos do esporte e do lazer e que remetem à necessidade de uma nova teoria do movimento humano.

PARA UMA TEORIA DO MOVIMENTO HUMANO: O ALCANCE DAS TESES DA EDUCAÇÃO FÍSICA REFLEXIVA AOS DOMÍNIOS DO LAZER E DO ESPORTE

Como discutido nas seções anteriores, a modernização reflexiva repercutiu em vários campos da vida social. Um dos espaços que se viu bastante estremecido por essa atmosfera reflexiva foi o domínio do movimentar-se humano. Nessa esteira, atividades esportivas e de lazer ganharam novos acrescentos que convergem com a política emancipatória do self. Em resumo, esse quadro de mudanças traz consigo uma série de peculiaridades que já não podem ser satisfatoriamente explicadas com visões ou teorias impregnadas no passado, por mais potenciais que tenham sido no seu tempo. Deste modo, parece razoável que as coisas devam ser encaradas com as lentes do presente para que não sucumbamos às armadilhas do senso douto e muito menos do senso comum.

A relação com o corpo, por exemplo, já não é mais a mesma das civilizações medievais ou tampouco das sociedades industriais. Na atualidade, o corpo passa a ser um objeto de uma maior racionalização reflexiva (Heywood, 2006Heywood I. Climbing Monsters: excess and restraint in contemporary rock climbing. Leis Stud. 2006;25(4):455-67. http://dx.doi.org/10.1080/02614360500333911.
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; Silva et al., 2019Silva AC, Freitas DC, Lüdorf SMA. Profissionais de Educação Física de academias de ginástica do Rio de Janeiro e a pluralidade de concepções de corpo. Rev Bras Ciênc Esporte. 2019;41(1):102-8. http://dx.doi.org/10.1016/j.rbce.2018.04.002.
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; Leitzke et al., 2020Leitzke ATS, Rigo LC, Knuth AG. Estratégias biopolíticas de construção do corpo e vigilância da saúde: o caso “medida certa”. Rev Bras Ciênc Esporte. 2020;42:1-8.). O próprio Giddens (2012Giddens A. A vida em uma sociedade pós-tradicional. In: Beck U, Giddens A, Lash S, editors. Modernização reflexiva: política, tradição e estética na ordem social moderna. São Paulo: Editora da UNESP, 2012., p. 123) endossa esse argumento, quando comenta que: “Todas as culturas têm sido sistemas de medicina e regimes de treinamento corporal. Mas na era moderna o corpo e seus processos fisiológicos têm sido muito mais profundamente invadido que antes”. Em suma, dietas, terapias, tratamentos estéticos, fármacos, treinamento físico, procedimentos cirúrgicos são só algumas das vias pelas quais se procura imprimir no próprio corpo a autobiografia desejada (Souza, 2019Souza J. Educação Física Reflexiva – problemas, hipóteses e programa de pesquisa. Movimento. 2019;25:1-15. http://dx.doi.org/10.22456/1982-8918.78269.
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). Face a esse desejo, estabeleceu-se todo um espaço de pesquisa científica sobre o corpo4 4 Para uma leitura mais aprofundada do tema, ver Marani et al. (2019). , bem como um mercado ávido por atender a essa demanda dos agentes sociais.

Reparem que diante dessa conformação, teorias subjacentes às sociedades industriais ou inclinadas ao radicalismo político, muito provavelmente compreenderiam essa relação com o corpo como uma opressão da sociedade sobre o indivíduo a partir de padrões e modelos considerados ideais. Todavia, essa ilação, principalmente, assente em suposições teórico-críticas começa a apresentar limites na medida em que o corpo passa a ser alvo de um maior investimento reflexivo, seja para ação diária ou pelo simples prazer como bem destacado por Heywood (2006)Heywood I. Climbing Monsters: excess and restraint in contemporary rock climbing. Leis Stud. 2006;25(4):455-67. http://dx.doi.org/10.1080/02614360500333911.
http://dx.doi.org/10.1080/02614360500333...
. Isto é, as pessoas, em medida significativa, monitoram os seus corpos e fazem dele uma expressão do self. Nesse sentido, uma teoria reflexiva do movimento humano para o lazer ou esporte não se pode deixar seduzir-se por diagnoses que dão margem irrestrita às ideias de alienação ou docilização dos corpos, uma vez que se fizesse isso correria o risco de abrir mão da especificidade científico-pedagógica da Educação Física em nome de sistemas de crenças, conveniências e relações de poder.

