Carta por um Intercâmbio entre Cientistas da Cognição

Victor Emmanuel Jacono Sobre o autor

ABSTRACT

This short essay, written from the point of view of a young theatre maker, pedagogue, and scholar, is presented in the spirit of a letter, addressed primarily at theatre artists and scholars to question their role of scientists in the growing exchange between theatre and neurosciences. In particular the essay highlights the importance of science in a theatre tradition based on the actor's pedagogy, and posits such a tradition as an example of research from which theatre makers could engage in a deep exchange between scientists of cognition.

Keywords:
Theatre; Pedagogy; Science; Cognition; Epistemology

RÉSUMÉ

Ce court essai, écrit du point de vue d'un jeune performer, pédagogue et chercheur, est présenté dans l'esprit d'une lettre, adressée principalement aux artistes et chercheurs du théâtre, à s'interroger sur leur rôle des scientifiques dans l'échange croissant entre théâtre et neurosciences. En particulier, l'essai met en évidence l'importance de la science dans une tradition théâtrale basée sur la pédagogie de l'acteur et postule une telle tradition comme un exemple de recherche, à partir de laquelle gens du théâtre pourraient s'engager dans un échange profond entre scientifiques de la cognition.

Mots-clés:
Théâtre; Pédagogie; Science; Cognition; Épistémologie

RESUMO

Este breve ensaio, escrito do ponto de vista de um jovem realizador teatral, pedagogo e estudioso é apresentado com o espírito de uma carta, endereçada fundamentalmente a artistas e estudiosos do teatro para questionar seu papel como cientistas no crescente intercâmbio entre teatro e neurociência. Particularmente, este ensaio destaca a importância da ciência em uma tradição teatral embasada na pedagogia do ator e propõe essa tradição como um exemplo de pesquisa a partir da qual os realizadores teatrais poderiam se engajar em um intercâmbio profundo entre cientistas da cognição.

