Acupuntura no Ensino Médico da Universidade Federal Fluminense: Desafios e Perspectivas

Acupuncture in Medical Education at Universidade Federal Fluminense: Challenges and Perspectives

Denise Muzzi de Oliveira Safe Lia Melero dos Anjos Marília Troyano de Castro Mendes Maria Inês Nogueira Marilene Cabral do Nascimento Sobre os autores

RESUMO

O ensino da acupuntura vem sendo progressivamente introduzido em cursos médicos no Brasil e no mundo. Na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ), a reforma curricular da Faculdade de Medicina, implementada em 1994, possibilitou a oferta da disciplina optativa Medicina Tradicional Chinesa/Acupuntura a partir de 1995, além da criação, em 1997, de um curso de especialização em acupuntura destinado ao público médico. Este artigo apresenta um estudo que buscou identificar os principais desafios e perspectivas relacionados a esse ensino na graduação e pós-graduação médicas da UFF, resgatando o debate sobre a polarização paradigmática entre a acupuntura da MTC e a acupuntura neurofisiológica. Foi realizada uma pesquisa qualitativa de caráter etnográfico com análise documental, observação dos cenários de sala de aula e entrevistas semiestruturadas com o professor e alunos da disciplina e curso selecionados. De forma complementar, para garantir a triangulação de informações, utilizou-se a técnica do grupo focal com ex-alunos da graduação médica. O tratamento e a interpretação dos dados deste estudo se ancoraram na discussão epistemológica de Thomas Kuhn – o conceito de paradigmas e a questão da incomensurabilidade de ideias. Os resultados desta pesquisa mostraram que, apesar das diferenças paradigmáticas significativas, há interesse e receptividade de estudantes de Medicina e médicos na abordagem integrativa do processo saúde-doença oferecida pela medicina tradicional chinesa/acupuntura. Entre os aspectos positivos levantados, destacam-se a valorização da abordagem de dimensões do adoecimento humano negligenciadas pela biomedicina, o favorecimento da construção de um olhar integral sobre o sujeito e os bons resultados obtidos nos tratamentos com acupuntura. Os principais desafios apontados foram a necessidade de promover maior integração teórico-prática nas aulas, sugerida pelos alunos da graduação, e a crítica ao reducionismo no ensino da MTC/acupuntura, com simplificação exagerada de conteúdos complexos, feita pelos alunos da pós-graduação. Duas conclusões se destacaram neste estudo. Constatou-se um duplo padrão de aprendizado: abertura dos estudantes de graduação e pós-graduação médicas para o paradigma da medicina chinesa devido às suas especificidades e múltiplas abordagens terapêuticas, ao mesmo tempo em que se buscavam aproximações com o modelo biomédico. A complementaridade entre o paradigma da medicina chinesa e o das neurociências foi a principal característica do processo de incorporação da acupuntura ao ensino médico da UFF.

Acupuntura; Medicina Tradicional Chinesa; Educação de Graduação em Medicina; Educação de Pós-Graduação em Medicina

ABSTRACT

The teaching of acupuncture has gradually been introduced into medical courses in Brazil and worldwide. At Universidade Federal Fluminense (UFF), in Niterói, Rio de Janeiro, the newly reformulated medical course curriculum, introduced in 1994, included the offer of an optative discipline in Traditional Chinese Medicine/Acupuncture to start the following year, and also the creation, in 1997, of a specialization course in Acupuncture for qualified medical doctors. In this article, we present a study that aims to identify major challenges and perspectives in Chinese Medicine teaching for undergraduate and graduate students at the UFF medical school, emphasizing the paradigmatic polarization between Traditional Chinese Medicine (TCM) and Neurophysiological Acupuncture. We performed a qualitative, ethnographic study involving document analysis, observation of classroom scenarios, and semi-structured interviews with the teacher and students of the selected discipline and course. In order to ensure triangulation of information, we also used the focus group technique, with former undergraduate students. The data treatment and interpretation of this study were anchored in the epistemological discussion of Thomas Kuhn – the concept of paradigms and the incommensurability of scientific theories. The results of this study show that despite the significant paradigmatic differences, medical students and doctors demonstrate interest in and receptivity towards the integrative approach of health-disease processes offered by traditional TCM. The following positive aspects were highlighted: the valorization of dimensions of human sickness hitherto neglected by biomedicine, the building of an integral perspective on the subject, and the good results obtained with acupuncture. The graduate students noted the need to increase integration between theory and practice, and criticized the reductionism in TCM teaching, with the excessive simplification of complex subjects. Two conclusions can be drawn from this study. A double learning pattern was observed: the interest among undergraduate and graduate students in Traditional Chinese Medicine paradigm, due to its specificities and multiple therapeutic approaches and, at the same time, a search for comparisons with the biomedical model. The complementarity between the paradigms of Traditional Chinese Medicine and neurosciences was the most important characteristic of the introduction of teaching on acupuncture at UFF.

Acupuncture; Traditional Chinese Medicine; Undergraduate Medical Education; Graduate Medical Education

INTRODUÇÃO

Tradicionalmente, os ensinamentos da medicina chinesa eram mantidos secretos e passados ao aluno somente após diversos testes de caráter. Assim que o candidato ao ensino estivesse preparado, poderia seguir um professor experiente em uma escola chinesa clássica, refletindo acerca do que foi observado, e então adquirir o conhecimento de fórmulas e técnicas11. Solos I, Yuan L, Guang-xin Y. The Teacher-Disciple Tradition and Secret Teaching in Chinese Medicine. Chin J Integr Med 2014;20(1)56-62..

Apesar da expansão da medicina tradicional chinesa (MTC) no mundo atual, autores chineses identificam dificuldades no ensino da MTC a alunos estrangeiros – diferenças culturais, barreira linguística, escassez de professores e de material didático22. Bin L, Fangxing MA. How to lead foreign students into Traditional Chinese Medicine. Journalof Medical Collegesof PLA2013;28(1)39-45.

3. Chen J, Li Y, Tang Y, Zeng F, Wu X, Liang F. Case-based learning in education of Traditional Chinese Medicine: a systematic review. Tradit Chin Med 2013;3(5)692-7.
-44. Yu Y, Jiang Q, Zhang L, Wang Q, Huang M. The Feasibility of Applying PBL Teaching Method to Surgery Teaching of Chinese Medicine. International Education Studies 2008;4(1)110-3.. Um dos principais desafios se relaciona às diferenças paradigmáticas entre a MTC e a medicina ocidental contemporânea.

