Fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico nas capitais brasileiras, Vigitel 2014

Deborah Carvalho Malta Sheila Rizzato Stopa Betine Pinto Moehlecke Iser Regina Tomie Ivata Bernal Rafael Moreira Claro Antônio Carlos Figueiredo Nardi Ademar Arthur Chioro dos Reis Carlos Augusto Monteiro Sobre os autores

RESUMO:

Objetivo:

Descrever as prevalências dos fatores de risco e proteção para doenças crônicas na população adulta brasileira no ano de 2014, e investigar os fatores sociodemográficos associados.

Métodos:

Análise dos dados provenientes do inquérito telefônico Vigitel 2014, a partir de amostras probabilísticas da população adulta (≥ 18 anos) das capitais dos 26 estados brasileiros e Distrito Federal, residentes em domicílios com telefone fixo. Apresentadas prevalências por sexo, idade e escolaridade e razões de prevalências (RP) ajustadas, por meio da Regressão de Poisson.

Resultados:

Entre 40.853 adultos entrevistados, 10,8% são fumantes atuais e 21,2% ex-fumantes. O consumo abusivo de bebidas alcoólicas foi relatado por 16,5 e 52,5% apresentaram excesso de peso, fatores mais frequentes entre os homens. A prevalência do consumo recomendado de frutas e hortaliças foi de 24%, de doces de 18,1% e de substituição das refeições por lanches de 16,2%, maiores entre as mulheres. Atividade física no tempo livre alcançou 35,3% e aumentou com a escolaridade. A hipertensão arterial foi a doença mais frequente, com 24,8%, foi maior entre as mulheres, aumentando com idade.

Conclusão:

Os resultados do Vigitel 2014 indicam que os fatores de risco investigados costumam ser mais frequentes entre os homens, adultos de maior idade, e menos escolarizados, caracterizando o gradiente socioeconômico e cultural na determinação de doenças crônicas.

Palavras-chave:
Fatores de risco; Doenças crônicas; Inquéritos epidemiológicos; Vigilância epidemiológica; Estudos transversais; Sistema de vigilância de fator de risco comportamental.

ABSTRACT:

Objective:

To describe the prevalence of risk and protective factors for chronic diseases in Brazilian adult population in 2014 and investigate the associated sociodemographic factors.

Methods:

Analyses were performed based on data from telephone interviews (Vigitel 2014) on probabilistic samples of adult population (≥ 18 years old) from the capitals of the 26 Brazilian States and the Federal District, living in households with landline phones. Prevalence is presented by gender, age and educational level, and adjusted prevalence ratios (PR) are estimated using Poisson Regression model.

Results:

Among the 40.853 adults who were interviewed, 10.8% were smokers and 21.2% ex-smokers. Among the respondents, 16.5% reported alcohol abuse and 52.5% were overweight, factors that were more frequent among men. The prevalence of recommended intake of fruits and vegetables was 24%, intake of sweets was 18.1% and replacements of main meals for snacks was 16.2%, factors that were higher among women. Leisure time physical activity reached 35.3% and increased with the level of education. Hypertension was the most frequent disease achieving 24.8%, which was higher among women and increased with age.

Conclusion:

The results from Vigitel 2014 indicate that risk factors are, in general, more frequent among men, older adults and less educated individuals, characterizing the socioeconomic and cultural dimensions in determining chronic diseases.

Keywords:
Risk factors; Chronic diseases; Epidemiological surveys; Epidemiological surveillance; Cross-sectional studies; Behavioral risk factor surveillance.

INTRODUÇÃO

As doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) são reconhecidamente um problema de saúde pública, produzindo altos custos para o sistema de saúde e para a sociedade em geral11. Schmidt MI, Duncan BB, Azevedo e Silva G, Menezes AM, Monteiro CA, Barreto SM, et al. Chronic non-communicable diseases in Brazil: burden and current challenges. Lancet 2011; 377(9781): 1949-61.. No ano de 2014, cerca de 74% das mortes no Brasil foram em decorrência das DCNT, tendo destaque os quatro principais grupos de doenças como causa de morte: cardiovasculares, diabetes, câncer e respiratória crônica22. World Health Organization. Country profiles: Brazil 2014. [Internet]. Disponível em: http://www.who.int/nmh/countries/bra_en.pdf (Acessado em 25 de fevereiro de 2015).
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. Tais doenças compartilham fatores de risco em comum modificáveis, como alimentação não saudável, inatividade física, consumo de álcool abusivo e tabagismo33. Brasil. Ministério da Saúde. Plano de ações estratégicas para o enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) no Brasil 2011-2022 [Internet]. Brasilia: Ministério da Saúde; 2011. 148 p. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/plano_acoes_enfrent_dcnt_2011.pdf (Acessado em 11 de janeiro de 2012).
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A presença destes fatores, além de contribuir com o aumento da mortalidade por DCNT, onera a prestação de assistência à saúde. O controle destes fatores de risco e a prevenção de DCNT são essenciais para melhorar e aumentar a qualidade de vida dos indivíduos11. Schmidt MI, Duncan BB, Azevedo e Silva G, Menezes AM, Monteiro CA, Barreto SM, et al. Chronic non-communicable diseases in Brazil: burden and current challenges. Lancet 2011; 377(9781): 1949-61.. O monitoramento dos fatores de risco e de proteção para DCNT é essencial para a vigilância, uma vez que propicia o entendimento da distribuição, magnitude e tendência destes fatores. Fortalecer a vigilância e o monitoramento das DCNT e seus fatores de risco é prioridade nacional33. Brasil. Ministério da Saúde. Plano de ações estratégicas para o enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) no Brasil 2011-2022 [Internet]. Brasilia: Ministério da Saúde; 2011. 148 p. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/plano_acoes_enfrent_dcnt_2011.pdf (Acessado em 11 de janeiro de 2012).
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, seguindo os esforços globais44. World Health Organization. Global status report on noncommunicable diseases 2014 [Internet]. Geneva: World Health Organization; 2014. 298 p. Disponível em: Disponível em: http://www.who.int/nmh/publications/ncd-status-report-2014/en/ (Acessado em 28 de janeiro de 2015).
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.

