RESUMO
O objetivo da pesquisa foi analisar a trajetória, formação, perfil e atuação dos editores de periódicos científicos brasileiros da área de educação. Para a seleção dos participantes, foi realizado um levantamento no portal do International Standard Serial Number e elaborada uma lista com 352 periódicos, incluindo os nomes dos editores e contatos. Como instrumentos, foram utilizados o questionário e a entrevista. Para a análise dos dados, empregaram-se a estatística descritiva e a análise de conteúdo. Obtiveram-se 131 respondentes ao questionário e 19 entrevistados. A maior parte dos editores integra os periódicos sem experiência prévia, e a formação se dá pelo autoaprendizado. A atuação é marcada pela ausência de formalização, sem destinação de horas no plano de atividade docente e com sobrecarga de trabalho. Conclui-se que há ausência de reconhecimento da função do editor, com a necessidade de pensar em planos sucessórios e discutir políticas de formalização dessa atuação.
Palavras-chave:
Editor; Editoração Científica; Professores Universitários; Periódico Científico
ABSTRACT
The objective of this research was to analyze the trajectory, training, profile, and role of Brazilian scientific journal editors in the field of education. Data collection was conducted on the International Standard Serial Number portal to select the participants, and a list of 352 journals was compiled, including the names of their editors and contacts. A survey and interview were used as instruments. Descriptive statistics and content analysis were employed for data analysis. A total of 131 respondents completed the survey, and 19 were interviewed. Most editors join journals without prior experience, and their training happens primarily through self-learning. Their work is characterized by informality, with no specific work hours allocated within their academic activity plan, leading to work overload. With this research, it was possible to conclude that the editors’ role lacks recognition, which signals the need to consider succession plans and discuss policies to formalize their function.
Keywords:
Editor; Scientific Publishing; University Professors; Scientific Journal
RESUMEN
El objetivo es analizar la trayectoria, formación, perfil y actuación de los editores de revistas científicas brasileñas del área de Educación. Se realizó un levantamiento en el Portal Internacional del ISSN y se elaboró una lista de 352 revistas, con nombres de sus editores y contactos. Se utilizaron como instrumentos el cuestionario y la entrevista. Para el análisis de los datos se utilizó estadística descriptiva y análisis de contenido. Respondieron al cuestionario 131 personas y 19 fueron entrevistadas. La mayoría de los editores se incorporan a las revistas sin experiencia previa y la formación se realiza mediante el autoaprendizaje. Su trabajo está marcado por la falta de formalización, la ausencia de asignación de horas en el plan de actividades docentes y la sobrecarga de trabajo. Se pudo concluir que existe una falta de reconocimiento de la función del editor, siendo necesario pensar en planes de sucesión y discutir políticas para formalizar este papel.
Palabras clave:
Editor; Publicación Científica; Profesores Universitarios; Revista Científica
INTRODUçãO
No cenário editorial brasileiro, no campo da educação, havia cerca de 120 títulos de periódicos ao final da década de 1990 (Ortega, Fávero e Garcia, 1998). Com o passar do tempo, essa quantidade de periódicos editados chegou a aumentar 100% em uma década (Dionísio, 2016). Na classificação do Qualis-Periódicos referente ao quadriênio 2017–2020, foi avaliado o total de 655 títulos em língua portuguesa cuja área mãe era a educação (Capes, 2022). Esse cenário demonstra que há, na área de educação, grande quantidade de pessoas envolvidas no processo editorial de publicação de periódicos científicos no país.
Dado que, na América Latina e particularmente no Brasil, a maioria dos periódicos é editada por instituições de ensino superior (IES) (Rodrigues e Abadal, 2014; Lujano Vilchis, 2021; Silveira, 2023), quem ocupa a função de editor são predominantemente professores universitários. Esses docentes acumulam atividades diversas de ensino, pesquisa, extensão e administração, junto com demandas cada vez mais complexas como a busca por financiamento, o estabelecimento de projetos e convênios, a representação da universidade em várias instâncias, a internacionalização, entre outros (Zabalza, 2004), às quais a atividade editorial é somada.
Além de todos os aspectos relacionados ao ensino e outras atividades universitárias, é preciso compreender as complexidades envolvidas no processo da editoração científica. Isso inclui o uso de ferramentas tecnológicas de editoração, a conformidade com os critérios estabelecidos pelas bases de dados indexadoras, considerações morais e éticas, bem como a atualização constante em busca do aprimoramento das habilidades necessárias para a rotina na função de editor.
Nesse cenário, o reconhecimento institucional da função de editor desempenhada pelos professores universitários está longe do ideal. Diferentemente de outros países, sobretudo os do norte global, que destinam recursos e investimentos para apoiar essa atuação (Davis e Müllner, 2002; Delgado, 2014; López-López, 2019), no Brasil os editores não contam com a profissionalização de sua função. Isso culmina em um trabalho complexo realizado de forma voluntária, frequentemente de forma invisível até para seus próprios pares (Delgado, 2014; Moreira, 2014), no qual os saberes são construídos intuitivamente e/ou por meio de conversas com colegas imbricados na função (Deslandes e Maksud, 2022).
Essa problemática já foi apontada por fóruns de editores de diversas áreas do conhecimento, como ciências humanas, sociais, sociais aplicadas, letras, linguística e artes (FCHSSALLA, 2021), saúde coletiva (Goldbaum, Antunes e Camargo Júnior, 2021), história (Anpuh, 2021; Castellucci, 2022), educação física (Fórum de Editores de Periódicos Científicos da Área de Educação Física, 2019) e educação (ANPEd, 2017; Mainardes et al., 2022) área foco da pesquisa. Esses editores discutiram e teceram considerações sobre a sustentabilidade e o financiamento dos periódicos, a negligência para com o trabalho editorial por parte das instituições e agências reguladoras, a necessidade de formação por parte dos programas de pós-graduação e o reconhecimento da função de editor.
