ENSINO DE DOENÇAS INFECCIOSAS E PARASITÁRIAS NO CURSO DE GRADUAÇÃO DE ESCOLAS MÉDICAS BRASILEIRAS

José Luís da Silveira Baldy Sobre o autor

Resumo:

Com base em dados coligidos através de questionário enviado a 75 escolas médicas brasileiras, em 1980, são analisados aspectos relativos ao ensino das Doenças Infecciosas e Parasitárias no Curso de Graduação em Medicina. Responderam ao questionário 68% das escolas, permitindo a verificação do nome da disciplina e do departamento responsáveis por tal ensina; da duração, conteúdo programático e procedimentos de avaliação da disciplina; do número e do regime de trabalho dos docentes e de outras disponibilidades para o ensino.

Summary:

Aiming at collecting data on the teaching of infections and parasitic diseases, questionnaires were sent to 75 Brazilian Medical Schools in 1980. The answers sent in by 68% of the schools permitted the verification of the name in which the subject was given and the department responsible for its teaching. They also informed of its program duration, methods of evaluation, as well as of the number of teachers, working hours and of the available resources for effective teaching.

INTRODUÇÃO

Com o objetivo de conhecer aspectos relativos à situação atual do ensino de Doenças Infecciosas e Parasitárias (DIP) nos Cursos de Graduação das escolas médicas do Brasil, realizamos um levantamento de dados, através de questionário enviado às instituições de ensino de Medicina do País.

METODOLOGIA

Questionário padronizado, sob forma de 25 questões com alternativas explícitas, sete dos quais também com resposta aberta, foi encaminhado, em 1980, (e, novamente, em 1981 para as que não haviam atendido à primeira solicitação), às 75 escolas médicas brasileiras. As questões referiram-se:

  • à duração e ao regime do Curso Médico;

  • à existência de disciplina responsável pelo curso de DIP;

  • ao nome de disciplina e ao departamento a que pertence;

  • ao corpo docente da disciplina;

  • ao número de docentes da disciplina egressos da própria escola;

  • à duração do curso de DIP e ao período, ou ano, em que é realizado;

  • aos temas constantes do programa da disciplina;

  • à qualidade da(s) biblioteca(s) existente(s) na instituição, quanto ao acervo utilizável pelos acadêmicos que cursam a disciplina;

  • à realização de trabalhos de pesquisa e/ou levantamento, pelos acadêmicos, durante o curso da disciplina;

  • ao tipo de avaliação do aprendizado;

  • ao tipo de hospital utilizado pela escola;

  • à disponibilidade e ao número de leitos para internação dos pacientes atendidos pela disciplina;

  • à categoria (INAMPS, FUNRURAL, ou não-contribuintes) dos pacientes internados;

  • às características do ambulatório da disciplina;

  • à existência de estágio de Pronto-socorro de Clínica Médica durante o Curso Médico;

No decorrer de 1980 e 1981, recebemos os questionários respondidos por 51 instituições: 22 universidades federais, 6 universidades estaduais, 21 instituições privadas e 2 instituições oficiais isoladas. (quadro 1)

QUADRO 1
Escolas Médicas que responderam ao Questionário

Apesar de a solicitação ter sido feita mais de uma vez, não obtivemos resposta de 24 escolas médicas: 6 universidades federais, 15 instituições privadas e 3 instituições oficiais isoladas.

RESULTADOS

Nas 50 escolas que deram informação relativa ao regime e à duração do Curso Médico, este é desenvolvido por séries em 21 (42%), tendo 6 anos de duração em 19 (duas não a especificaram), e por sistema de créditos em 29 (58%). Em 20 destas, o Curso tem 12 períodos em 18; 11 períodos em uma; 10 períodos em outra.