No Brasil, a incorporação da MTC/acupuntura tem acontecido de forma complementar à medicina ocidental contemporânea, configurando um estilo eclético nas formas de atuação55. Nogueira MI. A translação do olhar: da biomedicina à acupuntura. In: Camargo Jr K, Nogueira MI, orgs. Por uma Filosofia Empírica da Atenção à Saúde: olhares sobre o campo biomédico. Rio de Janeiro: Ed FIOCRUZ (Coedição com a Faperj); 2009. p.65-84.. E no interior da própria medicina oficial, a acupuntura vem se firmando como especialidade médica. Entre as principais motivações que levam os médicos brasileiros a procurarem o curso de acupuntura estão o aprimoramento profissional, a ampliação do próprio horizonte de vida e a compreensão do paciente numa dimensão mais abrangente. Há uma tendência de se mostrarem críticos em relação aos padrões atuais da medicina convencional e procurarem se especializar em acupuntura para integrá-la à sua atividade médica profissional ou mesmo para mudar de especialidade66. Iorio RC, Siqueira AAF, Yamamura Y. Acupuntura: Motivações de Médicos para a Procura de Especialização. RevBrasEducMéd 2010;34(2)247-254..

Na década de 1970, a Organização Mundial de Saúde (OMS) passou a recomendar a utilização dos recursos das medicinas tradicionais pelos sistemas nacionais de saúde. Em 2006, o Ministério da Saúde aprovou a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), que considera a crescente legitimação destas práticas pela sociedade e a demanda por sua efetiva incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS). Uma das diretrizes dessa política é o desenvolvimento de estratégias de incentivo à formação e qualificação profissional nessa área77. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS. Brasília, Série B Textos Básicos de Saúde; 2008.

8. Barros NF, Siegel P, Otani, MAP, orgs. O Ensino das Práticas Integrativas e Complementares: Experiências e Percepções. São Paulo: Hucitec; 2011.
-99. Nascimento MC, Nogueira MI, orgs. Intercâmbio Solidário de Saberes em Saúde. Racionalidades Médicas e Práticas Integrativas e Complementares. São Paulo: Hucitec; 2013.. A pioneira reforma curricular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF), implementada em 1994, introduziu o tema dos “métodos diagnósticos e terapêuticos alternativos”, possibilitando a oferta de várias disciplinas com esse conteúdo1010. Universidade Federal Fluminense – UFF. Currículo do Curso de Medicina. Niterói(RJ),1994.,1111. Saippa-Oliveira G, Koifman L, Marins JJN. A busca da integralidade nas práticas de saúde e a diversificação dos cenários de aprendizagem. O direcionamento do curso de medicina da UFF. In: Cuidado: as fronteiras da integralidade. Pinheiro R, Mattos RA, orgs. São Paulo: Hucitec/ Abrasco; 2004.p.307-19..

Neste artigo, apresentamos parte dos resultados da pesquisa Racionalidades Médicas Vitalistas na Formação Médica da Universidade Federal Fluminense (UFF), que integra o projeto “Práticas Integrativas e Complementares na Formação em Saúde”, financiado pela Faperj (E/26/110.300/2014). Procuramos identificar os desafios e perspectivas relacionados ao ensino da MTC/acupuntura, resgatando o debate sobre a polarização paradigmática entre a acupuntura da MTC e a acupuntura neurofisiológica1212. Luz D. Medicina tradicional chinesa, racionalidade médica. In: Luz MT, Barros NF, orgs. Racionalidades Médicas e Práticas Integrativas em Saúde: Estudos Teóricos e Empíricos. Rio de Janeiro: UERJ/IMS/LAPPIS; 2012. p.103-52.,1313. Ding SS, Hong SH, Wang C, Guo Y, Wang ZK, Xu Y. Acupuncture modulates the neuro–endocrine–immune network. Q J Med2014;107:341-5..

METODOLOGIA

Foi realizada uma pesquisa qualitativa de caráter etnográfico sobre o ensino da MTC/acupuntura na graduação e pós-graduação médicas da UFF, no município de Niterói (RJ). O cenário dessa pesquisa foi o Instituto de Saúde Coletiva da UFF, que oferece a disciplina optativa MTC/acupuntura e o curso de especialização em acupuntura.

Os dados recolhidos foram provenientes de fontes diversas: entrevistas individuais semiestruturadas com o professor coordenador e alunos da graduação e pós-graduação; observação participante das aulas; análise documental dos programas da disciplina e curso pesquisados. Ao final, utilizou-se a técnica do grupo focal com ex-alunos que cursaram as disciplinas de orientação vitalista oferecidas na graduação médica. O grupo focal permite a interação entre os participantes e pode ser bastante útil quando se quer compreender divergências, contradições e diferentes perspectivas sobre uma mesma questão1414. Gatti BA. Grupo focal na pesquisa em Ciências Sociais e Humanas. Brasília: Liber Livro; 2005.. Dessa forma, os registros discursivos, observacionais e escritos se somaram e puderam ser utilizados na triangulação de informações1515. Víctora CG, Knauth DR, Hassen, MNA. Pesquisa qualitativa em saúde: uma introdução ao tema. Porto Alegre: Tomo Editorial; 2000..

Para cada uma dessas etapas foram construídos roteiros temáticos semiestruturados. Os roteiros das entrevistas foram submetidos a um teste piloto antes de sua aplicação definitiva. Os dados das entrevistas foram gravados e transcritos, e os demais foram registrados em diários de campo. A fim de garantir o anonimato, as falas foram codificadas de acordo com os grupos entrevistados – professor coordenador (PC); alunos da graduação (AG); alunos do grupo focal (AGF); alunos da pós-graduação (APG) – e o número atribuído ao participante.

A coleta de dados foi realizada de junho de 2013 a novembro de 2014. No ano de 2013, a população a ser estudada era composta por 14 alunos e seis professores, distribuídos da seguinte forma: na disciplina MTC/acupuntura (dois alunos matriculados no primeiro período e dois no segundo; dois professores) e no curso de especialização em acupuntura (seis alunos matriculados no primeiro ano e quatro no segundo; seis professores regulares). A amostra dessa pesquisa foi composta por um total de 16 sujeitos: um professor (coordenador da disciplina MTC/acupuntura e do curso de especialização em acupuntura); nove alunos da graduação (três da disciplina MTC/acupuntura; seis ex-alunos participantes do grupo focal) e seis alunos da pós-graduação.

