Open-access Do Canto das Sereias ao Barulho das Sirenes

Du Chant des Sirènes au son des Sirènes

RESUMO

Do Canto das Sereias ao Barulho das Sirenes – O objetivo do texto é explorar as transformações conceituais e culturais da voz, a partir das possíveis relações entre o relato clássico do canto das sereias e o advento moderno das sirenes, artefatos usados principalmente para alertar populações da iminência de desastres. A hipótese é de que tanto no relato tradicional das sereias, como na concepção técnica das sirenes, há uma desvalorização da sonoridade em favor do discurso. Por fim, são sugeridas algumas maneiras de ressignificar o canto das sereias a partir de uma matriz conceitual que evite a oposição hierárquica entre sentido e sentidos.

Palavras-chave:
Voz; Corpo; Tecnologia; Barulho; Linguagem

ABSTRACT

From the “Siren’s Song” to the Noise of Sirens – The aim of this essay is to explore the conceptual and cultural transformations of the voice, based on the possible relations between the classic account of the sirens’ song and the modern advent of sirens, artifacts used mainly to warn populations of imminent disasters. The hypothesis is that both in the traditional account of the sirens/mermaids and in the technical conception of sirens there is a devaluation of sound in favor of speech. Finally, some ways of re-signifying the sirens’ song are suggested, based on a conceptual matrix that avoid the hierarchical opposition between meaning and senses.

Keywords:
Voice; Body; Technology; Noise; Language

RESUMÉ

Du Chant des Sirènes au son des Sirènes – L’article porte sur les transformations conceptuelles et culturelles de la voix, à partir d’une mise en regard entre le récit classique du chant des sirènes et l’avènement moderne des sirènes, artefacts utilisés principalement pour avertir les populations d’un danger imminent. L’hypothèse est que tant dans le récit traditionnel des sirènes que dans la conception technique des sirènes s’opère une dévalorisation du son au profit de la parole. Enfin, des pistes sont proposées pour resignifier le chant des sirènes, sur la base d’une matrice conceptuelle qui tente d’éviter l’opposition hiérarchique entre le sens et les sens.

Mots-clés:
Voix; Corps; Technologie; Bruit; Discours

Trata-se de uma velha superstição filosófica,
a de que toda música é música de sereias
(Nietzsche, 2001, A Gaia Ciência [1887], § 372)1.

I. Introdução: Metafísicas da voz

A lenda das sereias sempre me intrigou, mas foi em um grupo de estudos sobre Voz e Tecnologia, realizado de modo remoto na UNIRIO durante a pandemia, em cooperação com a Profa. Dra. Ana Wegner (Poitiers/França), que esbarrei por acaso no parentesco etimológico entre as “sereias” e as “sirenes”. Em francês e em alemão, essa semelhança é mais óbvia, já que é usada a mesma palavra para descrever tanto as figuras mitológicas como os objetos técnicos sonoros. Em português, a associação não é tão imediata. Logo me veio a seguinte curiosidade: o que aconteceu, da antiguidade à contemporaneidade, para que o belo canto sedutor das sereias se transformasse em um barulho ameaçador de alarme? Quais as possíveis relações entre as figuras arcaicas e as tecnologias de alerta da modernidade?

Figura 1
Placa de Perigo.

A presente reflexão é uma tentativa de acompanhar algumas dessas transformações conceituais e culturais. Minha hipótese é de que, apesar de parecerem opostos (canto x barulho; encantamento x perturbação; atração x repulsão), há talvez, entre as sereias e as sirenes, a mesma lógica de suspeita em relação à voz. Trata-se de uma lógica muito antiga, que eu chamo de Metafísicas da Voz, ou seja, uma associação da sonoridade vocal com a dimensão da animalidade, do feminino, do corpo, da natureza em geral, enfim, com aquilo que pertence ao campo do pré-racional. Nessas “metafísicas”, a voz só tem valor enquanto suporte para o discurso. Aquilo que a voz diz é muito mais importante do que “como” ela soa. A voz que canta, ainda que seja capaz de expressar beleza e harmonia, está sujeita à mesma desconfiança, principalmente quando entoa cantos sem palavras.

Gostaria de sugerir que as antigas desconfianças geradas pelas metafísicas da voz continuam atuando, mesmo que de forma oculta, no nosso “admirável mundo novo” das tecnologias analógicas ou digitais. Para realizar essa tarefa, sigo aqui a metodologia da filosofia pop: reconhecer binarismos hierárquicos na cultura ocidental (versões), identificar as tentativas de escapar dessas dualidades através de uma mera reversão dos polos opostos (inversões) e buscar mais e melhores maneiras de se desprender da lógica dual (transversões)2. O objetivo principal, portanto, é a pergunta se é possível e como transverter o canto das sereias para além dos binarismos hierárquicos das “metafísicas da voz”.

II. A Imagem das Sereias (Versões I)

Na nossa cultura ocidental, atuam várias dicotomias de valores que estabelecem hierarquias entre os pares opostos, como ser x devir, mente x corpo, sujeito x objeto, mesmo x outro, indivíduo x sociedade, homem x animal, masculino x feminino etc. Essas dicotomias podem se manifestar como “versões” ou “inversões”. As versões são as hierarquias binárias mais usuais, que costumam valorizar o idêntico em prejuízo do diferente, do tipo “a razão é um guia mais seguro do que as paixões” ou “a cultura é mais elevada do que a natureza”. A meu ver, tanto a representação da aparência das sereias como as interpretações dominantes do seu canto estão contaminadas por uma “versão” estrutural, a saber, a oposição hierárquica entre sentido (razão, discurso, significado) e sentidos (corpo, afetos, desejos).

