RESUMO
O racismo no basquete se faz presente na (re)produção dos preconceitos estruturados socialmente, influenciando nas vivências esportivas de atletas. Portanto, investigamos as experiências de racismo vivenciadas por atletas negras de basquetebol, e os efeitos percebidos desses acontecimentos em suas trajetórias esportivas. Foram entrevistadas 3 atletas autodeclaradas negras, analisadas segundo análise temática. Os resultados evidenciaram as pluralidades das formas de expressão do racismo, e também as formas de enfrentamentos adotados pelas atletas a essas violências, que permeiam a naturalização e normalização dos preconceitos. Em conclusão evidenciamos a necessidade de ampliação de pesquisas, atrelada à implementação de programas educativos antirracismo, a punição e proteção devida.
Palavras-chave:
Racismo; Esporte; Atletas; Mulher
ABSTRACT
Racism in basketball is presenting (re)production of socially structured prejudices, influencing the sporting experiences of athletes. Therefore, we investigate the experiences of racism lived by black female basketball athletes, and the perceived effects of these events on their sporting trajectories. Three self-identified Black athletes were interviewed, analyzed using thematic analysis. The results highlighted the plurality of forms of expression of racism, as well as the coping mechanisms adopted by the athletes in response to these forms of violence, which permeate the naturalization and normalization of prejudices. In conclusion,we highlight the need to expand research, linked to the implementation of anti-racism educational programs, punishment and due protection.
Keywords:
Racism; Sport; Athletes; Women
RESUMEN
El racismo en el baloncesto está presente en reproducción de prejuicios socialmente estructurados, influyen en las experiencias deportivas. Investigamos las experiencias de racismo vividas por atletas de baloncesto negras y la percepción de estos eventos en sus trayectorias deportivas. Se entrevistó y analizó a tres atletas que se identificaban como negras mediante análisis temático. Los resultados destacaron la pluralidad de formas de expresión del racismo, y los mecanismos de afrontamiento adoptados por las atletas en respuesta a estas formas de violencia, que impregnan la naturalización de los prejuicios. En conclusión, destacamos la necesidad de ampliar la investigación, vinculada a la implementación de programas educativos antirracistas, de sanción y de debida protección.
Palabras clave:
Racismo; Deporte; Atletas; Mujer
INTRODUÇÃO
As dinâmicas sociais são organizadas a partir de relações de poder historicamente constituídas, que estruturam desigualdades associadas a marcadores como raça, gênero e classe social. Esses marcadores não operam de forma isolada, mas articulada, produzindo hierarquias que atravessam instituições, práticas sociais e experiências individuais (Bento, 2022; Fanon, 2020). As instituições sociais orientam pactos coletivos, que são normalizados e, muitas vezes, regulamentados (Bento, 2022). Assim, o racismo, compreendido como uma discriminação sistemática fundamentada na raça, pode ser compreendido como um conjunto de atitudes individuais e como um fenômeno estrutural que organiza a lógica de funcionamento da sociedade (Almeida, 2019; Bento, 2022). A crença de que as arbitrariedades institucionalizadas presentes na sociedade são acidentais (Chiés, 2024) acaba eximindo grupos privilegiados da culpabilidade pelas ações que contribuem com a manutenção de seus privilégios.
O racismo estrutural refere-se, então, ao modo como relações raciais historicamente construídas se incorporam às instituições sociais e às normas sociais, (re)produzindo desigualdades de maneira sistemática. É um fenômeno que opera de forma difusa e frequentemente naturalizada, o que contribui para sua manutenção e invisibilização (Bento, 2022). Nesse sentido, torna-se importante considerar como diferentes marcadores sociais se articulam na produção de desigualdades. Numa perspectiva interseccional (Crenshaw, 1989), raça e gênero interagem de maneira indissociável, produzindo experiências específicas de opressão para mulheres negras.
O racismo, então, está profundamente entranhado nas instituições sociais, de tal forma que suas expressões e efeitos deixam de ser percebidos claramente e são naturalizados. Nesse sentido, o racismo institucional refere-se ao tratamento discriminatório oferecido pelas instituições a determinados grupos sociais com base na raça. Então, empresas, organizações e outras instituições públicas ou privadas têm a sua atuação influenciada por relações de poder e dominação entre raças, o que define as decisões e o comportamento das lideranças e do sistema como um todo, o que ocorre de forma intencional ou não (Moreira, 2019). Nesse processo são estabelecidas regras e padrões sociais que privilegiam determinados grupos, o que é expressado, por exemplo, na forma de micro assaltos ou agressões racistas, verbais ou comportamentais, sutis e cotidianas direcionadas a pessoas negras; micro insultos que revelam a insensibilidade as formas de expressões culturais de uma pessoa; ou ainda as micro invalidações que atuam negando importância as vivências de uma minoria (Moreira, 2019).
