Marcas da Violência: vozes insurgentes no Teatro Negro Brasileiro

The Taint of Violence: insurgent voices in Brazilian Black Theatre

Marques de la Violence: des voix insurgées dans le Théâtre Noir Brésilien

Marcos Antônio Alexandre Sobre o autor

RESUMO

Os estudos da etnocenologia retratam os aspectos relacionados com a teatralidade e espetacularidade tanto no campo dos rituais quanto cênicos. Neste sentido, o teatro é um dos suportes para os campos das pesquisas etnocenológicas, sendo o Teatro Negro o foco deste trabalho. Entre as formas de representação do negro na sociedade brasileira, a violência é uma das marcas simbólicas que vêm sendo ressignificada em textos afro-brasileiros. Este ensaio objetiva retratar alguns ecos da violência em textos dramáticos/espetaculares do Teatro Negro Brasileiro. Interessa-me discutir as instâncias em que a violência é representada cenicamente e como ela interfere na (re)construção das identidades e dos sujeitos negros.

Palavras-chave:
Etnocenologia; Identidade; Representação; Teatro Negro; Violência.

ABSTRACT

Ethnology studies report issues related to theatricality and spectacularity both in the scenic and ritual fields. Thus, theatre is one of the supports in ethnoscenological research, and this work focuses on Black Theater. Among the forms of representation of Blacks in Brazilian society, violence is one of the symbolic traits that has been re-signified in Afro-Brazilian texts. This essay aims at portraying some echoes of violence in dramatic/spectacular texts in Brazilian Black Theatre. We intend to discuss the instances in which violence is scenically represented and how this interferes with the (re)construction of black identities and subjectivities.

Keywords:
Ethnoscenology; Identity; Representation; Black Theater; Violence.

RÉSUMÉ

Les études en ethnoscénologie décrivent les aspects ayant trait à la théâtralité et à la dimension spectaculaire aussi bien dans le domaine des rituels que sur scène. Le théâtre est ainsi l'un des supports pour les recherches ethnoscénologiques et le théâtre noir, plus particulièrement, constitue l'objet du présent travail. Parmi les formes de représentation des noirs dans la société brésilienne, la violence est l'une des marques symboliques qui ne cesse d'être ré-signifiée dans les textes afro-brésiliens. L'objectif de cet essai est donc de transmettre certains échos de la violence dans les textes dramatiques/spectaculaires du théâtre noir brésilien. Il s'agit de réfléchir sur les situations dans lesquelles la violence est représentée scéniquement et sur la manière dont elle interfère dans la (re)construction des identités et des individus noirs.

Mots-clés:
Ethnoscénologie; Identité; Représentation; Théâtre Noir; Violence.

