Open-access A questão tributária e os movimentos sociais: uma análise bibliométrica (1979-2024)

Taxes and Social Movements: a Bibliometric Analysis (1979–2024)

Resumo

Este artigo apresenta uma análise bibliométrica e sistemática sobre o nexo entre a questão tributária e os movimentos sociais nas Ciências Sociais. A base Web of Science foi utilizada para a coleta de artigos publicados em periódicos nacionais e internacionais, entre 1979 e 2024. As métricas do VOSViewer auxiliaram na identificação de clusters teóricos e metodológicos. Realizamos a leitura completa dos artigos do corpus resultante (N = 62). Os resultados apontam para um campo embrionário tanto globalmente, quanto para a América Latina e Caribe, em particular, para o Brasil. De um lado, os estudos sobre movimentos sociais estadunidenses dominam o campo e os estudos sociais de mudanças climáticas emergem neste campo epistemológico. De outro lado, o corpus apresentou uma alta diversidade de técnicas metodológicas (e.g., CDA, DNA, NPF, PCA, Q) e diferentes temas (de protestos locais a disputas ideológicas e narrativas por imaginários entre liberdade e Estado de Bem-Estar Social; de políticas tributárias sobre moradia, migração e mobilidade urbana a políticas de taxação de carbono no âmbito das coalizões corporativas transnacionais). Uma vez que a produção sobre o nexo entre tributos e movimentos no Sul Global é rarefeita, concluímos haver um espaço para novas agendas sobre este elo negligenciado pelas Ciências Sociais.

Palavras-chave
protestos; justiça tributária; sociologia fiscal; políticas públicas; impostos

Abstract

This article presents an in-depth bibliometric analysis of the nexus of taxation and social movements in social science literature. The Web of Science database was used to collect articles published worldwide between 1979 and 2024. VOSViewer metrics were used to identify theoretical and methodological clusters. We conducted a comprehensive review of the articles in the resulting corpus (N = 62). The results point to an embryonic field both globally and for Latin America and Caribe, and in particular for Brazil. On the one hand, American social movement theory dominates the field, and the sociology of politics of climate change emerges in this epistemological field. On the other hand, the corpus presented a high diversity of methodological techniques (e.g., CDA, DNA, NPF, PCA, Q) and different themes (from local protests to ideological disputes and narratives of imaginaries between freedom and the welfare state; from tax policies on housing, migration, and urban mobility to carbon pricing policies within the framework of transnational corporate coalitions). Given that scholarship in the Global South has been scarce on the relationship between taxation and social movements, we conclude that there is room for new research agendas on this connection, which has been neglected by the social sciences.

Keywords
protests; tax justice; fiscal sociology; public policies; taxes

1. Introdução1

Como veremos neste artigo de revisão bibliométrica e sistemática, o nexo analítico entre movimentos sociais e tributos ainda está em construção na literatura de Ciências Sociais. Os campos disciplinares das Ciências Sociais começaram a se interessar pela questão tributária há pouco tempo, a qual é perpassada por tributos, impostos, taxas e outros conceitos. Na chegada das Ciências Sociais a essa temática, encontraram um campo disciplinar bem estabilizado, se não hegemônico, dominado pela Economia e pelo Direito Tributário (Martin, Mehrotra e Prasad, 2009). Atualmente, a Economia tem uma produção científica que é superior às outras disciplinas das Ciências Sociais e Humanidades (Hakelberg e Seelkopf, 2021),2 que foca em percepções e atitudes individuais da predisposição em pagar ou não os impostos (willingness to pay) e que se caracteriza pelos pressupostos de individualismo metodológico, além do seu jargão altamente hermético (Larsen e Oats, 2026). é nesse perfil predominante da produção acadêmica que a Sociologia Fiscal emerge como um novo campo disciplinar (Martin, Mehrotra e Prasad, 2009), seguido pela Ciência Política e Antropologia — esses últimos, mais recentemente —, conforme ressaltam respectivamente, Hakelberg e Seelkopf (2021), na obra “Handbook on the politics of taxation”, e Makovicky e Smith (2023), na obra “Tax beyond the social contract: An Anthropology of Tax”. Nesse contexto, abre-se um horizonte instigante no qual as Ciências Sociais e seus campos disciplinares colocam questões inéditas em relação à produção da Economia (Martin, Mehrotra e Prasad, 2009; Oats, 2012; Hakelberg e Seelkopf, 2021; Mugler, Johansson e Smith, 2024).

A Sociologia Fiscal busca responder por que os sistemas tributários tomam essa forma — e não outra, dentre tantas possíveis —, como se mantêm estáveis, como o consentimento dos pagadores é construído subjetiva e objetivamente, quais dinâmicas há entre agentes e suas redes econômicas e quais os efeitos sociais, tecnológicos, ambientais e outros, além dos econômicos, sobre os diferentes modos de viver, habitar e produzir. Uma parcela desses novos estudos parte do pressuposto de que a teoria dos impostos é uma teoria do segundo contrato social, desenvolvendo argumentos que integram fatores de guerra, desenvolvimento econômico e instituições políticas para explicar reproduções e mudanças tributárias.

Na introdução do livro “Anthropology of Tax” (Mugler, Johansson e Smith, 2024), por sua vez, as organizadoras ressaltam o esforço da disciplina de questionar o que até então era aceito como verdade absoluta na pesquisa tributária, qual seja, o fato de que os tributos são mais do que simples relações econômicas. As autoras ressaltam que o objeto tributário é primordialmente uma questão antropológica e um tipo de contrato social entre humanos que pode ser compreendido a partir da relação entre cidadão e Estado, em franca diferenciação com a Sociologia Fiscal que incorpora e avança com outras abordagens teórico-conceituais. A Antropologia de Tributos mostra que essa relação entre cidadão e Estado é complexificada pela presença de outras instituições, práticas e espaços de soberania; visando compreender como os cidadãos interpretam e respondem aos esforços do Estado para promover práticas fiscais, introduzindo considerações novas para o estudo dos impostos, tais como: questões de memória cultural, gênero, migração e religião, além de questões de valor, comensurabilidade e forma.

A Ciência Política, finalmente, desde uma perspectiva das políticas de tributação, ilustra como ideias, interesses e instituições determinam quem paga — como e quando —, e como isso impacta na redução ou ampliação de desigualdades sociais e econômicas. Enfatiza também o papel da tributação nas relações internacionais e explica como os atores políticos, incluindo eleitores, partidos e coalizões empresariais, se posicionam em relação à tributação (Hakelberg e Seelkopf, 2021).

