O estudante de Medicina e a procura de ajuda

Medical students ans counseling

Orlando Lúcio Neves de Marco Sobre o autor

Resumos

O perfil do estudante de Medicina que procura ajuda psicológica é um tema de estudos de extrema relevância para os serviços de assistência psicológica e para aqueles que se dedicam ao ensino e formação de médicos O objetivo deste ensaio é contribuir para se conhecer como essa ajuda é oferecida, para aperfeiçoá-la, pois conseguir obter ajuda psicológica durante a formação médica tem implicações, significados e resultados importantes para a saúde mental do médico. A contribuição se estende ao conhecer o perfil do aluno que procura ajuda psicológica, suas dificuldades mais frequentes e o modo como a ajuda é oferecida no Grupo de Assistência Psicológica ao Aluno da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Grapal). A discussão tem como base a teoria psicanalítica, para relacionar as características da vida emocional do estudante com a ajuda que é prestada. Conclui-se que é necessário um suporte para o estudante vencer dificuldades, evitando o adoecer. Se essa oportunidade de melhorar é aproveitada, uma nova perspectiva, a de transformação, é adquirida, fazendo parte do modo de ser do futuro médico.

Estudantes de medicina; Educação Médica; Psicologia


The profile of medical students that seek psychological counseling is an extremely relevant object of study for both mental health services and those working with medical education and training. The current study aims to shed light on how such counseling is provided, and to improve its provision, since psychological support during medical training has important implications for physicians' mental health. This contribution includes understanding the profile of medical students that seek psychological support, their most frequent complaints and difficulties, and the way such care is provided by the Group for Student Psychological Counseling at the School of Medicine, University of São Paulo (Grapal). The discussion draws on psychoanalytical theory to compare the characteristics of the student's emotional life with the care provided. The study concludes that support is needed to help students overcome their difficulties and avoid falling ill. If full advantage is taken of this opportunity, a new perspective, that of transformation, is acquired and incorporated into the future physician's life.

Medical students; Medical education; Psychology


ENSAIO

O estudante de Medicina e a procura de ajuda

Medical students ans counseling

Orlando Lúcio Neves de Marco

Universidade de São Paulo, São Paulo, São Paulo, Brasil

Endereço para correspondência

RESUMO

O perfil do estudante de Medicina que procura ajuda psicológica é um tema de estudos de extrema relevância para os serviços de assistência psicológica e para aqueles que se dedicam ao ensino e formação de médicos O objetivo deste ensaio é contribuir para se conhecer como essa ajuda é oferecida, para aperfeiçoá-la, pois conseguir obter ajuda psicológica durante a formação médica tem implicações, significados e resultados importantes para a saúde mental do médico. A contribuição se estende ao conhecer o perfil do aluno que procura ajuda psicológica, suas dificuldades mais frequentes e o modo como a ajuda é oferecida no Grupo de Assistência Psicológica ao Aluno da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Grapal). A discussão tem como base a teoria psicanalítica, para relacionar as características da vida emocional do estudante com a ajuda que é prestada. Conclui-se que é necessário um suporte para o estudante vencer dificuldades, evitando o adoecer. Se essa oportunidade de melhorar é aproveitada, uma nova perspectiva, a de transformação, é adquirida, fazendo parte do modo de ser do futuro médico.

Palavras-chave: Estudantes de medicina; Educação Médica; Psicologia

ABSTRACT

The profile of medical students that seek psychological counseling is an extremely relevant object of study for both mental health services and those working with medical education and training. The current study aims to shed light on how such counseling is provided, and to improve its provision, since psychological support during medical training has important implications for physicians' mental health. This contribution includes understanding the profile of medical students that seek psychological support, their most frequent complaints and difficulties, and the way such care is provided by the Group for Student Psychological Counseling at the School of Medicine, University of São Paulo (Grapal). The discussion draws on psychoanalytical theory to compare the characteristics of the student's emotional life with the care provided. The study concludes that support is needed to help students overcome their difficulties and avoid falling ill. If full advantage is taken of this opportunity, a new perspective, that of transformation, is acquired and incorporated into the future physician's life.