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  • 1
    A descrição e o horizonte teórico-metodológico podem ser consultados em Artes do Corpo e do Espetáculo: questões de etnocenologia, organizado por Armindo Jorge de Carvalho Bião (2007, p. 21-41).
  • 2
    Trata dos textos dramáticos e/ou espetaculares em que os negros, suas identidades e sua visão ideológica do (e para o) mundo aparecem como temática central, ou seja, espera-se que seja apresentado o ponto de vista interno inerente aos negros. Não obstante, em uma perspectiva mais abrangente, o Teatro Negro por excelência não apenas retrata as especificidades dos sujeitos negros e sua integração na sociedade, mas também se nutre dos elementos que compõem e integram a cultura dos afrodescendentes em suas diversas manifestações artístico-performáticas: danças, músicas, jogos, mitos e ritos. Vale destacar que, na minha leitura crítica, leio e entendo o Teatro Negro, considerando ainda que o mesmo deva retratar os contextos e lugares de enunciação aos quais os negros se viram e ainda se veem representados e/ou subjugados em nossas sociedades. Também defendo a ideia de que, esteticamente, esse teatro pode vir a ser praticado por não negros, uma vez que o aspecto mais importante é ter o afrodescendente e a sua cultura como elemento de concepção dramática/espetacular/etnocenológicas.
  • 3
    Foto de Márcio Lima. Disponível em <http://mundoafro.atarde.com.br/?tag=cabare-da-rrrrraca>. Para ver trechos do espetáculo, acesse os seguintes links: <http://www.youtube.com/watch?v=KhoocnLEGFE>; <http://www.youtube.com/watch?v=Bovwy_421lM&feature=related> ou <http://www.youtube.com/watch?v=X0tt1Tzbhho&feature=related>.
  • 4
    Uma das características das encenações do Bando Teatro Olodum é vincular o nome dos atores à dramaturgia cênica. Assim, em vários momentos há uma diluição das categorias ator x personagem, as representações assumem características de personas - papel social, máscara social.
  • 5
    Esta e outras cenas que compõem esta análise podem ser vistas, consultando um vídeo com fragmentos do espetáculo, disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=Bovwy_421lM&feature=related>.
  • 6
    Um bairro popular de Salvador.
  • 7
    Samba popular tradicional.
  • 8
    Segundo Pierre Verger (1997, p. 236), "Nàná Buruku ou Nàná Bùkùú ou ainda Nàná Brukung é uma divindade muito antiga. A área que abrange o seu culto é muito vasta e parece estender-se de leste, além do Níger, pelo menos até a região tapá, a oeste, além do Volta, nas regiões dos guang, ao nordeste dos ashantí". O antropólogo ainda explicita que "Nanã Buruku é o arquétipo das pessoas que agem com calma, benevolente, dignidade e gentileza. Das pessoas lentas no cumprimento de seus trabalhos e que julgam ter a eternidade à sua frente para acabar seus afazeres. Elas gostam das crianças e educam-nas, talvez, com excesso de doçura e mansidão, pois têm tendência a se comportarem com a indulgência dos avós. Agem com segurança e majestade. Suas reações bem-equilibradas e a pertinência de suas decisões mantêm-nas sempre no caminho da sabedoria e da justiça" (Verger, 1997, p. 241).
  • 9
    Aqui entendido a partir dos dizeres de Patrice Pavis (1999, p. 187 - grifo do autor): "O gestus é sensível, ao mesmo tempo, no comportamento corporal do ator e em seu discurso: um texto, uma música podem, na verdade, ser gestuais se apresentam um ritmo apropriado ao sentido do que ele está falando".
  • 10
    Conceito proposto por Leda Martins (2002, p. 87, grifos da autora): "A esses gestos, a essas inscrições e palimpsestos performáticos, grafados pela voz e pelo corpo, denominei oralitura, matizando na noção deste significante a singular inscrição cultural que, como letra (littera) cliva a enunciação do sujeito e de sua coletividade, sublinhando ainda no termo seu valor de litura, rasura da linguagem, alteração significante, constitutiva da alteridade dos sujeitos, das culturas e de suas representações simbólicas".
  • 11
    Os três primeiros trabalhos integram a trilogia da Cia. dos Comuns: A Roda do Mundo (2001), Candaces - A Reconstrução do fogo (2003) e Bakulo - Os bem lembrados (2005). Esses textos foram escritos pelo encenador e diretor Márcio Meirelles e foram criados a partir de um processo de construção coletiva que partiu das percepções de cada ator na construção das personagens. A quarta montagem do grupo é Silêncio (2007) e esse texto toma status de primeiros passos, uma vez que Hilton Cobra - diretor da Cia dos Comuns - assume, juntamente com a participação coletiva dos integrantes do grupo, a dramaturgia, desta vez, sem contribuições externas. Faço uma breve análise desta peça no trabalho "A cultura negra e seus questionamentos na produção dramatúrgica/espetacular contemporânea", publicado no volume 4 da Antologia Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica (História, teoria, polêmica), organizada por Eduardo de Assis Duarte e Maria Nazareth Soares Fonseca (Editora UFMG, 2011).
  • 12
    Para ver um trecho do espetáculo, acesse: <http://www.videolog.tv/video.php?id=252893>.
  • 13
    Disponível em <http://www.comuns.com.br/fotos_candaces/1.jpg>.
  • 14
    Aqui faço alusão ao conceito difundido por Conceição Evaristo (2007, p. 20-21, grifos meus). Evaristo, ao discutir sobre a sua escrita, propõe o seguinte questionamento: "O que levaria determinadas mulheres, nascidas e criadas em ambientes não letrados e, quando muito, semi-alfabetizadas, a romperem com a passividade da leitura e buscarem o movimento da escrita?". Logo, a autora, reforçando a sua visão crítica, contesta: "Tento responder. Talvez, estas mulheres (como eu) tenham percebido que se o ato de ler oferece a apreensão do mundo, o de escrever ultrapassa os limites de uma percepção da vida. Escrever pressupõe um dinamismo próprio do sujeito da escrita, proporcionando-lhe a sua autoinscrição no interior do mundo. E, em se tratando de um ato empreendido por mulheres negras, que historicamente transitam por espaços culturais diferenciados dos lugares ocupados pela cultura das elites, escrever adquire um sentido de insubordinação. Insubordinação que se pode evidenciar, muitas vezes, desde uma escrita que fere 'as normas cultas' da língua, caso exemplar o de Carolina Maria de Jesus, como também pela escolha da matéria narrada."; e, por fim, conclui os seus argumentos de forma contundente: "A nossa escrevivência não pode ser lida como histórias para 'ninar os da casa grande' e sim para incomodá-los em seus sonos injustos".
  • 15
    Aqui entendida a partir da conceituação proposta por Richard Demarcy no livro Semiologia do Teatro, organizado por J. Guinsburg et al. (1988). A leitura transversal é aquela em que o espectador não penetra essencialmente na fábula. Ainda que a acompanhe, ela não é seu único objeto de interesse. O que a difere da leitura horizontal consiste na vontade de distinguir as diversas unidades significativas contidas no espetáculo.
  • 16
    Informação extraída de <http://deboraalmeidaportfolio.blogspot.com/2009/08/2003-04-candaces-reconstrucao-do-fogo.html>.
  • 17
    No campo da produção literária, Allan da Rosa criou o selo de perfil alternativo, Edições Toró, pautado com publicações de um trabalho artesanal e com a presença de autores jovens, vindos da periferia paulistana e sem espaço no mercado editorial. Cf.: <www.edicoestoro.net>.
  • 18
    Parte desta análise integra o Verbete que escrevi sobre o autor intitulado "Allan da Rosa". Para ter acesso ao texto completo, conferir o volume 3 da Antologia Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica (Contemporaneidade), organizada por Eduardo de Assis Duarte (Editora UFMG, 2011).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jun 2012

Histórico

  • Recebido
    Fev 2012
  • Aceito
    Abr 2012
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