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Dimensões metodológicas do Atlântico Negro: revisitando a obra de Paul Gilroy

Methodological dimensions of the Black Atlantic: revisiting Paul Gilroy's work

Resumo

Este artigo procura considerar a ideia do Atlântico Negro, popularizada por Paul Gilroy, como uma ferramenta metodológica em duas dimensões: enquanto unidade de análise e enquanto paradigma. Considero que, para além do debate teórico na obra do autor, existem elementos pouco sistematizados que podem ser mobilizados em análises da diáspora negra, com a finalidade de observar contextos e problemas diferentes daquele observado originalmente. Primeiramente, discuto o Atlântico Negro como unidade de análise, levando em consideração as críticas e reformulações relativas a duas lacunas na formulação original dessa unidade: a dimensão de gênero e o papel da África nos processos de formação da diáspora negra. Em segundo lugar, busco considerar o Atlântico Negro como um paradigma analítico capaz de incitar análises que levem em conta o papel da hegemonia e do imperialismo nessa unidade, e a importância de observar a dimensão política, assim como estética, nos processos que ocorrem na diáspora.

Palavras-chave:
Atlântico Negro; Metodologia; Gênero; Raça; Diáspora

Abstract

This article seeks to consider the idea of the Black Atlantic, popularized by Paul Gilroy, as a methodological tool in two dimensions: as a unit of analysis and as a paradigm. I propose that, in addition to the theoretical debate in the author's work, methodological aspects of this idea are seldom systematized. These elements could be mobilized in analyses of the black diaspora, with the purpose of observing contexts and issues that are different from those originally observed by Gilroy. First, I discuss the Black Atlantic as a unit of analysis taking into account the criticisms and reformulations regarding two gaps in the original formulation of this unit: the gender dimension and the role of Africa in the formation processes of the black diaspora. Second, I seek to consider the Black Atlantic as an analytical paradigm that encourages analyses that take into account the role of hegemony and imperialism in this unity and the importance of observing the political dimension, as well as the aesthetic, in the processes that occur in the diaspora.

Keywords:
Black Atlantic; Methodology; Gender; Race; Diaspora

Introdução

Não deixem sua mente negar

suas mãos

memória alguma do que passar por elas

nem seus olhos

nem seu coração

tudo pode ser usado

menos o que é inútil

(vocês precisarão

se lembrar disso quando forem acusadas de destruição.)

Audre Lorde, Para cada uma de vocês

O livro O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência, lançado em 1993 e traduzido para o português em 2001, é uma apresentação das perspectivas do autor britânico Paul Gilroy sobre a relação entre a modernidade e a formação histórico-política das pessoas negras. Concentrando-se especialmente na relação entre a história, a ontologia e a epistemologia, o autor observa as práticas de transfiguração e resistência de sujeitos situados nas Américas e na Europa, e seu papel na configuração do que entendemos por modernidade. O livro de Gilroy tem caráter assumidamente utópico (p. 110-111), buscando outras formas de solidariedade e autoconstrução além daquelas vinculadas aos Estados-nação e antecipando práticas políticas emancipatórias. Por outro lado, o caráter crítico da obra está na teorização da violência racial não como consequência tangencial da modernidade, mas como expressão, nesta, da relação íntima entre razão e terror.

Neste texto, procuro trabalhar especificamente com a dimensão metodológica do livro, sem pretensão de me aprofundar nas discussões detalhadas sobre o conceito de modernidade. Gilroy (2012)GILROY, Paul. (2012), O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. Tradução de Cid Knipel Moreira. 2ª edição. São Paulo, Editora 34. conceitua o Atlântico Negro como uma unidade de análise e como um paradigma analítico, referindo-se, por um lado, às pessoas de ascendência africana que tiveram a migração como ponto de inflexão em suas práticas político-culturais, e, por outro, à importância do movimento, da viagem e da estética para a compreensão de fenômenos envolvendo esse grupo. Embora seja interpretado frequentemente como um proponente de uma visão radical do transnacional, busco defender aqui que o autor trata das negociações entre o local e o global.

A obra de Gilroy foi uma contribuição importante para o campo de estudos de raça e racismo, e abriu debates relevantes, além de ter sido objeto de críticas. Procuro apresentar aqui as principais colocações de autores que reviram o livro, tratando de apropriações e de propostas de reconceituação do Atlântico Negro. Na primeira parte do texto, revisito as críticas ao conceito como unidade de análise, dividindo-as entre leituras feministas sobre o caráter masculino do movimento diaspórico e reivindicações de abordagens que considerem mais a história e as práticas vindas da África, do Caribe e da diáspora lusófona. Aponto que, embora as mulheres tenham tido sua mobilidade física limitada, seus discursos circularam de outras formas no Atlântico; também defendo que não podemos apagar as contribuições das mulheres que de fato estiveram em movimento, sobretudo recentemente, com a feminização da migração. Também indico que um olhar mais cuidadoso para as margens do Atlântico Negro é uma forma de fortalecer sua proposta, sendo importante levar adiante estudos que relacionem essas regiões ao âmbito transnacional.

Na segunda parte do artigo, retomo as críticas à dimensão paradigmática do Atlântico Negro, que questionam o papel da hegemonia e do imperialismo nessa unidade e a importância de observar a dimensão política, assim como a estética, nos processos que ocorrem na diáspora. Observo, nesse sentido, que a dimensão utópica do trabalho de Gilroy deve ser avaliada criticamente frente aos perigos de um olhar romântico sobre um mundo sem fronteiras, no contexto neoliberal. Além disso, argumento que, embora as artes sejam importantes para o Atlântico Negro, a literatura que põe em tensão a relação destas com a indústria cultural estadunidense, e coloca em diálogo outras forças criativas, ainda é escassa. Por fim, procuro apresentar a obra de Gilroy como algo aberto ao questionamento e à reconstrução, sendo passível de apropriações na contemporaneidade.

O Atlântico Negro de Paul Gilroy

O Atlântico Negro construído por Gilroy no livro de 1993 é uma forma de entender as estratégias e os processos de subjetivação e organização de pessoas negras em diversos locais interconectados na formação da modernidade. O argumento central do livro é que as culturas negras nas Américas e na Europa não são marginais, mas parte constitutiva do que entendemos por modernidade; isso problematiza a compreensão desta como império do projeto iluminista, e a reposiciona como resultado da cumplicidade entre razão e terror (Gikandi, 1996GIKANDI, Simon. (1996), “Introduction: Africa, Diaspora, and the Discourse of Modernity”. Research in African Literatures, 27, 4:1-6. Disponível em: www.jstor.org/stable/3819980. Acesso em 10/02/2022.; Piot, 2001PIOT, Charles. (2001), “Atlantic Aporias: Africa and Gilroy’s Black Atlantic”. The South Atlantic Quarterly, 100, 1:155-170. Disponível em: doi.org/10.1215/00382876-100-1-155. Acesso em 10/02/2022.). Na perspectiva de Paul Gilroy (2012)GILROY, Paul. (2012), O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. Tradução de Cid Knipel Moreira. 2ª edição. São Paulo, Editora 34., os horrores da escravidão não são efeitos colaterais externos do processo de modernização, mas impulsionadores das trocas, tensões e expressões de resistência que produzem a cultura da modernidade.

Não é possível pensar essa modernidade inaugurada pela colonização e pelo tráfico de escravos, ambos marcados pelo trânsito, a partir de uma unidade nacional apenas. A ideia de que a cultura, ou o processo histórico, flui dentro de fronteiras coincidentes com os Estados-nação encontra dois empecilhos principais: o primeiro no entendimento dessas nações como sistemas herméticos, alheios a influências; e o segundo em sua concepção como unidades homogêneas. Nem as estruturas de poder e opressão coincidem com aquelas do Estado-nação – sobretudo considerando a crescente hiperconectividade e a globalização –, nem as culturas são formas puras. Assim, o que entendemos por “brasilidade” ou “anglicidade” na verdade reflete diversas trajetórias e conexões resultantes de encontros ocorridos no processo histórico (Gilroy, 2012, pGILROY, Paul. (2012), O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. Tradução de Cid Knipel Moreira. 2ª edição. São Paulo, Editora 34.. 39).

Além da crítica da limitação do relato da modernidade às histórias das nações, o autor critica a concepção de nação enquanto unidade étnica. O livro foi escrito em um momento em que autores como Gilroy e Stuart Hall procuravam criticar perspectivas essencializantes da negritude; assim, um dos principais diálogos estabelecidos no livro é com os pensamentos que orientam para o que Gilroy (2012)GILROY, Paul. (2012), O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. Tradução de Cid Knipel Moreira. 2ª edição. São Paulo, Editora 34. chama de “absolutismo étnico” ou “nacionalismo étnico”. Para ele, uma forma de imperialismo que impõe às pessoas negras uma identidade atrelada aos Estados Unidos, resultando em uma solidariedade que se vincula ao consumo. Além disso, a noção essencialista de uma “nação negra” ignora o caráter cambiante das culturas e das relações entre pessoas negras, ocultando, assim, as suas opções políticas.

