Resumo:
Este artigo examina as diversas manifestações do ativismo no futebol brasileiro, com foco em atores que constroem e reivindicam identidades relacionadas a este esporte, incluindo torcedores, atletas e profissionais da mídia. Primeiramente, desenvolvemos um quadro conceitual para definição do “ativismo no futebol”, situando-o dentro de debates mais amplos sobre ativismo. Em seguida, com base em uma revisão de estado da arte da literatura complementada por fontes jornalísticas, mapeamos as múltiplas expressões do ativismo no futebol brasileiro e propomos uma tipologia com quatro categorias: (1) ativismos de torcidas organizadas; (2) torcidas e torcedores ativistas; (3) ativismos de atletas; e (4) ativismos de mídia. Essa tipologia, focada nas identidades dos atores e em seus formatos organizativos, captura um amplo espectro de práticas ativistas, desde protestos em estádios e campanhas de solidariedade até a formação de ligas independentes e a produção de mídia alternativa. O artigo contribui para a literatura sobre o tema ao sistematizar essas diversas experiências em uma tipologia, bem como ao estabelecer conexões entre fenômenos que têm sido analisados de forma dispersa a partir do conceito de “ativismos no futebol”.
Palavras-chave
futebol; ativismo; torcidas; atletas de futebol; jornalismo esportivo
Abstract:
This article examines the diverse manifestations of activism in Brazilian football, focusing on actors who construct and claim identities related to the sport, including supporters, athletes, and media professionals. First, we develop a conceptual framework for defining "football activism", situating it within broader debates on activism. Then, based on a state-of-the-art literature review complemented by journalistic sources, we map the multiple expressions of activism in Brazilian football and propose a typology comprising four categories: (1) organized supporters' activisms; (2) activist supporters and fan groups; (3) athletes' activisms; and (4) media activisms. This typology, centered on actors' identities and their organizational formats, captures a broad spectrum of activist practices, ranging from stadium protests and solidarity campaigns to the formation of independent leagues and alternative media production. The article contributes to the literature on the subject by systematizing these diverse experiences into a typology, as well as by establishing connections among phenomena that have been analyzed in a dispersed manner through the concept of “activisms in football”.
Keywords
football; activism; supporters; footballers; sports journalism
1. Introdução1
Futebol e política se entrelaçam de múltiplas maneiras e em diversas regiões do mundo. No Brasil, país popularmente conhecido como “o país do futebol”, não poderia ser diferente. Exemplos históricos incluem o uso, pelo regime ditatorial, da vitória brasileira na Copa do Mundo de 1970, a mobilização de jogadores em defesa da redemocratização na década de 1980 e, mais recentemente, os protestos contra a realização da Copa do Mundo da FIFA de 2014 no país.
Ainda que os entrelaçamentos entre futebol e política envolvam fenômenos múltiplos, neste artigo, nosso interesse recai sobre um fenômeno mais específico: as formas de ativismo protagonizadas por atores vinculados ao futebol. A produção acadêmica brasileira sobre ativismos no futebol é bastante expressiva, mas permanece marcada por forte dispersão entre debates que se aglutinam em torno de determinados tipos de ativismo (de torcedores, de atletas, de ligas amadoras etc.) ou causas ativistas (antirracistas, pela igualdade de gênero, LGBTQIA+ etc.), frequentemente tratados de forma isolada entre si. Esses estudos avançaram em direção à compreensão de como diferentes atores se mobilizam politicamente nesse campo, porém ainda sem uma estrutura conceitual capaz de integrar essas contribuições em um marco analítico coeso, bem como sem uma tipologia capaz de delimitar as aproximações e distanciamentos entre esses fenômenos.
é diante dessa lacuna que o presente artigo busca contribuir para o debate sobre o tema. Em primeiro lugar, propomos uma delimitação conceitual para os “ativismos no futebol”, que dialoga com categorias consolidadas nos estudos sobre ativismo, oferecendo um vocabulário analítico comum capaz de conectar pesquisas que tratam de fenômenos, muitas vezes, examinados de modo separado. Em segundo lugar, sistematizamos o próprio campo empírico, mapeando as diferentes formas de ativismo presentes no futebol brasileiro, desde torcidas organizadas e coletivos de arquibancada até campanhas de atletas e mídias independentes. Por fim, propomos uma tipologia que sistematiza essas modalidades de ativismo a partir das identidades dos atores e de seus formatos organizativos, contribuindo para que a agenda de pesquisa brasileira possa avançar a partir de um quadro unificado que facilite comparações, acumulação teórica e diálogo interdisciplinar.
Para isso, partimos de uma revisão de estado da arte2 (Grant e Booth, 2009) da literatura brasileira sobre ativismos no futebol brasileiro, realizada entre o segundo semestre de 2024 e o primeiro semestre de 2025. Iniciamos nossa revisão através de buscas3 no repositório Ludopédio,4 portal da internet com foco na divulgação científica sobre futebol, bem como nos currículos de membros do INCT Futebol, rede de pesquisadores brasileiros que estudam o tema. A partir desse levantamento inicial, desenhamos uma primeira proposta de tipologia e efetuamos buscas adicionais sobre a literatura nacional e internacional relacionada aos tipos de ativismo identificados na plataforma Google Acadêmico. à medida que a análise avançava, também incorporamos dados empíricos de fontes jornalísticas para esclarecer casos que receberam pouca atenção acadêmica, como os ativismos de mídia. A tipologia foi refinada iterativamente ao longo desse processo de revisão ampliada, resultando na proposta final aqui apresentada. Consequentemente, este artigo não oferece uma revisão sistemática e exaustiva da literatura sobre ativismos no futebol brasileiro, mas, antes, parte de uma revisão de estado da arte para oferecer um mapeamento geral, uma definição conceitual e uma tipologia para esse fenômeno.
O artigo está organizado da seguinte maneira: primeiramente, partindo de um diálogo com estudos sobre ativismos, propomos uma delimitação conceitual do que concebemos como “ativismos no futebol”. A seguir, apresentamos o mapeamento empreendido e a tipologia proposta em quatro subseções: a) ativismos de torcidas organizadas; b) torcidas e torcedores ativistas; c) ativismos de atletas; e d) ativismos de mídia.5 Por fim, nas considerações finais, sintetizamos nossas principais contribuições.
2. Ativismos no futebol: delimitando o fenômeno
Nesta seção, propomos uma definição de “ativismos no futebol” em diálogo com estudos sobre ativismos. Em linhas gerais, observamos uma escassez de esforços sistemáticos para uma definição precisa do conceito de “ativismo” que contrasta com seu uso recorrente na literatura. Partimos aqui da análise de alguns estudos internacionais e nacionais que, opondo-se a essa tendência, têm refletido conceitualmente sobre o fenômeno (Apêndice 1).
A literatura internacional revisada converge em torno da noção de que o ativismo envolve a ação intencional em torno de um objeto de disputa. Em Saunders (2013, p. 1), por exemplo, o ativismo aparece como ação empreendida para “contestar algum elemento existente do sistema social ou político”.6 Já para Anderson e Herr (2007, p. 19), o ativismo é a “ação em prol de uma causa”.7 De forma semelhante, Joyce (2014, p. 27) sugere que o ativismo busca “alterar ou impedir mudanças no status quo para proteger o bem-estar de um sujeito em situação de desvantagem”.8 Apesar das variações, todas essas definições compartilham a noção de que o ativismo se estrutura em torno de um objeto em disputa, seja um sistema social e político, uma causa ou o status quo.
