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Homeopatia na Graduação Médica: Trajetória da Universidade Federal Fluminense

Homeopathy in Medical Schools: Trajectory of the Universidade Federal Fluminense

RESUMO

A medicina homeopática foi reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina como especialidade médica em 1980 e desde então a presença de seu ensino na formação médica tem se ampliado no Brasil. Na graduação médica da Universidade Federal Fluminense (UFF), iniciou-se em 1994. Em estudo de caso com abordagem qualitativa, analisou-se a trajetória do ensino da Homeopatia no curso de Medicina da UFF utilizando-se análise documental, observação direta, entrevistas individuais de coordenadores e alunos, e grupo focal com ex-alunos das cinco disciplinas que abordam a medicina homeopática. Identificou-se uma trajetória de resistência e avanços, desencadeada no processo de reforma curricular em contexto de implantação do Sistema Único de Saúde (SUS) e ampliação da atenção primária. Apoiado na colaboração de profissionais externos à instituição, o ensino da Homeopatia na Medicina da UFF apresenta como principais desafios sua consolidação no currículo obrigatório, integração às demais clínicas, contratação de professores especialistas e recriação do ambulatório-escola em Homeopatia para prática supervisionada. A humanização da prática médica e a integralidade do cuidado foram suas contribuições mais mencionadas, numa perspectiva de integração e complementaridade da abordagem biomédica. Nas disciplinas obrigatórias, defende-se que os alunos possam desenvolver competências e habilidades para: (a) orientar e encaminhar pacientes à Homeopatia quando puderem ser beneficiados por esta medicina; (b) dialogar com colegas homeopatas no acompanhamento de pacientes comuns. As disciplinas optativas são importantes para alunos que queiram ampliar sua formação teórico-prática em Homeopatia, tendo em vista uma atuação profissional que inclua esta especialidade e lhes permita integrar os paradigmas vitalista e biomédico no cuidado em saúde. O ensino da Homeopatia na graduação médica da UFF é sustentado no compromisso de sua comunidade acadêmica com uma formação plural em saúde, capaz de propiciar aos futuros profissionais o uso de diferentes paradigmas para lidar com o processo de adoecimento, o corpo e as pessoas na sociedade contemporânea e, desta forma, contribuir para melhorar o relacionamento com pacientes, promover autonomia, diminuir abordagens invasivas e insensíveis, ampliar a integralidade do cuidado e a resolutividade do trabalho em saúde. O estudo crítico de sua trajetória oferece contribuições para uma reflexão sobre o ensino da Homeopatia também em outras escolas médicas, sejam as que já contemplem a Homeopatia em sua grade de disciplinas, sejam aquelas que estejam planejando inseri-la no currículo em resposta à demanda de alunos e professores.

PALAVRAS-CHAVE
Homeopatia; Educação Médica; Currículo

ABSTRACT

Homeopathic medicine was recognized by the Federal Council of Medicine as a medical specialty in 1980, and since then its teaching as part of medical training has grown in Brazil. Homeopathic medicine was first taight in Brazil in 1994 in the undergraduate medicine program of the Universidade Federal Fluminense (UFF). The history of teaching Homeopathy in the UFF medical course was analyzed in a qualitative-approach case study using documental analysis, direct observation, individual interviews with coordinators and students, and focus groups with alumni from five disciplines that address Homeopathy. The path identified involved resistance and progress, triggered by the curricular reform process in context of the implementation of the Brazilian Unified Health System (SUS) and the expansion of primary care. The teaching of Homeopathy in the UFF medical course was supported by the collaboration of external professionals. The major challenges included consolidating the discipline on the compulsory curriculum, acheiving integration with other clinics, hiring qualified teachers and recreating an outpatient Homeopathy school environment for supervised practice. From the perspective of integration and complementarity of the biomedical approach, humanized medical practice and comprehensive care were the most mentioned contributions. In the compulsory subjects it is argued that students can develop skills and abilities to: (a) guide and refer patients to Homeopathy whenever they might benefit from this medical practice; and (b) hold dialogues with homeopathy colleagues concerning the monitoring of common patients. The optional subjects are important for students who want to broaden their theoretical and practical training in Homeopathy, aimed at offering a professional practice that includes this specialty and permits the integration of the vitalist and biomedical paradigms in health care. The teaching of Homeopathy in the UFF undergraduate medical program is supported by its academic community's commitment to a plural health education that enables future professionals to use different paradigms for dealing with the disease process, the body and people in a contemporary society. This, in turn, contributes to improving relationships with patients, promotes autonomy, reduces invasive and insensitive approaches and expands comprehensive health care and resolute health work. This critical study of the trajectory of Homeopathy education in the UFF undergraduate medical course adds support to reflections on its teaching in other medical schools, including schools that already contemplate Homeopathy in their schedule or schools that are planning to include it in their curriculum in response to student and teacher demand.

KEY WORDS
Homeopathy; Medical Education; Curriculum

INTRODUÇÃO

A medicina homeopática, desenvolvida pelo alemão Samuel Hahnemann (1755 a 1843), foi trazida ao Brasil em 1840 pelo francês Benoit Mure (1809-1858). Conheceu aqui um período de grande expansão até 1930, com a criação de duas faculdades de medicina homeopática, uma no Rio de Janeiro e outra no Rio Grande do Sul; de um hospital homeopático ligado à Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro; e, finalmente, de ligas acadêmicas de Homeopatia em vários estados do País11. Luz MT. A Arte de Curar versus A Ciência das Doenças. História Social da Homeopatia no Brasil. São Paulo: Dynamis Editorial; 1996..

Entretanto, entre 1930 e 1970, a Homeopatia viveu uma fase de declínio acadêmico, relacionada aos progressos tecnológicos realizados pela medicina, à expansão da indústria farmacêutica, dos antibióticos, das especialidades médicas e do modelo de atenção médico-hospitalar. Mas foi retomada após 1970, vista como medicina alternativa, em contexto de crise do modelo médico dominante, especializado, tecnológico, mercantilizado e marcado por terapêuticas invasivas e iatrogênicas11. Luz MT. A Arte de Curar versus A Ciência das Doenças. História Social da Homeopatia no Brasil. São Paulo: Dynamis Editorial; 1996..