Key words: Medical students; Medical education; Psychology

O senhor é tão jovem, tem diante de si todo começo, e eu gostaria de lhe pedir da melhor maneira que posso, meu caro, para ter paciência em relação a tudo que não está resolvido em seu coração. Peço-lhe que tente ter amor pelas próprias perguntas, como quartos fechados e como livros escritos em uma língua estrangeira. Não investigue agora as respostas que não lhe podem ser dadas, porque não poderia vivê-las. E é disto que se trata, de viver tudo. Viva agora as perguntas. Talvez passe, gradativamente, em um belo dia, sem perceber, a viver as respostas. Talvez o senhor já traga consigo a possibilidade de construir e formar, como um modo de viver especialmente afortunado e puro; eduque-se para isso.

Mas aceite com grande confiança o que vier, e se vier apenas de sua vontade, se for proveniente de qualquer necessidade de seu íntimo, aceite-o e não o odeie. A carne é um fardo, verdade. Mas é difícil a nossa incumbência, quase tudo o que é sério é difícil, e tudo é sério. Se o senhor reconhecer apenas isso e chegar a conquistar, a partir de si, de sua disposição e de seu modo de ser, de sua experiência e infância e força, uma relação inteiramente própria (não dominada pela convenção e pelo hábito) com a carne, então o senhor não precisa mais ter receio de se perder e se tornar indigno de sua melhor posse.

(Rilke1 2007)

Uma discussão acerca do perfil do estudante de Medicina que procura espontaneamente atendimento psicológico deve levar em conta que essa procura depende do que o próprio estudante espera dessa ajuda e, em especial, do que é oferecido. Creio que a procura está relacionada ao modo como a ajuda é oferecida e mesmo ao que significa ajudar - em outras palavras, o que se considera estar fazendo quando se oferece uma ajuda.

Ajuda para quem está doente? Ajuda para fazê-lo voltar ao normal? Para que o estudante retorne às suas atividades? Ajuda aos que fracassaram (e que intimamente acreditam que não terão boas condições para serem médicos)?

Essas perguntas referem-se a algumas ideias abordadas em atendimentos realizados no Grupo de Assistência Psicológica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Grapal). São fruto de observação e reflexão no período de aproximadamente vinte anos atendendo alunos. Além dos atendimentos por procura espontânea, realizamos uma entrevista aberta de apresentação com os primeiranistas, oportunidade para nos apresentarmos diretamente, num diálogo em que, além de conhecermos quem está chegando à instituição, explicitamos nossa filosofia de trabalho, nosso modo de inserção na formação desse estudante. Também informamos como ele pode procurar esse recurso de sua faculdade, abrindo espaço para esclarecer dúvidas e responder a questões sobre o que desperta a curiosidade a respeito desse espaço que lhe é oferecido. Nossos atendimentos e a entrevista inicial são as oportunidades de estabelecermos e criarmos o tipo de ajuda que o estudante procura e a que efetivamente terá.

Não nos estenderemos em considerações comparativas com outros tão importantes trabalhos, pois aqui nos limitaremos à nossa experiência, deixando vias abertas para novos diálogos e reflexões. No final desta discussão poderemos chegar ao ponto de justificar uma afirmação, feita em outras oportunidades, de que são os melhores que procuram ajuda.

O CONTEXTO DE UMA FORMAÇÃO

Pense, meu caro, no mundo que o senhor leva dentro de si, então dê a esse pensamento o nome que quiser; pode ser lembrança da própria infância ou anseio do próprio futuro - apenas preste atenção no que surgir a partir de dentro e eleve-o acima de tudo o que o senhor percebe em torno. Se um acontecimento mais íntimo é digno de todo o seu amor, é nesse acontecimento que o senhor deve trabalhar de algum modo, sem perder muito tempo nem muito esforço para esclarecer sua posição em relação aos outros homens. Quem é que lhe diz que o senhor tem uma posição? Eu sei, a sua profissão é dura e cheia de contradições que o afetam, e eu previa as suas queixas, já sabia que elas viriam um dia. Agora que vieram, não posso tranquilizá-lo, posso apenas aconselhar que pondere se todas as profissões não são assim, cheias de exigências, cheias de animosidade contra o indivíduo, repletas de ódio daqueles que se conformaram, resignados e rabugentos, com sua obrigação insossa. O cargo com o qual o senhor tem de viver agora não é mais carregado de convenções, preconceitos e enganos do que todos os outros cargos; se há alguns que revelam uma liberdade maior, mesmo assim não existe nenhum que seja amplo e espaçoso, que se relacione com grandes coisas de que a verdadeira vida é constituída.

