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35 anos de RBCS: mudanças e desafios

Os periódicos científicos têm um papel central na divulgação de pesquisas e o exercem por meio de um intenso fluxo de trocas entre editores, revisores, pareceristas e autores. Estes processos ocorrem em contextos políticos e sociais que estão em constante transformação, impactando diretamente as condições de produção da ciência e do conhecimento científico e, portanto, o funcionamento dos periódicos. No Brasil, um dos maiores desafios da editoração científica é o atual ambiente político desfavorável à ciência, com significativos cortes na área e diminuição do apoio das agências de fomento para os períodos científicos.

A Revista Brasileira de Ciências Sociais (RBCS) não está apartada deste cenário, mas conta com o inestimável apoio da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciências Sociais (Anpocs). A RBCS é uma das revistas mais antigas da área de Ciências Sociais no país, com 35 anos de tradição, publicando desde sua origem uma produção acadêmica de ponta nas três grandes áreas: Antropologia, Ciência Política e Sociologia. O reconhecimento do periódico em seu campo é percebido pelo alto número de submissões, uma média de 265 artigos recebidos ao ano.

Em maio de 2021 a Revista Brasileira de Ciências Sociais passou por uma mudança em sua equipe, com Vanessa Elias de Oliveira assumindo o cargo de editora-chefe, ao lado de Priscilla Leine Cassotta, editora assistente, e de sete editores associados – dois de cada uma das áreas contempladas (Sociologia, Antropologia e Ciência Política), além de um editor de notas metodológicas. Paralelamente, uma série de ações foram implementadas para aprimorar o fluxo editorial da revista, dando celeridade ao processo de publicação de artigos e, ao mesmo tempo, garantindo maior visibilidade à ciência.

Nesse contexto, as normas de submissão à RBCS passaram por uma reformulação, e a revista reduziu a extensão máxima dos artigos submetidos e publicados. Essa mudança acompanha transformações importantes no campo das ciências, e visa a publicação de artigos originais consistentes e que dialoguem com a produção da área de forma mais sucinta. Ela é acompanhada por um novo projeto gráfico. Atualizando o antigo modelo, que foi criado para a versão impressa do periódico, o novo layout da RBCS melhora a legibilidade dos artigos no formato digital.

Além disso, uma preocupação importante da Comissão Editorial é com a participação de autoras mulheres no periódico. A relação entre gênero e publicação científica tem sido cada vez mais debatida. O relatório Gender in the Global Research Landscape, lançado em 2017 pela Elsevier, mostra que – à exceção do Japão –, em um período de cinco anos os homens publicaram mais artigos científicos do que as mulheres. Além disso, as mulheres têm menor participação em trabalhos científicos internacionais. A mesma tendência é verificada na RBCS. A Tabela 1, abaixo, demonstra que a revista ainda tem um longo caminho a percorrer para diminuir a desigualdade de gênero. Atualmente, quase 70% dos artigos publicados têm um homem como primeiro autor.

Tabela 1
Percentual de artigos publicados pela RBCS por década segundo o gênero do primeiro autor

Na tentativa de minorar essa disparidade, algumas medidas vêm sendo tomadas. A primeira é o incentivo ao envio da revisão por pares para revisoras mulheres. Estudos mostram que as mulheres contribuem menos para a cadeia de revisão por pares, na comparação com homens (Helmer et al., 2017). Embora essa desigualdade possa refletir diferenças históricas de atribuições por gênero, ela também é influenciada pela escolha ativa dos editores (Helmer et al., 2017). Nesta direção, acreditamos ainda que designar artigos para pareceristas mulheres pode ser uma forma de incentivá-las a submeter seus próprios trabalhos para avaliação e publicação na RBCS.

Em segundo lugar, criamos uma campanha em nossas redes sociais apresentando o tema da desigualdade histórica de gênero na revista e convidando pesquisadoras a submeter artigos originais. A campanha tem surtido efeito e, nos últimos meses, já percebemos a ampliação do número de submissões de artigos por autoras mulheres. No entanto, sabemos, os resultados integrais deste esforço não se apresentam de imediato, e deverão ser aferidos nos próximos meses. De toda forma, esperamos ampliar este debate nas Ciências Sociais brasileiras, buscando reduzir assim desigualdades persistentes.

Vale destacar que quando falamos em pesquisas e resultados de alto nível, referimo-nos ao conjunto de artigos publicados, que passaram por um rigoroso processo editorial: do total de submissões anuais, cerca de 70% são recusadas em desk review. Soma-se a isso o indispensável trabalho realizado pelos pareceristas, que contribuem para o aprimoramento dos artigos publicados, garantindo à RBCS o lugar de destaque de que goza entre os periódicos das Ciências Sociais brasileiras. Este, aliás, fica claro pelo aumento do seu h5, que subiu de 18 para 20 em 2022, segundo o h-index da Google Scholar Metrics1 1 Disponível em: https://scholar.google.com/citations?view_op=top_venues&hl=en&vq=pt. Acessado em 25/10/2022. .

Por fim, a história da Revista Brasileira de Ciências Sociais demonstra não apenas os avanços contínuos da publicação, mas também o desenvolvimento e a consolidação das Ciências Sociais no Brasil. O campo cresceu em número de cursos de graduação, de programas de pós-graduação e de pesquisadores ou discentes; também se fortaleceu, gerando uma produção de elevado nível e impacto acadêmico e social. Que a RBCS siga assim pelos próximos anos, crescendo, honrando seu papel de destaque na produção científica brasileira e divulgando um conhecimento essencial para a compreensão dos aspectos e desafios políticos, econômicos e sociais do país.

Referências

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Dez 2022
  • Data do Fascículo
    2022
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