De um modo geral, pode-se dizer que um dos temas de discussão talvez mais nebulosos e controversos na área de Educação Física seja aquele referente ao domínio da técnica. Por alguns setores da área, especialmente aqueles mais sensíveis ao radicalismo político, a técnica foi compreendida com uma espécie de aprisionamento ou subserviência dos seres humanos às exigências políticas, industriais ou econômicas da sociedade. De um modo geral, ao confundir a compreensão de técnica com tecnicismo, alguns círculos não só criticaram inapropriadamente as pedagogias da aprendizagem e especialização motora como também penalizaram algumas atividades cinéticas por suspostamente contribuírem para essa tecnificação do movimento, o que ocorreu sobretudo com o esporte.

Todavia, como se sabe, a técnica é um aspecto essencial e intrínseco à vida humana. Por sinal, foi só por meio do movimento e do desenvolvimento de técnicas motoras especializadas que a humanidade pôde socializar a natureza e prosperar enquanto civilização (Leroi-Gourhan, 1993Leroi-Gourhan A. Gesture and speech. Cambridge: The MIT Press; 1993.; Leakey, 1996Leakey R. The origin of humankind. New York: Basic Books; 1996.). Nessa esteira, a incorporação de técnicas foi e continua sendo de grande importância à vida humana, proporcionando um acrescento cultural ao que fazemos e somos. A Educação Física, o esporte e o lazer lidam, em diferentes proporções, com a técnica traduzida em movimentar-se. A Educação Física, o esporte e o lazer como sistemas de conhecimento têm uma história íntima com a técnica e com a esfera da gestualidade humana. É evidente que em cada contexto histórico essas relações com as técnicas corporais (Mauss, 1950Mauss M. Les techniques du corps in Sociologie et Anthropologie. Paris: PUF; 1950.) se expressaram de determinadas formas, refletindo usos, valores, interesses e dilemas de cada época.

Na modernidade reflexiva não é diferente. A técnica em ambientes reflexivamente modelados continua sendo imprescindível, mas cada vez mais está liberta dos usos tradicionais, uma vez que os agentes desenvolvem autobiografias de movimento plurais, sujeitas a múltiplas apropriações e circunscritas ao projeto autoral do self. É verdade que padrões de excelência no movimentar-se nunca deixam de existir, expressando a areté de nosso tempo. Não há problema algum nisso e a mais recente edição dos Jogos Olímpicos em Tokyo/2021 nos brindaram com cenas e espetáculos motrizes que refletem o valor do humano e nos levam a visualizar sobre até onde podemos chegar enquanto humanidade pela pedagogia do treino e da perseverança (Garcia, 2015Garcia RP. No labirinto do desporto: horizontes culturais contemporâneos. Belo horizonte: Casa da Educação Física; 2015.).

A técnica reflexivamente evocada não faz, todavia, sentir seus efeitos e formas somente nos corpos, mas também nos espaços. Reparem, por exemplo, os novos playgrounds que ganham as praças das cidades reflexivas na modernidade tardia. Desde tenra idade, as crianças já passam a construir padrões de movimento autobiográficos. Os aparelhos disponíveis nesses espaços, em especial, redes e estruturas de escalada, já não mais demandam dos infantes a ação de serem movidos como ocorria nos balanços e escorregadores de outrora. Os novos aparelhos lúdicos dos playgrounds, além de oferecerem uma série de experiências motrizes e sensações que mais tardiamente serão encontradas nos esportes de risco praticados pelos jovens e adultos, evocam uma maior autonomia de movimento que, por sua vez, não constitui um aspecto menor para uma teoria do lazer com pretensões de investir na agenda de mudanças dos sentidos e formas de movimentar-se na modernidade tardia.