Do ponto de vista acadêmico, em âmbito brasileiro, as pesquisas direcionadas aos profissionais envolvidos no processo editorial, mais especificamente os editores, ainda não são substanciais se comparadas àquelas focadas estritamente nos periódicos em si. Com foco na área de ciência da informação, a pesquisa de Felix (2021) investigou a percepção dos editores quanto ao Qualis Periódicos, a de Neves (2022) enfocou as questões de gênero na editoria, e a de Eluan (2009) buscou conhecer a percepção dos editores sobre o uso do Open Journal System (OJS). A pesquisa de Fontes (2021) se concentrou em discutir as competências para os editores de periódicos científicos na área de administração. Já o estudo de Werlang (2019) investigou o aporte institucional recebido pelos editores brasileiros para desempenhar suas funções na gestão do periódico.
Não foram identificados estudos com enfoque no papel do editor de forma mais ampla, ou desenvolvidos no âmbito da educação. Isso reforça a necessidade de investigar com maior profundidade o tema proposto, trazendo à tona a realidade laboral dos editores, conforme apontado por Kern e Uriona-Maldonado (2022), que afirmam que os detalhes do trabalho voluntário realizado pelos editores são pouco conhecidos, assim como Oliveira et al. (2020), que mencionam a precarização da função.
Nesse contexto, o objetivo desta pesquisa é analisar a trajetória, formação, perfil e atuação dos editores de periódicos científicos brasileiros na área de educação. Sistematizar essas quatro dimensões da função dos editores em um estudo estruturado também pode auxiliar na discussão e no tensionamento da ideia de que a editoração científica brasileira é mais uma das muitas funções desempenhadas pelos professores universitários, conforme apontaram anteriormente Stigger, Fraga e Molina Neto (2014), Oliveira et al. (2020) e Garcia (2021).
O registro dessa realidade por meio de uma pesquisa científica contribui para a geração de conhecimento a respeito de uma atuação que muitas vezes é velada, já que há historicamente um interesse maior por produções científicas direcionadas aos aspectos técnicos dos próprios periódicos. Dessa forma, esta pesquisa faz avançar em outra direção: o olhar para as pessoas, seus saberes, experiências e desafios.
OPÇÕES METODOLÓGICAS
Esta pesquisa está enquadrada como de métodos mistos, visando integrar as abordagens quantitativas e qualitativas. O universo da pesquisa são os periódicos científicos brasileiros em educação, nos quais se tem como amostra os professores universitários que estão exercendo a função de editores. Como base para a seleção dos participantes, mapearam-se os periódicos publicados no Brasil por meio de uma busca no Portal Internacional do International Standard Serial Number (ISSN), utilizando a interface para assinantes e os parâmetros ligados pelo operador AND: Country: Brazil; Subject: Education; Type of record: Confirmed; Resource status: Currently published; Resource type: Periodical; Medium: Online.
A busca foi realizada em 16 de junho de 2022 e retornou o total de 1.386 resultados, os quais foram salvos em formato .csv para o computador. Foram excluídos os anais de eventos, resultando em 729 registros. Posteriormente, os periódicos foram acessados para verificação quanto à sua pertinência aos critérios da pesquisa, totalizando, ao final, 352 periódicos válidos. Essa etapa foi realizada entre os dias 14 de setembro e 15 de novembro de 2022.
Durante a checagem, foram verificadas as pessoas listadas nos sites dos periódicos que estivessem em possíveis funções de liderança na composição das equipes editoriais, resultando em 588 pessoas. Também foram coletados os e-mails de contato. A coleta de dados foi estruturada para ser realizada em duas etapas sequenciais, utilizando questionário e entrevista, após a aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa.
O questionário foi construído no Google Formulários contendo 50 questões, com 34 fechadas, dez abertas e seis espaços para comentários. O cálculo amostral resultou em uma amostra sugerida de 133 respondentes para o nível de confiança de 95% e margem de erro de 7,5%. O questionário foi enviado para os participantes em duas chamadas, uma entre 23 de novembro e 14 de dezembro de 2022 e outra entre 21 de março e 10 de abril de 2023.
Para a entrevista, adotou-se o modelo semiestruturado, com o roteiro de perguntas composto de 12 questões. A definição da amostra partiu da quantidade de periódicos editados em cada região do país, para que se tivesse proporcionalidade geográfica e diminuição do risco de viés. Dessa forma, determinou-se que a região com menor quantidade de periódicos editados corresponderia a uma pessoa entrevistada e, com base nisso, com o uso de regra de três, foram estabelecidas as quantidades para as demais regiões, que, com arredondamento para cima, totalizaram 19 participantes: um para a Região Norte, quatro para a Região Nordeste, dois para a Centro-Oeste, oito para a Sudeste e quatro para a Região Sul. Os participantes foram selecionados por meio de sorteio dos respondentes do questionário, respeitando sua origem geográfica. As 19 entrevistas foram conduzidas on-line, entre 25 de maio e 26 de julho de 2023, utilizando o software Microsoft Teams.
A análise de dados seguiu as dimensões estabelecidas para a pesquisa, com integração dos aspectos quantitativos e qualitativos no momento de discussão dos resultados (Figura 1).
Os resultados do questionário foram submetidos a análises descritivas conduzidas no software R, versão 4.3.0, e consideraram o nível de significância de 5%. Para a análise das transcrições das entrevistas, foi utilizado o software ATLAS.ti versão 23.2.3 e foi realizada análise de conteúdo (Gibbs, 2009; Bardin, 2020; Saldaña, 2016). A Figura 2 sintetiza as etapas da pesquisa.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A aplicação do questionário obteve a resposta válida de 131 professores universitários que atuam como editores de periódicos científicos em educação, quantidade que se aproxima do número estimado inicialmente, de 133 participantes. Os participantes representam 118 periódicos diferentes. O quantitativo de periódicos é menor do que o de participantes da pesquisa porque alguns editores representam a mesma publicação.
Todas as regiões do país foram representadas, com mais respondentes provenientes da Região Sudeste (39,7%), que é também onde há a maior concentração de periódicos publicados, em virtude de concentrar a maioria dos programas de pós-graduação em educação (Capes, 2023b). Dessa forma, de acordo com o teste χ2 de aderência, não há diferenças estatisticamente significativas entre as proporções de respondentes por região e as proporções de revistas (χ2(4) = 4,140; p = 0,387).
