Convergência no consumo abusivo de álcool nas capitais brasileiras entre sexos, 2006 a 2019: o que dizem os inquéritos populacionais

Deborah Carvalho Malta Alanna Gomes da Silva Elton Junio Sady Prates Francielle Thalita Almeida Alves Elier Broche Cristo Ísis Eloah Machado Sobre os autores

ABSTRACT:

Objective:

To analyze the temporal trend of the prevalence of alcohol abuse among adults in Brazilian capitals, between 2006 and 2019.

Methods:

Time series study, based on data from the Surveillance System for Risk and Protective Factors for Chronic Diseases by Telephone Survey (Vigitel), between 2006 and 2019. The population consisted of adults (≥ 18 years old) with landline telephone residing in Brazilian capitals. The trend analysis was performed by linear regression.

Results:

Between 2006 and 2019 there was a significant increase (p = 0.03) in the abusive consumption of alcoholic beverages in the total adult population, from 15.6 to 18.8%. Among men, there was a stability trend (p = 0.96), and among women, there was an increase from 7.7 to 13.3% (p < 0.001; β = 0.295). In the male gender stratified by capitals, from 2006 to 2019 there was a reduction in Belém, Fortaleza, João Pessoa, Macapá, Manaus, Natal, Recife, São Luis, and Teresina. On the other hand, there was growth in the Federal District. Among women, the trend was upward in: Aracaju, Belo Horizonte, Cuiabá, Curitiba, Florianópolis, Goiânia, Palmas, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo, Vitória, and the Federal District.

Conclusion:

The results indicate that more adult women are currently drinking in excess compared to previous years, suggesting an increased risk of alcohol-related harm in this portion of the population in Brazilian capitals, bringing about a convergence effect with the prevalence among men and women.

Keywords:
Alcohol drinking; Men; Women; Time series studies

RESUMO:

Objetivo:

Analisar a tendência temporal da prevalência do uso abusivo de bebidas alcoólicas em adultos nas capitais brasileiras, entre 2006 e 2019.

Métodos:

Estudo de série temporal, com base nos dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), entre 2006 e 2019. A população foi constituída de adultos (≥ 18 anos) residentes nas capitais brasileiras com telefone fixo. Utilizou-se a regressão linear para análise da tendência.

Resultados:

Entre 2006 e 2019, houve aumento significativo (p = 0,03) do consumo abusivo de bebidas alcoólicas para o total da população adulta, de 15,6 para 18,8%. Entre os homens, a tendência foi de estabilidade (p = 0,96), e entre as mulheres, ocorreu aumento de 7,7 para 13,3% (p < 0,001; β = 0,295). Quando estratificado por capitais e sexo masculino, de 2006 a 2019 ocorreu redução em Belém, Fortaleza, João Pessoa, Macapá, Manaus, Natal, Recife, São Luís e Teresina. Em contrapartida, houve crescimento no Distrito Federal. Entre o sexo feminino, a tendência foi de aumento em: Aracaju, Belo Horizonte, Cuiabá, Curitiba, Florianópolis, Goiânia, Palmas, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo, Vitória e Distrito Federal.

Conclusão:

os resultados indicaram que mais mulheres adultas estão atualmente bebendo em excesso em comparação aos anos anteriores, sugerindo aumento dos riscos de danos relacionados ao álcool nessa parcela da população nas capitais brasileiras, trazendo um efeito de convergência com as prevalências entre homens e mulheres.

Palavras-chave:
Consumo de bebidas alcoólicas; Homens; Mulheres; Estudos de séries temporais

INTRODUÇÃO

O consumo de bebidas alcoólicas é um comportamento incentivado na maioria das culturas, em razão de celebrações, socialização, cerimônias religiosas e outras práticas e eventos sociais11. World Health Organization. Strategies to reduce the harmful use of alcohol [Internet]. Genebra: World Health Organization; 2008 [accessed on nov. 9. 2020]. Available at: http://apps.who.int/gb/ebwha/pdf_files/A61/A61_13-en.pdf
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,22. World Health Organization. Global Status Reporter 2018. Genebra: World Health Organization; 2018., entretanto o álcool é um importante problema de saúde pública11. World Health Organization. Strategies to reduce the harmful use of alcohol [Internet]. Genebra: World Health Organization; 2008 [accessed on nov. 9. 2020]. Available at: http://apps.who.int/gb/ebwha/pdf_files/A61/A61_13-en.pdf
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33. World Health Organization. Global status report on alcohol and health. Genebra: World Health Organization; 2011., pois seu consumo crônico pode causar malefícios e dependência, resultando em doenças mentais, hepáticas, cardiovasculares, neoplasias, entre outras. Os problemas advindos do uso episódico e agudo também constituem significativo fator de risco para a violência (agressões, homicídios, suicídios), acidentes de transporte e trabalho etc.33. World Health Organization. Global status report on alcohol and health. Genebra: World Health Organization; 2011.55. Gawryszewski VP, Monteiro MG. Mortality from diseases, conditions and injuries where alcohol is a necessary cause in the Americas, 2007–09. Addiction 2014; 109(4): 570-7. https://doi.org/10.1111/add.12418
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. Ademais, acarreta um custo econômico global que ultrapassa 1% do produto interno bruto (PIB) dos países de média e alta renda66. Rehm J, Mathers C, Popova S, Thavorncharoensap M, Teerawattananon Y, Patra J. Global burden of disease and injury and economic cost attributable to alcohol use and alcohol-use disorders. Lancet 2009; 373(9682): 2223-33. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(09)60746-7
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.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, a cada ano, ocorram aproximadamente três milhões de mortes associadas ao uso do álcool, o que representa 5,3% de todos os óbitos44. World Health Organization. Harmful use of alcohol [Internet]. Genebra: World Health Organization; 2019 [accessed on Nov 10. 2020]. Available at: http://www.emro.who.int/noncommunicable-diseases/causes/harmful-use-of-alcohol.html
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. O álcool é o principal fator de risco para mortalidade prematura e incapacidade na população com idade entre 15 e 49 anos, causando 10% de todas as mortes nessa faixa etária77. GBD 2016 Alcohol Collaborators. Alcohol use and burden for 195 countries and territories, 1990-2016: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2016. Lancet 2018; 392(10152): 1015-35. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(18)31310-2
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,88. Institute for Health Metrics and Evaluation. GBD Compare, Viz Hub. Institute for Health Metrics and Evaluation [Internet]. Institute for Health Metrics and Evaluation; 2019 [accessed on Jan 21. 2021]. Available at: https://vizhub.healthdata.org/gbd-compare/
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. No Brasil, o consumo de álcool foi o sexto fator de risco em 2019 para perda de anos de vida ajustados por incapacidade (disability-adjusted life years — DALYs), acarretando 3.716.649 milhões (5,69%) de DALYs77. GBD 2016 Alcohol Collaborators. Alcohol use and burden for 195 countries and territories, 1990-2016: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2016. Lancet 2018; 392(10152): 1015-35. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(18)31310-2
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,88. Institute for Health Metrics and Evaluation. GBD Compare, Viz Hub. Institute for Health Metrics and Evaluation [Internet]. Institute for Health Metrics and Evaluation; 2019 [accessed on Jan 21. 2021]. Available at: https://vizhub.healthdata.org/gbd-compare/
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.

