Open-access Efeitos da meditação na saúde dos estudantes de Medicina: uma revisão rápida da literatura

RESUMO

Introdução:  Pesquisas crescentes sugerem que os estudantes de Medicina estão em alto risco de experimentar inúmeras doenças psicológicas. Nessa população, são maiores os índices de estresse, depressão, sofrimento mental, burnout, e menores os índices de satisfação com a vida quando comparados com estudantes de outros cursos e com a população em geral. Nesse contexto, é evidente a necessidade de buscar estratégias eficazes que ajudem a regulação emocional e o autocuidado dos estudantes de Medicina.

Objetivo:  Este estudo teve como objetivos examinar e resumir as evidências existentes na literatura sobre o impacto da prática meditativa na saúde dos estudantes de Medicina e, assim, estimular sua utilização de forma individual ou como parte de programas implementados pelas escolas médicas.

Método:  Trata-se de uma revisão rápida de literatura, realizada de acordo com as recomendações do protocolo PRISMA. A busca utilizou os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS/MeSH) com base na pergunta norteadora da pesquisa, incluindo apenas ensaios controlados randomizados publicados no período de 2013 a 2023.

Resultado:  Foram incluídos nesta pesquisa seis documentos. Os achados evidenciam que a prática de meditação mostrou-se eficaz na redução do estresse percebido, do sofrimento psicológico e da vulnerabilidade ao desenvolvimento de psicopatologias, bem como na promoção do bem-estar, da satisfação com a vida, da atenção plena, da autoeficácia percebida, da autocompaixão e do altruísmo. Ademais, efeitos positivos em longo prazo também foram identificados, especialmente no incremento do bem-estar, da autocompaixão, da autoeficácia, da satisfação com a vida e na diminuição da vulnerabilidade ao desenvolvimento de psicopatologias.

Conclusão:  Os resultados encontrados revelam que a meditação apresenta benefícios em vários aspectos da saúde dos estudantes de Medicina. Embora novos estudos sejam necessários para comprovação, esses achados sugerem que a prática pode ser uma ferramenta promissora na redução do estresse e, por consequência, dos índices de suicídio, além de poder impulsionar o desempenho acadêmico e o cuidado destinado ao paciente.

Palavras-chave:
Meditação; Atenção Plena; Estudantes de Medicina

ABSTRACT

Introduction:  Increasing research suggests that medical students are at high risk of experiencing numerous psychological disorders. This population shows higher rates of stress, depression, mental distress, burnout, and lower levels of life satisfaction compared to students from other disciplines and the general population. Consequently, there is a clear need to seek effective strategies that promote emotional regulation and self-care among medical students.

Objective:  Review and summarize existing evidence in the literature on the impact of meditation practice on the health of medical students, thereby encouraging its individual use or as part of programs implemented by medical schools.

Method:   This is a Literature Rapid Review conducted following the recommendations of the PRISMA protocol. The search used Health Sciences Descriptors (DeCS/MeSH) based on the research guiding question, including only Randomized Controlled Trials published in the last 10 years.

Result:   Six documents were included in this research. The findings show that meditation was effective in reducing perceived stress, psychological distress, and vulnerability to the development of psychopathologies, as well as in promoting well-being, life satisfaction, mindfulness, perceived self-efficacy, self-compassion, and altruism. In addition, long-term positive effects were also identified, especially in increasing well-being, self-compassion, self-efficacy, life satisfaction, and decreasing vulnerability to the development of psychopathologies.

Conclusion:   The results found reveal that meditation presents benefits in various aspects of the health of medical students. Although further studies are needed for confirmation, these findings suggests that the practice can be a promising tool in reducing stress and, consequently, suicide rates, as well as potentially boosting academic performance and patient care.

