A opção pela medicina e os planos em relação ao futuro profissional de estudantes de uma faculdade pública Brasileira

Students'choice of medicine and future career plans at a public medical school in Brazil

Maria Mônica Freitas Ribeiro Sebastião Soares Leal Flávia Cristina Diamantino Hellen de Andrade Bianchi Sobre os autores

Resumos

A opção pela medicina e os planos em relação ao futuro profissional de estudantes no início do ciclo profissional foram avaliados em pesquisa que utilizou metodologia qualitativa de análise de duas questões abertas, uma delas sobre a opção pelo curso, os fatos e fatores que influenciaram a escolha, e outra sobre os planos futuros em relação à profissão e aos fatores que, no momento, orientam esses planos. A justificativa para o estudo foi reconhecer que as motivações para a escolha da medicina são complexas e mutáveis no decorrer do tempo e que a opção pela especialização tem sido precoce. Os resultados encontrados confirmaram várias achados da literatura para a opção pela medicina, incluindo os mecanismos inconscientes, mas diferiram no fato de a inserção no mercado de trabalho e a possibilidade de bons salários estarem entre os mais citados, depois do altruísmo. Em relação aos planos para o futuro, fica evidente a preocupação em conciliar vida profissional e vida pessoal com qualidade. Embora muitos estudantes ainda não tenham planos definidos e queiram apenas fazer um bom curso, o exercício de especialidade médica e a preocupação com a residência médica já estão presentes nesta fase do curso.

Educação Médica; Escolha Profissional; Estudantes de Medicina


Students'choice of medicine and their future career plans were evaluated in a study using a qualitative methodology to analyze two open-ended questions, one on their choice of medicine and the facts and factors that influenced their choice, and the other on future professional career plans and underlying factors. The justification for the study was the recognition that motivations for choosing medicine are complex and mutable over time, and that future physicians have tended to choose their specialty early. The results confirm various findings from the literature concerning medicine as a career choice, including unconscious mechanisms. However, the results here differ from the literature in that status in the work market and the possibility of high earnings were among the most frequently cited factors, next to altruism. As for future plans, there was an obvious concern over reconciling one's professional career and personal life. Although many students still lacked well-defined career plans and simply wanted to receive a good medical education, the choice and exercise of specialty and concern over medical residency were already present in this early stage of medical school.

Medical Education; Career Choice; Medical Students


PESQUISA

A opção pela medicina e os planos em relação ao futuro profissional de estudantes de uma faculdade pública Brasileira

Students'choice of medicine and future career plans at a public medical school in Brazil

Maria Mônica Freitas Ribeiro; Sebastião Soares Leal; Flávia Cristina Diamantino; Hellen de Andrade Bianchi

Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil

Endereço para correspondência

RESUMO

A opção pela medicina e os planos em relação ao futuro profissional de estudantes no início do ciclo profissional foram avaliados em pesquisa que utilizou metodologia qualitativa de análise de duas questões abertas, uma delas sobre a opção pelo curso, os fatos e fatores que influenciaram a escolha, e outra sobre os planos futuros em relação à profissão e aos fatores que, no momento, orientam esses planos. A justificativa para o estudo foi reconhecer que as motivações para a escolha da medicina são complexas e mutáveis no decorrer do tempo e que a opção pela especialização tem sido precoce. Os resultados encontrados confirmaram várias achados da literatura para a opção pela medicina, incluindo os mecanismos inconscientes, mas diferiram no fato de a inserção no mercado de trabalho e a possibilidade de bons salários estarem entre os mais citados, depois do altruísmo. Em relação aos planos para o futuro, fica evidente a preocupação em conciliar vida profissional e vida pessoal com qualidade. Embora muitos estudantes ainda não tenham planos definidos e queiram apenas fazer um bom curso, o exercício de especialidade médica e a preocupação com a residência médica já estão presentes nesta fase do curso.