O critério de representatividade da amostragem na pesquisa qualitativa preocupa-se menos com a generalização e mais com o aprofundamento e abrangência da compreensão, permitindo identificar dados não mensuráveis, como percepções, significados, valores, intenções e motivações de determinado grupo1616. Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo: Hucitec,13ª ed.;2013.. Assim, os procedimentos utilizados nesta pesquisa para a seleção dos informantes privilegiados1616. Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo: Hucitec,13ª ed.;2013. foram: a escolha intencional do professor coordenador da disciplina optativa e do curso de especialização; o critério de saturação dos dados, até que haja a reincidência de informações, para definir o número de alunos entrevistados; a seleção de uma amostra homogênea de ex-alunos para a composição do grupo focal. O critério de inclusão dos alunos entrevistados foi ter cumprido pelo menos 70% da carga horária da disciplina e concluído um semestre do curso; e o dos ex-alunos, para a participação no grupo focal, foi o de ter concluído as disciplinas de orientação vitalista há pelo menos dois anos.

No tratamento do material que emergiu no trabalho de campo utilizou-se a técnica da análise de conteúdo, segundo Bardin1717. Bardin L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70; 2004., que se baseia em operações de desmembramento do texto em unidades, visando descobrir os diferentes núcleos de sentido que constituem a comunicação para, posteriormente, agrupá-los em categorias. De acordo com os objetivos e referencial teórico deste estudo, foram construídas três categorias temáticas significantes: o processo de ensino-aprendizagem (formas de abordagem da MTC/acupuntura); questões paradigmáticas (formas de incorporação do paradigma da medicina chinesa); percepções e avaliações (como os sujeitos deste estudo perceberam e avaliaram esse ensino). A análise e interpretação dos dados se ancorou na discussão epistemológica de Thomas Kuhn – o conceito de paradigmas e a questão da incomensurabilidade de ideias1818. Kuhn TS. A tensão essencial. Lisboa: Edições 70, Biblioteca de Filosofia Contemporânea; 1977.,1919. Kuhn TS. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Editora Perspectiva S.A., 3ª ed.; 1991..

As entrevistas e autorizações para a observação participante dos cenários de sala de aula foram agendadas pela equipe de pesquisadores, e os objetivos da pesquisa foram informados aos sujeitos envolvidos. Após o aceite, foi lido e assinado um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

A pesquisa foi aprovada em 2013 pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina – Hospital Universitário Antônio Pedro/UFF sob o parecer de nº 222.541.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O ensino da acupuntura na graduação médica da UFF

Desde 1995, no bojo da reforma curricular da Faculdade de Medicina da UFF, a disciplina MTC/acupuntura começou a ser oferecida aos estudantes de medicina no formato de disciplina optativa. O professor coordenador resgatou a história da construção da disciplina e falou sobre suas motivações:

Foi a primeira faculdade no País que iniciou o curso como matéria optativa. Havia seis anos que eu já praticava, na época eu era fã da MTC. A gente também tinha a motivação de criar um curso de especialização e um núcleo de MTC. A cadeira saiu primeiro, o curso de especialização só saiu em 1997. Esse núcleo teria arte chinesa, pintura, escultura, escrita chinesa, poesia, literatura, tai chi e o chikun. Não deu certo, e montamos o curso. (PC)

Atualmente, a disciplina optativa MTC/acupuntura é oferecida aos alunos do curso de Medicina por dois professores do Departamento de Saúde e Sociedade do Instituto de Saúde Coletiva e tem como único pré-requisito a conclusão do ciclo básico, a partir do quinto período. Conta com uma carga horária de 30 horas, divididas em 15 aulas de duas horas cada, com dez aulas de cunho teórico-conceitual e cinco aulas práticas realizadas no ambulatório da Policlínica de Especialidades Sylvio Picanço, do SUS/Niterói, em convênio com a UFF.

O processo de ensino-aprendizagem

De acordo com o programa da disciplina MTC/acupuntura, os principais objetivos seriam fornecer aos alunos noções de acupuntura sob os paradigmas da MTC e da neurofisiologia, buscando sensibilizá-los para esta especialidade médica.

Na ementa, constam como principais temas abordados: acupuntura sob as bases filosóficas da MTC e das neurociências; conceitos filosóficos da MTC; fisiopatologia na MTC; etiopatogenia e o diagnóstico pela MTC; bases neurofisiológicas e mecanismos de ação da acupuntura; principais indicações da acupuntura: dor e distúrbios funcionais; técnicas de tratamento; prática da acupuntura; efeitos adversos da acupuntura. Quanto às aulas práticas, além da demonstração dos materiais envolvidos em acupuntura, são realizadas as seguintes atividades: agulhamento seco, eletroestimulação com agulhas ou eletrodos, injeções intradérmicas e em pontos miofasciais, ventosas, moxabustão.

Na observação participante das aulas teóricas, o aluno pesquisador relatou que os termos chineses frequentemente usados, somados à superficialidade da matéria abordada, dificultavam a compreensão dos conceitos, geralmente inéditos para os estudantes. Entretanto, essa estratégia se mostrava útil para aqueles alunos que gostariam apenas de entrar em contato com uma breve introdução à MTC. E acrescentou: “o fator desmotivante foi a própria falta de credibilidade que os professores davam ao conteúdo conceitual/filosófico da acupuntura tradicional, nos moldes como era compreendida na China Antiga.” (AG1)

Desse modo, informou o aluno, grande parte da MTC foi exposta, ainda que de forma panorâmica, sem que se adentrasse nos pormenores de cada tema. Muitas vezes, o professor comentava que o assunto que seria debatido no dia ocupava meses no curso de pós-graduação e que seria inviável apresentá-lo com qualidade em uma hora e meia.

Na segunda metade do curso, havia as aulas práticas. O enfoque principal era na acupuntura neurofisiológica, mas em certas ocasiões havia também a estimulação de pontos clássicos chineses, a aplicação de ventosas e moxabustão, comenta o aluno. Duas estratégias pedagógicas foram adotadas: tratamentos feitos em alunos voluntários e simulação de situações clínicas.

No grupo focal, as percepções sobre a disciplina optativa MTC/acupuntura foram positivas. Também houve concordância sobre a ênfase no ensino da acupuntura com base no conhecimento das neurociências.