Keywords:
Meditation; Mindfulness; Students, Medical

INTRODUÇÃO

Um volume crescente de pesquisas sugeriu que os estudantes de Medicina estão em alto risco de experimentar inúmeras doenças psicológicas1. Nessa população, são maiores os índices de estresse, depressão, sofrimento mental e burnout, e menores os índices de satisfação com a vida quando comparados com estudantes de outros cursos e com a população em geral2. A prevalência de depressão na população em geral varia de 7,2% a 9,3%, enquanto para os acadêmicos de Medicina é estimada em 27,2%1. Uma revisão de 32 metanálises encontrou uma prevalência de 32,5% de sintomas depressivos ou ansiosos, 41,7% de estresse percebido, 42% de problemas de sono e 8,9% de ideação suicida nessa população3. Em concordância, estudos norte-americanos apontaram prevalência de 47% de burnout e 49% de sintomas depressivos, enquanto estudos australianos demonstraram prevalência de 48% de sofrimento psicológico4. No Brasil, a prevalência de condições psicológicas entre estudantes de Medicina é expressivamente alta. Segundo uma revisão sistemática e metanálise, aproximadamente 49,9% dos estudantes apresentam estresse elevado; 51,5%, baixa qualidade do sono; 32,9%, sintomas de ansiedade; e 30,6%, sintomas depressivos5.

Nesse sentido, pode-se encontrar na literatura que os fatores mais relacionados com a gênese desse sofrimento são alta carga de estudo, alta competitividade entre os colegas, privação de sono, alimentação irregular, abusos de poder por parte dos professores, altos níveis de exigência, isolamento social, falta de tempo para o lazer6, provas frequentes, problemas familiares, atividades extracurriculares4, preocupações financeiras, exposição a dilemas éticos e morte7. A combinação dos estressores acadêmicos pode acarretar uma baixa saúde mental e insatisfação com a vida1, além de impactar negativamente o desenvolvimento profissional e a performance acadêmica8. Tais situações podem prejudicar a capacidade de conectar-se com o paciente, de fornecer cuidados empáticos1 e de tomar condutas médicas corretas2. As consequências de longo prazo podem envolver a prestação de um atendimento desigual ou de menor qualidade aos pacientes, além do aumento de absenteísmo e presenteísmo, e da baixa retenção da força de trabalho, observada quando os médicos se afastam temporária ou permanentemente da profissão9. Torna-se, então, evidente a necessidade de estratégias que ajudem a regulação emocional e o autocuidado dos estudantes de Medicina, principalmente no meio acadêmico.

Presente em diversas tradições religiosas e filosóficas, a meditação é uma prática muito antiga e engloba várias atividades que buscam o relaxamento a partir do foco em determinados objetivos10. De modo geral, os diferentes tipos de meditação são classificados em dois grupos: técnicas concentradoras, as quais utilizam a focalização em algum objeto, música ou sensação (por exemplo, meditação transcendental), e atenção plena, conhecida como mindfulness, a qual busca a completa atenção no momento presente, sem julgar as emoções ou experiências do indivíduo11.

Algumas revisões sistemáticas demonstraram que programas de meditação e intervenções baseadas em mindfulness levaram a melhorias na resiliência ao estresse, à ansiedade, à depressão1, ao sofrimento psicológico e ao déficit de atenção, e na autocompaixão, na autoconsciência, na empatia, no afeto e na retenção de conhecimento entre estudantes universitários e outras populações2. Os efeitos observados podem estar relacionados à diminuição da atividade do sistema nervoso simpático, o que resulta em reduções consistentes de cortisol, frequência cardíaca, pressão arterial sistólica e marcadores inflamatórios, como proteína C-reativa e TNF-α12. Contudo, os efeitos nos discentes de Medicina permanecem incertos, pois ainda são escassos os estudos em que a terapêutica foi direcionada para essa população.

Nesse sentido, este artigo reúne, de forma sistemática, todas as informações existentes na literatura que indiquem o impacto da prática meditativa na saúde dos estudantes de Medicina e, assim, estimula sua utilização de forma individual ou como parte de programas implementados pelas escolas médicas. Espera-se encontrar efeitos positivos de mindfulness e outros métodos meditativos na saúde dos estudantes de Medicina não apenas relacionados ao estresse, à ansiedade, à depressão e à qualidade de vida, mas também no que concerne à empatia, atenção, memória e autoconsciência.

MÉTODO

Trata-se de uma revisão rápida de literatura, realizada de acordo com as recomendações do protocolo Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA)13, para investigar os efeitos da meditação em estudantes de Medicina. A estratégia PICO (P - population; I - intervention; C - comparison; O - outcomes)14 guiou a elaboração da pergunta norteadora:

  • Quais são os efeitos em saúde da meditação em estudantes de Medicina?