Homero não descreve seu aspecto, mas, na literatura grega, as sereias costumavam ser retratadas como metade mulheres e metade aves de rapina. Na obra célebre de Apolônio de Rodes, intitulada Argonáuticas (III. a.C.), mais especificamente no Livro IV, as sereias, filhas do deus-rio Aquelou e da musa Terpsícore, habitantes de uma bela ilha, são descritas como tendo: “um aspecto semelhante parte às aves e parte às virgens e, sempre em emboscada sobre um penhasco com bom ancoradouro, muitas vezes furtaram o doce retorno de muitos consumindo-os em prostração” (Apolônio de Rodes, 2021, p. 905). Algo parecido acontece no Livro V do poema épico Metamorfoses, de Ovídio (43 a.C.-18 d.C.), no qual Ulisses as questiona: “mas, vós, filhas de Aquelou, de onde vieram as vossas penas e patas de ave, quando tendes o rosto de donzelas?” (Ovídio, 1991, p. 99). Essas representações literárias também são encontradas na iconografia antiga.

Figura 2
Ulisses amarrado no mastro do navio. Detalhe de vaso ático, de 480-470 a.C.

Com o passar do tempo, no processo de transição do mundo grego ao romano, a imagem das sereias começou a mudar. Elas passaram a ser representadas como metade mulheres e metade peixes, uma imagem que se tornou amplamente popularizada e é a mais reconhecida hoje em dia. Não se sabe muito bem como se deu essa transformação do elemento ar para o elemento mar, pode ter havido uma confusão entre a imagem das sereias com as harpias (monstros com corpo de ave e cabeça feminina) ou os tritões (seres também mitológicos, metade homens e metade peixes).

Segundo os historiadores da iconografia medieval, é provavelmente entre os séculos VIII–IX que a transição da versão alada para a pisciforme começa se consolidar. No Brasil, por exemplo, temos a figura da Iara, uma sereia indígena que habita os rios e encanta os homens com sua beleza e canto. Em todas essas histórias, parece se repetir uma estrutura básica, de um ser híbrido, metade animal, metade mulher, que habita os mares e seduz os marinheiros com sua beleza. Provavelmente a figura de Iara é um hibridismo de histórias ancestrais de origem ameríndia com as tradições grecoeuropeias trazidas pelos colonizadores portugueses. Câmara Cascudo, no livro Geografia dos Mitos Brasileiros, de 1947, afirma que “Mãe-dÁgua, Iaras, botos don-juan, são somas de estórias das Europa e África convergidas para objetos que despertaram a curiosidade pela anormalidade dos costumes. [...] A Iara é europeia. O índio não a conheceu outrora” (Cascudo, 1947, p. 141).

Figura 3
O Pulo de Indaiá (2021), xilografia da artista e performer amazonense Dani Mirini.

Existem também representações das sereias com a cauda em pé, em caracol ou bifurcada, às vezes até portando instrumentos musicais para enfatizar a maviosidade do seu canto. Poderíamos dizer que talvez as representações das sereias-peixe tendem a evocar muito mais o aspecto da sensualidade, ou seja, muito mais a perspectiva dos marujos desavisados, do que aquela de Circe, que as descrevia como monstros, em uma sutil passagem da sedução auditiva para a visual. Percebe-se também uma tendência ambígua de usar a imagem das sereias como uma alegoria moralizante3 e, ao mesmo tempo, como uma estratégia sorrateira de expor e objetificar a nudez feminina. De qualquer maneira, tanto na representação clássica como na medieval, o importante é que as sereias são “seres do entre”, híbridos, existindo na fronteira entre humano e não humano.

Por fim, parece que, na modernidade e na contemporaneidade, as sereias são cada vez mais frequentemente retratadas como mulheres inteiras, ainda que com a capacidade de se transformar na sua aparência híbrida quando entram em contato com a água. Essa imagem é popular em muitas obras de arte tradicionais, tal como As Sereias e Ulisses (1837), uma pintura a óleo sobre tela de grande dimensão do artista inglês William Etty (1787– 1849)4, mas também em filmes e programas de televisão modernos, como por exemplo na série Siren – A Lenda das Sereias.

Embora tradicionalmente as sereias sejam ilustradas como monstros, parte humana e parte animal, Etty pintou-as como jovens mulheres nuas, numa ilha cheia de corpos em decomposição, como se fora da água não precisassem revelar sua verdadeira forma.

Figura 4
As Sereias e Ulisses (1837) de William Etty.

Figura 5
A sereia Ryn é interpretada pela atriz Eline Powell na série norte-americana Siren (Siren – A Lenda das Sereias), que estreou em 29 de março de 2018.

A meu ver, essa evolução, dos monstros alados aos pisciformes, daí até às femmes fatales, reflete não necessariamente uma mudança significativa das percepções culturais e sociais ao longo do tempo, mas apenas um movimento de fluxo e de refluxo das mesmas “metafísicas da voz”, que se caracterizam pelo constante desprezo pela materialidade da voz, especialmente a feminina, que não apenas expressa como também reativa a dimensão irracional da existência: as paixões, os desejos, os sentidos.