O esporte, enquanto fenômeno sociocultural, é também reprodutor das discriminações estruturais e, potencialmente, de contestação em suas diversas instituições. Historicamente, sua organização esteve ancorada em padrões definidos por grupos dominantes, o que contribuiu para restringir o acesso e as oportunidades de desenvolvimento de mulheres e de grupos racializados. Portanto, existe a necessidade de estudos sobre a temática neste ambiente (Gaudin, 2007; Gregório e Melo, 2015; Korsakas et al., 2021; Marcelino et al., 2025). O corpo de mulheres negras é frequentemente atravessado por processos de inferiorização, tornando-se alvo de práticas discriminatórias no ambiente esportivo (Rubio e Fetter, 2021). Elas usufruem de menos oportunidades de prática e desenvolvimento no ambiente esportivo (Urizzi et al., 2024) e, apesar de mulheres brancas também serem alvo de preconceito de gênero, mulheres negras e de classe social mais baixa tendem a sofrerem os efeitos da discriminação em maior medida (Korsakas et al., 2024; PNUD, 2017).
A participação esportiva de mulheres negras é marcada por barreiras que incluem desigualdades no acesso a recursos, menor reconhecimento institucional, estereótipos raciais e de gênero, e a naturalização de práticas discriminatórias no cotidiano esportivo (Korsakas et al., 2024, 2021). No caso específico do basquetebol, atletas negras são frequentemente associadas a atributos físicos naturalizados, como força e velocidade, reforçando estereótipos racializados. Enfrentam também restrições relacionadas ao gênero, que historicamente limitam o acesso de mulheres à plena participação esportiva (Goellner, 2008; Korsakas et al., 2024). Essa dupla marcação evidencia como o ambiente esportivo pode simultaneamente reforçar dinâmicas de poder presentes na sociedade (Martins et al., 2021) penalizando mulheres negras.
Assim, torna-se fundamental compreender como o racismo é vivenciado e interpretado pelas próprias atletas. Embora existam estudos sobre racismo no esporte (Abreu e Silva, 2016; Silva et al., 2016), grande parte deles tende a focar em episódios específicos ou em suas consequências, com menor atenção às narrativas das próprias vítimas. Essa lacuna em estudos multifocais dificulta a visualização real do problema, inviabiliza o enriquecimento do saber, limita a compreensão da complexidade do fenômeno e dificulta a proposição de estratégias mais eficazes de enfrentamento.
Assim, este estudo tem como objetivo investigar as experiências de racismo vivenciadas por atletas negras de basquetebol, bem como os efeitos percebidos dessas experiências em suas trajetórias esportivas. Ao privilegiar as narrativas das atletas, busca-se contribuir para uma compreensão mais aprofundada do racismo no contexto esportivo, bem como dar suporte à construção de práticas esportivas mais equitativas e socialmente justas.
MÉTODOS
Procedimentos e participantes
Este estudo qualitativo tem caráter exploratório (Lima, 2018) foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Unicamp. As atletas foram identificadas por meio de listas e cadastros públicos nos sites das federações e campeonatos de basquetebol profissional. Duas atletas e uma ex-atleta de basquetebol foram intencionalmente escolhidas (Patton, 1990), baseadas na sua auto identificação como mulheres pretas (que em função do colorismo tendem a sofrer maior discriminação e preconceito) todas participaram de campeonatos de categorias base oficiais organizados por federações e confederações de basquete no Brasil, atuaram em um campeonato adulto de basquetebol regional ou nacional ou de campeonatos internacionais da modalidade e participaram de seleções nacionais. A média de idade das participantes foi de 24,3 ± 1,15 anos.
O contato com as atletas foi realizado inicialmente por meio de redes sociais, quando foi feito o convite para participação. Após isso, um contato pessoal foi solicitado para que os detalhes sobre os objetivos e procedimentos da pesquisa fossem explicados e dúvidas sanadas. Então, as participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e foram submetidas a uma entrevista semiestruturada. As entrevistas foram conduzidas em plataforma de videoconferência, as imagens e som gravados e transcritos verbatim para análise. O roteiro da entrevista foi construído com questões abertas abordando a trajetória esportiva das voluntárias, destacando situações de racismo enfrentadas e as suas consequências.