Palavras-chave: Educação Médica, Escolha Profissional, Estudantes de Medicina

ABSTRACT

Students'choice of medicine and their future career plans were evaluated in a study using a qualitative methodology to analyze two open-ended questions, one on their choice of medicine and the facts and factors that influenced their choice, and the other on future professional career plans and underlying factors. The justification for the study was the recognition that motivations for choosing medicine are complex and mutable over time, and that future physicians have tended to choose their specialty early. The results confirm various findings from the literature concerning medicine as a career choice, including unconscious mechanisms. However, the results here differ from the literature in that status in the work market and the possibility of high earnings were among the most frequently cited factors, next to altruism. As for future plans, there was an obvious concern over reconciling one's professional career and personal life. Although many students still lacked well-defined career plans and simply wanted to receive a good medical education, the choice and exercise of specialty and concern over medical residency were already present in this early stage of medical school.

Keywords: Medical Education, Career Choice, Medical Students

INTRODUÇÃO

A escolha da medicina como profissão, sem dúvida, resulta de vários fatores, alguns deles não conscientes e outros mais explícitos, e tem sido estudada no Brasil e no mundo1-4. Em estudo realizado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 2000, Ferreira et al.5 relataram que:

a possibilidade de realização pessoal e a adequação às aptidões pessoais foram as principais razões apontadas pelos alunos para estudar Medicina (> 50%). Os motivos altruístas e a busca do conhecimento ocupam lugar de destaque. (p.226)

Chamou ainda a atenção dos autores o fato de a inserção no mercado de trabalho não ter sido apontada como fator importante na escolha da profissão5.

Do mesmo modo, a escolha da especialidade médica tem sido objeto de estudo, chamando a atenção o fato de ser feita muito precocemente, ainda no início do curso. A pouca motivação para o exercício da medicina geral, da medicina de família e para as especialidades consideradas de atenção básica tem preocupado gestores em todo o mundo6-12. Em estudo realizado em 2006 na Faculdade de Medicina da UFMG com 738 estudantes de vários períodos do curso, apenas 15,4% gostariam de seguir carreiras relacionadas com a atenção básica, tendo se considerado nesta categoria a clínica médica, a pediatria e o médico generalista. Se considerados apenas aqueles que desejavam ser generalistas, este percentual foi de 1%, sendo que nenhum estudante era do último período do curso13.

Frente à necessidade de formação de médicos para a Atenção Primária à Saúde no Brasil e por acreditar que a motivação para a escolha da medicina pode interferir na escolha futura de exercício profissional e, ainda, que alguns dos fatores determinantes da opção profissional e da escolha da carreira são mutáveis com o tempo, decidiu-se fazer a presente pesquisa.

METODOLOGIA

Foi proposto um estudo qualitativo com estudantes do quinto semestre, o primeiro do ciclo profissional da Faculdade de Medicina da UFMG (FM-UFMG), com o intuito de levantar os fatores determinantes da escolha do curso de Medicina e da opção pelo exercício profissional futuro na opinião de estudantes no início do ciclo profissional do curso médico.

O currículo da FM-UFMG é constituído por um ciclo básico de quatro semestres, com conteúdo predominantemente biológico, com aulas teóricas para grandes grupos e prática em laboratórios de ciências básicas. A partir do início do terceiro ano, os estudantes, em grupos de cinco a dez, têm aulas em ambulatórios e/ou enfermarias, onde atendem os pacientes sob a supervisão de um professor médico.

Um estudo realizado em 2004 mostrou que os estudantes no terceiro ano do curso médico apresentavam idade mediana de 21,5 anos, com proporção semelhante de estudantes do sexo masculino e feminino, e com renda familiar de até 20 salários mínimos para aproximadamente 45% deles13.

As questões propostas aos estudantes foram as seguintes: "Escreva livremente sobre sua opção pelo curso de Medicina nesta escola, os fatos e fatores que influenciaram sua escolha" e "Escreva também livremente sobre seus planos futuros em relação à profissão e os fatores que, no momento, orientam esses planos".