Desde então, multiplicaram-se os cursos de formação e especialização em Homeopatia, a grande maioria de natureza privada e à parte das faculdades de Medicina do País22. Galhardi WMP, Barros NF. O ensino da homeopatia e a prática no SUS. Interface, Comunicação, Saúde, Educação. 2008;2(25).. Em 1980, o Conselho Federal de Medicina (CFM) reconheceu a Homeopatia como especialidade (Resolução CFM 1.000/80), o que contribuiu para ampliar a presença do seu ensino na formação médica. A Associação Médica Homeopática Brasileira (AMHB), fundada em 1979, estabeleceu diretrizes para os cursos de formação, regulamentou o ensino e normatizou a concessão do título de especialista33. Associação Médica Homeopática Brasileira. [Acesso em 30 mar. 2016]. Disponível em: http://www.amhb.org.br/
http://www.amhb.org.br/...
.

Em 1985, foi firmado o primeiro convênio para a institucionalização da Homeopatia na rede pública de saúde44. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS. Brasília: Ministério da Saúde; 2008.. No ano seguinte, o relatório final da VIII Conferência Nacional de Saúde defendeu a “introdução de práticas alternativas de assistência à saúde no âmbito dos serviços de saúde, possibilitando ao usuário o direito democrático de escolher a terapêutica preferida”, o que incluía a Homeopatia. Com isto, a presença desta medicina nos serviços públicos de saúde ganhou impulso11. Luz MT. A Arte de Curar versus A Ciência das Doenças. História Social da Homeopatia no Brasil. São Paulo: Dynamis Editorial; 1996.,55. Relatório final da VIII Conferência Nacional da Saúde. [Acesso em 18 jun. 2016]. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/8_conferencia_nacional_saude_relatorio_final.pdf
http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoe...
(p. 10 e 11).

As Instituições de Ensino Superior (IES) públicas passaram gradativamente a incorporar o ensino da Homeopatia: na pós-graduação, a Faculdade de Medicina de Jundiaí (SP) iniciou uma especialização em 2003; e o Hospital Universitário Gaffrée e Guinle, da Escola de Medicina e Cirurgia da Unirio (RJ), implantou uma residência médica em 200422. Galhardi WMP, Barros NF. O ensino da homeopatia e a prática no SUS. Interface, Comunicação, Saúde, Educação. 2008;2(25).,66. Teixeira MZ, Lin CA. Educação Médica em Terapêuticas não Convencionais. RevMed (São Paulo) 2013; 92(4):224-35..

Também no nível de graduação, diversas escolas públicas de Medicina vieram a oferecer disciplinas de Homeopatia no currículo, como acontece na Escola Paulista de Medicina, na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de São Paulo, na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, na Escola de Medicina e Cirurgia da Unirio (RJ) e nas faculdades de Medicina da UFPB, UFPE, UFRN e da UFF, cenário deste estudo77. Salles SAC. A presença da homeopatia nas faculdades de medicina brasileiras: resultados de uma investigação exploratóriaRev. bras. educ. med. 2008; 32(3)..

Em 2006, o Ministério da Saúde promulgou a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC)44. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS. Brasília: Ministério da Saúde; 2008., em que promove a incorporação da Homeopatia ao Sistema Único de Saúde (SUS). A PNPIC preconiza o desenvolvimento de programas de educação permanente “que assegurem a especialização e o aperfeiçoamento em Homeopatia aos profissionais do SUS” (p. 38), o fomento a projetos de residência em Homeopatia, a “inclusão da racionalidade homeopática nos cursos de graduação e pós-graduação”, e a promoção da “discussão sobre a Homeopatia no processo de modificação do ensino de graduação” (p. 42).

O ensino da Homeopatia na graduação médica, objeto deste estudo, pode contribuir, segundo Nogueira88. Nogueira MI. Racionalidades Médicas e Formação em Saúde: um caminho para a integralidade. In: Pinheiro R, Silva Jr AGS (orgs). Por uma sociedade cuidadora. Rio de Janeiro: CEPESC-IMS/UERJ/ABRASCO; 2010.p.101-114.,99. Nogueira MI. Retratos da formação médica nos novos cenários de prática. São Paulo: Hucitec; 2012., para uma revitalização paradigmática da formação biomédica – “de um olhar anatomoclínico para um olhar ampliado” (p. 21), na perspectiva da integralidade do cuidado em saúde. Ao lado disto, possibilita aos futuros profissionais a orientação de usuários dos serviços de saúde que desejem utilizar a Homeopatia de forma alternada, complementar ou integrada em seu tratamento; a comunicação com colegas que exerçam a Homeopatia no acompanhamento de pacientes comuns e a integração entre os paradigmas vitalista e biomédico no cuidado em saúde66. Teixeira MZ, Lin CA. Educação Médica em Terapêuticas não Convencionais. RevMed (São Paulo) 2013; 92(4):224-35.,1010. Broom A, Adams J. Uma sociologia da educação em saúde integrativa. In: Nascimento MC, Nogueira MI (orgs) Intercâmbio Solidário de Saberes em Saúde. Racionalidades Médicas e Práticas Integrativas e Complementares. São Paulo: Hucitec; 2013.,1111. Haramati A,et al. Innovation and Collaboration: The First International Congress for Educators in Complementary and Integrative Medicine. Explore (New York) 2013; 9(2):118-120.,1212. Wiles MR, Adler SR. The International Congress for Educators in Complementary and Integrative Medicine. Explore (NY) 2013; 9(5):277-8..

A experiência do ensino da medicina homeopática na graduação médica da UFF teve início em 1994. Entende-se que o estudo crítico de sua trajetória pode oferecer contribuições para uma reflexão acerca do ensino da Homeopatia também em outras IES, sejam as que já contemplem a Homeopatia em sua grade de disciplinas, sejam aquelas que estejam planejando inseri-la no currículo em resposta à demanda de alunos e de professores sensibilizados com este sistema médico.

