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Estudo anatômico de bolsões adiposos na região hipogástrica

Resumos

INTRODUÇÃO: Nas lipodistrofias da parede abdominal anterior, fatores genéticos, aumento de peso, idade e lasseamento da musculatura, de forma isolada ou associada, determinam alterações estéticas generalizadas ou localizadas no epigástrio, no hipogástrio ou, mesmo, em ambas as regiões. O objetivo deste estudo é descrever os limites, a disposição, as relações anatômicas das bolsas adiposas no hipogástrio com as estruturas vizinhas e suas dimensões. MÉTODO: Foram dissecadas 57 peças anatômicas de pacientes submetidas a abdominoplastia, em que o hipogástrio foi ressecado em monobloco. Além disso, foi realizada dissecção da parede abdominal anterior em 8 cadáveres. Em todas as peças, a camada lamelar foi ressecada, mantendo-se a derme-epiderme, a camada areolar e a fáscia superficial íntegras. RESULTADOS: Em todas as peças, foram observados dois cúmulos adiposos na camada areolar bilateralmente, simétricos, em forma de bolsa e de coloração peculiar. Essas bolsas foram também analisadas em relação aos tecidos cutâneos vizinhos: pele, fáscia superficial, camada profunda de gordura. CONCLUSÕES: A camada lamelar foi considerada estrutural como base da pele, pela sua fina espessura, e a camada areolar apresentou acúmulos e volumes variáveis de tecido adiposo nas diversas regiões do corpo, sem limites precisos, particularmente observados nas dissecções da parede abdominal inferior, pela sua elasticidade, pelo volume e pela coloração.

Abdome; Tecido adiposo; Lipectomia


BACKGROUND: In lipodystrophies of the anterior abdominal wall, variables such as genetic factors, weight gain, age, and loss of muscle tone, either alone or in combination, determine generalized aesthetic changes or changes localized in the epigastrium, hypogastrium, or both. The aim of this study was to describe the limits, distribution, and dimensions of fat bags in the hypogastrium, as well as their anatomic relationships with the neighboring structures. METHODS: Fifty-seven anatomical specimens were dissected from patients undergoing abdominoplasty, during which the hypogastrium was resected en bloc. Moreover, the anterior abdominal wall was also dissected in 8 cadavers. In all samples, the lamellar layer was resected, keeping the dermis-epidermis, areolar layer, and superficial fascia intact. RESULTS: In all specimens, 2 symmetrical adipose clusters were observed bilaterally in the areolar layer, which were in the shape of a bag and had peculiar coloration. These bags were analyzed in relation to their neighboring tissues: the skin, superficial fascia, and deep fat layer. CONCLUSIONS: The lamellar layer was considered as a structural base of the skin, owing to its thinness. The areolar layer showed accumulations and varying amounts of fat in the various body regions without precise limits, which were particularly observed in dissections of the lower abdominal wall and identified by their elasticity, volume, and coloration.

Abdomen; Adipose tissue; Lipectomy


ARTIGO ORIGINAL

Estudo anatômico de bolsões adiposos na região hipogástrica

Renato Sivieri de SouzaI; Abadio Gonçalves CaetanoII; Ewaldo Bolivar de Souza PintoIII; Osvaldo Ribeiro SaldanhaIV; Janaína de Almeida FrancoV; Débora Moura Miranda GoulartVI; Luciana Garcia Pereira CastroVII

ICirurgião plástico, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), Uberaba, MG, Brasil

IIDoutor em Anatomia Humana e Neuroanatomia, mestre e professor adjunto da Disciplina de Anatomia e Neuroanatomia da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), Uberaba, MG, Brasil

IIICirurgião plástico, mestre e doutor em Cirurgia Plástica, membro titular da SBCP, Santos, SP, Brasil

IVCirurgião plástico, membro titular da SBCP, Santos, SP, Brasil

VCirurgiã geral pela UFTM, Uberaba, MG, Brasil

VIEnfermeira, mestranda da UFTM, Uberaba, MG, Brasil

VIIAcadêmica de Medicina da UFTM, Uberaba, MG, Brasil

Endereço para correspondência Correspondência para: Renato Sivieri de Souza Rua Vigário Silva, 750 – Centro – Uberaba, MG, Brasil – CEP 38022-190 E-mail: rsivieri@terra.com.br

RESUMO

INTRODUÇÃO: Nas lipodistrofias da parede abdominal anterior, fatores genéticos, aumento de peso, idade e lasseamento da musculatura, de forma isolada ou associada, determinam alterações estéticas generalizadas ou localizadas no epigástrio, no hipogástrio ou, mesmo, em ambas as regiões. O objetivo deste estudo é descrever os limites, a disposição, as relações anatômicas das bolsas adiposas no hipogástrio com as estruturas vizinhas e suas dimensões.