III. O Canto das Sereias (Versões II)

A expressão “o canto das sereias” se tornou um lugar comum em todas as áreas da cultura, desde As Ciências Humanas até as Ciências Naturais, sendo utilizada tanto no cotidiano quanto em contextos econômicos e políticos. Ao contrário do que se poderia imaginar, essa metáfora não aparece somente em textos moralistas, mas permeia uma ampla gama de campos. Uma pesquisa no Google revela milhares de artigos que evocam essa metáfora, seja no campo da neurocirurgia, da botânica ou da engenharia genética5. Trata-se de um lembrete de que as aparências enganam, de que os prazeres imediatos são arriscados e de que ações impulsivas podem ter consequências duradouras.

A fonte mais importante desses clichês é o famoso Livro XII da Odisseia, de Homero, quando Ulisses é avisado pela feiticeira Circe de que as sereias, a despeito de suas vozes melodiosas, eram na verdade monstros devoradores de humanos:

Tudo isso foi assim completado; agora ouve como te digo, e o próprio deus te lembrará. Primeiro alcançarás as sereias, elas que a todos os homens enfeitiçam, todo que as alcançar. Aquele que se achegar na ignorância e escutar o som das sereias, para ele mulher e crianças pequenas não mais aparecerão nem rejubilarão com seu retorno à casa, pois as sereias com canto agudo o enfeitiçam, sentadas no prado, tendo ao redor monte de putrefatos ossos de varões e suas peles ressequidas (Homero, 2014, p. 253).

Observe que Homero enriquece a cena com uma descrição macabra de corpos em decomposição. Uma das etimologias propostas pelos eruditos para “sereia” é uma suposta relação com o termo grego sereines, que significaria imediatamente o processo de putrefação (cf. Schrader, 1868, p. 14). As sereias costumavam ser associadas a uma atmosfera fúnebre das tumbas e cemitérios. Com certeza a sedução das sereias na versão homérica se articulava muito mais de forma auditiva do que visual, os marinheiros que ouviam seu canto provavelmente imaginavam uma cena muito mais agradável do que de fato tinham acesso. Por sugestão de Circe, o herói tapa os ouvidos da tripulação com cera, enquanto ele próprio, cedendo à curiosidade, é amarrado ao mastro do navio para ouvi-las, mas sem correr o risco de se entregar à sua armadilha. Dessa forma, Ulisses e sua tripulação conseguiram passar pelas sereias ilesos, derrotando as predadoras.

Qual é, portanto, a interpretação tradicional da versão de Homero? A voz que canta encanta pela evocação da carne, do corpo, da sexualidade, sem que qualquer raciocínio pareça estar sendo comunicado. Na verdade, a voz que canta encanta justamente por suspender toda e qualquer significação, tanto de quem canta, como para quem escuta. As sereias representam a doce voz do sensorial, do sensível e do sensual, em detrimento do inteligível e do moral. Ao contrário das musas que narram histórias através de seus cantos, inspirando mais e melhores narrativas, as sereias, pelo menos na recepção tradicional de Homero, encantam sempre de forma inarticulada. Como enfatiza a filósofa italiana Ana Cavarero (1947-) no seu livro A più voci: Per una filosofia dell’espressione vocale [A várias vozes: Para uma filosofia da expressão vocal]: “Circe não adverte contra o conteúdo verbal do canto das sereias” (Cavarero, 2011, p. 104). O drama se passa apenas de forma acústica, quer dizer, passiva, sem intermediação da razão e de suas atividades.

Embora a expressão “canto das sereias” seja, portanto, usada comumente para descrever um discurso sedutor, sua recepção como “pura voz sem palavras” é que constitui o aspecto mais insidioso das “metafísicas da voz”, que atravessam toda a história da Filosofia, com algumas honrosas exceções6. O ápice dessa “versão” oficial encontra-se no livro Dialética do Esclarecimento, escrito por Adorno e Horkheimer em 1944, cuja ideia central é usar o canto das sereias como uma alegoria para ilustrar a racionalidade instrumental que domina a modernidade:

Ele [Ulisses] tapa seus ouvidos com cera e obriga-os a remar com todas as forças de seus músculos. Quem quiser vencer a provação não deve prestar ouvidos ao chamado sedutor do irrecuperável e só o conseguirá se conseguir não ouvi-lo. Disso a civilização sempre cuidou. Alertas e concentrados, os trabalhadores têm que olhar para frente e esquecer o que foi posto de lado (Adorno; Horkheimer, 1985, p. 43).

Adorno e Horkheimer argumentam que, assim como Ulisses tapou os ouvidos de seus marinheiros para evitar que fossem seduzidos pelo canto das sereias, a sociedade moderna suprime os impulsos e desejos naturais em nome da razão e do progresso: “A essência do esclarecimento é a alternativa que torna inevitável a dominação. Os homens sempre tiveram de escolher entre submeter-se à natureza ou submeter a natureza ao eu” (Adorno; Horkheimer, 1985, p. 41). O canto das sereias representa a tentação de abandonar a racionalidade e se entregar aos prazeres imediatos, mas a humanidade, assim como Ulisses, resiste a essa tentação em nome de objetivos maiores: “O esforço para manter a coesão do ego marca o ser humano em todas as suas fases e a tentação de perdê-lo jamais deixou de acompanhar a determinação cega de conservá-lo” (Adorno; Horkheimer, 1985, p. 43).