Na aplicação das questões aos estudantes, contou-se com a colaboração dos tutores dos grupos. A tutoria é uma disciplina obrigatória do curso, que consiste em uma reunião de duas horas semanais, com temas livres, definidos pelo tutor e seu grupo de dez a 15 estudantes. A colaboração dos tutores se resumiu à distribuição das questões aos estudantes que concordaram com a participação, após a leitura do Termo de Consentimento, e ao recolhimento das respostas.

Após a devolução das respostas, que foram anônimas e numeradas de 1 a 75 para análise, estas foram lidas pelos pesquisadores, que realizaram análise qualitativa com a técnica de análise de conteúdo14, procurando agrupá-las e quantificá-las. Para efeito de análise, a primeira pergunta foi dividida em dois temas: opção pela FM-UFMG e fatores determinantes da opção pelo curso de Medicina.

A leitura das respostas foi realizada, de início, por dois dos investigadores individualmente e, depois, em conjunto por todos os quatro pesquisadores, com o objetivo de destacar os fatores mencionados pelos estudantes. Posteriormente, tendo como referência a literatura sobre o tema, esses fatores foram agrupados e categorizados. Os dados obtidos nesta fase foram tabulados, com cálculo dos percentuais, e os dados quantitativos resultantes são apresentados. Os aspectos mais relevantes foram transcritos das respostas e também são apresentados.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (Coep-UFMG).

RESULTADOS

A Escolha da Escola

Foram distribuídos 120 questionários, e o percentual de estudantes que respondeu foi de 62,5%. A opção pela FM-UFMG, para todos esses estudantes, se deveu ao fato de ser uma escola pública, gratuita, bem conceituada e de qualidade, ten-do 16% dos estudantes respondido que não teriam condição financeira para fazer o curso de Medicina em escola privada.

A Opção pela Medicina

Quanto à opção pela medicina, geralmente mais de um fa-tor determinante foi mencionado. Vinte e cinco estudantes (33,3%) citaram mais de três fatores, sendo que, destes, dois (2,7%) mencionaram cinco fatores. Por outro lado, três estudantes (4,0%) não citaram nenhum fator.

Em ordem decrescente de frequência, os fatores mencionados pelos estudantes foram: ajudar e servir pessoas ou trabalhar com pessoas, empregabilidade, bons salários, status social, influência de terceiros, curiosidade científica, fantasia ou sonho desde a infância, gosto pela área biológica, diversidade de áreas de atuação, opção pessoal sem outras explicações, desafio do vestibular, poder do médico e trabalho na área de saúde. Os respectivos percentuais encontram-se no Gráfico 1.


Mais que os dados quantitativos, a transcrição de trechos das respostas pode ser muito elucidativa.

O Momento da Escolha

O momento de definir o curso de Medicina foi relevante para alguns estudantes, que escreveram sobre a dificuldade da escolha muito precoce:

"O momento da escolha da profissão é muito precoce em nossas vidas, portanto, sendo a escolha em grande parte, pelo menos no meu caso, baseada na intuição." (Nº 37)

"Somos obrigados a escolher o curso muito jovens [...]" (Nº 56) "Quando eu estava escolhendo a profissão não tinha muitas informações e mal conhecia o que os cursos ofereciam." (Nº 58)

Por outro lado, os estudantes que fizeram escolhas mais tardias, geralmente após começarem ou fazerem outro curso, escreveram sobre a dificuldade da escolha:

"Minha escolha foi amadurecendo desde o momento em que comecei a trabalhar como farmacêutica e bioquímica. Só então percebi o quanto eu gosto de clínica e do contato com pacientes." (Nº 11)

ou, ainda, o estudante que, após decidir abandonar outro cur-so já na metade, escreveu:

"Até chegar ao ponto de marcar a medicina para o vestibular [...] foi um parto [...] uma escolha que possivelmente já havia feito há muitos anos, mas que provavelmente não quis enxergá-la e assumi-la." (Nº 19)

O receio do vestibular ou os sacrifícios exigidos do médico foram motivos para adiar o curso de Medicina:

"A medicina não foi a minha primeira opção profissional [...] porque eu sabia que essa profissão exige muito sacrifício do profissional [...]" (Nº 71)

"O que aconteceu foi que, ao terminar o segundo grau, não me sentia devidamente preparada para encarar a concorrência feroz para o vestibular de Medicina." (Nº 43)

Fatores Determinantes da Escolha

O trabalho com pessoas, citado por grande parte dos estudantes, foi expresso de várias maneiras:

"Escolhi medicina por ser a mais humana das profissões, porque todos os dias não vou confundir trabalho com dinheiro, e sim trabalho com gente, com vida." (Nº 66)

ou ainda:

"Minha opção pela medicina veio do anseio de servir pessoas. O médico é aquele que pode levar algum conforto às pessoas, desde que ele seja sensível á condição do outro." (Nº 8)

A empregabilidade e os bons salários foram prevalentes e constituíram o único ou um dos determinantes da escolha para alguns estudantes.

Minha escolha foi motivada pelo status que eu sempre vi nos médicos, além da possibilidade de ter um bom salário." (Nº 02) "Tenho motivações financeiras e sociais" (Nº 04) "Escolhi o curso de Medicina devido à boa possibilidade de inserção no mercado de trabalho. Fiz a escolha pensando que teria um bom retorno financeiro[...]" (Nº 12) "O curso de Medicina é o que tinha o melhor custo-benefício. É o curso de melhor empregabilidade e retorno financeiro e ainda me dá um leque muito grande de especialização [...]" (Nº 34) "Foi de grande importância a pressão da família, mas o fator principal foi o dinheiro." (Nº 52) "Minha escolha foi, em grande parte, orientada na crença de melhorar minha situação financeira, meu status social [...]" (Nº 53)

Planos em Relação à Profissão e Fatores que, no Momento, Orientam esses Planos

Praticamente todos os estudantes apresentaram mais de um plano para o futuro. Os planos mais citados foram não querer ser médico generalista (20) e pretender fazer uma especialidade ou subespecialidade médica (19), o que está de acordo com a residência médica como meta, citada por 19 estudantes. Para 17 estudantes, é cedo para definir o futuro profissional e não se julgam ainda conhecedores da medicina o suficiente para fazer uma opção dentro da carreira. Somam-se a esses outros quatro que se mostram contraditórios em suas opções, o que totalizaria 21 estudantes. Para 14 estudantes, o objetivo, no momento, é buscar a competência profissional, relatada como: "fazer um bom curso", "tornar-se profissional competente, ético e capaz de praticar medicina humanizada". A preocupação com a qualidade de vida, mencionada como tal ou como flexibilidade de horários e possibilidade de compatibilizar profissão e família, foi citada por 13 estudantes, sendo ressaltada a importância de conciliar maternidade e profissão. Em relação ao trabalho como médico, cinco mencionaram o trabalho temporário no PSF enquanto não conseguirem residência médica, quatro desejam compatibilizar a saúde pública e o consultório, dois gostariam de trabalhar exclusivamente para o SUS, um gostaria de trabalhar com saúde e não com doença. O mercado de trabalho e as oportunidades seriam os definidores dos projetos de cinco estudantes e o local de moradia para outros sete. Um estudante se disse insatisfeito com o curso e não sabe se exercerá a profissão. Estes dados estão na Gráfico 2.


Na resposta 52 temos:

"Não gosto do curso, me arrependi de ter entrado [...] mas não pretendo largar, pois a medicina é um futuro certo, promissor e é difícil deixá-lo de lado por algo incerto. [...] Outro fato que me deixa desanimado com a profissão é quando vejo os colegas deixando de viver para estudar [...] Não quero isso para minha vida."

A ansiedade aparece na resposta 54:

"Procuro não planejar o futuro, pois às vezes é angustiante."

