Open-access Demografia da solidão na América Latina: uma agenda crítica

Demography of loneliness in Latin America: a critical agenda

Demografía de la soledad en América Latina: una agenda crítica

Resumo

Este trabalho argumenta que a consolidação da demografia da solidão na América Latina exige mais do que a incorporação de escalas de mensuração da solidão em inquéritos populacionais. Requer, também, a revisão das categorias por meio das quais o campo interpreta a vida relacional em sociedades marcadas por desigualdades persistentes, regimes familiares heterogêneos, envelhecimento acelerado, migração, violência, racismo e privatização do cuidado. O texto propõe quatro deslocamentos analíticos. O primeiro consiste em substituir afirmações genéricas sobre “epidemia” ou aumento geracional da solidão por uma postura metodológica mais cautelosa, reconhecendo a ausência de séries históricas comparáveis e de dados longitudinais harmonizados na região. O segundo recoloca sexo e gênero no centro da análise, não como categorias universais e desracializadas, mas como dimensões articuladas a cuidado, viuvez, masculinidades, violência e desigualdades territoriais. O terceiro propõe deslocar raça/cor e território das listas de controle para o centro dos modelos, reconhecendo que a desconexão relacional no Brasil e na América Latina é racializada e territorialmente situada. Por fim o quarto deslocamento articula a demografia da solidão à demografia do cuidado, substituindo a hipótese simplificadora do familismo protetor pela da ambivalência familiar. A agenda proposta não rejeita a literatura internacional, mas defende que a América Latina pode oferecer um corretivo conceitual a um campo ainda fortemente orientado por experiências do Norte Global.

Palavras-chave:
Solidão; Demografia; América Latina; Cuidado; Gênero; Raça; Território

Abstract

This viewpoint argues that consolidating a demography of loneliness in Latin America requires more than simply incorporating loneliness scales into population surveys. It also requires revisiting the categories through which the field interprets relational life in societies marked by persistent inequalities, heterogeneous family regimes, rapid population aging, migration, violence, racism, and the privatization of care. The paper proposes four analytical shifts. First, it calls for replacing generic claims about a loneliness “epidemic” or generational increases in loneliness with a more cautious methodological stance, recognizing the absence of comparable historical series and harmonized longitudinal data in the region. Second, it recenters sex and gender in the analysis, not as universal and deracialized categories, but as dimensions intertwined with caregiving, widowhood, masculinities, violence, and territorial inequalities. Third, it moves race and territory from the margins of statistical control variables to the center of analytical models, recognizing that relational disconnection in Brazil and Latin America is both racialized and territorially situated. Fourth, it connects the demography of loneliness to the demography of care, replacing the simplifying assumption of protective familism with the concept of family ambivalence. The proposed agenda does not reject the international literature, but argues that Latin America can offer a conceptual corrective to a field still strongly shaped by experiences from the Global North.

Keywords:
Loneliness; Demography; Latin America; Care; Gender; Race; Territory

Resumen

Este punto de vista sostiene que la consolidación de una demografía de la soledad en América Latina requiere más que la incorporación de escalas de soledad en encuestas poblacionales. También exige una revisión de las categorías mediante las cuales el campo interpreta la vida relacional en sociedades marcadas por desigualdades persistentes, regímenes familiares heterogéneos, envejecimiento acelerado, migración, violencia, racismo y privatización del cuidado. El texto propone cuatro desplazamientos analíticos. Primero, sustituir afirmaciones genéricas sobre una “epidemia” de soledad o sobre aumentos generacionales de la soledad por una postura metodológica más cautelosa, reconociendo la ausencia de series históricas comparables y de datos longitudinales armonizados en la región. Segundo, volver a situar el sexo y el género en el centro del análisis, no como categorías universales y desracializadas, sino como dimensiones articuladas con el cuidado, la viudez, las masculinidades, la violencia y las desigualdades territoriales. Tercero, desplazar raza/color y territorio de las listas de variables de control hacia el centro de los modelos analíticos, reconociendo que la desconexión relacional en Brasil y América Latina está racializada y territorialmente situada. Cuarto, articular la demografía de la soledad con la demografía del cuidado, sustituyendo la hipótesis simplificadora del familismo protector por la de la ambivalencia familiar. La agenda propuesta no rechaza la literatura internacional, sino que sostiene que América Latina puede ofrecer un correctivo conceptual a un campo todavía fuertemente orientado por experiencias del Norte Global.