(Rilke1 2007)

O contexto dessa ajuda é o de formação de novos profissionais médicos. Nesse caso o que prevalece é o desenvolvimento de uma identidade. São pessoas que podemos perceber fazendo uma passagem na vida. Passagem para a vida adulta e profissional, momento fundamental em que vai definir caminhos e escolhas em sua vida, vai desenvolver um modo de ser. O contexto do ponto de vista externo ao aluno é conhecido como um mundo muito competitivo e simultaneamente necessitado de gente com boa formação. São esses alunos pessoas corajosas que querem ajudar os outros e que precisam de competência para isso. O estudo necessário para essa tarefa é complexo e exige responsabilidade, ética, bom contato pessoal, entre outras coisas. Além desses aspectos integrados à personalidade do aluno, estarão vivendo uma espécie de situação de teste em atividades diversas, deverão reconhecer seus talentos e fazer escolhas, além de continuamente avaliarem sua própria vocação para a atividade médica. É importante mencionarmos ainda o contato com a dor do outro, o sofrimento psíquico, a morte e outras formas de perda, além do contato com as situações em que não há cura, enfim o contato com limites de várias formas.

Não seria estranho afirmar que nesse contexto o jovem estudante não sente medo ou dúvidas e dificuldades? E, além do mais, muitas ansiedades, e, quem sabe, se sinta perdido em diversos momentos e em algumas situações não saiba como enfrentar os problemas emergentes?

Frequentemente esclareço ao aluno que o Grapal é um recurso que ele tem na faculdade, entre outros que encontra, como a biblioteca ou o programa de tutores. Especifico nessa apresentação que, no Grapal, ele pode encontrar-se consigo mesmo, que nesse espaço a característica essencial é esse encontro decisivo de contato reflexivo, voltado para o que acontece dentro dele.

O Grapal é a última tentativa? Talvez. O aluno deve pensá-lo como último (e desesperado) recurso? A convicção da proposta desse recurso é a de que os problemas são bem-vindos, pois crescer é vencer dificuldades, porque um problema que está impedindo um bom aproveitamento da formação, por exemplo, pode se transformar numa superação que representará um ganho que não seria obtido caso o problema não tivesse surgido. Trata-se de uma virada de jogo: aprender com os próprios problemas é uma alavanca para mais desenvolvimento. Numa situação fictícia, em que inexistissem dificuldades, não haveria estímulo para crescer. Evidentemente, é importante prevenir situações em que os problemas levam ao adoecimento e à interrupção do desenvolvimento pessoal. Destacamos, porém, que situações de fechamento, quando a pessoa esconde de si mesma suas dúvidas e falhas, e ainda, sentimentos que participam desse cenário, na melhor das hipóteses devem apenas se transformar numa adaptação forçada. É melhor ter problemas, problematizar para não ser problemático - para si mesmo principalmente - e sofrer na solidão e no preconceito. Essa situação solitária internamente, escondido dentro de si mesmo, pode gerar problemas futuros, na vida profissional em especial, pode gerar uma espécie de desencontro e amargura com a profissão, com prejuízos na autoestima e mesmo um quadro depressivo. Aproveitar uma ajuda nas bases de uma formação, ou, se preferirmos, no início de uma carreira, tem caráter preventivo.

A POLÊMICA DA PROCURA

Não se deixe enganar em sua solidão só porque há algo no senhor que deseja sair dela. Justamente esse desejo o ajudará, caso o senhor o utilize com calma e ponderação, como um instrumento para estender sua solidão por um território mais vasto. As pessoas (com o auxílio de convenções) resolveram tudo de maneira mais fácil e pelo lado mais fácil da facilidade; contudo é evidente que precisamos nos aferrar ao que é difícil; tudo o que vive se aferra ao difícil, tudo na natureza cresce e se defende a seu modo e se constitui em algo próprio a partir de si, procurando existir a qualquer preço e contra toda resistência. Sabemos muito pouco, mas que temos de nos aferrar ao difícil é uma certeza que não nos abandonará. É bom ser solitário, pois a solidão é difícil; o fato de uma coisa ser difícil tem de ser mais um motivo para fazê-la.