A ideia da nação é, ainda, pensada pelo autor como “generificada” (gendered). Ela possui um impacto especial nos corpos das mulheres, que ficam responsáveis pela reprodução física e cultural de uma linhagem – ao estabelecer a família como essencial à manutenção de uma solidariedade que coincide com a manutenção da masculinidade. Ao realizar um diálogo crítico com Martin Delany, Gilroy (2012, pGILROY, Paul. (2012), O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. Tradução de Cid Knipel Moreira. 2ª edição. São Paulo, Editora 34.. 76) identifica que este se refere à África como fatherland, vinculando a cidadania e o pertencimento a noções de masculinidade e aos papeis de marido e de pai.

A crítica à noção essencialista de raça não resulta, no entanto, em uma forma radicalizada de pluralismo. Gilroy (2012)GILROY, Paul. (2012), O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. Tradução de Cid Knipel Moreira. 2ª edição. São Paulo, Editora 34. destaca que, embora o reconhecimento da diversidade no interior da diáspora seja importante, e que a negritude seja histórica e localmente variável, ela comporta um “poder de resistência de formas especificamente racializadas de poder e subordinação” (p. 87). Em seu texto, o autor busca articular, portanto, formas locais e transnacionais, plurais e específicas de construção histórica, procurando corrigir o que é, no seu diagnóstico, a principal falha do essencialismo e do pluralismo: a falta de substância (Evans, 2009EVANS, Lucy. (2009), “The Black Atlantic: Exploring Gilroy’s legacy”. Atlantic Studies, 6, 2:255-268. Disponível em doi.org/10.1080/14788810902981308. Acesso em 10/02/2022.).

Como meio de concretizar essa perspectiva, o Atlântico Negro surge como ferramenta analítica. A partir da ideia da viagem, física ou metafórica, o autor procura por em tensão a relação entre negritude e nação, desnaturalizando fraternidades pré-políticas e automáticas que se originam na ideia de uma África mistificada, unitária e historicamente estagnada (Gilroy, 2012GILROY, Paul. (2012), O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. Tradução de Cid Knipel Moreira. 2ª edição. São Paulo, Editora 34.; Goyal, 2014GOYAL, Yogita. (2014), “Africa and the Black Atlantic”. Research in African Literatures, 45, 3: v-xxv. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/10.2979/reseafrilite.45.3.v?refreqid=excelsior%3Aa8e60f432db9c60a9f7fd01d7731198e. Acesso em 10/02/2022.
https://www.jstor.org/stable/10.2979/res...
). Gilroy trabalha com a imagem do navio como um cronotopo da realidade que centraliza não a origem nem o destino, mas a Middle Passage. Os navios eram, assim, “unidades culturais e políticas” e “um meio para conduzir a dissensão política e, talvez, um modo de produção cultural distinto” (p.57).

Ao focar os processos transnacionais e interculturais, o autor pretende desafiar o enraizamento que a ideia de nação, atrelada ao iluminismo europeu, fomenta, promovendo uma desterritorialização da solidariedade e da identidade. Adicionalmente, ressalta que a própria concepção de espaço é modificada pela noção do Atlântico Negro, em que ele figura como circuito comunicativo (Gilroy, 2012, pGILROY, Paul. (2012), O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. Tradução de Cid Knipel Moreira. 2ª edição. São Paulo, Editora 34..20). Assim,

Na tentativa de “deslocar a discussão da cultura política negra para além da oposição binária entre perspectivas nacionais e diaspóricas”, Gilroy objetiva não substituir uma pela outra, mas colocá-las em diálogo; identidades nacionais são colocadas em uma “rede interligada” mais ampla de iterações “entre o local e o global”. Dessa forma, Gilroy procura ir além do “estreitamento” do pensamento nacional sem perder o foco na especificidade de formas culturais localizadas.1 1 No original, “In seeking to ‘move discussion of black political culture beyond the binary opposition between national and diasporic perspectives’, Gilroy’s aim is not to replace one with the other but to set them in dialogue; national identities are placed within a wider ‘webbed network’ of interactions ‘between the local and the global.’ In this way, Gilroy attempts to exceed the ‘narrow[ness]’ of nationalist thinking without losing his focus on the specificity of localized cultural forms” (Evans, 2009, p. 256. Tradução da autora).

Gilroy (2012)GILROY, Paul. (2012), O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. Tradução de Cid Knipel Moreira. 2ª edição. São Paulo, Editora 34. procura afirmar não a superioridade do aspecto transnacional sobre as formas locais de organização, mas a importância de não permitir que essas obscureçam as solidariedades que não têm a nação como fonte primária, mas são forjadas a partir de uma dinâmica “intercatalítica e transversal” (p. 37). Assim, o Atlântico Negro, entendido em sua obra como referente a povos afrodescendentes na Europa e nas Américas, centraliza os processos de creolité/métissage/hibrydity, isto é, o sincretismo, com a possibilidade de formulação de “conceitos intermediários, situados entre o local e o global” (Gilroy, 2012, pGILROY, Paul. (2012), O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. Tradução de Cid Knipel Moreira. 2ª edição. São Paulo, Editora 34.. 41). Na prática, isso significa a valorização dos contextos subnacionais e supranacionais, bem como da interação entre eles, em análises da história e das experiências de povos negros (Gilroy, 2012, pGILROY, Paul. (2012), O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. Tradução de Cid Knipel Moreira. 2ª edição. São Paulo, Editora 34..19; Hall, 2013HALL, Stuart. (2013), “A relevância de Gramsci para o estudo de raça e etnicidade”. In: HALL, Stuart & SOVIK, Liv (orgs.), Da diáspora: identidades e mediações culturais. Tradução de Adelaine La Guardia Resende et al. 2ª edição. Belo Horizonte, UFMG.). Nesse sentido, o autor propõe uma forma de fazer história que seja “descentrada e talvez excêntrica” (p. 14), focada em “conceitos intermediários, situados entre o local e o global” (p. 41) na medida em que

não tentará forçar a integração, mas se contentará, ao invés disso, em tentar relacionar (em ambos os sentidos da palavra – no de parentesco e no de narração) as culturas negras do século XX com o nómos do pós-moderno planetário. (Gilroy, 2012, pGILROY, Paul. (2012), O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. Tradução de Cid Knipel Moreira. 2ª edição. São Paulo, Editora 34.. 14)

É importante situar a crítica de Gilroy no contexto dos estudos culturais do fim dos anos 1980 e 1990, que permitiu a ele travar diálogos com intelectuais como Stuart Hall –como o próprio Gilroy, membro do Centre for Contemporary Cultural Studies, na Inglaterra –, bell hooks e Cornel West. O autor identifica, nesse conjunto de pensadores, a importância das “zonas de contato”, isto é, a posição intercultural de intelectuais negros que lhes permitiam ter estilos de crítica cultural distintivos (Gilroy, 2012, pGILROY, Paul. (2012), O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. Tradução de Cid Knipel Moreira. 2ª edição. São Paulo, Editora 34.. 41). Destaca-se como relevante, nesse sentido, o papel da arte, especialmente da música, na elaboração de perspectivas negras transnacionais.

Diferentemente do pensamento marxista, em que o trabalho figura como principal ferramenta de autocriação e emancipação, a atuação de pessoas negras está atrelada, na concepção do autor britânico, a “estratégias de autoconstrução social que reivindicaram o corpo do mundo do trabalho e o fizeram, ao invés disso, o locus do jogo, da resistência e do desejo” (Gilroy, 2012, pGILROY, Paul. (2012), O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. Tradução de Cid Knipel Moreira. 2ª edição. São Paulo, Editora 34..17). Assim, para compreender seu trabalho, é fundamental ver nele um caráter utópico, compreendendo que procura analisar dinâmicas de construção de formas de ser contra-modernas. A cultura vernacular é especialmente relevante para tanto, uma vez que, nela

A política da transfiguração, portanto, revela fissuras internas no conceito de modernidade. Os confins da política são estendidos precisamente porque esta tradição de expressão recusa-se a aceitar que a política seja um domínio prontamente separável. Seu desejo básico é conjurar e instituir os novos modos de amizade, felicidade e solidariedade consequentes com a superação da opressão racial sobre a qual se assentava a modernidade e sua antinomia do progresso racional, ocidental, como barbaridade excessiva. (Gilroy, 2012, pGILROY, Paul. (2012), O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. Tradução de Cid Knipel Moreira. 2ª edição. São Paulo, Editora 34.. 97)

Esse aspecto da obra de Gilroy permanece significativamente influente hoje. As pesquisas que observam formas artísticas, estéticas e/ou não escritas revelam que o texto material é especialmente relevante para a compreensão daqueles contextos em que a imprensa e o mercado literário não eram centrais no cenário colonial, tornando os discursos extratextuais a principal forma de circulação da memória e da história (Skeehan, 2015SKEEHAN, Danielle C. (2015), “Caribbean Women, Creole Fashioning, and the Fabric of Black Atlantic Writing”. The Eighteenth Century, 56, 1:105-123. Disponível em: https://muse.jhu.edu/article/576769. Acesso em 10/02/2022.
https://muse.jhu.edu/article/576769...
). Um aspecto pouco explorado da importância da arte na obra o autor, contudo, é sua concepção da música não como gênero literário, mas como discurso filosófico que contribuiu para a construção de uma base ética transformadora (Gilroy, 2012, pGILROY, Paul. (2012), O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. Tradução de Cid Knipel Moreira. 2ª edição. São Paulo, Editora 34.. 98-99).