Os editores apresentam idades entre 31 e 81 anos, e a maioria se identifica como mulher (53,4%). A média de idade é de 49 anos, e a mediana é de 47. De acordo com o teste χ2 de independência, há diferenças estatisticamente significativas entre as proporções de gênero de acordo com o segmento (χ2[2] = 17,747; p < 0,001) (Tabela 1). Ou seja, existe a predominância de mulheres na função de editoras; entretanto, quando comparado esse número com a quantidade de docentes do gênero feminino integrantes dos quadros de pós-graduações em educação no país, elas estão sub-representadas nas equipes editoriais.
Quantidades esperadas e encontradas do teste χ2 de independência para a associação entre gênero e segmento.
Esse cenário está de acordo com o chamado "efeito tesoura," termo empregado para indicar que há uma perda no contingente de mulheres à medida que se avança na carreira (Candido et al., 2023; Candido, Campos e Moschkovich, 2023). Outros estudos que compararam a proporção de mulheres docentes do ensino superior com a de mulheres tituladas em doutorado observaram que, conforme a divisão da própria CAPES, há o efeito tesoura em 93% das áreas, incluindo a educação (Candido et al., 2023; GEMAA, 2023). No âmbito da editoração de periódicos, são desconhecidos estudos provenientes da área de educação sobre composição das equipes editoriais e gênero, para fins de comparação.
Quanto à formação, independentemente do nível de titulação, a maior parte dos respondentes é oriundo da área de ciências humanas (graduação 64,12%; mestrado 69,47%; doutorado 70,87%) e concluiu o doutorado (96,94%). Em virtude da característica da pesquisa, todos são professores universitários, e a maior parte (52,3%) exerce a profissão há mais de 15 anos. A maioria dos professores está na ativa (88,5%), e somente 11,4% dos respondentes informou que está aposentado. Os resultados possibilitam inferir que a maioria dos editores assume a função após estar exercendo a profissão há certo tempo, ou seja, são docentes seniores, revelando que a área da educação valoriza a maturidade acadêmica para o desempenho da função.
Com relação aos participantes da entrevista, no total, 19 editores foram escolhidos por sorteio entre os respondentes do questionário, respeitando os critérios definidos na metodologia da pesquisa quanto à distribuição por região do país. Os editores sorteados representam periódicos provenientes de IES públicas (78,95%) e privadas (10,52%), bem como associações (10,52%), têm idade entre 32 e 68 anos e são, em sua maioria, mulheres (73,68%).
TRAJETÓRIA: MOTIVAÇÃO E INÍCIO NA FUNÇÃO
Com relação à experiência prévia na editoração de periódicos científicos, quando questionados se já haviam trabalhado em alguma função editorial anteriormente, 65,6% dos respondentes do questionário informaram que não. Entre os docentes que afirmaram ter tido alguma experiência anterior, esta teve duração entre um e cinco anos (73,9%). A experiência mais comum relatada, no entanto, foi na posição de autor e/ou avaliador, o que apresenta alguma noção do fluxo de comunicação científica, mas não prepara o docente para as questões inerentes à gestão do periódico. Os resultados da pesquisa ressaltam o que vem sendo mostrado pela literatura, que os editores assumem a responsabilidade sem experiência prévia no universo da editoração (Gomes, 2010; García Romero e Martinez-Guerrero, 2018; Deslandes e Maksud, 2022).
Para entender a motivação do docente no ingresso na função de editor de periódico científico, bem como as características desse início, foram utilizados os dados provenientes das entrevistas. Com base na análise de conteúdo, essa trajetória foi organizada nas categorias motivação de ingresso e início na função.
A categoria motivação de ingresso (Figura 3) se subdivide em três subcategorias que mostram de que forma ocorreu o movimento para que os docentes se envolvessem na editoração do periódico em que atuam: demanda da instituição, circunstância do momento e motivação própria.
A demanda da instituição, mencionada por quatro entrevistados, está relacionada a assumir uma posição dentro do periódico para seguir uma normativa, mandato ou solicitação interna, sem que haja necessariamente um interesse real da pessoa em ocupar tal posição. Já as subcategorias circunstâncias do momento e motivação própria, mencionadas cada uma por nove docentes, e, em alguns momentos, se sobrepondo, sugerem que em alguns casos houve algo que culminou em um convite ou situação para a participação na editoria do periódico, e, ao mesmo tempo, a pessoa já nutria interesse em fazer parte da publicação ou em contribuir para ela. "Acabei que eu não quis deixar a revista morrer e falei, não, eu vou assumir. E estou lá até hoje […]. As revistas todas são frutos de alguém que não quer deixar a peteca cair. Vai lá, segura as pontas e faz tudo meio que sozinho" (E15, grifo nosso).
Os dados quantitativos da pesquisa também mostram que, dos 131 respondentes do questionário, 54 (41,2%) participaram da criação do periódico no qual atuam. Essa dinâmica de manter o idealizador do periódico à frente da editoria pode, em alguns casos, trazer problemas para a sustentabilidade da publicação, pois, quando esse docente se afasta por qualquer motivo, não há ninguém que assuma a responsabilidade. Assim, a edição acaba ficando atrelada à motivação de uma única pessoa (Guedes, 2011), e não a um projeto de publicação institucional. A continuidade do idealizador na função de editor também pode estar relacionada à inexistência de planos de sucessão (Werlang e Blattmann, 2022).
Quanto à categoria início na função, foi unanimidade no relato dos entrevistados o quão desafiador foi assumir a editoração do periódico. Em um primeiro momento, os entraves foram relacionados a questões tecnológicas, de uso do sistema de editoração e de entender o fluxo editorial.
Foi desesperador no sentido de ter que entender os bastidores da revista, a questão do sistema, a questão de trabalhar ali. Assim, porque eu tive que dar conta de um sistema que eu não entendia. Eu tive que dar conta de um processo que eu também não entendi, porque nós tínhamos um número para publicar (E17, grifo nosso).