A interpretação de Adorno e Horkheimer parece sugerir que é estrutural à história do ser humano o conflito entre o desejo de prazeres imediatos versus a necessidade de protelar esses desejos em prol da sobrevivência. Além disso, os autores argumentam também que essa supressão dos impulsos naturais, levada às últimas consequências, pode gerar também uma sociedade alienada de si mesmo. Embora o uso de termos modernos como “ego” e “sujeito” seja anacrônico em relação à antiguidade clássica, é admirável como esses teóricos de Frankfurt conseguem levantar questões fundamentais da era contemporânea a partir de um material comumente relegado como irracional pela filosofia: os mitos. A única ressalva é que Adorno e Horkheimer permanecem presos às “metafísicas da voz”, esse esquema logocêntrico que reduz a voz, especialmente a feminina, ao campo da insensatez. A Dialética do Esclarecimento só escuta o canto das sereias como pura voz sem significação, uma voz natural, animal, corporal, feminina, portanto despida de toda e qualquer racionalidade. Não há aí nenhuma possibilidade de transverter a metafísica da voz em nome de um “pensamento vocal” ou uma “vocalidade pensante”. É justamente enquanto “pura voz sem racionalidade” que o canto das sereias se assemelha com o som emitido pelos aparatos das sirenes, só que agora não mais para atrair, mas sim para afastar aqueles que o ouvem.

IV. O Barulho das Sirenes (Inversões)

Inversões, no método da filosofia pop, são as diferentes tentativas históricas de superar as hierarquias tradicionais dos opostos, seja pela reação ou pela simples troca dos polos. Inversões têm a possibilidade de desestabilizar as hierarquias, como quando se afirma: “não pense demais” ou “só os afetos salvam”. As inversões trazem também o perigo de prolongar e até de intensificar as dicotomias hierárquicas ao se apegar ao gesto reativo de pura defesa dos contrários. Um exercício de inversão visual das sereias é o quadro de Magritte Collective Invention (1934), que mostra um ser híbrido jogado pelas ondas na areia da praia. Trata-se de um monstro, metade peixe e metade mulher, só que, ao contrário da representação usual, a metade peixe é o dorso superior, a metade feminina é a inferior7.

O quadro permite muitas interpretações, pode ser tanto uma denúncia da objetificação do corpo feminino nas artes plásticas, como também o ápice dessa objetificação levada a cabo pelo movimento surrealista. Um outro exemplo de inversão, dessa vez de gêneros, talvez seja a lenda do boto corde-rosa, originária da região amazônica. Conta-se que esse ser mágico, um golfinho de água doce, transforma-se em um belo jovem nas noites de festa, especialmente durante as celebrações juninas. Vestido de branco e usando um chapéu para esconder o respiro em sua cabeça, o boto seduz mulheres, levando-as para o fundo das águas e, muitas vezes, deixando-as grávidas. Ao amanhecer, retorna à sua forma original, deixando apenas o mistério e a magia em seu rastro. Essa história fala também de sedução, mas embaralha os papéis de masculino e feminino, ativo e passivo, funcionando até mesmo talvez como um álibi para as mães solteiras da região contra o moralismo do patriarcado vigente8.

As sirenes, como aparatos técnicos, talvez sejam outra forma de inversão das sereias, nesse caso através de um estratagema acústico. Tais artefatos sonoros produzem um barulho estridente, em relação ao qual queremos normalmente manter distância, e parecem constituir um perfeito antípoda à maviosa voz das sereias. O uso de “barulhos” em geral, entendidos aqui como sons desordenados ou excessivos, para comunicação, expressão de emoções e alerta de perigos é corriqueiro desde os tempos pré-históricos9. O barulho das sirenes se tornou ubíquo no século XX em escolas, prisões e fábricas para demarcar os horários da rotina diária. Ainda hoje faz parte da paisagem sonora urbana seu uso por ambulâncias ou carros de polícia, para que os carros deem passagem ao seu tráfego.

O funcionamento das sirenes é baseado na interrupção do fluxo de ar entre os furos de um cilindro e um disco rotativo, o que provoca redemoinhos acústicos que geram o característico “uivo” da sirene. A altura do som depende da velocidade de rotação. Apesar de ser um objeto técnico, a história da invenção das sirenes tem em comum com a mitologia das sereias o fato de apresentar muitas variações. Segundo o físico Robert Beyer (1920-2008), renomado pesquisador em acústica, autor do clássico livro Sounds of Our Times (two hundred years of acoustics), de 1999, o protótipo original foi desenvolvido em 1799 pelo filósofo naturalista escoces John Robison (1739-1805). Esse teria sido o primeiro uso de uma fonte sonora controlável através de uma espécie de torneira e talvez a primeira sirene da história.