Palabras clave:
Soledad; Demografía; América Latina; Cuidado; Género; Raza; Territorio

Introdução: uma agenda latino-americana entre urgência e cautela

A solidão entrou no vocabulário da saúde pública global. Na definição clássica, ela é descrita como uma experiência subjetiva decorrente da percepção de que as próprias relações sociais são insuficientes, em quantidade ou em qualidade, diante daquelas que se desejaria ter (Perlman; Peplau, 1981). Essa definição a distingue de dois fenômenos com os quais costuma ser confundida: o isolamento social, que é a escassez objetiva de contatos e vínculos; e arranjos como morar só, que descrevem apenas a composição do domicílio, e não o sofrimento relacional (Perlman; Peplau, 1981; Barreto et al., 2021; Surkalim et al., 2022).

Relatórios recentes da Organização Mundial da Saúde e de organismos internacionais tratam a conexão social como dimensão relevante da saúde, do bem-estar e da coesão social (Holt-Lunstad, 2021; OECD, 2025; World Health Organization, 2025). Essa mudança é bem-vinda. Durante muito tempo, a solidão foi reduzida a um sofrimento íntimo, a uma falha individual de sociabilidade ou a um problema restrito à velhice. Para a demografia, a incorporação do tema na agenda pública abre uma oportunidade importante. Poucos campos estão tão bem posicionados para analisar como mortalidade, fecundidade, migração, envelhecimento, composição domiciliar, dissolução conjugal, curso de vida e desigualdades estruturais reorganizam redes de apoio e oportunidades de pertencimento (Newmyer et al., 2022; Passarelli-Araujo, 2026).

A solidão é silenciosa. Ela não produz sintomas visíveis como uma fratura ou uma infecção, mas vai corroendo lentamente a saúde mental, física e social das pessoas (Holt-Lunstad et al., 2015; Passarelli-Araujo, 2025). Contudo, a emergência dessa agenda também produz riscos. O primeiro deles é transformar a solidão em palavra de ordem antes de consolidá-la como objeto demográfico rigoroso. A expressão “epidemia de solidão”, difundida sobretudo a partir de debates do Norte Global, pode ter utilidade comunicacional, mas tende a sugerir uma tendência temporal clara, homogênea e universal. Na América Latina, essa certeza empírica ainda não existe. Há razões consistentes para estudar a solidão como problema público, mas se dispõe de poucas bases para afirmar, de modo robusto, que as gerações atuais são mais solitárias do que as anteriores. Essa distinção é decisiva. Justificar a relevância da solidão não exige inflar sua prevalência, mas sim reconhecer que ela já afeta milhões de pessoas e tem consequências relevantes para a saúde pública (Barjaková; Garnero; D’Hombres, 2023; Barreto et al., 2021; Passarelli-Araujo, 2025).