Foi bem neurofisiologia mesmo, mas não achei ruim. Na verdade, achei que se tenta explicar com a nossa medicina ocidental os mecanismos e por que funciona a acupuntura. Eu gostei. (AGF1)

Eu gostei do jeito que foi dado: uma pequena introdução sobre a história, um pouco do modo como os chineses fazem. Se fosse trabalhar com os meridianos, não teria tempo... Essa questão da neurofisiologia fica mais palpável para explicar para o aluno. (AGF2)

Questões paradigmáticas

Na entrevista, o professor da disciplina optativa MTC/acupuntura resgatou sua trajetória no aprendizado da acupuntura e explicou como se deu sua mudança paradigmática:

Aprendi acupuntura sob o paradigma da medicina chinesa. Depois tive acesso a um material que explicava a acupuntura sob o ponto de vista das neurociências. Primeiro me pareceu muito legal que eu pudesse ter uma base pra justificar o que eu fazia em termos de medicina chinesa por mecanismos das neurociências... Hoje desenvolvo a minha prática sob o paradigma das neurociências, que é tremendamente eficaz numa série de situações clínicas. (PC)

A oferta dessa disciplina optativa tem sido regular desde a sua abertura em 1995. Há cerca de seis anos foram realizadas mudanças em seu conteúdo programático, com a inserção da acupuntura baseada em neurociências, para atrair e estimular os estudantes, por acenarem com a lógica biomédica. Assim argumentou o professor: “então o curso mudou muito ultimamente, deixou de dar aquela enxurrada de conhecimentos da MTC em cima do aluno”.

Mas, ao contrário do que se esperava, essas mudanças parecem ter tido o efeito inverso e contribuído para um declínio na procura da disciplina pelos estudantes. O professor se sentiu frustrado e apresentou alguns motivos para essa situação:

Havia turmas com 20 alunos, 15 alunos; hoje há turmas com dois, três alunos. Você prepara uma aula legal, vem cheio de vontade e dá aula pra duas pessoas... é frustrante. A disciplina optativa é desvalorizada, o horário é muito ruim [sexta-feira à tarde] – 80% dos alunos são de fora e viajam muito pra casa. (PC)

O aluno que fez a observação participante da disciplina discordou parcialmente das mudanças realizadas. Afirmou que sua expectativa era cursar uma disciplina vitalista e criticou o modo como os docentes questionavam a interpretação dos chineses sobre o processo saúde-doença por não dominarem a fisiopatologia das doenças.

Torna-se até mesmo paradoxal o fato de escutar esse tipo de afirmação dentro de uma disciplina vitalista, ao passo que frequentemente somos alertados, durante os primeiros anos do curso de Medicina, sobre a importância da integralidade e de considerar outros aspectos, além do biológico, na gênese das doenças. (AG1)

De forma similar, os demais alunos entrevistados, que na época se encontravam no sétimo e oitavo períodos do curso médico, apontaram as motivações para cursar a disciplina MTC/acupuntura: conhecer novos paradigmas; entrar em contato com uma medicina que possui milênios de existência; adquirir mais conhecimentos sobre a MTC, a acupuntura e o pensamento oriental.

No entanto, posteriormente, ao avaliarem a correlação da acupuntura com o modelo biomédico, esses mesmos alunos responderam com simpatia e afirmaram que a disciplina conseguiu de um modo favorável “reduzir a distância entre os dois modelos, evidenciando os momentos em que eles se unem” (AG3).

Pode-se deduzir que a opinião dos estudantes entrevistados revelou o desejo de uma possível complementaridade entre o paradigma da medicina chinesa e o paradigma das neurociências, o que foi ilustrado numa frase emblemática sobre a disciplina MTC/acupuntura: “A disciplina aliou filosofia [chinesa] e ciência!” (AG2).

Percepções e avaliações

A avaliação da disciplina MTC/acupuntura pelos estudantes envolvidos na pesquisa foi predominantemente satisfatória, atribuindo grande conhecimento aos professores. Na percepção desses alunos, a disciplina despertou interesse por apresentar outra forma de conhecer o ser humano e uma alternativa para explicar o processo de adoecimento.

Em relação aos aspectos negativos, houve um comentário sobre a não permissão aos graduandos para assistirem às aulas da pós-graduação. Criticou-se também a inexistência de continuidade de cursos optativos sobre o tema, o que deixa os alunos interessados muito tempo longe do assunto.

Todos os estudantes demonstraram interesse em dar continuidade à formação nessa área, principalmente para quem quer trabalhar com clínica. Na visão de um dos alunos entrevistados (AG3): “Vejo a acupuntura como um recurso a ser incorporado na prática médica”. Mas, quando interrogados sobre as perspectivas de trabalho, consideraram que ainda há muito tempo para avaliar as possíveis escolhas.

Pesquisas em diversos países indicam que, em geral, os estudantes de Medicina gostariam de aprender acupuntura, homeopatia e outras práticas médicas não convencionais durante o curso2020. Teixeira MZ, Chin AL, Martins MA. Homeopathy and acupuncture teaching at Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo: the undergraduates attitudes. Sao Paulo Med J. 2005; 123(2)77-82.

21. Teixeira MZ, Lin CA. Educação Médica em Terapêuticas não Convencionais. RevMed2013;92(4)224-35.
-2222. Külkamp IC, Burin GD, Souza MHM, Silva P, Piovezan AP. Aceitação de práticas não-convencionais em saúde por estudantes de medicina da Universidade do Sul de Santa Catarina. RevBrasEducMed 2007;31(3)229-35.. Ao ser abordado esse tópico no grupo focal, dois estudantes comentaram: “A medicina nossa não tem todas as respostas. Eu fiz todas as disciplinas aqui propostas, abriu muitos caminhos...” (AGF2). “Tem que haver espaço para aprender todo tipo de conhecimento. A faculdade é um local que pode ser inovador e não preso aos dogmas da medicina ocidental ou qualquer outro dogma.” (AGF4).

Quanto à eficácia e comprovação científica das chamadas “medicinas alternativas”, apesar do ceticismo quanto à validação desses conhecimentos, as controvérsias se dissolviam quando se falava sobre os resultados positivos. “Fiz a optativa de introdução à acupuntura. Achei muito interessante essa questão de tratamento para doenças crônicas. Acho que essas técnicas também são bastante efetivas para tratar TPM e enxaqueca.” (AGF1). “Natural reconhecer essas práticas a partir do momento em que estão dando resultados.” (AGF2). “Se funcionou no paciente, está funcionando... Tantas outras coisas que usamos e não sabemos como funcionam. Se de alguma forma conseguirem explicar, tudo bem.” (AGF4).