Nessa circulação de discursos pelo espaço cultural, que contribui para a aproximação de povos geograficamente separados, o autor verifica o potencial de união entre o anti-imperialismo e o antirracismo. Assim, o Atlântico Negro é, ao mesmo tempo, unidade de análise e paradigma analítico. Como unidade de análise, procura-se observar as dinâmicas entre os povos nas Américas e na Europa, compreendendo que existem formas de solidariedade transnacional que são construídas social e historicamente, e não dadas a partir de um pertencimento original ao continente africano. Esse conceito é uma forma específica de apreensão da diáspora, que permite observar as “qualidades quietas e recombinantes” (Gilroy, 2012, pGILROY, Paul. (2012), O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. Tradução de Cid Knipel Moreira. 2ª edição. São Paulo, Editora 34.. 85) desse espaço. Enquanto paradigma analítico, o Atlântico Negro é carregado de duplicidades, o que não surpreende, já vez que é por meio do diálogo com W. E. B. Dubois e com o conceito de “dupla consciência” que o autor pensa a modernidade. Dessa forma, recontar a modernidade a partir do Atlântico Negro tem por fim “tentar manter abertas as categorias instáveis e profanas da cultura política negra” (p. 416).

Cada uma dessas dimensões do conceito carrega potencialidades, mas também são alvos de críticas específicas. Nas sessões seguintes, procuro observar apropriações da ideia do Atlântico Negro nessas duas formas, apresentando os principais questionamentos, aberturas e formas de retrabalhar essa ideia.

O Atlântico Negro como unidade de análise

O Atlântico Negro entendido como unidade de análise motiva discussões que envolvem dois eixos: o papel da África, do Caribe e da América do Sul nessa configuração, e as formas específicas de atuação das mulheres em seu interior. No que se refere ao primeiro, existe um debate sobre a centralidade dos Estados Unidos na obra, o que deixaria de lado as contribuições de uma África real – isto é, Gilroy deixa de apreender as complexidades das diversas organizações sócio-políticas, históricas e linguísticas presentes no continente africano,2 2 A coletânea Gender Epistemologies in Africa (Oyewumi, 2011) traz uma boa discussão acerca dessas diferentes configurações, suas pluralidades e as tensões entre elas. além de formas específicas de interpretação do Caribe e do mundo negro lusófono. No segundo eixo, teóricos questionam a prevalência de homens como fontes do autor, resultando em uma perspectiva masculina da diáspora.

A crítica de gênero ao conceito de Atlântico Negro encontrada em Melissa Schindler (2014)SCHINDLER, Melissa. (2014), “Home, or the limits of the Black Atlantic”. Research on African Literatures, 45, 3:72-90. Disponível em: doi.org/10.2979/reseafrilite.45.3.72. Acesso em 10/02/2022. afirma que na obra literária de mulheres negras, como Toni Morrison, Conceição Evaristo e Paulina Chiziane, respectivamente estadunidense, brasileira e moçambicana, existe um apelo à noção de casa ou de lar. Schindler afirma que as mulheres não rejeitam a nação, mas buscam formas de reestruturá-la em uma escrita crítica que teoriza o cotidiano. O espaço da casa é mobilizado pelas autoras estudadas como um intervalo no Estado-nação, no qual elas resistem tanto ao uso de sua imagem na construção da narrativa da nação hegemônica – como ocorre, por exemplo, com a figura da mulata na construção da ideia de democracia racial – quanto à sua corporificação como símbolo das margens. Assim, transformam a nação em uma unidade construída por e pertencente a essas mulheres. Schindler entende que, mesmo tendo viajado, as mulheres negras não encontram a esperança de emancipação no transnacional, mas na nação como projeto.

Essa interpretação da crítica feminista ao conceito do Atlântico Negro levanta algumas questões sobre o lugar de outras formas expressivas no entendimento do papel das mulheres na construção dessa unidade. Outro ponto relevante é se, mesmo que a nação continue sendo um tema central, estilos discursivos e temas não tenham circulado entre essas autoras que, como Schindler (2014)SCHINDLER, Melissa. (2014), “Home, or the limits of the Black Atlantic”. Research on African Literatures, 45, 3:72-90. Disponível em: doi.org/10.2979/reseafrilite.45.3.72. Acesso em 10/02/2022. reconhece, escreviam de uma forma contemporânea. Por fim, é interessante observar os diferentes relatos de mulheres negras em obras de não-ficção e o papel da transnacionalidade nesses trabalhos.

Relatos de viagem escritos por mulheres negras na diáspora apresentam entendimentos diferentes da ideia de casa. Partindo do pressuposto metodológico de que devemos ler textos de mulheres como obras intelectuais, sem relegá-las ao campo dos relatos domésticos, a leitura de The Narrative of the Life and Travels de Nancy Prince, de Sandra Gunning (2001)GUNNING, Sandra. (2001), “Nancy Prince and the Politics of Mobility, Home and Diasporic (Mis)Identification”. American Quarterly, 53, 1:32–69. Disponível em www.jstor.org/stable/30041872. Acesso em 10/02/2022., é esclarecedora, nesse sentido. Nancy Prince, uma mulher estadunidense, escreve sobre as suas viagens à Rússia e à Jamaica na segunda metade do século XIX, refletindo sobre os lugares da unidade racial e da diferença cultural. Em um texto que é, ao mesmo tempo, autobiografia, relato de viagem e narrativa missionária, Prince dá a entender que foi capaz de constituir-se enquanto sujeito em contextos de deslocamento, nos quais experimentou relações humanizadoras. Seu engajamento político, no retorno ao seu país de origem foi, portanto, alimentado pela viagem. Por outro lado, ela relata observar, na mobilidade, a contingência entre afastamento e aproximação, em função de seu status de estrangeira, e em especial, de estadunidense. A “casa” ou o “lar” é construído, então, não como espaço fixo, mas como o lugar da humanização, o que confere a ele um caráter diaspórico.

Além da perspectiva diferenciada sobre a “casa”, Gunning (2001)GUNNING, Sandra. (2001), “Nancy Prince and the Politics of Mobility, Home and Diasporic (Mis)Identification”. American Quarterly, 53, 1:32–69. Disponível em www.jstor.org/stable/30041872. Acesso em 10/02/2022. apresenta um questionamento sobre a relação entre mulheres negras escritoras e os gêneros de escrita dominados majoritariamente por homens brancos. Não é raro que mulheres negras utilizem formas biográficas de reflexão teórica, como Angela Davis, que declarou ter escrito sua autobiografia, em 1988, na tentativa de perceber a história não como fruto de grandes personalidades, mas como resultado de práticas populares. Para Davis, esse gênero literário é uma forma de mediar a história pessoal e a história do mundo e o contexto social:

Assim, não escrevi realmente a meu respeito. Isto é, não mensurei os eventos de minha própria vida de acordo com sua possível importância pessoal. Em vez disso, tentei utilizar o gênero autobiográfico para avaliar minha vida de acordo com o que eu considerava ser o significado político de minhas experiências. (Davis, 2019DAVIS, Angela. (2019). Angela Davis: uma autobiografia. São Paulo, Boitempo., pp. 15-16)

A filósofa americana disse que procurou evidenciar os motivos pelos quais, para alguns sujeitos, o engajamento político é uma forma de sobrevivência (Davis, 2019DAVIS, Angela. (2019). Angela Davis: uma autobiografia. São Paulo, Boitempo.). Essas formas de reflexão e organização política, que ela chama de populares – mas que também podem ser compreendidas como cotidianas –, são profundamente significativas para a formação do Atlântico Negro como unidade analítica. A produção de têxteis, por exemplo, revela formas de comunicação transatlântica protagonizadas por mulheres negras, segundo Danielle Skeehan (2015)SKEEHAN, Danielle C. (2015), “Caribbean Women, Creole Fashioning, and the Fabric of Black Atlantic Writing”. The Eighteenth Century, 56, 1:105-123. Disponível em: https://muse.jhu.edu/article/576769. Acesso em 10/02/2022.
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. Para a autora, ainda que sejam difíceis de recuperar, pois se perdem e se degastam, os elementos da cultura material são especialmente relevantes para compreender o contexto diaspórico colonial no Caribe, uma vez que, nesse espaço, não era comum a circulação de jornais ou de literatura local.