Em 2006, a Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde lançou o "Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para as Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel)", que monitora de modo contínuo os principais fatores de risco e proteção para DCNT em todas as capitais brasileiras e no Distrito Federal55. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Doenças e Agravos não transmissíveis e Promoção da Saúde. Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico, Vigitel 2013. Brasília: Ministério da Saúde; 2014. 164 p.. O objetivo deste artigo é descrever as prevalências dos fatores de risco e proteção para DCNT em população adulta brasileira residente nas capitais no ano de 2014, e investigar os fatores sociodemográficos associados.

MÉTODOS

O presente estudo utilizou dados do Vigitel 2014, sistema de monitoramento contínuo implantado pelo Ministério da Saúde em 2006. O Vigitel utiliza amostras probabilísticas da população adulta (≥ 18 anos) das capitais dos 26 estados brasileiros e Distrito Federal, residentes em domicílios que possuam ao menos uma linha de telefone fixo.

O cálculo da amostra é baseado nos cadastros das linhas de telefone fixo das 26 capitais de Estado e do Distrito Federal, cedidos pelas principais operadoras de telefonia do país. Nestas cidades, são sorteadas 5.000 linhas telefônicas por meio de sorteio sistemático e estratificado por código de endereçamento postal. Estas linhas sorteadas em cada cidade são ressorteadas e dividas em réplicas de 200 linhas cada. Tal divisão da amostra em réplicas faz-se necessária em função da dificuldade em estimar as linhas do cadastro que são elegíveis para entrevista. Em uma segunda etapa, efetua-se a seleção do morador adulto a ser entrevistado no domicílio. Ao final deste processo, foram contempladas 40.853 entrevistas, com taxa de sucesso de 65,2%55. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Doenças e Agravos não transmissíveis e Promoção da Saúde. Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico, Vigitel 2013. Brasília: Ministério da Saúde; 2014. 164 p..

As entrevistas telefônicas ocorreram entre os meses de fevereiro e dezembro de 2014, realizadas por empresa especializada. Assistidos por computador, os entrevistadores liam as perguntas e as respostas eram registradas diretamente em meio eletrônico.

O questionário do Vigitel 2014 foi composto por questões demográficas e socioeconômicas; de hábito alimentar e prática de atividade física; peso e altura referidos; consumo de cigarros e de bebidas alcoólicas; autoavaliação do estado de saúde; hipertensão, diabetes e dislipidemias autorreferidas; exames de detecção precoce de câncer em mulheres; posse de plano de saúde; situações no trânsito.

Os indicadores de fatores de risco e proteção para DCNT estudados, medidos em percentuais, foram:

  • • Tabagismo: fumantes; ex-fumantes; fumantes que consomem 20 ou mais cigarros por dia; fumantes passivos no domicílio (não fumantes que referem que pelo menos um dos moradores do seu domicílio costuma fumar dentro de casa); passivos no local de trabalho (não fumantes que referem que pelo menos um indivíduo costuma fumar no seu ambiente de trabalho).

  • • Consumo de álcool: consumo abusivo de bebida alcóolica (definido em cinco ou mais doses para homens e quatro ou mais doses para mulheres, consumidas na mesma ocasião); indivíduos que referiram conduzir veículo motorizado após o consumo de qualquer quantidade de bebida alcoólica.

  • • Consumo alimentar: consumo regular de frutas e hortaliças (em cinco ou mais dias da semana); consumo recomendado de frutas e hortaliças (cinco ou mais vezes por dia, em cinco ou mais dias da semana); consumo regular de feijão (em cinco ou mais dias da semana); consumo de carnes com excesso de gordura (carne vermelha com gordura visível e/ou frango com pele); consumo de leite com teor integral de gordura; consumo regular de refrigerante (consumo de refrigerante ou suco artificial em cinco ou mais dias por semana); consumo regular de doces (em cinco ou mais dias por semana); consumo elevado de sal (autorrelato de consumo de sal alto ou muito alto); substituição de comida do almoço ou jantar por lanches em sete ou mais vezes por semana.

  • • Atividade física: prática do nível recomendado de atividade física no tempo livre (150 minutos semanais de atividade física de intensidade moderada ou 75 minutos semanais de atividade física de intensidade vigorosa, independentemente do número de dias que pratica atividade física por semana); prática de atividade física no deslocamento (trajeto para o trabalho ou escola de bicicleta ou caminhando totalizando pelo menos 150 minutos semanais no percurso de ida e volta); prática insuficiente de atividade física (< 150 minutos semanais de atividades de intensidade moderada ou < 75 minutos de atividade vigorosa em atividades física no tempo livre, deslocamento para trabalho/escola e na atividade ocupacional); fisicamente inativos (percentual de adultos que não praticaram qualquer atividade física no tempo livre nos últimos três meses, que não realizam esforços físicos intensos no trabalho, que não se deslocam para o trabalho ou escola a pé ou de bicicleta e que não são responsáveis pela limpeza pesada de suas casas); hábito de assistir à televisão por três ou mais horas por dia.