O cruzamento analítico entre movimentos sociais e tributação que propomos aqui, se insere nessas novas fronteiras de estudos das Ciências Sociais, podendo aproveitar os ganhos de novos olhares trazidos por abordagens de campos disciplinares emergentes como a Sociologia Fiscal, Antropologia de Tributos e Políticas de Tributos.3

Impostos têm sido historicamente motivo de revoltas por serem mobilizados como instrumentos de coerção por parte do Estado (Tilly, 1985; Burg, 2004; Martin e Gabay, 2018)4 tanto em países desenvolvidos, quanto nos países de baixa renda (Brautigam, Fjeldstad e Moore, 2008). Por exemplo, em “A World History of Tax Rebellions”, Burg (2004) apresenta uma lista contextualizada de lutas contra o pagamento de impostos e argumenta que a taxação tem sido onerosa, além de que, em muitos casos, foi excessiva e violenta, portanto, suas cobranças receberam respostas igualmente ferozes ou impetuosas.5

Falar das revoltas não é, no entanto, a mesma coisa que estudar a atuação de movimentos sociais em relação aos impostos. Aqui partimos do conceito de movimento como uma rede informal de indivíduos, grupos e organizações, engajados em conflitos culturais ou políticos, que possuem laços por meio de uma identidade coletiva (Della Porta e Diani, 2015). A pesquisa que originou essa revisão busca entender se e como esse tipo de ação coletiva estabilizada e organizada tem se mobilizado em torno dessas novas problematizações sobre a questão tributária no país — especialmente no Brasil, em que os movimentos sociais progressistas participaram efetivamente, desde 1988, da elaboração de políticas públicas e até hoje disputam novas formas de implementação dessas políticas sociais em um cenário marcado por ajustes fiscais, regressividade tributária, austeridade econômica, aceleracionismo tecnológico, catástrofes climáticas e pelo esgotamento de preceitos neoliberais em relação às políticas sociais.

Uma vasta literatura brasileira investigou essa atuação desde a transição democrática, especialmente durante e após a Constituição de 1988 (CF88) (Dowbor, 2012; Abers, Serafim e Tatagiba, 2014; Carlos, 2015; Gutierres, 2015; Gurza Lavalle et al., 2018; Sanchez, 2021; Tatagiba e Teixeira, 2021; Tatagiba et al., 2022; Carlos; Dowbor; Albuquerque, 2024; Braga, 2024; Gurza Lavalle, Dowbor e Szwako, 2025).6 Os movimentos sociais conseguiram institucionalizar uma diversidade de suas demandas (e.g., programáticas, simbólicas, instrumentais); muitas vezes ocupando cargos e criando instituições estatais à sua imagem e semelhança (Gurza Lavalle et al., 2018; Gurza Lavalle e Szwako, 2023). Esses inegáveis avanços, por meio dos quais parte do Estado e suas políticas passaram a corresponder às demandas de movimentos, encontraram desafios na sua implementação, além de novas políticas reivindicadas que demoravam a alcançar os cidadãos (Siqueira, Hollanda e Motta, 2017). Em parte, a explicação para essas dificuldades de criação e implementação passa pela questão fiscal e, de modo mais profundo, pela questão tributária, que inclui: (i) a arrecadação, isto é, a coleta de tributos (em nossos termos, origem da taxação); (ii) o orçamento previsto, ou seja, despesas e investimentos públicos (em nossos termos, destino da taxação); (iii) os arranjos entre diferentes entidades sociais (coalizões), instituições e infraestruturas estatais (e.g. lobby no Congresso, advocacy no Judiciário); entre outros elementos que travam ou reduzem essas mudanças sociais.

Entre esses limites estão as despesas obrigatórias com certas políticas públicas, o pagamento de juros da dívida pública e a manutenção de um padrão neoliberal na política tributária das últimas décadas (Peres e Santos, 2020). Quanto ao último aspecto, vale ressaltar que a CF88 gerou um paradoxo, conforme indicam Fandiño e Kerstenetzky (2019), visto que ampliou os direitos sociais, mas as bases de arrecadação para executar os novos preceitos constitucionais não foram alargadas. O caráter regressivo do sistema tributário foi agravado, desde 1988, por novas leis de isenções na lógica neoliberal, como a Lei Kandir, que isentou lucros e dividendos de empresas (uma excepcionalidade regressiva que só ocorre em dois países no mundo contemporâneo: Brasil e Estônia),7 e diversas isenções e subsídios tributários a produtos e setores nocivos à saúde humana e ambiental (e.g. agrotóxicos, produtos ultraprocessados, minérios, petróleo), ou ainda por falta de regulamentação de grandes fortunas,8 entre outras.

Somam-se a esse quadro, as iniciativas do Congresso Nacional com projetos de lei, entre 1988 e 2022, os quais 95% são regressivas (Lazzari, 2021). Se o sistema tributário no Brasil pode ser caracterizado como regressivo, modulado por elites, corporações e Congresso, a estabilização por esse arranjo hegemônico e o aumento da regressividade tributária se colocam como obstáculos para a ampliação das políticas públicas reivindicadas pelos movimentos, como saúde e educação universal e um meio ambiente saudável para as gerações presente e futura, como preconiza a CF88. Nessa linha, o quanto esse nexo é visto, problematizado e politizado por agentes coletivos é uma questão raramente debatida pela literatura brasileira. Então, o que é produzido e como é abordada a questão do nexo entre movimentos sociais e tributos?

A revisão bibliométrica que buscou responder a essa pergunta, e que apresentamos em detalhes a seguir, mostra que os trabalhos nos campos de Ciências Sociais que investigam movimentos sociais (e organizações da sociedade civil) e a questão tributária compõem um campo recente e ainda incipiente. Possuem uma base comum da teoria estadunidense de movimentos sociais e apontam para um campo de estudos promissor para entender as disputas pela e contra a redistribuição tributária e o reconhecimento daqueles que estão no poder de demandas sociais e ambientais históricas e emergenciais.9 Isso se torna especialmente relevante no século XXI, permeado pela concentração de riqueza extrema orientada por ideologias de um hipercapitalismo (Piketty, 2020), aceleração das externalidades de um neoliberalismo global (el-Ojeili, 2018), redução de impostos sobre os mais ricos e megacorporações transnacionais (Dowbor, 2022), dilemas mundiais sobre catástrofes climáticas e pela atuação consorciada entre Estados-nação e megacorporações e a consequente oxidação de instituições transnacionais como as Organizações das Nações Unidas (Roberts et al., 2025). O Brasil está atravessado por essas tendências e, apesar dos avanços na redução de certas desigualdades (Arretche, 2018), continua sendo um dos países mais desiguais do mundo.

Ademais, a questão tributária, apropriada — e sequestrada até o momento — pelos economistas, se apresenta no cotidiano no formato de um jargão complexo e inteligível que desafia a capacidade intelectual dos seus pares e blinda epistemologicamente a entrada de outros especialistas e campos disciplinares, sem mencionar a entrada dos cidadãos e do público em geral nesse debate que possui consequências materiais diretas. O que circula livremente no imaginário social brasileiro, por outro lado, são frases de senso comum, tais como “o brasileiro paga muito imposto”, “Brasil tem uma das maiores cargas tributárias” e, ainda, “imposto é só um peso”. Apartada de debates de outras Ciências Sociais e distantes dos cidadãos para além das queixas, a questão tributária precisa ser abraçada por outros olhares, ou seja, outras abordagens epistêmicas e mesmo ontológicas, como mostram alguns cientistas sociais do Norte Global, ao proporem uma agenda internacional para uma Sociologia Fiscal (Martin, Mehrotra e Prasad, 2009), e do Sul Global, que trabalham com o tema da tributação no Brasil na chave da nova sociologia fiscal (Tavares, 2019), de processos decisórios de matéria tributária (Lazzari, Arretche e Mahlmeister, 2022) e à luz da questão do abismo tributário entre os mais pobres e os ricos (Junqueira, 2015; Medeiros, 2023; Medeiros e Souza, 2013; Miskolci, 2025).