A busca de dados ocorreu no mês de maio de 2023, e foram utilizadas a Scientific Electronic Library Online (SciELO) e as bases indexadas da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e da National Library of Medicine (NLM) a partir da plataforma PubMed, incluindo Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Modelos de Saúde e Medicamentos Tradicionais, Complementares e Integrativos nas Américas (MOSAICO) e Índice Bibliográfico Espanhol em Ciências da Saúde (IBECS).

Utilizaram-se os seguintes Descritores em Ciências da Saúde (DeCS/MeSH) em inglês e suas traduções: “meditation”, “mindfulness” e “students medical”. Os termos foram combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR. A pesquisa avançada transcorreu da seguinte forma em cada plataforma de busca: BVS: (mh:(Meditação OR Meditation OR Meditación OR “Atenção Plena” OR “Mindfulness” OR “Atención Plena”)) AND (mh:(“Estudantes de Medicina” OR “Students Medical” OR “Estudiantes de Medicina”)); SciELO: ((*“meditação” OR “atenção plena”) AND (“estudantes de medicina”)); PubMed: Meditation [Mesh] OR Mindfulness [Mesh] AND Students, Medical [Mesh].

De acordo com a questão norteadora da revisão, adotaram-se os seguintes critérios de inclusão: 1. artigos publicados com texto completo disponível nas bases de dados; 2. artigos publicados no período de 2013 a 2023; 3. artigos publicados nos idiomas português, inglês e espanhol; 4. artigos com desenho de ensaio controlado randomizado; 5. artigos que abordassem a temática de efeitos da meditação em estudantes de Medicina; 6. artigos nos quais a intervenção seja aplicada, no mínimo, durante quatro semanas; e 7. artigos com desfechos primários ou secundários em saúde.

Adotaram-se os seguintes critérios de exclusão: 1. artigos que não visassem apenas à população de estudantes de Medicina; 2. artigos que abordaram meditação associada a outro método de intervenção; 3. artigos nos quais o grupo de controle recebeu algum tipo de intervenção; e 4. artigos de revisão de literatura, estudos observacionais e transversais.

Após a identificação dos resultados a partir dos termos de busca utilizados, aplicaram-se os filtros de pesquisa: 1. data de publicação na SciELO e PubMed, e 2. ensaio controlado randomizado na PubMed. Nenhum filtro foi aplicado na plataforma da BVS. Por meio da ferramenta de automação web Rayyan: systematic review (https://www.rayyan.ai), excluíram-se os artigos duplicados e com metodologia inadequada, e, posteriormente, o autor principal avaliou os demais de acordo com o título e resumo, o que foi seguido de leitura completa e inclusão final baseada nos critérios de elegibilidade preestabelecidos. Os artigos excluídos pela ferramenta de automação como metodologia inadequada foram revisados de acordo com título e resumo para evitar erros de exclusão. As referências citadas nos estudos incluídos nesta revisão, assim como de revisões sistemáticas similares, foram examinadas na tentativa de ampliar a inclusão.

Coletaram-se as seguintes informações dos artigos incluídos: 1. nome do primeiro autor; 2. desenho do estudo; 3. população; 4. número de participantes; 5. tipo e duração da intervenção; 6. ferramentas de mensuração; e 7. desfechos e valor-p. Devido à heterogeneidade quanto ao tipo de intervenção, às medidas de desfecho e à forma de relato, os resultados foram sintetizados de maneira narrativa e apresentados tanto em texto quanto em tabelas. A qualidade dos estudos incluídos foi avaliada pela Effective Public Health Practice Project Quality Assessment Tool - EPHPP (https://www.ephpp.ca), a qual considera a forma de seleção dos participantes, o desenho do estudo, os fatores de confusão, o método de cegamento, o método da coleta de dados e o acompanhamento.