  • • Índice de Massa Corporal (IMC): percentual de excesso de peso (IMC ≥ 25 kg/m2) e obesidade (IMC ≥ 30 kg/m2).

  • • Autoavaliação de saúde: percentual de indivíduos que avaliaram o seu estado de saúde como ruim ou muito ruim.

  • • Morbidade referida: percentual de adultos que referem diagnóstico médico de: hipertensão arterial, diabetes e dislipidemia.

As prevalências foram calculadas utilizando como denominador o total de adultos entrevistados. Utilizou-se fatores de ponderação que consideram a probabilidade desigual que indivíduos residentes em domicílios com maior número de linhas telefônicas ou menor número de moradores tiveram em participar da amostra. Ainda, estes fatores corrigem a super ou subestimação da amostra do Vigitel resultante da cobertura de telefonia fixa desigual no Brasil, pelo procedimento de pós-estratificação55. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Doenças e Agravos não transmissíveis e Promoção da Saúde. Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico, Vigitel 2013. Brasília: Ministério da Saúde; 2014. 164 p..

A ponderação consiste em três fatores: inverso do número de linhas telefônicas no domicílio do entrevistado, o número de adultos no domicílio do entrevistado e o peso pós-estratificação, constituído segundo as características de sexo, idade e escolaridade da amostra e da população total das capitais brasileiras (a partir do censo demográfico de 2010 e interpolações censitárias). Detalhes referentes à metodologia e construção dos fatores de ponderação utilizados no Vigitel podem ser encontrados no relatório anual da publicação55. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Doenças e Agravos não transmissíveis e Promoção da Saúde. Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico, Vigitel 2013. Brasília: Ministério da Saúde; 2014. 164 p..

As prevalências foram apresentadas em proporções (%) com seus intervalos de confiança (IC95%), segundo sexo (masculino e feminino), faixa etária (18 - 24, 25 - 34, 35 - 44, 45 - 54, 55 - 64 e 65 anos ou mais) e grau de escolaridade (0 - 8, 9 - 11 e 12 anos ou mais de estudo).

Com o intuito de investigar as possíveis diferenças nas prevalências de acordo com sexo, idade e escolaridade, foram estimadas as razões de prevalências (RP) ajustadas por idade, escolaridade ou ambos, utilizando o modelo de Regressão de Poisson com variância robusta, sendo a primeira categoria a de referência: mulheres, faixa etária de 18 a 24 anos, e escolaridade de 0 a 8 anos de estudo. A análise de dados foi realizada por meio do aplicativo Stata 12.1.

O Vigitel foi aprovado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa para Seres Humanos, do Ministério da Saúde, sob o Parecer no 355.590, de 26 de junho de 2013. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido foi obtido por consentimento verbal do entrevistado no momento da ligação telefônica.

RESULTADOS

Entre os meses de fevereiro a dezembro de 2014, o Vigitel realizou entrevistas com 40.853 adultos residentes nas capitais do país e no Distrito Federal. A maioria das entrevistas (62%) foram com mulheres. A duração média das entrevistas foi de aproximadamente 10 minutos, variando entre 4 e 58 minutos. Recusas em participar do inquérito somaram 3,9%, sendo 3,1% no contato telefônico inicial e 0,8% após um morador ter sido sorteado.

Na Tabela 1, encontram-se os resultados dos indicadores selecionados por sexo. A prevalência de tabagismo atual na população adulta das capitais do Brasil foi de 10,8% (IC95% 10,1 - 11,4), além de 21,2% (IC95% 20,4 - 22,1) que relataram o uso de cigarros no passado (ex-fumantes). Cerca de 9% da população foi considerada fumante passiva, seja no domicílio (9,4%) ou no local de trabalho (8,9%). A exceção do tabagismo passivo no domicílio, a frequência dos indicadores de tabagismo foi menor nas mulheres em relação aos homens.

Tabela 1:
Prevalência e razão de prevalência de fatores de risco e proteção para doenças crônicas na população adulta residente nas capitais brasileiras e Distrito Federal, segundo sexo; Vigitel, 2014.

Os hábitos relacionados ao consumo de álcool também apresentaram maior frequência entre os homens: o consumo abusivo de bebidas alcoólicas, relatado por 16,5% da população adulta, teve uma prevalência 60% menor nas mulheres em relação aos homens (RP = 0,39; IC95% 0,35 - 0,43), enquanto a frequência de condução de veículos após o consumo de bebidas chegou a ser 80% menor para as mulheres quando comparadas aos homens (RP = 0,16; IC95% 0,13 - 0,20) (Tabela 1).

O excesso de peso, caracterizado pelo índice de massa corporal (IMC) ≥ 25 kg/m2, atingiu 52,5% da população adulta, 56,5% dos homens e 49,1% das mulheres (RP = 0,84; IC95% 0,81 - 0,87). Entre estes, 17,9% já alcançaram IMC ≥ 30 kg/m2, sendo considerados obesos, com frequência semelhante entre os sexos (Tabela 1).

