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Do manuscrito ao livro, do livro ao leitor: os caminhos da modernidade

Marcos Roberto do Nascimento Sobre o autor
A Europa de Gutenberg: o livro e a invenção da modernidade ocidental (séculos XIII-XVI). BARBIER, Frédéric. São Paulo: Editora Universidade de São Paulo – Edusp, 408. 2018

A Europa de Gutenberg: o livro e a invenção da modernidade ocidental (séculos XIII-XVI), como diz o próprio autor, é um ensaio sobre as condições sociais, culturais, intelectuais, econômicas e tecnológicas que levaram à primeira revolução das mídias em meados do século XV. Escrita por Frédéric Barbier, historiador e pesquisador do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), na França, a obra descreve o cenário de emergência da modernidade, considerando o papel desempenhado pelo desenvolvimento da imprensa e da tecnologia. A história do livro, da escrita e da leitura é pano de fundo nesse percurso. Originalmente publicado em 2006, na França, sua primeira edição brasileira foi feita pela Edusp em 2018, ano em que a morte de Johannes Gutenberg completou 550 anos.

O livro é dividido em três partes, com nove capítulos, além da Introdução e Conclusão. Há um encadeamento consistente entre os capítulos e uma coerência histórica e teórica que envolve as partes, afinal, A Europa de Gutenberg é um panorama denso e conciso do mundo moderno que se constitui e se consolida do século XIII ao XVI na Europa ocidental. Portanto, esse panorama ocorre antes, durante e depois de Gutenberg. Barbier descreve, nesses capítulos, as condições e os fundamentos para a revolução iniciada por Gutenberg e as suas consequências. Além disso, o livro apresenta, na composição do seu conteúdo, Lista de Mapas e Figuras, Abreviações, uma necessária Advertência e o Índice Onomástico.

Num primeiro momento, o título da obra faz parecer que se trata da invenção de Gutenberg: a tipografia em caracteres móveis e a revolução gerada na imprensa, na produção do livro e sua circulação. Um texto centrado na biografia de Gutenberg em torno de sua invenção também poderia ser esperado, mas o subtítulo dá pistas de que tanto o livro quanto a invenção de Gutenberg desempenharam um papel mais paradigmático na história do mundo ocidental europeu.

A invenção da tipografia dos tipos móveis, resultado de pesquisas realizadas por Gutenberg, do desenvolvimento tecnológico da época e do investimento dos capitalistas, aponta para um processo mais intenso das transformações que vinham ocorrendo na Europa. O argumento central de Barbier propõe que o desenvolvimento da imprensa é, ao mesmo tempo, produto e catalisador dessas transformações. Gutenberg está no epicentro de mudanças culturais, tais como as ocorridas na Igreja, na escrita; a criação de universidades e bibliotecas; mudanças sociais como a urbanização, crescimento populacional nas cidades e formação de novos ofícios. Transformações políticas importantes, como a emergência do Estado moderno, e econômicas, como a consolidação do capitalismo e suas práticas, serão essenciais para o desenvolvimento de um mercado dinâmico da imprensa e do livro. Esta aposta também evidencia o aspecto sociológico do processo de modernização da sociedade europeia, em que a urbanização e as mudanças econômicas são determinantes nas transformações sociais e tecnológicas.

A Europa de Gutenberg é rico em detalhes que evidenciam a dinâmica que favoreceu as revoluções das mídias. O livro aponta as mudanças na escrita e na leitura, partindo dos mosteiros e dos manuscritos até a relação de Gutenberg com a pesquisa e o desenvolvimento da tecnologia. Descreve a relação que ele tem com a família, com seus investidores e sócios até chegar à Bíblia de 42 linhas; da oficina tipográfica de Johannes Fust e Peter Shcoeffer no Vale do Reno à nova geografia da imprensa na Europa ocidental; dos manuscritos encomendados pela aristocracia e burgueses ao mercado editorial de impressores-livreiros e livreiros especializados. Barbier lança um olhar detalhado sobre esse processo de modernização e complexificação do mundo editorial que se constituía de maneira rápida e dinâmica a partir de 1450. Nesse aspecto, o autor parece assumir a perspectiva teórica weberiana, na qual a racionalidade técnica resulta da racionalização técnica e econômica do mundo moderno enquanto processo histórico e social. De certa forma, a invenção de Gutenberg e seus desdobramentos anteciparam práticas e estratégias que foram amplamente desenvolvidas e consolidadas no século XVIII. A mecanização do processo produtivo, o uso de novas matérias-primas, a associação entre conhecimento e processo produtivo, a racionalização do custo de produção, a racionalidade organizacional, a concorrência e as estratégias de mercado são algumas das inovações que a invenção de Gutenberg antecipa. Como diz Barbier (2018BARBIER, FRÉDÉRIC. A Europa de Gutenberg: o livro e a invenção da modernidade ocidental (séculos XIII-XVI). Trad. Gilson César Cardoso de Sousa. São Paulo: Editora Universidade de São Paulo – Edusp, 2018. 408 p., p. 30), “A invenção de Gutenberg acontece em um mundo em plena modernização, mas fornece a esse próprio processo os meios de um desenvolvimento radicalmente novo”. A Europa de Gutemberg é um mundo em processo de modernização, tendo a urbanização e as mudanças econômicas, culturais, sociais e tecnológicas como corolário e base para o capitalismo e a modernidade.