O relatório Global State of Social Connections, realizado em 142 países em 2022, estimou que 24% da população global se sentia “muito” ou “razoavelmente” solitária (Maese, 2023). A América Latina, considerada em conjunto, configura um mosaico em torno desse patamar. No extremo superior, Bolívia (31%), Chile (30%) e Argentina (28%) ultrapassam a média mundial. Em posição intermediária, situam-se Guatemala (25%), Uruguai (25%), Peru (24%), Colômbia (24%), Paraguai (23%), Equador (23%), Costa Rica (22%), Venezuela (21%), El Salvador (21%) e Honduras (21%). Já Panamá (19%), Nicarágua (19%), México (18%), República Dominicana (17%) e Brasil (15%) registram valores inferiores à média global. O caso brasileiro é particularmente revelador. Nessa métrica, o país apresenta o mesmo percentual observado nos Estados Unidos (15%), frequentemente tomados como referência central no debate internacional sobre a “epidemia de solidão” (Office of the Surgeon General, 2023). Esse paralelo exige cautela interpretativa. Por um lado, ele enfraquece a ideia simplificadora de que sociedades latino-americanas seriam automaticamente protegidas da solidão por redes familiares densas, sociabilidade cotidiana ou ethos comunitário. Por outro, também impede transpor mecanicamente para a região o diagnóstico produzido no contexto norte-americano. O mesmo percentual agregado pode esconder arquiteturas sociais muito distintas. Nos Estados Unidos, o debate costuma enfatizar a individualização, o crescimento de domicílios unipessoais, o declínio associativo e a fragilização comunitária. Na América Latina, por sua vez, a solidão precisa ser compreendida à luz das desigualdades sociais, das relações raciais, das dinâmicas territoriais, da violência, da migração, da sobrecarga do cuidado familiar e da incompletude dos sistemas de proteção social.

Precisão conceitual também importa, pois diferentes instrumentos medem dimensões distintas do fenômeno. Escalas como a UCLA captam percepções subjetivas de solidão1 (Barroso et al., 2016; Russell; Peplau; Cutrona, 1980). Medidas de item único, como a pergunta “você se sente solitário?”, são mais econômicas, mas tendem a captar apenas uma dimensão do fenômeno, além de serem particularmente sensíveis ao contexto, à linguagem e ao estigma, podendo favorecer respostas socialmente desejáveis conforme o ambiente social do respondente (Langenkamp, 2024). Medidas de isolamento social capturam o tamanho, a frequência ou a densidade de redes sociais. Indicadores de morar só descrevem arranjos domiciliares, não solidão. Tratar essas medidas como equivalentes empobrece o debate. Uma demografia da solidão precisa distinguir nível atual, desigualdades na distribuição, risco acumulado ao longo do curso de vida e tendência temporal. Cada uma dessas questões exige desenhos de pesquisa diferentes.

O argumento aqui proposto é que a consolidação de uma demografia da solidão na América Latina não será alcançada pela mera aplicação regional de instrumentos e quadros teóricos formulados no Norte Global. Tampouco resultará de uma recusa abstrata da literatura internacional. O que se propõe é uma apropriação crítica desse conhecimento. A literatura internacional oferece contribuições fundamentais sobre idade, sexo/gênero, estado conjugal, arranjos domiciliares, saúde e mortalidade (Barreto et al., 2021; Holt-Lunstad, 2021; Surkalim et al., 2022). No entanto, quando essa literatura é transplantada sem mediação para a América Latina, tende a deixar em segundo plano processos que estruturam a vida relacional na região: racismo, segregação territorial, violência letal, encarceramento, desaparecimento, migração forçada, trabalho precário e privatização do cuidado.

A questão central, portanto, é como construir uma agenda demográfica capaz de medir a solidão sem simplificá-la, compará-la sem descontextualizá-la e transformá-la em problema público sem repetir diagnósticos produzidos para sociedades com outras histórias institucionais, familiares e territoriais. Para isso, este texto propõe quatro deslocamentos: cautela metodológica frente à prevalência e à evolução temporal; centralidade interseccional de sexo/gênero; discussão situada sobre raça/cor e território; e aproximação entre demografia da solidão e demografia do cuidado.

Medir a solidão sem transformar lacunas em certezas

A primeira tarefa de uma demografia crítica da solidão é reconhecer seus próprios limites empíricos. A América Latina ainda carece de séries históricas baseadas em instrumentos aplicados de forma repetida, amostras comparáveis e desenho longitudinal capazes de avaliar a evolução da solidão ao longo do tempo. O que existe é de outra natureza: estudos transversais, módulos pontuais em inquéritos, pesquisas durante a pandemia, escalas validadas em contextos específicos e comparações internacionais com medidas heterogêneas.