O objeto só teria sido batizado de “sirene” cerca de 20 anos depois pelo engenheiro francês Charles Cagniard de La Tour (1777-1859), que aperfeiçoou o sistema. Ele preparou dois discos, cada um perfurado com buracos igualmente espaçados que formavam um círculo concêntrico (cf. Beyer, 1999, p. 30). É interessante observar que La Tour, em um artigo de 1819 sobre sua invenção, intitulado Sur la Sirène, nouvelle machine d'acoustique destinée à mesurer les vibrations de l'air qui contient la son [Sobre a sirene, uma nova máquina acústica projetada para medir as vibrações do ar que contém o som], explica que nomeou o objeto em homenagem às sereias, porque funcionaria tanto com a passagem do ar como da água: “Se se fizer passar água em vez de ar, também produz som, mesmo quando está completamente imerso neste fluido e o mesmo número de choques produz as mesmas notas que o ar. É devido a esta propriedade de ser sonoro na água que pensei poder dar-lhe o nome pelo qual é designado” (La Tour, 1819, p. 171). A ideia não era ainda usá-las como sistemas de alarme, mas desenvolver novas formas de produção mecânica de sons.

Figura 6
Protótipos de sirenes.

Até a Segunda Guerra Mundial, os sinos das igrejas eram o sinal de emergência mais comum. Entretanto, com a crescente urbanização, aos poucos ampliou-se o uso das sirenes. O problema é que os modelos mecânicos tradicionais só podiam gerar sempre o mesmo tipo de aviso sonoro, variando entre um ou dois tons, em relação a vários tipos de perigo. As sirenes eletrônicas surgiram da necessidade de disseminar avisos mais complexos para uma variedade de ameaças. Essas sirenes são tipicamente omnidirecionais, podendo produzir um número infinito de tons e até mesmo tocar mensagens pré-gravadas de advertência que fornecem instruções mais detalhadas à população. Ambos os tipos de sirenes são usados hoje e ambos têm os seus prós e contras. As sirenes mecânicas continuam mais simples, mais baratas e com vida útil mais longa (cerca de 60 anos) do que suas versões eletrônicas, que são valorizadas pela sua capacidade de produzir vários sons e entregar mensagens de alerta específicas, tornando-as úteis para qualquer perigo que possa surgir10.

V. Aspectos Pedagógicos e Estéticos das Sirenes

O som alto e penetrante das sirenes foi projetado para captar a atenção imediata e é ainda uma das tecnologias mais usadas nesse sentido, embora sua eficácia venha cada vez mais sendo questionada. O pesquisador norteamericano em gestão de riscos Adam Crowe examina, no artigo de 2010 intitulado When Status Quo Becomes Obsolete: The Changing Use of Outdoor Warning Sirens, as vantagens e desvantagens do uso das sirenes consolidado desde a década de 1950 nos EUA e o crescente surgimento de sistemas alternativos de informação, tais como Twitter, Facebook e SMS (cf. Crowe, 2010, p. 4). É forte a possibilidade de que o som triste e incômodo das sirenes seja substituído definitivamente pelos beeps característicos dos aparelhos celulares11. Ironicamente, essas mesmas redes sociais e novas tecnologias digitais são também acusadas de funcionar como “canto das sereias”, ou seja, um belo e sedutor chamado à destruição, nos debates sobre a crescente dificuldade de atenção das crianças na escola12.

É interessante observar que as sirenes, como a segunda fonte mais comum de informações de aviso meteorológico para o público em geral, frequentemente citadas na literatura acadêmica, são um método “ativo” de advertência. Uma pessoa comum não precisa ter televisão, rádio, telefone ou internet e ainda assim ser avisada quando uma ameaça climática é iminente. Todas as outras tecnologias são passivas, isto é, requerem algum tipo de ação por parte do usuário final, ou seja, dependem da ação das pessoas para buscar informações, como verificar o clima em um site, ouvir notícias no rádio ou na televisão, ou acessar aplicativos de previsão do tempo13. Dito de outro modo, o barulho das sirenes estabelece uma relação passiva, até mesmo obediente, por parte de quem as escuta. Poderíamos afirmar que qualquer professor que busque a atenção de sua turma ao tentar falar mais alto do que eles, ou simplesmente silenciá-los à força, estaria operando em uma espécie de pedagogia das sirenes, não de sereias.

As sirenes, além de serem usadas para alertar ou comunicar emergência ou perigo, também podem ser exploradas esteticamente, para criar efeitos sonoros, musicais ou afetivos. Na música, as sirenes foram usadas por bandas de rock, punk, metal e eletrônica, para criar sons distorcidos, agressivos ou futuristas, como por exemplo na introdução da famosa música War Pigs (1970), do Black Sabbath, ou ainda de forma sutil, como na versão de Adriana Calcanhoto em 2004 para a música Fico Assim sem Você, de Claudinho e Buchecha, em que uma sirene soa quase imperceptivelmente ao fundo, dando à canção um clima suburbano. No teatro, os três sinais tradicionais para marcar o início do espetáculo, também conhecidos como “as batidas de Molière”, podem ser vistos como uma incorporação estrutural do som das sirenes como uma forma de estruturar o tempo.