MÉTODOS

Trata-se de um estudo de caso descritivo, com utilização de metodologia qualitativa. O caso em estudo é o do ensino da Homeopatia na graduação médica da Universidade Federal Fluminense (UFF), no município de Niterói (RJ), com destaque para as suas principais contribuições, desafios e perspectivas.

O cenário da pesquisa foi o Instituto de Saúde Coletiva (ISC/UFF), que agrega o conjunto de disciplinas que contemplam a Homeopatia, oferecido na área médica da UFF: (1) Trabalho de Campo Supervisionado I – tema das Práticas Integrativas e Complementares, (2) Introdução à Homeopatia, (3) Propedêutica Homeopática, (4) Terapêutica Homeopática e (5) Saúde e Sociedade V.

A população da pesquisa foi composta por 3 coordenadores, 13 alunos e 6 ex-alunos destas disciplinas. Todos os coordenadores das disciplinas em estudo aceitaram participar da pesquisa. O critério de eleição dos alunos foi o de ter cumprido ao menos 70% da carga horária da disciplina; e o de ex-alunos, o de ter concluído uma ou mais disciplinas pesquisadas há até dois anos.

A coleta de dados foi realizada em 2014 e incluiu um levantamento documental (ementas e programas), seguido de observação direta de aulas, entrevistas individuais semiestruturadas com coordenadores e alunos, e grupo focal com ex-alunos. Como instrumentos de coleta, desenvolveram-se roteiros temáticos semiestruturados para cada uma dessas etapas.

No tratamento e interpretação dos dados, utilizou-se a análise de conteúdo com abordagem temática1313. Bardin L. Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições 70; 2004.. Após leitura detalhada do material coletado, os dados foram ordenados e classificados em categorias temáticas, considerando os núcleos de sentido que emergiram no campo e os objetivos da pesquisa. Deste processo resultaram as categorias analíticas que nomeiam os subtemas da seção de resultados e discussão: Contexto de implantação do ensino de Homeopatia na graduação médica da UFF; Estado atual deste ensino; Percepção de alunos; Desafios e perspectivas.

A discussão e análise dos resultados levaram em conta algumas premissas humanizantes trazidas pelo campo da Saúde Coletiva, tais como a ampliação da clínica1414. Campos GWS. A clínica do sujeito: por uma clínica reformulada e ampliada. In: Saúde Paidéia.3. ed.São Paulo: Editora Hucitec; 2007. e a integralidade das ações de saúde88. Nogueira MI. Racionalidades Médicas e Formação em Saúde: um caminho para a integralidade. In: Pinheiro R, Silva Jr AGS (orgs). Por uma sociedade cuidadora. Rio de Janeiro: CEPESC-IMS/UERJ/ABRASCO; 2010.p.101-114.,1515. Mattos RA. A Integralidade na prática (ou sobre a prática da integralidade). Cad. Saúde Pública 2004; 20(5):1411-1416.,1616. Tesser CD, Luz MT. Racionalidades médicas e integralidade. Ciênc. Saúde Colet2008;13(1):195-206..

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina/Hospital Universitário Antônio Pedro/UFF com CAEE nº 12572713.7.0000.5243 e parecer nº 222.541/2013. É parte do projeto Práticas Integrativas e Complementares na Formação Profissional em Saúde, vinculado à Rede de Pesquisa em Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (Reppics), que conta com financiamento do Programa Pesquisa para o SUS – Gestão Compartilhada em Saúde, por intermédio da Faperj.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Contexto de implantação do ensino de Homeopatia na graduação médica da UFF

A introdução do ensino de Homeopatia na formação médica da Universidade Federal Fluminense teve como fator facilitador o processo de reforma curricular. A discussão para a reformulação do currículo iniciou-se em 1970, no contexto do Movimento Sanitário, mas a reforma se efetivou somente em 1994, sob a influência da construção do SUS e do fortalecimento da atenção primária. A insatisfação com o modelo biologista adotado na universidade até então foi o propulsor desse processo. As críticas apontavam “ausência de compromissos sociais com a população; formação excessivamente teórica, com ênfase nas especialidades médicas e em tecnologias de tratamento e de investigação diagnóstica de doenças, em detrimento do conteúdo humanístico e de promoção da saúde”1717. Koifman L. O modelo biomédico e a reformulação do currículo médico da Universidade Federal Fluminense. Revista História, Ciências, Saúde 2001;8(1):46-69. (p. 57).

Uma das disciplinas que resultou do processo de reforma curricular foi Saúde e Sociedade V (SS V), ministrada no oitavo período do curso, com formato obrigatório, sob a responsabilidade do então denominado Instituto de Saúde da Comunidade (ISC).

A disciplina [SS V] passou a ser oferecida a partir da reforma curricular, quando se abriu um espaço para temas de sociologia e saúde no curso, apoiado na tese da determinação social da doença. A reforma teve influência de Alma Ata, de propostas de fortalecimento da atenção primária e da concepção da medicina enquanto disciplina social. (coordenador 3)

O objetivo de SS V era apresentar aos alunos uma “abordagem de métodos [de diagnóstico e tratamento] convencionais e alternativos sob o ponto de vista cultural”1818. Universidade Federal Fluminense (UFF). Currículo do Curso de Medicina. 1994. (p. 36). Esta disciplina foi o primeiro passo na introdução do ensino da Homeopatia na Faculdade de Medicina da UFF.

O objetivo inicial foi apresentar aos alunos as chamadas medicinas alternativas: medicina tradicional chinesa, homeopatia, ayurveda, naturopatia. Alguns departamentos de clínica eram contrários à proposta, mas não organizaram a resistência naquele momento. (coordenador 3)

O passo seguinte aconteceu em 1997, quando o mesmo Instituto passou a oferecer a disciplina optativa Introdução à Homeopatia por meio da contratação de um professor visitante emérito na especialidade. Porém, passado um ano, o contrato com o professor expirou e não pôde ser renovado. Uma professora do ISC, também homeopata, assumiu então a disciplina e propôs outras duas, igualmente optativas – Propedêutica Homeopática e Terapêutica Homeopática, criadas, respectivamente, em 1998 e 1999. As três disciplinas ficaram sob sua coordenação e contaram desde então com a participação de professores convidados e médicos cedidos pelo Ministério da Saúde.

