Open-access Limitações e desafios na incorporação da inteligência artificial em cirurgia plástica: Uma revisão sistemática

Resumo

Esta revisão sistemática oferece uma análise abrangente do papel atual da inteligência artificial (IA) na cirurgia plástica, com ênfase em suas aplicações, resultados, desafios e limitações. A partir de uma base inicial de 213 artigos, 74 estudos foram incluídos após uma seleção rigorosa, considerando critérios de relevância e qualidade metodológica. Entre as tecnologias de IA avaliadas, a realidade aumentada (RA) destaca-se como uma ferramenta emergente com potencial significativo para melhorar a visualização e o planejamento de procedimentos estéticos e reconstrutivos. A utilização de RA permite avanços na projeção de volume, formato e simetria, e auxilia na redução da ansiedade dos pacientes e no alinhamento das expectativas cirúrgicas, ao oferecer uma visualização pré-operatória mais precisa. Apesar dos benefícios identificados, a implementação dessas tecnologias enfrenta desafios consideráveis. A ausência de regulamentação específica e a necessidade de treinamento técnico adequado para profissionais de saúde são barreiras significativas para a integração plena da IA na prática clínica. Além disso, a heterogeneidade dos estudos e a falta de padronização nos resultados dificultam a generalização dos benefícios observados. Conclui-se que, embora os avanços sejam promissores, há uma necessidade crítica de estudos adicionais que abordem as lacunas existentes e que sejam acompanhados por regulamentações robustas para assegurar uma adoção segura e eficaz da IA na cirurgia plástica contemporânea.

Palavras-chave
aprendizado de máquina; cirurgia plástica; diagnóstico por computador; inteligência artificial; procedimentos de cirurgia plástica

Abstract

The present systematic review provides a comprehensive analysis of the current role of artificial intelligence (AI) in plastic surgery, focusing on its applications, outcomes, challenges, and limitations. Out of an initial pool of 213 articles, 74 studies were included after a rigorous selection process based on relevance and methodological quality. Among the AI technologies evaluated, augmented reality (AR) stands out as an emerging tool with significant potential to enhance visualization and planning in esthetic and reconstructive procedures. The use of AR facilitates advancements in volume projection, shape, and symmetry, helping to reduce patient anxiety and better align surgical expectations by offering more precise preoperative visualization. Despite the identified benefits, the implementation of these technologies faces considerable challenges. The lack of specific regulations and the need for adequate technical training for healthcare professionals are significant barriers to the full integration of AI into the clinical practice. Additionally, the heterogeneity of studies and the lack of standardized outcomes make it difficult to generalize the observed benefits. The review concludes that, although the advances are promising, there is a critical need for further studies that address existing gaps and for robust regulations to ensure the safe and effective adoption of AI in contemporary plastic surgery.

Keywords
artificial intelligence; diagnosis; computer-assisted; machine learning; plastic surgery procedures; surgery; plastic

Introdução

A inteligência artificial (IA) tem emergido como uma nova ferramenta em diversas áreas da medicina. A capacidade da IA de analisar grandes volumes de dados e fornecer apoio avançado à tomada de decisões tem o potencial de transformar práticas clínicas, melhorar a precisão cirúrgica e otimizar os desfechos dos pacientes.1,2,3 Na cirurgia plástica, a incorporação da IA teoricamente teria o potencial de aprimorar diagnósticos, planejar cirurgias e melhorar os desfechos pós-operatórios.