Aproximadamente, 36% dos adultos referiram o consumo regular (em pelo menos cinco dias da semana) de frutas e hortaliças, mas apenas 24,1% alcançaram o consumo recomendado desses alimentos, ou seja, cinco ou mais porções ao dia. Para ambos os indicadores, a frequência foi maior para as mulheres do que para os homens. O consumo de feijão, relatado por 66,1%, foi mais comum entre os homens (72,7%) do que entre as mulheres (60,5%). Em relação aos indicadores alimentares considerados de risco, destacaram-se entre as mulheres o consumo regular de doces (20,3 versus 15,6%; RP = 1,34; IC95% 1,22 - 1,46) e a substituição do almoço ou jantar por lanches (18,8 versus 13,1%; RP = 1,41; IC95% 1,28 - 1,54). O consumo de carnes com excesso de gordura e de leite com teor integral de gordura foram relatados por 29,4 e 52,9%, respectivamente e, assim como o consumo regular de refrigerantes (20,8%) e a autoavaliação do consumo elevado de sal (15,6%), apresentaram maiores frequências entre os homens do que entre as mulheres (Tabela 1).

A prática de atividade física no tempo livre foi verificada em 35,3% da população, 30,0% das mulheres e 41,6% dos homens (RP = 0,73; IC95% 0,70 - 0,77). Por outro lado, o deslocamento ativo para o trabalho ou escola (a pé ou de bicicleta, em um percurso de pelo menos 10 minutos) foi relatado por 12,3% do total, sem diferenças entre os sexos. Enquanto isso, a prática insuficiente de atividade física no tempo livre, correspondente àqueles que não alcançam pelo menos 150 minutos de atividades físicas semanais, chegou a 48,7%, com maior frequência entre as mulheres (56%) do que entre os homens (40,1%; RP = 1,36; IC95% 1,30 - 1,42). Ainda, 15,4% da população foram considerados inativos nos 4 domínios, 14,7% das mulheres e 16,2% dos homens (RP = 0,87; IC95% 0,80 - 0,96) e 25,3% assistem à televisão por três ou mais horas diárias, com valores semelhantes entre homens e mulheres.

A autoavaliação de saúde ruim, relatada por 4,4% da população, foi mais frequente entre as mulheres (5,3%) do que entre os homens (3,4%; RP = 1,53; IC95% 1,26 - 1,86). O diagnóstico médico de hipertensão arterial foi referido por 24,8% e de dislipidemia por 20,0%, ambos mais frequentes entre as mulheres do que entre os homens. O diagnóstico de diabetes foi referido por 8% da população, 8,7% das mulheres e 7,3% dos homens, porém sem diferenças significativas quando ajustadas por idade e escolaridade (Tabela 1).

Na Ta bel a 2, são apresentadas as frequências dos indicadores estudados pelo Vigitel de acordo com a faixa etária da população, e razões de prevalência ajustadas por escolaridade, tendo como referência o grupo de 18 a 24 anos. A prevalência de fumantes tendeu a ser maior dos 25 a 34 anos e dos 45 aos 54 anos em relação aos mais jovens (18 a 24 anos). A prevalência de ex-fumantes tendeu a aumentar com a idade, atingindo seu pico a partir dos 45 anos de idade. A frequência de adultos considerados fumantes pesados (aqueles que consomem 20 ou mais cigarros/dia) aumentou a partir dos 25 a 34 anos de idade. Por outro lado, a frequência de fumantes passivos no domicílio tendeu a diminuir com o avanço da idade, com prevalência de 15,1% (IC95% 13,0 - 17,3) na população de 18 a 24 anos e de 7,5% (IC95% 7,3 - 8,8) na população de 65 anos ou mais. A frequência de fumantes passivos no local de trabalho diminuiu a partir dos 55 anos de idade (Ta bel a 2).

Tabela 2:
Distribuição dos fatores de risco e proteção para doenças crônicas na população adulta das capitais do Brasil e Distrito Federal, de acordo com a faixa etária, e razão de prevalência ajustada por escolaridade; Vigitel, 2014.

Tabela 2:
Continuação.

Tabela 2:
Continuação.

O consumo abusivo de bebidas alcoólicas teve maior frequência entre os 25 a 34 anos, reduzindo consideravelmente a partir dos 55 anos de idade. A condução de veículo automotor após o consumo de qualquer quantidade de bebida alcoólica foi maior dos 25 aos 44 anos, e menor na população com 65 anos ou mais de idade (Ta bel a 2).

As prevalências de excesso de peso e de obesidade aumentaram com o avanço da idade, especialmente até a faixa de 35 a 44 anos. Em relação ao consumo de frutas e hortaliças, o consumo regular aumentou gradativamente com o aumento da idade, e o consumo recomendado apresentou aumento a partir dos 35 aos 44 anos. O consumo regular de feijão apresentou leve redução a partir dos 45 anos. O consumo de carnes com excesso de gordura e de leite com teor integral de gordura foram mais frequentes entre os 18 e 34 anos de idade, apresentando redução gradual a partir dos 35 anos de idade. A redução com a idade também foi verificada para o consumo regular de refrigerantes e de doces e para o consumo elevado de sal. Para este último, a frequência chegou a ser 70% menor para o grupo de 65 anos ou mais em comparação ao grupo etário de 18 a 24 anos (RP = 0,3; IC95% 0,2 - 0,3). A substituição das refeições principais (almoço e/ou jantar) por lanches em sete ou mais dias da semana foi maior entre os adultos com 55 anos ou mais de idade (Ta bel a 2).