Os efeitos do álcool no organismo variam de acordo com a rapidez e a frequência com que é ingerido, com o metabolismo, a vulnerabilidade genética, o sexo e o estilo de vida. Uma vez absorvido, atinge todas as partes do corpo, levando à diminuição da coordenação motora e dos reflexos. O efeito inicial promove um estado de euforia e desinibição, mas, se consumido em quantidades maiores, ocorre o oposto, causando a depressão do sistema nervoso11. World Health Organization. Strategies to reduce the harmful use of alcohol [Internet]. Genebra: World Health Organization; 2008 [accessed on nov. 9. 2020]. Available at: http://apps.who.int/gb/ebwha/pdf_files/A61/A61_13-en.pdf
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,99. Mascarenhas MDM, Malta DC, Silva MMA, Carvalho CG, Monteiro RA, Morais Neto OL. Consumo de álcool entre vítimas de acidentes e violências atendidas em serviços de emergência no Brasil, 2006 e 2007. Ciênc Saúde Coletiva 2009; 14(5): 1789-96. https://doi.org/10.1590/S1413-81232009000500020
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.

Estudos evidenciam que o consumo abusivo de bebidas alcoólicas tem aumentando globalmente, com diferenças entre os sexos, bem como os transtornos por ingestão de álcool e as internações hospitalares decorrentes desse uso1010. Grucza RA, Sher KJ, Kerr WC, Krauss MJ, Lui CK, McDowell YE, et al. Trends in Adult Alcohol Use and Binge Drinking in the Early 21 st Century United States: A Meta-Analysis of Six National Survey Series. Alcohol Clin Exp Res 2018; 42(10): 1939-50. https://doi.org/10.1111/acer.13859
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1414. White A, Castle IJP, Chen CM, Shirley M, Roach D, Hingson R. Converging Patterns of Alcohol Use and Related Outcomes Among Females and Males in the United States, 2002 to 2012. Alcohol Clin Exp Res 2015; 39(9): 1712-26. https://doi.org/10.1111/acer.12815
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. O crescimento do consumo de álcool entre mulheres e a convergência entre as prevalências segundo sexo têm sido descritos na literatura1313. Grant BF, Chou SP, Saha TD, Pickering RP, Kerridge BT, Ruan WJ, et al. Prevalence of 12-month alcohol use, high-risk drinking, and DSM-IV alcohol use disorder in the United States, 2001–2002 to 2012–2013: Results from the National Epidemiologic Survey on Alcohol and Related Conditions. JAMA Psychiatry 2017; 74(9): 911-23. https://doi.org/10.1001/jamapsychiatry.2017.2161
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,1414. White A, Castle IJP, Chen CM, Shirley M, Roach D, Hingson R. Converging Patterns of Alcohol Use and Related Outcomes Among Females and Males in the United States, 2002 to 2012. Alcohol Clin Exp Res 2015; 39(9): 1712-26. https://doi.org/10.1111/acer.12815
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, entretanto ainda não existem muitos estudos que investiguem esse fenômeno no Brasil.

Com o propósito de reduzir o consumo nocivo do álcool e seu impacto para a saúde, a OMS e os países-membros definiram a meta para diminuição desse consumo em 10%1515. World Health Organization. Global Action Plan for the Prevention and Control of NCDs 2013-2020 [Internet]. Genebra: World Health Organization; 2013 [accessed on Nov 10. 2020]. Available at: http://www.who.int/nmh/events/ncd_action_plan/en/
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. O tema também foi incluído nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que têm como meta fortalecer a prevenção e o tratamento do abuso de substâncias, incluindo o abuso de drogas narcóticas e o uso prejudicial de álcool1616. Organização das Nações Unidas. Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Agenda 2030 [Internet]. Organização das Nações Unidas; 2020 [accessed on Nov 10. 2020]. Available at: http://www.agenda2030.org.br/ods/3/
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. Contudo torna-se ainda necessário instituir medidas e políticas públicas que promovam avanços, bem como estabelecer sistemas de monitoramento do consumo de álcool e dos padrões de morbimortalidade.