Além disso, vale sublinhar que uma técnica mesmo basilar que seja, permite que os agentes sociais possam desfrutar com maior alcance e fruição de suas atividades lúdicas e esportivas. Tomemos como exemplo uma pessoa que aprendeu a nadar. Muito provavelmente a experiência dela com a natureza será diferente de outra que ainda não dominou essa capacidade motriz. O mesmo ocorre com uma criança quando desbrava um playground. No começo, ela pode ter receio de alguns dos brinquedos, mas à medida que vai adquirindo as ações motoras necessárias para superar os desafios, mais ela desfruta daquele ambiente. E assim é naturalmente com outras atividades esportivas. Ninguém vai ao Everest sem antes ter rumado por percursos com graus de dificuldades menores. No domínio de uma teoria reflexiva da Educação Física, a técnica não constitui necessariamente um problema, sendo antes de tudo uma dimensão decisiva sem o qual nosso ofício correria o sério risco de se descaracterizar.

Ademais, em tempos de modernização reflexiva, os próprios agentes sociais que fazem uso do esporte e do lazer têm ciência que uma maior liberação de potência de movimento5 5 Aqui a assunção é inspirada e assumidamente nietzscheana. Quando falamos em potência de movimento estamos nos referindo à aptidão que os seres humanos possuem de otimizar suas habilidades motoras e capacidades físicas. Uma vez melhorados esses aspectos, os agentes sociais podem escrever autobiografias de movimento mais alvissareiras e aderentes às suas escolhas e ambições. Repare que muitas das vezes essa responsabilidade por liberar ou destravar esse potencial de ação perpassa pelo trabalho que os profissionais de Educação Física exercem. pode fazer com que eles desfrutem de maiores prerrogativas não só nesses domínios da atividade humana, como também no âmbito de suas escolhas e narrativas autobiográficas mais amplas (Souza, 2021Souza J. Do homo movens ao homo academicus: rumo a uma teoria reflexiva da Educação Física. São Paulo: Liber Ars; 2021.). Como já dito, as informações propaladas no tecido social por meio de diferentes fontes de replicação do conhecimento ajudam abarcar essas decisões pessoais, o que desafia um corpo de especialistas a alimentar cada vez mais a esfera da informação. É nesse contexto que reside a necessidade de uma análise e uma atuação mais sintonizada com as premissas da modernização reflexiva por parte dos agentes que compõe o universo da Educação Física.

Em síntese, os contributos lançados por uma teoria reflexiva da Educação Física e, mais designadamente, do movimento humano aos domínios do lazer e do esporte se expressam no convite a um novo modo de olhar para a técnica e para a movência, sem censurá-las a partir de críticas externas e muitas vezes desprovidas de fundamentação ontológica. Em contrapartida, uma ontologia reflexiva6 6 Uma ontologia reflexiva do movimento humano quer dizer que as análises e intervenções da Educação Física devem ser planeadas de acordo com as intencionalidades dos agentes sociais. Isto é, em contextos de modernização reflexiva as dimensões do “ser” e da “realidade” do tecido social devem ser sumariamente consideradas para que o senso douto não sobressaia sobre a autonomia dos agentes. Em outras palavras, quando falamos de uma ontologia reflexiva do movimento, entendemos que essa deve ser construída de baixo para cima e não ao contrário como costuma ocorrer no campo acadêmico. Leva-se, portanto, em consideração a realidade dos agentes sociais feita e traduzida em movimentar-se. do movimento humano no modo com que ganha forma nos contextos da Educação Física, do esporte e do lazer na sociedade contemporânea se propõe a reintroduzir os seres humanos como agentes competentes e capazes de tomadas de decisões nessas esferas. Os ganhos de uma abordagem como essa são visíveis tanto para a pesquisa quanto para a intervenção nos domínios do lazer e do esporte. Noções como movência, autobiografia de movimento, técnica, individualização, destradicionalização, reflexividade, potência de movência etc. oferecem um mapa teórico coerente e que pode ser de auxílio nas pesquisas empíricas da área no propósito de se inventariar se vivemos ou não um novo contrato motor nos aludidos domínios da criação humana7 7 Note-se que os esforços aqui ainda estão em curso e que um programa de pesquisa balizado por um forte cinturão protetor ao modo lakatiano leva tempo. Nesse intermeio novas propostas que colocam em xeque as teses da Educação Física Reflexiva não só são bem vindas como necessárias, pois afinal a ciência só progride quando olhares céticos se voltam às propostas ventiladas no campo acadêmico a fim de arrefecer o looping eterno da ciência normal. .