(Rilke1 2007)

Vimos que quem procura ajuda se sentiu perdido, angustiado ou atormentado, mas pode problematizar tudo o que viveu e está vivendo, e isso já faz parte de um caminho saudável. Precisamos de problemas para melhorar, transformar problemas em algo útil, pensável, que nos faça criar novos caminhos ou alternativas. A questão da procura de ajuda psicológica torna-se polêmica porque se pensa que os problemas devem ser evitados e suprimidos, são indesejáveis e devem ser escondidos. Essa maneira de agir não tem futuro, pois nesse momento de formação, em que se está sendo muito estimulado - exigências do estudo, desempenhos, posturas, etc. numa realidade profissional extremamente complexa -, novas realidades se apresentam inevitavelmente, tanto externa como internamente. O aluno vai se conhecer como uma nova pessoa reagindo a essa nova realidade.

Entretanto, muitas vezes o que ocorre é esconder-se de si mesmo, porque se considera esquisito. Caetano Veloso, na sua canção Sampa, diz que Narciso acha feio o que não é espelho. A pessoa não se reconhece naquilo que ela mesma não aceita. Uma representação possível é que um aspecto de si mesmo não aceito deve ser rejeitado, pois não corresponde ao ideal de si mesmo. Porém, é importante considerar que a saúde mental depende de incluir o estranho (ou nossas esquisitices) no que se é, no sentido de um enriquecimento, pois a inclusão implica obter mais condições de viver o que se encontra vivo dentro de cada um.

O aluno pensa numa ajuda para eliminar um problema, sentido como um empecilho em sua vida. Por outro lado, do ponto de vista de sua saúde mental, os sintomas, as dificuldades, as dúvidas, podem ser - e em geral são - expressões de um aspecto dele mesmo que foi rejeitado, mas que se fez presente e é importante incluir para se ganhar em termos de uma nova e mais abrangente organização interna. Esconder de si significa que não se tem nada a aprender acerca de uma parte de si mesmo que foi suprimida. Uma enorme perda. O medo da procura representa um medo de ser excluído, mais profundamente um medo de se defrontar com o que não é aceitável em si mesmo, e, por isso, o sentimento de exclusão se faz sentir.

Quem procura ajuda pode ganhar, enriquecer-se. Se não, o que vai fazer? Rejeitar-se, querer ser quem não é de verdade? Ou mesmo querer estar pronto, de modo idealizado e imutável? Nega-se a vida a si mesmo dessa forma. A vida é transformação, movimento. A vida é incorporativa: podemos incluir o novo no que somos.

E, afinal, o médico trabalha para a vida, seria um absurdo não cuidar da sua própria.

O SUPORTE PARA A AJUDA E A IDENTIDADE

Não temos motivo algum para desconfiar de nosso mundo, pois ele não está contra nós. Caso possua terrores, são nossos terrores; caso surjam abismos, esses abismos pertencem a nós; caso existam perigos, então precisamos aprender a amá-los. Se orientarmos a nossa vida segundo aquele princípio que nos aconselha a nos aferrarmos sempre ao que é difícil, o que agora nos parece ser muito estranho se tornará o que há de mais familiar e confiável. Como poderíamos esquecer aqueles antigos mitos que se encontram nos primórdios de todos os povos, os mitos sobre os dragões que, no último momento, transformam-se em princesas; talvez todos os dragões de nossa vida sejam princesas, que só esperam nos ver um dia belos e corajosos.

Talvez todo o terror não passe, em última instância, do desamparo que requer nossa ajuda.

(Rilke1 2007)

Estamos descrevendo como procurar ajuda pode significar já ter feito certo caminho. O aluno está sofrendo, mas está tentando problematizar, muitas vezes descobrir qual é o seu problema. Acredita que pode encontrar ajuda nesse caminho. Procurar ajuda significa, também, ter esperança.