Os entrevistados também mencionaram as dificuldades em receber apoio institucional, seja infraestrutura física, tecnológica, financeira ou de recursos humanos, seja nas orientações para desempenhar a função do editor, bem como no desafio da transição entre equipes editoriais. Esse contexto salienta o caráter artesanal da editoração de periódicos, com um trabalho difícil de conduzir (Alfonso Manzanet e Silva Ayçaguer, 2014).
FORMAÇÃO: APRENDIZADO E NECESSIDADES DE APRIMORAMENTO
Os resultados da análise qualitativa proveniente das entrevistas foram organizados nas categorias como aprendeu e necessidades de formação (Figura 4).
A categoria como aprendeu está dividida nas subcategorias autoaprendizagem, com os pares, cursos e eventos e formação institucional, que se sobrepuseram em alguns momentos de forma combinada na fala dos entrevistados.
Os editores aprendem suas funções de forma autodidata, na prática do dia a dia, mediante uma autoaprendizagem, que aparece na fala de 16 dos 19 entrevistados. O resultado está de acordo com o que vem sendo apresentado pela literatura quanto ao docente editor não receber treinamento na área de editoração, bem como sua aprendizagem ocorrer no dia a dia, amparada na própria experiência, com base em erros e acertos (Deslandes e Maksud, 2022; Fontes e Menegon, 2022; Werlang e Blattmann, 2022).
Como não recebe formação adequada, o editor investe seu tempo aprendendo sozinho e descobrindo o que se espera de sua nova função, e muitas vezes, quando se aprimora na editoração, precisa passar seu cargo para outra pessoa, que reinicia o ciclo de aprendizagem (García Romero e Martinez-Guerrero, 2018).
Em segundo lugar, aparecendo na fala de nove entrevistados, encontra-se a subcategoria com os pares, que demonstra justamente o aprendizado realizado por meio do contato com colegas, de forma individual ou coletiva. A realização de cursos e eventos foi mencionada por seis entrevistados.
Com relação aos resultados provenientes do questionário sobre ter participado de alguma formação por meio de cursos, eventos ou outra modalidade, a maioria dos docentes respondeu que sim (54,2%) e que ela ocorreu durante sua atuação (74%), ou seja, após o ingresso na posição em que ocupa. As formações das quais os docentes participaram foram oferecidas em sua maioria pelo Fórum de Editores de Periódicos da Área de Educação (FEPAE) (51,32%), pela Associação Brasileira de Editores Científicos (ABEC) (47,37%) e pelo Portal de Periódicos da instituição à qual a revista está vinculada (35,53%).
O tema mais abordado nas formações das quais os editores participaram foi o OJS, o que demonstra uma prioridade de aprendizado sobre o sistema editorial utilizado para a gestão científica do periódico. O Qualis Periódicos e a indexação também apareceram de forma substancial nas formações participadas (Figura 5).
Por fim, a subcategoria de menor incidência na fala dos entrevistados sobre como aprendeu suas atividades foi a formação institucional, presente nos relatos de quatro docentes. É possível perceber que o cenário de menor aderência nas entrevistas é também refletido nos resultados quantitativos da pesquisa. Quando questionados se havia formação institucional, 52,6% dos docentes responderam que não, 40,4% que sim, e 6,8% que não sabiam. Como a maioria dos periódicos é editada por IES, há a necessidade de essas instituições planejarem e executarem a formação não apenas dos editores, mas dos demais membros do corpo editorial, pois isso se reflete no patrimônio científico do país (García Romero e Martinez-Guerrero, 2018).
Com relação às necessidades, havia uma questão aberta no questionário para que os docentes pudessem informar em quais temáticas sentiam falta de formação. As principais demandas foram indexação (32,06%), OJS (15,27%), gestão editorial (14,50%), avaliação por pares (8,40%) e Qualis (8,40%). É possível notar que as mesmas temáticas nas quais os editores já participaram de formação (Figura 5) continuam sendo apontadas como necessidades.
Na análise qualitativa, a categoria necessidades de formação foi subdividida em técnica, institucional e do campo. A formação técnica foi mencionada por 18 dos 19 docentes entrevistados e engloba principalmente o domínio de ferramentas tecnológicas e o aprendizado para a utilização do sistema de editoração do periódico, sobretudo o OJS. Esse resultado está alinhado com as formações já realizadas pelos editores, bem como com as necessidades levantadas por meio da análise quantitativa, conforme apresentado anteriormente. Do ponto de vista da subcategoria formação institucional, a demanda veio de quatro entrevistados e trata da necessidade de aprender as perspectivas e políticas da instituição à qual o periódico está vinculado.
Quanto à necessidade de formação do campo, esta subcategoria diz respeito a entender como ocorre a produção de conhecimento no âmbito da própria área de publicação do periódico e foi mencionada por dois entrevistados. Ela pode garantir, por exemplo, a consistência da cientificidade dos artigos publicados (Vasconcellos, 2017). Essa formação também está alinhada ao fato de o editor ter competência em pesquisa e publicação científica, conforme será discutido a seguir, na dimensão de análise perfil.
PERFIL: COMPETÊNCIAS, CARACTERÍSTICAS E CONHECIMENTOS
Os participantes da pesquisa foram convidados a classificar o grau de importância de distintas competências, que acreditavam ser necessárias para desempenhar a função de editor de periódicos científicos. Os resultados demonstraram que, na perspectiva dos docentes, todas são consideradas relevantes, com predominância das competências como pesquisador (83,97%), em publicação científica (90,08%) e gerencial (90,08%). A competência emocional foi a que demonstrou menos aderência entre os respondentes (Figura 6).
Com base na análise qualitativa realizada com os dados provenientes das entrevistas, os resultados foram organizados em duas categorias: características e conhecimentos.