Nos últimos anos, a aplicação da IA na cirurgia plástica tem se expandido significativamente, e abrange desde o planejamento pré-operatório, com otimização do design e planejamento cirúrgico, até a orientação intraoperatória, as decisões de tratamento e o manejo pós-operatório dos pacientes, o que denota a sua versatilidade.4,5 Modelos de aprendizado de máquina, redes neurais convolucionais para avaliar mamografias e diferenciar tumores benignos de malignos e processamento de linguagem natural são algumas das tecnologias que têm sido exploradas para aprimorar a prática cirúrgica.6,7,8 A utilização de redes neurais para avaliar mamografias e diferenciar tumores benignos de malignos tem mostrado resultados comparáveis aos de especialistas médicos, por exemplo.5

A incorporação da IA também levanta importantes questões éticas e de regulamentação: a autonomia do paciente, o respeito à lei geral de processamento de dados, o consentimento informado, a confidencialidade e o uso apropriado dos metadados são considerações cruciais que devem ser abordadas para garantir a implementação ética e eficaz da IA na cirurgia plástica.2,4 A colaboração entre cirurgiões plásticos e cientistas da computação é essencial para que sejam desenvolvidos algoritmos que clinicamente relevantes e interpretáveis, o que minimizaria vieses sistemáticos e garantiria a representatividadedosdados.5,9 Atransiçãodessas tecnologias para a prática clínica diária exigirá esforços colaborativos e contínuos para que se valide o desempenho esejam abordadas as limitações identificadas.6

Esta revisão sistemática tem como objetivo explorar as aplicações atuais da IA na cirurgia plástica, discutir os resultados, desafios e limitações enfrentados, e delinear as direções futuras para a integração desta tecnologia na prática clínica diária, com vistas a compreender a sua implementação nos procedimentos e avaliar a qualidade e a eficácia das suas intervenções, assim como as possíveis limitações presentes na literatura atual sobre o tema. Ao fornecer uma visão abrangente das capacidades e implicações da IA, este estudo pretende contribuir para o avanço da cirurgia plástica e para promoveraadoçãoseguraeeficaz destatecnologiaemergente.

Materiais e Métodos

Esta revisão sistemática está registrada na plataforma International Prospective Register of Systematic Reviews (PROSPERO; ID 585318). Ela foi conduzida por meio de uma busca abrangente nas bases de dados PubMed e LILACS realizada em março de 2024. Na estratégia de busca, utilizou-se uma combinação dos descritores Artificial Intelligence e Plastic Surgery para capturar artigos relevantes publicados em português, inglês e espanhol relacionados à aplicação de IA em cirurgia plástica, abrangendo tanto procedimentos estéticos quanto reconstrutivos.

Critérios de Inclusão

Foram incluídos artigos que atendiam aos seguintes critérios:

Período de publicação – foram considerados elegíveis artigos publicados entre janeiro de 2023 e março de 2024, contanto que refletissem os desenvolvimentos mais recentes e relevantes na aplicação de IA na cirurgia plástica.

Idioma – a inclusão foi restrita a estudos publicados em português, inglês ou espanhol, desde que disponíveis em texto completo, para permitir uma análise crítica sem a barreira linguística.

Relevância temática – foram incluídos apenas estudos que abordassem diretamente a aplicação de ferramentas de IA em procedimentos de cirurgia plástica, como realidade aumentada (RA), algoritmos preditivos, e técnicas de aprendizado de máquina, por exemplo.

Disponibilidade – foram considerados apenas artigos em que se podia obter acesso ao texto completo, de modo que toda a informação relevante estivesse disponível para uma análise detalhada.

Critérios de Exclusão

Foram excluídos artigos que se enquadravam em qualquer uma das seguintes categorias:

Relevância temática – estudos que não abordassem diretamente a aplicação de ferramentas de IA na cirurgia plástica foram excluídos, como manuscritos não centrados especificamente no campo da cirurgia plástica, ou que não contribuíssem com dados empíricos significativos para a análise.

Qualidade metodológica – artigos de opinião, editoriais e correspondências foram excluídos da análise para assegurar a qualidade dos dados analisados.

A seleção dosartigos foi realizada emduas etapassequenciais. Na primeira, foram identificados 213 artigos potencialmente relevantes, que passaram por uma triagem inicial baseada nos títulos e resumos. Na segunda, os textos completos dos artigos que atenderam aos critériosdeinclusão foram revisados. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, 74 artigos foram selecionados para uma análise detalhada. Este processo criterioso assegurou que a revisão incluísse apenas estudos de qualidade metodológica, fornecendo uma visão abrangente e atualizada sobre o uso da IA na prática da cirurgia plástica.