A trajetória que converte o texto em livro e conduz o livro ao leitor supõe o desenvolvimento de processos de inovação, não apenas no aperfeiçoamento e na produção tecnológica do livro, mas também na organização da produção nas oficinas de impressão, da distribuição e da venda do livro. As práticas e estratégias para promover a edição e a circulação do livro contavam com escolhas de temas (religiosos e clássicos), autores e público, além das oficinas tipográficas itinerantes e as feiras de livro. No século XV ocorriam com frequência as feiras de livros de Frankfurt e Leipzig. Fazendo referência ao trabalho de Lefreve e Jean-Martin – O aparecimento do livro –, Deaecto (2019, p. 185) destaca que o circuito do livro “na época moderna [...] obedecia, na verdade, à dinâmica das grandes feiras que estimularam a economia daqueles tempos”. A autora conclui dizendo que os primeiros catálogos de livros impressos “circularam nas tradicionais e movimentadas feiras de Veneza, Lyon e Frankfurt nos séculos XVI e XVII” (DEAECTO, 2019, p. 185DEAECTO, MARISA MIDORI. O império dos livros: instituições e práticas de leitura na São Paulo oitocentista. 2. ed. São Paulo: Edusp, 2019.).

No caso do mercado editorial brasileiro, embora tenha se desenvolvido tardiamente, muitas das condições que favoreceram a emergência, a inovação e a consolidação do mercado editorial europeu ainda não são vistas no Brasil. Cabe destacar que as bienais, as festas, as feiras de livros e, não menos importantes, as feiras de livros e literatura independentes têm papel importante no intercâmbio de ideias, tecnologias, experiências, materiais e, principalmente, na promoção da circulação de seus produtos.

A geografia do livro na Europa já é conhecida. Em O aparecimento do livro (FEBVRE; MARTIN, 2000FEBVRE, LUCIEN; MARTIN, HENRI-JEAN. O aparecimento do livro. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000.), esse mapeamento é bem descrito. Também não é novidade que a transição do manuscrito para o códice e, depois, o livro não ser visto como uma ruptura, mas como uma continuidade desse processo (CHARTIER, 1998CHARTIER, ROGER. A aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo; Unesp, 1998.), marcam esse cenário de mudanças. No entanto, as mudanças trazidas pelo impacto da revolução da imprensa são profundas. E são as condições que levaram a essas mudanças que Barbier destaca. O caminho do livro é o caminho do crescimento demográfico das cidades e do seu desenvolvimento intelectual e cultural. É nesse ambiente que se multiplicam os livros, e sua utilização se torna racionalizada. Nesse aspecto, o livro impresso irá se impor, durante muito tempo, como a principal ferramenta da racionalidade moderna que levaria ao conhecimento e seria o seu depositário.

Não é exagero dizer que a modernidade e a sua racionalidade surgem com o livro impresso. O livro, enquanto um sistema, no sentido de oferecer ao leitor um modelo de pensar, de raciocinar, de compreender e de agir no mundo, mais do que um simples objeto, assume um lugar simbolicamente importante no mundo moderno. Portanto, a modernidade que o livro funda traz consigo poder e racionalidade, próprios da Europa moderna e capitalista. A escrita como instrumento de transmissão e condição do saber mais a prática da leitura extensiva e silenciosa estão na raiz dessas mudanças. Não é sem sentido, contudo, que a materialidade do livro e o seu poder simbólico se confundem nesse objeto que ainda desperta sentimentos e expectativas. O livro, apesar de sua ambiguidade (magia e racionalidade), não perdeu totalmente seus atributos simbólicos, mas assumiu seu caráter mercantil.

