Open-access Avaliação do podcast como ferramenta de estudo no ensino médico

RESUMO

Introdução:   O Podcast é uma forma de publicação de arquivos de mídia digital em formato de áudio e/ou vídeo na internet, através de um feed em uma rede social ou plataforma de mídias, no qual os usuários conseguem encontrar as publicações disponíveis, iniciar debates sobre assuntos em comum, deixar opiniões e críticas e compartilhar com outros ouvintes o conteúdo acessado.

Objetivo:  avaliar o podcast como instrumento de ensino.

Métodos:  Estudo de corte transversal com 144 profissionais de saúde que responderam aos questionários ao final de um podcast no período de agosto de 2024 e fevereiro de 2025. Foram avaliadas características sociodemográficas dos ouvintes, a opinião dos participantes sobre seu nível de aprendizado obtido com o conteúdo e opinião do ouvinte acerca do Podcast como ferramenta de ensino.

Resultados:   Quanto ao perfil dos ouvintes do Podcast temos que: 56,25% dos participantes foram residentes de Ginecologia e Obstetrícia, dos quais a maior parte cursa em instituições públicas dentro do estado de São Paulo e tem entre 20-29 anos. Os temas dos episódios mais acessados foram istmocele, atendimento à população transgênero e gênero diverso e restrição de crescimento Intrauterino. Quando avaliamos de acordo com o nível de formação dos médicos observamos que os residentes recomendam mais fortemente o uso desta ferramenta que os acadêmicos e os ginecologistas (p=0,046). Da mesma forma os residentes consideraram estes temas fortemente relevantes quando comparados aos outros grupos (p= 0,026)

Conclusões:   De acordo com os médicos ginecologistas, o podcast é uma boa ferramenta para uso no ensino médico.

Palavras-chave:
podcast; ensino médico; metodologia ativa de ensino

ABSTRACT

Introduction:   Podcasts are a way of publishing digital media files in audio and/or video format on the internet, through a feed on a social network or media platform, where users can find available publications, start debates on common topics, leave opinions and criticisms, and share accessed content with other listeners.

Objective:   To evaluate podcasts as a teaching tool.

Methods:   A cross-sectional study was conducted with 144 healthcare professionals who answered questionnaires at the end of a podcast between August 2024 and February 2025. The sociodemographic characteristics of the listeners, their views on the level of learning gained from the content, and their opinions about podcasts as a teaching tool were evaluated.

Results:  Regarding the profile of the podcast listeners, 56.25% of the participants were residents in Gynecology and Obstetrics, most of whom study at public institutions in the state of São Paulo and are between 20-29 years old. The most accessed episode topics were isthmocele, care for the transgender and gender-diverse population, and intrauterine growth restriction. When evaluated according to the level of training of the physicians, residents more strongly recommend the use of this tool than medical students and gynecologists (p=0.046). Similarly, residents considered these topics highly relevant when compared to other groups (p= 0.026).

Conclusions:  According to gynecologists, podcasts are a valuable digital tool for medical education.

Keywords:
podcast; medical education; active teaching methodology

INTRODUÇÃO

Os podcasts são uma forma de publicar arquivos de mídia digital em formato de áudio e/ou vídeo na internet, por meio de um feed em rede social ou plataforma de mídia, onde os usuários podem encontrar as publicações disponíveis, iniciar debates sobre temas comuns, deixar opiniões e críticas, e compartilhar o conteúdo acessado com outros ouvintes, sendo uma ferramenta amplamente utilizada para a divulgação científica por centros universitários e como tecnologia de e-learning1),(2.

Atualmente, os podcasts representam a principal forma de educação assíncrona entre os residentes de medicina, sendo essa modalidade uma mudança inegável no paradigma educacional. A facilidade de acesso permite flexibilidade nas rotinas de estudo, tornando-a uma aliada poderosa na construção do conhecimento3. Os podcasts educacionais trazem uma série de benefícios potenciais para os alunos. Numa época em que as demandas no tempo dos profissionais de saúde não param de aumentar, essa modalidade parece ter conquistado seu espaço, sendo acessível enquanto o ouvinte realiza suas tarefas diárias, como cozinhar ou dirigir4.

A divulgação de informações por meio de áudio também permite a troca de conhecimento, aproximando os especialistas de seu público-alvo de uma forma menos intimidante e hierárquica. Além disso, a disponibilidade online dos programas permite a repetição das informações quando necessário, sendo que o aluno pode ouvir o conteúdo quantas vezes julgar necessário para sua aprendizagem, individualizando esse processo4.