A preocupação com as provas para residência médica aparece como determinante dos projetos atuais, como indicado na resposta 15:

"Pretendo também fazer alguns estágios e monitorias a fim de garantir pontos para a residência."

e na 17:

"Sinto uma grande pressão, mesmo que velada, para a tal residência. Todos os professores dizem que não precisamos nos preocupar muito nesse momento, nem sair fazendo tudo para preencher o currículo, porém, penso eu, será que a banca examinadora da prova de residência pensará o mesmo?"

A resposta 59 diz:

"Pretendo fazer a residência médica assim que terminar o curso, apesar de estar consciente do nível cada vez maior de concorrentes que irei enfrentar, devido ao crescente número de faculdades de Medicina que estão sendo criadas [...]"

Alguns estudantes se mostram muito confusos, tendo dificuldade de se posicionar frente a projetos altruístas e à conciliação com a vida familiar, como na resposta 7:

"Meus planos futuros são de uma medicina social, não tenho a intenção de ficar rica, mas apenas de ter condição de criar meus muitos filhos bem. Quero me dedicar o máximo que puder ao trabalho voluntário."

ou demonstram falta de clareza do papel do médico, como na resposta 10:

"O principal plano é poder viajar para locais precários, extremamente carentes, para tentar ajudar no que eu puder."

A preocupação com a qualidade de vida é manifesta como necessidade de horários flexíveis de trabalho, condição econômica para manter a família e possibilidade de conciliar família e profissão:

"[...] possibilidade de ser remunerada de forma justa, flexibilidade com os horários de trabalho. Quero ser mãe e ter tempo de educar meus filhos e participar da vida deles, então eu quero uma especialidade que me possibilite isso." (Nº 3)

DISCUSSÃO

Este estudo tem várias limitações: foi um estudo transversal, realizado com uma única turma; as questões apresentadas foram dissertativas, e o grau de envolvimento com a resposta dependeu de cada estudante. Embora o percentual de respondentes tenha sido significativo, não se pode dizer que aqueles que não responderam tenham opiniões semelhantes.

A Opção pela Medicina

Uma estudante comentou oralmente que eles estariam fugindo da pesquisa em virtude da dificuldade encontrada em responder à pergunta sobre a opção pela medicina. Esse fato é relatado por ser muito significativo, sugerindo a importância de que mecanismos inconscientes estejam fortemente envolvidos na escolha, o que já foi bastante estudado1-4. Sabe-se que, muitas vezes, a escolha da profissão não é clara para o próprio sujeito.

Em relação aos fatores explicitados pelos estudantes e ao que foi encontrado na literatura, o que mais chamou a atenção foi o fato de empregabilidade ou inserção no mercado de trabalho e possibilidade de bons salários terem sido fatores muito frequentes, embora não únicos, para a maioria dos estudantes. A ausência da explicitação destes fatores pelos estudantes em estudo anterior, realizado na mesma escola médica, chamou a atenção dos autores. Para Ferreira et al., o desprezo pelo mercado poderia ser explicado pela falta de preocupações econômicas imediatas de grande parte dos estudantes, que ainda estariam sob a proteção de famílias de bom padrão socioeconômico5. No momento atual, apesar das dificuldades relatadas pelos médicos em relação às condições de trabalho e salários, a medicina é uma profissão que ainda detém status social e onde não falta trabalho. Não se fez um levantamento socioeconômico dos estudantes que responderam à pesquisa, mas estudo recente na mesma faculdade mostrou que 45% deles têm renda familiar abaixo de 20 salários mínimos mensais13. Esses fatos, aliados às necessidades de consumo crescentes na sociedade atual e ao menor escrúpulo em relação ao sucesso financeiro, poderiam explicar a explicitação desses fatores antes não mencionados como determinantes, mesmo que parciais, da opção pela medicina. Os demais motivos estão em concordância com os achados da literatura1-5, sendo o altruísmo o fator mais frequente, seguido de curiosidade científica, influência de terceiros, principalmente familiares, e motivação precoce, aqui chamada de fantasia ou sonho e na qual possivelmente estaria envolvido muito do inconsciente.