Assim, os têxteis tinham um papel relevante na conexão entre espaços e tempos históricos diferenciados. Despidas de suas roupas, vestidas de forma padronizada e trocadas por tecido, que era utilizado como moeda, as pessoas negras traficadas encontraram na exportação de padrões de estampa uma forma de reconstrução histórica e da identidade, bem como de resistência estética. Além disso, o comércio informal de estampas criava espaços de encontro e conexão entre pessoas na diáspora. As mulheres negras, a quem o serviço da costura era delegado, estabeleciam, portanto, essas conexões.

Mesmo que as viagens físicas – sobretudo o deslocamento voluntário – tenham sido uma experiência masculinizada (Campt e Thomas, 2008CAMPT, Tina & THOMAS, Debora. (2008) “Gendering Diaspora: Transnational Feminism, Diaspora and its Hegemonies”. Feminist Review, 90, 1:1-8. Disponível em doi.org/10.1057/fr.2008.41. Acesso em 10/02/2022.) por boa parte da história, os conhecimentos produzidos e reproduzidos por mulheres negras no cotidiano foram carregados transnacionalmente pelo comércio e pelas apropriações (nem sempre creditadas) por homens negros em seus escritos e relatos (Skeehan, 2015SKEEHAN, Danielle C. (2015), “Caribbean Women, Creole Fashioning, and the Fabric of Black Atlantic Writing”. The Eighteenth Century, 56, 1:105-123. Disponível em: https://muse.jhu.edu/article/576769. Acesso em 10/02/2022.
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). Também no cotidiano podemos encontrar relatos de como as mulheres negras resistiam a modelos masculinos de nacionalismo negro. Guadeloupe (2009)GUADELOUPE, Francio. (2009), “Their Modernity Matters Too: The Invisible Links Between Black Atlantic Identity Formations in the Caribbean and Consumer Capitalism”. Latin American and Caribbean Ethnic Studies, 4, 3: 271-292. Disponível em: dx.doi.org/10.1080/17442220903331621. Acesso em 10/02/2022., por exemplo, parte da história e dos relatos de três irmãs criadas na República Dominicana – uma delas sua avó materna, Elza – para destacar a relevância das narrativas de mulheres da classe trabalhadora na conceituação do Atlântico Negro. Ela relata:

Lembro-me de crescer ouvindo minha avó Elza dizer a mim e aos outros netos que flertavam com a doutrina rastafári da África como nossa pátria-mãe que nossas raízes começavam e terminavam nela, em seu útero. A Mama África, por mais valiosa que seja, era uma abstração. A Mama África não alimentara nossas mães e pais. Mama Elza, com a ajuda de Deus, sim. E a Mama África do rastafári podia ser bastante opressora nessa luta pela libertação dos negros.3 3 No original: “I remember growing up hearing my grandmother Elza telling me and her other grandchildren that were flirting with the Rasta doctrine of Africa as our motherland, that our roots began and ended with her; in her womb. Mama Africa, however worthy, was an abstraction. Mama Africa did not feed our mothers and fathers. Mama Elza, with God’s help, did. And the Mama Africa of Rasta could be very oppressive in this quest for the liberation of blacks” (Guadeloupe, 2009, p. 279. Tradução da autora).

Assim, as mulheres negras no Atlântico Negro afirmam a sua agência na história das pessoas negras nesse espaço, recusando as perspectivas nas quais elas cumprem a função de reproduzir uma nação ou de conferir a ela o seu caráter diverso. Mais recentemente, sobretudo com a progressiva feminilização da migração, é possível encontrar obras de autoras negras que refletem sobre os trânsitos culturais e políticos entre espaços. Para Goyal (2014), oGOYAL, Yogita. (2014), “Africa and the Black Atlantic”. Research in African Literatures, 45, 3: v-xxv. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/10.2979/reseafrilite.45.3.v?refreqid=excelsior%3Aa8e60f432db9c60a9f7fd01d7731198e. Acesso em 10/02/2022.
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romance Americanah, da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, é um exemplo. Nesta obra com elementos autobiográficos Adichie desnaturaliza o olhar estadunidense e inverte a história de europeus ou norte-americanos que vão à África em busca de autodescobrimento, ao focar uma nigeriana que vai aos Estados Unidos e encontra apenas o absurdo, ou o disparate, racial.

Pensar na produção literária de Adichie é um bom ponto de partida para as reflexões sobre o segundo eixo de críticas ao Atlântico Negro como unidade de análise, que envolvem o lugar da África, da diáspora atlântica lusófona e do Caribe nesse conceito. Nesse aspecto, a literatura se concentra sobretudo no continente africano, mas é possível encontrar apontamentos importantes com relação às demais regiões. Bernardino-Costa (2018)BERNARDINO-COSTA, Joaze. (2018), “Decolonialidade, Atlântico Negro e intelectuais negros brasileiros: em busca de um diálogo horizontal”. Sociedade e Estado, 33, 1: 117-135. Disponível em doi.org/10.1590/s0102-699220183301005. Acesso em 10/02/2022., por exemplo, questiona como o português, língua pouco popular nas produções acadêmicas, impõe barreiras à inserção de intelectuais brasileiros no debate sobre o Atlântico Negro. O autor também aponta que a estrutura acadêmica brasileira não fomenta estudos nesse sentido, e historicamente dificultou a entrada de pessoas negras no espaço universitário, limitando sua influência à literatura internacional sobre o tema.

Schindler (2014)SCHINDLER, Melissa. (2014), “Home, or the limits of the Black Atlantic”. Research on African Literatures, 45, 3:72-90. Disponível em: doi.org/10.2979/reseafrilite.45.3.72. Acesso em 10/02/2022. questiona a própria possibilidade de pensar a diáspora lusófona como parte dessa unidade, uma vez que os processos formativos desses países são significativamente diferentes daqueles dos Estados Unidos e da Europa. Por um lado, estes teriam a população negra como minoria numérica, e a construção de um discurso de separação racial, enquanto no Brasil, a formação de uma sociedade desigual passa pela ideia da democracia racial, uma exaltação da mestiçagem cega a desigualdades, violências e particularidades. Assim, a ideia de uma hibridez emancipadora é problemática nesse contexto.

No entanto, as características mais centrais da definição do Atlântico Negro de Gilroy estão decerto presentes neste contexto, isto é, uma relação entre terror e modernidade que importa, modifica, reinventa e cria diferentes formações culturais. Muitas críticas à obra de Gilroy deixam de considerar que ele não propõe substituir perspectivas analíticas que levam em conta o contexto local, mas sim a inclusão, nas análises, de solidariedades e identidades que não têm na nação sua única fonte. É preciso reconhecer, não obstante, que o fato de o Caribe e a diáspora lusófona estarem praticamente ausentes de sua obra resulta em uma perspectiva comprometida da modernidade, além de entrar em choque com a reivindicação de conectividade do autor. Dessa forma, se seu foco na América do Norte e na Europa é uma opção metodológica, ela deveria ter sido anunciada (Evans, 2009EVANS, Lucy. (2009), “The Black Atlantic: Exploring Gilroy’s legacy”. Atlantic Studies, 6, 2:255-268. Disponível em doi.org/10.1080/14788810902981308. Acesso em 10/02/2022.; Masilela, 1996MASILELA, N. (1996), “The ‘Black Atlantic’ and African Modernity in South Africa”. Research in African Literatures, 27, 4:88-96.).