Algumas conclusões se destacaram no debate interativo proporcionado pelo grupo focal. Houve consenso sobre a importância de incluir as medicinas integrativas e complementares na formação médica e a necessidade de regulamentar essas práticas, embora alguns questionassem sua eficácia e o reducionismo no ensino das técnicas. A forma como esse conhecimento tem sido ministrado no currículo médico da UFF foi alvo de algumas críticas dos estudantes, que sugeriram a ampliação do espaço de prática, com comparação das duas visões e de seus resultados. Os alunos reconheceram que as “racionalidades médicas vitalistas” favorecem uma abordagem integral do paciente, com enfoque nas singularidades do indivíduo e não apenas na doença. A complementaridade entre os dois paradigmas foi considerada importante pela maioria dos entrevistados.

O ensino da acupuntura na pós-graduação da UFF

O curso de especialização em acupuntura da UFF foi criado em 1997 e desde então vem sendo oferecido de forma regular e exclusiva ao público médico, com 30 vagas para brasileiros e duas para estrangeiros. É um curso lato sensu, reconhecido pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA) e Associação Médica Brasileira (AMB). Tem duração de dois anos e carga horária total de 885 horas, distribuídas em 825 horas de carga horária obrigatória e 60 horas de carga horária optativa.

O principal objetivo do curso é formar médicos especialistas em acupuntura capazes de exercer a prática sob os paradigmas da medicina tradicional chinesa e das neurociências, além de desenvolver projetos de pesquisa e extensão. As aulas teóricas são ministradas no Hospital Universitário Antonio Pedro, e as atividades práticas são realizadas no ambulatório da Policlínica de Especialidades Sylvio Picanço, do SUS/Niterói, em convênio com a UFF.

O curso é organizado em módulos teóricos, práticos e estágio supervisionado. Eis a relação das principais disciplinas teóricas: medicina tradicional chinesa e medicina contemporânea; bases filosóficas da MTC; fisiologia em MTC; etiopatogenia em MTC; morfologia – meridianos e pontos de acupuntura; diagnóstico em MTC; tratamento em MTC; estudo das principais doenças pela acupuntura e seu tratamento; distúrbios funcionais; distúrbios dolorosos; neurociências e acupuntura; acupuntura baseada em evidências e didática do ensino superior (optativa).

Os resultados da pesquisa serão apresentados a seguir por meio de três eixos temáticos definidos com base no material proveniente do trabalho de campo – observação direta de dez aulas teóricas do primeiro e do segundo anos do curso de especialização de acupuntura da UFF e entrevistas com o professor coordenador e com seis alunos (três do primeiro ano e três do segundo ano).

O processo de ensino-aprendizagem

O professor e atual coordenador do curso de especialização em acupuntura participou da criação desse curso juntamente com outro professor, estudioso e praticante da MTC, ambos do Departamento de Saúde e Sociedade do Instituto de Saúde Coletiva da UFF. O curso começou a ser oferecido regularmente a partir de 1997, sob o paradigma da medicina chinesa.

As duas turmas observadas durante a pesquisa eram compostas por quatro alunos. Todos os alunos entrevistados tinham especialização prévia: geriatria, medicina de família, urologia, pediatria, homeopatia e clínica geral. Segundo o professor, o perfil da turma mudou – antigamente era composto sobretudo por anestesistas e profissionais que lidam com a dor, e ultimamente o perfil tem sido mais clínico.

Atualmente, seis professores participam do curso, ministrando as aulas teóricas e supervisionando as atividades práticas no ambulatório. Sobre a dinâmica das aulas teóricas, três estratégias pedagógicas foram observadas: aulas expositivas, com recurso de projetor multimídia; atividades práticas ao final das aulas teóricas e seminários temáticos apresentados pelos próprios alunos. Durante as aulas, há entrega de material impresso com os principais conteúdos para cada aluno. Essa estratégia facilita a concentração do aluno, reduzindo a necessidade de anotação. As provas são elaboradas com base nesse material. As aulas são todas muito interativas – há espaço para praticar o que foi aprendido e estímulo à exposição de dúvidas.

Alguns professores reforçaram o aspecto preventivo e de promoção da saúde da MTC por meio de exemplos práticos. De fato, estudos apontam que a acupuntura orientada pela racionalidade médica chinesa permite um trânsito interdisciplinar que integra a percepção do indivíduo sobre si mesmo e seu contexto, além de possibilitar mudanças nas causas primárias das doenças e contribuir para o desenvolvimento de ações de promoção da saúde2323. Cintra MER, Figueiredo R. Acupuntura e promoção de saúde: possibilidades no serviço público de saúde. Interface - Comunic., Saude, Educ 2010;14(32)139-54.,2424. Tesser CD. Práticas complementares, racionalidades médicas e promoção da saúde: contribuições pouco exploradas. Cad. Saúde Pública 2009;25(8)1732-42..

Com frequência, há correlações da MTC com a biomedicina com a finalidade de tornar a acupuntura mais palpável aos alunos. Nas aulas teóricas do primeiro ano, destacaram-se as discussões sobre os Zang Fu, sistema chinês de órgãos e vísceras que despertou muito a curiosidade dos alunos por ser funcional, dinâmico e associativo. Embora não haja necessariamente uma correspondência íntima entre as concepções dos Zang Fu e o sistema de órgãos da medicina ocidental, há uma tendência de se aplicar o pensamento e os conceitos ocidentais à MTC, gerando redução, confusão e má interpretação. Ross2525. Ross J. Zang Fu: sistemas de órgãos e vísceras da medicina tradicional chinesa. São Paulo: Ed. Roca Ltda, 2ª ed.;1994. chama a atenção para o fato de que a MTC é um sistema lógico, completo e autossuficiente, que não precisa da adição de conceitos de outras fontes para funcionar satisfatoriamente.

Na concepção da medicina chinesa, a emoção perturba diretamente os órgãos Zang Fu, causando padrões de desarmonia específicos (por exemplo: a raiva, emoção ligada ao fígado, pode causar enxaqueca). Na tentativa de compreender a especificidade dos Zang Fu, muitas questões foram levantadas pelos alunos, pois a medicina ocidental não valoriza suficientemente o estado emocional na gênese das patologias e também não consegue sistematizar a forma pela qual uma emoção causa uma doença. Durante os seminários, os professores incentivavam a participação dos alunos, fazendo perguntas, estimulando o raciocínio e complementando as informações trazidas por eles.

Na aula “Anamnese segundo a MTC”, ministrada no primeiro ano do curso, ocorreu uma interação teórico-prática muito bem recebida pela turma: a realização de uma anamnese entre dois alunos. Outra cena marcante, observada numa aula do segundo ano: a professora apresentou casos clínicos em slides com o título “como eu trato” e abordou os motivos para adotar tal tratamento, mas deixou claro que os alunos têm liberdade para tratar de outra forma. Na impressão da aluna pesquisadora, a mensagem visava transmitir a diversidade de condutas e tratamentos da MTC.