No cinema e nas artes cênicas em geral, as sirenes foram usadas predominantemente como elementos de suspense, para indicar situações de conflito, perseguição ou resgate. Na versão de 2005 para o cinema de A Guerra dos Mundos (1898), de H. G. Wells, a presença ameaçadora das naves alienígenas invasoras é caracterizada por variações de sons de sirenes. Algumas dessas variações podem ser conferidas numa compilação no YouTube14. Experimentações com os tons menores típicos das sirenes também podem ser ouvidas na trilha sonora do espetáculo Crackz (2005), da companhia de dança de rua Bruno Beltrão, reforçando o clima apocalíptico e niilista do espetáculo. Também durante a pandemia, um curta de terror intitulado Siren Head [Cabeça de Sirene] viralizou na internet, fazendo com que o personagem ganhasse popularidade na internet e até inspirasse diversos jogos e narrativas dentro do gênero de terror. Basicamente, um monstro gigante com cabeça em formato de sirene e com seu som peculiar sai por aí devorando as pessoas15.

Figura 7
Siren Head.

O curta, criado pelo artista visual canadense Trevor Henderson, conta a história de um indivíduo que tem o azar de encontrar o terrível Siren Head, uma entidade alta e esquelética com gigantescos alto-falantes no lugar da cabeça, de onde são emitidos sons aterrorizantes e fatais.

Essa predileção pela associação do som das sirenes com atmosferas de terror parece indicar que as sirenes são, portanto, “sereias invertidas”, na medida em que produzem pavor ao invés de sedução. Nietzsche descreveu, no § 250 do livro Aurora (1881), o ouvido como um “órgão do medo”:

A música e noite – O ouvido, o órgão do medo, pôde desenvolver-se tanto como se desenvolveu apenas na noite e na penumbra de cavernas e bosques sombrios, consoante o modo de viver da época do medo, isto é, a mais longa época da humanidade: no claro, o ouvido não é tão necessário. Daí o caráter da música, uma arte da noite e da penumbra (Nietzsche, 2004, p. 163).

Minha hipótese, entretanto, é a de que, apesar da evidente antinomia entre sereias e sirenes, rege nos dois casos uma “metafísica” subterrânea que associa a voz ao domínio das trevas, seja na tonalidade afetiva do canto erótico, seja na tonalidade afetiva do barulho apavorante. A diferença é que as sirenes evocam um mal por vir, e as sereias evocam um prazer que nunca virá. Poderíamos arriscar dizer que talvez a maneira mais eficiente de se proteger dos cantos maviosos das sereias, no famoso confronto de Ulisses, teria sido apenas suportar encará-las visualmente em sua completa monstruosidade. O descompasso entre o “áudio” e o “vídeo” dessa cena talvez já fosse suficiente para quebrar o encanto. Sabemos, entretanto, através de Homero, que foi mediante a suspensão da escuta e não pelo recurso à “visão” que Ulisses conseguiu se defender do chamado cativante das filhas de Aquelou. Parece que “não escutar” é a única maneira de resistir. Quero defender, entretanto, que existem outras formas de escutar o canto das sereias.

VI. Outras maneiras de escutar o canto das sereias (Transversões)

A filosofia pop, alinhada às pesquisas contemporâneas, evita solucionar as tensões e os impasses da atualidade através de meras reversões ou de sínteses reconciliadoras. A filosofia pop tem como projeto propor transversões dos binarismos e das hierarquias, ou seja, estratégias de pensar/agir/sentir/imaginar capazes de desconstruir, tanto na vida acadêmica quanto na cotidiana o caráter excludente das noções de “pensar” e “sentir”, que continuam a nortear, ainda que implicitamente, nossos discursos, nossas práticas e, principalmente, nossas tecnologias.

Interessa-me aqui sugerir algumas maneiras de ressignificar a história de Ulisses e as sereias a partir do próprio relato tradicional, especialmente em relação ao seu canto. A maneira óbvia delas seria simplesmente questionar a imagem herdada de Ulisses como o herói da racionalidade, com sua meta fixa de voltar a casa e aos braços de sua esposa, Penélope. Entretanto, a curiosidade lúbrica de Ulisses em ouvir o canto das sereias quebra essa singela narrativa. Ulisses, na verdade, parece muito mais um equilibrista de “maluquez” e lucidez (conforme a famosa formulação de Raul Seixas na canção Maluco Beleza, de 1977), do que propriamente um herói do ascetismo.

A filósofa alemã, ex-aluna de Heidegger, Ute Guzzoni (1934-), minha ex-orientadora de doutorado, escreveu em um estudo sobre a Odisseia: “o não de Ulisses não é um não responsável” (Guzzoni, 1982, p. 51), quer dizer, é um não contra a vontade, pois, na verdade, sua vontade sempre foi a de dizer sim. Ele poderia ter passado direto pela ilha e, colocando cera nos próprios ouvidos, assim como seus marinheiros, ignorado solenemente o canto das sereias. Mas ele é muito curioso, e essa curiosidade revela uma grande contradição: não se trata de reprimir o desejo, como descrevem Adorno e Horkheimer, mas sim de gerenciá-lo, como alguém que quer, mas não quer mostrar que quer, nem o que quer, enfim, como um grande sedutor, assim como as sereias.