Tendo em vista o papel de desafiadores que os movimentos sociais tradicionalmente apresentaram ao status quo, podemos tecer a hipótese sobre seu papel como tradutores ou contestadores. Os movimentos sociais podem ser tradutores das questões tributárias para públicos mais amplos e formuladores de políticas públicas a partir do vetor dos impostos, bem como podem oferecer novos sentidos e significados aos tributos, para além da obrigação de pagar, assim como podem propor novas origens de arrecadação e destinos legítimos para os novos recursos.

Nessa linha, este artigo visa compreender o elo entre a questão tributária e os movimentos sociais na literatura de Ciências Sociais, analisando campos temáticos, autores de referência, obras mais referenciadas, sejam elas clássicas ou contemporâneas, e as abordagens teórico-metodológicas mobilizadas. Tendo em vista a baixa produção de estudos brasileiros sobre a temática, é nesta lacuna que este artigo se insere. Este artigo está organizado em duas seções-chave, além desta introdução e das considerações finais. A primeira, seção 2, apresenta o desenho metodológico do presente trabalho, enquanto a segunda, seção 3, se desdobra em oito subseções, todas relacionadas ao corpus analisado.

2. Desenho metodológico

Este trabalho mobilizou uma análise bibliométrica, que possibilita avaliar quantitativa e qualitativamente o universo de publicações selecionadas (Donthu et al., 2021; Moral-Muñoz et al., 2020). A estratégia metodológica que utilizamos foi organizada em quatro etapas: i. coleta (N = 417); ii. filtro (N = 166); iii. consolidação (N = 62); e iv. análise da base final, em particular, a partir de um procedimento metodológico mobilizado no Brasil para as Ciências Sociais (Salmi e Fleury, 2022; Szwako, Dowbor e Araujo, 2020).

Para a etapa de (1) coleta, selecionamos a base Web of Science Core Collection (WoS) devido à sua extensão, visto que ela possui mais de 12.000 revistas científicas cadastradas atualmente. O período inicial de coleta foi definido sem restrição de data. A produção científica mais antiga do presente corpus foi publicada por Beebe (1979). Os termos-chave utilizados para acessar a base WoS foram: “(social movement* AND tax*) OR ((movimento* socia*) AND (imposto* OR taxa* OR tributo*)) OR (movimiento* social* AND impuesto*)”.

A coleta resultou em 417 publicações,10 dentre eles estão artigos, artigos de conferência, artigos de revisão, crítica literária e material editorial (Figura 1). Nota-se como a área de Economia é predominante diante das Ciências Sociais nesse nexo, todavia não selecionamos a categoria “Economics” (71 publicações) devido à sua abordagem exclusivamente racional-positivista, que não se encaixa no escopo desta pesquisa. Ressaltamos dois pontos sobre esse critério de exclusão. Primeiro, desde uma perspectiva sociológica, os economistas não estudam movimentos sociais, ou, quando o fazem, os enquadram apenas nas relações fiscais no âmbito racional-material e em suas interações institucionais (estatais-corporativas) (Martin e Gabay, 2018; Martin, Mehrotra e Prasad, 2009). Segundo, o termo racional-positivista é entendido como um modo epistêmico de caráter hermético de grupos de experts (e.g., economistas, contabilistas), que produzem conhecimento exclusivamente ancorados na dimensão positivista e que externalizam de seus quadros teóricos as relações sociais do plano subjetivo, como afetividades, ético-moralidades, expectativas ficcionais, imaginários (Beckert, 2016; Martin, Mehrotra e Prasad, 2009; Mugler, Johansson e Smith, 2024), entre outras relações sociopolíticas e ontológicas (e.g., diferentes cosmovisões de outros agentes sociais).

Figura 1
Publicações de todas as áreas disciplinares do nexo entre impostos e movimentos sociais (N = 417)

Para a etapa (2) do filtro, que resultou em 218 publicações, primeiramente, selecionamos as áreas (categorias da WoS) vinculadas às Ciências Sociais e campos correlatos, mas excluímos as ciências duras, econômicas, biológicas e médicas. Dessa forma, incluímos as seguintes áreas: História (N = 48); Sociologia (N = 43); Ciência Política (N = 40); Estudos Ambientais (N = 28); Ciências Ambientais (N = 22); Ciências Sociais Interdisciplinares;11 Estudos Urbanos; Questões Sociais (Social Issues); Green Sustainable Science Technology; Ciências Interdisciplinares; Estudos Internacionais e de Desenvolvimento. O segundo filtro foi aplicado ao tipo de publicação. Nesse caso, selecionamos somente artigos científicos, totalizando um N de 183 publicações. Desconsideramos, portanto, artigos de conferências, de revisão, críticas literárias e demais textos. O terceiro filtro limitou o idioma das publicações. O objetivo foi capturar produções científicas nas principais línguas das Américas (inglês, N = 157; espanhol, N = 6; francês, N = 2; e português, N = 1), resultando em um total de 166 artigos.

Na 3ª etapa, de consolidação, lemos os resumos da base filtrada (N = 166) e selecionamos aqueles que indicavam algum elemento de ação coletiva relacionada aos movimentos sociais (como protestos, organizações civis, mobilizações etc.) no nexo com a questão tributária, resultando em 62 artigos. A partir dessa base (N = 62), adentramos na etapa (4) de análise final, em que realizamos a leitura dos textos na íntegra, bem como aplicamos uma análise bibliométrica a esse corpus.

Nessa linha, realizamos uma análise quantitativa do conjunto de publicações que foi lido na íntegra para que pudéssemos avaliar a evolução da temática ao longo do tempo. Levamos em consideração nesta etapa os autores mais citados nas referências, aqueles com mais produção contemporânea e suas referências mais conectadas entre si, os centros acadêmicos e países com mais produção e os periódicos científicos mais mobilizados. Já na análise qualitativa, capturamos as principais abordagens teóricas, os métodos de investigação mobilizados por esses autores e a posição do movimento social em relação à tributação (regressiva ou progressista).

O software mobilizado foi o VOSViewer, a partir do qual o corpus foi analisado pelos critérios de: i. coocorrência de palavras-chave; ii. acoplamento bibliográfico de autores (ABA); iii. cocitação de autores (ACA); iv. cocitação de organizações (instituições dos pesquisadores); e v. relação de países aos quais os autores estão vinculados.12

3. Resultados e análises

Em linhas gerais, a produção de artigos científicos no nexo entre movimentos sociais e a questão tributária é recente, e, consequentemente, as autoras e autores emergentes nesse campo disciplinar são poucos e ainda concentrados no Norte Global, em boa medida com produções vindas de universidades estadunidenses e europeias. Identificamos quatro grupos temáticos, sendo um mais especializado no tema (movimentos climáticos) e outros que tangenciam a temática. Em relação aos desenhos metodológicos, os resultados confirmam uma tendência crescente no que tange à visibilização dos métodos e técnicas mobilizados em estudos qualitativos ou mistos; em contraste à lacuna metodológica das publicações de pesquisas brasileiras na ótica das Ciências Sociais (Szwako, Dowbor e Pereira, 2022).