Questões paradigmáticas

Podemos considerar a existência de dois paradigmas em saúde coexistentes na cultura contemporânea – o biomédico e o vitalista –, que embasam os distintos sistemas médicos complexos ou racionalidades médicas2626. Luz MT. Novas Práticas em Saúde Coletiva. In: Minayo MCS, Coimbra Jr. CEA, orgs. Críticas e Atuantes: Ciências Sociais e Humanas em Saúde na América Latina. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz; 2005. p.33-46.,2727. Luz MT, Barros NF, orgs. Racionalidades Médicas e Práticas Integrativas em Saúde: Estudos Teóricos e Empíricos. Rio de Janeiro: UERJ/IMS/LAPPIS; 2012..

Segundo Thomas Kuhn, paradigmas seriam modelos e padrões consensualmente aceitos numa comunidade científica1818. Kuhn TS. A tensão essencial. Lisboa: Edições 70, Biblioteca de Filosofia Contemporânea; 1977.,1919. Kuhn TS. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Editora Perspectiva S.A., 3ª ed.; 1991.. Para contornar a problemática da incomensurabilidade de ideias – a inexistência de uma linguagem neutra entre os paradigmas –, Kuhn propõe aos interlocutores que não se compreendem mutuamente reconhecerem-se uns aos outros como membros de diferentes comunidades de linguagem e a partir daí se tornarem tradutores1919. Kuhn TS. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Editora Perspectiva S.A., 3ª ed.; 1991..

Observou-se uma diferença de abordagem da acupuntura entre os professores: a maior parte segue a linha tradicional da medicina chinesa, e a outra mostra a abordagem neurofisiológica. Durante a entrevista, o professor fez alguns esclarecimentos acerca da orientação paradigmática do curso, resgatando as modificações ocorridas ao longo dessa trajetória.

O curso tem o objetivo de formar profissionais capazes de exercer a acupuntura sob o paradigma da medicina chinesa. Com o desenvolvimento das neurociências, começou a haver uma explicação para os efeitos da acupuntura. Nós inserimos esse tipo de conhecimento no curso. Depois incluímos o ensino da acupuntura neurofuncional, mas logo retiramos porque não é o que o aluno busca. O aluno veio para fazer uma medicina alternativa. (PC)

A necessidade de explicações compreensíveis do ponto de vista ocidental e a preservação das raízes filosóficas e culturais do paradigma da medicina chinesa têm gerado polêmicas que repercutem no ensino e na prática da acupuntura. No meio médico, onde a busca pela comprovação científica é uma constante, esperava-se que a acupuntura neurofuncional, associada ao lastro de explicações trazidas pelo paradigma das neurociências, liderasse a procura. No entanto, os médicos alunos do curso de acupuntura da UFF têm priorizado o contato com o paradigma da MTC.

Questões paradigmáticas que envolvem a discussão sobre cientificidade e rigor metodológico da MTC são frequentemente abordadas na disciplina metodologia científica. Numa das aulas, o professor dessa disciplina discorreu sobre a dificuldade de se impor um rigor científico ocidental à MTC: “Eu não acho que conhecimento bom é sempre o conhecimento científico; ele é cheio de viés, temos que ler com olhar crítico. A MTC, conhecimento milenar, nem sempre pode ser submetida aos parâmetros da epidemiologia”.

Percepções e avaliações

Dos seis alunos entrevistados, cinco consideraram que o curso correspondeu às suas expectativas. Sinalizaram que a possibilidade de entrar em contato com saberes, práticas e abordagens diferenciadas proporcionou contribuições importantes para a formação e a prática médica. Nos comentários seguintes destacam-se a sensação de “entrada em um mundo novo”, em sintonia com a perspectiva antropológica da medicina proposta por Good2828. Good JB. Medicine, rationality, and experience: An anthropological perspective. United Kingdom: Cambridge University Press; 2005., e a experiência de uma “formação médica sob a ótica do paradigma vitalista”, abordada por Nogueira2929. Nogueira, MI. A formação médica sob a ótica do paradigma vitalista: via de entrada em um mundo novo. In: Nascimento MC, Nogueira MI, orgs. Intercâmbio solidário de saberes em saúde: racionalidades médicas e práticas integrativas e complementares. São Paulo: Editora Hucitec; 2013. p.123-38.. “Achei que ia ser do jeito que realmente está acontecendo, que ia ser diferente, mas ao mesmo tempo muito interessante. Eu achei que ia entrar em um mundo novo.” (APG1). “O que mais me chamou atenção foi o olhar diferente que a gente adquire através da medicina chinesa.” (APG3).

O paradigma vitalista que orienta a medicina chinesa foi percebido de forma positiva pelos alunos. Houve receptividade para a multiplicidade de abordagens, com enfoque nas emoções e singularidades, ao mesmo tempo em que se buscavam aproximações com o modelo biomédico. “O aprendizado de uma multiplicidade de condutas, as mais variadas possibilidades... Não é a doença que você trata, é o doente. Nós temos aqui professores com terapêuticas completamente diferentes, então isso é uma riqueza.” (APG4). “A acupuntura é toda uma dinâmica que tem vários braços. Trata o físico, o mental, o emocional; tem a dietética... Uma forma de tratar que tem muitos caminhos.” (APG5). “Ênfase muito grande nas emoções. A gente quase não lida com isso na nossa medicina. Na medicina chinesa isso tem um papel muito forte, raiva, alegria, medo... eu acho que só soma.” (APG6).

As principais críticas levantadas pelos alunos giravam em torno da duração do curso (alguns sugeriram a mudança de dois para três anos), da simplificação exagerada de conteúdos complexos em algumas aulas e dos enunciados confusos de provas de múltipla escolha.

A associação da acupuntura chinesa com a acupuntura contemporânea foi bem considerada pela maioria. Entretanto, alguns apontaram dificuldades para recordar os conhecimentos de anatomia, necessários à prática da neuromodulação.

De acordo com a avaliação do professor, o curso se mantém fiel a sua proposta e forma bons profissionais. Enfatiza também a importância da formação prática no ambulatório para melhor consolidação dos conteúdos teóricos. Sobre a redução da procura e a desistência, observou que é possível que tenha se esgotado uma clientela da cidade, relativamente pequena, e que a dificuldade de inserir esse conhecimento na prática também pode contribuir para reduzir o número de alunos.

Quanto às sugestões para aprimoramento do curso, o coordenador considerou que a conformação atual está boa. São realizadas reuniões com os alunos para ouvir suas sugestões, e “procuramos incluir as que são viáveis”, afirmou. Assim, o curso se aprimora ano a ano em função do retorno dos alunos.