Com base no exposto, objetivou-se analisar a tendência temporal da prevalência do uso abusivo de bebidas alcoólicas em adultos nas capitais brasileiras, entre 2006 e 2019.

MÉTODOS

DESENHO DO ESTUDO E COLETA DE DADOS

Trata-se de estudo de série temporal da prevalência de uso abusivo de álcool entre adultos residentes nas capitais brasileiras.

Utilizaram-se os dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), entre os anos de 2006 e 2019. O Vigitel é um inquérito telefônico de base populacional realizado pelo Ministério da Saúde, que monitora anualmente a frequência e distribuição dos principais fatores de risco e proteção para as doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), entre eles o consumo de bebidas alcóolicas. Desde 2006, é entrevistada todos os anos uma amostra probabilística de adultos com 18 anos ou mais, residentes em domicílios com telefone fixo, nas 26 capitais brasileiras e no Distrito Federal. São realizadas aproximadamente duas mil entrevistas em cada cidade, totalizando cerca de 54 mil por ano.

As entrevistas feitas pelo Vigitel são associadas a fatores de ponderação, para que sejam representativas do conjunto total da população adulta de cada cidade, em função da baixa cobertura de linhas telefônicas. Para tanto, é atribuído um peso a cada indivíduo, visando corrigir diferenças na probabilidade de seleção dos entrevistados e igualar a composição sociodemográfica da população servida por linhas telefônicas domiciliares àquela da população adulta total de cada cidade em cada ano de levantamento do inquérito, denominado de peso pós-estratificação. Detalhes sobre o processo de amostragem e de coleta de dados são fornecidos nas publicações do Vigitel1717. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise em Saúde e Vigilância de Doenças Não Transmissíveis. Vigitel Brasil 2019: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico: estimativas sobre frequência e distribuição sociodemográfica de fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal em 2019. Brasília: Ministério da Saúde; 2020.,1818. Bernal RTI, Iser BPM, Malta DC, Claro RM. Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel): mudança na metodologia de ponderação. Rev Bras Epidemiol 2017; 26(4): 701-12. https://doi.org/10.5123/s1679-49742017000400003
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.

DEFINIÇÃO DOS INDICADORES

Para o presente estudo, utilizaram-se as seguintes perguntas do Vigitel1717. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise em Saúde e Vigilância de Doenças Não Transmissíveis. Vigitel Brasil 2019: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico: estimativas sobre frequência e distribuição sociodemográfica de fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal em 2019. Brasília: Ministério da Saúde; 2020.:

  • O(a) sr.(a) costuma consumir bebida alcoólica? Para quem responde sim, são feitas outras perguntas sobre frequência: com que frequência costuma consumir alguma bebida alcoólica? Tem-se as seguintes alternativas: um ou dois dias por semana; três ou quatro dias por semana; cinco ou seis dias por semana; todos os dias; ou menos de um dia por semana.

    O indicador de consumo abusivo por sexo foi avaliado pelas seguintes perguntas:

    • Para homens: nos últimos 30 dias, o sr. chegou a consumir cinco ou mais doses de bebida alcoólica em uma única ocasião? Considera-se aqui quem responde sim;

    • Para mulheres: nos últimos 30 dias, a sra. chegou a consumir quatro ou mais doses de bebida alcoólica em uma única ocasião? Considera-se aqui quem responde sim.

O indicador analisado no estudo foi o consumo abusivo do álcool ou binge drinking – uso pesado episódico do álcool, que constitui um volume excessivo de álcool em um curto espaço de tempo, cinco ou mais doses de bebidas padrão (uma dose de bebida alcoólica ou equivalente contém 12 g de álcool puro, cerca de 60 g) para homens e quatro ou mais doses para as mulheres (48 g)22. World Health Organization. Global Status Reporter 2018. Genebra: World Health Organization; 2018.,1717. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise em Saúde e Vigilância de Doenças Não Transmissíveis. Vigitel Brasil 2019: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico: estimativas sobre frequência e distribuição sociodemográfica de fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal em 2019. Brasília: Ministério da Saúde; 2020..

ORGANIZAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS

Estratificaram-se os indicadores segundo sexo (feminino e masculino); faixa etária (18 a 24; 25 a 34; 35 a 44; 45 a 54; 55 a 64; e 65 anos ou mais); regiões (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul); escolaridade (0 a 8; 9 a 11; e 12 anos ou mais de estudo); e capitais brasileiras estratificadas por sexo.

O percentual de adultos que consumiram bebidas alcoólicas de forma abusiva foi calculado pela relação do número de adultos que consumiram bebida alcoólica de forma abusiva pelo total de entrevistados.

Para identificar a existência de tendência linear do indicador, utilizou-se o modelo de regressão linear, tendo como variável dependente a prevalência do consumo abusivo de álcool e como variável explicativa o ano do levantamento. O valor do coeficiente angular (β) desses modelos expressou a variação média anual (aumento ou redução) da prevalência do consumo abusivo de bebidas alcóolicas. Considerou-se a existência de tendência linear significativa quando o β do modelo se mostrou diferente de 0 para p inferior a 0,05.