Em nosso recorte, ressaltamos e apresentamos um amplo leque de instrumentos, técnicas e métodos explicitados pelos autores sobre a temática em foco. Outro ponto é a tendência da utilização de instrumentos e técnicas baseadas em algoritmos e inteligências artificiais nos estudos analisados. Adiante, apresentamos o detalhamento e considerações sobre os pontos mencionados.

3.1. Evolução da produção na linha do tempo

No que se refere à linha do tempo e ao número de artigos publicados no corpus (N = 62) (Gráfico 1), notamos uma baixa produção até 2015, seguido de um ligeiro avanço a partir de 2016.

Gráfico 1
Linha do tempo com artigos publicados

Há alguns indicativos para o aumento nos títulos e resumos dessa produção, tais como eventos políticos de repercussão internacional, como a política anti-imigrantista do governo norte-americano sob a presidência de Donald Trump (2017-2021 e 2025-2029), a saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit, 2016-2020) e a consequente corrosão das políticas de Estado de Bem-Estar Social em países europeus, aliado aos recortes de temperatura global e ao aumento das desigualdades sociais e econômicas devido aos efeitos continuados da mudança climática contemporânea (IPCC, 2023).

3.2. Palavras-chave em movimento tributário

Ao analisar a coocorrência de palavras-chave das publicações selecionadas no corpus deste artigo (Figura 2), emergem quatro grupos temáticos (clusters)13 que descrevemos a partir do conhecimento mais amplo sobre os temas.

Figura 2
Palavras-chave mais mobilizadas pelos autores no corpus analisado

O primeiro grupo (verde) emerge com os termos: “populismo” (populism), “iniquidade” (inequality), “justiça” (justice), “Estado de Bem-Estar Social” (welfare state) e alguns outros. Esse grupo está associado aos estudos de conflito sobre a redução e expansão do Estado de Bem-Estar Social e os movimentos populistas (Martinsen e Pons Rotger, 2017), que incluem grupos pró e antitaxação, a depender do que está em jogo.

O segundo grupo (laranja, roxo e amarelo),14 o mais especializado em relação à questão tributária, é puxado pelo termo “mudanças climáticas” (climate change), que se conecta aos termos taxação do carbono (carbon tax), aquecimento global (global warming), protesto (protest), líderes políticos (political leaders), políticas públicas (policy), ativismo (activism) e outros. Esse grupo remete aos estudos sobre as políticas de mudanças climáticas e governança no âmbito do aumento das desigualdades sociais diante dos efeitos tanto da mudança climática contemporânea (Dunlap e Brulle, 2015), quanto aos efeitos do capitalismo de desastre, além de estudos sobre neoliberalismo, como o aumento exponencial das iniquidades sociais (Klein, 2007; Nhemachena e Mawere, 2019). Esse tipo de aceleração da corrosão social por meio de eventos extremos climáticos impõe aos diferentes grupos da sociedade, como os movimentos sociais aqui em foco, abordagens alternativas em relação às disputas por recursos financeiros para além das lutas orçamentárias já existentes nos espaços político-fiscais. Nessa linha, se a literatura sobre mudanças climáticas nas Ciências Sociais, que também é emergente (Salmi e Fleury, 2022), visa ir além da ênfase epistemológica racional-positivista (Dunlap e Brulle, 2015; Salmi e Fleury, 2022; Brulle, Roberts e Spencer, 2024), a questão dos tributos, tanto na relação entre movimentos ambientais e climáticos, quanto nas políticas de mudanças climáticas em perspectiva multinível, também parece ganhar espaço nas Ciências Sociais.

O terceiro grupo (vermelho) se concentra em torno dos termos migração (migration) e democracia (democracy). Ele se conecta aos estudos sobre políticas urbanas e de habitação (e.g. para refugiados), rendimentos básicos (e.g. salário social), proteção social (e.g. segurança pública contra xenofobia) e outros. Esse grupo temático se conecta ao segundo grupo, especialmente em relação ao aumento dos efeitos das mudanças climáticas e suas implicações sociais, aliado às guerras por recursos que se tornam cada vez mais escassos (Marin, Dunlap e Roels, 2023; Svampa, 2023), e a ascensão das ideologias segregacionistas da ultradireita em diversos países (el-Ojeili, 2018).

O quarto e último grupo (azul) incorpora uma diversidade de termos conectados aos movimentos sociais (neoliberalismo, economia política, teorias institucionais, energias renováveis, direito à propriedade, religião etc.). Alguns desses termos podem ser associados a um ou outro grupo mencionados anteriormente. Em boa medida, essa pulverização dos termos é oriunda da emergência desse nexo entre movimentos sociais e a questão tributária nas Ciências Sociais.

3.3. Autores contemporâneos acoplados em movimento tributário (ABA)

Buscamos captar quais são os autores contemporâneos do nexo e qual a proximidade teórica ou metodológica entre eles (Figura 3) por meio de um método chamado de Acoplamento Bibliográfico de Autores (ABA), segundo o qual quanto mais referências em comum dois autores têm em suas obras, mais semelhantes são suas investigações (Grácio, 2016).

Figura 3
Autores dos Artigos em Acoplamento Bibliográfico (ABA)

No corpus, três autores possuem produções com mais de uma publicação (Figura 4): i. Isaac William Martin (Martin, 2013; Martin e Gabay, 2018; Martin, Mehrotra e Prasad, 2009), com discussões sobre os movimentos sociais e a questão tributária, sendo um estudo de caso sobre o Texas Tax Club Movement, no período entre 1924 e 1925, e outro sobre protestos tributários em vinte democracias, entre 1980 e 2010; ii. Michael Vaughan (Vaughan, 2019, 2020), com estudos comparados entre Reino Unido e Austrália na chave da justiça tributária e organizações de advocacy digital (e litigância) entre o período de 2008 e 2016; e iii. Andrew Hoffman (Hoffman e Henn, 2008; Schifeling e Hoffman, 2019), discutindo sobre redes de movimentos climáticos nos Estados Unidos e a questão da taxação do carbono no período entre 2011 e 2015. Em outras palavras, estamos aqui diante do núcleo duro de quem investiga o nexo de movimentos sociais e a questão tributária.

Nessa produção contemporânea, o sociólogo americano Isaac William Martin tem contribuído para abrir o campo da denominada Sociologia Fiscal, que tem como principal referência a obra “The New Fiscal Sociology: Taxation in comparative and historical perspective” (Martin, Mehrotra e Prasad, 2009), dedicada a Charles Tilly. Além disso, cabe ressaltar quem são os autores contemporâneos com pequena produção, ou seja, aqueles que possuem uma única publicação e que, consequentemente, não aparecem na Figura 4. Trata-se de autores relacionados a estudos de casos sobre países da América Latina e Caribe.