Na opinião do coordenador do curso, o maior desafio é incluir a acupuntura no SUS. Como vários profissionais que trabalham no SUS têm mais de um vínculo de trabalho, fica difícil conseguirem fazer uma especialização. Portanto, no processo seletivo do curso, os médicos que já fazem parte da rede do SUS têm prioridade – se por acaso houver disputa de vaga, terão pontuação maior. A cobrança de produtividade é outro fator que dificulta a inserção da acupuntura no SUS. Um clínico pode atender 16 pessoas em uma manhã, mas o acupunturista não. Essa especificidade da prática da acupuntura precisa ser levada em consideração, ponderou ele.

A perspectiva de trabalho com a acupuntura foi uma das questões discutidas com os alunos entrevistados. A maioria pretende introduzir a acupuntura em sua clínica privada; apenas um dos entrevistados mostrou interesse em trabalhar com a acupuntura na atenção primária. Entretanto, todos reconheceram que aprenderam bastante no ambulatório, no contexto do SUS.

Estudos realizados nos EUA, Canadá, Austrália e países da Europa mostram que a introdução das medicinas alternativas e complementares na educação médica ainda é incipiente3030. Broom A, Adams J. Uma sociologia da educação em saúde integrativa. In: Nascimento MC e Nogueira MI, orgs. Intercâmbio Solidário de Saberes em Saúde. Racionalidades Médicas e Práticas Integrativas e Complementares. São Paulo: Hucitec; 2013. p.139-53.

31. Kwon Y. Chinese Medicine Education and Its Challenges in the United States. Chin J IntegrMed 2014;20(4)256-62.
-3232. Huan-bin D. Traditional Chinese Medicine Education in Canada. Chin J Integr Med 2015; 21(3)173-5.. Um dos principais entraves seria a inexistência de uma linguagem comum entre os paradigmas: meridianos, campos de energia ou chacras são conceitos que não se enquadram na lente biomédica. Quando as divergências paradigmáticas são ensinadas de forma muito simplista, tal enfoque pode contribuir para materializar as diferenças e exagerar a incomensurabilidade. A melhor abordagem seria apontar as diferenças e os conflitos, mas também destacar as possibilidades de interação e complementaridade3030. Broom A, Adams J. Uma sociologia da educação em saúde integrativa. In: Nascimento MC e Nogueira MI, orgs. Intercâmbio Solidário de Saberes em Saúde. Racionalidades Médicas e Práticas Integrativas e Complementares. São Paulo: Hucitec; 2013. p.139-53..

Entretanto, o ensino da acupuntura vem sendo progressivamente introduzido em cursos médicos no Brasil e no mundo. As experiências educacionais demonstram que grande parte dos estudantes de Medicina tem real interesse em aprender acupuntura, e as pesquisas revelam que a maioria deles gostaria que a acupuntura fosse incluída como disciplina eletiva nos currículos médicos3333. Amadera JE, Pai HJ, Hsing WT, Teixeira MZ, Martins MA, Lin CA. The teaching of acupuncture in the University of São Paulo School of Medicine, Brazil. RevAssocMedBras 2010;56(4)458-61.,3434. Nogueira, MI. Racionalidades Médicas e formação em saúde: um caminho para a integralidade. In: Por uma sociedade cuidadora. Pinheiro R, Silva JR AGS, org. Rio de Janeiro: CEPESC:IMS/UERJ; 2010. p.101-14..

Os resultados da pesquisa aqui apresentada mostraram que, apesar das diferenças paradigmáticas significativas, há interesse e receptividade dos estudantes de Medicina e médicos na abordagem integrativa do processo saúde-doença oferecida pela medicina tradicional chinesa/acupuntura. Entre os aspectos positivos levantados, destacam-se a valorização da abordagem de dimensões do adoecimento humano negligenciadas pela biomedicina, o favorecimento da construção de um olhar integral sobre o sujeito e os bons resultados obtidos nos tratamentos com acupuntura. A necessidade de promover maior integração teórico-prática nas aulas, sugerida pelos alunos da graduação, e a crítica ao reducionismo no ensino da MTC/acupuntura, feita pelos alunos da pós-graduação, foram os principais desafios apontados. No entanto, a complementaridade entre os dois paradigmas e o diálogo com a linguagem biomédica oferecido pelo paradigma das neurociências foram percebidos como positivos pela maioria dos entrevistados.

Para uma compreensão mais abrangente das dinâmicas de atuação dos vários paradigmas em saúde, é importante levar em conta as especificidades sociais e históricas da prática médica. Nesse sentido, uma formação médica interdisciplinar poderia facilitar a integração entre diferentes saberes e práticas, proporcionando um conjunto de perspectivas críticas para estudantes e praticantes pensarem sobre saúde, doença e o indivíduo na sociedade contemporânea3030. Broom A, Adams J. Uma sociologia da educação em saúde integrativa. In: Nascimento MC e Nogueira MI, orgs. Intercâmbio Solidário de Saberes em Saúde. Racionalidades Médicas e Práticas Integrativas e Complementares. São Paulo: Hucitec; 2013. p.139-53..

CONCLUSÕES

Duas conclusões se destacaram neste estudo. Constatou-se um duplo padrão de aprendizado: abertura dos estudantes de graduação e pós-graduação médicas para o paradigma da medicina chinesa devido às suas especificidades e múltiplas abordagens terapêuticas, ao mesmo tempo em que se buscavam aproximações com o modelo biomédico. A complementaridade entre o paradigma da medicina chinesa e o das neurociências foi a principal característica do processo de incorporação da acupuntura no ensino médico da UFF.