A prática de atividade física no tempo livre diminui consideravelmente com a idade, especialmente até os 35 a 44 anos de idade, e novamente entre os adultos de 65 anos ou mais, cuja prevalência foi 40% menor (22,8%; IC95% 21,0 - 25,5) em relação aos jovens de 18 a 24 anos (50,0%; IC95% 47,1 - 52,8; RP = 0,6; IC95% 0,5 - 0,7). O deslocamento ativo, para trabalho ou escola, diminui a partir dos 45 anos de idade. Por outro lado, a prática insuficiente de atividade física aumenta com o avanço da idade, a partir dos 35 - 44 anos, e a inatividade física, em todos os domínios, aumenta a partir dos 55 - 64 anos (Ta bel a 2).

A autoavaliação de saúde ruim tendeu a ser mais frequente a partir dos 55 anos de idade, no entanto, não foram verificadas diferenças significativas quando realizado ajuste por escolaridade. A frequência de diagnóstico médico de doenças como hipertensão arterial, diabetes e dislipidemias aumentou consideravelmente com a idade: para hipertensão, a partir dos 35 anos, chegou a ser 3 vezes mais prevalente do que entre os 18 e 24 anos (RP = 4,1; IC95% 3,1 - 5,3). Para diabetes, aumentou a partir dos 35 anos de idade (RP = 3,5; IC95% 1,9 - 6,6) e alcançou mais de um quinto da população de 65 anos ou mais (24,4%; IC95% 22,4 - 26,5). A dislipidemia acometeu mais de um terço da população e teve prevalência entre idosos até 4 vezes maior em relação aos mais jovens (RP = 5,2; IC95% 4,1 - 6,7) (Ta bel a 2).

Nas Tabelas 3 e 4, os mesmos indicadores são avaliados de acordo com a escolaridade. A prevalência de fumantes e ex-fumantes foi maior em homens e mulheres com até 8 anos de estudo, diminuindo com o aumento da escolaridade. Para o consumo de 20 ou mais cigarros ao dia, a frequência foi 60% menor para os homens de 12 anos ou mais de escolaridade em relação àqueles que estudaram até 8 anos (RP = 0,4; IC95% 0,3 - 0,5), sem diferenças em relação às mulheres.

Tabela 3:
Prevalência de fatores de risco e proteção para doenças crônicas na população adulta das capitais do Brasil e Distrito Federal, em homens segundo escolaridade, e razão de prevalência ajustada por idade; Vigitel, 2014.
Tabela 4:
Prevalência de fatores de risco e proteção para doenças crônicas na população adulta das capitais do Brasil e Distrito Federal, em mulheres segundo escolaridade, e razão de prevalência ajustada por idade; Vigitel, 2014.

A frequência de fumantes passivos no domicílio não teve variação segundo escolaridade. O percentual de homens fumantes passivos no local de trabalho diminuiu com o aumento da escolaridade (Tabela 3). Para as mulheres, a prevalência ajustada por idade foi menor entre as que estudaram 12 ou mais anos (RP = 0,6; IC95% 0,4 - 0,8) (Tabela 4).

Para o consumo abusivo de bebidas alcoólicas, entre homens, não foram verificadas diferenças significativas quando realizado ajuste por idade. A frequência do hábito de dirigir após consumo de qualquer quantidade de bebida aumentou gradualmente de acordo com a escolaridade dos homens (Tabela 3). Para as mulheres, a frequência de consumo abusivo de bebidas foi 60% maior entre as que estudaram 12 anos ou mais em relação às mulheres com menor escolaridade (RP = 1,6; IC95% 1,2 - 2,1). As mais escolarizadas também apresentaram maior prevalência do hábito de dirigir após consumo de bebidas alcoólicas (Tabela 4).

O excesso de peso não apresentou alteração por escolaridade para os homens, enquanto a obesidade foi menos frequente entre os homens com 12 ou mais anos de estudo do que entre os que estudaram até 8 anos (Tabela 3). Para as mulheres, verificou-se redução gradual do excesso de peso e da obesidade com o aumento da escolaridade (Tabela 4).

O consumo regular e recomendado de frutas e hortaliças em homens e mulheres foi maior entre os mais escolarizados. O consumo regular de feijão diminuiu em frequência com o aumento da escolaridade de homens e mulheres. O consumo de carnes com excesso de gordura foi menor entre homens e mulheres mais escolarizados, e o consumo de leite integral apresentou a mesma variação somente entre as mulheres (Tabelas 3 e 4).

Para homens, o consumo regular de refrigerantes não variou segundo a escolaridade e para mulheres foi menos frequente entre aquelas com 12 anos ou mais de estudo. O consumo regular de doces, a avaliação do consumo de sal elevado e a substituição de almoço e jantar por lanches foram mais frequentes entre homens e mulheres mais escolarizados (Tabelas 3 e 4).

Em ambos os sexos, a prática de atividade física no tempo livre aumentou com a escolaridade, enquanto a atividade física no deslocamento e o hábito de assistir televisão por três ou mais horas ao dia foi menor entre os mais escolarizados (Tabelas 3 e 4). Para as mulheres, a prática insuficiente de atividade física também foi maior entre as mais escolarizadas (Tabela 4).

Para homens e mulheres, a avaliação de saúde ruim e a frequência de diagnóstico médico de doenças como hipertensão arterial, diabetes e dislipidemias tendeu a ser maior entre os adultos de menor escolaridade. A prevalência ajustada mostrou redução gradativa da avaliação de saúde ruim com o aumento da escolaridade. Entre os homens, a menor frequência de diabetes e a maior frequência de dislipidemias foi verificada entre os mais escolarizados (Tabela 3). Entre as mulheres, a frequência de diagnóstico de hipertensão e diabetes diminuiu com a escolaridade, e para o diagnóstico de dislipidemias não houve variação significativa (Tabela 4).