Por outro lado, há tensões importantes quanto a dois outros aspectos do ativismo. A primeira diz respeito ao seu caráter coletivo ou individual. Enquanto a definição de Saunders (2013) associa o ativismo aos movimentos sociais, sugerindo, assim, que esse tipo de ação pode ser apenas adotado coletivamente, Joyce (2014) e Anderson e Herr (2007) referem-se tanto a ações individuais quanto coletivas. O segundo ponto de tensão relaciona-se à necessidade de o ativismo assumir formas não convencionais de ação. Anderson e Herr (2007, p. 19) são enfáticos ao definir o ativismo como algo que “vai além do convencional ou da rotina”, pressupondo que esse tipo de ação não envolve a mobilização dos canais institucionais formais. Pelo contrário, Joyce (2014) e Saunders (2013) incluem em suas definições formas convencionais de ação.
Recentemente, a literatura brasileira tem refletido conceitualmente sobre a definição de “ativismo” na tentativa de qualificar diferentes formas de ativismo, como é o caso do ativismo institucional (Abers, 2021), digital (von Bülow, Gobbi e Dias, 2022), sócio-partidário (Almeida, 2026) e alimentar (Schubert, Portilho e Motta, 2026), para citar alguns exemplos. Em comum, esses trabalhos mobilizam o conceito de ativismo em busca de uma alternativa ao conceito mais específico e exigente de “movimentos sociais”, buscando identificar modos de mobilização e contestação que não se limitam à forma “movimento social”, uma tendência mais ampla na agenda brasileira recente sobre o tema (Pereira e Silva, 2022).9
Os trabalhos que apresentam uma definição clara para o conceito (Abers, 2021; Almeida, 2026; von Bülow, Gobbi e Dias, 2022) convergem ao definir o ativismo a partir da defesa de uma causa contenciosa. Para definir o que é uma “causa contenciosa”, tais estudos partem do diálogo com a perspectiva da contentious politics, para a qual “o conflito envolve a proposição de demandas que afetam os interesses de terceiros” (Tilly e Tarrow, 2015, p. 7). Abers (2021, p. 27) propõe uma definição mais restrita, sugerindo que uma causa contenciosa é aquela que envolve a “defesa ou crítica de mudanças nas instituições que organizam as relações de poder na sociedade”. Baseando-nos na definição da autora, mas ampliando-a para além da dimensão institucional, tomamos as causas contenciosas como aquelas que envolvem a defesa ou a oposição a mudanças nas relações de poder e desigualdade que estruturam a sociedade.10
As definições nacionais do conceito apresentam, ainda, outros pontos de convergência e divergências. Por um lado, por estarem inseridas em uma agenda mais ampla que têm questionado a dicotomia entre ação institucional e extrainstitucional (Silva e Oliveira, 2011; Abers, Serafim e Tatagiba, 2014; Gurza Lavalle et al., 2019), essas definições compartilham a inclusão de formas de ação convencionais no escopo do conceito de “ativismo”. Por outro, apresentam discordâncias sobre a inclusão de formas individuais de ação coletiva. Para Abers (2021, p. 31), o ativismo é a “ação coletiva em prol de causas contenciosas”. Contudo, outras autoras têm incluído formas individuais de ação na definição do conceito (Almeida, 2026; Schubert, Portilho e Motta, 2026; von Bülow, Gobbi e Dias, 2022). Tais estudos têm criticado a dicotomia entre a ação individual e a ação coletiva ao argumentar que um mesmo ator pode agir concomitantemente de forma individual e coletiva na defesa de causas contenciosas. Também sugerem que a ação individual não deve ser lida a partir de uma ótica atomizada, mas, antes, a partir de um pressuposto que considere que a ação está inserida em um contexto relacional e que seu sentido intersubjetivo se constrói “com, contra ou em interação com outros indivíduos ou coletivos” (von Bülow; Gobbi e Dias, 2022, p. 314).
A partir desse debate, definimos aqui o ativismo como a ação orientada para defesa de causas contenciosas. Incluímos, nessa definição, formas individuais de ação de modo a abarcar a amplitude do fenômeno em nosso estudo. Contudo, mantemos em nossa tipologia uma divisão entre formas individuais e coletivas de ação, partindo do pressuposto de que a ação coletiva está permeada por dinâmicas, lógicas e dilemas distintos da ação individual, mesmo quando essa é pensada relacionalmente. Conforme a revisão aqui empreendida irá demonstrar, as causas contenciosas no futebol são múltiplas, envolvendo demandas como as de: torcedores aos clubes por ingressos mais baratos para acesso às arenas; atletas negros às confederações de futebol por punições mais duras contra atos de racismo; jornalistas mulheres a seus empregadores por maiores espaços na mídia esportiva; entre outras.
Uma vez definido o conceito de ativismo, cabe definirmos a especificidade dos ativismos no futebol. Aqui é possível partir de uma distinção entre o que entendemos por “ativismos no futebol” em contraste com os “ativismos sobre futebol”. Definimos os ativismos sobre futebol como aqueles que compreendem causas relacionadas ao esporte, mesmo quando defendidas por atores não diretamente relacionados ao esporte. Já o ativismo no futebol é definido como aquele realizado a partir de identidades sociais e coletivas construídas em torno desse esporte. Identidades sociais são as “identidades atribuídas ou imputadas aos outros em uma tentativa de situá-los no espaço social”11 (Snow e Corrigall-Brown, 2015, p. 174), como, no caso do futebol, as de “atleta”, “árbitro” ou “torcedor”. Já as identidades coletivas são “constituídas por um sentido de ‘nós’ e de ‘agência coletiva’” (p. 175), mesmo que esse sentido de agência coletiva esteja implícito, como as de “torcedor da Gaviões da Fiel” ou de “atleta feminista” no caso do futebol.12 Em qualquer um dos casos não tomamos as identidades como atributos inerentes dos sujeitos, vendo-as como processualmente construídas e situacionalmente reivindicadas e/ou atribuídas. Nesse sentido, utilizamos a ideia de ação a partir de identidades uma vez que um mesmo sujeito pode reivindicar identidades relacionadas ao futebol em certos momentos e, em outros, não. é a ação que ocorre no contexto de tal reivindicação que está no escopo de nossa definição.
Por vezes, os ativismos no futebol não se limitam a questões sobre futebol. Em meio à pandemia de Covid-19 no Brasil, por exemplo, torcidas antifascistas, setores progressistas de torcidas organizadas e coletivos ativistas13 se mobilizaram para contestar a postura negacionista adotada pelo governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro, defendendo a vacinação e as políticas de distanciamento social. Da mesma forma, ativismos sobre futebol nem sempre envolvem apenas atores que reivindicam identidades vinculadas ao esporte, como nos protestos em torno da realização da Copa do Mundo de futebol masculino de 2014 no país. Ambos os fenômenos – o ativismo no futebol e sobre futebol – são relevantes e comumente se sobrepõem. Contudo, neste artigo, nos limitamos à análise do ativismo no futebol, que pode ser agora finalmente definido como a ação orientada pela defesa de causas contenciosas a partir de identidades que são construídas com referência à sua relação com este esporte.