Destacam-se os estudos sobre a relação indireta entre a questão tributária e demandas de movimentos sociais por redistribuição no Chile (Rozas Bugueño e Maillet, 2019; Torres, 2022; Atria, Contreras e Méndez, 2023). Outros países latino-americanos, são: i. a Bolívia, em estudo realizado por uma antropóloga britânica sobre a reação do movimento indígena na tentativa do governo de transformar essa população em pagadores de impostos (Johansson, 2018); ii. México e Chile, em estudo conduzido por cientistas políticos anglo-norte-americanos sobre a relação entre reformas tributárias progressivas, movimentos sociais, organização de elites empresariais e eleições (Fairfield e Garay, 2017); e iii. a Argentina, com estudo de caso sobre as greves e os protestos na Argentina no ano de 2015 contra, entre outros motivos, a reforma tributária (Carrera, Fernández e Cotarelo, 2020).

No Brasil, capturamos um texto de Maricato (2017), que demonstrou a relação entre o levante de movimentos sociais urbanos de 2013 e os incentivos fiscais que aumentaram a deterioração da qualidade de mobilidade e acesso à moradia.

3.4. Sobre cocitação de autores (ACA)

Uma pergunta relevante feita tradicionalmente nos estudos bibliométricos é: “quais são as referências mais comuns e quando elas são citadas juntas?”. Esse critério de análise, chamado de cocitação,15 demonstra quem são os autores considerados referências-chave nos artigos publicados. A análise se dá por meio do agrupamento dessas referências em grupos epistêmicos (clusters, da análise de redes sociais) (Grácio, 2016). Nesta pesquisa, utilizamos o limite de cocitação igual ou maior do que cinco (n ≥ 5), o que significa que aparecem vinculados aqueles artigos que foram citados juntos mais do que quatro vezes (Figura 4) e suas publicações foram mobilizadas para enquadrar o objeto de estudo.

Figura 4
Autores mais cocitados nas referências

Os grupos de referências estão bem delimitados (Figura 5). O primeiro (roxo) está ancorado nos primórdios do campo das Ciências Sociais, enquanto o segundo reflete as referências renomadas da literatura, especialmente do campo de movimentos sociais contemporâneos. O agrupamento na cor roxa da Figura 5 está adensado em torno da ativista e cientista social Marie Howland (1836-1921), fundadora da Fairhope Public Library — que inclui o Fairhope Single Tax Corporation Archives — e seu companheiro Edward Howland. Esse primeiro grupo se ancora nos argumentos sobre emancipação social e um fenômeno disruptivo histórico-crítico (Single Tax Corporation) para sua época. O segundo agrupamento compreende quatro clusters. O grupo azul se refere aos estudiosos consagrados de movimentos sociais, tais como Douglas McAdam, Charles Tilly, William A. Gamson, John D. McCarthy e Theda Skocpol. Já o verde traz referências relevantes de estudos sobre o Estado de Bem-Estar Social, como Gøsta Esping-Andersen, e de sociologia econômica, como Neil Fligstein, que também produziu um livro com Douglas McAdam (Fligstein e McAdam, 2012). O terceiro grupo (vermelho) reúne autores consagrados na temática das políticas de mudança climática, como Bruce Tranter, Robert J. Brulle, Riley E. Dunlap e J. Timmons Roberts, entre outros (Dunlap e Brulle, 2015; Tranter e Booth, 2015; Brulle, Roberts e Spencer, 2024). O quarto e último grupo (amarelo) trata-se de uma multiplicidade de autores que inclui desde sociólogos clássicos, como Max Weber (1864-1920) e sua lendária obra “A ética protestante e o espírito capitalista” (Weber, 2013 [1920]) e Erving Goffman (1922-1982), até instituições como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) – Organisation for Economic Co-operation and Development, OECD em inglês – e uma das redes mais relevantes contemporaneamente sobre a questão dos tributos em suas várias escalas, a Tax Justice Network, criada em 2003.

3.5. Sobre mobilizações de referências em comum

A partir desses autores de referência, pudemos realizar uma análise das publicações mobilizadas (Figura 5) pelos autores contemporâneos.

Figura 5
Publicações de referência em comum mais citadas

Das doze obras mais citadas (n>4), oito são do campo disciplinar da teoria de movimentos sociais norte-americana (e.g. Benford, McAdam, Piven, Snow, Tarrow, Tilly), o que indica que este é o campo mais importante para os trabalhos que lidam com movimentos sociais e a questão tributária, inclusive nessa ordem de importância. Trata-se de textos também considerados clássicos nessa teoria, tais como abordagens sobre confronto político e estratégias de ação coletiva que possuem suas teorias apresentadas em obras como “Poor People's Movements: Why They Succeed, How They Fail” da socióloga e cientista política Frances Fox Piven e do sociólogo Richard A. Cloward (Piven e Cloward, 1977) e “From Mobilization to Revolution” do sociólogo e cientista político Charles Tilly (1978). Na esteira desses autores, as obras “Political process and the development of black insurgency” do sociólogo Doug McAdam (1999) e “Power in movement” do cientista político Sidney Tarrow (1998) complementam esse quadro mais clássico. Cabe ressaltar que esse cânone é uma das bases teórico-metodológicas que inspiram o fomento de novas abordagens conceituais e analíticas sobre a questão tributária no nexo com movimentos sociais.

Por fim, mas não menos relevante, as referências ao sociólogo dinamarquês Gøsta Esping-Andersen, teórico do Estado de Bem-Estar Social, têm duas obras referenciadas no corpus, quais sejam: a hipercitada16The Three Worlds of Welfare Capitalism” (Esping-Andersen, 1990) e a “Politics Against Markets” (Esping-Andersen, 1985). E, finalmente, as referências mais contemporâneas, como a do sociólogo Leonard Seabrooke e do dinamarquês Duncan Wigan com a obra “Emergent Entrepreneurs in Transnational Advocacy Networks” e análises posteriores (Seabrooke e Wigan, 2013, 2024).

3.6. Sobre instituições, países e revistas científicas

Ao analisar as instituições acadêmicas que produzem conhecimento sobre esse nexo temático, notamos uma concentração, novamente, nos países do Norte Global (Figura 6). Essas instituições de pesquisa situam-se majoritariamente nas Universidades dos Estados Unidos da América (e.g., Michigan, San Diego, Califórnia, Connecticut) e do norte da Europa (Copenhague, Estocolmo, Oxford), além da menção honrosa à produção australiana (Sidney).

Figura 6
Universidades com produção no nexo entre movimentos sociais e a questão tributária

Em boa medida, essas universidades possuem pós-graduações dedicadas ao tema da tributação, como, por exemplo, os Mestrados em Impostos (Master of Taxation) da University of Oxford e University of Sydney, bem como centros de estudos e pesquisas dedicados à questão tributária, como o Michigan Ross Office of Tax Policy Research e Oxford University Centre for Business Taxation. Além da concentração das produções nos países do Norte Global (Figura 7), há produção na América Latina e Caribe, que estão concentradas no Chile e no México. Cabe mencionar que há um estudo com foco no Brasil (Maricato, 2017), sobre a insurgência sobre os impostos oriunda das manifestações de julho de 2013.