Muitos residentes, de diversas especialidades, preferem os podcasts para complementar sua formação, em vez de aulas formais ou leituras. Atualmente, entre os produtores de podcasts estão não apenas educadores e assistentes, mas também grandes instituições e revistas médicas de renome, como o New England Journal of Medicine e a JAMA, o que comprova sua aceitação na comunidade científica4. Em uma sociedade em que o acesso à informação é facilitado, mas não necessariamente baseado em fundamentos científicos, o desenvolvimento de podcasts institucionais garantiria a validade das informações transmitidas, aproximaria alunos e professores, facilitaria a troca de experiências entre centros de referência em um espaço seguro para a construção do conhecimento pelos profissionais envolvidos, contribuindo para um melhor atendimento ao paciente. Este estudo tem como objetivo avaliar os podcasts como ferramenta de ensino.

MÉTODOS

Estudo transversal com 144 respostas de profissionais da área da saúde dadas entre agosto de 2024 e fevereiro de 2025 sobre podcasts como ferramenta de estudo. Foram incluídos estudantes ou profissionais da área da saúde com formação em Ginecologia e Obstetrícia, ou médicos já formados na área, com 18 anos ou mais, que tivessem condições de acessar formulários digitais, seja por meio de smartphones, computadores ou tablets, para uso pessoal ou coletivo. Foram excluídos os profissionais que não atuam na área médica.

Foram produzidos dez podcasts com temas relevantes para estudantes e profissionais da área da saúde, relacionados à saúde da mulher. No final de cada episódio, os ouvintes eram direcionados a um questionário digital que, por meio da assinatura eletrônica do Termo de Consentimento Informado, indagava sobre seu perfil sociodemográfico, suas percepções quanto ao nível de aprendizado obtido com o conteúdo e sua opinião sobre os podcasts como ferramenta de ensino.

A aceitação dos ouvintes foi avaliada com base no número de acessos a cada episódio, na frequência dos acessos e nos dados preenchidos no formulário. Foram apresentadas quinze perguntas de múltipla escolha, das quais cinco visavam delinear o perfil sociodemográfico da população participante e dez analisavam a adequação do formato de podcast como ferramenta de ensino na perspectiva de cada participante. Os itens de resposta foram elaborados com base em um questionário de Likert validado, e apenas um item podia ser selecionado para cada pergunta.

Todos os participantes assinaram o termo de consentimento informado, e a pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição sob o número CAAE: 81209324.0.0000.5404.

Análise estatística

Para descrever o perfil da amostra de acordo com as variáveis em estudo, foram elaboradas tabelas de frequência para as variáveis categóricas, com valores de frequência absolutos (n) e percentuais (%), e estatísticas descritivas para as variáveis numéricas, com média, desvio-padrão, valores mínimo e máximo, mediana e quartis. Para a comparação de variáveis categóricas entre os três grupos (residentes, médicos e acadêmicos), utilizou-se o teste do qui-quadrado ou o teste exato de Fisher. Para a comparação das variáveis numéricas entre os três grupos (residentes, médicos e acadêmicos), utilizou-se o teste de Kruskal-Wallis, seguido pelo teste post-hoc de comparação múltipla de Dunn, devido à ausência de distribuição normal das variáveis. O nível de significância adotado para os testes estatísticos foi de 5%, ou seja, P < 0,05.

RESULTADOS

Quanto ao perfil dos ouvintes do podcast, temos: 56,25% dos participantes eram residentes em Ginecologia e Obstetrícia, a maioria dos quais estuda em instituições públicas no estado de São Paulo e tem entre 20 e 29 anos; e 32,64% já eram ginecologistas e obstetras formados, a maioria com idades entre 30 e 39 anos. A minoria dos ouvintes é composta por pessoas com idades entre 40 e 49 anos (4,9% da amostra) (Tabela 1).

Tabela 1
Características dos participantes (N=144).

Quanto aos temas dos episódios mais acessados, temos: istmocele, atendimento à população transgênero e de diversidade de gênero e restrição de crescimento intrauterino. No que diz respeito ao uso prévio de mídias digitais como metodologia de ensino e aprendizagem, 87% dos ouvintes já haviam utilizado mídias digitais para seus estudos pessoais ou o fazem com frequência. Desses, 41,67% relataram uso esporádico, 25,69% relataram uso aproximadamente uma vez por mês e 21,53% relataram uso aproximadamente uma vez por semana (Tabela 2).

Tabela 2
Percepção dos participantes sobre o ensino por mídia digital (n=144).