Nós sempre contamos com ajuda […] a homeopatia na UFF sempre dependeu da colaboração de pessoas que não eram do quadro permanente da UFF. (coordenador 2)

O esforço da professora homeopata, somado à contribuição de profissionais não vinculados à universidade, foi fundamental para a viabilização destas disciplinas. Esta situação se aproxima da observada em outras instituições de ensino médico, como relata Salles77. Salles SAC. A presença da homeopatia nas faculdades de medicina brasileiras: resultados de uma investigação exploratóriaRev. bras. educ. med. 2008; 32(3). (p. 289):

A presença da Homeopatia nessas instituições [faculdades de Medicina] é pouco frequente e ocorre de maneira diversificada, dependendo sempre de iniciativas pessoais de homeopatas. Em geral de caráter eletivo, as disciplinas ficam a cargo desses profissionais, que, por não serem concursados, não obtêm a garantia institucional de continuidade da atividade homeopática após seu afastamento.

Apesar do frágil arranjo institucional para a sustentabilidade das disciplinas optativas, sua oferta gerou grande interesse dos alunos, que passaram a requerer o acesso à prática clínica em Homeopatia, seja para o tratamento de si, seja para o acompanhamento do cuidado de pacientes. Assim, em 1999 criou-se um ambulatório de Homeopatia no Hospital Universitário Antônio Pedro (Huap), voltado ao atendimento de alunos e funcionários da universidade. Havia, porém, uma intensa disputa por espaço no hospital, restando à prática homeopática os locais e horários menos atraentes para outras especialidades de maior tradição no currículo médico. Não obstante, as atividades do ambulatório de Homeopatia foram encerradas cinco anos após sua inauguração, para ceder lugar ao Departamento de Medicina Clínica.

Havia mais um desconhecimento e a concorrência por espaço, que é uma coisa normal […] tem uma disputa por espaço que é normal em qualquer corporação. (coordenador 2)

O argumento de insuficiência de espaço transcendia a área física do hospital. Ao lado do desconhecimento dos fundamentos da medicina homeopática por grande parte dos docentes, havia resistências de conteúdo ideológico, corporativo e epistemológico à Homeopatia, que ainda continuam presentes em segmentos da categoria médica, apesar do reconhecimento oficial da especialidade em nível internacional e nacional66. Teixeira MZ, Lin CA. Educação Médica em Terapêuticas não Convencionais. RevMed (São Paulo) 2013; 92(4):224-35.,1010. Broom A, Adams J. Uma sociologia da educação em saúde integrativa. In: Nascimento MC, Nogueira MI (orgs) Intercâmbio Solidário de Saberes em Saúde. Racionalidades Médicas e Práticas Integrativas e Complementares. São Paulo: Hucitec; 2013.,1919. Campbell C. Medicine, rhetoric and undermining: managing credibility in homeopathic practice. Homeopathy2008;97(2):76-82.,2020. Tesser CD. Práticas complementares, racionalidades médicas e promoção da saúde: contribuições pouco exploradas. Cad Saúde Pública 2009;25(8):1732-1742..

O fechamento do ambulatório não impediu, entretanto, que outros passos viessem a ser dados para a ampliação do ensino da Homeopatia na Medicina da UFF. Em 2006, uma pesquisadora no tema das racionalidades médicas e práticas integrativas em saúde2121. Luz MT, Barros NF, orgs. Racionalidades Médicas e Práticas Integrativas em Saúde: Estudos Teóricos e Empíricos. Rio de Janeiro: UERJ/IMS/LAPPIS; 2012. ingressou na equipe docente da disciplina obrigatória Trabalho de Campo Supervisionado I. Esta docente introduziu então a abordagem da Homeopatia e outras medicinas complementares para um grupo de alunos no primeiro período do curso.

Em síntese, a fase de expansão da Homeopatia nos serviços públicos de saúde durante o processo de criação do SUS e de fortalecimento da Atenção Primária em Saúde definiu o contexto externo de introdução desta medicina no ensino médico da UFF. Internamente, destacaram-se a reforma curricular e contribuições de docentes vinculados ou não à instituição. Os maiores entraves internos foram, nas palavras de docentes que atuaram diretamente nesse processo, o desconhecimento desta racionalidade médica e a disputa interna por espaço físico e acadêmico no interior do curso.

Estado atual do ensino de Homeopatia na graduação médica da UFF

Atualmente, as disciplinas obrigatórias e optativas mencionadas continuam ativas. Desde a sua criação, estas disciplinas têm sido ofertadas semestralmente, sem interrupção. Apresentamos a seguir um panorama atual de cada uma delas:

TCS I – Práticas Integrativas e Complementares: disciplina obrigatória ofertada no segundo período do curso a grupos de 10 a 15 alunos (de turmas com cerca de 80 estudantes), com o objetivo de apresentar racionalidades médicas e práticas integrativas e complementares. A Homeopatia como uma das racionalidades médicas trabalhadas é abordada teoricamente e também apresentada em cenários de prática clínica. A visita a esses cenários tem sido referenciada pelos alunos como ponto alto da disciplina, pois oferece oportunidade de assistirem a consultas médicas e conversarem com profissionais e pacientes da Homeopatia, o que permite ampliar suas percepções e romper preconceitos. No final do semestre letivo, o grupo compartilha seu aprendizado com o restante da turma, por meio da apresentação de pôster eletrônico e roda de conversa.