Procurar ajuda sem estar sofrendo é muito raro. Para fazê-lo, é então necessário suportar tensões internas, mantendo dúvidas na mente e, ainda, não estar orientado apenas por certezas. Em outras palavras, salientamos que, para procurar ajuda, é necessário suportar incertezas, confiando em que há um lugar que ajuda a suportar essas incertezas, além de medos e ansiedades, para que se possa reorientar, tornando pensável o que está se vivendo. Esse suporte para o desenvolvimento é indispensável para um estudante que está continuamente se testando (ele se sente testado) em diversas situações, e, por isso, deve ser capaz de lidar com ele mesmo num nível muito mais sofisticado do que antes em sua vida. E isso se faz inicialmente problematizando, pensando acerca do que ainda não foi pensado a respeito de si mesmo. Em vários momentos dessa trajetória de sua formação, o estudante percebe-se surpreso com reações que não conhecia nele mesmo. Ter pesadelos depois de ter passado na UTI do hospital, por exemplo, ou sofrer intensamente e achar que não deveria estar sofrendo, porque um paciente atendido não tem bom prognóstico, apesar do tratamento ministrado. Reações como essas denotam que aspectos desconhecidos de seu mundo interior estão surgindo. E se, num primeiro momento, ele quiser eliminar o que atrapalha, no momento seguinte poderá se enriquecer internamente integrando um novo aspecto à sua personalidade. Parte do que temos dentro de nossa vida psíquica surge reativamente, são aspectos desconhecidos por nós mesmos e não integrados à nossa personalidade, aos quais reagimos sem conhecer o que nos motivou. Frequentemente, o sofrer faz seu caminho, e uma ruidosa ameaça se faz sentir no eu. Uma ameaça à sua unidade, o que dificulta saber "quem sou", "como sou" ou o que se deseja para si. Nossas reações visam, também, proteger essa unidade que se encontra ameaçada. Portanto, é necessário sentir-se seguro ou protegido para se obter ajuda.

O que descrevemos até aqui está ligado ao conceito de identidade. A identidade é resultado da transformação de vínculos em identificação2. É necessário internalizar recursos para fazê-lo, e os recursos são desenvolvidos nesse envolvimento com as dúvidas e dificuldades. Tratando-se da identidade médica, ela tem sua origem, na maior parte das escolhas, num ideal de ego3, que, entre outras coisas, visa à cura, à ajuda ao outro ou mesmo a salvar esse outro da morte e do sofrimento, e, ainda, contribuir para o desenvolvimento de uma sociedade melhor; é uma base para o desenvolvimento de uma identidade que ambiciona a ética e a capacidade de contribuir socialmente, uma base auspiciosa nesse sentido. Ela deve ser boa para oferecer, em parte, forças para lidar com inevitáveis frustrações desses ideais. O futuro médico se desenvolverá lidando com as frustrações de seus ideais, transformando esses ideais em possibilidades e alternativas reais, isto é, ligadas à realidade existente. Nesse sentido, as identificações com os professores e supervisores da prática médica são relevantes durante a formação; são, em geral, modelos identificatórios nesse lidar com as dificuldades reais; são modelos para buscar novas saídas, isto é, saídas que não são as antes idealizadas, mas podem ser mais adaptadas à realidade. Dessa forma, o ideal ligado à ideia de ser perfeito é substituído pela capacidade de mudar.

O estudante pode procurar uma ajuda que faça esse caminho com ele. Não se trata de ele simplesmente obter uma nova informação ou teoria; a proposta de uma ajuda, na direção que estamos apresentando, convida o aluno a compartilhar e a conviver com seus próprios conflitos, tendo alguém com quem refazer seu próprio caminho. Trata-se de uma interação que visa fazer com que o aluno se perceba e aceite a ele mesmo. Essa interação não tem como foco dar uma resposta, mas promover contínuas descobertas. A ajuda significa dar condições ao aluno, sujeito nesse trabalho, de experimentar em seu mundo interno um modo próprio de viver suas experiências4.

Como vimos, procurar ajuda pode, num certo nível, representar o fim do ideal do eu. Poder-se-ia dizer: procurou ajuda, não será perfeito jamais. Porém, o aluno pode iniciar-se em um novo caminho e continuamente aprender com ele mesmo. Não é interessante e proveitoso ter uma profissão em que se possa melhorar sempre, caso se aproveite a própria experiência de trabalho?