Em 3 (5,9 %) instituições, não há individua­ lizada a disciplina; nas 48 (94,1 %) em que existe, a disciplina recebe os seguintes nomes: Doenças Infecciosas e Parasitárias em 34 (70,8%); Moléstias Infecciosas e Parasitárias em 5 (10,4%); Doenças Infectuosas e Parasitárias em 2 (4,2%); Doenças Transmissíveis em 2 (4,2 %); e, nas cinco restantes, é designada, em cada uma, pelos nomes: Doença Infecciosa e Parasitária, Doenças Infecciosas e Tropicais, Doenças. Tropicais e Infecciosas, Moléstias Infecciosas e Moléstias Parasitárias e Infecciosas.

A disciplina pertence ao Departamento de Clínica Médica em 15 (31,2%) das 48 instituições; em 5 (10,4 %), ao Departamento de Medicina Interna; em outras 5 (10,4%) ao Departamento de Medicina; em 3 (6,2 %) ao Departamento de Medicina Clínica; em outras 3 (6,2%), ao Departamento de Medicina Preventiva; em outras 3 (6,2%), ao Departamento de Saúde Comunitária; em 2 (4,2 %), ao Departamento de Medicina Social; em outras 2 (4,2%), ao Departamento de Medicina Tropical. Nas dez restantes, cada uma pertence, respectivamente, aos seguintes Departamentos: Dermatologia e Medicina Tropical; Moléstias Infecciosas e Parasitárias, Dermatologia e Radiologia; Especialidades Médicas; Materno-Infantil; Medicina Integrada, Medicina Preventiva e Social, Medicina Preventiva e Social e Saúde Pública, Patologia, Promoção da Saúde e Departamento de Saúde Coletiva.

Na tabela 1, indicam-se os períodos, ou anos, do Curso Médico em que a disciplina é ministrada.

TABELA 1
Período, ou Série, em que a Disciplina relativa às Doenças

Nas 44 escolas que deram informação, o curso de DIP tem a duração de um semestre letivo em 19 (43,2%); de um ano letivo em 5 (11,4 %); de duas semanas em 4 (9,1%); de quatro semanas em 4 (9,1%); de cinco semanas em 4 (9,1%); de quatro meses em 3 (6,8%). Nas outras cinco instituições, o curso de DIP tem a duração, respectivamente, de três semanas, seis semanas, oito semanas, três meses, e cinco meses.

Na tabela 2, indica-se o número de professores, por categoria, e de acordo com o regime de trabalho (tempo integral, ou parcial), nas 48 instituições nas quais existe a disciplina de DIP. Em 34 (75,6 %) das 45 disciplinas que deram essa informação, há professores que foram graduados em Medicina na [1rópria escola: em 5 (11,1%) disciplinas, um; em 9 (20,0%), dois; em 3 (6,7%), quatro; em 3 (6,7%), cinco; em 1 (2,2%), oito; em 3 (6,7%), nove; em 2 (4,4%), dez; e em 1 (2,2%), nove. Em 14 (31,1%), não há nenhum docente da disciplina graduado na própria instituição.

TABELA 2
Corpo Docente da Disciplina

A qualidade da biblioteca para uso dos acadêmicos que fazem o curso de DIP é considerada ótima por 9 (19,1%); boa por 15 (31 ,9%); regular por 17 (36,2 %); por 6 (12,8%) das 47 escolas.

Quarenta e sete disciplinas deram informação quanto aos temas incluídos em seu programa. O número desses temas - sendo 11 o mínimo e 49 o máximo - é o seguinte: 11 a 20 temas em seis escolas; 21 a 30 em 20; 31 a 40 em 14; e mais de 40 em sete escolas. O número médio de temas por escola é de 29. Na tabela 3, indicam-se os temas ministrados em aulas expositivas de sete, ou mais, das 47 disciplinas. Dos temas nela referidos somente tétano e toxoplasmose, por omissão involuntária, não estavam entre as alternativas explícitas do questionário. Outros, também, foram citados entre os temas do programa: cólera e antibióticos em 4 (8,5%); acidentes por animais peçonhentos, listeriose, septicemias e viroses respiratórias agudas em 2 (4,3%); e, por fim, candidíase, doenças causadas por bactérias anaeróbias não esporuladas, doenças causadas por clamídias, endocardite bacteriana, escarlativa, febre de origem obscura, gastrenterites, imunogênese, mecanismos de defesa antiinfecciosa, micetomas e pneumonias bacterianas em 1 (2,1%) disciplina.