A categoria características reúne elementos que qualificam o perfil do editor (Figura 7) com relação a experiência, postura ou personalidade. Esses elementos estiveram presentes no relato de 15 docentes entrevistados. A principal característica mencionada foi a experiência com publicação científica, o que se mantém de forma alinhada e é complementar ao que foi demonstrado nos resultados quantitativos da pesquisa e com o que é apontado pela literatura, indicando ser desejável que o editor seja um especialista no campo do periódico, com experiência em pesquisas e publicações (Gomes, 2010; Rodríguez Yunta e Tejada Artigas, 2013; Fontes e Menegon, 2022).
Outro elemento mencionado foi a habilidade de estabelecer relacionamentos, mantendo uma postura de criação de redes e contatos, já que o trabalho de edição de periódicos também está atrelado à construção de comunidades que se conectam regionalmente e internacionalmente (López-López, 2019; Fontes e Menegon, 2022) e formam os colégios invisíveis, responsáveis pelo fluxo de comunicação científica.
A categoria conhecimentos esteve presente nos relatos de nove docentes. Entre eles, é mencionada a necessidade de ter profundo conhecimento da área na qual o periódico é publicado, o que está relacionado com a característica de ser um pesquisador e ter publicações, conforme discutido anteriormente. Do ponto de vista técnico, é esperado o domínio de ferramentas tecnológicas e da linguagem, o que possibilitaria ao editor assegurar a qualidade do periódico.
Em menor frequência, foram mencionados aspectos de gestão, no sentido de o editor ter um perfil que seja capaz de lidar com a organização e o gerenciamento do periódico. Embora menos citado nas entrevistas, na análise quantitativa esse conhecimento foi apontado como o terceiro de maior importância e está atrelado à competência gerencial, que engloba a habilidade de tomar decisões, de modo a ter uma visão estratégica e gerenciar os processos do periódico (Fontes e Menegon, 2022).
ATUAÇÃO: EXPERIÊNCIA E DESDOBRAMENTOS DA PRÁTICA
A maioria dos respondentes declarou estar atuando há um período de um e cinco anos (58,7%) como editor do periódico atual. Conforme indicado anteriormente na dimensão de análise trajetória, a maior parte dos respondentes (65,7%) está vivenciando sua primeira experiência como editor de periódico. Os editores experientes, com mais de 15 anos de atuação, somam 4,5%.
O tempo de atuação nos periódicos coincide com o encontrado por Silveira (2023) em um estudo realizado com 351 editores de periódicos brasileiros de todas as áreas do conhecimento indexados no Latindex. A autora identificou que a maioria dos editores tinha experiência de até três anos (28,21%), caracterizando-os como "jovens editores," ou de até seis anos na função (25,36%).
Com relação à composição das equipes editoriais, 90,8% dos docentes responderam que contam com outras pessoas trabalhando nas atividades diárias do periódico. A maioria informou que conta com ao menos uma pessoa (17,8%) na equipe; a média é de aproximadamente quatro. Não foi investigada neste estudo a posição ou função das outras pessoas mencionadas, portanto não é possível inferir de que forma isso impacta as tarefas cotidianas dos editores.
Os resultados da análise qualitativa, proveniente das entrevistas, foram organizados em seis categorias: atividades desempenhadas, organização da rotina, desafios, reconhecimento, produtividade e associações e redes de contatos (Figura 8).
ATIVIDADES DESEMPENHADAS
As atividades relatadas pelos editores como realizadas com maior frequência são as relacionadas à publicação científica (86,26%) e a questões técnicas (80,92%). Já as atividades sociais foram classificadas como menos frequentes.
Na categoria atividades desempenhadas (Figura 9), o mesmo cenário apontado nos questionários se repetiu no resultado das entrevistas. A maioria dos docentes é responsável pelas atividades relacionadas à publicação científica. Editores que dispõem de uma equipe mais estruturada tendem a centralizar mais as atividades de supervisão e gerenciamento da qualidade científica do periódico que questões técnicas. Em contraste, os editores que dispõem somente de bolsistas ou colegas editores com função similar, situação da maioria do grupo entrevistado, se responsabilizam tanto pelas atividades inerentes à publicação científica como pelas atividades de cunho técnico, que abrangem desde o momento em que o artigo é submetido ao sistema do periódico até sua publicação final.
Esses resultados revelam um cenário em que o docente "faz tudo," o que torna a gestão do periódico mais complexa e trabalhosa. Um dos motivadores dessa situação é a falta de financiamento, que resulta na ausência de recursos humanos e na incapacidade de contratação de serviços especializados, como o de diagramação. Essa é uma das características dos periódicos editados por IES na América Latina, na qual não há uma profissionalização da função do editor, ao contrário do que ocorre em países com mais recursos ou em periódicos publicados por editoras comerciais (Delgado, 2014; López-López, 2019).
Os editores dedicam muitas horas ao encaminhamento e à gestão de um mesmo artigo, ainda que, ao final do processo, ele seja rejeitado (Chaitow, 2019) o que torna o trabalho de certa forma invisível, mesmo que seja dispendioso. Dessa forma, os periódicos costumam ser viabilizados graças aos esforços individuais dos docentes, cenário que traz consigo o aumento da carga de trabalho (Delgado, 2014), conforme será discutido mais adiante.
Em menor escala, os editores mencionaram que realizam atividades administrativas e gerenciais, como reuniões com a equipe, busca e participação em editais de fomento, entre outros. Somente três docentes mencionaram que realizam atividades consideradas sociais, e estas estão atreladas ao estabelecimento de redes de contatos para a publicação de dossiês.
ORGANIZAÇÃO DA ROTINA
Sobre o tempo destinado para as atividades inerentes ao periódico científico, a maioria dos editores informou que dedica, em média, entre quatro e oito horas semanais (51,15%). Dado que os docentes acumulam múltiplas funções provenientes de pesquisa, ensino e extensão com a editoria do periódico no qual atuam, foi de interesse deste estudo investigar de que forma eles alocam as atividades relacionadas ao periódico na agenda e em suas rotinas. Dessa forma, a categoria organização da rotina foi subdividida em três subcategorias, a saber, frequência definida, sob demanda e final de semana, que podem se sobrepor entre si na fala dos entrevistados, já que a mesma pessoa pode assumir formas diferentes de organização do trabalho.