Figura 7
Países das produções científicas

Já em relação às revistas científicas, a concentração se dá em uma revista específica, a Social Movement Studies, do Grupo Taylor & Francis (Figura 8), que condensa boa parte da produção sobre o nexo. A Social Problems, da Oxford Academic, segue como segundo espaço epistêmico de produção nesse nexo.

Figura 8
Revistas científicas que adensam o tema da questão tributária no nexo dos movimentos sociais

Em suma, seja em relação aos autores de referência mobilizados, seja relacionado aos países ou instituições que produzem sobre o nexo dos movimentos sociais e a questão tributária, os resultados reforçam a concentração histórica no locus epistêmico do Norte Global. Em outras palavras, as produções sobre a temática ainda se concentram no espaço epistêmico historicamente dominante. Ao fim, trata-se de um campo emergente, principalmente para as Ciências Sociais do Sul Global.

3.7. Estratégias metodológicas mobilizadas pelos autores no corpus

Os estudos são predominantemente qualitativos (cerca de 60%) ou mistos (qualitativo-quantitativo). Os autores mobilizam uma variedade de técnicas, como análise de reivindicações políticas (Policy Claims Analysis - PCA), análise de redes discursivas (Discursive Network Analysis - DNA), análise de enquadramentos de políticas narrativas (Narrative Policy Framework - NPF), variações da Análise de Eventos de Protestos, análise de discurso crítica (Critical Discourse Analysis - CDA), metaphorical framings (MF) e técnicas de enquadramentos em perspectiva ecolinguística, variações da Análise de Redes Sociais (ARS; SNA em inglês), como Networked Social Movement (NETSM), bem como pesquisa automatizada (uso de IAs e algoritmos para coleta de dados) com codificação humana, metodologia Q (Qualitative Comparative Analysis — QCA), triangulação de dados a partir de revisão documental e literatura secundária, utilização de covariáveis dependentes e independentes e processos de difusão, entre outras.

Diferentemente do cenário identificado em estudo da produção sobre movimentos sociais no Brasil, de que há pouca explicitação das técnicas e métodos utilizados pelos autores (Szwako, Dowbor e Araújo, 2020), a produção do corpus do presente trabalho apresenta consistentemente uma série de estratégias metodológicas. Nessa linha, destacamos o uso de duas técnicas de análise focadas em discursos e narrativas produzidos pelos atores: Policy Claims Analysis (PCA) e a Discursive Network Analysis (DNA).

Em relação aos instrumentos de análise, destacam-se os softwares NVivo (massivamente utilizado para análises qualitativas), Netdraw e Gephi (para análises de redes sociais), utilização associada a algoritmos como Force Atlas, software de coleta como Netvizz, e softwares estatísticos (análises econométricas e bases de dados geográficas para mapear os conflitos), como Stata, QSortware, Packagetopicmodels‘ e o clássico para análises quantitativas: R. Apesar das menções às estratégias metodológicas, somente 30% dos artigos mencionam o software de coleta ou de análise utilizado.

3.8. ênfase de análise nos temas pesquisados

Há duas formas teórico-analíticas recorrentes pelas quais o nexo movimentos sociais e questão tributária é abordado no corpus, que abordam, às vezes, o mesmo tema pesquisado por diferentes ângulos. A primeira diz respeito aos tipos de tática de ação de movimentos (e.g. protestos), com ênfase na dimensão da ação, e a segunda refere-se às narrativas ou aos enquadramentos, com ênfase na dimensão simbólica.

A primeira forma refere-se às táticas de confronto (e.g., protestos). Entre os artigos mais emblemáticos, ressaltamos quatro exemplos relevantes. O primeiro é o artigo “Tax policy and tax protest in 20 rich democracies, 19802010” (Martin e Gabay, 2018), no qual os autores analisam os protestos em vinte países do Norte Global. Eles buscam compreender quais impostos são os desencadeadores de mobilizações. O segundo artigo relevante é o “Oportunidades políticas del movimiento de huelga contra la reforma fiscal en Costa Rica” (Abarca, Flores e Elizondo, 2022), sobre o caso de reforma tributária e a atuação do movimento sindical em um país do Caribe. O terceiro é o caso dos jalecos amarelos na França17 contra o aumento de impostos sobre combustível no âmbito das políticas de mudança climática contemporânea (Mehleb, Kallis e Zografos, 2021; Koca, 2024). Esses três exemplos são casos que podem ser classificados como “resistências a impostos” (tax resistance), de Delalande e Huret (2013). Já o quarto e último exemplo trata de protestos de movimento estudantil, que questionavam desigualdades sociais não relacionadas à questão tributária, todavia foram aproveitados pelo governo chileno como janela de oportunidade para propor uma reforma tributária que não refletia necessariamente os anseios estudantis (Torres, 2022).

A segunda forma refere-se aos estudos de ideias tributárias considerados na chave de narrativas sociopolíticas ou de enquadramentos discursivos — essa última entendida como reivindicações políticas (policy claims). Apesar das diferenças epistemológico-metodológicas, as duas chaves analíticas se concentram nas dimensões simbólica e imaginária por meio da análise de falas e discursos dos agentes dos movimentos sociais. Ressaltamos três artigos que abordam a questão tributária por esses prismas analíticos, a maioria no nexo com movimentos climáticos e um de movimento indígena: “Carbon Reduction Activism in the UK: Lexical Creativity and Lexical Framing in the Context of Climate Change” (Nerlich e Koteyko, 2009), com destaque para a abordagem por enquadramentos na perspectiva de uma análise estruturalista; “Scale shift in international tax justice” (Vaughan, 2019), que mobiliza a técnica de political claims analysis para identificar os nexos causais entre o sistema de taxação internacional e os desdobramentos na esfera nacional; “Networked social movements and radicalisation” (Koca, 2024), que visa capturar as representações ideológicas em relação às demandas de movimentos que atuam em alianças; e, por fim, “Taxing the indigenous” (Johansson, 2018), no qual o autor compara as diferentes narrativas sobre a questão tributária dos povos originários da Bolívia e da Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos, empresa pública boliviana de petróleo.

Ainda, vale destacar os artigos que investigam a atuação de organizações da sociedade civil sem necessariamente se referir aos movimentos sociais (Vaughan, 2019, 2020). Aqui os trabalhos apontam a complexidade das questões tributárias e realçam o trabalho de organizações especializadas na temática.

4. Considerações sobre tributos em movimentos

A análise bibliométrica realizada sobre o nexo entre a questão tributária e os movimentos sociais na literatura de Ciências Sociais lança luz para essa nova agenda desde uma perspectiva sociopolítica. Trata-se de um campo de estudos promissor para as Ciências Sociais no que tange à compreensão das disputas por reconhecimento e redistribuição, e de como se dão os processos de lutas pela redução de desigualdades tributário-sociais históricas a partir dos movimentos sociais.