Para análise dos dados, consideraram-se os pesos pós-estratificação usados no Vigitel1717. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise em Saúde e Vigilância de Doenças Não Transmissíveis. Vigitel Brasil 2019: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico: estimativas sobre frequência e distribuição sociodemográfica de fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal em 2019. Brasília: Ministério da Saúde; 2020.,1818. Bernal RTI, Iser BPM, Malta DC, Claro RM. Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel): mudança na metodologia de ponderação. Rev Bras Epidemiol 2017; 26(4): 701-12. https://doi.org/10.5123/s1679-49742017000400003
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. Realizaram-se as análises no software Stata (Stata Corp LP, College Station, Texas, Estados Unidos), versão 14.0.

ASPECTOS ÉTICOS

Os dados do Vigitel estão disponíveis para acesso e uso público, e sua coleta foi aprovada pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa envolvendo Seres Humanos do Ministério da Saúde, parecer consubstanciado número 355.590. Obteve-se o consentimento livre e esclarecido oralmente, no momento do contato telefônico com os entrevistados.

RESULTADOS

Entre 2006 e 2019, houve aumento significativo (p = 0,03) do consumo abusivo de bebidas alcoólicas para o total da população adulta, de 15,6 para 18,8%, com taxa de crescimento de 0,157. Entre os homens, a tendência foi de estabilidade (p = 0,96), e entre as mulheres, ocorreu aumento significativo (p < 0,001), de 7,7 para 13,3% (β = 0,295). Destaca-se que a prevalência entre homens foi cerca de três vezes mais elevada em 2006 e reduziu para cerca de duas vezes em 2019, apresentando tendência de convergência das curvas.

Em relação à escolaridade, a tendência foi de crescimento apenas para aqueles com 12 anos ou mais de estudo (p = 0,05), passando de 17,9 para 23,1%, e para os demais anos, a tendência foi de estabilidade. Ocorreu aumento significativo da prevalência desse consumo entre os indivíduos de 25 a 44 anos e entre aqueles de 55 a 64 anos, sendo a maior magnitude de aumento para aqueles de 25 a 34 anos de idade (β = 0,339). Segundo região, ocorreu crescimento significativo (p < 0,05) no Centro-Oeste, Sudeste e Sul, e nas regiões Norte e Nordeste foram estáveis as prevalências ao longo dos anos (Tabela 1).

Tabela 1
Tendência temporal da prevalência do consumo abusivo de bebidas alcoólicas, segundo características sociodemográficas. Vigitel. Capitais brasileiras, 2006 a 2019.

Quando estratificado por capitais e sexo masculino, de 2006 a 2019, ocorreu redução do consumo abusivo de bebidas alcóolicas em nove capitais: Belém, de 26,9 para 25,4% (p = 0,04; β = −0,485); Fortaleza, de 25,9 para 24,1% (p = 0,03; β = −0,434); João Pessoa, de 28,6 para 26,2% (p = 0,02; β = −0,399); Macapá, de 29,3 para 26% (p = 0,04; β = −0,472); Manaus, de 28,6 para 21,9% (p = 0,01; β = −0,613); Natal, de 27,5 para 20,8% (p = 0,02; β = −0,491); Recife, de 32,5 para 25,6% (p = 0,03; β = −0,395); São Luís, de 30 para 24,5% (p < 0,001; β = −0,61); e Teresina, de 31,1 para 26,6% (p = 0,01; β = −0,605). Em contrapartida, no Distrito Federal houve crescimento significativo das prevalências, de 22,1 para 30,9% (p < 0,001; β = 0,812). Para as demais capitais, as tendências foram de estabilidade (p > 0,05) (Figura 1; Material Suplementar 1).

Figura 1
Prevalência do consumo abusivo de bebidas alcoólicas, segundo capitais brasileiras* e sexo masculino. Vigitel. Capitais brasileiras, 2006 e 2019.

Entre o sexo feminino, verificou-se comportamento distinto em relação aos homens. A tendência foi de aumento significativo do consumo abusivo de bebidas alcoólicas em 13 capitais: Aracaju, de 8,2 para 12,7% (p < 0,001; β = 0,365); Belo Horizonte, de 12,1 para 15,2% (p < 0,01; β = 0,341); Cuiabá, de 7,7 para 10,9% (p < 0,001; β = 0,381); Curitiba, de 4,8 para 8,9% (p = 0,01; β = 0,335); Florianópolis, de 7,1 para 13,5% (p < 0,001; β = 0,377); Goiânia, de 7,4 para 14,4% (p < 0,001; β = 0,446); Palmas, de 9,9 para 17,4% (p < 0,001; β = 0,384); Porto Alegre, de 6,7 para 13% (p = 0,01; β = 0,283); Rio de Janeiro, de 9,6 para 17,6% (p = 0,01; β = 0,291); Salvador, de 11,5 para 18,1% (p = 0,05; β = 0,268); São Paulo, de 4,7 para 12,1% (p < 0,001; β = 0,458); Vitória, de 10,8 para 12,3% (p = 0,02; β = 0,243); e Distrito Federal, de 8,7 para 17,1% (p = 0,01; β = 0,484). Para as demais capitais, as tendências foram de estabilidade (p > 0,05) (Figura 2; Material Suplementar 2).

Figura 2
Prevalência do consumo abusivo de bebidas alcoólicas, segundo capitais brasileiras e sexo feminino. Vigitel. Capitais brasileiras*, 2006 e 2019.

DISCUSSÃO

O estudo apontou o aumento da tendência do consumo abusivo do álcool na população total e entre as mulheres, mantendo-se estável entre os homens. Observou-se crescimento do consumo abusivo de álcool nos mais escolarizados, naqueles com idade de 25 a 44 anos e de 55 a 64 anos, bem como nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. Entre os homens, houve aumento apenas no Distrito Federal e redução em nove capitais. Todavia, entre mulheres ocorreu aumento em 13 capitais.