Análise dos dados
Os dados obtidos por meio das entrevistas foram tratados pela análise temática (Braun et al., 2016), sendo este um método utilizado para identificar, descrever e interpretar padrões de significados de dados qualitativos, em seis fases: 1. familiarização com os dados; 2. codificação; 3. busca dos temas; 4. revisão dos temas; 5. definição dos nomes para os temas e 6. redação do relatório. A análise foi realizada pela primeira autora e validada em coerência interna, credibilidade e transparência (Burke, 2016) pela segunda e terceira autoras, pesquisadoras experientes em pesquisa qualitativa e análise temática. A análise contemplou elementos latentes, de forma indutiva, como o entendimento das experiências expressas implicitamente na narrativa das atletas, e semânticos, caracterizados como os significados expostos explicitamente pelas voluntárias.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Na Tabela 1 apresentamos os temas, subtemas e descrições desenvolvidos pela análise temática.
Expressões e enfrentamentos do racismo no ambiente esportivo: temas emergentes das narrativas de atletas negras.
Racismo velado: “Não sei se tem relação ou não”
Dúvida constante
As falas das participantes demonstram uma percepção de invalidação de seus sentimentos e opiniões, que resultam na dificuldade de reconhecer ou afirmar as situações racistas (Chiés, 2024), ancoradas em palavras que refletem dúvida e incerteza, como quando Isis afirmou: “Não sei se tem relação ou não…”. Ou em uma forma de minimizar a situação suavizando as palavras ao adicionar esse descrédito à vivência de um fato racista “eu acho que ele não quis me xingar, mas soou um racismo” (Tabata).
A dificuldade em reconhecer a violência pode indicar um receio em ter que encarar o turbilhão de desdobramentos que tomar ciência do fato acarreta na vida pessoal e profissional, atrelado à impossibilidade de reação, já que ocupa uma posição de menor poder. Entendemos ainda que muitas delas compreendiam que existia um problema em algumas situações mas que evitavam relacioná-lo ao racismo: “eu não sei se necessariamente foi por causa de raça” (Gisele). O relato enfatiza a invalidação da violência sofrida, já que relacioná-la à cor de pele significaria lidar com a visão impotente e vitimista imposta às pessoas negras (Hooks, 2019). Esses marcadores auxiliam a manutenção dessa dúvida e perpetuam o incômodo gerado e o sentimento de receio em entender essa “pulga” atrás da orelha.
Naturalização do racismo
A naturalização do racismo interioriza os sentimentos e estigmas (Silva e Paula, 2020) das atletas, dificultando a compreensão da própria experiência da violência sofrida. Como o racismo sofrido não é percebido como violência pela sociedade como um todo, reagir pode parecer inadequado, exagerado, causando desconforto, conforme ilustra Isis: “[...] mas é só para evitar todo esse desgaste [...]”. Isso afeta a construção da identidade dessas mulheres, que formaram seu autoconceito tendo a naturalização social da desvalorização de pessoas negras como pano de fundo, o que pode facilitar a internalização de um autoconceito negativo e incorporação dos seus efeitos em seu próprio comportamento (Fanon, 2020).
A perpetuação das estruturas sociais racistas influencia o comportamento da sociedade como um todo. Isso não difere para as atletas negras que, além de lidar com essas violências, formam conceitos baseados em uma ideia estereotipada refletindo em uma autoimagem depreciativa (Gonzalez e Hasenbalg, 2022). Por exemplo, Isis comenta sobre seu cabelo:
Eu tinha o cabelo grande e tinha, e eu sempre, nunca consegui sair com o cabelo bagunçado, sabe, sem passar um gel, porque não sei se me incomoda, porque eu fico, involuntariamente eu penso no que as pessoas vão pensar ou se é porque eu realmente só quero estar com meu cabelo arrumado. (Isis).