Os Planos para o Futuro

Com relação aos planos para o futuro, embora ainda indefinidos para boa parte dos estudantes, o que seria esperado nessa fase do curso, é possível perceber a especialização como meta e a pressão da seleção para a residência médica. A residência médica como um fim em si tem sido considerada um problema para as escolas médicas e os próprios estudantes. Como observado, já se mostra no início do ciclo profissional como fonte de angústia e de direcionamento do que é mais importante fazer ao longo do curso médico, constituindo importante determinante do currículo paralelo do estudante. Esta tendência não é nova e foi observada em estudos anteriores realizados na mesma escola médica5.

O altruísmo permanece para alguns estudantes e se traduz em atitudes que são esperadas nessa fase.

A atenção primária em saúde ainda é vista como uma forma de trabalho temporário, o que pode estar relacionado com a expectativa econômica e de qualidade de vida. Ainda há uma crença de que nas especialidades médicas a renda é maior6,8 e que há maior possibilidade de administrar o próprio trabalho, compatibilizando profissão e qualidade de vida. Alia-se a isso a crença de que é mais fácil e menos trabalhoso se manter atualizado numa especialidade ou subespecialidade do que em medicina geral e a valorização da tecnologia, do domínio do especialista, que é muito forte e vinculada a maior poder, tanto entre os leigos quanto entre os próprios profissionais, e é percebida como capaz de gerar maior retorno financeiro. Trabalho realizado por Shadbolt et al. na Austrália revelou que a progressão na carreira, a promoção e o reconhecimento de excelência são altamente valorizados pelos médicos e não são associados ao exercício da prática generalista10. No Brasil, esse é um fato que possivelmente se repete, aliado a certa insegurança na escolha da opção pela atenção primária, também descrita na literatura11.

CONCLUSÃO

Verificou-se que a motivação para a escolha da profissão é complexa e envolve fatores conscientes e inconscientes. Entre os fatores conscientes, a explicitação de empregabilidade e da possibilidade de bons salários entre os motivos mais frequentes para a escolha foi o aspecto no qual diferiram os resultados deste e dos demais trabalhos publicados sobre o tema. Em relação aos planos para o futuro, foi possível confirmar o desejo de especialização já no início do ciclo profissional, em concordância com a literatura.

  • Endereço para correspondência:
    Maria Mônica Freitas Ribeiro
    Rua Ouro Fino, 215 apto. 801
    Cruzeiro -Belo Horizonte
    CEP. 30310-110 MG
    E-mail:
  • Recebido em: 09/06/2010

    Reencaminhado em: 30/11/2010

    Aprovado em: 27/04/2011

    CONFLITO DE INTEREESSES

    Declarou não haver.

    CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES

    Maria Mônica F. Ribeiro elaborou o projeto de pesquisa, participou da aplicação das questões aos estudantes, orientou e participou da análise dos dados e redigiu o artigo. Sebastião S. Leal elaborou o projeto de pesquisa, participou da aplicação das questões aos estudantes, orientou e participou da análise dos dados e contribuiu para a redação do artigo. Flávia Cristina Diamantino e Hellen de Andrade Bianchi participaram da aplicação das questões aos estudantes, da análise dos resultados e contribuíram na redação do artigo.

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    Endereço para correspondência: Maria Mônica Freitas Ribeiro Rua Ouro Fino, 215 apto. 801 Cruzeiro -Belo Horizonte CEP. 30310-110 MG E-mail: mmonica@medicina.ufmg.br

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      29 Ago 2011
    • Data do Fascículo
      Set 2011

    Histórico

    • Recebido
      09 Jun 2010
    • Aceito
      27 Abr 2011
    Associação Brasileira de Educação Médica SCN - QD 02 - BL D - Torre A - Salas 1021 e 1023 | Asa Norte, Brasília | DF | CEP: 70712-903, Tel: (61) 3024-9978 / 3024-8013, Fax: +55 21 2260-6662 - Brasília - DF - Brazil
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