DISCUSSÃO

O monitoramento dos fatores de risco e proteção das DCNT é de grande relevância para o apoio de políticas de promoção à saúde e enfrentamento das DCNT33. Brasil. Ministério da Saúde. Plano de ações estratégicas para o enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) no Brasil 2011-2022 [Internet]. Brasilia: Ministério da Saúde; 2011. 148 p. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/plano_acoes_enfrent_dcnt_2011.pdf (Acessado em 11 de janeiro de 2012).
http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoe...
66. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Doenças e Agravos não transmissíveis e Promoção da Saúde. Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico, Vigitel 2014. Brasília: Ministério da Saúde 2015. 154 p.. O estudo atual apresenta os resultados do nono ano do Vigitel, reforçando a importância desse monitoramento e consolidando-o como uma das principais fontes de informação de fatores de risco no país.

Os fatores de risco investigados foram mais frequentes entre os homens, em especial o tabaco e o consumo de álcool, e entre os menos escolarizados, caracterizando o gradiente socioeconômico e cultural na determinação de doenças crônicas. O diagnóstico de doenças crônicas e o excesso de peso foi maior entre os adultos de maior idade, como resultado do acúmulo da exposição a fatores de risco ao longo da vida.

O hábito de fumar vem perdendo adeptos a cada ano no Brasil66. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Doenças e Agravos não transmissíveis e Promoção da Saúde. Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico, Vigitel 2014. Brasília: Ministério da Saúde 2015. 154 p. 77. Malta DC, Iser BPM, Sá NNB, Yokota RT de C, Moura L de, Claro RM, et al. Trends in tobacco consumption from 2006 to 2011 in Brazilian capitals according to the VIGITEL survey. Cad Saúde Pública 2013; 29(4): 812-22., mas ainda assim acomete 10% da população, especialmente homens e de menor escolaridade. O país apresenta uma das menores prevalências do mundo88. Giovino GA, Mirza SA, Samet JM, Gupta PC, Jarvis MJ, Bhala N, et al. Tobacco use in 3 billion individuals from 16 countries: an analysis of nationally representative cross-sectional household surveys. Lancet 2012; 380(9842): 668-79.. Também na América Latina, outros países apresentam frequências bem mais elevadas como Chile (40,6%), Bolívia (26,6%), Equador (22,7%) e Argentina (21,9%)99. Organização Pan-Americana de la Salud. Informe sobre Control de Tabaco para la Región de las Américas. [Internet]. Washington, DC: OPS; 2013. 60 p. Disponível em: Disponível em: http://www.paho.org/hq/index.php?option=com_docman&task=doc_view&gid=23415&Itemid (Acessado em 29 de maio de 2015).
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A prevalência de tabagismo em 1989 era de 36,4%, reduzindo substancialmente nas últimas décadas em função de medidas adotadas no controle do tabagismo77. Malta DC, Iser BPM, Sá NNB, Yokota RT de C, Moura L de, Claro RM, et al. Trends in tobacco consumption from 2006 to 2011 in Brazilian capitals according to the VIGITEL survey. Cad Saúde Pública 2013; 29(4): 812-22. 1010. Malta DC, Silva Junior JB. O plano de ações estratégicas para o enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis no Brasil e a definição das metas globais para o enfrentamento dessas doenças até 2025: uma revisão. Epidemiol Serv Saúde 2013; 22(1):151-64. 1111. Brasil. Presidência da República / Casa Civil. Decreto no 8.262, de 31 de maio de 2014. Altera o Decreto no 2.018, de 1o de outubro de 1996, que regulamenta a Lei no 9.294, de 15 de julho de 1996. [Internet]. DECRETO No 8.262 May 31, 2014 p. 1. Disponível em: Disponível em: http://presrepublica.jusbrasil.com.br/legislacao/121697845/decreto-8262-14 (Acessado em 27 de abril de 2015).
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. Em 2014, o decreto presidencial sobre ambientes livre do fumo proibiu o uso de cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos, narguilé ou outro produto fumígeno, derivado ou não do tabaco, em recintos coletivos fechados e vetou toda propaganda e promoção do cigarro, além de ampliar as mensagens sanitárias e advertências nas embalagens. Além disto, aumentou os impostos e definiu preço mínimo dos cigarros1111. Brasil. Presidência da República / Casa Civil. Decreto no 8.262, de 31 de maio de 2014. Altera o Decreto no 2.018, de 1o de outubro de 1996, que regulamenta a Lei no 9.294, de 15 de julho de 1996. [Internet]. DECRETO No 8.262 May 31, 2014 p. 1. Disponível em: Disponível em: http://presrepublica.jusbrasil.com.br/legislacao/121697845/decreto-8262-14 (Acessado em 27 de abril de 2015).
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. Estas medidas estão em sintonia com as boas práticas preconizadas pela OMS44. World Health Organization. Global status report on noncommunicable diseases 2014 [Internet]. Geneva: World Health Organization; 2014. 298 p. Disponível em: Disponível em: http://www.who.int/nmh/publications/ncd-status-report-2014/en/ (Acessado em 28 de janeiro de 2015).
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O consumo de bebidas alcoólicas e o perigoso hábito de dirigir após o consumo mostrou-se relacionado a homens, jovens e de maior escolaridade, sendo também um fator cultural importante a ser reprimido pela própria sociedade. Em 2012, mais de 3,3 milhões de pessoas morreram em todo o mundo devido ao consumo de álcool, número que representa 6% de todas as mortes ocorridas no planeta1212. World Health Organization. Global Status Report on Alcohol and Health. Geneva: WHO. World Health Organization; 2010. . Como resultado da implantação da Lei nº 11.705, de 19 de junho de 2008 (a Chamada "Lei Seca")1313. Brasil. Presidência da República. Lei n. 11.705, de 19 de junho de 2008. Dispõe sobre o consumo de bebida alcoólica por condutor de veículo automotor, e dá outras providências. 11.705 Jun 20, 2008. e da aprovação da Lei nº 12.760/20121414. Brasil. Lei n. 12.760, de 20 de dezembro de 2012. Altera a Lei no 9.503, de 23 de setembro de 1997, que institui o Código de Trânsito Brasileiro. dezembro, 2012. (que aumenta o valor da multa, além de autorizar o uso de provas como vídeos, testemunhos ou outros meios, como forma de comprovar, no processo criminal, a embriaguez do motorista), houve redução da prática do consumo abusivo do álcool relacionada à direção1515., Malta DC, Berna RTI, Silva MMA da, Claro RM, Da JB, et al. Consumption of alcoholic beverages, driving vehicles, a balance of dry law, Brazil 2007-2013. Rev Saúde Pública 2014; 48(4): 692-966..