Na subcategoria frequência definida, levaram-se em consideração os relatos que mencionam a dedicação de alguma carga horária, dia da semana ou intervalo de tempo para as atividades do periódico de forma regular. Essa prática foi relatada por nove docentes, que buscam algum tipo de ordem ou padrão em suas agendas.
Na subcategoria sob demanda, por sua vez, foram agrupados os relatos de 12 editores, que alegam atuar no periódico conforme a necessidade. Alguns mencionaram que recebem as notificações do sistema por e-mail. Muitas vezes, essa notificação se dá também no celular, o que chama a atenção pelo fato de ser um trabalho que "não tem hora nem lugar," envolvendo a vida dos docentes a todo momento.
Por fim, a subcategoria final de semana foi mencionada por 15 dos 19 editores entrevistados, que relataram dedicar parte dos sábados e domingos para lidar com as demandas dos periódicos. Em alguns relatos, há a menção de momentos de trabalho em feriados, como Natal e Ano Novo. "Eu já cometi o absurdo, mas para dar conta, eu e uma pessoa que diagrama a revista […] no dia 31 de dezembro, eu e ele trabalhando em pleno 31 de dezembro, para que à tarde a gente conseguisse fechar. Então isso se transformou numa rotina, quase" (E3, grifo nosso).
O acúmulo de funções e essa dinâmica de trabalho pode culminar no comprometimento da vida privada em consequência das atividades editoriais. Há um custo acadêmico e pessoal para exercer a função, o que leva os editores a desejarem sua substituição por outro docente, mesmo que gostem do que fazem (Guedes, 2011). A dedicação é bastante dispendiosa e consome, até mesmo, o tempo que deveria ser destinado ao descanso (Hernández Fernández, 2012).
DESAFIOS
Os docentes entrevistados nesta pesquisa foram convidados a relatar os principais desafios relacionados à função de editor. As respostas foram organizadas na categoria desafios e divididas nas subcategorias práxis e sobrecarga de trabalho, que agrupam também outros relatos obtidos para além desse questionamento inicial, que pulverizaram as falas em momentos diversos.
A primeira subcategoria, práxis, reúne os relatos de ordem prática relacionados ao fazer dos editores de periódicos científicos. Foi quase unanimidade na fala dos docentes a dificuldade de conseguir avaliadores, de fazer com que sejam respeitados os prazos de avaliação e de obter as devolutivas desses pareceristas, dinâmica que consome tempo dos editores. Esses resultados são semelhantes aos encontrados por Deslandes e Maksud (2022), que entrevistaram editores da área de ciências sociais e humanas em saúde.
Os editores também mencionaram os desafios relativos à manutenção da equipe editorial e de infraestrutura física, tecnológica e financeira, com fortes relações a questões institucionais. É uma característica da América Latina que os periódicos sejam editados por IES, o que influencia as questões administrativas e de financiamento (Sandes-Guimarães e Diniz, 2014), e muitas delas não têm infraestrutura adequada para dar apoio às atividades editoriais (Corera-Álvarez e Molina-Molina, 2016).
Ao contrário de outros países, principalmente do Norte Global, em que a atividade de editoria é algo profissional e de dedicação exclusiva, no Brasil ela se caracteriza por se somar a outras funções inerentes à docência, o que leva ao desafio da sobrecarga de trabalho. Essa subcategoria foi atrelada ao relato de 12 entrevistados, que em maior ou menor grau acumulam diversas funções, sendo uma delas a de editor. "A gente fica se perguntando toda vez que tem que colocar uma edição no ar, a gente fala: meu Deus, que que eu estou fazendo com a minha vida?" (E15, grifo nosso).
É, eu diria que é o que que a sobrecarga de trabalho, né? […] Mas é sábado e domingo, nós estamos sentados aqui, produzindo. Está o sol lá fora, uma beleza de sol, e a gente está aqui sentado, produzindo. São atividades que impactam na nossa saúde, no nosso estresse, né? Na nossa qualidade de vida (E16, grifo nosso).
Dessa forma, ser editor na América Latina é mais desafiador se comparado a exercer a função em países que oferecem mais recursos, já que o docente acumula as diversas atribuições de editoração do periódico com outros papéis, como os de ensino e pesquisa (López-López, 2019) e, frequentemente, essa atuação nem é considerada no contrato de trabalho (Guedes, 2011). Essa conjuntura, que leva ao adoecimento, conforme mencionado por um dos entrevistados, ainda assim é muitas vezes normalizada.
Porque estar na editoração de uma revista não diminui nada a nossa carga horária de trabalho, né? Você só acumula mais trabalho […]. E a lógica é […] que a gente vai adoecendo e trabalhando, tá? Então, colega que está doente, com o braço quebrado e trabalhando porque a revista assim é mais um trabalho, né? […] Eu acho que o grande nó, o grande desafio eu diria que é o ponto nevrálgico disso tudo, é a sobrecarga do trabalho docente (E11, grifo nosso).
Kern e Uriona-Maldonado (2022), ao trabalharem com modelagem e simulação de cenários referentes à sobrecarga de trabalho de editores da ciência da informação brasileiros, concluíram que esse excesso pode levar ao burnout, o que consequentemente resulta no colapso do periódico pelo qual são responsáveis. Para os autores, o trabalho editorial é precarizado no Brasil, e a saúde dos editores geralmente não é contabilizada.
O mesmo é apontado por Garcia (2021), ao mencionar que os docentes são obrigados a invadir sua vida privada e vivenciar a precarização do trabalho para poder cumprir as exigências do modelo de universidade que está em vigor. Para a autora, esse cenário leva ao sucateamento da universidade, à insatisfação profissional e à sobrecarga dos docentes, na medida em que remove o tempo de descanso, de lazer, de vida social e familiar.
RECONHECIMENTO
A categoria reconhecimento foi subdividida em formalização e voluntariado. Ambas buscam explicitar as condições de atuação dos editores de periódicos científicos do ponto de vista institucional e administrativo.