Negação
Culturalmente, a sociedade foi estruturada sob alicerces que rebaixavam as existências diferentes do padrão imposto (Berth, 2019). O mito da democracia racial, entendido como uma falsa crença de igualdade racial plena nos espaços sociais, inclusive os esportivos, influencia a manutenção desse escape e da subjugação das dores negras, induzindo a negação da existência dessas violências, já que nunca foi dado o devido cuidado às opressões impostas à mulher negra (Hooks, 2022). Mesmo quando reduzem a habilidade e/ou esforço a sua cor ou raça, afirmações como as da Tabata “[...] tanto que eu falo, eu ainda não vejo como racismo[...]”, foram recorrentes nas entrevistas e podem ter relação com a marginalização sofrida ao longo da trajetória esportiva e de vida.
Outra maneira de lidar com a situação é a negação ou a relutância em perceber estas violências, ancoradas na ideia de preservação, seja física, mental e/ou emocional, visando a proteção que uma suposta ignorância fornece. O relato da Tabata reforça que não tem como sentir algo que não foi vivido “[...] mas em relação à torcida, tinha xingamentos que eu não entendia, sabe? Porque eu não sabia se era me xingando, mas assim, tipo, eu acho que eles não quiseram me xingar […]”. A negação se faz presente também através da relativização dos efeitos, quando Isis afirma: “então tem coisas assim que às vezes eu percebo, mas não que eu tenha sido diretamente afetada sabe” ao relatar a percepção da disparidade de pessoas negras em determinados esportes e/ou ambiente que frequentava no seu desenvolvimento esportivo.
Essas falas mostram o local de blindagem emocional que a normalização de situações racistas coloca mulheres pretas, e a forma que a influência intrínseca das concepções sociais naturalizadas e reproduzidas dentro da sociedade atuam no delineamento de seus comportamentos. A percepção e compreensão desses acontecimentos é influenciada pela ação sistemática do coletivo, que aceitando a desvalorização dada aos negros afasta ou confunde o discernimento destes à situações racistas, modelando sua responsividade à discriminação.
Silêncios estratégicos
As formas como elas reagem às agressões, principalmente implícitas, envolvem as estruturas sociais, seja em como o racismo se faz presente assim como as próprias experiências, pois o
Pertencimento a um grupo pode tornar as pessoas vulneráveis a diversas formas de preconceito, mas, como somos simultaneamente membros de muitos grupos, nossas identidades complexas podem moldar as maneiras específicas como vivenciamos esse preconceito. (Collins e Bilge, 2020, pp. 30-31).
As participantes expressaram sentimentos de conformação e aceitação do racismo que sofreram no ambiente esportivo, muitas vezes forçadas por castigos e represálias quando demonstravam desacordo. Isis ilustra um silenciamento ao dizer “então, eu acho que talvez tivesse medo de falar alguma coisa e ser punida por questionar”; enquanto Gisele demonstra um sentimento de impotência ao relatar: “A gente não tinha muito o que fazer né? Não ia adiantar responder na hora e tal”. Questionar o racismo estrutural não é fácil, pode causar um sentimento de inadequação, que por vezes gera vergonha, conforme expressa Tabata: “numa dessas eu fico com vergonha sabe, por isso eu não falo nada”. Assim, as participantes silenciaram suas revoltas, priorizando a sobrevivência, mesmo que discordando do discurso prevalente (Ribeiro, 2019).
Todas as falas apontadas direcionam para um local de comedimento das vítimas no qual se sentem impotentes no entendimento dos fatos e nas ações posteriores a serem tomadas. Pois, ser conscientes ou combativos não as isenta de sofrer com a violência racista (Ribeiro, 2019), refletindo nas maneiras particulares (ou não) a que cada um reage. É importante considerar também o que essas atletas têm a perder, já que isso também direciona a forma de lidar. A fala de Tabata “Já estou acostumada, isso acontece sempre” é apresentada como uma forma de proteção seja no âmbito emocional, psicológico ou profissional. É inevitável senti-lo conscientemente ou não, o racismo pesa no dia a dia esportivo, e essas atletas tendem a se habituar e reprimir os sentimentos principalmente pela invalidação de suas dores.
Atitudes explícitas de racismo
Violência verbal
As violências raciais na forma de insultos reaparecem em uma de suas formas mais degradantes e com a intencionalidade da ofensa: “Ai o cara falou assim, ah, essa macaca ai não sei porque é que joga” (Tabata), desumanizando pessoas negras, trazendo características animais para tentar justificar a pseudo inferioridade entre as raças (Silva et al., 2016). Além dessas manifestações, as reduções das atletas ao seu atributo físico também são utilizadas como uma forma de subjugação dos corpos negros, em uma alusão à uma suposta inferioridade intelectual, limitando sua capacidade esportiva. O relato de Tabata reforça o imaginário social da “incapacidade” de pessoas negras exercerem qualquer atividade que necessite de capacidades intelectuais, reduzindo-o a sua condição física biológica: “Deve ser a cor, os preto pula muito mesmo, essa raça ruim” (Tabata).