O consumo de frutas e hortaliças foi referido por mais de um terço dos brasileiros e o recomendado (cinco porções diárias ou 400 g de frutas e hortaliças), por cerca de um quarto dos adultos, sendo mais frequente entre as mulheres e idosos. O consumo de frutas e hortaliças previne doenças cardiovasculares, diabetes, câncer, sendo recomendado o aumento do seu consumo nos guias alimentares do Brasil1616. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Coordenação Geral de Alimentação e Nutrição. Guia Alimentar para a população brasileira , versão para consulta pública n 04 [Internet]. 2014. Disponível em: Disponível em: http://www.foodpolitics.com/wp-content/uploads/Brazils-Dietary-Guidelines_2014.pdf (Acessado em 27 de abril de 2014).
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e do mundo44. World Health Organization. Global status report on noncommunicable diseases 2014 [Internet]. Geneva: World Health Organization; 2014. 298 p. Disponível em: Disponível em: http://www.who.int/nmh/publications/ncd-status-report-2014/en/ (Acessado em 28 de janeiro de 2015).
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. A substituição das refeições por lanches e o consumo de doces e de sal mostrou frequências elevadas, enfatizando a importância das ações de comunicação sobre a alimentação saudável e a difusão dos benefícios do consumo de alimentos in natura e redução no consumo de alimentos ultraprocessados, conforme as recomendações do Guia Alimentar para a População Brasileira1010. Malta DC, Silva Junior JB. O plano de ações estratégicas para o enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis no Brasil e a definição das metas globais para o enfrentamento dessas doenças até 2025: uma revisão. Epidemiol Serv Saúde 2013; 22(1):151-64. 1616. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Coordenação Geral de Alimentação e Nutrição. Guia Alimentar para a população brasileira , versão para consulta pública n 04 [Internet]. 2014. Disponível em: Disponível em: http://www.foodpolitics.com/wp-content/uploads/Brazils-Dietary-Guidelines_2014.pdf (Acessado em 27 de abril de 2014).
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. Esses indicadores de uma alimentação inadequada, associados ao baixo percentual de adultos que realizam atividades físicas no tempo livre em intensidade/duração recomendados, possivelmente contribuem para a proporção elevada (52,5%) de excesso de peso na população, um dos dados mais preocupantes do estudo.

Apesar da tendência de aumento verificado nos últimos anos1717. Malta DC, Andrade SC, Claro RM, Bernal RTI, Monteiro CA. Trends in prevalence of overweight and obesity in adults in 26 Brazilian state capitals and the Federal District from 2006 to 2012. Rev Bras Epidemiol 2014; 17: 267-76., em 2014, pelo terceiro ano seguido, a prevalência da obesidade não apresentou crescimento. Estudos mostram outros países da América Central e do Sul têm aumentado suas prevalências de obesidade nas últimas três décadas1818. Finucane MM, Stevens GA, Cowan MJ, Danaei G, Lin JK, Paciorek CJ, et al. National, regional, and global trends in body-mass index since 1980: systematic analysis of health examination surveys and epidemiological studies with 960 country-years and 9·1 million participants. Lancet 2011; 377(9765): 557-67.. Países como México e Chile apresentam as mais altas taxas de excesso de peso na América Latina (71,3% no México e 64,5% no Chile)1919. Barquera S, Campos-Nonato I, Hernández-Barrera L, Pedroza A, Rivera-Dommarco JA. Prevalencia de obesidad en adultos mexicanos, 2000-2012. Salud Pública Méx 2013; 55: S151-60. 2020. Chile. Ministerio de la Salud. Encuesta Nacional de Salud de Chile 2009-2010 [Internet]. Chile; 2011. Disponível em: Disponível em: http://web.minsal.cl/portal/url/item/bcb03d7bc28b64dfe040010165012d23.pdf (Acessado em 31 de maio de 2015).
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A prática de atividade física pode ser avaliada em diferentes domínios: no lazer, no deslocamento diário para trabalho e/ou escola, nas atividades de trabalho e no ambiente doméstico. Atividades sedentárias parecem prevalecer na população em relação à rotina ativa, em virtude do ritmo de vida das pessoas, trânsito massivo nas capitais do país e até mesmo questões de segurança que inibem a prática de atividades ao ar livre, além de diminuir a disponibilidade, dedicação e a disposição para atividades que exijam esforços físicos fora do ambiente do trabalho.