Resultados

Durante o processo de revisão sistemática, inicialmente foram identificados 213 artigos potencialmente relevantes para análise. Após uma triagem rigorosa baseada nos critérios de inclusão e exclusão, 74 artigos foram considerados adequados e selecionados para compor a análise final. Esta redução significativa reflete a aplicação de critérios metodológicos criteriosos, e garante a inclusão apenas de estudos com relevância e qualidade. A ►Figura 1 ilustra detalhadamente o fluxo do processo de triagem, desde a identificação inicial até a seleção final dos artigos.

Fig. 1
Processo de seleção de artigos. Abreviatura: PICO, paciente, intervenção, comparação e outcome (desfecho).

Os dados extraídos dos estudos selecionados foram minuciosamente sintetizados e organizados. Na ►Tabela 1, apresentam-se as informações relevantes de cada estudo, incluindo título, autores, tipo de estudo, tamanho amostral, intervenções realizadas, principais resultados e limitações identificadas. Essa síntese fornece uma visão abrangente das evidências disponíveis sobre a aplicação da IA na cirurgia plástica, e permite uma análise crítica da qualidade metodológica e dos impactos das intervenções relatadas. A organização dos dados visa facilitar a comparação entre os estudos e identificar lacunas no conhecimento atual, o que contribui para uma compreensão mais profunda das implicações da IA nesta área médica. A ►Tabela 1 apresenta uma compilação das informações dos 74 artigos.

Tabela 1
Compilação dos artigos incluídos na revisão sistemática

Discussão

A utilização da IA nos procedimentos cirúrgicos sofreu uma grande evolução nos últimos anos. Os estudos desta revisão evidenciam que a integração dos métodos de aprendizado de máquina à prática dos cirurgiões auxilia na obtenção de melhores resultados na rotina cirúrgica. Quatro estudos10,11,12 abordam a integração da IA na cirurgia de reconstrução mamária. Com o advento dessa tecnologia, constatou-se melhora na visualização dos vasos sanguíneos e dos tecidos em relação às reconstruções que não utilizam IA. Dessa forma, os fatores de risco do procedimento são identificados precocemente, o que reduz as complicações do intra e do pós-operatórios.10,11,12

Outra questão a ser apontada é a avaliação do desempenho do ChatGPT (OpenAI, Inc., São Francisco, CA, Estados Unidos) no fornecimento de respostas sobre cirurgia plástica.13,14,15 Dos estudos analisados, 14 relataram aconselhamento fornecido por IA, o que demonstrou que o ChatGPT pode servir como uma ferramenta complementar para os cirurgiões, ao oferecer informações cruciais para os pacientes e promover a resolução de problemas relacionados ao procedimento cirúrgico.16 Também foi avaliada13,14,15 a visão dos cirurgiões em relação às respostas fornecidas pelo ChatGPT quando questionado sobre procedimentos cotidianos da cirurgia plástica. Os profissionais apontaram que as respostas foram relevantes e precisas nos tópicos mais simples; entretanto, no que tange a tópicos de alta complexidade, o ChatGPT apresentou respostas superficiais, e somente forneceu uma visão geral do assunto.13,14,15

Um ponto a ser destacado é a utilização do aprendizado profundo – um aprendizado de máquina baseado na análise preditiva de algoritmos –, que foi considerado uma ferramenta eficiente na gestão de feridas cirúrgicas. Com esse método de avaliação, a IA foi capaz de identificar infecções e realizar a previsão de complicações de feridas pós-operatórias, e alcançou uma precisão de 96% em sua avaliação.17 Ademais, um artigo que analisa essa mesma ferramenta em pacientes queimados evidenciouacapacidadedepredição da IA para sítios com necessidade de enxerto, ocorrência de complicações e até a internação hospitalar prolongada a partir das lesões na pele.18,19,20