O consumo excessivo de álcool (binge drinking) em um curto espaço de tempo pode resultar em eventos graves como violência, acidentes de trânsito, acidentes em geral, intoxicação alcoólica, sexo inseguro, gravidez não planejada e doenças sexualmente transmissíveis22. World Health Organization. Global Status Reporter 2018. Genebra: World Health Organization; 2018.,1919. Kuntsche E, Kuntsche S, Thrul J, Gmel G. Binge drinking: Health impact, prevalence, correlates and interventions. Psychol Health 2017; 32(8): 976-1017. https://doi.org/10.1080/08870446.2017.1325889
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.

A prevalência do binge drinking é mais elevada entre indivíduos jovens, que participam de forma mais frequente de eventos sociais1919. Kuntsche E, Kuntsche S, Thrul J, Gmel G. Binge drinking: Health impact, prevalence, correlates and interventions. Psychol Health 2017; 32(8): 976-1017. https://doi.org/10.1080/08870446.2017.1325889
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, e em países das Américas, incluindo o Brasil22. World Health Organization. Global Status Reporter 2018. Genebra: World Health Organization; 2018.. Estudos identificaram mudanças nos padrões desse consumo conforme a idade, com redução entre adolescentes e adultos com até 30 anos e aumento entre aqueles com idade de 31 a 64 anos2020. White AM, Slater ME, Ng G, Hingson R, Breslow R. Trends in Alcohol-Related Emergency Department Visits in the United States: Results from the Nationwide Emergency Department Sample, 2006 to 2014. Alcohol Clin Exp Res 2018; 42(2): 352-9. https://doi.org/10.1111/acer.13559
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,2121. Keyes KM, Jager J, Mal-Sarkar T, Patrick ME, Rutherford C, Hasin D. Is There a Recent Epidemic of Women's Drinking? A Critical Review of National Studies. Alcohol Clin Exp Res 2019; 43(7): 1344-59. https://doi.org/10.1111/acer.14082
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. Esses achados assemelham-se com os do presente estudo, que apontou estabilidade nas faixas etárias mais jovens (18 a 24 anos) e aumento entre adultos jovens (25 a 44 anos) e com idade mais avançada (55 a 64 anos).

Em relação ao sexo, a literatura internacional mostra mudanças no padrão de consumo de álcool, com aumento entre mulheres e estabilidade entre homens1010. Grucza RA, Sher KJ, Kerr WC, Krauss MJ, Lui CK, McDowell YE, et al. Trends in Adult Alcohol Use and Binge Drinking in the Early 21 st Century United States: A Meta-Analysis of Six National Survey Series. Alcohol Clin Exp Res 2018; 42(10): 1939-50. https://doi.org/10.1111/acer.13859
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,1313. Grant BF, Chou SP, Saha TD, Pickering RP, Kerridge BT, Ruan WJ, et al. Prevalence of 12-month alcohol use, high-risk drinking, and DSM-IV alcohol use disorder in the United States, 2001–2002 to 2012–2013: Results from the National Epidemiologic Survey on Alcohol and Related Conditions. JAMA Psychiatry 2017; 74(9): 911-23. https://doi.org/10.1001/jamapsychiatry.2017.2161
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,2121. Keyes KM, Jager J, Mal-Sarkar T, Patrick ME, Rutherford C, Hasin D. Is There a Recent Epidemic of Women's Drinking? A Critical Review of National Studies. Alcohol Clin Exp Res 2019; 43(7): 1344-59. https://doi.org/10.1111/acer.14082
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2323. Schulenberg JE, Johnston LD, O’Malley PM, Bachman JG, Miech RA, Patrick ME. Monitoring the Future national survey results on drug use, 1975–2017 [Internet]. Ann Arbor: Institute for Social Research; 2018 [accessed on Nov 10. 2020]. v. 2. Available at: https://files.eric.ed.gov/fulltext/ED589764.pdf
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, em consonância com os resultados deste estudo. Outros estudos evidenciaram aumento da prevalência do consumo de alto risco de bebidas alcóolicas e de transtornos mentais em decorrencia do álcool no sexo feminino1010. Grucza RA, Sher KJ, Kerr WC, Krauss MJ, Lui CK, McDowell YE, et al. Trends in Adult Alcohol Use and Binge Drinking in the Early 21 st Century United States: A Meta-Analysis of Six National Survey Series. Alcohol Clin Exp Res 2018; 42(10): 1939-50. https://doi.org/10.1111/acer.13859
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,1313. Grant BF, Chou SP, Saha TD, Pickering RP, Kerridge BT, Ruan WJ, et al. Prevalence of 12-month alcohol use, high-risk drinking, and DSM-IV alcohol use disorder in the United States, 2001–2002 to 2012–2013: Results from the National Epidemiologic Survey on Alcohol and Related Conditions. JAMA Psychiatry 2017; 74(9): 911-23. https://doi.org/10.1001/jamapsychiatry.2017.2161
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.