Saúde e Sociedade V: desde a sua criação, em 1994, a disciplina passou por modificações, se afastando temporariamente da abordagem homeopática. Atualmente, oferece aos alunos do sétimo período o estudo de racionalidades médicas (Homeopatia e Medicinas Tradicional Chinesa e Ayurvédica) e cuidados integrativos (yoga, fitoterapia, entre outros) com abordagem complementar, fazendo uso de casos clínicos. A abordagem da Homeopatia possibilita apresentar aos alunos as bases de uma medicina centrada na pessoa. A disciplina, por ser a única obrigatória nesta temática ofertada ao conjunto de alunos de cada turma, constitui para grande parte dos estudantes o principal contato com o paradigma homeopático no curso.

Introdução à Homeopatia I: disciplina optativa que fornece noções básicas da medicina homeopática. Aborda em sua ementa os seguintes pontos: histórico da medicina, conceitos fundamentais, raciocínio diagnóstico e terapêutico na Homeopatia. É aberta a todos os períodos letivos do curso e constitui a opção para o aluno que deseja iniciar o aprofundamento no conhecimento da Homeopatia. As aulas desta e das demais disciplinas optativas em Homeopatia são ministradas pela professora coordenadora e por professores convidados, vinculados à Associação Brasileira de Reciclagem e Assistência em Homeopatia (Abrah) ou ao Ministério da Saúde. Quanto à metodologia, as aulas ocorrem de forma expositiva e dialógica, mesclando-se apresentações de conteúdos com reflexões sobre o processo saúde-doença-cuidado.

Propedêutica homeopática: disciplina optativa que apresenta o processo saúde-doença segundo as concepções da Homeopatia sobre temperamentos, constituições e diáteses. Tem como pré-requisito Introdução à Homeopatia. A ementa inclui como principais temas: anamnese homeopática, temperamentos, constituições (fosfórica, carbônica e sulfúrica), diáteses (psora, sicose, sifilinismo, tuberculinismo), doenças agudas e crônicas. A construção da anamnese homeopática, por meio da discussão de casos clínicos, é relatada pelos alunos como um momento marcante, visto que abre os horizontes para a valorização de características e queixas pouco ou não consideradas na anamnese biomédica, o que contribui para reestruturar o olhar dirigido ao indivíduo que busca assistência médica.

Terapêutica homeopática: disciplina optativa que apresenta os tipos de prescrição e métodos de estudo de um medicamento homeopático, bem como introduz aos alunos 11 desses medicamentos. Como pré-requisitos, o aluno necessita ter cursado Introdução à Homeopatia e Propedêutica Homeopática. A metodologia inclui apresentação e discussão de casos clínicos para melhor compreensão da prescrição homeopática. As turmas apresentam entre dois e sete alunos, dos quais a maioria manifesta forte intenção de trabalhar com a Homeopatia em sua prática profissional.

A Tabela 1 sintetiza as disciplinas mencionadas quanto a formato (obrigatória, optativa ou eletiva), pré-requisitos, carga horária, número de créditos, período letivo, número médio de alunos matriculados, ano de criação e conteúdo (informativo ou formativo). Entende-se como disciplinas informativas aquelas que oferecem principalmente conteúdos teórico-conceituais, e como formativas, aquelas que habilitam o aluno na prática, o que inclui necessariamente carga horária de prática supervisionada.

Tabela 1
Síntese de disciplinas que contemplam a Homeopatia na graduação médica da Universidade Federal Fluminense quanto a ano de criação, carga horária, créditos, formato, período letivo, pré-requisitos, número médio de alunos matriculados e conteúdo. UFF, Niterói (RJ), 2016

Em relação às disciplinas optativas, destaca-se a maior procura por Introdução à Homeopatia (Tabela 1). Este fato expressa a curiosidade e o interesse dos alunos pela medicina homeopática, sendo reforçado, entretanto, pela oportunidade de cumprimento parcial de um mínimo de 120 horas em disciplinas optativas exigidas para a integralização do curso.

Eu sempre vi a Homeopatia como algo interessante […] Além disso, tem a questão de ser uma disciplina optativa […] eu peguei por achar interessante e ao mesmo tempo estar preenchendo minha grade de pontos. (aluno de Introdução à Homeopatia)

Ao oferecer noções básicas dos principais conceitos e do raciocínio clínico em Homeopatia, Introdução à Homeopatia contribui para a habilidade de futuros profissionais em orientar pacientes que se interessem por esta abordagem terapêutica, como também em dialogar com colegas especializados em Homeopatia no tratamento de pacientes comuns66. Teixeira MZ, Lin CA. Educação Médica em Terapêuticas não Convencionais. RevMed (São Paulo) 2013; 92(4):224-35.,88. Nogueira MI. Racionalidades Médicas e Formação em Saúde: um caminho para a integralidade. In: Pinheiro R, Silva Jr AGS (orgs). Por uma sociedade cuidadora. Rio de Janeiro: CEPESC-IMS/UERJ/ABRASCO; 2010.p.101-114.,1010. Broom A, Adams J. Uma sociologia da educação em saúde integrativa. In: Nascimento MC, Nogueira MI (orgs) Intercâmbio Solidário de Saberes em Saúde. Racionalidades Médicas e Práticas Integrativas e Complementares. São Paulo: Hucitec; 2013.,1111. Haramati A,et al. Innovation and Collaboration: The First International Congress for Educators in Complementary and Integrative Medicine. Explore (New York) 2013; 9(2):118-120.,1212. Wiles MR, Adler SR. The International Congress for Educators in Complementary and Integrative Medicine. Explore (NY) 2013; 9(5):277-8.,2222. Barros NF, Siegel P, Otani MAP, orgs. O Ensino das Práticas Integrativas e Complementares: Experiências e Percepções. São Paulo: Hucitec; 2011..