TORNAR-SE MÉDICO

Ter amor, de uma pessoa por outra, talvez seja a coisa mais difícil que nos foi dada, a mais extrema, a derradeira prova e provação, o trabalho para o qual qualquer outro trabalho é apenas uma preparação. Por isso as pessoas jovens, iniciantes em tudo, ainda não podem amar: precisam aprender o amor. Com todo o seu ser, com todas as forças reunidas em seu coração solitário, receoso e acelerado, os jovens precisam aprender a amar. Mas o tempo de aprendizado é sempre um longo período de exclusão, de modo que o amor é por muito tempo, ao longo da vida, solidão, isolamento intenso e profundo para quem ama. A princípio o amor não é nada do que se chama ser absorvido, entregar-se e unir-se com uma outra pessoa. (Pois o que seria uma união do que não é esclarecido, do inacabado, do desordenado?) O amor constitui uma oportunidade sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo, tornar-se um mundo, tornar-se um mundo para si mesmo por causa de uma outra pessoa; é uma grande exigência para o indivíduo, uma exigência irrestrita, algo que o destaca e o convoca para longe. Apenas neste sentido, como tarefa de trabalhar em si mesmos, escutar e bater dia e noite, as pessoas jovens deveriam fazer uso do amor que lhes é dado. A absorção e a entrega e todo tipo de comunhão não são para eles (que ainda precisam economizar e acumular por muito tempo); a comunhão é o passo final, talvez uma meta para a qual a vida humana quase não seja o bastante.

(Rilke1 2007)

A atenção ao estudante de Medicina envolve conhecer esse momento de sua vida e compreender que a formação médica, além de um ponto de partida, pode também ser um ponto de apoio para o desenvolvimento da pessoa do estudante. Cada um se defronta com o problema de encontrar-se com o seu próprio modo de ser. Não há "o certo" em termos de ser médico. A faculdade e a formação que nela se desenvolve devem dar condições para cada um se encontrar pessoal e profissionalmente nas escolhas que irá fazer. Ela não faz todos iguais. Há os mesmos princípios éticos e técnicos para todos, mas isso não os transforma em iguais. Acredita-se que existe a pessoa que vai integrar seus novos recursos à sua maneira, reinventando o ser médico mais uma vez.

Um problema que podemos observar ocorre quando se paralisa a invenção de um novo médico. Quando o estudante percebe que sofre com uma dificuldade, por exemplo, ele se pergunta a respeito de estar ou não apto para ser um bom médico. Dificuldades e falhas desenvolvem no futuro médico uma ideia de que não está apto para sê-lo. Surge aí uma ansiedade, pois essa ideia assusta, e a necessidade de afastar a dificuldade (escondê-la, se possível), para em seguida tentar sentir-se capaz de novo. Essa tentativa vem geralmente acompanhada de uma insistência do aluno em comprovar para ele mesmo que é possuidor de uma série de atributos e que conhece muito a matéria - ao esgotamento -, tentando ter, ao mesmo tempo e no momento presente, aquilo que requer muita experiência de contato, estudo e trabalho para ser obtido.

Em resumo, o aluno acha que deveria estar pronto, mas, desse modo, está fadado ao fracasso, pois a formação é interminável. Quando percebe seu fracasso, o aluno sente, entre tantos outros sentimentos, que está perdido e confuso, que precisa de uma ajuda que permita perceber suas exigências extremas e que possa auxiliá-lo a reencontrar e refazer o caminho da sua formação. O que torna a situação dramática é a ausência de um caminho, pois esse caminho incluiria dificuldades e limites no lugar da cobrança constante por eliminá-los, o que, por sua, vez fragiliza o aluno.

Uma angústia típica do formando está representada pelo modo de dizer acerca de si mesmo: "não sou nada". Ele justifica sua asserção com o fato de que, não sendo mais estudante e achando-se desqualificado como profissional, sem especialização e sem experiência, vive numa espécie de limbo emocional. Na verdade, sabendo que nunca estará pronto, pode fazer desse fato uma vantagem, no sentido de que aprenderá continuamente com ele mesmo e poderá ser melhor ajudando-se. Não é o médico perfeito, mas pode ser sempre melhor.

Não conseguir ultrapassar essa expectativa de perfeição dos primeiros tempos de sua escolha profissional pode abalar a autoestima do novo médico. O eu desse novo médico, a partir de certo ponto de sua experiência de trabalho, terá uma enorme dificuldade, pois não conseguirá esconder seus problemas. O eu fica desorganizado nessa situação, e a pessoa sofre, muito angustiada. Caso a pressão aumente, o eu fica massacrado, uma depressão é o que se verifica com frequência, impedindo que a pessoa faça suas conquistas em relação a ela mesma e que seja mais e mais quem realmente ela é. Essa é uma boa hora de dividir seus problemas e, junto com alguém capaz de compreender e de ajudar, tornar pensável o que se gostaria de ver excluído, refazendo seu caminho, sabedor de que ter problemas é estar num caminho profissional e que faz parte dele descobrir suas dificuldades. Destaca-se o fato de que estará lidando com frustrações e de que necessitará tolerar limites, pois quem não tolera os próprios limites e defeitos pode se sentir desesperado e assim poderá se sentir pressionado a estudar até saber tudo, por exemplo.