3. Ativismos no futebol brasileiro: panorama geral e tipologia
Nas próximas subseções, apresentamos as diversas facetas dos ativismos no futebol brasileiro, sistematizando-as em uma proposta tipológica. Uma tipologia dos ativismos no futebol poderia classificá-los de acordo com diversas de suas características: suas causas, seus repertórios, suas arenas de ação, entre outras. Neste artigo, propomos uma tipologia focada nos tipos de atores, baseadas nas identidades vinculadas ao futebol que são mobilizadas e reivindicadas em suas práticas ativistas (torcedor, jogador, jornalista etc.) e em suas formas organizativas (torcidas organizadas, coletivos, clubes, redes etc.). A seguir, abordamos a) os ativismos de torcidas organizadas, b) as torcidas e os torcedores ativistas; c) os ativismos de atletas e d) os ativismos de mídia. Em cada uma delas, apresentamos ainda subtipos de ativismo para maior precisão da tipologia, bem como exemplos empíricos extraídos da revisão do estado da arte. A Figura 1 sintetiza nossa proposta tipológica.
3.1. Ativismos de torcidas organizadas
A literatura internacional tem reconhecido amplamente o fenômeno do ativismo dos torcedores de futebol, embora tenha se concentrado principalmente em casos europeus. Historicamente marginalizados da governança formal do futebol, os torcedores se mobilizaram para defender seus interesses comuns, fazendo reivindicações aos clubes, federações e governos. Além de questões específicas do esporte, eles têm se envolvido cada vez mais em um ativismo sociopolítico mais amplo, como o combate à discriminação e a abordagem de problemas como a fome e a desigualdade. O ativismo dos torcedores de futebol abrange todo o espectro político, desde movimentos antifascistas até grupos de extrema-direita, cada um exibindo características moldadas por seus contextos nacionais e regionais. O ativismo dos torcedores de futebol também tem sido mobilizado por meio de diversos repertórios de ação e em múltiplas arenas, incluindo a exibição de faixas em estádios, a organização de protestos de rua e a realização de iniciativas de solidariedade, como a distribuição de alimentos em comunidades vulneráveis (Brandt, Krugliak e Warnecke, 2024; Fitzpatrick e Hoey, 2022; García e Zheng, 2017; Hodges e Brentin, 2018; Numerato, 2015, 2018; Rookwood e Hoey, 2024). No caso brasileiro, dividimos as experiências de ativismo dos torcedores em dois grandes grupos: a) ativismos de torcidas organizadas; e b) e torcedores ativistas. Nesta subseção, focamos no primeiro grupo.
As torcidas organizadas (TOs) são uma forma popular de organização de grupos de torcedores no Brasil, com possíveis paralelos com as barras bravas de outros países latino-americanos e com os ultras europeus. Elas são caracterizadas por sua estrutura organizacional altamente formalizada, registrada e reconhecida pelos clubes, bem como por suas formas particulares de ação dentro dos estádios, marcadas pelo canto de hinos, pelo uso de coreografias, uniformes próprios da torcida e de adereços como bandeirões e faixas (trapos). Precedidas pelas chamadas “charangas” nas décadas de 1950 e 1970, as torcidas organizadas surgiram em uma “segunda onda” de organizações de torcedores de futebol brasileiro nas décadas de 1970 e 1980, impulsionadas principalmente pela difusão das “torcidas jovens” (Caldas, Andrade e Souza Junior, 2022; Pinheiro, 2021). Neste trabalho, também incluímos nessa categoria as barras bravas que surgiram em uma “terceira onda” de organização de torcedores na década de 2000 e que se diferenciam das torcidas organizadas por adotarem performances mais influenciadas pelos grupos de torcedores argentinos (Paes Lopes e Cordeiro, 2009; Pinheiro, 2021).
Na maioria dos casos, as TOs não constroem suas identidades associadas de forma direta a uma causa (como o antirracismo ou feminismo) ou a um posicionamento político (como antifascismo ou comunismo). Em vez disso, sua identidade está enraizada principalmente na fidelidade aos seus clubes. Isso contrasta com as torcidas ativistas, cuja identidade central inclui a defesa de causas contenciosas, uma “quarta onda” de grupos de torcedores (Pinheiro, 2021), como veremos na próxima subseção. Embora suas atividades típicas sejam em grande parte não conflituosas, a literatura mostra que as TOs podem se envolver e se envolvem em práticas ativistas em alguns casos. Para maior clareza analítica, esta subseção divide o ativismo das torcidas organizadas em dois subtipos: i) organizações e redes de torcidas organizadas e ii) ativismo esporádico das torcidas organizadas. O Quadro 1 sistematiza esses subtipos.
No que se refere ao primeiro desses subtipos, as primeiras organizações formais de TOs emergiram na década de 1970, no contexto de ditadura civil-militar no Brasil. Um exemplo pioneiro foi a Associação das Torcidas Organizadas do Estado de São Paulo (ATOESP). Sua formação foi inicialmente motivada por reivindicações sobre a segurança nos estádios. A associação propôs regras de convivência entre torcidas organizadas rivais e exigiu um tratamento mais justo da Polícia Militar. As atividades da ATOESP também se estenderam além dos assuntos internos dos grupos de torcedores, incluindo a mobilização contra medidas impostas pela Federação Paulista de Futebol, como aumentos no preço dos ingressos e mudanças nos calendários das competições. No entanto, o agravamento das rivalidades e dos conflitos com a polícia acabou levando ao colapso do pacto de não agressão entre as torcidas e à dissolução da entidade em 1983 (Hollanda e Canale, 2021; Canale, 2022).
Um processo semelhante ocorreu no estado do Rio de Janeiro com a criação, em 1981, da Associação das Torcidas Organizadas do Rio de Janeiro (ASTORJ). Essa organização buscava institucionalizar a relação entre as TOs do estado e influenciar as políticas do futebol. Embora a ASTORJ tenha sido dissolvida no início da década de 1990 devido ao agravamento das rivalidades, ela serviu de referência para a posterior formação da Federação das Torcidas Organizadas do Rio de Janeiro (FTORJ) em 2008. Surgindo em um contexto marcado pela globalização do esporte (Giulianotti e Robertson, 2009), a FTORJ tornou-se uma crítica ferrenha do marco regulatório estabelecido pela Lei do Estatuto do Torcedor de 2003. A organização argumentou que o estatuto provavelmente aumentaria a criminalização das torcidas organizadas, grupos já sujeitos a dura repressão policial e estigmatizados pela violência, e aceleraria a elitização do futebol por meio de novas regulamentações para os estádios (Hollanda e Canale, 2021; Hollanda e Teixeira, 2017; Teixeira e Hollanda, 2016).