A cena então poderia ser revista não como um embate entre o canto encantador e sua vítima, mas como um embate entre duas estratégias de sedução. A filósofa Judith A. Peraino, professora da Universidade Cornell, vai ainda mais longe no seu livro Listening to the Sirens (2006). Com base na etimologia mais aceita do termo “sereia” (aquela que ata), ela afirma que a cena descrita em Homero é típica do ambiente sadomasoquista, em que as pessoas se deixam amarrar para aumentar ainda mais a intensidade do prazer: “o nome das sereias talvez derive de seire, que significa laço ou corda. [...] A história das sereias está repleta de uma variedade de palavras (seirenes, peirat, desmoisi) que aludem ou descrevem a escravatura [bondage] e a contenção [conteinement]” (Peraino, 2006, p. 13). Nessa perspectiva, Ulisses não seria o macho alfa capaz de vencer as sereias no firme objetivo de voltar para casa, mas alguém que está experimentando com o seu próprio corpo. Ao se deixar ser atado, Ulisses abandona, ainda que provisoriamente, seu modo homogêneo de sexualidade e arrisca uma forma de articular atividade e passividade em busca de mais prazer. Conforme Peraino, há em Ulisses o “desejo de se tornar queer de si mesmo” (Peraino, 2006, p. 18).

No entanto, talvez a principal maneira de ressignificar a interpretação tradicional do canto das sereias, enquanto uma voz feminina inarticulada, é relembrar que havia um texto para esse canto, algo que diversos helenistas já enfatizaram. Ao contrário da memória cultural que consolidou apenas a maravilha sem palavras dessa voz, havia uma mensagem, e ela é tão importante como a sonoridade da canção. Cito mais uma vez o livro XII de Homero:

Mas quando estávamos à distância de um grito,
rápido viajando, elas não ignoraram a nau saltadora
surgir próxima, e deram vazão a canto agudo:
‘Vem cá, Odisseu muita-história, grande glória dos aqueus,
ancora tua nau para ouvires nossa voz.
Nunca ninguém passou por aqui, em negra nau,
sem antes ouvir a melíflua voz que vem de nossa boca;
mas ele se deleita e parte com mais saber.
De fato, sabemos tudo que, na extensa Troia,
aguentaram argivos e troianos por obra dos deuses.
Sabemos tudo que ocorre sobre a terra nutre-muitos’.
Assim falaram, lançando belíssima voz. Meu coração
quis ouvir, e num movimento das celhas
solicitei aos companheiros que me soltassem; eles remavam.
De pronto, ergueram-se Perimedes e Euríloco,
e com mais laços prenderam-me e apertaram bem.
Depois que por elas passamos, então nem mais
ouvimos o tom das sereias nem seu canto,
e presto meus leais companheiros retiraram a cera
que tampara seus ouvidos, e soltaram-me dos laços
(Homero, 2014, p. 258).

Ao escutarmos com cuidado a descrição de Homero, salta aos ouvidos que havia nos versos da canção uma promessa de conhecimento absoluto. As sereias sabiam da volúpia por sabedoria de Ulisses, e o que elas oferecem não é mero prazer carnal, mas a oportunidade de um saber total, de presente, passado e futuro, quase como se fossem vendedoras da “razão absoluta” de Hegel. Sem entrar no mérito da veracidade ou não da proposta, o importante é que a canção das sereias é uma mistura de voz e significado, sentido e sentidos, promessa de prazeres tanto para o corpo, como para o pensamento, que, como sabemos, estão indissociavelmente conectados. Um outro modelo de ser humano, que não se reduz à mera oposição entre animalidade e racionalidade, necessitará ser reconstruído a partir daqui para que possamos no futuro transverter o canto das sereias em uma mistura estrutural de racionalidade e afetos.

Nesse contexto, vale mencionar, por fim, a história do helenista, germanista, musicólogo e teórico de mídias alemão, Friedrich Kittler (1947– 2011), que, em 2005, cerca de 2800 anos depois da Odisseia, viajou para a ilha considerada pela tradição como sendo a ilha das sereias, a Ilha de Li Galli, no litoral do sul da Itália.

Figura 8
F. Kittler tentando ouvir as cantoras líricas no penhasco (15 fev. 2024).

Kittler levou consigo duas cantoras líricas, posicionou-as em um penhasco e navegou com um bote de borracha nas proximidades para testar se seria possível ouvir seu canto, tal como Homero descreveu. A conclusão que tirou da experiência é instigante:

Sem quilha – novamente como o navio do herói – chegamos mais perto dos penhascos e sirenes do que da primeira vez. Então o barulho do motor diminuiu a apenas dez metros da costa [...]. As duas sereias cantavam o que seu maestro pedia. Ouvimos sons vocais claros e puros (como ele já havia prometido), mas sem o menor traço de sons mudos [Stummlauten]. Portanto, nenhuma palavra chegou até nós, nem em alemão ou grego. As vogais nos dão a música, mas as consoantes nos dão a linguagem, como Ulisses as ouve em 8 versos. Para manter o canto da sereia em nossos corações, até hoje, precisamos de uma escrita que separe as consoantes das vogais, escrevendo ambas pela primeira vez. Para ouvir ambas [tons e palavras], ou seja, o canto das sereias, não há que possa ser feito a não ser desembarcar na ilha (Kittler, 2006, p. 58).