Tal como querer tudo saber, pode-se querer tudo fazer, situação em que todos perdem, pois nesse caso a atitude do médico é desmedida e sem limites na tentativa de ajudar o paciente. E surge uma atitude impulsiva de querer salvar ou fazer tudo pelo outro, em detrimento de si mesmo, em vez de procurar uma ajuda. Quando o eu é frágil, o impulso tem mais força e o eu não consegue inibi-lo, daí defesas são ativadas procurando dar proteção a esse eu. O que vemos é que essa situação incapacita a autopercepção. Uma ajuda nesse caso deve proteger e dar condições de esclarecer o processo que aliena o sujeito. É fundamental lembrar-se também que, para obter ajuda, é necessário aceitar uma dependência; para evitá-la, é preciso ser perfeito ou tornar-se perfeito. Há um enorme desgaste em inutilmente buscar o caminho da perfeição, inclusive porque se cria um clima constante de provação.

O que nos capacita emocionalmente? Viver os problemas com a consciência do que está sendo vivido, interagindo com as relações que se realizam dentro de nós4. São uma reinvenção e uma descoberta constantes. A identidade estará sempre em transformação, o que significa saber que nunca se estará pronto, mas que se poderá ser sempre melhor. Por isso, pode-se dizer que, muitas vezes, os melhores procuram ajuda.

Na perspectiva do que aqui apresentamos, tornar-se médico inclui: duvidar e acreditar em si mesmo; acreditar no que se aprendeu e continuar descobrindo para aprender mais; não temer prosseguir mudando, sendo flexível consigo mesmo; afirmar-se profissional e pessoalmente, sem perder a esperança de ser ainda melhor.

  • Endereço para correspondência:
    Orlando Lúcio Neves De Marco
    Rua Dr. Melo Alves, 712 - apto 23
    Cerqueira César - São Paulo
    CEP: 01417-010 SP
    E-mail:
  • Recebido em: 08/05/2008

    Reencaminhado em: 15/09/2008

    Reencaminhado em: 13/11/2008

    Reencaminhado em: 11/02/2009

    Aprovado em: 11/03/2009

    Trabalho apresentado no 45º Congresso Brasileiro de Educação Médica, no Fórum XIII - Apoio ao estudante de Medicina e ao médico residente, no tema "Quem procura", realizado em Uberlândia (MG) de 20 a 23 de outubro de 2007.

    CONFLITO DE INTERESSES

    Declarou não haver

    • 1. Rilke RM. Cartas a um jovem poeta. Porto Alegre: L± 2007. p.43-80.
    • 2. Freud S. O Ego e o Superego (ideal do ego). In: Freud S. O Ego e o Id. Rio de Janeiro: Imago; 1988. p.41-51.
    • 3. Laplanche J, Pontalis J-B. Ideal do Ego. In: Vocabulário de Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes; 1967. p.289-291.
    • 4. Ogden T. O sujeito freudiano. In: Os sujeitos da Psicanálise. São Paulo: Casa do Psicólogo; 2002. p.11-27.

    Endereço para correspondência: Orlando Lúcio Neves De Marco Rua Dr. Melo Alves, 712 - apto 23 Cerqueira César - São Paulo CEP: 01417-010 SP E-mail: orlandodemarco@uol.com.br

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      23 Nov 2009
    • Data do Fascículo
      Set 2009

    Histórico

    • Aceito
      11 Mar 2009
    • Revisado
      11 Fev 2009
    • Recebido
      08 Maio 2008
    Associação Brasileira de Educação Médica SCN - QD 02 - BL D - Torre A - Salas 1021 e 1023 | Asa Norte, Brasília | DF | CEP: 70712-903, Tel: (61) 3024-9978 / 3024-8013, Fax: +55 21 2260-6662 - Brasília - DF - Brazil
    E-mail: rbem.abem@gmail.com