O sucesso da FTORJ inspirou a criação da Associação Nacional das Torcidas Organizadas do Brasil (ANATORG), em 2014, em um seminário organizado pelo Ministério dos Esportes durante o governo de Dilma Rousseff (Partido dos Trabalhadores - PT). A ANATORG representa os interesses das torcidas organizadas junto a autoridades públicas e entidades do futebol, abordando questões como a violência policial e a elitização dos estádios (Hollanda e Teixeira, 2017). Recentemente, também se envolveu em questões políticas mais amplas, como quando a rede apoiou a mobilização de seus membros em defesa das instituições democráticas contra os apoiadores da extrema-direita de Jair Bolsonaro, que contestavam a eleição de Lula (PT), em 2022 (Medeiros, Lopes e Teixeira, 2025).
Os exemplos anteriores demonstram que as TOs institucionalizaram formas de ação duradouras ao longo do tempo, criando organizações e redes formais. No entanto, esses mesmos grupos de torcedores também se caracterizam por formas mais esporádicas de ação política que respondem a eventos e contextos políticos específicos, o segundo subtipo de ativismo de TOs. A ascensão da extrema-direita no Brasil, especialmente desde a eleição de Jair Bolsonaro, tem sido um alvo importante para ações desse tipo. Durante o processo eleitoral de 2018, por exemplo, a Torcida Jovem do Santos (Santos FC) e a Gaviões da Fiel (Corinthians) divulgaram declarações públicas contra a candidatura de Jair Bolsonaro, argumentando que seu projeto político era incompatível com as origens populares e progressistas da organização (Gaviões reafirma repulsa..., 2018). No mesmo ano, torcidas organizadas como a Máfia Azul (Cruzeiro) e os Gaviões da Fiel assinaram um manifesto em apoio à candidatura de Fernando Haddad (PT) (Máfia Azul..., 2018).
Entre 2020 e 2022, confrontando as ações negacionistas do governo Bolsonaro em relação à pandemia da Covid-19, várias TOs se manifestaram conjuntamente pedindo o impeachment do presidente, incluindo os rivais Gaviões da Fiel (Corinthians) e Mancha Verde (Palmeiras) (Oliveira, 2021). Mais tarde, durante as eleições presidenciais de 2022, a Galoucura (Atlético Mineiro) realizou ações diretas contra os bloqueios de rodovias erguidos por apoiadores de Bolsonaro que rejeitaram os resultados das eleições. Autodenominando-se “tropa fura-bloqueio”, sua justificativa misturava interesse próprio, garantir a livre passagem para os jogos do campeonato, com uma defesa de princípios da democracia (Pedra, 2022).
3.2. Torcidas e torcedores ativistas
Enquanto as TOs, em geral, não constroem suas identidades associando-as a uma causa contenciosa, atribuímos o rótulo de “ativista” àquelas torcidas, coletivos, organizações, redes ou até mesmo torcedores individuais que articulam explicitamente a defesa de causas contenciosas como um elemento fundamental e definidor de suas identidades. Embora a literatura internacional tenha abordado o ativismo de torcedores de forma mais ampla, tem-se dado pouca atenção específica a esse fenômeno distinto, que é explorado mais extensivamente na literatura brasileira. Com base na literatura nacional, organizamos as torcidas e os torcedores ativistas em quatro subtipos: i) torcidas ativistas; ii) coletivos e organizações ativistas de torcedores; iii) redes de torcidas, coletivos e organizações ativistas de torcedores; e iv) torcedores ativistas. Essas categorias estão sistematizadas no Quadro 2.
Em nossa definição, as torcidas ativistas não apenas articulam sua identidade clubística com a defesa de causas controversas, mas também incluem uma presença coletiva nos estádios de futebol para apoiar seus times como parte essencial de seu repertório de ação. Nesse sentido, as torcidas ativistas compartilham semelhanças significativas com as TOs em seus repertórios de ação. Inclusive, alguns grupos ativistas se formalizaram como TOs oficiais ou como facções internas (comandos) dentro de grupos de TOs maiores, criando uma sobreposição prática entre essas duas categorias. Exemplos incluem a Força Feminina Colorada (Internacional), que defende os direitos das mulheres (Silva, 2024), e comandos femininos como Bamor (Bahia) e Os Imbatíveis (Vitória), que lutam para se somar a grupos organizados de torcedores e reivindicar espaço nos estádios (Moraes, 2018).
Outras torcidas ativistas optam por formatos organizacionais menos rígidos do que as TOs para atuar dentro dos estádios de futebol. é o caso de algumas das chamadas “torcidas antifascistas”, como a pioneira Ultras Resistência Coral (Ferroviário), criada em 2005 e reconhecida como a primeira torcida antifascista do Brasil (Pinheiro, 2021), bem como as torcidas antifascistas do Grêmio e do Internacional, conhecidas como Tribuna 77 e Coluna Vermelha, respectivamente (Oliveira, Pereira e Fernandes, 2024). Outro exemplo notável pode ser encontrado na pioneira Coligay, também ligada ao Grêmio. Criada em 1977 durante a ditadura civil-militar, a Coligay foi a primeira torcida LGBTQIA+ do país, reunindo torcedores que se identificavam como homossexuais para se apresentarem nos estádios (Anjos, 2021).
Paralelamente, inspirados no trabalho de Paes Lopes (2023), definimos “coletivos e organizações ativistas de torcedores” como grupos que não atuam de forma sistemática nos estádios (embora, por vezes, o façam),14 privilegiando outros espaços de sociabilidade relacionados ao futebol. Consequentemente, eles diferem das “torcidas ativistas” por não constituírem uma torcida no sentido tradicional de atuar sistematicamente nos estádios de futebol. Suas formas organizacionais variam de associações informais (coletivos) a estruturas mais rígidas (organizações). Paes Lopes (2023), por exemplo, analisa três exemplos empíricos de coletivos com estrutura flexível: Coletivo Democracia Corinthiana (Corinthians); Bloco Tricolor Antifa (São Paulo); e Porcomunas (Palmeiras). Apesar de suas idiossincrasias, esses coletivos defendem causas como o combate ao fascismo, ao neoliberalismo, ao racismo, ao sexismo e à violência policial. Suas ações incluem a promoção de debates e workshops, a realização de campanhas de solidariedade, a produção de conteúdo de mídia digital e a participação em protestos de rua.
Enquanto os coletivos estão marcados por uma estrutura organizacional informal e uma preferência pela atuação em espaços extrainstitucionais, “organizações ativistas de torcedores” empregam formatos organizacionais mais formalizados e buscam promover mudanças fazendo reivindicações contenciosas no âmbito da política oficial do clube. Um exemplo notório pode ser encontrado no “Povo do Clube” (PdC), do Internacional. O PdC surge como um grupo de torcedores que se opõe aos impactos da elitização do clube sobre os torcedores periféricos e de baixa renda do Internacional, que construiu sua imagem de forma associada a essa parcela da população sob o slogan de “Clube do Povo”. A tática de ação prioritária do PdC é a construção de chapas para concorrer a cargos no conselho deliberativo do clube através dos processos de eleição internos ao Internacional, tendo obtido importantes resultados nos últimos anos (Pinto, 2024).