TABELA 3
Temas Incluídos no Programa da Disciplina

Durante o curso de DIP, os alunos realizam trabalhos de pesquisa e/ou levantamento em 26 (59,1%) das 44 escolas que prestaram essa informação; em 16 (36,4%), realizam só levantamento(s); em 3 (6,8%), só pesquisa (s); e em 7 (15,9%), levantamento(s) e pesquisa(s): Em 18 (40,9%) escolas, os acadêmicos não realizam pesquisas, ou levantamentos, durante o curso.

A avaliação do aprendizado, nas 47 disciplinas que informaram, é efetuada através de prova escrita, exclusivamente, em 11 (23,4%); através de prova escrita e teste de escolha múltipla em 8 (17,0%); através de prova escrita e trabalho teórico-prático em outras 8 (17,0%); através de prova escrita, teste de múltipla escolha e trabalho teórico-prático em 16 (34,0%); através de teste de múltipla escolha e trabalho teórico­prático em 3 (6,4 %); através de prova escrita e prova oral em 1 (2,1%).

Das 49 instituições que deram resposta à esta questão, 27 (55,1%) utilizavam só hospita1 próprio; 17 (34,7%) utilizavam apenas hospital convenente (de outra entidade); e 5 (10,2 %) utilizavam hospital próprio e em convênio.

Na tabela 4, distribuem-se as escolas segundo o número de leitos disponíveis nos hospitais que utilizam para internação dos pacientes atendidos pela disciplina-enfermaria própria, enfermaria geral, ou de Clínica Médica, e em hospital especializado de doenças infecciosas e parasitárias. Não dispõem de leitos para internação 4 (8,5%) das 47 disciplinas que prestaram essa informação.

TABELA 4
Leitos para Internação de Doentes da Disciplina

Na tabela 5, distribuem-se as disciplinas de acordo com a categoria dos pacientes atendidos, considerando-se o tipo de hospital de que se serve a escola.

Das 46 disciplinas que deram essa informação, 26 (58,7%) dispõem e 19 (41,3%) não dispõem de ambulatório para atendimento de seus pacientes. Com base na informação de 27 disciplinas, o número médio de ambulatórios por semana é de 3,1 por disciplina, e 2,7 o número médio de salas disponíveis para uso da disciplina por ambulatório, sendo 3,8 o número médio de horas por ambulatório.

TABELA 5
Categoria dos Pacientes Atendidos

Das 47 instituições que deram resposta a essa pergunta, em 34 (72,3%) os alunos realizam estágio de Pronto-socorro de Clínica Médica durante o Curso Médico, e em 13 (27,7%), não.

COMENTÁRIOS

Apesar de não termos obtido informações de 24 escolas médicas, consideramos que os dados relativos às 51 instituições que deram resposta ao questionário que lhes foi enviado são suficientemente representativos para permitir uma apreciação acerca das condições do ensino de Doenças Infecciosas e Parasitárias na Graduação em Medicina em nosso País.

A disciplina de DIP - nome pelo qual é designada em 70,8% das escolas - não existe individualizada em 5,9% das 51 instituições. Somente em 7,8% Constituem departamento próprio; a maioria das demais (62,5%) está integrada no Departamento de Clínica Médica, ou similar.

A média de docentes por disciplina, dos quais 40,7% trabalham em regime de tempo integral - é de 5,6; 16,0% são professores titulares, 15,7% adjuntos, 4,5% assistentes-doutores, 31,7% assistentes e 23,5% auxiliares de ensino; há apenas 1,1% docentes-1ivres nas 48 disciplinas de DIP; 70,8% das disciplinas têm elo menos um ex-aluno da escola em seu corpo docente.