Do total de ouvintes e participantes da pesquisa, 94,44% relataram uma alta probabilidade de incorporar podcasts como ferramenta de ensino ativa em seus estudos pessoais após ouvirem um dos episódios analisados. Desses, 100% dos participantes da amostra recomendariam essa forma de aprendizagem aos seus colegas de profissão, o que demonstra uma boa aceitação da ferramenta por parte dos participantes da pesquisa. Entre os participantes, 98,61% relataram se sentir mais bem preparados para lidar com a situação discutida no episódio caso a enfrentassem na vida real (Tabela 2).

Ao avaliarmos os médicos de acordo com seu nível de formação, observamos que os residentes recomendaram o uso dessa ferramenta com mais veemência do que os estudantes de medicina e os ginecologistas (p = 0,046). Da mesma forma, os residentes consideraram esses temas altamente relevantes quando comparados aos outros grupos (p = 0,026) (Tabela 3).

Tabela 3
Percepção dos participantes sobre a educação em mídia digital de acordo com seu nível de escolaridade (n=144).

DISCUSSÃO

Recentemente, em nossa cultura atual de acesso imediato ao conhecimento, tem-se observado um aumento no uso de recursos educacionais assíncronos e abertos nos últimos anos, com uma aceleração significativa desse ritmo após a pandemia causada pelo novo coronavírus a partir de 20194)-(6.

Há uma tendência na comunidade acadêmica atual no sentido de adotar estratégias de ensino que privilegiem as dimensões socioepistemológicas da aprendizagem, mais precisamente a aprendizagem construtivista e colaborativa. Essas estratégias promovem um envolvimento mais profundo por parte dos alunos e desenvolvem habilidades de nível superior. Quando aplicadas à educação médica, elas preparam os futuros profissionais de maneira mais eficaz para as complexidades da prática clínica7.

Esse modelo socioepistemológico de ensino classifica as atividades de ensino em dois eixos principais: Dimensão social: Onde a aprendizagem pode ser individual ou em grupo e colaborativa, e a Dimensão Epistemológica: Onde pode ocorrer a transmissão passiva e objetivista do conhecimento, ou a construção conjunta desse conhecimento, a chamada visão construtivista8.

De acordo com a literatura, a eficácia da aprendizagem é considerada superior nos métodos de ensino construtivistas e colaborativos. A aprendizagem construtivista é aquela em que o aluno constrói ativamente seu conhecimento e resolve problemas, em vez de apenas receber informações passivamente. A aprendizagem colaborativa permite que os alunos construam conhecimento uns sobre os outros por meio da interação, reestruturando o pensamento8.

O modelo tradicional de ensino é frequentemente caracterizado como objetivista e passivo5 e, embora sejam discutidas mudanças curriculares e de conduta, esse modelo continua presente em grande parte dos cursos de medicina no Brasil9.

Um tema frequentemente discutido é a viabilidade da introdução de metodologias de ensino ativas em contextos educacionais com orçamento reduzido; no entanto, um dos pilares dessas metodologias é que elas devem se adaptar à realidade de cada local10. Um exemplo prático é a metodologia de Aprendizagem Baseada em Problemas, um formato que exige baixo investimento financeiro inicial, pois pode ser desenvolvido priorizando o uso de situações reais da comunidade como material didático, sem a necessidade de construir centros de simulação realistas ou reestruturar o espaço institucional10. O ensino teórico com base no “Método do Arco”, de Maguerez, é focado na observação da realidade local e na reflexão teórica sobre ela, sendo também uma estratégia que pode ser implementada em contextos com recursos limitados. Esse método consiste em cinco etapas: observação da realidade concreta, identificação dos pontos-chave, teorização, hipóteses de solução e aplicação prática à realidade10.

Em relação ao contexto do e-learning, ou seja, a aprendizagem que envolve a tecnologia digital como meio de ensino, também surgem alternativas para a redução de custos, como o uso de plataformas digitais gratuitas e de acesso público, tais como o Moodle, Google Sites, YouTube e plataformas de reprodução de áudio, permitindo que os alunos não apenas recebam conhecimento de forma mais interativa, mas também participem da produção de conhecimento e da criação de conteúdo, exercitando a competência de aprender enquanto ensinam11.

A aprendizagem por meio da criação de projetos tem a “aprendizagem colaborativa” como um de seus temas centrais. Os alunos trabalham em equipes e se beneficiam da orientação dos professores e da interação com os colegas, o que pode incluir até mesmo colaborações interdisciplinares (por exemplo, entre alunos de medicina e de artes)8.