RESULTADOS

Inicialmente, rastrearam-se 931 documentos, dos quais cinco foram encontrados na base de dados da BVS, 102 na PubMed e 824 na SciELO. Em seguida, após aplicação dos filtros e uso da ferramenta de automação, excluíram-se os artigos duplicados, publicados há mais de dez anos e com desenho metodológico inadequado, restando 38 para análise subsequente. Após a leitura do título e resumo, eliminaram-se 31 artigos que não tinham relação com a temática ou não respondiam à pergunta do estudo. Dos sete artigos analisados por meio de leitura completa, dois foram excluídos por não responderem à pergunta norteadora. A partir da busca em outras fontes, um artigo atendeu aos critérios de elegibilidade e foi incluído na revisão. Em suma, incluíram-se nesta pesquisa seis documentos7),(15)-(19. O fluxograma dos métodos de identificação, triagem e inclusão está representado na Figura 1.

Figura 1
Fluxograma dos métodos de identificação, triagem e inclusão de trabalhos na revisão, adaptado de acordo com o PRISMA Flow Diagram.

Durante a análise, cinco artigos se enquadraram nos critérios de inclusão, porém foram excluídos devido à associação com outros métodos de intervenção20),(21, ao tempo de intervenção curto22 e à contaminação da amostra com outra população23)-(28. Por fim, os trabalhos incluídos foram todos ensaios clínicos randomizados, englobando 560 estudantes de Medicina do primeiro ao quarto ano, 279 (49,9%) no grupo de intervenção e 281 (50,1%) no grupo de controle. O Quadro 1 apresenta as demais características dos artigos incluídos. Informações secundárias com relação a aspectos sociodemográficos não foram consideradas dignas de nota.

Quadro 1
Características dos estudos incluídos.

Todos os documentos incluídos utilizaram intervenções semelhantes, adaptadas da Mindfulness-Based Stress Reduction (MBSR). O treinamento original é um programa estruturado de oito semanas, o qual inclui encontros teórico-práticos semanais com cerca de 2,5 horas de duração, utilizando abordagens como body scan (escaneamento corporal), meditação sentada com foco na respiração, sons, pensamentos e emoções. Além disso, os participantes devem dedicar cerca de 45 minutos diários à prática, utilizando gravações guiadas29. De forma geral, as intervenções dos estudos analisados incluíram encontros semanais, constituídos de aulas teórico-práticas, em que se abordaram os preceitos básicos e evidências de mindfulness, suas técnicas e como incorporá-las na prática diária. As adaptações diferem do treino original na duração do treino individual diário, variando de três a 20 minutos por dia, assim como na duração e no conteúdo dos encontros semanais, porém sempre mantendo a essência do treino original: cultivar a consciência no momento presente. Dois estudos adaptaram o conteúdo programático para que pudessem incorporar problemáticas centrais enfrentadas pelos estudantes de Medicina durante os encontros18),(19. Um estudo utilizou uma ferramenta digital baseada em mindfulness como intervenção7, sem a utilização das sessões prático-teóricas. Informações específicas sobre a duração dos encontros e do treinamento completo de cada intervenção podem ser encontradas no Quadro 2.

Os instrumentos de mensuração utilizados foram validados e demonstraram ser confiáveis, como Depression Anxiety Stress Scale (DASS), Perceived Stress Scale (PSS), Five Facet Mindfulness Questionnaire (FFMQ), entre outros. A utilização dessas escalas objetivou analisar os seguintes fatores: atenção plena, estresse, depressão e ansiedade, autocompaixão, empatia, qualidade de vida, bem-estar, sofrimento psicológico, saúde mental, satisfação com a vida, vulnerabilidade ao desenvolvimento de psicopatias, resiliência, autoeficácia percebida e altruísmo.

Os questionários foram aplicados antes da intervenção e logo após o término, e alguns estudos os aplicaram também após período de follow-up de 60 dias7, seis meses17),(18 e 20 meses16. O Quadro 2 apresenta a sumarização das intervenções e das ferramentas de mensuração.

Quadro 2
Relação dos estudos incluídos quanto à intervenção e às ferramentas de mensuração.

De acordo com os resultados encontrados, a MBSR e suas adaptações, em curto prazo, foram eficazes na redução do estresse percebido7),(17)-(19, do sofrimento psicológico16),(18, da vulnerabilidade ao desenvolvimento de psicopatias16, assim como no aumento do bem-estar7, da satisfação com a vida16, do nível de atenção plena7),(15),(16),(18),(19, da autoeficácia percebida18, da autocompaixão17),(19 e do altruísmo19. Tais resultados corroboram as evidências positivas encontradas da técnica nas demais populações1),(2),(18),(30),(31, assim como na eficácia das adaptações reduzidas da MBSR15. Entretanto, em curto e longo prazos, não se encontraram efeitos na empatia16),(19 e na resiliência medida17.