Atitudes de coerção
Para além disso, o racismo pode ser expresso também de forma menos explícita, mas direcionado a ações individuais e/ou coletivas, buscando invisibilizar e/ou descredibilizar diversos marcadores sociais (Carneiro, 2021) com o intuito de degradar/inferiorizar ou até intimidar as pessoas negras. Gisele relatou uma experiência em que foram hostilizadas por simpatizarem com o movimento Black Lives Matter, que chamava atenção para a necessidade de valorização da vida de pessoas negras: “[...] No que a gente saiu com a camiseta, já começaram a olhar feio e falar ‘não está bom aqui volta de onde você veio, não sei o que’. E quando a gente ajoelhou (durante o hino) só piorou [...]”. Com o relato é possível entender que essa atmosfera hostil foi causada pela presença e postura adotada.
Nas entrelinhas da violência: A (i)legalidade do racismo
“Brincadeiras”
Uma face consolidada do racismo implícito consiste nos insultos disfarçados de piada que possuem “caráter estratégico: ele existe para perpetuar os estereótipos responsáveis pela marginalização moral e material de minorias raciais” (Moreira, 2019, p. 49). Criticam características de pessoas negras, impondo assim uma “superioridade” da raça branca em detrimento das outras. “Aí teve umas brincadeirinhas assim bem sem graça, tipo chamando de bombril” (Tabata), é um exemplo de maneiras para ridicularizar e inferiorizar sem que sejam taxados como racistas, pois se trata somente de uma “piada”.
Essas chacotas se baseiam em características físicas ou comportamentos compreendidos pelo senso comum como característicos da população negra. Têm o intuito de satirizar e diminuir a humanidade dessas pessoas através de uma gozação, aparentemente inofensiva, mas que carrega com si inúmeras significações negativas tanto para os agressores, quanto para as vítimas e, portanto, não podem ser negligenciadas como uma ferramenta útil à manutenção do racismo estrutural (Bento, 2022). O tom de piada adotado mascara as reais intenções dessas falas que, independente da consciência do agressor(a) sobre o impacto que elas têm na pessoa ofendida, violenta silenciosamente as vítimas.
O fato de parte expressiva da sociedade considerar ofensas raciais como piadas, parte de um suposto espírito irreverente que grassa na cultura popular em virtude da suposta democracia racial. Pessoas brancas são inocentados do seu papel na discriminação ao mesmo passo que peesoas negras são responsabilizadas pela sua dor (Bento, 2022). Essa argumentação é do tipo necessário para que o sistema de justiça em geral resista em reconhecer casos de racismo e se considere racialmente neutros.
Pseudoelogio
As micro agressões têm sido também camufladas em situações de falsos elogios: “ai vocês pula que nem macaco, uma vez conversando com as pessoas, elas tipo falavam como se isso fosse um elogio para mim e eu ficava nossa que legal” (Tabata), em que a agressão fica ‘escondida’ em uma falsa intencionalidade boa de quem a profere. O relato da participante demonstra uma falta de compreensão da violência que sofreu. Um dos efeitos do racismo estrutural é a desvalorização de pessoas negras e valorização de pessoas brancas, legitimando o valor dado ao último grupo. A categorização, então, de grupos sociais em “raças” distintas serve, para atrelar maior ou menor valor a características, formas de se expressar e comportamentos de cada grupo (Almeida, 2019). As piadas e os falsos elogios, são parte de uma estratégia que resulta na legitimação do discurso de pessoas brancas e, no caso de Tabata, que ingenuamente valoriza o comentário das colegas, mesmo quando o que dizem configura uma agressão. Isso coloca às mulheres negras mergulhadas em exclusão e inferiorização (Crelier et al., 2016), o que causa uma confusão nos discernimentos dessas ações, e no próprio entendimento de como isso as afeta.