No que se refere à África, um conjunto de críticos afirma que, ao se desvencilhar dela na escrita de Atlântico Negro, Gilroy acaba incorrendo, em certa medida, no mesmo erro que critica no nacionalismo negro: a cristalização histórica da África, que a mantém intocada pelos fluxos da modernidade (Piot, 2001PIOT, Charles. (2001), “Atlantic Aporias: Africa and Gilroy’s Black Atlantic”. The South Atlantic Quarterly, 100, 1:155-170. Disponível em: doi.org/10.1215/00382876-100-1-155. Acesso em 10/02/2022.). Para Goyal (2014)GOYAL, Yogita. (2014), “Africa and the Black Atlantic”. Research in African Literatures, 45, 3: v-xxv. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/10.2979/reseafrilite.45.3.v?refreqid=excelsior%3Aa8e60f432db9c60a9f7fd01d7731198e. Acesso em 10/02/2022.
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Mesmo que o Atlântico Negro tenha mudado muitos campos de estudo, inaugurando, energizando e reavivando um leque de abordagens transnacionais, ele também replicou a exclusão problemática da África dos discursos da modernidade. Para Gilroy, os discursos culturais nacionalistas (como o afrocentrismo, a négritude e o pan-africanismo) ignoram a experiência histórica da escravidão para alcançar uma África pré-histórica mística congelada no tempo. Simultaneamente nostálgico, triunfalista e compensatório, o afrocentrismo situa a África como origem, autenticidade e pureza. Essas narrativas românticas falham em refutar o racismo europeu porque aceitam suas suposições de uma divisão essencial entre África e Ocidente, e priorizam uma imagem da África como sendo anterior à modernidade.4 4 “But even as The Black Atlantic changed many fields of study, inaugurating, energizing, and reviving an array of transnational approaches, it also replicated the problematic exclusion of Africa from discussions of modernity. For Gilroy, cultural nationalist discourses (such as Afrocentrism, négritude, and Pan-Africanism) bypass the historical experience of slavery to arrive at a prehistoric mystical Africa frozen in time. At once nostalgic, triumphalist, and compensatory, Afrocentrism situates Africa as origin, authenticity, and purity. Such romantic narratives fail to refute Eurocentric racism because they accept its assumptions of an essential division between Africa and the West and prioritize an image of Africa as anterior to modernity” (Goyal, 2014, p. v. Tradução da autora).

Assim, por mais que rejeite a concepção da África como origem, Gilroy não fornece mecanismos alternativos para se pensar os processos do continente simultaneamente como autônomos em relação à diáspora e como parte dela, nem para refletir sobre a complexidade histórico-cultural do continente africano (Goyal, 2014GOYAL, Yogita. (2014), “Africa and the Black Atlantic”. Research in African Literatures, 45, 3: v-xxv. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/10.2979/reseafrilite.45.3.v?refreqid=excelsior%3Aa8e60f432db9c60a9f7fd01d7731198e. Acesso em 10/02/2022.
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). Isso é especialmente relevante se considerarmos que os teóricos que Gilroy toma como referência, como W.E.B Dubois, buscavam respaldo, em sua escrita, em modelos de modernidade e de libertação nesse continente. Por isso, a busca pela África não é necessariamente a procura de uma origem, mas de uma filiação e uma solidariedade políticas que consideram o debate sobre as modernidades africanas inescapável (Masilela, 1996MASILELA, N. (1996), “The ‘Black Atlantic’ and African Modernity in South Africa”. Research in African Literatures, 27, 4:88-96.).

Esse fluxo de diálogo entre África e diáspora fica evidente nas trocas que levaram elementos de culturas africanas para a constituição, nos Estados Unidos, do movimento New Negro Talented Tenth, por sua vez fundamental para a organização dos agenciamentos da modernidade do grupo New Africans, na África do Sul (Masilela, 1996MASILELA, N. (1996), “The ‘Black Atlantic’ and African Modernity in South Africa”. Research in African Literatures, 27, 4:88-96.). Outro exemplo de como África e diáspora se constroem mutuamente é a análise antropológica de uma região do Togo realizada por Charles Piot (2001)PIOT, Charles. (2001), “Atlantic Aporias: Africa and Gilroy’s Black Atlantic”. The South Atlantic Quarterly, 100, 1:155-170. Disponível em: doi.org/10.1215/00382876-100-1-155. Acesso em 10/02/2022.. Para o autor, a África é diaspórica em si mesma, na medida que o tráfico de escravos impôs fluxos migratórios e novas configurações sociais, econômicas e militares para os grupos presentes no continente. Adicionalmente, a modernidade também impôs à região formas de dependência e de colonização mesmo após a libertação das colônias. Esses processos estão retratados, por exemplo, na incorporação de representações dos colonizadores e da modernização em cerimônias tradicionais africanas. Além disso, formas estéticas vinculadas a grupos étnicos do continente são exportadas para os Estados Unidos e reincorporadas por uma juventude que negocia significantes locais e pertencimento a redes globais de cultura.

A inserção da juventude nesses fluxos culturais nos leva de volta ao livro de Adichie, Americanah. Nele, podemos encontrar um lugar para a África no Atlântico Negro, já que a autora pensa a diáspora não como narrativa do passado, mas como fenômeno contemporâneo, motivado por diversos eventos e forças. Assim, a juventude pode ser inserida no fluxo comunicativo do afropolitanismo, que media dinâmicas globais e locais da cultura, e reconhece o atravessamento de projetos, estratégias e estéticas na África, nas Américas e na Europa negras. Ampliar o conceito de Atlântico Negro para incluir a África – e a pluralidade de perspectivas que surgem ali – é uma forma de reconhecer a participação do continente nos fluxos metropolitanos, observando a diáspora como o movimento de pessoas africanas e de seus descendentes no mundo, sem confiná-las ao Ocidente (Gikandi, 1996GIKANDI, Simon. (1996), “Introduction: Africa, Diaspora, and the Discourse of Modernity”. Research in African Literatures, 27, 4:1-6. Disponível em: www.jstor.org/stable/3819980. Acesso em 10/02/2022.).

O Atlântico Negro como paradigma

Entendido como paradigma, o Atlântico Negro implica dois elementos principais: um foco nos fluxos e nos movimentos, e um olhar para as práticas de transcodificação e de pensamento utópico. Como procurei sumarizar na primeira sessão, para Paul Gilroy (2012)GILROY, Paul. (2012), O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. Tradução de Cid Knipel Moreira. 2ª edição. São Paulo, Editora 34. o tráfico de escravos foi o momento fundador da modernidade, impondo formas de coexistência e de hibridização que inauguraram práticas sócio-políticas de resistência manifestadas de diversas formas, entre as quais ele se concentra na música. A relação entre a escravidão e as formas estéticas é debatida pelo autor nesses termos:

Esta política existe em uma frequência mais baixa, onde é executada, dançada e encenada, além de cantada e decantada, pois as palavras, mesmo as palavras prolongadas por melisma e complementadas ou transformadas pelos gritos que ainda indicam o poder conspícuo do sublime escravo [slave sublime], jamais serão suficientes para comunicar seus direitos indizíveis à verdade. Os sinais voluntariamente adulterados que traem a política decididamente utópica de transfiguração, portanto, transcendem parcialmente a modernidade, construindo tanto um passado imaginário antimoderno como um vir a ser pós-moderno. Não se trata de um contradiscurso, mas de uma contracultura que reconstrói desafiadoramente sua própria genealogia crítica, intelectual e moral em uma esfera pública parcialmente oculta e inteiramente sua. (Gilroy, 2012, pGILROY, Paul. (2012), O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. Tradução de Cid Knipel Moreira. 2ª edição. São Paulo, Editora 34.. 96)

Esses dois aspectos da obra são criticados por autores que refletem sobre as condições das migrações, cujas relações de força não se manifestam apenas no âmbito cultural, mas também histórico e político. Se no Atlântico Negro o tráfico e, especialmente, a Middle Passage são eventos fundacionais da modernidade, somos convidados a refletir sobre a descontinuidade do tempo e do espaço na diáspora. Primeiramente, podemos pensar em diversos momentos motivadores de movimentos diaspóricos e de seus terrores específicos; em segundo lugar, não nos apegamos a uma estética da dor como prática transfigurativa (Dayan, 1996DAYAN, Joan. (1996), “Paul Gilroy’s Slaves, Ships, and Routes: The Middle Passage as Metaphor”. Research in African Literatures, 27, 4:7-14. Disponível em www.jstor.org/stable/3819981. Acesso em 10/02/2022.).

Pensar nas consequências dos diversos momentos da diáspora envolve refletir, por exemplo, sobre quais fluxos de pessoas negras de países periféricos para a Europa, em busca de melhores condições econômicas, foram seguidos de movimentos de retorno aos países natais frente ao racismo metropolitano (Farred, 1996FARRED, Grant. (1996), “You Can Go Home Again, You Just Can’t Stay: Stuart Hall and the Caribbean Diaspora”. Research in African Literatures, 27, 4:28-48. Disponível em: www.jstor.org/stable/3819983. Acesso em 10/02/2022.; Goyal, 2014GOYAL, Yogita. (2014), “Africa and the Black Atlantic”. Research in African Literatures, 45, 3: v-xxv. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/10.2979/reseafrilite.45.3.v?refreqid=excelsior%3Aa8e60f432db9c60a9f7fd01d7731198e. Acesso em 10/02/2022.
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). Esse movimento indica uma relação próxima entre o capitalismo e o terror que reinventa e atualiza a modernidade. Além disso, a mobilidade entre espaços à margem, voluntários ou motivados por desastres sociais e naturais, deslocam, também, o caráter da diáspora. O capitalismo e os fluxos comerciais mobilizam uma reconceituação desse espaço, uma vez que, em uma perspectiva interseccional, tornam clara a construção mútua entre raça, gênero e classe, que faz com que mulheres na diáspora caribenha e lusófona por vezes se conectem às demais pelos fluxos de objetos produzidos por elas, de forma precarizada (Dayan, 1996DAYAN, Joan. (1996), “Paul Gilroy’s Slaves, Ships, and Routes: The Middle Passage as Metaphor”. Research in African Literatures, 27, 4:7-14. Disponível em www.jstor.org/stable/3819981. Acesso em 10/02/2022.; Skeehan, 2015SKEEHAN, Danielle C. (2015), “Caribbean Women, Creole Fashioning, and the Fabric of Black Atlantic Writing”. The Eighteenth Century, 56, 1:105-123. Disponível em: https://muse.jhu.edu/article/576769. Acesso em 10/02/2022.
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). Os fatores econômicos não são, no entanto, os únicos a motivar migrações femininas; outros incluem fuga de violência doméstica e normas de gênero impostas violentamente (Dornelas e Ribeiro, 2018DORNELAS, Paula Dias & RIBEIRO, Roberta Gabriela Nunes. (2018), “Mulheres migrantes: invisibilidade, direito à nacionalidade e a interseccionalidade nas políticas públicas”. O Social em Questão, 21, 41. Disponível em: osocialemquestao.ser.puc-rio.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=631&sid=56. Acesso em 10/02/2022.).