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No decorrer da discussão levada a cabo, procuramos argumentar que as últimas décadas foram marcadas por amplas e intensas mudanças no contexto dos estilos de vida das pessoas. Como refletimos, tais mudanças não ficaram confinadas tão somente a alguns setores do mundo social. Pelo contrário, essas dinâmicas culturais e comportamentais alcançaram os diferentes espaços da sociedade, alterando qualitativamente os modos com que as pessoas lidam com suas demandas. Nessa esteira, alguns domínios profundamente influenciados por essa dinâmica social renovada, foram os do lazer e do esporte que não só vieram a ser ressignificados em muitos contextos, como também ganharam outros aditivos que parecem realmente convergir com a ideia de modernização reflexiva presente no corpo da obra de Beck e Giddens.

Frente a esse pano de fundo, parece razoável, portanto, sustentar que o campo acadêmico da Educação Física merece uma atualização teórica no sentido de dimensionar o estatuto reflexivo das diferentes práticas motrizes que abrangem o escopo de atuação da área. Em outras palavras, se o interesse e o estilo de vivenciar o esporte e o lazer se alteraram no prisma da modernidade tardia, logo, isso indica, dentre outras coisas, a necessidade de um update teórico que contemple as características da agenda pública subjacente à emergência de um novo contrato motor nos domínios do lazer e do esporte. Reparem que o diferencial dessa atualização não reside em ventilar de forma mais metódica algumas das teses de Beck e Giddens entre nós, mas em fazê-lo a partir de um crivo teórico interno à Educação Física e às Ciências do Esporte. Em síntese, o contributo das teses de Giddens e Beck para o programa da Educação Física reflexiva não consiste em mera transferência e replicação de conceitos da Sociologia para nossa área, mas em uma apropriação inventiva a partir da demarcação de uma referencialidade interna que distingue o nosso métier (Souza, 2021). Além disso, o programa da Educação Física reflexiva não se reduz a essas teorias, tendo uma gama de referenciais externos e internos à área dando suporte para uma tessitura que se pretende aberta e para além do fluxo da ciência normal.

Todavia, como se sabe, a revisão ou mudança de paradigmas não costumam ocorrer da noite para o dia (Kuhn, 2017Kuhn TS. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva; 2017.) e nem mesmo sabemos se ao modo kuhniano podem de fato prosperar em nossa área (Souza, 2021Souza J. Do homo movens ao homo academicus: rumo a uma teoria reflexiva da Educação Física. São Paulo: Liber Ars; 2021.). Além disso, mudanças de categorias cognitivas não só levam tempo, como estão condicionadas a robustez científica de programas de pesquisa bem estruturados (Lakatos, 1979Lakatos I. O falseamento e a metodologia dos programas de pesquisa científica. In: Lakatos, I, Musgrave A, editors. A crítica e o desenvolvimento do conhecimento. São Paulo: Cultrix; 1979, p. 109-243.) e a uma transformação do olhar. Tal por isso, nos propusemos a reunir aqui, de forma propedêutica, algumas bases para uma teoria reflexiva do movimento humano que possa atender à nova realidade cosmopolita em que se acomoda as dinâmicas esportivas e de lazer. Dito de outro modo, nosso intuito aqui foi oferecer elementos para que outras propostas ainda mais alvissareiras e producentes possam prosperar no sentido de abarcar a agenda de mudanças que se faz refletir no perímetro da Educação Física global.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pelo suporte financeiro aos bolsistas. – Código de Financiamento 001.