Hostilização social: a não convivência
Encontramos nos relatos também situações racistas disfarçadas de falta de afinidade ou proximidade que evidenciam o desconhecimento no entendimento do que significa ser negra (Dias e Canavêz, 2021). O racismo pode estar mascarado atrás de pretextos como relatou Tabata, “tipo assim eu ia cumprimentar alguém, o pai puxava a menina, falava que não, não queria amizades assim”, sem nenhuma razão plausível ou histórico convincente para essa intransigência. Sem hierarquizar opressões (Akotirene, 2019) essas atletas são preteridas em suas relações, deixadas de lado apesar de não terem feito nada de errado, exemplificando a forma de ação dos micro assaltos evidenciados pelo desprezo e agressividade impostos, questionando o real motivo desses distanciamentos.
Objetificação do corpo da mulher negra
Os estereótipos criados e perpetuados para as pessoas negras impõem ao imaginário da sociedade papéis que determinam o valor das minorias através de um consenso social construído por pessoas brancas (Moreira, 2019), reforçando o processo de marginalização. À mulher negra foi reservado dois extremos: a masculinização ou a hipersexualização de seus corpos, o segundo reforça o valor objetificado dado aos corpos negros, reduzindo sua humanidade (Bento, 2022). Era evidente para a atleta essa percepção no ambiente esportivo e a exposição de como o corpo da mulher negra ainda é tratado.
[...] ele [o treinador] sexualizava a gente o tempo inteiro. O tempo todo, o tempo inteiro ele olhando para a gente. Ele faz um tipo, as feições dele, dava para ver que ele estava imaginando alguma coisa com a gente, e eu ficava muito desconfortável em relação a isso. E é só com a gente, era só com quem era mais escura, que era preta.” (Tabata).
Exclusão
Sofrer racismo não está atrelado à consciência desses episódios, assim como as micro agressões vão ocorrer independentemente da vítima entender ou não o que está acontecendo. A experienciação dos seus desdobramentos também faz parte da vida dessas mulheres fora e dentro da quadra. Sua exclusão seja na forma explícita ou com atitudes implícitas disfarçadas, se torna perceptível na relação de exclusão étnico-racial (Gregório e Melo, 2015) e envolve diversos contextos e agentes do ambiente esportivo. Atletas de basquete têm o hábito de treinar arremesso de maneira independente, como forma de prática deliberada “coincidentemente” no relato de Gisele, só ela - que era negra - não foi integrada ao grupo “Não recebia mensagens quando elas iam arremessar, faziam um grupo e não me chamavam”.
O diferente é desprezado e rejeitado e esse estudo apresentou resultado semelhante (Moreira, 2019; Silva et al., 2016; Tralci, 2019). A forma de exclusão de atletas negras do convívio social no seu local de trabalho ou do círculo social das atletas brancas demonstraram o quão frágil são essas relações. O espaço nos times era limitado, às relações sociais eram frágeis, condicionadas ao interesse e benefício, conforme ilustra Tabata: “tipo assim elas mudaram basicamente comigo em relação a não me chamar mais para fazer as coisas”, após suas colegas de time pensarem que tinham sido deduradas a respeito das “brincadeiras” que faziam com ela. E havia ainda a constante necessidade de reafirmação perante si e aos outros, ao menor deslize essas “conexões” eram rápida e facilmente descartadas, sempre deixando claro que elas não eram parte do grupo.
Outra face presente nessa diferença consiste no fornecimento de mais assistência às atletas brancas “Eu tinha acabado de chegar […] e eu tinha que ir a pé, não tinha ninguém que ia me buscar, e as meninas [brancas] minha técnica ia” (Gisele). Estudos afirmam existir uma maior identificação ou simpatia com atletas que se parecem fisicamente às pessoas em posições de liderança (Agha et al., 2024), influenciando tanto nas relações diárias como nas decisões de carreira. Somado a isso, prevalece a ideia de que pessoas negras não precisam ou merecem tanto cuidado ou atenção quanto pessoas brancas, com raiz na desumanização do povo negro (Gonzalez e Hasenbalg, 2022).
Uma outra forma de privilégio apontada compreende o favorecimento profissional de atletas brancas, conforme descreve Tabata: “Se for eu e outra atleta branca para ser escalada e a gente está pareada, eu tenho que estar muito acima dela pra ser convocada”. As atletas vêem uma necessidade de sempre ser nitidamente melhor, visivelmente muito superior para conseguir espaço, pois se tiverem um desempenho semelhante serão preteridas em favorecimento de atletas brancas nos acessos esportivos (Chiés, 2024). Esse preterimento influencia a permanência e a visão desse ambiente esportivo para as atletas, impondo um caminho ainda mais difícil para o reconhecimento no meio.