Os impostos têm sido estudados historicamente por economistas, e apenas mais recentemente começaram a ser abordados pelas Ciências Sociais, incluindo os dilemas ético-morais, disputas por significados, organizações da sociedade civil e cidadãos como agentes ativos na construção desses processos de construção de sentidos sobre o que é o imposto (Martin, Mehrotra e Prasad, 2009; Hakelberg e Seelkopf, 2021; Makovicky e Smith, 2023; Mugler, Johansson e Smith, 2024). Trata-se, portanto, de iniciativas que avançam em relação aos estudos que buscam compreender apenas como o imposto é percebido e/ou afeta as relações entre os cidadãos e o Estado. Uma dessas novas temáticas, ainda pouco exploradas, é o nexo entre as pautas tributárias como elemento de conflito político na ação coletiva sustentada de movimentos sociais.

Ao revisar a literatura sobre esse nexo, a análise identificou alguns pontos relevantes. O levantamento que analisou 62 artigos publicados em periódicos científicos internacionais e nacionais entre 1979 e 2024, utilizando a base Web of Science, demonstrou uma baixa frequência de publicações até 2015, com um ligeiro avanço a partir de 2016, reforçando o quão emergente é ainda essa discussão sobre impostos e movimentos sociais. A produção recente tem sua raiz comum na teoria de movimentos sociais estadunidense, sendo que oito das doze obras mais citadas pertencem a esse campo disciplinar, com destaque para autores clássicos como Charles Tilly, Sidney Tarrow, Douglas McAdam e Theda Skocpol.18 Já os autores contemporâneos que mais produzem nesse nexo incluem Isaac William Martin, Michael Vaughan e Andrew Hoffman.

Vale também realçar a riqueza das técnicas de coleta e análise (e.g. PCA, DNA, NPF, CDA, ARS, NETSM, QCA). Entre os temas e ângulos mais estudados estão protestos, disputas ideológicas e narrativas por imaginários entre liberdade e Estado de Bem-Estar Social em contextos de populismo, extremismo e até resistências de Estados democráticos, políticas tributárias sobre moradia, migração e mobilidade urbana até taxação de carbono, corporações poluidoras e ultrarricos no âmbito das políticas climáticas em suas múltiplas escalas (local, nacional e transnacional). A análise revelou que a produção acadêmica identificada se concentra majoritariamente no Norte Global, com universidades dos Estados Unidos e da Europa liderando as publicações, reforçando um locus epistêmico dominante.

Nesse sentido, a revisão permitiu identificar que o tributo pode ser abordado como ideia-força, narrativa, imaginário e instrumento político em disputa. Nesta revisão, identificamos que os impostos fazem parte de um arranjo sociotécnico muito mais complexo do que a sua função estritamente econômica. Os impostos são objetos de conflitos sociais, não apenas como ação em termos de resistência aos mesmos (tax resistance), mas também são entendidos por alguns estudos como signos que atuam como elementos de produção de futuros imaginados desejáveis alternativos, imaginários esses que visam subverter as desigualdades sociais existentes e podem ser catalisadores de demandas sociais, além de impulsionadores de mudanças sociais estruturantes e estruturais, remodelando infraestruturas e instituições até então estáveis.

Os achados deste artigo podem servir como porta de entrada para novas pesquisas e mesmo para uma nova agenda brasileira que vise indagar como os movimentos constroem seus imaginários, narrativas e demandas por mudanças estruturais e proposição de novos mundos. Trata-se de compreender como suas propostas tributárias e concepções sobre impostos são construídas, desdobradas e entrelaçadas no plano sociopolítico nessas diferentes dimensões.

O mapeamento demonstrou uma lacuna na agenda de pesquisa de movimentos sociais. Entre os temas, podemos destacar: (i) se e como os movimentos sociais progressistas que lutam pelas políticas sociais abordam a questão tributária em termos de argumentos, lógicas, narrativas e demandas de amplo espectro; (ii) estudos sobre os diferentes arranjos sociotécnicos por meio de apropriações tecnológicas como ciberativismo e plataformismo digital e, nesse sentido, como apresentam novos nexos relacionais, reordenam infraestruturas tributárias e instituições de taxação; (iii) abordagens que visam capturar como os movimentos descomplexificam e desmistificam a linguagem hermética dos economistas, criam novos imaginários tributários no plano simbólico e, nesse sentido, coproduzem novos futuros tributários imaginados. Esses temas, entre outros, ainda não foram objeto de pesquisa, ao menos na literatura contemporânea em recorte.

Entre as possibilidades de investigações, também vislumbramos as interações entre movimentos, Estado e corporações, para além dos pressupostos estadocêntricos (sociedade-Estado), com foco não só nos repertórios de interação de modo a entender as possibilidades de incidência, especialmente frente ao poderoso lobby empresarial, mas também na ênfase nas infraestruturas e outros agenciamentos sociotécnicos, como as mídias sociais e seus efeitos na questão tributária. Nessa linha, diante de pautas políticas que se sobrepõem, buscar compreender como se dão as alianças e coalizões entre diferentes tipos de organizações e movimentos sociais também é um desafio contemporâneo. A injustiça tributária é um traço do sistema brasileiro, mas também se expressa de formas particulares em diversos setores. Assim, novas pesquisas podem estar mais atentas às particularidades de lutas de cada movimento podendo trazer novos enfoques em termos de origens e destinos tributários e, consequentemente, de mudanças no campo teórico-metodológico de políticas públicas e seus efeitos práticos para a vida das pessoas..

Outra frente de novas pesquisas ainda pode analisar a questão tributária pelo prisma das Instituições Participativas (IP), por exemplo, buscando entender quais espaços políticos são mobilizados e como os agentes sociais se organizam para influenciar e democratizar o debate público sobre o sistema tributário e consequentemente produzir mudanças sociais estruturantes.

Essa nova agenda de pesquisa pode ainda se somar aos demais ângulos teóricos e metodológicos da análise da questão tributária por meio dos aportes das Ciências Sociais produzidas a partir do Brasil (Antropologia, Ciência Política e Sociologia) e dos Estudos Sociais da Ciência e da Tecnologia (ESCT) e dos Estudos Políticos da Ciência e da Tecnologia (EPCT) em perspectiva latino-americana (Invernizzi e Rodriguez Medina, 2025). Trata-se de uma agenda a ser disputada, talvez, em uma abordagem interdisciplinar de modo a realçar os impostos como objeto sociopolítico e não apenas econômico — apesar das óbvias implicações desse último.

Por fim, constatamos que existe nitidamente um espaço epistêmico-político a ser disputado e compreendido por cientistas sociais na América Latina e Caribe, em particular, no Brasil, um dos países com os maiores níveis de desigualdade social do mundo, marcado pelo avanço brutal da regressividade do sistema tributário brasileiro.

Declaração de uso de IA

Não foram mobilizados instrumentos de inteligência artificial generativa no presente trabalho.