Estudos nos Estados Unidos também revelaram estreitamento lento das diferenças de gênero no consumo excessivo de álcool e no consumo crônico/na dependência de álcool1414. White A, Castle IJP, Chen CM, Shirley M, Roach D, Hingson R. Converging Patterns of Alcohol Use and Related Outcomes Among Females and Males in the United States, 2002 to 2012. Alcohol Clin Exp Res 2015; 39(9): 1712-26. https://doi.org/10.1111/acer.12815
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,2323. Schulenberg JE, Johnston LD, O’Malley PM, Bachman JG, Miech RA, Patrick ME. Monitoring the Future national survey results on drug use, 1975–2017 [Internet]. Ann Arbor: Institute for Social Research; 2018 [accessed on Nov 10. 2020]. v. 2. Available at: https://files.eric.ed.gov/fulltext/ED589764.pdf
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,2424. Keyes KM, Miech R. Age, period, and cohort effects in heavy episodic drinking in the US from 1985 to 2009. Drug Alcohol Depend 2013; 132(1-2): 140-8. https://doi.org/10.1016/j.drugalcdep.2013.01.019
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. O aumento do consumo de álcool entre as mulheres pode estar relacionado com o crescimento da autonomia, pela maior participação no mercado de trabalho e educação, o que possibilita e encoraja a consumação de bebidas alcóolicas2525. Munhoz TN, Santos IS, Nunes BP, Mola CL, Silva ICMD, Matijasevich A. Tendências do uso abusivo de álcool nas capitais brasileiras de 2006 a 2013: uma análise dos dados da pesquisa VIGITEL. Cad Saúde Pública 2017; 33(7): e00104516. https://doi.org/10.1590/0102-311x00104516
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. Outras hipóteses observadas nos estudos americanos foram as mudanças das normas sobre o uso de álcool e menos sanções sociais; maior tolerância social, especialmente entre pessoas de maior escolaridade2424. Keyes KM, Miech R. Age, period, and cohort effects in heavy episodic drinking in the US from 1985 to 2009. Drug Alcohol Depend 2013; 132(1-2): 140-8. https://doi.org/10.1016/j.drugalcdep.2013.01.019
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,2626. Skog OJ. The Collectivity of Drinking Cultures: A Theory of the Distribution of Alcohol Consumption. Br J Addict 1985; 80(1): 83-99. https://doi.org/10.1111/j.1360-0443.1985.tb05294.x
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; mudanças no marketing do álcool dirigidas para mulheres adultas2727. Petticrew M, Shemilt I, Lorenc T, Marteau TM, Melendez-Torres GJ, O’Mara-Eves A, et al. Alcohol advertising and public health: Systems perspectives versus narrow perspectives. J Epidemiol Community Health 2017; 71: 308-12. https://doi.org/10.1136/jech-2016-207644
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, com número crescente de produtos direcionados a mulheres e mães2828. Kindy K, Keating D. For women, heavy drinking has been normalized. That's dangerous. Washington Post [Internet] 2016 [accessed on Nov 10. 2020]. Available at: https://www.washingtonpost.com/national/for-women-heavy-drinking-has-been-normalized-thats-dangerous/2016/12/23/0e701120-c381-11e6-9578-0054287507db_story.html
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; e o uso de mídia social para aumentar o consumo entre mulheres2929. Lindsay JM, Supski SD. Curating identity: Drinking, young women, femininities and social media practices. In: Lyons AC, McCreanor T, Goodwin I, Moewaka Barnes H, editores. Youth Drinking Cultures in a Digital World: Alcohol, Social Media and Cultures of Intoxication. Abingdon Oxon: Routledge; 2017. p. 49-65..

O aumento do uso abusivo do álcool traz consequências nocivas para as mulheres1414. White A, Castle IJP, Chen CM, Shirley M, Roach D, Hingson R. Converging Patterns of Alcohol Use and Related Outcomes Among Females and Males in the United States, 2002 to 2012. Alcohol Clin Exp Res 2015; 39(9): 1712-26. https://doi.org/10.1111/acer.12815
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, como efeitos adversos na gravidez e riscos para o feto3030. Nanda S. The Essential Guide to Doing Research. 2004. Social Change 2005; 35(4): 167-9. https://doi.org/10.1177/004908570503500413
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, aumento do câncer de mama3131. Bagnardi V, Rota M, Botteri E, Tramacere I, Islami F, Fedirko V, et al. Light alcohol drinking and cancer: A meta-analysis. Ann Oncol 2013; 24(2): 301-8. https://doi.org/10.1093/annonc/mds337
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e de doenças cardiovasculares3232. Keyes KM, Gary D, O’Malley PM, Hamilton A, Schulenberg J. Recent increases in depressive symptoms among US adolescents: trends from 1991 to 2018. Soc Psychiatry Psychiatr Epidemiol 2019; 54(8): 987-96. https://doi.org/10.1007/s00127-019-01697-8
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. Além disso, as mulheres têm taxas mais baixas de tratamento e utilização de serviços para o alcoolismo2424. Keyes KM, Miech R. Age, period, and cohort effects in heavy episodic drinking in the US from 1985 to 2009. Drug Alcohol Depend 2013; 132(1-2): 140-8. https://doi.org/10.1016/j.drugalcdep.2013.01.019
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. Assim, o aumento do consumo de álcool entre as mulheres prediz piores consequências para a saúde desse grupo.