Já as redes de torcidas ativistas e de coletivos/organizações de torcedores atuam como organizações “guarda-chuva”, compostas por várias torcidas e coletivos de torcedores que compartilham uma identidade política ou uma causa contenciosa. Essas redes estabelecem laços de cooperação, comunicação e coordenação para a defesa coletiva de suas agendas compartilhadas, enfrentando o desafio de superar as rivalidades profundamente enraizadas entre torcedores de diferentes clubes (Oliveira, Pereira e Fernandes, 2024). Um exemplo notório no Brasil é o da Torcidas Antifascistas Unidas – Nordeste (TAU-NE), que une torcidas e coletivos antifascistas da região Nordeste do país. Além do antifascismo, as organizações-membro da TAU-NE compartilham uma forte identidade regional. Isso se baseia na percepção de que o Nordeste é historicamente marginalizado no futebol brasileiro, um status que gera um sentimento comum de subordinação e justifica sua união para promover agendas que fortaleçam o futebol na região (Saldanha, 2023). Além das redes antifascistas, outras redes têm se organizado em torno de outros temas específicos no Brasil. Entre elas estão as redes de torcidas femininas, que se coordenam por meio dos Encontros Nacionais de Mulheres nas Arquibancadas e da rede Movimento Feminino de Arquibancada (Moraes, 2018), bem como a rede Canarinhos LGBTQ+. Desde 2019, esta última coordena torcidas e coletivos ativistas LGBTQIA+ em todo o Brasil.
Por fim, conforme visto, o conceito de ativismo aqui adotado inclui em seu escopo formas de ativismo mais individualizadas. No caso dos torcedores, é possível destacar o ativismo digital (von Bülow, Gobbi e Dias, 2022) de indivíduos que defendem causas contenciosas nas mídias sociais a partir da reivindicação da identidade de “torcedores”. Tais torcedores mobilizam repertórios discursivos e performáticos que buscam tensionar certas práticas do campo futebolístico. Podemos citar, por exemplo, o influenciador Lorenzo Pôrto e seu perfil "Futebicha",15 a partir do qual o ativista questiona a masculinidade hegemônica no universo do futebol, ou ainda o influenciador Vitão,16 que apresenta curiosidades sobre a relação entre futebol e política a partir de uma perspectiva antifascista. Esses elementos sugerem que o ativismo de torcedores no futebol deve ser compreendido a partir de um continuum de práticas que inclui tanto formas coletivas mais ou menos institucionalizadas, quanto iniciativas individuais, cuja relevância analítica reside em sua capacidade de tornar públicas causas contenciosas a partir da mobilização de identidades associados ao universo futebolístico.
3.3. Ativismos de Atletas
O ativismo de atletas é um fenômeno bem documentado pela literatura internacional, que tem descrito episódios de mobilização de esportistas em diversas regiões do mundo em torno de diferentes causas, como racismo, igualdade de gênero e anticapacitismo, bem como tem sido protagonizado por atletas com distintos níveis de profissionalização e visibilidade, desde atletas de elite aos universitários e amadores (Magrath, 2022). Os atletas se mobilizam utilizando múltiplas formas de ação, incluindo protestos simbólicos, organizações de base e a criação de ligas independentes, para citar alguns exemplos (Cooper, Macaulay e Rodriguez, 2017).
A literatura documentou formas individuais e coletivas de manifestação política dos atletas. No primeiro desses casos, os atletas usaram a visibilidade de grandes eventos esportivos para manifestações individuais de apoio a certas causas, como nas manifestações históricas de John Carlos e Tommie Smith nas Olimpíadas de 1968, nas quais eles levantaram os punhos em referência aos movimentos de libertação negra que eclodiram nos Estados Unidos à época (Boykoff, 2017). Os atletas também se organizaram coletivamente em defesa de causas controversas em diferentes esportes, como exemplificado pela tradição de associação sindical e greve entre os jogadores de futebol espanhóis (Simón e García-Martí, 2021; Valiente, 2022). Em nossa tipologia, dividimos os ativismos de atletas no futebol brasileiro em três grandes categorias: i) coletivos, organizações e campanhas de atletas profissionais; ii) clubes, partidas e ligas de atletas independentes ou amadores; e iii) ativismos individuais de atletas. O Quadro 3 sistematiza essas categorias.
No que diz respeito aos coletivos, organizações e campanhas de atletas profissionais de futebol, um dos exemplos brasileiros mais notáveis é a Democracia Corinthiana, do Sport Club Corinthians Paulista, na década de 1980, que surgiu durante o processo de redemocratização do Brasil. Impulsionada em parte por uma estratégia de marketing que buscava aproveitar o contexto político da época, a Democracia Corinthiana foi um novo arranjo de governança interna caracterizado pela ampliação da participação dos jogadores nos processos de tomada de decisão tradicionalmente reservados à comissão técnica e à diretoria. Isso permitiu que os atletas expressassem suas demandas tanto em relação às relações trabalhistas, quanto às questões esportivas que permeavam o clube. Além das questões internas do clube, a mobilização também se destacou por seu envolvimento na esfera política mais ampla. Os líderes da equipe participaram ativamente do ciclo de protestos “Diretas Já”, que exigia eleições diretas para a presidência (Martins e Reis, 2014).
Mais recentemente, no ano de 2013, outra mobilização de atletas brasileiros tematizou questões estruturais e trabalhistas nesse esporte a partir da criação do “Bom Senso Futebol Clube” (BSFC), iniciativa que reuniu atletas como Alex, Gilberto Silva, Paulo André, Dida, D' Alessandro, Edu Dracena e Rogério Ceni. Entre suas principais reivindicações estavam questões como: a elaboração de um novo calendário para as competições, com a redução no número de partidas disputadas pelos grandes clubes e uma ampliação do calendário para os clubes menores; a implementação do fair play financeiro, incluindo a criação de uma entidade reguladora independente responsável por monitorar as finanças dos clubes e aplicar sanções em caso de descumprimento; a obrigatoriedade de manutenção de vínculos empregatícios duradouros para profissionais como fisioterapeutas, roupeiros, entre outros, que muitas vezes eram desligados após campeonatos estaduais; e a participação direta dos atletas em conselhos e eleições dentro dos próprios clubes e na Confederação Brasileira de Futebol (CBF) (Medeiros e Santos, 2015; Reis, 2025).
é possível destacar também, dentre as mobilizações contemporâneas, a luta das futebolistas mulheres por maior reconhecimento da categoria pela CBF e contra desigualdades e violências de gênero no esporte. Nesse ponto, é importante salientar que o futebol feminino no Brasil foi historicamente marginalizado pelas instituições estatais e do esporte, tendo sido legalmente proibido entre 1941 e 1979 e vindo a ser regulamentado apenas em 1983. Mesmo após a profissionalização, o futebol feminino tem recebido investimentos drasticamente menores em comparação à categoria masculina. Em confronto a essa realidade, por exemplo, em 2017, atletas da Seleção Brasileira se mobilizaram, elaborando uma carta aberta na qual se manifestavam contra a demissão da treinadora Emily Lima, bem como cobrando maior apoio para mulheres não apenas em campo, mas também em cargos técnicos e de gestão na entidade. Nesse episódio, cinco atletas anunciaram que não voltariam a atuar pela seleção caso a demissão da treinadora não fosse revista (Almeida, 2019; Goellner, 2021).