Uma pesquisa com residentes de medicina de emergência revelou que 72,2% deles afirmaram que os podcasts educacionais influenciam sua prática clínica “um pouco” ou “muito”, e 70,2% dos residentes em medicina de emergência entrevistados afirmaram que se sentiam motivados a aprender conteúdos essenciais em sua área, o que significa que os podcasts foram além de simplesmente fornecer atualizações e se tornaram a base de seu aprendizado. Apesar de se tratar de um relatório de auto-avaliação, isso indica que os alunos percebem uma transferência direta do conhecimento adquirido para sua prática profissional2.

Ao compararmos com nossos dados, percebemos uma concordância, já que, do total de ouvintes e participantes da pesquisa, 94,44% relataram uma alta probabilidade de incorporar o podcast como uma ferramenta de ensino ativa em seus estudos pessoais e, desses, 100% da amostra recomendaria essa forma de aprendizagem aos seus colegas de profissão, e 98,61% relataram se sentir mais bem preparados para lidar com a situação discutida no episódio caso a enfrentassem na vida real.

Embora existam desafios, como o tempo de preparação exigido de alunos e professores e a necessidade de métricas de avaliação mais adequadas, as evidências sugerem que essa mudança de paradigma resulta em profissionais mais competentes e, em última instância, em um atendimento ao paciente mais seguro e eficaz7.

Curiosamente, uma fonte menciona que, mesmo quando a aprendizagem ativa é eficaz, os alunos podem não perceber que estão “aprendendo” tanto quanto nas aulas tradicionais. Isso reforça a necessidade de avaliações que demonstrem o valor prático do que foi aprendido, além da satisfação subjetiva, o que pode justificar a taxa de desistência de 55,5% no aprendizado por meio de podcasts7.

Uma questão fundamental que se coloca é se as avaliações tradicionais, como os testes padronizados, são realmente capazes de medir a “aprendizagem profunda” promovida pelos métodos ativos. Esses testes costumam avaliar a aquisição de conhecimento, e não sua aplicação, o que pode levar a uma discrepância entre os resultados dos testes e a competência clínica efetivamente desenvolvida7. Na revisão da literatura, encontramos várias fontes que apontam para uma desconexão entre o que as novas pedagogias, como a aprendizagem ativa, buscam ensinar e o que os exames tradicionais conseguem avaliar. A compreensão da eficácia dessas intervenções costuma se limitar a “análises quantitativas dos resultados dos testes de conhecimento realizados antes e depois”. Isso deixa de fora a avaliação da própria experiência de aprendizagem e outras habilidades importantes que são desenvolvidas7.

O modelo das EPAs (Atividades Profissionais Confiáveis), proposto pela Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), é talvez o exemplo mais robusto de um indicador de avaliação baseado na prática. Esse modelo transforma o quadro de competências - que consiste nos atributos de um indivíduo - em atividades observáveis e verificáveis, além de incluir atividades em grupo ou em equipe como parte do treinamento, essenciais para a prática médica real12.

Existe controvérsia na literatura sobre a adoção dessa ferramenta no contexto educacional. Em uma revisão sistemática recente, os resultados de aprendizagem relatados são variados. Alguns estudos mostraram melhorias em comparação com as modalidades tradicionais, enquanto outros apontaram para uma eficácia semelhante. A maioria dos estudos não foi controlada ou o podcast foi incorporado a um pacote mais amplo de intervenções. Na opinião de alguns autores, as evidências gerais a favor do uso de podcasts como ferramenta educacional são fracas; no entanto, mesmo que não substituam os métodos convencionais de ensino, como aulas expositivas e leitura, eles podem ser úteis de forma complementar ao estudo 5),(13),(14.

CONCLUSÃO

Segundo os ginecologistas, os podcasts são uma valiosa ferramenta digital para a educação médica. Tanto o processo de criação de um podcast quanto sua audição podem ser utilizados como ferramentas de ensino. A validação institucional da ferramenta de podcast pode possibilitar sua inclusão como uma metodologia de ensino ativa e permitir a divulgação de conteúdo com base científica, combatendo a desinformação e tornando o estudo acadêmico mais dinâmico.

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  • 6
    Avaliado pelo processo de double blind review.
  • FINANCIAMENTO
    Declaramos não haver financiamento.
  • DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS
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Editado por

  • Editora-chefe:
    Rosiane Viana Zuza Diniz.
  • Editor associado:
    Olaf Kraus de Camargo.

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    28 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    14 Jan 2026
  • Aceito
    30 Jun 2026
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