Barbier apresenta um panorama e vai definindo, em detalhes, os seus contornos e aspectos internos. As revoluções das mídias fazem parte de um mesmo processo iniciado há quase 600 anos que consolida o capitalismo e instaura a divisão do trabalho moderno, a concorrência e a lógica do mercado. Nesse ambiente de mudanças surge o mercado editorial. Princípios, procedimentos organizacionais, práticas e estratégias foram gestados nesse contexto e, ainda, em grande medida, marcam o mercado editorial contemporâneo.

A questão da autoria também aparece como um aspecto histórico importante para compreender a dinâmica das mídias contemporâneas. Com a imprensa, dirá Barbier, a autoria emerge e se impõe a partir do século XVI. Essa mudança altera as relações do leitor com o texto, por um lado, e do autor com os impressores-editores, por outro. No primeiro caso, pode-se dizer que a natureza dessa relação é simbólica e, no segundo, econômica. A autoria, naquele momento, construiu em torno da mídia e do livro uma rede de relações de sociabilidade e reconhecimento que fomentou carreiras. Segundo Bellei (2014BELLEI, SÉRGIO LUIZ PRADO. A morte do autor: um retorno à cena do crime. Revista Criação & Crítica, São Paulo, n. 12, p. 161-171, jun. 2014. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/criacaoecritica/article/view/69866. Acesso em: 22 mar. 2020., p. 162), as forças culturais da modernidade criaram a autoria para atender a demandas de uma ideologia que “oculta as condições de produção e naturaliza significados de uma força produtiva que motiva práticas sociais, econômicas e políticas”. A figura institucionalizada do autor cumpre um papel importante na formação do mercado editorial capitalista, na medida em que criou e representou interesses comerciais básicos, ainda operantes no cenário editorial contemporâneo. A criação e o reconhecimento da autoria impõem uma hierarquia e um controle sobre o discurso na relação autor-leitor, estabelecendo uma ética de leitura (BELLEI, 2014). Barbier (2014, p. 314), contudo, enfatiza a natureza econômica da função do autor no desenvolvimento da economia da mídia, que constitui “o primeiro e principal fator que impulsiona e reorganiza o campo literário na época moderna”.

A Europa de Gutenberg é uma leitura necessária para quem pensa a dinâmica histórica da modernidade tendo como pano de fundo a tecnologia, o livro, o mercado editorial e as mídias em geral. A riqueza do livro está em seus detalhes precisos que compõem o contexto de emergência da modernidade a partir da imprensa e do mercado do livro. Tabelas, mapas e imagens das primeiras publicações da imprensa de Gutenberg ilustram o texto. Apesar disso, alguns detalhes se repetem com certa frequência ao longo de suas 408 páginas, e a ausência de algumas imagens pode frustrar os leitores diante de suas descrições. Na “Advertência”, presente no início do livro, Barbier menciona o site do Centre National de la Recherche Scientifique, no qual há uma iconografia complementa preparada especialmente para este livro. Do ponto de vista do leitor, a consulta ao site compromete a dinâmica e fluidez da leitura. Contudo, esses problemas não lançam nuvens à riqueza histórica e analítica trazida pelo autor. Para finalizar esta resenha, transcreve-se a última frase do livro, em que Barbier (2014, p. 388) sintetiza a proposta de seu percurso analítico: “A fórmula ‘Europa de Gutenberg’ nos terá permitido designar ao mesmo tempo a articulação de origem (a Europa e a imprensa) e o destino possível desta para outra mídia, outras solidariedades e, sem dúvida, outra Europa”. E por que não dizer outro mundo?

References

  • BARBIER, FRÉDÉRIC. A Europa de Gutenberg: o livro e a invenção da modernidade ocidental (séculos XIII-XVI). Trad. Gilson César Cardoso de Sousa. São Paulo: Editora Universidade de São Paulo – Edusp, 2018. 408 p.
  • BELLEI, SÉRGIO LUIZ PRADO. A morte do autor: um retorno à cena do crime. Revista Criação & Crítica, São Paulo, n. 12, p. 161-171, jun. 2014. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/criacaoecritica/article/view/69866. Acesso em: 22 mar. 2020.
  • CHARTIER, ROGER. A aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo; Unesp, 1998.
  • DEAECTO, MARISA MIDORI. O império dos livros: instituições e práticas de leitura na São Paulo oitocentista. 2. ed. São Paulo: Edusp, 2019.
  • FEBVRE, LUCIEN; MARTIN, HENRI-JEAN. O aparecimento do livro. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Jun 2020
  • Data do Fascículo
    2020

Histórico

  • Recebido
    01 Abr 2020
  • Aceito
    11 Maio 2020
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