Dessa forma, olhando para diferentes contextos, podemos entender as condições nas quais a diáspora se constitui no tempo, e contrapor seu caráter voluntário e forçado. Por outro lado, também é importante refletir sobre as forças internas que caracterizam a diáspora. Os “sujeitos diaspóricos” pensados por Gilroy são prioritariamente masculinos, o que reflete a dimensão de gênero da migração voluntária no contexto de sua escrita (Campt e Thomas, 2008CAMPT, Tina & THOMAS, Debora. (2008) “Gendering Diaspora: Transnational Feminism, Diaspora and its Hegemonies”. Feminist Review, 90, 1:1-8. Disponível em doi.org/10.1057/fr.2008.41. Acesso em 10/02/2022.). No entanto, há poucos estudos contemporâneos acerca dos efeitos do processo de feminização da migração nas características da diáspora (Dornelas e Santos, 2018DORNELAS, Paula Dias & SANTOS, K. C. (2018). “Migração e trabalho: feminização, interseccionalidades e o papel do Estado”. 42º Encontro Anual da Anpocs, Caxambu. Disponível em: www.anpocs.com/index.php/encontros/papers/42-encontro-anual-da-anpocs/spg-5/spg42/11585-migracao-e-trabalho-feminizacao-interseccionalidades-e-o-papel-do-estado/file. Acesso em 10/02/2022.).

Além disso, existem padrões de hegemonia que circulam no Atlântico Negro. Como Gunning (2001)GUNNING, Sandra. (2001), “Nancy Prince and the Politics of Mobility, Home and Diasporic (Mis)Identification”. American Quarterly, 53, 1:32–69. Disponível em www.jstor.org/stable/30041872. Acesso em 10/02/2022. questiona, os padrões vigentes de religiosidade e família em nações centrais muitas vezes é exportado de forma imperialista para outras localidades. Ao realizar essa crítica, é importante considerar que, mesmo antes da colonização e do tráfico de escravos, países da África já estavam inseridos em fluxos culturais que envolviam religiões como o cristianismo e o islamismo, frequentemente vistos como uma influência exclusivamente europeia (Dayan, 1996DAYAN, Joan. (1996), “Paul Gilroy’s Slaves, Ships, and Routes: The Middle Passage as Metaphor”. Research in African Literatures, 27, 4:7-14. Disponível em www.jstor.org/stable/3819981. Acesso em 10/02/2022.). Também é preciso reconhecer que os fluxos culturais não ocorrem somente na direção centro-periferia, como mostram os estudos de Piot (2001)PIOT, Charles. (2001), “Atlantic Aporias: Africa and Gilroy’s Black Atlantic”. The South Atlantic Quarterly, 100, 1:155-170. Disponível em: doi.org/10.1215/00382876-100-1-155. Acesso em 10/02/2022. e Skeehan (2015)SKEEHAN, Danielle C. (2015), “Caribbean Women, Creole Fashioning, and the Fabric of Black Atlantic Writing”. The Eighteenth Century, 56, 1:105-123. Disponível em: https://muse.jhu.edu/article/576769. Acesso em 10/02/2022.
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. No entanto, cabe refletir sobre como formas de consumo e de estética fluem sobretudo dos Estados Unidos para outros lugares. De fato, o direito de consumir frequentemente é visto como uma forma de emancipação do racismo, servindo como princípio organizativo para movimentos sociais como os que Guadeloupe (2009)GUADELOUPE, Francio. (2009), “Their Modernity Matters Too: The Invisible Links Between Black Atlantic Identity Formations in the Caribbean and Consumer Capitalism”. Latin American and Caribbean Ethnic Studies, 4, 3: 271-292. Disponível em: dx.doi.org/10.1080/17442220903331621. Acesso em 10/02/2022. relata, na República Dominicana.

Nesse sentido, o caráter utópico do trabalho de Gilroy é comprometido pela intensificação da presença do mercado como forma governante de construção de subjetividades (Brown, 2015BROWN, Wendy. (2015), Undoing the Demos: Neoliberalism’s Stealth Revolution. Nova York, Zone Books.), algo que agravava o quadro social no qual o livro foi escrito. O próprio autor, no prefácio à edição brasileira, reconhece “uma forma diferente de servidão bem remunerada para ser colocada ao lado das variedades mais antigas e mais familiares” (Gilroy, 2012, pGILROY, Paul. (2012), O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. Tradução de Cid Knipel Moreira. 2ª edição. São Paulo, Editora 34.. 12). O caráter utópico da obra de Gilroy é repensado frente a elementos contextuais, tanto pelo autor quanto pelos seus críticos. Em uma análise da obra de Bernardine Evaristo, Newman (2012)NEWMAN, Judie. (2012), “The Black Atlantic as Dystopia: Bernardine Evaristo’s Blonde Roots”. Comparative Literature Studies, 49, 2:283-97. Disponível em: www.jstor.org/stable/10.5325/complitstudies.49.2.0283. Acesso em 10/02/2022. questiona se é apropriado substituir esse caráter pela figuração distópica do capitalismo:

Implicitamente, Evaristo reconhece aqui o risco de reconceituar a cultura como transnacional pode ser precisamente o que o capitalismo corporativo pedia, substituindo as nações-estado por espaços sem fronteiras e permitindo o fluxo livre de capital. Possivelmente, portanto, a imaginação satírica e distópica é politicamente mais estratégica que a utopia, porque permite ao autor registrar a força da dominação capitalista e materialista.5 5 No original: “Implicitly Evaristo acknowledges here the risk that a reconceptualization of culture as transnational may be just what corporate capitalism ordered, replacing nation-states with a borderless space allowing for a free flow of capital. Arguably, therefore, satire and dystopian imaginings are politically more strategic than utopianism because they allow the writer to register the strength of capitalist and materialist domination” (Newman, 2012, p. 296. Tradução da autora).

Assim, a aplicação do Atlântico Negro como um paradigma analítico demanda atentar-se para as relações de poder internas e externas à diáspora, reconhecendo sua plasticidade no tempo e no espaço. Em um bom indicativo de como operacionalizar esse olhar, Stuart Hall recomenda observar que as formações históricas não se originam apenas no nível macrossocial ou estrutural, mas sim se capilarizam em uma diversidade de micropoderes e subjetivações, que perpassam diversos níveis da organização social (Hall, 2013, pHALL, Stuart. (2013), “A relevância de Gramsci para o estudo de raça e etnicidade”. In: HALL, Stuart & SOVIK, Liv (orgs.), Da diáspora: identidades e mediações culturais. Tradução de Adelaine La Guardia Resende et al. 2ª edição. Belo Horizonte, UFMG.. 341), aproximando conceitos amplos de suas configurações contextuais e movimentos orgânicos.

Um tipo de movimento que podemos observar é como as figurações críticas e/ou emancipatórias circulam das margens para o centro, como ocorreu na incorporação do break jamaicano como ponto de origem do hip-hop estadunidense, que estabeleceu narrativas e reflexões diferenciadas com relação àquelas dos spirituals e do blues no país (Gilroy, 2012GILROY, Paul. (2012), O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. Tradução de Cid Knipel Moreira. 2ª edição. São Paulo, Editora 34.; Joseph e Bell, 2020JOSEPH, Etienne & BELL, Connie. (2020), “Everything is everything: Embodiment, affect, and the Black Atlantic archive”. Transactions of the Institute of British Geographers, 45:520-524.; Veal e Slaten, 2017VEAL, Michael & SLATEN, Whitney. (2017), “Ethnography, Sound Studies and the Black Atlantic: A Conversation Between Michael Veal and Whitney Slaten”. Current Musicology, 100, 99/100:21-36. Disponível em: journals.library.columbia.edu/index.php/currentmusicology/article/view/5342. Acesso em 10/02/2022.). A construção de reflexões que anteciparam, nas prefigurações presentes no surgimento da própria modernidade, o que depois foi chamado de pós-moderno é um dos motivos pelos quais Gilroy identifica a música negra como mecanismo de autocriação importante, capaz de relacionar dimensões éticas e estéticas da vida. Assim, outra dimensão do Atlântico Negro como paradigma é a sua preocupação com a estética.