  • Declaração de disponibilidade dos dados
    Os dados primários desta pesquisa estão disponíveis em repositório. DOI
  • Financiamento
    Monika Dowbor agradece aos fomentos do CNPq e INCT Participa (Processo: 406630/2022-4), além da Bolsa de Produtividade em Pesquisa — PQ (Chamada CNPq Nº 09/2023) e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul – FAPERGS (25/2551-0000889-1). Frederico Salmi e Francioli Bagatin agradecem à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pelas bolsas de doutorado.
  • 1
    Este trabalho é fruto de uma das frentes do projeto de pesquisa em andamento intitulado “Movimentos sociais progressistas e a questão tributária: elo perdido?”, iniciado em 2024 e liderado por Monika Dowbor. Os pesquisadores Monika Dowbor, Frederico Salmi, Gustavo M. de Oliveira e Francioli Bagatin são membros do INCT Participa (Processo: 406630/2022-4). As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a visão do CNPq, a quem agradecemos. Agradecemos também a pesquisadora Roberta Resende (Universidade Federal da Bahia — UFBA; Instituto Brasileiro de Museus — Ibram) pela participação no estágio da estruturação do banco para a organização e coleta inicial dos dados bibliométricos.
  • 2
    Conferir também a Figura 1 neste artigo.
  • 3
    Em inglês: Fiscal Sociology, Anthropology of Tax, Politics of Taxation. Cabe ressaltar que há variações em relação às acepções dos termos (e.g., fiscal, taxes) em inglês, espanhol e português. Em inglês, taxes está relacionado à questão dos tributos, que inclui impostos, taxas e contribuições. Ainda em inglês, ambos os termos (fiscal, taxes) às vezes são utilizados como similares, o que não ocorre na língua portuguesa, nem espanhola. Em português, por exemplo, o fiscal refere-se ao sistema que inclui tanto os processos de arrecadação (e.g., coleta de tributos, receitas de serviços públicos, dividendos de empresas estatais), quanto de destinação (e.g., orçamentos públicos, fundos de reserva, fundos de garantia).
  • 4
    Para a questão do nexo entre guerras, Estado e a questão tributária, ver especialmente Tilly (1985) e Emmenegger e Walter (2021).
  • 5
    A lista é longa e há até revoltas em torno de tributos durante a Dinastia Han, na ásia (25-220 d.C.), para citar um exemplo longínquo. Cf. outros casos históricos de revoltas tributárias em Burg (2004).
  • 6
    Cabe ressaltar que os estudos sobre movimentos sociais ganharam outras perspectivas a partir da transição democrática, iniciada nos anos de 1980 e consolidada na nova Constituição brasileira de 1988 (e.g., interações socioestatais), e na década de 2000 após os eventos de junho de 2013 (e.g., novos ativismos como ativismos digitais e ativismos em rede).
  • 7
    Detalhes na lei complementar de 1996 que incorpora tal aberração tributária no país (Brasil, 1996).
  • 8
    A taxação de “grandes fortunas” é preceito constitucional previsto no art. 153, inciso VIII da CF88, e ainda não foi regulamentada (Brasil, 1988; Garcia, 2024).
  • 9
    Redistribuição nos termos de Fraser e reconhecimento nos termos de Honneth (Fraser e Honneth, 2003). O cenário brasileiro aponta para o argumento de Fraser, qual seja, de que a desigualdade social só pode ser reduzida por meio da redistribuição material, e não pelo simples reconhecimento, principalmente discursivo, mobilizado pela lógica neoliberal, incluindo os movimentos reacionários de grupos de ultradireita no Brasil.
  • 10
    A base Scopus foi consultada, porém, resultou em 116 publicações (dentre elas, artigos, artigos de conferências, revisões, livros, capítulos de livros e outros), sendo apenas 70 artigos. A base SciELOScientific Electronic Library Online também foi consultada, mas retornou somente 47 publicações. Essa foi uma das razões pelas quais optamos pela base Web of Science, Coleção Principal, que resultou em um quantitativo de 417 publicações, ou seja, mais do que o triplo de publicações em relação à base Scopus e quase dez vez mais do que a base SciELO — além de serem publicações já existentes na base Web of Science.
  • 11
    As demais áreas tiveram menos de vinte publicações, conforme mostra a Figura 1.
  • 12
    Sobre ABA e ACA. A análise bibliográfica de autores (ABA) é a relação entre duas ou mais publicações que referenciam pelo menos uma publicação (referência) em comum e parte da premissa de que “se dois artigos apresentam bibliografias similares, há uma relação implícita entre eles” (Grácio, 2016, p. 85). A ABA visa analisar a proximidade teórica, metodológica ou empírica compartilhada entre autores. Já a análise de cocitação de autores (ACA) é baseada na frequência na qual as publicações do(s) mesmo(s) autor(es) são citadas juntas. A ACA visa identificar a “rede de associações, influência e impacto da produção do conhecimento em uma comunidade científica” (Grácio, 2016, p. 89).
  • 13
    No VOSViewer, neste caso, as cores indicam diferentes grupos correlacionados (clusters) a partir do critério de frequência de coocorrência. Como definimos a frequência de ocorrência maior ou igual a duas menções no mesmo conjunto de palavras-chave, o software ignora quando aparece uma vez, então a dimensão do círculo corresponde ao número de vezes que a palavra é citada (n ≥ 2).
  • 14
    Ao analisar os clusters agrupados pelo VOSViewer, observamos que esses três grupos (laranja, roxo e amarelo) têm palavras-chave correlatas, como climate change (amarelo), global warming (roxo) e climate justice (laranja). Essas publicações se consolidam em um grupo relacionado às mudanças climáticas (amarelo).
  • 15
    Henry Small propôs, em 1973, uma forma de analisar a ligação entre dois documentos, baseada no estudo da frequência com que esses documentos são citados juntos. Denominou essa forma de coocorrência de dois documentos na literatura de cocitação.
  • 16
    A título de comparação, uma pesquisa realizada no Google Acadêmico (a posição desta citação é de 01 dez. 2025) retornou que a obra de Esping-Andersen já foi citada mais do que 47.000 vezes, enquanto as de outros autores clássicos citados anteriormente estão na ordem entre 10.000 e 20.000.
  • 17
    Termo “gilets jaunes” em francês, utilizado com frequência e associado ao movimento climático e trabalhista simultaneamente.
  • 18
    Entendemos como clássicos, autores e obras reconhecidas amplamente dentro de um campo epistêmico específico. Nesse sentido, os clássicos incluem desde cientistas sociais considerados fundadores da Sociologia, como Max Weber (1864-1920), até pesquisadores que atualmente são referências de um campo disciplinar-temático, aqui entendidos como cânone contemporâneo dos estudos de movimentos sociais, composto por teóricos seminais como Charles Tilly (1929-2008), Sidney Tarrow (1938-), Theda Skocpol (1947-) e Douglas McAdam (1951-).

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Disponibilidade de dados

Os dados primários desta pesquisa estão disponíveis em repositório. DOI

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    18 Dez 2025
  • Aceito
    04 Maio 2026
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