O racismo ainda é compreendido no senso comum como atos desferidos diretamente às vítimas, como xingamentos ou agressão física, entre outros palpáveis. As agressões veladas relatadas pelas participantes minimizam a importância desse assunto e as confundem no entendimento de como ‘ser negra’, enviando informações conflitantes para a construção de suas identidades raciais. Palavras aparentemente gentis, conotações “positivas” dadas a agressões e o isolamento social provocado mandam sinais confusos a elas, dificultando além de seu próprio entendimento, o desenvolvimento de suas relações pessoais.
Letramento racial
Dificuldade em compartilhar
Vivenciar e/ou tomar consciência de uma situação de preconceito, de qualquer natureza, é difícil e desgastante (Santos et al., 2023). Uma estratégia que auxilia o processamento dessas informações é o compartilhamento com outras pessoas, possibilitando um entendimento e acolhimento da vítima. Porém, a sociedade estruturou o racismo e silenciou as vítimas
[...] de forma hierarquizada e não humanizada, faz com que as produções intelectuais, saberes e vozes sejam tratados de modo igualmente subalternizados, além das condições sociais os manterem num lugar silenciado estruturalmente. (Ribeiro, 2019, p. 38).
Neste cenário, em nossa sociedade, para pessoas negras se tornou difícil transpassar essa barreira e falar abertamente sobre o racismo. Gisele elucidou: “Eu conversava com essa amiga, mais com ninguém do time”, pois era difícil ter essa abertura dentro do próprio ambiente esportivo, de seus mais variados agentes. Apesar de terem exceções, a tendência verificada consiste nesse retraimento, uma necessidade de lidar sozinha, seja pelo medo de desacreditarem ou mesmo pela falta de entendimento, o que vitimiza a pessoa violentada pela segunda vez, já que superar o trauma não está ligado a suportar calada as constantes humilhações (Hooks, 2022). É essencial o compartilhamento dos anseios, incômodos, dúvidas, questionamentos, para auxiliar a processar essas situações tão delicadas, dividir o fardo e saber que não está sozinha.
Importância do acolhimento
Ficou evidente que a sobrevivência da mulher negra está atrelada à busca de formas de empoderamento (Berth, 2019), entretanto esse empoderamento solitário não é a única forma de sobreviver e o reconhecimento e suporte de colegas e pessoas aliadas pode fazer a diferença. Nesse sentido, Tabata relata uma situação em que normalizou o racismo sofrido e foi alertada por uma colega.
[...] Ai minha amiga fica com isso na cabeça, aí quando a gente chegou num lugar que a gente tinha que estar lá. Ela pegou e falou assim, ‘ô Thay, deixa eu te fazer uma pergunta? Aquela situação lá no posto de gasolina, tal foi discriminação, não foi?’ Aí eu fiquei, foi.’E por que você não fez nada?’ Eu falei, ‘porque na hora eu não vi como, eu estou vendo agora que você está falando’ [...]. (Tabata).
Esse exemplo reforça a ideia de que muitas vezes ter alguém do lado que permita se abrir ou conversar sobre essas questões favorece a percepção das situações veladas que ocorrem no dia a dia, aliviando também a carga psicológica e a solidão.
Dentro dessa temática a Tabata se dizia “assustada e super pálida” após ser acuada por um segurança, e seu técnico (branco) chegou e a defendeu “[...] aí nisso ele começou, ele falou um monte de pá de coisa lá, e falou que queria chamar o gerente e que ia processar, porque eu não tinha feito nada, e falou um monte de coisa, um monte.”. É perceptível durante o relato e na postura mostrada na entrevista, o alívio sentido quando ele comprou a briga, o amparo obtido transformou a experiência em um acontecimento menos traumático do que poderia ter sido, mostrando a força das relações de solidariedade às opressões (Farias, 2011).
Desenvolvimento da consciência crítica
Essas situações citadas fomentam questionamentos que possibilitam uma rachadura no sistema implantado, instigando o pensamento dessas atletas, e rompendo o condicionamento inconsciente de reação ao racismo. Quando Tabata afirma “Para mim nunca foi difícil o basquete, foi tudo muito fácil, mas agora que eu to aqui [na categoria adulta do basquete], cara é luta, viu?” evidencia que “a consciência crítica é condição indissociável do empoderamento.” (Berth, 2019). Essa consciência foi adquirida, segundo ela, através da maturidade da idade e de escutar a história de outras pessoas negras. A consciência crítica permite a discussão de diferentes pontos de vista que possibilita a reflexão sobre o racismo estrutural, e apresenta um aumento e aprofundamento das discussões, permitindo que essas atletas sejam agentes da mudança do próprio destino no esporte.