MÉTODO: Foram dissecadas 57 peças anatômicas de pacientes submetidas a abdominoplastia, em que o hipogástrio foi ressecado em monobloco. Além disso, foi realizada dissecção da parede abdominal anterior em 8 cadáveres. Em todas as peças, a camada lamelar foi ressecada, mantendo-se a derme-epiderme, a camada areolar e a fáscia superficial íntegras.

RESULTADOS: Em todas as peças, foram observados dois cúmulos adiposos na camada areolar bilateralmente, simétricos, em forma de bolsa e de coloração peculiar. Essas bolsas foram também analisadas em relação aos tecidos cutâneos vizinhos: pele, fáscia superficial, camada profunda de gordura.

CONCLUSÕES: A camada lamelar foi considerada estrutural como base da pele, pela sua fina espessura, e a camada areolar apresentou acúmulos e volumes variáveis de tecido adiposo nas diversas regiões do corpo, sem limites precisos, particularmente observados nas dissecções da parede abdominal inferior, pela sua elasticidade, pelo volume e pela coloração.

Descritores: Abdome. Tecido adiposo. Lipectomia.

INTRODUÇÃO

A existência de adiposidade subcutânea mais densamente localizada sob a forma de bolsas na parede abdominal anterior foi referida sob ao nome de esteatoma1, sendo mais comumente observada no sexo feminino2. A localização, a distribuição e os limites não foram totalmente definidos na literatura, pela ausência de dissecções comprobatórias. A Figura 1 ilustra essa distribuição adiposa, cujos formato e projeção com frequência lembram o número 8.


O conhecimento topográfico da parede abdominal anterior, assim como das demais regiões do corpo, é imperativo para qualquer tipo de intervenção cirúrgica para fins estéticos, particularmente na lipoaspiração. Considerando-se a diversidade de acúmulo adiposo nessas regiões, a eliminação dos excessos, inicialmente com excelentes efeitos estéticos, pode apresentar ulteriormente distorções e irregularidades no relevo cutâneo.

Em pacientes com obesidade significativa ou que apresentaram grande perda de peso ocorrem alterações macro e microscópicas na estrutura do panículo adiposo em ambas as camadas e mesmo na fáscia superficial. Nesses pacientes, a identificação das bolsas adiposas torna-se pouco evidente, pela fragmentação da fáscia e invasão de lobos adiposos nas camadas lamelar e areolar3.

O objetivo deste estudo é descrever os limites, a disposição, as relações anatômicas das bolsas adiposas no hipogástrio com as estruturas vizinhas e suas dimensões.

MÉTODO

Com base em demarcações previamente realizadas em posição ortostática, foram realizadas 57 abdominoplastias com incisão suprapúbica transversal baixa, em pacientes do sexo feminino, com ressecção em monobloco dos excessos cutâneos do hipogástrio4,5. Foi também dissecada a parede abdominal de 8 cadáveres, em monobloco, nas regiões epigástrica e hipogástrica, com preservação do tecido adiposo (Figura 2).


As peças retiradas do hipogástrio foram dissecadas em posição invertida, tendo a camada dermoepidérmica aplicada sobre a mesa de apoio. Iniciou-se com a ressecção da camada lamelar, mantendo-se a fáscia superficial preservada na bolsa, cobrindo diretamente a superfície areolar compactada e com limites nítidos. A camada lamelar em todas as peças apresentou-se uniforme em sua espessura e extensão (Figuras 3 a 5). Após ressecção da camada lamelar e remoção da fáscia superficial, as bolsas adiposas apresentavam coloração rósea, sendo possível distingui-las com nitidez da cor cinzenta fora delas.




As duas bolsas bilateralmente posicionadas no hipogástrio eram simétricas e de iguais dimensões. Seu eixo maior verticalizado atingia, superiormente, o nível do umbigo e, inferiormente, em algumas peças, o ligamento inguinal. Os limites mediais apresentavam uma trama de tecido conjuntivo unindo-as até o nível do derma (Figura 6).