REFERÊNCIAS

  • 1
    Solos I, Yuan L, Guang-xin Y. The Teacher-Disciple Tradition and Secret Teaching in Chinese Medicine. Chin J Integr Med 2014;20(1)56-62.
  • 2
    Bin L, Fangxing MA. How to lead foreign students into Traditional Chinese Medicine. Journalof Medical Collegesof PLA2013;28(1)39-45.
  • 3
    Chen J, Li Y, Tang Y, Zeng F, Wu X, Liang F. Case-based learning in education of Traditional Chinese Medicine: a systematic review. Tradit Chin Med 2013;3(5)692-7.
  • 4
    Yu Y, Jiang Q, Zhang L, Wang Q, Huang M. The Feasibility of Applying PBL Teaching Method to Surgery Teaching of Chinese Medicine. International Education Studies 2008;4(1)110-3.
  • 5
    Nogueira MI. A translação do olhar: da biomedicina à acupuntura. In: Camargo Jr K, Nogueira MI, orgs. Por uma Filosofia Empírica da Atenção à Saúde: olhares sobre o campo biomédico. Rio de Janeiro: Ed FIOCRUZ (Coedição com a Faperj); 2009. p.65-84.
  • 6
    Iorio RC, Siqueira AAF, Yamamura Y. Acupuntura: Motivações de Médicos para a Procura de Especialização. RevBrasEducMéd 2010;34(2)247-254.
  • 7
    Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS. Brasília, Série B Textos Básicos de Saúde; 2008.
  • 8
    Barros NF, Siegel P, Otani, MAP, orgs. O Ensino das Práticas Integrativas e Complementares: Experiências e Percepções. São Paulo: Hucitec; 2011.
  • 9
    Nascimento MC, Nogueira MI, orgs. Intercâmbio Solidário de Saberes em Saúde. Racionalidades Médicas e Práticas Integrativas e Complementares. São Paulo: Hucitec; 2013.
  • 10
    Universidade Federal Fluminense – UFF. Currículo do Curso de Medicina. Niterói(RJ),1994.
  • 11
    Saippa-Oliveira G, Koifman L, Marins JJN. A busca da integralidade nas práticas de saúde e a diversificação dos cenários de aprendizagem. O direcionamento do curso de medicina da UFF. In: Cuidado: as fronteiras da integralidade. Pinheiro R, Mattos RA, orgs. São Paulo: Hucitec/ Abrasco; 2004.p.307-19.
  • 12
    Luz D. Medicina tradicional chinesa, racionalidade médica. In: Luz MT, Barros NF, orgs. Racionalidades Médicas e Práticas Integrativas em Saúde: Estudos Teóricos e Empíricos. Rio de Janeiro: UERJ/IMS/LAPPIS; 2012. p.103-52.
  • 13
    Ding SS, Hong SH, Wang C, Guo Y, Wang ZK, Xu Y. Acupuncture modulates the neuro–endocrine–immune network. Q J Med2014;107:341-5.
  • 14
    Gatti BA. Grupo focal na pesquisa em Ciências Sociais e Humanas. Brasília: Liber Livro; 2005.
  • 15
    Víctora CG, Knauth DR, Hassen, MNA. Pesquisa qualitativa em saúde: uma introdução ao tema. Porto Alegre: Tomo Editorial; 2000.
  • 16
    Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo: Hucitec,13ª ed.;2013.
  • 17
    Bardin L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70; 2004.
  • 18
    Kuhn TS. A tensão essencial. Lisboa: Edições 70, Biblioteca de Filosofia Contemporânea; 1977.
  • 19
    Kuhn TS. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Editora Perspectiva S.A., 3ª ed.; 1991.
  • 20
    Teixeira MZ, Chin AL, Martins MA. Homeopathy and acupuncture teaching at Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo: the undergraduates attitudes. Sao Paulo Med J. 2005; 123(2)77-82.
  • 21
    Teixeira MZ, Lin CA. Educação Médica em Terapêuticas não Convencionais. RevMed2013;92(4)224-35.
  • 22
    Külkamp IC, Burin GD, Souza MHM, Silva P, Piovezan AP. Aceitação de práticas não-convencionais em saúde por estudantes de medicina da Universidade do Sul de Santa Catarina. RevBrasEducMed 2007;31(3)229-35.
  • 23
    Cintra MER, Figueiredo R. Acupuntura e promoção de saúde: possibilidades no serviço público de saúde. Interface - Comunic., Saude, Educ 2010;14(32)139-54.
  • 24
    Tesser CD. Práticas complementares, racionalidades médicas e promoção da saúde: contribuições pouco exploradas. Cad. Saúde Pública 2009;25(8)1732-42.
  • 25
    Ross J. Zang Fu: sistemas de órgãos e vísceras da medicina tradicional chinesa. São Paulo: Ed. Roca Ltda, 2ª ed.;1994.
  • 26
    Luz MT. Novas Práticas em Saúde Coletiva. In: Minayo MCS, Coimbra Jr. CEA, orgs. Críticas e Atuantes: Ciências Sociais e Humanas em Saúde na América Latina. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz; 2005. p.33-46.
  • 27
    Luz MT, Barros NF, orgs. Racionalidades Médicas e Práticas Integrativas em Saúde: Estudos Teóricos e Empíricos. Rio de Janeiro: UERJ/IMS/LAPPIS; 2012.
  • 28
    Good JB. Medicine, rationality, and experience: An anthropological perspective. United Kingdom: Cambridge University Press; 2005.
  • 29
    Nogueira, MI. A formação médica sob a ótica do paradigma vitalista: via de entrada em um mundo novo. In: Nascimento MC, Nogueira MI, orgs. Intercâmbio solidário de saberes em saúde: racionalidades médicas e práticas integrativas e complementares. São Paulo: Editora Hucitec; 2013. p.123-38.
  • 30
    Broom A, Adams J. Uma sociologia da educação em saúde integrativa. In: Nascimento MC e Nogueira MI, orgs. Intercâmbio Solidário de Saberes em Saúde. Racionalidades Médicas e Práticas Integrativas e Complementares. São Paulo: Hucitec; 2013. p.139-53.
  • 31
    Kwon Y. Chinese Medicine Education and Its Challenges in the United States. Chin J IntegrMed 2014;20(4)256-62.
  • 32
    Huan-bin D. Traditional Chinese Medicine Education in Canada. Chin J Integr Med 2015; 21(3)173-5.
  • 33
    Amadera JE, Pai HJ, Hsing WT, Teixeira MZ, Martins MA, Lin CA. The teaching of acupuncture in the University of São Paulo School of Medicine, Brazil. RevAssocMedBras 2010;56(4)458-61.
  • 34
    Nogueira, MI. Racionalidades Médicas e formação em saúde: um caminho para a integralidade. In: Por uma sociedade cuidadora. Pinheiro R, Silva JR AGS, org. Rio de Janeiro: CEPESC:IMS/UERJ; 2010. p.101-14.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jan-Mar 2019

Histórico

  • Recebido
    9 Out 2017
  • Aceito
    16 Maio 2018
Associação Brasileira de Educação Médica SCN - QD 02 - BL D - Torre A - Salas 1021 e 1023 | Asa Norte, Brasília | DF | CEP: 70712-903, Tel: (61) 3024-9978 / 3024-8013, Fax: +55 21 2260-6662 - Brasília - DF - Brazil
E-mail: rbem.abem@gmail.com