O número médio de alunos matriculados nas disciplinas Propedêutica Homeopática e, principalmente, Terapêutica Homeopática (Tabela 1) expressa, por sua vez, o interesse em aprofundar-se no conhecimento da abordagem homeopática, com vistas a uma possível especialização e exercício profissional desta medicina. Isto, por sua vez, contribui para que futuros profissionais façam uso de diferentes paradigmas para lidar com o processo de adoecimento, o corpo e as pessoas na sociedade contemporânea, e consigam melhorar o relacionamento com pacientes, promover autonomia, diminuir abordagens invasivas e insensíveis, ampliar a integralidade do cuidado e a resolutividade do trabalho em saúde1010. Broom A, Adams J. Uma sociologia da educação em saúde integrativa. In: Nascimento MC, Nogueira MI (orgs) Intercâmbio Solidário de Saberes em Saúde. Racionalidades Médicas e Práticas Integrativas e Complementares. São Paulo: Hucitec; 2013.,1111. Haramati A,et al. Innovation and Collaboration: The First International Congress for Educators in Complementary and Integrative Medicine. Explore (New York) 2013; 9(2):118-120.,1212. Wiles MR, Adler SR. The International Congress for Educators in Complementary and Integrative Medicine. Explore (NY) 2013; 9(5):277-8.,2222. Barros NF, Siegel P, Otani MAP, orgs. O Ensino das Práticas Integrativas e Complementares: Experiências e Percepções. São Paulo: Hucitec; 2011.2727. Schiff E,et al. Integrating a complementary medicine service within a general surgery department: from contemplation to practice. J AlternComplement Med. 2012;18(3): 300-5..

PERCEPÇÃO DE ALUNOS SOBRE O ENSINO DE HOMEOPATIA NA GRADUAÇÃO MÉDICA DA UFF

Principais contribuições

Os alunos, em sua grande maioria, reconheceram a importância do ensino da Homeopatia e outras medicinas complementares, na medida em que oferece um olhar diferenciado do processo saúde-doença-cuidado, capaz de ser integrado de maneira complementar ao modelo biomédico.

A experiência que eu tive com medicina complementar foi muito interessante, porque muitas vezes me deu mais respostas para aquilo que eu queria ou esperava do curso do que o próprio currículo formal oferecia. Temos discussões mais interessantes acerca de processos de cura e adoecimento. (aluno de Terapêutica Homeopática)

Entendem que o paradigma vitalista2828. Nascimento MC,et al. A categoria racionalidade médica e uma nova epistemologia em saúde. Ciênc. Saúde Colet2013; 18(12):3595-3604. que orienta essas medicinas contribui na formação em saúde e deve estar presente no ensino médico. Mesmo aqueles que não se identificam com o paradigma vitalista tendem a admitir a necessidade de conhecê-lo para melhor orientar seus futuros pacientes, que devem ter opções terapêuticas na busca do cuidado de sua própria saúde.

[…] a medicina nossa não tem todas as respostas […] Então, nessa busca de cuidar de nós mesmos, é importante que essas medicinas ganhem caminho para que tenhamos noção de que elas existem (ex-aluno 2).

A receptividade ao ensino da Homeopatia e outras medicinas complementares e integrativas se repete em diversas escolas médicas, como atestam diferentes estudos66. Teixeira MZ, Lin CA. Educação Médica em Terapêuticas não Convencionais. RevMed (São Paulo) 2013; 92(4):224-35.,1010. Broom A, Adams J. Uma sociologia da educação em saúde integrativa. In: Nascimento MC, Nogueira MI (orgs) Intercâmbio Solidário de Saberes em Saúde. Racionalidades Médicas e Práticas Integrativas e Complementares. São Paulo: Hucitec; 2013.,2222. Barros NF, Siegel P, Otani MAP, orgs. O Ensino das Práticas Integrativas e Complementares: Experiências e Percepções. São Paulo: Hucitec; 2011.,2929. Christensen MC, Barros NF. Medicinas Alternativas e Complementares no Ensino Médico: revisão sistemática. Rev.bras.educ.med.2010;34(1).3333. Nascimento MC, Nogueira MI, orgs. Intercâmbio Solidário de Saberes em Saúde. Racionalidades Médicas e Práticas Integrativas e Complementares. São Paulo: HUCITEC; 2013.. Na USP, por exemplo, 85% dos alunos entrevistados declararam que Homeopatia e Acupuntura devem ser inseridas no currículo da graduação das escolas médicas66. Teixeira MZ, Lin CA. Educação Médica em Terapêuticas não Convencionais. RevMed (São Paulo) 2013; 92(4):224-35. não apenas para a ampliação do conhecimento, mas também para atender à demanda crescente por essas medicinas e terapias, presentes em sistemas de saúde do Brasil e do mundo.

A humanização da prática médica e a integralidade do cuidado foram os argumentos mais frequentes entre os alunos ao mencionarem as contribuições do ensino da Homeopatia na graduação médica da UFF. A singularização do indivíduo, com a valorização de queixas sensoriais, emocionais, além das funcionais e estruturais, bem como a consideração de aspectos físicos e mentais para o diagnóstico e tratamento preenchem lacunas do modelo biomédico e facilitam uma abordagem ampliada de cada pessoa.

Eu aprendi […] a ver o lado humano da medicina, a enxergar o doente antes da doença, o que é muito importante para estabelecer uma relação médico-paciente melhor; assim, também pude perder preconceitos com outros tipos de medicina. (aluno de TCS I)

Resolvi fazer essas matérias [optativas de Homeopatia] porque, conforme fui evoluindo no curso, fui refletindo sobre as limitações da medicina no olhar as pessoas. Me sentia incompleta na visão da doença e do doente, então comecei a procurar alternativas de terapêuticas. (aluna de Terapêutica Homeopática)

Tudo é levado em conta nessa ciência. Não é observar só aquilo que quero. Você absorve e anota tudo aquilo que está vendo, mesmo achando que não tem nada a ver com o problema. E depois de um estudo, vai virando medicamento homeopático. Cada medicamento trata uma síndrome. Acho legal falar assim, já que muitas vezes não sei como integrar as coisas. (ex-aluno 2)

Embora frequente entre os entrevistados, o argumento da humanização da prática não contou com consenso. Alguns alunos afirmaram que a humanização deve ser parte de uma boa prática em qualquer medicina, independentemente de seu paradigma. A associação do modelo biomédico a uma prática menos humanizada estaria relacionada mais a sua formatação a modelos de organização do trabalho pautados no produtivismo de mercado do que ao paradigma que o orienta.