Nessa direção, Isis reflete após vivenciar uma situação racista “[...] eu deveria talvez ter reagido de uma outra maneira mas ao mesmo tempo eu não sei se o pessoal da minha faculdade estavam preparados para esse acontecimento”. Isis reconhece não ter reagido da maneira como gostaria, mas também demonstra ter percebido que o contexto não permitia uma reação diferente. Para além de reconhecer o ato e as implicações pessoais que essa tomada de consciência gera, as vítimas se sentem desencorajadas, pois têm receio de sofrerem retaliações. As inquietações vivenciadas mostraram o ponto de partida para um início de uma movimentação das atletas, já que instigaram o seu pensamento crítico, o que quebra o anestesiamento diante das violências e as empodera permitindo, também através do exemplo, mais reflexões para si e para o coletivo.
Apesar das dificuldades que envolvem a percepção e reconhecimento do racismo estrutural, as atletas demonstraram implícita e/ou explicitamente um nível de consciência crescente da condição social de suas condições enquanto pessoas negras na sociedade. As redes de apoio e o compartilhamento se mostraram necessários à evolução desse processo inicialmente a nível individual, auxiliando ao fornecer o ambiente necessário para seu desenvolvimento.
CONCLUSÃO
Os resultados desta pesquisa evidenciaram quão complexa e delicada é a experiência de atletas negras no ambiente esportivo, sendo um emaranhado de temas que se complementam, comprovando a dinamicidade e a complexidade dessas vivências. Os achados indicam que o racismo se manifesta de maneira multifacetada, desde agressões diretas até formas mais sutis, que dificultam seu reconhecimento e enfrentamento. Um dos principais achados refere-se à naturalização do racismo, que produz dúvidas, negações e silêncios estratégicos, limitando a possibilidade de nomear a violência e de reagir a ela. Esse processo não apenas perpetua o racismo estrutural, mas também afeta a construção da identidade das atletas, marcada pela desvalorização social de pessoas negras. A crença a respeito da inexistência do racismo no Brasil ocorre, também, em função da invisibilidade das suas expressões. Por exemplo, ofender ou agredir física ou verbalmente pessoas negras causa um impacto muito maior, em termos de visibilidade, do que as exclui do convívio social, e é nesse ponto que o racismo estrutural fere muitas pessoas sem alarde, sendo dificilmente reconhecido e validado, se transformando em mais uma luta que as pessoas negras são submetidas.
Além disso, as experiências relatadas pelas entrevistadas evidenciam que o racismo no esporte não compreende apenas eventos isolados, mas se relaciona com estruturas sociais, incluindo processos de exclusão, objetificação e desigualdade de oportunidades. Logo, o ambiente esportivo se configura simultaneamente como espaço de desenvolvimento e de reprodução das desigualdades sociais, reforçando a necessidade de investigações que considerem essas contradições.
Por outro lado, o estudo também aponta para a importância do letramento racial, das redes de apoio e do acolhimento como elementos fundamentais para o reconhecimento das violências e para o desenvolvimento da consciência crítica. Esses processos parecem atuar como mecanismos de resistência, possibilitando que as atletas aprendam com suas experiências e desenvolvam estratégias pessoais para o enfrentamento do racismo. “Não é possível formar um pensamento crítico completo, em qualquer área do conhecimento, negando os apagamentos e exclusões fomentados ao longo da nossa história” (Berth, 2019), logo ter uma visão multifocal do problema dando voz aos diversos agentes envolvidos contribui para a conscientização da sociedade. A realização de mais estudos facilita esse caminho, seja com as instituições esportivas e seus respectivos agentes através da implementação de programas educativos antirracismo que visam prevenir essas ocorrências, atrelado a políticas institucionais que, por meio de estudos que validem essas variadas expressões do racismo também nas instituições esportivas, e divulgar os efeitos causados, para proteger as vítimas e punir os agressores, são ações que podem auxiliar na diminuição de violências do racismo no esporte, gerando um caminho mais acolhedor e de menor pressão.
DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
FINANCIAMENTO
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