As bolsas adiposas apresentavam consistência diversa da adiposidade da vizinhança, sendo mais elástica, comparável à de uma "bolsa com gelatina" recoberta pela fáscia envolvente. Fora desse limite, a fáscia era menos elástica e a gordura, mais consistente. A Figura 7 define o contato direto da camada areolar com o derma e a fáscia superficial, separando-a na camada lamelar. As Figuras 8 e 9 ilustram a reflexão da fáscia superficial nos limites externos das bolsas no sentido do derma, tendo sido considerada como limites laterais das mesmas, comparável a um tênue estojo envolvendo-as. Dentro dos volumes observados, as bolsas puderam ser avaliadas em pequenas, médias e grandes (Figura 10). A ocorrência de herniações de gordura da camada lamelar para a areolar também foi observada (Figura 11). As peças conservadas no formol que incluíram o epigástrio (Figura 12), tendo o umbigo posicionado no centro com a camada lamelar rebatida, evidenciaram discreto contorno das bolsas no epigástrio e no hipogástrio.







Este estudo permite chamar a atenção sobre possíveis bolsas adiposas distribuídas nas demais regiões do corpo (Figura 13), ainda não evidenciadas por meio de estudos e dissecções mais conclusivos.


RESULTADOS

Nas pacientes dentro dos limites normais de peso e com adiposidade localizada no epigástrio e no hipogástrio, as bolsas adiposas são de difícil visualização. Nas pacientes obesas e nas multíparas, em posição ortostática, são somente nítidas à palpação.

As bolsas adiposas apresentaram comprimento variando de 8 cm a 17 cm (média de 12,5 cm), largura variando de 6,3 cm a 10,5 cm (média de 8,4 cm), e espessura variando de 1,5 cm a 4,7 cm (média de 3,1 cm).

A camada lamelar apresentou-se mais delgada que a areolar em todas as peças.

Foi constante a visualização e a palpação da camada lamelar, apresentando a mesma espessura.

As peças em cadáveres, em decorrência da conservação em formol, não evidenciaram as bolsas hipogástricas.

DISCUSSÃO

Apesar da fácil identificação à inspeção e à palpação, não encontramos, na literatura, descrição e informes detalhados sobre as bolsas hipogástricas4-12.

As perfurações na fáscia superficial e o deslocamento variado na gordura lamelar para a areolar (Figura 11) também foram encontradas, corroborando achados de outros autores3.

Foram constantes a espessura adiposa da camada lamelar em todas as peças dissecadas e os acúmulos adiposos na parede anterior do abdome posicionados na camada areolar. Esse aspecto permite questionar a necessidade de realização de lipoaspirações na camada lamelar da parede abdominal anterior, sendo necessários novos estudos que possam sustentar essa hipótese. Não foi realizado ainda nenhum estudo sobre essas bolsas em outras regiões de adiposidade variada, para comprovar sua existência.

As 8 dissecções em cadáveres conservados em formol, realizadas na parede anterior do abdome, com a exposição do epigástrio e do hipogástrio, não foram conclusivas quando comparadas aos achados nas peças dissecadas. Em nenhuma dessas peças anatômicas os bolsões adiposos se apresentavam delineados e com limites nítidos em decorrência da conservação em formol, servindo unicamente para estabelecer a inviabilidade desse procedimento para conclusões nesse tipo de estudo.

CONCLUSÕES

As dissecções anatômicas de peças cutâneas do hipogástrio permitiram comprovar a presença de tecido adiposo posicionado na camada areolar, com características de bolsas adiposas compactadas e de limites precisos. A constância numa mesma pessoa da espessura da camada lamelar na região do hipogástrio e a diversificação na camada areolar sugerem a não necessidade de realização de lipoaspiração na camada lamelar, reduzindo o risco de efeitos adversos no pós-operatório.

Artigo recebido: 16/4/2012

Artigo aceito: 5/8/2012

Trabalho realizado no Serviço de Cirurgia Plástica Dr. Ewaldo Bolivar de Souza Pinto da Universidade Santa Cecília de Santos (UNISANTA), Santos, SP, Brasil, e na Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), Uberaba, MG, Brasil.

Artigo submetido pelo SGP (Sistema de Gestão de Publicações) da RBCP.

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  • Correspondência para:

    Renato Sivieri de Souza
    Rua Vigário Silva, 750 – Centro – Uberaba, MG, Brasil – CEP 38022-190
    E-mail:
  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      13 Mar 2013
    • Data do Fascículo
      Set 2012

    Histórico

    • Recebido
      16 Abr 2012
    • Aceito
      05 Ago 2012
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