Uma coisa que me incomoda é ‘a valorização do lado humano na medicina’. Existe outro lado? É uma coisa que deveria ser desconstruída. […] Não consigo ver outro lado sem ser humano. Pra mim, estudar pneumonia é humano também, não é só científico. (ex-aluno 3)

Organização e infraestrutura do ensino

Ao refletirem sobre o período letivo ideal para inserção do ensino da Homeopatia na graduação médica, alguns argumentaram que o início do curso, quando é oferecida a disciplina optativa Introdução à Homeopatia, não é o melhor momento porque os alunos ainda não têm base suficiente para comparação e mesmo integração dos conhecimentos:

Eu acho que essa matéria não deveria ser aberta logo de cara para o primeiro período, até porque a gente poderia ter um aproveitamento melhor da aula e não perder muito tempo com definição de conceitos, algumas explicações que não competem ao conhecimento homeopático. (aluno de Introdução à Homeopatia)

Porém, o sétimo período, quando é oferecida a disciplina obrigatória que apresenta a Homeopatia ao conjunto dos alunos, também não seria a ocasião adequada. Os alunos tendem a ser mais resistentes a sua introdução quando já estão muito impregnados pelo modelo biomédico. Ao lado disto, segundo os entrevistados, essa disciplina apresenta a Homeopatia de maneira superficial, o que tende a reforçar críticas de abstração.

O problema é que, nas disciplinas obrigatórias do curso, os professores têm a vontade de fazer simplesinho, facinho, já que o aluno não vai gostar […]. Nosso currículo é ineficiente para trabalhar métodos diagnósticos e terapêuticos alternativos porque simplifica demais, menospreza, subestima o aluno. Você sente o medo do enfrentamento de uma grande maioria que tem o estilo mais fechado e conservador. (ex-aluno 4)

É abstrato no sentido de ser uma linguagem totalmente nova […]. Eu fiz todas as optativas e estou fazendo a especialização. Agora, sim, entendo um pouco mais. Mas não é fácil entender, necessita de certo tempo para quebrar o paradigma, ver como funciona. (ex-aluno 2)

A introdução ao tema na disciplina TCS I, no segundo período do curso, embora restrita a um grupo de 10 a 15 alunos de uma turma com cerca de 80 estudantes, tem sido bem avaliada. Entretanto, a inserção do ensino da Homeopatia deveria contemplar o conjunto da turma.

A gente entra sem saber nada sobre o assunto, mas no final quer saber mais. Por isso eu tinha falado dela [TCS I tema de práticas integrativas e complementares] ser obrigatória [ao conjunto da turma] […] Se não ficar interessado, tudo bem, mas pelo menos teve a chance de entrar em contato. (ex-aluno 5)

Alguns alunos defenderam que a introdução ao ensino da Homeopatia deveria ocorrer imediatamente após o estudo da semiologia, que na UFF ocorre no quinto período letivo do curso, quando os alunos começam a colher a história clínica de pacientes e a vivenciar a prática da medicina. Desta forma, afirmaram, estariam mais habilitados a questionar não apenas os modelos apresentados, mas também a prática desenvolvida nos serviços de saúde.

Eu acho que é muito mais proveitoso discutir esses paradigmas quando você já conseguiu ver a semiologia da medicina ocidental, enquanto anteriormente a gente discutiu e agora não tem como voltar. (ex-aluno 3)

Entre os alunos mais críticos à Homeopatia, observou-se uma tendência a defender que o seu ensino seja oferecido exclusivamente por meio de disciplinas optativas, para aqueles que tenham curiosidade ou interesse prévio no tema. A resistência à inserção da Homeopatia em disciplinas obrigatórias foi justificada também pelo excesso de carga horária exigida para a integralização do curso, o que representa uma das principais críticas ao atual currículo.

Os que defenderam a presença da Homeopatia no currículo obrigatório argumentaram que as críticas ao seu ensino derivam da dificuldade de assimilar outro paradigma, principalmente quando apresentado de forma panorâmica e superficial. Afirmaram que o modelo biomédico também possui um grau de abstração, menos questionado devido à dominância de seu paradigma na cultura ocidental.

[…] a designação de abstrato é complexa. Se for uma aula de dengue e o professor falar que dengue causa uma hepatite e há liberação de transaminase, [é] superabstrato, mas você compra a ideia. Como está na sua zona de conforto, está mais fácil aceitar. Não precisa quebrar paradigma. (ex-aluno 4)

Nas disciplinas optativas em Homeopatia, o nível de aprofundamento é maior, e mesmo aqueles atraídos pela oportunidade de cumprimento de créditos reconheceram nelas a oportunidade de complementar o currículo e encontrar respostas que o modelo biomédico não oferece. Os que optaram por cursar Propedêutica Homeopática e Terapêutica Homeopática afirmaram que as disciplinas atenderam às suas expectativas e trouxeram conhecimentos importantes para a semiologia e tratamento, principalmente no que se refere à consideração de características físicas e mentais não valorizadas no modelo biomédico e seu impacto no processo saúde-doença-cuidado.

Embora as avaliações das disciplinas optativas em Homeopatia sejam majoritariamente positivas, os alunos apontaram algumas críticas, com destaque para a ausência de um ambulatório-escola para o acompanhamento de pacientes e dos resultados do tratamento.

A sugestão que eu tenho é que essas matérias deveriam ser mais bem elaboradas, poderiam ter horários mais acessíveis pros alunos e ter um ambulatório-escola para o aluno acompanhar o que acontece. (aluno de Propedêutica Homeopática)

De maneira geral, as principais críticas apontaram, além da ausência do ambulatório clínico em Homeopatia, a inadequação do período letivo de inserção do seu ensino na grade curricular e a insuficiência na consolidação e integração deste ensino ao longo do curso.

Nosso currículo deve ser mudado urgentemente de novo […] E se mudasse de fato de novo, talvez fossem criados espaços para que esses temas [racionalidades médicas] sejam discutidos de forma melhor […] e pegar todas as turmas. (ex-aluno 4)

Desafios e perspectivas do ensino de Homeopatia na graduação médica da UFF

A presença da Homeopatia na graduação médica da UFF é entendida por alunos e professores como uma conquista, que envolve, entretanto, importantes desafios para o seu fortalecimento e avanço.