Outra mobilização que pode ser destacada entre jogadoras mulheres profissionais é o Guerreiras Project, que consistiu na realização de oficinas entre jogadoras mulheres para discussão de temas relacionados às desigualdades de gênero, aliadas à realização de exposições fotográficas e documentários para dar visibilidade ao futebol feminino e às desigualdades de gênero esporte (Anjos et al., 2018). Por fim, nessa categoria, é possível mencionar a mobilização virtual de jogadoras do Sport Club Corinthians Paulista em parceria com torcedoras desse clube em 2023 contra a contratação do técnico Cuca para a equipe masculina, uma vez que o treinador esteve envolvido em um caso de violência sexual e de gênero enquanto atuava como jogador de futebol, em 1987 (Pisani, Hang e Moreira, 2025).
Esses casos demonstram esforços de ativismo de atletas profissionais em defesa de melhores condições de trabalho e proteção contra violências para jogadoras mulheres no futebol brasileiro. Contudo, mesmo no período da proibição e desregulamentação do futebol feminino no Brasil, a modalidade era praticada por mulheres brasileiras em partidas e torneios informais (Almeida, 2014; Almeida e Almeida, 2020; Ribeiro, 2018). Essa dinâmica é um exemplo da segunda categoria de ativismos de atletas de futebol abordada neste artigo: os clubes, partidas e as ligas de atletas independentes ou amadores. Nessa categoria, a própria prática do futebol pode ser lida como um ato de reivindicação política quando marcada por reivindicações como a ampliação de oportunidades e de visibilidade para grupos sociais tradicionalmente marginalizados no esporte.
A organização de partidas e ligas independentes não foi apenas central para a manutenção e luta do futebol feminino no Brasil, mas também para a prática do futebol da população negra no país. Em especial a partir das décadas de 1960 e 1970, o imaginário do futebol brasileiro foi construído em torno das supostas qualidades intrínsecas do jogador negro, qualidades marcadas por estereótipos racistas, como a “malandragem”. Esse discurso serviu a um duplo objetivo: perpetuar o racismo e, ao mesmo tempo, reforçar o “mito da democracia racial” do Brasil, sugerindo que o futebol era um caminho para o sucesso e um símbolo da integração dos negros na sociedade. No entanto, antes que essa imagem se consolidasse em torno da suposta valorização dos jogadores negros brasileiros, o esporte no país tinha origens marcadamente elitistas e excludentes, visto que era estruturado em torno de clubes formados em grande parte por imigrantes europeus que, em muitos casos, proibiam explicitamente a participação de jogadores negros em suas equipes (Gordon Junior, 1995; Souza, 1996).
Nesse contexto inicial de rígidas barreiras raciais no futebol brasileiro, os jogadores negros criaram suas próprias ligas e times. Um exemplo importante é a Liga Nacional de Futebol Portoalegrense, mais conhecida como Liga das Canelas Pretas, fundada em Porto Alegre, Rio Grande do Sul (RS), na década de 1910 (Jesus, 1999). Da mesma forma, a Liga de Futebol José do Patrocínio foi fundada na cidade de Pelotas (RS), no final da mesma década, composta principalmente por atletas negros (Mackedanz, Silva e Rigo, 2021). Outra iniciativa significativa foi a Associação Atlética São Geraldo, em São Paulo (SP), um clube que organizava e reunia atletas negros durante esse período (Abrahão e Soares, 2012).
Exemplos mais recentes de ativismo de atletas através da organização de clubes e ligas independentes ou amadoras podem ser encontrados nas ligas de futebol LGBTQIA+. Ainda que não enfrentem proibições formais, jogadores LGBTQIA+ no Brasil encontram no futebol profissional uma arena de construção da masculinidade por meio de concepções marcadamente homofóbicas (Bandeira e Seffner, 2013). Em contraposição a esse cenário, estudos têm apontado para a emergência de times de futebol amador compostos por pessoas LGTBQIA+ em diversas regiões do Brasil nos últimos anos (Tesser Junior e Kovaleski, 2023; Vasques, 2025). Um exemplo notório desse movimento é a LiGay Nacional de Futebol Society. Criada em 2017, funciona como uma competição amadora nacional que articula e reúne times de futebol LGBTQIA+ de todo o país (Camargo, 2021).
Já a última categoria de ativismos de atletas destaca a atuação individual desses profissionais na defesa de causas contenciosas. Jogadores de futebol brasileiros têm se manifestado individualmente em relação a causas diversas. Um exemplo recente de repercussão mundial pode ser encontrado nos posicionamentos do atleta Vinícius Júnior, jogador do Real Madrid, em oposição aos diversos episódios de racismo enfrentados por ele no futebol espanhol (Declaração de Vini Jr…, 2024). é possível destacar, ainda, o posicionamento público do ex-jogador e atual comentarista do Grupo Globo, Richarlyson, no que se refere à LGBTfobia no futebol. Em sua participação no podcast “Nos Armários dos Vestiários” (Assis, 2022), por exemplo, o futebolista relatou os casos de homofobia vivenciados por ele, bem como impactos sofridos a partir do momento em que se assumiu publicamente como bissexual, cobrando um posicionamento mais enfático dos atletas diante de casos de LGBTfobia. Por fim, é possível destacar a atuação da jogadora Marta Vieira da Silva, nomeada pela ONU Mulheres, em 2018, como Embaixadora Global da Boa Vontade para Mulheres e Meninas no Esporte. Durante a Copa do Mundo Feminina de 2019, por exemplo, após ter recebido propostas de patrocínio de diversas distribuidoras de material esportivo inferiores às oferecidas aos jogadores homens, a jogadora trocou as chuteiras de marcas patrocinadoras por chuteiras pretas com um símbolo da campanha “Go Equal” (Nunes, 2019).
3.4. Ativismos de Mídia
Estudos internacionais documentam esforços de profissionais da mídia e de torcedores para abordar as desigualdades na estrutura profissional e na cobertura do jornalismo esportivo. Por um lado, esses estudos identificam uma tendência à diversificação nas redações da grande mídia, observando a incorporação de profissionais que buscam tornar visíveis e desafiar as desigualdades no esporte (Bradshaw e Minogue, 2020). Por outro lado, os estudiosos também destacam a crescente importância dos veículos de comunicação independentes e das plataformas digitais que visam reorientar o jornalismo esportivo para uma perspectiva mais politizada e diversificada, rejeitando conscientemente as estratégias de clickbait (Ramon e Tulloch, 2019). Essas formas de “ativismo midiático” desafiam as desigualdades tanto por meio de seu conteúdo, quanto da persona construída pelo comunicador (Carroll e Hackett, 2006). Seguindo essa estrutura, analisamos o ativismo midiático no futebol brasileiro por meio de quatro categorias: i) veículos e cobertura alternativos; ii) campanhas e projetos ativistas de mídia hegemônica; iii) observatórios do futebol; e iv) ativismos midiáticos individuais. O Quadro 4 sistematiza essas categorias.
Na primeira categoria, destacamos o papel de veículos alternativos. Se a chamada mídia hegemônica (Lima, Januário e Leal, 2022) tende a adotar uma postura mais cautelosa ao abordar determinados temas, veículos alternativos e independentes se notabilizam por tensionar as relações de poder no esporte e visibilizar as práticas esportivas de grupos marginalizados. Um exemplo histórico desse tipo de ativismo no Brasil pode ser encontrado no papel da imprensa negra na valorização e publicização das ligas e dos jogadores negros na primeira metade do século XX, celebrando seus êxitos e denunciando a discriminação racial no esporte (Abrahão e Soares, 2012).