Acerca da análise da qualidade dos estudos pela EPHPP, nenhum artigo foi classificado como forte. Todos apresentaram limitações, como viés de seleção por autosseleção dos participantes7),(16),(18),(19, ausência de cegamento dos avaliadores ou participantes15),(17 e controle insuficiente de confundidores19. De maneira geral, os estudos foram classificados em nível de qualidade moderada, à exceção de um, avaliado como fraco19.

O Quadro 3 apresenta a relação dos desfechos encontrados com a qualidade metodológica dos artigos.

Quadro 3
Relação dos desfechos encontrados com a qualidade dos estudos pela EPHPP.

DISCUSSÃO

Dos desfechos analisados, a redução do estresse percebido e o aumento dos níveis de atenção plena foram os que mais prevaleceram. A quantificação do nível de atenção plena mostra-se significativamente relacionada à experiência de meditação e tem uma relação negativa com sintomas psicológicos relacionados à depressão, ansiedade, anedonia e insônia7.

Do mesmo modo, o estresse crônico pode resultar em burnout, síndrome caracterizada pela tríade exaustão emocional, negativismo com o trabalho e decadência da eficácia profissional, associada com desordens psiquiátricas e ideação suicida8. Assim, ferramentas que possam auxiliar na redução do estresse e, consequentemente, na prevenção do burnout podem ter algum papel na prevenção do suicídio.

Ademais, é possível afirmar que existem resultados contraditórios sobre os efeitos em longo prazo da meditação. Foram observados resultados positivos no bem-estar7, na autocompaixão17, na autoeficácia18, na saúde mental, na satisfação com a vida e na vulnerabilidade ao desenvolvimento de psicopatias16. Embora se tenha observado também redução dos níveis de estresse percebido após 60 dias7, tal efeito se extingue quando analisado depois de seis meses17),(18. Dessa forma, futuras pesquisas são necessárias para investigar as implicações em longo prazo da meditação na saúde dos estudantes de Medicina.

No mesmo sentido, puderam-se observar resultados positivos no sofrimento psicológico e na atenção plena após 20 meses16, porém não em seis meses18. Esses resultados conflitantes podem ser explicados pelo comprometimento com a prática aquém do esperado pelos autores.

De acordo com Phang et al. (18, após seis meses, a média de dias de meditação praticados caiu significativamente quando comparada à média durante a intervenção. De forma semelhante, Erogul et al.17 comentam que a média de minutos meditados por semana foi de 40,7, abaixo do estabelecido de 140.

Em contrapartida, Dijk et al.16 mencionam que, ao final do estudo, dos 67 participantes que permaneceram, 33 afirmaram que continuavam com as práticas domiciliares regulares, mantendo a mesma média de minutos meditados. Nesse ensaio, as sessões prático-teóricas ocorreram durante as horas de atividade curricular, o que, segundo os autores, incentivou a satisfatória permanência dos participantes. Esses fatos podem explicar os melhores resultados deste estudo em comparação ao de Phang et al. (18.

O estudo de Damião Neto et al.15 foi o único que não encontrou diferenças em nenhum dos desfechos analisados. Porém, as sessões prático-teóricas foram ministradas dentro do currículo obrigatório e para um grande grupo, razão pela qual os autores correlacionam o comprometimento insatisfatório. Embora tenham encontrado desfechos positivos, Yang et al.7 e Danilewitz et al.19 afirmam que apenas 60% dos participantes utilizaram o aplicativo pelo menos uma vez durante os 30 dias do estudo, e apenas 26% participantes relataram prática regular da meditação. Desse modo, percebe-se que há uma dificuldade em manter os alunos incentivados com a prática meditativa.