Quanto à formalização, 52,6% dos docentes informaram haver algum tipo de documento institucional que os reconhecem como editor do periódico. No entanto, predomina entre os docentes a ausência de uma alocação formal de horas de trabalho destinadas à função (Tabela 2).
Em pesquisa realizada com os editores associados à ABEC, Werlang e Blattmann (2022) verificaram que não existe um enquadramento específico para a função de editor nas instituições brasileiras e que 70% dos participantes não possuem formalização de carga horária para essa atuação, resultado semelhante ao dos editores da área da educação aqui estudados. Para as autoras, esse cenário não é propício para que os periódicos alcancem a qualidade exigida pelas agências reguladoras e de fomento. Na visão de Lujano Vilchis (2021), é necessário incluir o trabalho dos editores nas políticas universitárias, dado que são as universidades as responsáveis pelo sistema de publicação na América Latina.
Com base nos dados qualitativos, foi possível perceber que há uma dificuldade em conseguir um documento oficial que designe o docente como editor responsável pelo periódico. Em muitos casos, o único lugar no qual consta a informação de que o professor é editor é o próprio site do periódico, o que traz consequências administrativas no sentido de dificultar a comprovação dessa atuação, pois, quando há alteração da equipe editorial, os editores anteriores são "apagados" do site e substituídos pelos novos. Com sorte, o periódico mantém uma página de histórico e/ou preservam-se os editoriais, caso sejam assinados.
Chama a atenção, na fala de uma das entrevistadas, que ao solicitar formalmente uma portaria que oficializasse sua atuação enquanto editora, a instituição respondeu que não existe essa função na universidade, o que revela a desvalorização do trabalho relacionado à gestão de um periódico, responsável pela socialização do conhecimento gerado, sobretudo, pelas próprias universidades por meio de suas produções. "Eu não tenho mais portaria porque eles disseram que não existe essa portaria. […] Assim, isso eu pedi, né? E aí a minha chefia imediata e a direção do centro […] disseram que não existe essa função na universidade" (E19, grifo nosso).
Entre os que têm algum tipo de formalização, estão os editores de periódicos editados por associações. Nesse caso, o cenário é distinto e há um mandato com a designação do editor formalizada em um documento. Entretanto, como o docente está atuando fora de sua IES em uma atividade paralela, tampouco há designação de carga horária.
Dessa forma, o trabalho dos editores brasileiros é complexo, invisível e muitas vezes anônimo até mesmo para a comunidade científica da sua própria área. Gasta-se tempo e energia de forma voluntária para desenvolver a revista, sem, no entanto, haver reconhecimento pelos pares (Moreira, 2014).
Ao se compararem as respostas referentes às horas reais trabalhadas, conforme apresentado anteriormente na categoria organização da rotina, com aquilo que determina o documento institucional, nota-se que a carga horária real trabalhada da maioria dos editores tem formalização de até 25%, independentemente de quantas horas sejam de fato dedicadas ao periódico por semana. Dado que a maioria dos respondentes informou destinar no máximo oito horas para as atividades editoriais, a formalização de 25% dessa carga horária possivelmente é um quantitativo bastante baixo para atender às distintas demandas. Apenas dois docentes mencionaram ter um documento com destinação de 100% da carga horária efetivamente trabalhada (Tabela 3).
Tempo real dedicado ao trabalho com a revista por semana em relação às horas especificadas no documento institucional (n = 26)*.
Na visão de Kern e Uriona-Maldonado (2022, p. 484), não ter recursos suficientes nem tempo adequado para o trabalho editorial "corrói a saúde dos editores e favorece interrupções de submissões, atrasos e até o colapso das revistas." Os editores somam muitas responsabilidades no escopo de uma mesma jornada de trabalho, de modo que a editoração de periódicos não é, muitas vezes, incluída formalmente nessa jornada, muito menos recompensada financeiramente (García Romero e Martinez-Guerrero, 2018). Essa conjuntura demonstra que o apoio para a profissionalização do trabalho do editor na América Latina é praticamente nulo (Lujano Vilchis, 2021).
No que tange à subcategoria voluntariado, esta aparece na fala de 11 docentes entrevistados. Os relatos ressaltam o fato de eles não receberem carga horária nem qualquer remuneração extra para as atividades que desempenham. Como a jornada de trabalho extrapola o período oficial, ela nem mesmo pode ser considerada hora-extra, de modo a ter, assim, um caráter de trabalho voluntário.
PRODUTIVIDADE
Quanto à categoria produtividade, o intuito foi investigar, neste estudo, se a atuação como editor de periódico científico impactava as atividades de docência e de pesquisa, esta última mais especificamente relacionada à autoria e à publicação. A motivação para a inclusão da questão sobre o impacto na produtividade na carreira enquanto pesquisadores e autores foi estimulada pela literatura, que indica haver um dilema enfrentado pelos editores entre alocar tempo para suas próprias pesquisas e/ou para o trabalho editorial (Aguinis et al., 2010; Aguinis e Vaschetto, 2011).
Do ponto de vista quantitativo, os editores responderam de forma bastante categórica que a atuação como docente não é prejudicada pelas atividades editoriais (78,2%). Em contraste, apenas 49,6% não sentem esse prejuízo na sua produtividade como pesquisador/autor (Figura 10).
Com o intuito de validar e compreender melhor os resultados provenientes da aplicação do questionário, a questão da produtividade foi aprofundada durante as entrevistas com os docentes. Para fins de organização, foram criadas as subcategorias auxilia e prejudica, que em alguns momentos se sobrepuseram na fala dos editores, os quais apresentaram argumentos a favor dos dois tópicos de forma combinada.
A subcategoria auxilia foi mencionada por 15 dos 19 docentes entrevistados. As duas principais argumentações foram relacionadas a ter um conhecimento profundo do processo de publicação científica, o que facilita o envio e a publicação de artigos, e a estar na vanguarda das discussões do campo. Já a subcategoria prejudica foi mencionada por oito editores. O principal argumento destes é que o tempo que seria usado para as próprias produções científicas precisa ser realocado para o trabalho editorial, o que estaria de acordo com o dilema apresentado pela literatura.