As ferramentas digitais têm impulsionado o jornalismo alternativo, ampliando vozes críticas sobre as desigualdades no esporte. O projeto Dibradoras17 exemplifica isso no Brasil. Criado em 2015 como um grupo no Facebook para combater a negligência do futebol feminino pela mídia hegemônica, o projeto se expandiu para uma multiplataforma que produz podcasts, reportagens e análises exclusivamente sobre futebol feminino, ao mesmo tempo em que denuncia as desigualdades de gênero. Outra iniciativa importante é o Ludopédio, uma plataforma que divulga conhecimento científico com foco no futebol antirracista, popular, feminino, LGBTQIA+ e indígena, com uma extensa biblioteca digital de recursos acadêmicos e midiáticos.18
Contudo, as iniciativas ativistas não se encontram apenas nos meios de comunicação alternativos. Na mídia hegemônica, há jornalistas comprometidos com questões sociais que desenvolvem projetos e campanhas coletivas que questionam as desigualdades sociais no esporte, às vezes com o apoio de suas empresas. Um exemplo desse tipo de ação pode ser visto no podcast Ubuntu Esporte Clube,19 um projeto da Rede Globo, desenvolvido por jornalistas negros, que busca dar visibilidade a atletas negros de diversos esportes. Outro exemplo relacionado à mesma emissora é a campanha #DeixaElaTrabalhar,20 realizada em 2018, em defesa das jornalistas esportivas que enfrentam assédio no exercício da profissão.
O terceiro subtipo de ativismo midiático é o trabalho dos observatórios de futebol. Essas entidades voltadas para a pesquisa se dedicam à produção e divulgação sistemática de dados para fundamentar a cobertura jornalística, equipando os profissionais com evidências para abordar criticamente questões estruturais dentro do futebol, incluindo racismo, sexismo e a heteronormatividade. Embora seu objetivo principal envolva facilitar o diálogo com a imprensa, seu alcance vai além dessa função, uma vez que também contribuem para a circulação de dados pertinentes em outras áreas, como a academia.
Nessa categoria, é possível destacar a atuação do Observatório da Discriminação Racial no Futebol. Fundado em 2014, o observatório publica relatórios anuais que documentam incidentes de racismo no futebol e se tornou uma importante fonte para que a mídia tradicional possa abordar essa questão (Trindade, 2024). A organização também trabalha diretamente com clubes de futebol e atletas, e construiu uma rede de jornalistas negros como colaboradores. Além da divulgação de informações sobre casos de racismo, a organização monitora o andamento de cada caso, registrando as conclusões em relatórios anuais. O perfil público e o capital simbólico da instituição são evidenciados pela exibição proeminente de seu logotipo nas camisetas oficiais dos times brasileiros e por sua frequente inclusão na programação da grande mídia, promovendo o debate sobre racismo e futebol.
Além das iniciativas coletivas, o ativismo midiático no futebol também se manifesta por meio de ações individuais de jornalistas e comunicadores que utilizam suas plataformas para dar visibilidade a causas contenciosas e tensionar práticas estabelecidas no campo esportivo. Esse tipo de atuação pode ser observado, por exemplo, nos posicionamentos de jornalistas esportivas contra o sexismo no meio, como no caso de Bárbara Coelho em críticas públicas envolvendo o jogador Gustavo Marques,21 bem como na trajetória de Renata Mendonça, marcada pela denúncia de episódios de machismo e pela defesa da ampliação da representatividade de mulheres no jornalismo esportivo. Essas práticas evidenciam o papel do ativismo individual dos jornalistas no ambiente da mídia, especialmente em um contexto de crescente centralidade das plataformas digitais.
4. Considerações finais
Este artigo apresentou um mapeamento do ativismo no futebol brasileiro, bem como uma definição conceitual e uma tipologia para os estudos dos ativismos no futebol. Inicialmente, foi estabelecido um quadro conceitual para o fenômeno por meio de um diálogo com a literatura sobre ativismos. Dentro desse quadro, o ativismo no futebol foi definido como a ação orientada pela defesa de causas contenciosas a partir de identidades que são construídas com referência à sua relação com este esporte. Posteriormente, foi proposta uma tipologia do ativismo no futebol, estruturada em torno das identidades e formatos organizacionais dos atores mobilizados. Isso resultou em quatro categorias principais: ativismos de torcidas organizadas; torcidas e torcedores ativistas; ativismos de atletas; e ativismos de mídia.
Importa destacar que tais categorias devem ser compreendidas de forma relacional e não rígida, na medida em que há intersecções entre elas e que há trajetórias individuais que atravessam diferentes formas de ativismo. Nesse sentido, sujeitos vinculados a torcidas organizadas podem também participar de coletivos ativistas de torcedores, inclusive sem que haja necessariamente uma vinculação institucional formal entre esses espaços. Ademais, campanhas podem articular atores e tipos de ativismos diversos. Esse é o caso, por exemplo, da campanha #ForaRicardoTeixeira, de 2011, mobilizada em mídias digitais por jornalistas e torcedores para denunciar casos de corrupção envolvendo o ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), bem como a baixa visibilidade dada pelos veículos hegemônicos aos casos, formando uma rede difusa de circulação de informações que contribuíram para o afastamento de Teixeira (Vimieiro, 2017).
A partir dessa tipologia, o artigo apresentou uma visão geral das diversas manifestações de ativismo no futebol brasileiro, sem pretender oferecer um mapeamento exaustivo do fenômeno. Nesse sentido, a principal contribuição do artigo reside na sistematização analítica das formas de ativismo no futebol brasileiro, captando, assim, a pluralidade e a complexidade inerentes ao fenômeno. Esse quadro serve a um duplo objetivo: primeiro, permite a organização de agendas de pesquisa futuras em torno de cada uma das categorias ativistas identificadas, facilitando a identificação de tópicos pouco estudados na literatura; segundo, estabelece conexões entre cada uma das dimensões através do conceito de “ativismos no futebol”, buscando superar o caráter difuso do debate sobre o tema.
Este artigo está sujeito a certas limitações inerentes à sua abordagem metodológica. Como um estudo baseado em uma revisão de literatura, ele não gera dados empíricos primários e está, consequentemente, suscetível à reprodução de vieses teórico-metodológicos presentes nas pesquisas revisadas. Consequentemente, reconhecemos que alguns temas receberam visibilidade limitada devido à sua sub-representação no conjunto da literatura mapeada. Isso inclui, por exemplo, o ativismo conservador no futebol brasileiro e os ativismos de mídia no esporte nacional, tópicos promissores para a pesquisa futura sobre ativismos no futebol brasileiro e em outros contextos. Ademais, o enfoque da tipologia proposta está limitado às identidades dos atores e suas formas organizativas. Estudos futuros podem avançar na proposição de tipologias para outras dimensões dos ativismos no futebol, como suas causas, repertórios e arenas de ação.