Outrossim, a qualidade dos artigos avaliada pela EPHPP foi, em geral, moderada. É possível observar algumas limitações metodológicas, a exemplo da forma mais utilizada de selecionar os participantes, a partir de grupos autosselecionados7),(16),(18),(19, ou seja, incluiu voluntários mais propensos a estar experimentando níveis elevados de estresse e, consequentemente, mais passíveis a resultados tendenciosos. Outra limitação dos estudos foi o não comentário a respeito7),(16),(18),(19 ou o não cegamento15),(17 dos interventores e participantes, associando a variável da sugestão e expectativa. Essa avaliação reforça a necessidade de interpretações cautelosas dos resultados e destaca a urgência de novos estudos com metodologias mais robustas.

Para superar essas limitações, futuros estudos devem adotar desenhos metodológicos mais rigorosos, com amostras maiores e aleatórias, mascaramento adequado, treinamento e supervisão dos instrutores, e implementar estratégias que fortaleçam a adesão dos participantes. A utilização de protocolos padronizados também contribuiria para a comparabilidade entre pesquisas, fortalecendo a evidência científica sobre os efeitos da meditação na saúde dos estudantes de Medicina.

Apenas seis documentos foram incluídos na revisão. Isso demonstra a atual escassez de ensaios relacionados com os estudantes de Medicina. Além disso, a utilização de outros métodos meditativos com essa população, como a meditação transcendental, ainda carece de evidência, pois apenas adaptações da MBSR foram encontradas.

Os diversos resultados positivos encontrados da meditação na saúde dos estudantes de Medicina, embora ainda modestos, parecem promissores. Dessa forma, novos estudos são necessários, com melhor qualidade metodológica e comprometimento dos participantes, para aumentar a robustez dos desfechos aqui presentes e, consequentemente, melhor entender os efeitos da meditação em longo prazo e do seu possível papel na prevenção do suicídio. Outras revisões sistemáticas semelhantes buscaram compreender os efeitos da meditação mindfulness no estresse e burnout8, no sofrimento psicológico1, no bem-estar4 e na depressão32. Porém, o presente estudo se destaca na medida em que entrega um novo protocolo de pesquisa e amplia o método de intervenção e os desfechos buscados.

Espera-se que os resultados desta pesquisa contribuam para uma reflexão acerca do impacto que técnicas meditativas podem causar nos futuros profissionais médicos. É de suma importância que o assunto seja discutido, e seu uso, considerado, tanto de forma individual pelos próprios indivíduos que estudam como aliviar o sofrimento alheio, como também pelas escolas médicas, diretamente responsáveis, muitas vezes, pela gênese do sofrimento psicológico.

CONCLUSÃO

Em resumo, esta revisão sugere que as práticas de meditação, particularmente aquelas adaptadas da MBSR, podem promover efeitos benéficos em diversos aspectos da saúde de estudantes de Medicina. Nessa população, a meditação mostrou-se capaz, principalmente, de aumentar os níveis de atenção plena, reduzir o estresse percebido e a vulnerabilidade ao desenvolvimento de psicopatias, assim como promover melhorias no bem-estar e na satisfação com a vida. Esses efeitos podem ter implicações indiretas para o desempenho acadêmico, o cuidado com os pacientes e a redução do suicídio entre estudantes de Medicina.

Este estudo é inédito por sintetizar de forma direcionada as evidências sobre os efeitos da meditação na saúde de estudantes de Medicina, uma população altamente vulnerável ao estresse, à ansiedade e ao burnout. A relevância do estudo está em destacar a meditação como uma ferramenta de baixo custo, acessível e praticamente isenta de efeitos colaterais, capaz de promover bem-estar, autorregulação emocional e satisfação com a vida. Além disso, os achados desta revisão oferecem subsídios para que as escolas de Medicina considerem a implementação de programas estruturados de meditação, integrados à grade curricular ou como atividades extracurriculares, visando não apenas melhorar a qualidade de vida dos estudantes, mas também potencialmente favorecer o desempenho acadêmico e a formação de profissionais mais equilibrados e preparados para lidar com as exigências da prática médica. Em razão do número limitado de estudos e das variações metodológicas, são necessárias mais pesquisas para confirmar esses achados e aprofundar a compreensão do papel da meditação como ferramenta de apoio na educação médica.

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  • 3
    Avaliado pelo processo de double blind review
  • FINANCIAMENTO
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    Rosiane Viana Zuza Diniz.
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    Mauricio Peixoto

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    16 Jul 2024
  • Aceito
    13 Dez 2025
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