O questionamento que mobiliza esse olhar para outras formas de construção do conhecimento – que não aquelas canonizadas pela herança iluminista – está vinculado à concordância do autor com Patricia Hill Collins, na percepção de que “as tradições ocidentais sobre o pensamento e do pensamento sobre o pensamento, ao qual as ciências humanas estão confinadas, têm sistematicamente tentado separar essas atividades privilegiadas do mero existir” (Gilroy, 2012, pGILROY, Paul. (2012), O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. Tradução de Cid Knipel Moreira. 2ª edição. São Paulo, Editora 34.. 119). A discussão proposta por Gilroy procura vincular dimensões ontológicas e epistemológicas do pensamento negro, observando como os processos históricos formadores de subjetividades negras estão vinculados a maneiras de produzir e de circular conhecimentos. Essa operação permite avaliar as contribuições de pessoas negras para o conhecimento e o ativismo político, sem atribuir a elas um caráter de autenticidade essencialista.

A arte é uma forma de retratar o cotidiano, os desejos, as vontades e as percepções daqueles que a produzem, daqueles a quem os autores se dirigem e daqueles que a consomem, vinculando as “atividades privilegiadas” do pensamento ao “mero existir” (Gilroy, 2012, pGILROY, Paul. (2012), O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. Tradução de Cid Knipel Moreira. 2ª edição. São Paulo, Editora 34.. 119). O âmbito estético possibilita, dessa maneira, “transformar a relação entre a produção e o uso da arte, o mundo cotidiano e o projeto de emancipação racial” (Gilroy, 2012, pGILROY, Paul. (2012), O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. Tradução de Cid Knipel Moreira. 2ª edição. São Paulo, Editora 34.. 160). O autor procura desviar, no entanto, da ideia de que estilos musicais são representativos de uma identidade negra “autêntica”, uma vez que eles são, em si mesmos, frutos de origens múltiplas e de operações de mistura.

É importante ressaltar que essa proposta não é uma forma de ontologia orientada para o objeto, que coloca o papel das relações sociais, pessoais e históricas no segundo plano, priorizando a música como objeto independente. É, sim, uma perspectiva que questiona o significado da categoria do humano (Gilroy, 2012GILROY, Paul. (2012), O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. Tradução de Cid Knipel Moreira. 2ª edição. São Paulo, Editora 34.; Veal e Slaten, 2017VEAL, Michael & SLATEN, Whitney. (2017), “Ethnography, Sound Studies and the Black Atlantic: A Conversation Between Michael Veal and Whitney Slaten”. Current Musicology, 100, 99/100:21-36. Disponível em: journals.library.columbia.edu/index.php/currentmusicology/article/view/5342. Acesso em 10/02/2022.); um olhar, portanto, que observa como a inserção em diferentes fluxos culturais e de poder cria definições de humanidade que podem ser mais ou menos excludentes, e de quais formas grupos subalternizados reivindicam e transformam essas definições.

Em Gilroy, o foco na estética é utilizado como ferramenta analítica em estudos que tomam o Atlântico Negro como unidade para investigar outras práticas culturais que fazem circular discursos e como. Joseph e Bell (2020)JOSEPH, Etienne & BELL, Connie. (2020), “Everything is everything: Embodiment, affect, and the Black Atlantic archive”. Transactions of the Institute of British Geographers, 45:520-524. afirmam que é importante olhar para esses elementos, na medida em que a experiência não pode ser reduzida a “palavras em uma página ou pixels em uma tela” (p. 521). Assim, para uma apreensão mais ampla de fenômenos sociais em diversas escalas, devemos olhar para as formas de corporificação e testemunhos da sociopolítica de um contexto. De forma semelhante, Skeehan (2015)SKEEHAN, Danielle C. (2015), “Caribbean Women, Creole Fashioning, and the Fabric of Black Atlantic Writing”. The Eighteenth Century, 56, 1:105-123. Disponível em: https://muse.jhu.edu/article/576769. Acesso em 10/02/2022.
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observa como a cultura material é uma forma de criar memória sobre grupos:

Os textos materiais e os tipos de poética tátil que informam sua produção complicam as teorias da formação de identidades nacionais pelo meio impresso de teóricos como Jürgen Habermas e Benedict Anderson, e modificam nosso entendimento de quais “autores” e “textos” constituem o corpus da literatura atlântica original. Ao permanecer focada em posições subjetivas baseadas no texto, a academia tem sido reticente em debater como práticas significativas extra-discursivas, táteis e corporificadas desafiam a ideia de que apenas a escrita serve como fonte primária de formação de sujeitos. Paul Gilroy argumentou que os pesquisadores deveriam olhar para as os “elementos não discursivos da metacomunicação negra” que se assentam na “dramaturgia, na enunciação e no gesto” e não na “textualidade e na narrativa”.6 6 No original: “Material texts and the types of tactile literacies that inform their production complicate the print nationalism theories of scholars such as Jürgen Habermas and Benedict Anderson, and modify our understanding of which ‘authors’ and what ‘texts’ constitute the corpus of early Atlantic literature. By remaining focused on text-based subject positions, scholarship has been reticent to address how extra-discursive, tactile, and embodied signifying practices challenge the idea that writing alone serves as the primary source of subject formation. Paul Gilroy has argued that scholars should look for the ‘anti-discursive constituents of black metacommunication’ that are grounded in ‘dramaturgy, enunciation, and gesture’ rather than in ‘textuality and narrative’” (Skeehan, 2015, pp. 105-106. Tradução da autora).

As críticas a esse aspecto da obra de Gilroy são compostas sobretudo por interpretações para as quais o autor privilegia a cultura sobre a história, ocultando relações de poder e criando uma definição da diáspora que resulta em um sincretismo destrutivo (Dayan, 1996DAYAN, Joan. (1996), “Paul Gilroy’s Slaves, Ships, and Routes: The Middle Passage as Metaphor”. Research in African Literatures, 27, 4:7-14. Disponível em www.jstor.org/stable/3819981. Acesso em 10/02/2022.). Nesse sentido, elas se conectam às críticas referentes à presença do imperialismo e da hegemonia na própria diáspora, sobretudo em um contexto neoliberal, que poderia de alguma forma se beneficiar de interpretações pós-nacionais. No entanto, é preciso observar o que esse sincretismo ameaça, e o que se reconstrói em encontros e incorporações de formas de resistência e auto-expressão. Embora o foco do autor nos Estados Unidos dificulte essa avaliação, devemos considerar que, no contexto em que escreveu e ainda hoje, esse país possui um lugar privilegiado na cultura musical, seja pela indústria mainstream ou pelos fluxos alternativos, influenciando a produção de diversas outras regiões, inclusive aquelas que foram suas fontes originais de inspiração (Veal e Slaten, 2017VEAL, Michael & SLATEN, Whitney. (2017), “Ethnography, Sound Studies and the Black Atlantic: A Conversation Between Michael Veal and Whitney Slaten”. Current Musicology, 100, 99/100:21-36. Disponível em: journals.library.columbia.edu/index.php/currentmusicology/article/view/5342. Acesso em 10/02/2022.). Estudos que preencham essas lacunas ainda são escassos, o que indica, também, uma demanda de entendimento dos fluxos culturais entre locais marginais que procuram ativamente resistir ao imperialismo cultural estadunidense em meio à dinâmica geopolítica da globalização.