A conclusão de Kittler é que Homero mentiu, pois Ulisses deve ter descido na ilha para ser capaz de ouvir os versos. Logo, as sereias não eram monstros, mas sim musas inspiradoras. Homero teria mentido também sobre isso. Kittler (2006, p. 58) termina seu relato exortando: “Não acrediteis no maior mentiroso da Grécia, mas sim nas duas sereias”. Termino, portanto, homenageando tanto Nietzsche como Kittler: não acrediteis que toda música é música de sereias, nem que as sereias (leia-se aí as dimensões do natural, do animal, do corporal, do afetivo, do feminino, etc.) entoem apenas voz sem sentido.

Notas

  • 1
    A não ser quando mencionado, esta e todas as traduções são minhas.
  • 2
    Para uma descrição mais detalhada da metodologia da filosofia pop, ver Feitosa (2022).
  • 3
    A historiadora da arte Laura Peinado cita diversas fontes literárias da Idade Média em que o tema das sereias é tratado de forma a regular e condenar condutas fora das normas, como por exemplo neste trecho de um clássico da época: “A verdade é que as Sereias eram três meretrizes que enganavam todos aqueles que se cruzavam no seu caminho e os arruinavam. E conta-se que tinham asas e garras para representar o amor, que voa e fere; e que viviam na água, porque a luxúria é feita de humidade” (Brunetto Latini, Livre du Tresor, 1220, p. 131-132 apud Rodríguez Peinado, 2009, p. 54).
  • 4
  • 5
    A título de curiosidade, cito apenas dois exemplos: (1) Granger e McMurray (2006); e (2) Schwamm (2014).
  • 6
    Uma delas é a menção platônica, no Livro X de A República, ao relato de Er, um guerreiro morto em batalha e que relatou o que viu no Hades. Uma das descrições refere-se à harmonia das vozes de oito sereias, em consonância com as três moiras, em uma sugestão de que haveria uma harmonia matemática e musical estrutural ao cosmos (cf. Platão, 2007, p. 465).
  • 7
    Cf. The collective invention, 1934, by Rene Magritte. Disponível em: https://www.renemagritte.org/the-collective-invention.jsp. Acesso em: 11 fev. 2023.
  • 8
    Sobre a lenda do boto, provavelmente uma reapropriação cultural brasileira da história de Ulisses, ver Cascudo (1947, p. 140-141).
  • 9
    Embora não faça nenhuma menção explícita às sirenes, o manifesto futurista de Luigi Russolo, A Arte dos Ruídos (1913), define o barulho como sons confusos e irregulares e defende que “Cada manifestação da vida é acompanhada de ruído” (Russolo, 2014, p. 7). Uma questão que não há tempo de abordar aqui é em que medida a estética musical do barulho proposta pelos futuristas não está demasiadamente contaminada por uma perigosa idealização da tecnologia em geral e da guerra em particular.
  • 10
    Segundo a Prefeitura do Rio de Janeiro, foi instalado desde 2011 um sistema de altofalantes em mais de 100 comunidades que disparam três avisos sonoros em caso de emergência: “O primeiro é uma mensagem preventiva. Com a chuva forte, o segundo sinal é de mobilização para que os moradores procurem locais seguros ou pontos de apoio. Quando a chuva melhora e não há mais risco para os moradores, soa a terceira sirene para desmobilização”. Disponível em: https://g1.globo.com/rio-dejaneiro/noticia/2016/03/rjtv-mostra-como-funciona-sistema-de-sirenes-para-alerta-dechuvas.html#:~:text=S%C3%A3o%20163%20sirenes%20instaladas%20em,seguros%20 ou%20pontos%20de%20apoio. Acesso em: 02 jan. 2023.
  • 11
    O tom menor na música é considerado um som triste e é muito explorado pelas bandas de heavy metal progressivo, tal como a norte-americana Tool. Alguns estudiosos de acústica lançaram também a hipótese de uma similaridade ancestral entre o som do uivo de lobo e os das sirenes de emergência. Eles argumentam, através de comparações físicas dos respectivos sons, que a efetividade das sirenes como sinais de alerta teria sido reforçada pela predisposição sensorial natural dos humanos em serem alertados pelo uivo dos lobos, com os quais eles têm uma longa história de convivência (cf. Wolf Howling and Emergency Sirens: A Hypothesis of Natural and Technical Convergence of Aposematic Signals, de autoria de Diana Kořanová et al. 2021).
  • 12
    Ver, por exemplo, a comparação feita pelo Papa Francisco, em 2021, acerca do hipnotismo das redes sociais com o canto das sereias: https://oespecialista.com.br/papafrancisco-redes-sociais/. Acesso em: 12 jan. 2024.
  • 13
    Sobre a distinção entre sistemas ativos e passivos de alerta, ver o artigo da pesquisadora em meteorologia norte-americana, Emily Laidlaw (2010).
  • 14
    Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=VpUta2McVXI. Acesso em: 11 jan. 2024.
  • 15
    Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zrkB1HVpz5k. Acesso em: 20 jan. 2024.
  • Este texto inédito também se encontra publicado em inglês neste número do periódico.

Disponibilidade de dados de pesquisa:

o conjunto de dados de apoio aos resultados deste estudo está publicado no próprio artigo.

Referências

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  • LAIDLAW, Emily. The Controversy over Outdoor Warning Sirens. Weatherwise, v. 63, n. 1, p. 16-25, 2010.
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  • Editor responsável:
    Gilberto Icle

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Abr 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    15 Fev 2024
  • Aceito
    09 Set 2024
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