A atividade física no tempo livre foi mais frequente entre jovens, homens e mais escolarizados. A boa notícia é que esta prática têm crescido entre adultos de ambos os sexos. A prática de atividade física insuficiente (menos de 150 minutos semanais de atividade física moderada ou equivalente) foi referida por cerca de metade da população adulta, e os compromissos do Plano Global de Enfrentamento das DCNT preveem a redução do sedentarismo em 10% até 20252121. World Health Organization. WHO | Global Action Plan for the Prevention and Control of NCDs 2013-2020 [Internet]. WHA66.10 ed.; Geneva: World Health Organization 2013. 55 p. Disponível em: Disponível em: http://www.who.int/nmh/events/ncd_action_plan/en/ (Acessado em 27 de janeiro de 2014).
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. Estudos comparativos globais apontam prevalência de 43,2% no mundo, entre indivíduos com 15 anos ou mais2222. Hallal PC, Andersen LB, Bull FC, Guthold R, Haskell W, Ekelund U. Global physical activity levels: surveillance progress, pitfalls, and prospects. Lancet 2012; 380(9838): 247-57., além de apontar que homens tendem a ser fisicamente mais ativos que mulheres. No Brasil, destaca-se a implantação do Programa "Academia da Saúde", visando construir espaços físicos para o desenvolvimento de ações de promoção da saúde e da prática da atividade física, conduzidas por profissionais de saúde em conjunto com a comunidade2323. Malta DC, da Silva JB. Policies to promote physical activity in Brazil. Lancet 2012; 380(9838): 195-6..

A presença de doenças como hipertensão, diabetes e dislipidemias, embora avaliada de forma referida e, por isso, dependente do acesso aos serviços de saúde para diagnóstico2424. Lima-Costa MF, Peixoto SV, Firmo JO, Uchoa E. Validity of self-reported diabetes and its determinants: evidences from the Bambui study. Rev Saude Publica 2007; 41(6): 947-53., aumenta com a idade da população e em geral é mais frequente entre as mulheres e menos escolarizados, sendo em muito reflexo do estilo de vida adotado por esta população2525. Danaei G, Finucane MM, Lu Y, Singh GM, Cowan MJ, Paciorek CJ, et al. National, regional, and global trends in fasting plasma glucose and diabetes prevalence since 1980: systematic analysis of health examination surveys and epidemiological studies with 370 country-years and 2.7 million participants. Lancet 2011; 378(9785): 31-40. 2626. Danaei G, Finucane MM, Lin JK, Singh GM, Paciorek CJ, Cowan MJ, et al. National, regional, and global trends in systolic blood pressure since 1980: systematic analysis of health examination surveys and epidemiological studies with 786 country-years and 5.4 million participants. Lancet 2011; 377(9765): 568-77.. A hipertensão arterial foi referida por cerca de um quarto da população, a dislipidemia por um quinto e 8% referiram diabetes.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Dentre os limites do estudo, destacamos a representatividade limitada às capitais do Brasil e com amostragem vinculada à cobertura de telefonia fixa, resultando no emprego de metodologias de pós-estratificação para minimizar possível vieses66. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Doenças e Agravos não transmissíveis e Promoção da Saúde. Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico, Vigitel 2014. Brasília: Ministério da Saúde 2015. 154 p..

Os resultados do Vigitel 2014 permitem traçar um panorama do comportamento em saúde da população adulta das capitais brasileiras e tem sido utilizados continuamente para o conhecimento da frequência e distribuição sociodemográfica dos fatores de risco e proteção para o desenvolvimento de doenças crônicas na população. Os resultados anuais tem subsidiado o monitoramento das metas nacionais estabelecidas no Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas não Transmissíveis (DCNT) 2011 - 202233. Brasil. Ministério da Saúde. Plano de ações estratégicas para o enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) no Brasil 2011-2022 [Internet]. Brasilia: Ministério da Saúde; 2011. 148 p. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/plano_acoes_enfrent_dcnt_2011.pdf (Acessado em 11 de janeiro de 2012).
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1010. Malta DC, Silva Junior JB. O plano de ações estratégicas para o enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis no Brasil e a definição das metas globais para o enfrentamento dessas doenças até 2025: uma revisão. Epidemiol Serv Saúde 2013; 22(1):151-64..

AGRADECIMENTOS

Agradecemos aos demais colaboradores do Vigitel 2014: Marta Maria Alves da Silva, Taís Porto Oliveira, Elier Broche Cristo, Maria Aline Siqueira Santos, Naiane de Brito Francischetto, Paula Carvalho de Freitas, Silvania Suely Caribé de Araújo Andrade, Marilia Lavocat Nunes, Max Moura de Oliveira, Maryane Oliveira-Campos, Larissa Loures Mendes, Isis Eloah Machado, Ana Paula Della Nina de Oliveira, Emanuella Gomes Maia, Jacqueline Barros Sales, Flávia Avelino Goursand, Regina Rodrigues, José Nilson dos Santos Júnior, Juliano Ribeiro Moreira.

REFERÊNCIAS

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  • Fonte de financiamento: nenhuma.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Dez 2015

Histórico

  • Recebido
    03 Jun 2015
  • Aceito
    05 Out 2015
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