Conclusões

Em sua síntese sobre a interseccionalidade, Patricia Hill Collins (2019)COLLINS, Patricia Hill. (2019), Intersectionality as Critical Social Theory. Durham, Duke University Press. afirma que essa ideia pode ser útil, em um sentido teórico-metodológico, em usos enquanto metáfora, heurística e paradigma. Neste artigo, procurei defender que o conceito de Atlântico Negro comporta um potencial semelhante. Enquanto metáfora espacial, ele oferece uma imagem do mundo social centrada em entrelugares e espaços de trânsito, supondo que é neles que ocorrem as contradições, trocas e dinâmicas a partir das quais novos projetos políticos e questões teóricas podem emergir. Assim, pensar o espaço social e o sujeito como descontínuos nos desafia, enquanto cientistas sociais, a refletir sobre as maneiras como o deslocamento – tanto como movimento migratório quanto como elemento de formação ontológica – convive com a ideia de nação ou de raízes. Como ferramenta heurística, o Atlântico Negro evidencia novos fenômenos sociais a investigar, especialmente a relevância das artes como cena na qual interpretações do mundo são desenvolvidas e projetos políticos são construídos:

A virtude deste conceito está em trazer para o primeiro plano da discussão o trânsito, a comunicação, conexões e convergências entre os negros da diáspora para além da ideia de Estado-Nação. Não somente música, cinema, artes negras circulam entre África, Américas, Caribe, Europa, mas projetos emancipatórios, noções de autonomia e cidadania. A ênfase dada à cultura vernacular do Atlântico Negro representa o valor legítimo da mutação, hibridez e mistura. Sobretudo pela difusão da cultura vernacular é que os projetos estéticos e religiosos da diáspora podem ziguezaguear de um lado para o outro no atlântico negro. Na circulação destes projetos de liberação política, também circulam intelectuais negros e suas ideias. (Bernardino-Costa, 2017, pBERNARDINO-COSTA, J. (2017), “Caliban e o Atlântico Negro: conexões entre intelectuais negros do Brasil e Caribe”. Contemporânea, 7, 2:465-482.. 471)

Por fim, em uma interpretação paradigmática, o Atlântico Negro funciona como uma crítica à própria prática de pesquisa e investigação, questionando visões essencialistas, eurocêntricas e/ou imperialistas da modernidade e do colonialismo. Além disso, ele incita a resgatar a voz e a história de sujeitos e grupos cujas narrativas foram apagadas ou mal interpretadas, ou cujos meios de expressão foram considerados menos valorosos. Esse aspecto permite criticar e reinventar a própria obra de Paul Gilroy, identificando de que forma é possível avançar no projeto proposto pelo autor, a partir de seus pressupostos críticos.

Nesse sentido, o Atlântico Negro oferece deslocamentos teóricos importantes para pensar a presença de pessoas negras no mundo pós-colonial, desde suas formas organizativas, fundamentais para as lutas anticoloniais, até sua participação, voluntária ou não, no que entendemos por modernidade hoje.

Reconhecendo a importância da obra, ainda se vê nela lacunas a serem preenchidas. Muitas das ausências na obra estão conectadas aos conflitos remanescentes da Inglaterra thatcherista, e ao neoliberalismo que emergia no momento da sua escrita, em 1993. Nesse contexto, as pessoas negras, numericamente minoritárias, enfrentavam discursos que as posicionavam fora do ideal de anglicidade. Concentrar-se nos Estados Unidos fazia sentido para Gilroy,já que, vivendo em condições semelhantes, os negros no país haviam conseguido afirmar minimamente sua cidadania e seu pertencimento à nação, e o fizeram por meio da cultura (Gikandi, 2014GIKANDI, Simon. (2014), “Afterword: Outside the Black Atlantic”. Research in African Literatures, 45, 3: 241-44. Disponível em: www.jstor.org/stable/10.2979/reseafrilite.45.3.241. Acesso em 10/02/2022.). No entanto, as consequências e desdobramentos do neoliberalismo se mostraram mais severas, e de alcance mais internacional do que o autor poderia prever.

O Atlântico Negro ainda é útil metodologicamente como unidade e paradigma. No entanto, devemos prestar mais atenção a como lidar com a agência feminina e feminista nesse contexto. Bem como com a participação da África como continente ativo nos fluxos comunicativos, e não apenas como local de origem – romântico, como no nacionalismo, ou relativamente apagado, como na obra de Gilroy. Assim, o projeto utópico do livro se torna mais concreto, pois integra novas perspectivas críticas, que resistem ao consumo como forma de integração ao tecido social global.

Por outro lado, é preciso mapear e interpretar mais efetivamente o papel da hegemonia dentro da unidade, e como ela molda formas de subjetivação no neoliberalismo. Por fim, as formas estéticas se mantêm importantes como fonte teórica para os estudos do Atlântico, mas outros focos de produção cultural, além dos EUA, precisam ser mais estudados, na busca de entender como essas formas imperiais são negociadas e/ou enfrentam resistência em diversos lugares. Como afirma Evans (2009), oEVANS, Lucy. (2009), “The Black Atlantic: Exploring Gilroy’s legacy”. Atlantic Studies, 6, 2:255-268. Disponível em doi.org/10.1080/14788810902981308. Acesso em 10/02/2022. Atlântico Negro comporta o desenvolvimento teórico que reconheça o potencial de reconfiguração de identidades e de comunidades diaspóricas.

Agradecimentos

Esta pesquisa foi desenvolvida com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Agradeço também aos pareceristas anônimos da RBCS pela leitura cuidadosa e pelos valiosos comentários.

  • 1
    No original, “In seeking to ‘move discussion of black political culture beyond the binary opposition between national and diasporic perspectives’, Gilroy’s aim is not to replace one with the other but to set them in dialogue; national identities are placed within a wider ‘webbed network’ of interactions ‘between the local and the global.’ In this way, Gilroy attempts to exceed the ‘narrow[ness]’ of nationalist thinking without losing his focus on the specificity of localized cultural forms” (Evans, 2009, p. 256. Tradução da autora).
  • 2
    A coletânea Gender Epistemologies in Africa (Oyewumi, 2011OYEWUMI, Oyeronké (org.). (2011), Gender Epistemologies in Africa: Gendering Traditions, Spaces, Social Institutions, and Identities. Nova York, Palgrave MacMillan.) traz uma boa discussão acerca dessas diferentes configurações, suas pluralidades e as tensões entre elas.
  • 3
    No original: “I remember growing up hearing my grandmother Elza telling me and her other grandchildren that were flirting with the Rasta doctrine of Africa as our motherland, that our roots began and ended with her; in her womb. Mama Africa, however worthy, was an abstraction. Mama Africa did not feed our mothers and fathers. Mama Elza, with God’s help, did. And the Mama Africa of Rasta could be very oppressive in this quest for the liberation of blacks” (Guadeloupe, 2009, p. 279. Tradução da autora).
  • 4
    “But even as The Black Atlantic changed many fields of study, inaugurating, energizing, and reviving an array of transnational approaches, it also replicated the problematic exclusion of Africa from discussions of modernity. For Gilroy, cultural nationalist discourses (such as Afrocentrism, négritude, and Pan-Africanism) bypass the historical experience of slavery to arrive at a prehistoric mystical Africa frozen in time. At once nostalgic, triumphalist, and compensatory, Afrocentrism situates Africa as origin, authenticity, and purity. Such romantic narratives fail to refute Eurocentric racism because they accept its assumptions of an essential division between Africa and the West and prioritize an image of Africa as anterior to modernity” (Goyal, 2014, pGOYAL, Yogita. (2014), “Africa and the Black Atlantic”. Research in African Literatures, 45, 3: v-xxv. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/10.2979/reseafrilite.45.3.v?refreqid=excelsior%3Aa8e60f432db9c60a9f7fd01d7731198e. Acesso em 10/02/2022.
    https://www.jstor.org/stable/10.2979/res...
    . v. Tradução da autora).
  • 5
    No original: “Implicitly Evaristo acknowledges here the risk that a reconceptualization of culture as transnational may be just what corporate capitalism ordered, replacing nation-states with a borderless space allowing for a free flow of capital. Arguably, therefore, satire and dystopian imaginings are politically more strategic than utopianism because they allow the writer to register the strength of capitalist and materialist domination” (Newman, 2012, pNEWMAN, Judie. (2012), “The Black Atlantic as Dystopia: Bernardine Evaristo’s Blonde Roots”. Comparative Literature Studies, 49, 2:283-97. Disponível em: www.jstor.org/stable/10.5325/complitstudies.49.2.0283. Acesso em 10/02/2022.. 296. Tradução da autora).
  • 6
    No original: “Material texts and the types of tactile literacies that inform their production complicate the print nationalism theories of scholars such as Jürgen Habermas and Benedict Anderson, and modify our understanding of which ‘authors’ and what ‘texts’ constitute the corpus of early Atlantic literature. By remaining focused on text-based subject positions, scholarship has been reticent to address how extra-discursive, tactile, and embodied signifying practices challenge the idea that writing alone serves as the primary source of subject formation. Paul Gilroy has argued that scholars should look for the ‘anti-discursive constituents of black metacommunication’ that are grounded in ‘dramaturgy, enunciation, and gesture’ rather than in ‘textuality and narrative’” (Skeehan, 2015SKEEHAN, Danielle C. (2015), “Caribbean Women, Creole Fashioning, and the Fabric of Black Atlantic Writing”. The Eighteenth Century, 56, 1:105-123. Disponível em: https://muse.jhu.edu/article/576769. Acesso em 10/02/2022.
    https://muse.jhu.edu/article/576769...
    , pp. 105-106. Tradução da autora).
  • DOI: 10.1590/3710911/2022

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    28 Nov 2022
  • Data do Fascículo
    2022

Histórico

  • Recebido
    24 Mar 2021
  • Aceito
    01 Dez 2021
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