Um dos editores destacou que talvez os resultados quantitativos tenham sinalizado menor impacto da editoração científica na produtividade dos docentes porque é costume destes assumirem as coisas, mesmo que isso traga algum tipo de sobrecarga conforme discutido anteriormente ou adoecimento. Essa argumentação pode ser contextualizada na cultura do excesso do trabalho, conforme apontado por Barnett, Mewburn e Schroter (2019). Os autores realizaram um estudo com 49 mil submissões de manuscritos e 76 mil revisões por pares do período entre 2012 e 2019 em periódicos da medicina, e identificaram que há altos níveis de trabalho fora do expediente, incluindo finais de semana e feriados, em comparação com os dias da semana. O Brasil foi representado no estudo com horário de pico tardio em relação à submissão de manuscritos.
Embora seja proveniente de uma área distinta da educação, esse estudo está de acordo com os achados da pesquisa realizada com os editores quanto à sobrecarga de trabalho e à utilização de finais de semana para dar conta de suas demandas, conforme já discutido. Se os docentes usam esses períodos para atividades editoriais, é possível presumir que o utilizam também para escrever seus próprios artigos e dar andamento às pesquisas nas quais estão envolvidos.
ASSOCIAÇÃO E REDES DE CONTATOS
A maior parte dos docentes (81,68%) relatou ter contato com outros editores de periódicos científicos para a troca de experiências. Esse contato ocorre principalmente por e-mail (51,43%), de modo individual, ou em listas de discussão, em como via aplicativo WhatsApp (46,67%). Com base na análise qualitativa, os relatos dos entrevistados foram distribuídos nas subcategorias FEPAE, outros grupos de editores, não participação e não tem contato.
A participação no FEPAE foi mencionada por nove entrevistados. Ela envolve desde um acompanhamento mais ativo nas atividades do grupo até uma postura passiva de não se envolver nas discussões e nas iniciativas, mas de fazer a leitura, por exemplo, dos e-mails. Quanto à associação, 44,2% dos editores responderam que possuem o vínculo com o FEPAE, 42,7% não o mantêm e 12,9% dos respondentes do questionário não têm conhecimento da existência do Fórum.
A subcategoria outros grupos de editores, por sua vez, está relacionada à fala de 12 docentes. São, muitas vezes, coletivos formados por editores de diversas áreas do conhecimento de forma institucional, em alguns momentos estimulados pelo portal de periódicos da IES. Essa subcategoria também engloba os grupos que são formados por iniciativas próprias de alguns docentes juntamente com colegas mais próximos. Outros espaços mencionados foram as trocas oportunizadas pela ABEC, o grupo formado pelos editores da Rede Federal e a troca entre pares dos periódicos indexados na Scientific Electronic Library Online (SciELO).
A subcategoria não participação diz respeito a editores que reconhecem que existem grupos, mas não o integram, principalmente por questões de indisponibilidade de tempo em razão da sobrecarga de trabalho, conforme já discutido anteriormente. Por fim, a subcategoria não tem contato está relacionada a dois editores que mencionaram não ter relações com os pares.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante do cenário oportunizado pelos achados da pesquisa, é possível concluir que os editores trabalham de forma voluntária, já que a carga horária dedicada ao periódico extrapola a jornada para o qual são contratados, não há o recebimento de hora-extra, tampouco há a alocação correta de horas para a função como algo inerente ao cargo de docente. A ausência de reconhecimento da função ocorre em âmbito institucional e, muitas vezes, também entre os pares da área, o que torna a editoração de periódicos uma prática invisibilizada.
Os editores de periódicos científicos são, em certa medida, corresponsáveis por definir carreiras, visto que seu trabalho dá visibilidade ao conhecimento gerado pelos autores por meio de publicações científicas que os legitimam, para que possam progredir em suas profissões ou em processos seletivos diversos. No entanto, não são capazes de, em geral, utilizar a editoração do periódico à qual dedicam várias horas, inclusive as que seriam de descanso e lazer para a progressão e valorização das suas próprias carreiras. Isso demonstra uma falha grande no entendimento da importância dessa função como propulsora da ciência brasileira.
Dito isso, os resultados da pesquisa apontam para a necessidade de, em primeiro lugar, pensar em planos sucessórios para os periódicos, de modo que haja uma renovação e uma distribuição de trabalho entre os docentes e que um periódico não seja descontinuado por falta de interesse e apoio institucional. Da mesma forma, a oferta de formação específica para atender às necessidades dos editores deve ser contínua.
Não menos importante é a necessidade de discutir e formular políticas que possam formalizar a atuação dos editores de periódicos científicos, tanto de forma institucional, por meio de documentos comprobatórios e inclusão de carga horária real, quanto pelos demais sistemas inerentes à profissão de docente universitário, por meio de editais, planos de atividades, concursos e processos seletivos.
Pesquisas futuras podem verificar se a presença de uma equipe editorial diminui a sobrecarga de trabalho do editor e se isso se reflete em um periódico com melhores indexadores e/ou indicadores bibliométricos. Sugere-se que sejam expandidas as investigações sobre gênero nas equipes editoriais dos periódicos científicos brasileiros de educação e em diferentes funções de liderança ocupadas pelos docentes, a fim de verificar possíveis disparidades. É pertinente investigar, de forma transversal, a produção científica dos editores de modo a confirmar se há alteração na publicação durante o período de editoria em relação ao período anterior e ao período posterior a essa atuação. Ainda, podem-se expandir as investigações sobre o adoecimento docente e sua relação com a editoração de periódicos.
Por fim, pesquisas futuras podem verificar as mesmas questões apresentadas nesta pesquisa em outras áreas do conhecimento, a fim de compreender se há similaridade ou variação por meio da comparação dos resultados encontrados, ampliando assim o entendimento do cenário da editoração científica no país e sua relação com o trabalho docente.
Declaração de disponibilidade de dados:
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.
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Editor/a responsável:
Décio Gatti Júnior https://orcid.org/0000-0002-5876-6733











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