Declaração de uso de IA
Uma primeira versão deste artigo foi adaptada para a língua inglesa para submissão em revistas internacionais. Posteriormente, o artigo foi readaptado à língua portuguesa para submissão à RBCS. Inteligência artificial foi utilizada nos processos de tradução aos quais o texto foi submetido, bem como no processo de revisão textual.
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Declaração de disponibilidade dos dados
As fontes bibliográficas e hemerográficas estão disponíveis em repositórios e sites de acesso público. Não foram produzidos dados originais para esta pesquisa.
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Financiamento
INCT Participa (Processo: 406630/2022-4) e Programa de Bolsas de Iniciação Científica da UFRGS.
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1
Este texto é fruto de um acúmulo de discussões realizadas por seus autores e autoras em diálogo com diversas outras pesquisadoras em diferentes espaços. Destacamos aqui o grupo de estudos sobre ativismos no futebol realizado junto à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e à Universidade Federal do Pampa (Unipampa), em 2024, bem como a disciplina "Poder, Desigualdades e Ativismos no Futebol", oferecida pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFRGS por dois dos autores deste artigo em 2025. As reflexões compartilhadas por colegas e estudantes que integraram esses espaços foram essenciais para o desenvolvimento do texto. Agradecemos, ainda, aos comentários das pareceristas anônimas da RBCS, que contribuíram de forma substantiva para o aprimoramento da tipologia aqui apresentada. Por fim, destacamos que Matheus Mazzilli Pereira, Eduardo Georjão Fernandes e Gerson de Lima Oliveira são membros do INCT Participa (Processo: 406630/2022-4). As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas são de responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a visão CNPq, a quem os autores agradecem.
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Revisões de estado da arte buscam apresentar o estado atual do conhecimento e das prioridades na literatura científica sobre determinado tópico de interesse (Grant e Booth, 2009).
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As buscas foram inicialmente orientadas por causas recorrentemente presentes no futebol e tiveram as torcidas como foco inicial. Foram utilizados os termos “ativista/ativismo”, “feminismo/feminista”, “negro/negra”, “lgbt” e “torcida”. As buscas demonstraram que o fenômeno dos ativismos no futebol não se limitava às torcidas, dando origem ao insight que motivou a elaboração da tipologia ora apresentada. A partir disso, buscas adicionais foram realizadas em outras fontes, conforme mencionado no texto. Destaca-se, desde já, que este texto não é uma revisão sistemática dos textos mapeados na plataforma Ludopédio, tendo sido estes a base inicial para uma revisão de escopo mais ampla e menos sistemática.
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Ludopédio (s.d.). Disponível em: https://ludopedio.org.br/. Acesso em: 13 ago 2025.
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Seria plausível unificar as duas primeiras categorias dessa tipologia em uma categoria mais ampla: “ativismos de torcedores”. Contudo, optamos por manter essa divisão de forma a destacar a especificidade do formato organizativo das torcidas organizadas.
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Tradução nossa.
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Tradução nossa.
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8
Tradução nossa.
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9
Pereira e Silva (2022) sugerem que os conceitos de “confronto político” e de “política contenciosa” são chaves analíticas úteis para esse esforço de ampliação da agenda. Aqui, consideramos que o conceito de ativismo cumpre papel semelhante, mas se apresenta como um conceito mais amplo. Assim como o conceito de “ativismo”, o conceito de “política contenciosa” também envolve a disputa em torno de causas contenciosas, mas inclui ainda duas outras dimensões: a ação coletiva e o envolvimento de governos. Nesse sentido, os ativismos do futebol apenas entram no escopo da política contenciosa quando esses dois elementos estão presentes. Ademais, ressaltamos que o conceito de “confronto político” estabelece uma ênfase maior na relação de conflito entre antagonistas.
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Nessa definição, portanto, o ativismo não envolve necessariamente a defesa de causas progressistas que questionam as relações de poder e desigualdade, podendo ser possível pensar em ativismos conservadores ou reacionários.
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Tradução nossa.
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Desde o trabalho fundador de Melucci (1996), estudos sobre movimentos sociais têm demonstrado que a ação coletiva é, em grande medida, dependente da construção de identidades coletivas. Contudo, pesquisas recentes têm sugerido que formas mais individualizadas de contestação podem ser menos dependentes de identidades coletivas mais bem definidas (Bennett e Segerberg, 2012). Sugerimos aqui que a dependência de identidades coletivas para o desenvolvimento de formas individuais de ativismo no futebol é uma questão a ser empiricamente investigada, mas partimos do pressuposto de que elas têm como base mínima uma identidade social.
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O protagonismo de cada um desses grupos nas referidas mobilizações variou territorialmente. Em Porto Alegre, por exemplo, as torcidas antifascistas de Grêmio e Internacional estiveram à frente dos protestos contra Bolsonaro durante a pandemia. No caso de São Paulo, esse protagonismo esteve mais situado nos setores progressistas das torcidas organizadas e em coletivos ativistas (Souza, 2020).
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Embora os coletivos e organizações ativistas de torcedores operem majoritariamente em espaços de sociabilidade alternativos, sua atuação não é estanque. Eventualmente, esses grupos ocupam o espaço das arquibancadas para ações de visibilidade política, como no protesto do Coletivo Democracia Corinthiana contra a Rede Globo e o governo Temer em 2016 (Torcidas de Santos e Corinthians…, 2016). Também ocupam espaços que vão além do ambiente esportivo para protagonizar manifestações de rua, como observado nos atos pró-democracia de 2020 (Pires e Magri, 2020).
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O perfil de Lorenzo Pôrto no Instagram está disponível em: https://www.instagram.com/lorenzoporto/. Acesso em: 06 abr. 2026.
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16
O perfil do influenciador Vitão no Instagram está disponível em: https://www.instagram.com/vitao__hc/. Acesso em: 06 abr. 2026.
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17
Disponível em: https://dibradoras.com.br. Acesso em: 20 abr. 2025.
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18
Disponível em: https://ludopedio.org.br/. Acesso em: 20 abr. 2025.
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19
Disponível em: https://www.instagram.com/ubuntuesporteclube/. Acesso em: 20 abr. 2025.
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20
Disponível em: https://ge.globo.com/sp/futebol/noticia/deixaelatrabalhar-jornalistas-lancam-manifesto-em-defesa-do-trabalho-das-mulheres-no-esporte.ghtml. Acesso em: 20 abr. 2025.
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21
Em 2026, Gustavo Marques, jogador do Red Bull Bragantino, questionou a atuação da árbitra Daiane Muniz em razão de seu gênero após a eliminação do seu time no Campeonato Paulista. Na ocasião, o jogador declarou: “não adianta a gente jogar contra São Paulo, Palmeiras, Corinthians e eles colocarem uma mulher para apitar um jogo desse tamanho” (Gustavo Marques, do Bragantino, é suspenso..., 2026).
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Apêndice 1. Definições e dimensões do conceito de "ativismo"
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Editor Responsável:
João Maia http://orcid.org/0000-0002-3330-871X
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Editora Associada:
Lizandra Serafim http://orcid.org/0000-0002-6188-0908
As fontes bibliográficas e hemerográficas estão disponíveis em repositórios e sites de acesso público. Não foram produzidos dados originais para esta pesquisa.


Fonte: elaboração própria (2026).