Observou-se aumento do consumo abusivo de álcool em adultos. Esse consumo também tende a ser maior entre aqueles com maior nível socioeconômico. Estudos norte-americanos do National Alcohol Survey, utilizando o indicador binge drinking, encontraram risco aumentado de consumo de álcool entre mulheres com educação universitária ou mais3333. Lui CK, Kerr WC, Mulia N, Ye Y. Educational differences in alcohol consumption and heavy drinking: An age-period-cohort perspective. Drug Alcohol Depend 2018; 186: 36-43. https://doi.org/10.1016/j.drugalcdep.2017.12.046
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. Tem-se, ainda, os efeitos das crises econômica e política nos indicadores de saúde3434. Paes-Sousa R, Schramm JMA, Mendes LVP. Fiscal austerity and the health sector: the cost of adjustments. Ciênc Saúde Coletiva 2019; 24(12): 4375-84. https://doi.org/10.1590/1413-812320182412.23232019
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, visto que a redução de renda e desemprego pode diminuir os gastos com bebidas alcoólicas, sobretudo nas populações mais afetadas economicamente2525. Munhoz TN, Santos IS, Nunes BP, Mola CL, Silva ICMD, Matijasevich A. Tendências do uso abusivo de álcool nas capitais brasileiras de 2006 a 2013: uma análise dos dados da pesquisa VIGITEL. Cad Saúde Pública 2017; 33(7): e00104516. https://doi.org/10.1590/0102-311x00104516
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,3535. Frone MR. The Great Recession and employee alcohol use: a U.S. population study. Psychol Addict Behav 2016; 30(2): 158-67. https://doi.org/10.1037/adb0000143
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,3636. Goeij MCM, Suhrcke M, Toffolutti V, van de Mheen D, Schoenmakers TM, Kunst AE. How economic crises affect alcohol consumption and alcohol-related health problems: a realist systematic review. Soc Sci Med 2015; 131: 131-46. https://doi.org/10.1016/j.socscimed.2015.02.025
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. Em contrapartida, o sofrimento psicológico e o estresse causado pela redução de renda e desemprego podem aumentar o consumo do álcool3535. Frone MR. The Great Recession and employee alcohol use: a U.S. population study. Psychol Addict Behav 2016; 30(2): 158-67. https://doi.org/10.1037/adb0000143
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. Portanto, o aumento do estresse decorrente da crise econômica e política no Brasil também pode ter contribuído com o aumento do consumo do álcool entre adultos brasileiros.

O estudo desvelou que em 2006 a razão de prevalência entre o consumo de álcool entre homens e mulheres foi 3 e em 2019 2, mostrando convergência nas tendências. Esse aspecto também foi identificado na Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) realizada em 2013 e 2019, que apontou o aumento das prevalências desse consumo na população geral, de 13,7% (IC95% 13,0 – 14,2) em 2013 para 17,1% (IC95% 16,6 – 17,5) em 2019. Esse aumento foi mais expressivo entre mulheres (39%), passando de 6,6% (IC95% 6,1 – 7,1) em 2013 para 9,2% (IC95% 8,7 – 9,7) em 2019, enquanto entre homens o aumento foi de 20% no período, de 21,6% (IC95% 20,7 – 22,5) para 26% (IC95% 25,2 – 26,8)3737. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Coordenação de Trabalho e Rendimento. Pesquisa nacional de saúde: 2013: acesso e utilização dos serviços de saúde, acidentes e violências: Brasil, grandes regiões e unidades da federação. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; 2015.,3838. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Coordenação de Trabalho e Rendimento. Pesquisa nacional de saúde: 2019: informações sobre domicílios, acesso e utilização dos serviços de saúde: Brasil, grandes regiões e unidades da federação. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; 2020..

O aumento do consumo excessivo de álcool também foi observado nas capitais brasileiras, com tendência à aproximação das prevalências entre os sexos ao longo do período estudado. Sabe-se que fatores locais, regionais e culturais têm influência nos padrões de consumo de bebidas alcoólicas e na dependência do álcool3939. Almeida-Filho N, Lessa I, Magalhães L, Araújo MJ, Aquino E, Kawachi I, et al. Alcohol drinking patterns by gender, ethnicity, and social class in Bahia, Brazil. Rev Saúde Pública 2004; 38(1): 45-54. https://doi.org/10.1590/S0034-89102004000100007
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. Diferenças regionais no consumo abusivo de álcool nos últimos 30 dias também foram constatadas na PNS. Em 2013, as prevalências mais elevadas entre os homens foram na Bahia (29,4%; IC95% 25,6 – 33,2), Rio Grande do Norte (28,7%; IC95% 24,7 – 32,7), Piauí (28,5%; IC95% 24,5 – 32,5) e Mato Grosso do Sul (27,7%; IC95% 23,7 – 31,6). Entre mulheres, foram no Amapá (10,2%; IC95% 6,8 – 13,5), Bahia (9,7%; IC95% 7,2 – 12,1), Mato Grosso do Sul (9,9%; IC95% 7,7 – 12,1) e Goiás (10,9%; IC95% 8,6 – 13,1)3737. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Coordenação de Trabalho e Rendimento. Pesquisa nacional de saúde: 2013: acesso e utilização dos serviços de saúde, acidentes e violências: Brasil, grandes regiões e unidades da federação. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; 2015.. Em 2019, de acordo com a PNS, as maiores prevalências desse consumo, entre o sexo feminino, ocorreram na Bahia (13%; IC95% 11,0 – 15), Sergipe (13%; IC95% 10,8 – 15,1) e Mato Grosso do Sul (12,2%; IC95% 10 – 14,4)3838. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Coordenação de Trabalho e Rendimento. Pesquisa nacional de saúde: 2019: informações sobre domicílios, acesso e utilização dos serviços de saúde: Brasil, grandes regiões e unidades da federação. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; 2020..