Nas maiorias das escolas, a disciplina é ministrada do 7° ao 10° período (sistema de créditos), ou no 4° ou 5° anos (sistema seriado) do Curso de Graduação. Quanto à duração do Curso de DIP, deve-se salientar que é menor que quatro semanas em 11,4% das disciplinas.

É grande o número de temas da programação teórica das disciplinas de DIP: em 41 (87,2%) é maior que 20, sendo maior que 30 em 21 (44,7%). Verifica-se que sífilis (17,0%), hanseníase (21,3%) e tuberculose (27,7%) não estão incluídas no programa da maioria das disciplinas. As patologias regionais (filariose - 23,4%, hidatidose - 21,3%, e peste - 23,4%) também constituem temas ministrados por número relativamente pequeno de disciplinas. Surpreendentemente, apenas 2 (4,3%) e 4 (8,5%) das disciplinas de DIP incluem, respectivamente, pseticemias e antibióticos em suas aulas expositivas deve-se ressalvar, entretanto, que esses dois temas não estavam entre as alternativas explícitas do questionário. A avaliação relativa a tétano e toxoplasmose ficou prejudicada por terem sido omitidos, involuntariamente, das alternativas explícitas do questionário; apesar disso, 40,4% e 31,9% das respostas incluíram esses dois temas, respectivamente, nas respostas abertas. Por outro lado, doenças de incidência muito baixa, sem expressão epidemiológica em nosso País, como a histoplasmose e as riquetsioses, constam da programação de número significativamente alto de disciplinas. Em contraposição, temas de reconhecida importância - tais como as doenças determinadas por clamídias e as causadas por bactérias anaeróbias não esporuladas - foram incluídas no programa de apenas 1 (2,1%) disciplina.

Quanto à biblioteca para uso dos alunos do curso de DIP, foi considerada boa ou regular em 68,1 %, ótima em 19,1% e em 12,8% das escolas.

Em número consideravelmente elevado (40,9%) das disciplinas, os acadêmicos não realizam pesquisas, ou levantamentos, durante o curso. Na maioria (93,6%) das disciplinas, a prova escrita é o instrumento exclusivo, ou faz parte dos métodos de avaliação do aprendizado; em nenhuma delas a avaliação é feita exclusivamente através de testes de escolha múltipla.

Quatro (8,5%) disciplinas das 47 que informaram não dispõem de leitos em hospital, para internação dos pacientes com DIP. Entre as 43 restantes, 60,5% possuem enfermaria própria, a maioria (44,2%) das quais com 11 a 30 leitos disponíveis para internação; apenas 13,9% disciplinas dispõem de dez leitos, ou menos, e 11,6% atendem em hospital especializado em DIP.

Chama a atenção o fato de que a grande maioria (84,8%) dos hospitais utilizados por 46 instituições dão atendimento a doentes previdenciários (INAMPS e FUNRURAL) apenas 15,2% dos hospitais não dão atendimento a contribuintes do INAMPS e do FUNRURAL. Embora 84,8% também atendam as pessoas não contribuintes (“indigentes”), apenas 8,7% internam exclusivamente essa categoria de pacientes, ao contrário do que ocorria até a década de 60, quando os hospitais-escola eram quase restritos ao atendimento de “indigentes”.

É incompreensível que 41,9% das disciplinas de DIP não realizem atendimento ambulatorial. De onde procedem os pacientes internados e onde são acompanhados aqueles que recebem alta hospitalar?

Em levantamento que realizamos, em 1981, no Pronto-socorro do Hospital Universitário de Londrina, verificamos que 69,0% dos doentes atendidos no Pronto-socorro de Pediatria e 28,6% dos atendidos no Pronto-socorro de Clínica Médica apresentavam moléstias febris, doenças infecciosas em sua maioria. Sendo de extraordinária importância para o aprendizado de DIP (e da Medicina em geral) a realização de estágios supervisionados por docentes em prontos-socorros clínicos e pediátricos, parece-nos inadmissível que no curso de 27,7% das escolas médicas não haja estágio de Pronto-socorro em Clínica Médica.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Jan 2022
  • Data do Fascículo
    May-Aug 1983
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