A perspectiva do ensino das alternativas ainda é ruim, porque não mexe com a cultura médica. O setor de saúde se transformou em um setor do grande capital. Eles querem que os médicos saiam por aí canetando os remédios deles, acabam com a arte médica. (coordenador 3)

As duas disciplinas obrigatórias do currículo se limitam a introduzir o modelo homeopático, sem suficiente aprofundamento teórico, com atividades práticas limitadas e pouca ou nenhuma integração às disciplinas do modelo biomédico.

Acho que tem que ser melhorado […] Talvez mesclar a teoria mais com a prática […] senão, ficará realmente abstrato. (ex-aluno 2)

Salles3434. Salles SAC. Homeopatia, Universidades e SUS: resistências e aproximações. São Paulo: Editora Hucitec; 2008a. relata que a desinformação sobre os princípios da Homeopatia por colaboradores dos serviços de saúde gera preconcepções e preconceitos, com implicações negativas na inserção desta medicina no SUS. Segundo Barros e Fiuza3535. Barros NF, Fiuza AR. Evidence-based medicine and prejudice-based medicine: the case of homeopathy. Cad. Saúde-Pública. 2014;30(11): 2368-2376., o preconceito e a pouca visibilidade contribuem para a marginalização da Homeopatia e outras racionalidades médicas alternativas e complementares. De acordo com os coordenadores das disciplinas de Homeopatia no curso de Medicina da UFF, as resistências atuais às práticas complementares são parecidas com as identificadas durante a reforma curricular: desconhecimento, preconceito e disputa por espaço físico e acadêmico.

Diante deste cenário, defende-se que os alunos possam desenvolver competências e habilidades que lhes permitam orientar e encaminhar pacientes sempre que estes possam ser beneficiados pela Homeopatia, como também dialogar com colegas homeopatas no acompanhamento de pacientes comuns. Desta perspectiva, o desafio nas disciplinas obrigatórias é não apenas ampliar, mas também integrar o ensino da Homeopatia às demais disciplinas do currículo, com acesso à prática clínica supervisionada, de modo a permitir que os alunos conheçam os fundamentos da especialidade e as possibilidades de sua integração ao modelo biomédico.

Outro grande desafio é contratar professores habilitados em Homeopatia para o quadro permanente da UFF, de forma a garantir a continuidade do ensino nas disciplinas obrigatórias e optativas, organizar atividades práticas supervisionadas e discutir casos clínicos nos moldes das outras especialidades médicas estruturadas no currículo, além de desenvolver atividades de pesquisa e extensão. Estas atividades são também fundamentais para a sustentabilidade da Homeopatia na universidade, onde ainda é vista por parte da comunidade acadêmica como uma medicina contra-hegemônica, desacreditada no que se refere a soluções imediatas em saúde e recusada pela razão científica77. Salles SAC. A presença da homeopatia nas faculdades de medicina brasileiras: resultados de uma investigação exploratóriaRev. bras. educ. med. 2008; 32(3).,3535. Barros NF, Fiuza AR. Evidence-based medicine and prejudice-based medicine: the case of homeopathy. Cad. Saúde-Pública. 2014;30(11): 2368-2376..

Destaca-se ainda a necessidade de recriar o ambulatório-escola na especialidade.

Imagine se você tem um bom resultado do tratamento homeopático pro corpo de profissionais que trabalham aqui, enfermagem, médicos e alunos, isto atrai, dá importância, credibilidade. (coordenador 2)

Atualmente, os alunos que cursam as três optativas em Homeopatia são convidados a acompanhar atividades práticas nos ambulatórios da Associação Brasileira de Reciclagem e Atualização em Homeopatia (Abrah), em um arranjo precário, considerando sua formalização institucional e o número reduzido de contemplados. Tal fato corrobora a análise de Salles3636. Salles SAC. Perfil do médico homeopata. São Paulo, 2001. Mestrado [Dissertação] - Departamento de Práticas em Serviços de Saúde, Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo., que afirma que a falta de acesso à prática supervisionada em atendimento com Homeopatia é uma das principais deficiências na formação do profissional.

Entende-se que as optativas devem oferecer aos alunos a oportunidade de ampliar sua formação prática em Homeopatia, tendo em vista a perspectiva de uma prática profissional que inclua esta especialidade e lhes permita integrar os paradigmas vitalista e biomédico no cuidado em saúde.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Após 22 anos da introdução do ensino da Homeopatia na graduação médica da UFF, numa trajetória de resistência e avanços, professores e alunos almejam aprimorar e fortalecer sua presença na formação médica.

Ampliar a participação deste ensino no currículo obrigatório de graduação, contratar professores qualificados, recriar o ambulatório-escola em Homeopatia e aumentar a integração com as demais clínicas exigem a valorização de um modelo de cuidado que inclua experiências e saberes de interface da saúde e da vida e amplie o foco da doença para a pessoa.

A realização de novas pesquisas, com abordagem comparativa de diferentes experiências de ensino da Homeopatia na graduação médica, pode contribuir para aprofundar o debate e ampliar o fórum de discussões neste tema.

Apesar dos desafios, o ensino da Homeopatia resiste e avança, sustentado no compromisso de alunos, professores, pesquisadores, profissionais e gestores com uma formação plural em saúde, capaz de oferecer um conjunto de perspectivas críticas de modelos terapêuticos e permitir que estudantes e praticantes façam uso de diferentes paradigmas em saúde, de maneira a fortalecer a integralidade e a qualidade do cuidado na sociedade contemporânea.

AGRADECIMENTO

Agradecemos à professora Maria Inês Nogueira, do Departamento de Planejamento e Saúde da graduação médica da UFF, pela participação na coordenação da pesquisa; e à Faperj, pelo financiamento do estudo.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jan-Mar 2018

Histórico

  • Recebido
    13 Out 2016
  • Aceito
    07 Nov 2016
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