Esse aumento evidencia que o Brasil não tem respondido adequadamente às metas globais para redução do uso de álcool de forma abusiva1515. World Health Organization. Global Action Plan for the Prevention and Control of NCDs 2013-2020 [Internet]. Genebra: World Health Organization; 2013 [accessed on Nov 10. 2020]. Available at: http://www.who.int/nmh/events/ncd_action_plan/en/
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. Para deter o crescimento do consumo, torna-se importante investir em políticas públicas de vigilância, controle de riscos e danos e promoção da saúde. Por isso, compreender as características sociodemográficas relacionadas a grupos com maior exposição a fatores e comportamentos de risco contribui para a elaboração de políticas e programas de saúde equânimes e mais eficazes4040. Ferreira LN, Sales ZN, Casotti CA, Bispo Júnior JP, Braga Júnior ACR. Perfil do consumo de bebidas alcoólicas e fatores associados em um município do Nordeste do Brasil. Cad Saúde Pública 2011; 27(8): 1473-86. https://doi.org/10.1590/S0102-311X2011000800003
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.

No intuito de reduzir esse consumo abusivo de bebidas alcóolicas, diversas iniciativas globais e nacionais foram adotadas. Em maio de 2010, a Assembleia Mundial da Saúde aprovou a Estratégia Global para Reduzir o Uso Nocivo do Álcool11. World Health Organization. Strategies to reduce the harmful use of alcohol [Internet]. Genebra: World Health Organization; 2008 [accessed on nov. 9. 2020]. Available at: http://apps.who.int/gb/ebwha/pdf_files/A61/A61_13-en.pdf
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, a qual define princípios orientadores para o desenvolvimento e a implementação de políticas de prevenção do álcool. Ademais, exorta um conjunto de opções políticas à implementação nacional. A estratégia recomenda dez pontos: liderança e empenho no tema; estruturação dos serviços de saúde, de aconselhamento e tratamento; envolvimento da comunidade na identificação das necessidades e soluções; estabelecimento de políticas de controle da taxa de alcoolemia e fiscalização; redução da disponibilidade de álcool; regulamentação da comercialização de bebidas alcoólicas; estabelecimento de políticas de preços; redução das consequências negativas do consumo de álcool e sua intoxicação; redução do impacto do álcool ilegal e informal na saúde pública; e monitoramento e vigilância do álcool.

O Brasil adotou importantes medidas de política pública, como o Programa Vida no Trânsito4141. Morais Neto OL, Silva MMA, Lima CM, Malta DC, Silva Jr. JB. Projeto Vida no Trânsito: avaliação das ações em cinco capitais brasileiras, 2011-2012. Epidemiol Serv Saúde 2013; 22(3): 373-82. https://doi.org/10.5123/S1679-49742013000300002
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e a proibição de beber e dirigir (Lei Seca — Lei nº 11.705/2008; Nova Lei Seca — Lei nº 12.760/2012), o que já resultou na redução do consumo de álcool para quem dirige4242. Malta DC, Bernal RTI, Silva AG, Lima CM, Machado IE, Silva MMA. Tendência temporal da prevalência de indicadores relacionados à condução de veículos motorizados após o consumo de bebida alcoólica, entre os anos de 2007 e 2018. Rev. Bras. Epidemiol 2020; 23(Supl. 1): e200012. https://doi.org/10.1590/1980-549720200012.supl.1
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. No entanto torna-se ainda necessário avançar em ações regulatórias de aumento de impostos nos produtos, na restrição no acesso às bebidas alcoólicas vendidas, na proibição da ampla publicidade, na promoção e no patrocínio das bebidas, bem como na fiscalização das medidas adotadas4343. World Health Organization (WHO). “Best buys” and other recommended interventions for the prevention and control of noncommunicable diseases [Internet]. Genebra: World Health Organization; 2011 [accessed on Nov 10. 2020]. Available at: https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/259232/WHO-NMH-NVI-17.9-eng.pdf
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. A legislação brasileira ainda é falha e proíbe apenas a propaganda de bebidas com teor alcoólico acima de 13 graus Gay Lussac. Assim, as propagandas de cervejas podem ser veiculadas livremente. Por isso a importância de se avançar no aperfeiçoamento da legislação, incluindo a das cervejas4444. Vendrame A, Pinsky I, Faria R, Silva R. Apreciação de propagandas de cerveja por adolescentes: relações com a exposição prévia às mesmas e o consumo de álcool. Cad Saúde Pública 2009; 25(2): 359-65. https://doi.org/10.1590/S0102-311X2009000200014
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.

Entre os limites do estudo, destaca-se o delineamento transversal, com entrevistas telefônicas, entre adultos com telefone fixo, podendo não representar toda a população, contudo essa questão é minimizada pelo uso de fatores de ponderação dos dados. Ademais, o questionário do Vigitel não inclui todas as formas de consumo de álcool, como o uso crônico.

Os resultados indicam que está ocorrendo aumento do consumo abusivo de bebidas alcóolicas entres mulheres adultas das capitais brasileiras e mostram um efeito de convergência com as prevalências entre homens e mulheres. O estudo destaca aumento do consumo entre aqueles com de 25 a 44 anos e de 55 a 64 anos, bem como nos indivíduos com elevada escolaridade. A vigilância do consumo de álcool e danos relacionados entre as mulheres deve ser aprimorada, buscando compreender as causas que determinam esse fenômeno localmente. Por fim, destaca-se que o aumento observado poderá afetar o alcance das metas nacional e global de redução do consumo abusivo do álcool.

  • Fonte de financiamento:
    Fundo Nacional de Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) e Ministério da Saúde (TED 66/2018).

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    16 Abr 2021
  • Data do Fascículo
    2021

Histórico

  • Recebido
    12 Nov 2020
  • Revisado
    03 Dez 2020
  • Aceito
    10 Dez 2020
  • Preprint
    15 Dez 2020
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