Palavras-chave:
Teatro; Pedagogia; Ciência; Cognição; Epistemologia

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  • 1
    Este ensaio é uma versão ampliada de uma comunicação intitulada Le Neuroscienze e la Pedagogia dell'Attore , apresentada durante a Quinta Conferência Internacional de Dialogues between Theatre and Neuroscience, realizada na Universidade de Roma "La Sapienza" em junho de 2013.
  • 2
    N.T.: em italiano no original. Em português, significa carta.
  • 3
    N.T.: em latim no original.
  • 4
    Na lettera de Taviani, pode-se reconhecer a proximidade epistemológica da Antropologia Teatral de Barba com o pensamento do antropólogo Gregory Bateson, que posicionou a metáfora e a recorrência de padrão no centro de sua epistemologia (Bateson; Bateson, 2005). Para uma comparação entre a Antropologia Teatral de Barba e a epistemologia cibernética de Bateson, ver Towards a Cybernetic Understanding of "the Performer's Work upon Himself" (Jacono, 2004, monografia de graduação inédita).
  • 5
    Para ser preciso, a crítica de Sokal e Bricmont, como foi indicado no subtítulo de sua publicação de 1998, aborda exemplos particulares do abuso da ciência por intelectuais pós-modernos, embora não procure dissipar a validade geral do pensamento pós-moderno. Mesmo assim, o livro de Sokal e Bricmont provocou muita controvérsia por conta de ser percebido como um ataque ao pós-modernismo como um todo, uma questão que, contudo, fica além do escopo da presente discussão.
  • 6
    De fato, acusações de cienticismo/reducionismo e relativismo/misticismo continuam a circular na divisão arte-ciência, com alguns defendendo que o intercâmbio entre os dois campos é impossível devido a diferenças epistemológicas fundamentais. Outros, entretanto, defenderam enfaticamente, por muito tempo, o intercâmbio e as influências mútuas para se contraporem à imagem fragmentária da condição humana causada pelo crescimento da especialização (Walker, 1964; Bohm; Peat, 1987; Lehrer, 2008).
  • 7
    Mesmo fora da esfera do criticismo pós-moderno, filósofos da ciência como Alan F. Chalmers (1999) e Samir Okasha (2002) parecem concordar que, não obstante o status social do qual desfruta, "{...} a ciência é uma atividade heterogênea, abrangendo uma vasta gama de disciplinas e teorias diferentes. Pode ser que compartilhem de algum conjunto fixo de características que definem o que é ser uma ciência, mas {...} é improvável que se encontre um critério simples para diferenciar a ciência da pseudo-ciência" (Okasha, 2002, p. 16-17).
  • 8
    Para uma discussão sobre a subjetividade e a relacionalidade da pesquisa científica, ver a importante publicação interdisciplinar do físico Ilya Prigogine e da filósofa Isabelle Stengers, La Nuova Alleanza: metamorfosi della scienza (1999).
  • 9
    Embora eu saiba que pedagogia é um termo carregado e que foi abordada por diferentes perspectivas sociológicas, aqui está sendo estritamente definida de acordo com o foco dos estudos de Cruciani, isto é, como um processo de crescimento criativo a que o ator, como ser humano individual, submete-se autônoma e cientificamente.
  • 10
    Ver Performer Knowledge and Science (Jacono, 2012), que se baseia particularmente nas pesquisas em processos performativos de Jerzy Grotowski (2001), e a neurobiologia de Humberto Maturana e Francisco Varela (1998) para relacionar o conceito de conhecimento com ser e ação. Crescente importância foi dada à centralidade da ação para a cognição em estudos recentes em neurociência cognitiva (Rizzolatti; Sinigaglia, 2006; 2010; 2011; Berthoz; Petit, 2008).
  • 11
    Autopoiese, de acordo com Maturana e Varela, é o que verdadeiramente caracteriza os seres vivos: uma organização que permite que se produzam continuamente, isto é, renovem as estruturas dinâmicas que são - uma teoria biológica que concilia identidade e mudança. Devido a essa organização biológica, os seres vivos comportam-se como sistemas fechados, pelo fato de que as mudanças internas podem ser provocadas por perturbações externas, mas são determinados unicamente por estruturas internas. O que permite a comunicação entre tais sistemas operacionalmente fechados é o acoplamento estrutural: "O sistema nervoso e o organismo inteiro podem ser fechados, mas se tiverem uma estrutura plástica que se modifique no curso das interações a que são submetidos, então pode se desenrolar uma história de relações que não se cruzem com a dinâmica interna do sistema nervoso ou do organismo (e vice-versa)" (Maturana; Poerksen, 2002, p. 85). Uma discussão mais elaborada desses tópicos pode ser encontrada em Relationships, Transmisson, Improvisation (Jacono, 2011) e na tese de doutorado inédita Questioning how Knowledge Acts: the relationship between the performer's pedagogy and cognitive neuroscience (Jacono, 2012). A tese se refere especialmente aos princípios pedagógicos de Stanislavski e Copeau e compara a ideia socrática de aprendizagem como uma forma de recordar (em Meno de Platão) às teorias propostas por Grotowski (2001, p. 379) e o neurocientista colombiano Rodolfo R. Llinás (2002, p. 176).
  • 12
    Ver Whyman (2008) e a tese de doutorado inédita de Gabriele Sofia, La Relazione Attore-spettatore. Storia, ipotesi e sperimentazioni per lo studio del livello neurobiologico (2011), particularmente a primeira parte dedicada a uma revisão geral histórica das relações entre o teatro e as ciências do cérebro.
  • 13
    Cruciani fornece uma explanação articulada desse fenômeno em uma conferência em mesa-redonda com Franco Perrelli intitulada Attore: c'è qual' cosa di sbagliato nelle pedagogie del '900?. A conferência foi realizada em Lecce em 3 de dezembro de 1986, dentro do ciclo de seminários Paesaggi, Passaggi, Deliri Teatrali del Primo Novecento, organizado por Astragali Teatro. Uma transcrição inédita da conferência por Serena Stifani, revisada por Victor Jacono e Clelia Falletti, é mantida nos arquivos de Astragali Teatro (Lecce). Ver também Jacono (2012).
  • 14
    Novamente, alguns podem achar que a comparação de ciência com mitologia de Barba seja uma exceção (Sokal; Bricmont, 1998, p. 1). Mesmo assim, na minha opinião, aqui Barba não está tentando desvalorizar a ciência. Inteiramente ciente do ceticismo com o qual a comunidade de artistas e de estudiosos do teatro em geral considera as ciências e da influência positiva que as ciências, não obstante, tiveram sobre seu próprio trabalho, parece-me que ele, ao contrário, está adotando uma estratégia sutil para construir uma ponte sobre a divisão, à vista da importante, embora desafiadora contribuição de Sofia aos estudos do teatro.
  • 15
    Definição retirada dos Oxford Dictionaries on-line. Disponível em: <http://www.oxforddictionaries.com/definition/english/theory?q=theory>. Acesso em: 17 fev. 2014.
  • 16
    Neste sentido, é interessante conhecer a observação de Albert Einstein de que "{...} a maneira científica de formar conceitos difere daquela que usamos em nossa vida diária, não basicamente, mas meramente na definição mais precisa dos conceitos e das conclusões; escolha mais meticulosa e sistemática do material experimental; e maior economia lógica" (Einstein, 1940, p. 487).
  • 17
    A observação do Dr. Chambers é citada na revisão de James Gallagher na BBC News Health, Brain 'Rejects Negative Thoughts', 09 out. 2011. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/news/health-15214080>. Acesso em: 01 fev. 2014.
  • 18
    A publicação foi feita pelo Centro de Pesquisa e Inovação Educacional (CERI) da Organização Internacional para Cooperação e Desenvolvimento Econômicos (OECD).
  • 19
    Ver particularmente a coleção de artigos publicados em Educational Philosophy and Theory, v. 43, n. 1, 2011.
  • 20
    Um exemplo, documentado por Sofia (2013, p. 83), é ilustrado nas discussões que ocorreram entre realizadores teatrais e estudiosos participantes do projeto EMA-PS e os neurocientistas Giacomo Rizzolatti e Maria Alessandra Umiltà, durante as conferências internacionais realizadas em Malta em 2005 e 2006. Para ilustrar os trabalhos do mecanismo espelho, Umiltà e Rizzolatti apresentaram um experimento testando a ativação motora no cérebro do macaco do gênero macaca enquanto o animal observava um experimentador segurar um objeto escondido atrás de uma tela. A atividade do neurônio espelho alcançou seu pico quando o experimentador realmente agarrou o objeto, mas não chegou ao máximo quando o experimentador simplesmente simulou agarrar um objeto que não estava ali. A partir de seu conhecimento da capacidade de um ator treinado para representar convincentemente a dinâmica de uma ação mesmo em mímica (isto é, a dinâmica de agarrar também na ausência do objeto sendo agarrado), os pesquisadores teatrais não puderam deixar de especular que, caso o experimentador tivesse sido um ator treinado imitando a ação de agarrar, a atividade do neurônio espelho do macaco provavelmente teria chegado ao pico mesmo na ausência do objeto atrás da tela. Não somente os neurocientistas consideraram a relevância de tal observação, mas, como foi observado por Sofia (2013, p. 90), também começaram a empregar atores treinados em protocolos experimentais similares.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Ago 2014

Histórico

  • Recebido
    10 Set 2013
  • Aceito
    21 Jan 2014
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