  • 1
    Esse conceito basilar das teses da Educação Física reflexiva refere-se às escolhas e às tomadas de decisões dos agentes sociais no domínio do movimentar-se. Isto é, as pessoas constroem as suas próprias narrativas nos campos do lazer e do esporte por meio da movência. É nesse domínio, inclusive, que se insere a importância da Educação Física, um sistema de conhecimento que de diferentes modos permite às pessoas arquitetarem suas autobiografias de movimento.
  • 2
    Quando falamos em um novo contrato motor, estamos fazendo referência a uma transição gradual das formas e símbolos pelas quais as pessoas realizam e significam suas práticas físicas, lúdicas e esportivas na contemporaneidade. Em linhas gerais, esse conceito sinaliza para mudanças que ocorreram em torno do movimentar-se no contexto de metamorfose de uma primeira para uma segunda modernidade.
  • 3
    No momento em que fazemos incursões no presente texto, o mundo assiste o despertar de mais uma grande guerra. Em que pese, portanto, ainda não tenhamos atingido um estágio ideal de empatia entre nações, e, por vezes, surtos descivilizatórios venham à tona como o recente caso da invasão da Ucrânia pela Rússia em fevereiro de 2022, está claro que muitas das contendas e assuntos belicosos são resolvidos no domínio diplomático (Elias, 2000Elias N. The civilizing process: sociogenetic and psychogenetic investigations. Hoboken: Blackwell; 2000.) e reflexivo (Beck et al., 1994Beck U, Giddens A, Scott L. Reflexive modernization: politics, tradition and aesthetics in the modern social order. California: Stanford University Press; 1994.), com o objetivo de preservar a vida e a integridade física um dos outros (Elias e Dunning, 2008Elias N, Dunning E. Quest for excitement: sport and leisure in the civilising process. Dublin: UCD Press; 2008.). Perceba que umas das estratégias do ocidente para tentar condenar as ações russas em território ucraniano, tem sido a imposição de sanções que atingem diferentes campos, incluindo o âmbito esportivo, no qual atletas e equipes russas têm sido banidas de diferentes competições pelo globo (Grez, 2022Grez M. Futebol, vôlei, tênis e mais: veja os esportes que aplicaram sanções à Rússia [Internet]. CNN Brasil; 2022 [citado 2022 mar 04]. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/esporte/futebol-volei-tenis-e-mais-veja-os-esportes-que-aplicaram-sancoes-a-russia/
    https://www.cnnbrasil.com.br/esporte/fut...
    ). Isso é uma clara evidência de que o mundo é cosmopolita (Beck, 2006) e interdependente (Elias, 2008Elias N. Introdução à sociologia. Lisboa: Edições 70; 2008.), muito embora as narrativas dos agentes sociais sejam construídas e apropriadas no plano individual.
  • 4
    Para uma leitura mais aprofundada do tema, ver Marani et al. (2019)Marani VH, Lara LM, Souza J. O agenciamento do corpo na modernidade reflexiva: notas e excertos a partir de Anthony Giddens. Movimento. 2019;25:1-19. http://dx.doi.org/10.22456/1982-8918.81818.
    http://dx.doi.org/10.22456/1982-8918.818...
    .
  • 5
    Aqui a assunção é inspirada e assumidamente nietzscheana. Quando falamos em potência de movimento estamos nos referindo à aptidão que os seres humanos possuem de otimizar suas habilidades motoras e capacidades físicas. Uma vez melhorados esses aspectos, os agentes sociais podem escrever autobiografias de movimento mais alvissareiras e aderentes às suas escolhas e ambições. Repare que muitas das vezes essa responsabilidade por liberar ou destravar esse potencial de ação perpassa pelo trabalho que os profissionais de Educação Física exercem.
  • 6
    Uma ontologia reflexiva do movimento humano quer dizer que as análises e intervenções da Educação Física devem ser planeadas de acordo com as intencionalidades dos agentes sociais. Isto é, em contextos de modernização reflexiva as dimensões do “ser” e da “realidade” do tecido social devem ser sumariamente consideradas para que o senso douto não sobressaia sobre a autonomia dos agentes. Em outras palavras, quando falamos de uma ontologia reflexiva do movimento, entendemos que essa deve ser construída de baixo para cima e não ao contrário como costuma ocorrer no campo acadêmico. Leva-se, portanto, em consideração a realidade dos agentes sociais feita e traduzida em movimentar-se.
  • 7
    Note-se que os esforços aqui ainda estão em curso e que um programa de pesquisa balizado por um forte cinturão protetor ao modo lakatiano leva tempo. Nesse intermeio novas propostas que colocam em xeque as teses da Educação Física Reflexiva não só são bem vindas como necessárias, pois afinal a ciência só progride quando olhares céticos se voltam às propostas ventiladas no campo acadêmico a fim de arrefecer o looping eterno da ciência normal.
  • FINANCIAMENTO

    O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Abr 2022
  • Data do Fascículo
    2022

Histórico

  • Recebido
    09 Nov 2021
  • Aceito
    18 Mar 2022
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