Em relação ao transoperatório, os artigos majoritariamente abordaram a RA oferecida pela IA. Com essa ferramenta, há melhorias significativas na visualização e no planejamento dos retalhos perfurantes na cirurgia plástica reconstrutiva, o que proporciona uma melhor compreensão da anatomia e aumenta a precisão do procedimento. Também é necessário salientar que, com essa visualização, é possível ter uma projeção do volume, do formato e da simetria das estruturas abordadas para reconstrução, rejuvenescimento ou embelezamento já no pré-operatório.21,22

Embora este estudo apresente resultados promissores sobre o uso da IA na cirurgia plástica, algumas limitações importantes devem ser consideradas. Em primeiro lugar, a IA ainda é uma tecnologia emergente nessa área, e a falta de regulamentação específica representa um desafio significativo. A ausência de diretrizes claras e padronizadas pode comprometer a segurança e a confiabilidade dos dados processados pelas ferramentas de IA, o que levanta questões quanto à validação dos resultados obtidos.23

Outra limitação relevante é o viés associado à responsabilidade ética e legal nas decisões médicas baseadas em IA. A falta de regulamentação por parte de órgãos de saúde deixa indefinido o papel da IA no apoio à decisão clínica, o que cria incertezas quanto à responsabilização em casos de erros ou resultados indesejados. Esse cenário destaca a necessidade urgente de uma estrutura regulatória que contemple tanto a proteção dos pacientes quanto a segurança jurídica dos profissionais de saúde.24,25,26

Além disso, o uso eficaz de ferramentas de IA na cirurgia plástica requer um nível elevado de conhecimento técnico por parte das equipes médicas, o que limita sua adoção em larga escala. A necessidade de treinamento especializado pode criar barreiras para a implementação dessa tecnologia em clínicas e hospitais que não dispõem de recursos suficientes para capacitação contínua.27,28

Finalmente, o conceito de caixa-preta inerente a muitos algoritmos de IA representa outra limitação crítica. A falta de transparência nos processos automatizados de tomada de decisão dificulta a compreensão de como e por que certas recomendações são feitas. Essa opacidade limita o controle sobre os dados e dificulta a avaliação crítica dos resultados, o que pode reduzir a confiança dos profissionais de saúde na aplicação dessas ferramentas.23

Em resumo, apesar dos avanços, a plena integração da IA na cirurgia plástica enfrenta desafios significativos que precisam ser abordados por meio de regulamentação adequada, treinamento especializado e maior transparência nos processos de tomada de decisão.

Conclusão

A análise dos resultados encontrados evidencia a crescente incorporação da IA na cirurgia plástica. Em diferentes subespe-cialidades, a IA tem mostrado seu potencial, como na reconstrução mamária, em que são usadas técnicas de aprendizado de máquina para aprimorar a visualização de estruturas anatômicas e identificar precocemente fatores de risco, o que contribui para a redução de complicações intra e pós-operatórias. A diminuição do tempo necessário para a análise e seleção de vasos receptores, demonstrada em um dos estudos, ilustra a eficiência que a IA pode conferir ao planejamento cirúrgico.

Além disso, a avaliaçãodo desempenho do ChatGPT revelou seu valor como uma ferramenta complementar, que fornece apoio na tomada de decisões clínicas e melhora a comunicação com os pacientes. No entanto, suas limitações em tópicos de maior complexidade destacam a necessidade de uma integração cuidadosa e criteriosa dessa tecnologia na prática clínica. Outras inovações, como o aprendizado profundo na gestão de feridas cirúrgicas e a RA na cirurgia plástica reconstrutiva, demonstraram impactos positivos tanto na otimização dos resultados clínicos quanto na experiência do paciente. Assim, a adoção de IA, aliada à regulação adequada e à formação contínua dos profissionais de saúde, pode transformar a prática da cirurgia plástica ao proporcionar avanços significativos na medicina estética e reconstrutiva.

  • Suporte Financeiro
    Os autores declaram que não receberam suporte financeiro de agências dos setores público, privado ou sem fins lucrativos para realizar este estudo.
  • Ensaios Clínicos
    Não.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    30 Jun 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    01 Set 2024
  • Aceito
    16 Nov 2024
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