A ideia de que “nossa geração é mais solitária que a de nossos avós” é intuitiva e circula bem no debate público. Ela se apoia em mudanças reais, como urbanização, queda da fecundidade, redução do tamanho das famílias, aumento de domicílios unipessoais, instabilidade conjugal, migração, trabalho remoto, plataformas digitais e envelhecimento populacional (Carvalho; Brito, 2005; Dessen; Torres, 2019; Fitzpatrick; Garcia, 2016; Wajnman, 2012). No entanto, converter essas mudanças em uma afirmação de tendência exige evidências. Domicílios menores não significam automaticamente maior solidão; maior comunicação digital não implica necessariamente empobrecimento relacional; famílias extensas podem proteger, mas também aprisionar; morar só pode ser risco, escolha, autonomia ou combinação desses elementos. Na ausência de dados longitudinais e medidas harmonizadas, o discurso geracional corre o risco de confundir nostalgia com análise.

Há, contudo, infraestrutura regional que pode ser mais bem mobilizada. O estudo Sabe (Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento), coordenado pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e desenvolvido em cidades da Argentina, Barbados, Brasil, Chile, Cuba, México e Uruguai, constituiu uma das bases pioneiras para comparações sobre saúde, bem-estar, envelhecimento, suporte familiar e diferenças por gênero e coorte na região (Albala et al., 2005). O Mexican Health and Aging Study (MHAS) oferece seguimento longitudinal de adultos de 50 anos ou mais no México, com ondas iniciadas em 2001 e atualizadas ao longo do tempo (Wong et al., 2015). Ele utiliza a Escala de Solidão de Três Itens, proposta por Hughes et al. (2004). O Creles (Costa Rica: Estudio de Longevidad y Envejecimiento Saludable) é outro exemplo de pesquisa longitudinal nacionalmente representativa sobre saúde e curso de vida de pessoas idosas. O Elsi-Brasil (Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros), por sua vez, tem permitido análises sobre solidão, família e envelhecimento no país (Braga et al., 2022; Marcelino et al., 2024; Torres et al., 2022). Essas iniciativas mostram que o problema não é ausência completa de dados, mas sim a fragmentação, a pouca harmonização e a insuficiente incorporação sistemática de medidas de solidão, isolamento e redes.

A pesquisa 10/66 Dementia Research Group também mostra o potencial de uma leitura comparativa mais regionalizada. Com dados de adultos de 65 anos ou mais em Cuba, República Dominicana, Porto Rico, Venezuela, Peru e México, além de China e Índia, Gao et al. (2021) estimaram prevalências padronizadas de solidão entre 25,3% e 32,4% nos países latino-americanos incluídos e encontraram associação entre solidão e mortalidade no conjunto latino-americano. Em estudo posterior, Gao et al. (2024) observaram associações longitudinais entre solidão, isolamento social e dependência de cuidado em adultos mais velhos na América Latina e na China. Esses resultados são importantes porque apontam para uma agenda em que solidão, saúde, mortalidade e cuidado podem ser examinados comparativamente dentro e fora da região. Esses trabalhos ainda não compõem um programa demográfico regional consolidado, mas indicam que há produção capaz de dialogar com a demografia da solidão para além dos referenciais anglófonos. Uma agenda regional precisa recuperar essa produção, comparar seus instrumentos e discutir seus limites, em vez de tratá-la como literatura periférica.

Sexo/gênero, solidão e cuidado: categorias centrais, não controles

Uma agenda latino-americana da solidão não deve deslocar sexo e gênero para a margem. Ao contrário, deve impedir que sexo e gênero sejam tratados como categorias universais, desracializadas e descoladas do cuidado. A literatura internacional já mostra que sexo/gênero, idade, estado conjugal, viuvez, morar só, saúde, renda e qualidade das relações estão associados à solidão (Barreto et al., 2021; Surkalim et al., 2022). O desafio não é reconhecer essas associações, mas sim tratá-las como efeitos médios abstratos, sem perguntar como elas se articulam às desigualdades latino-americanas.

Mulheres e homens não são expostos à solidão pelos mesmos caminhos. A evidência internacional mostra que a própria diferença de gênero na solidão depende do instrumento utilizado para mensuração: meta-análises indicam diferenças próximas de zero quando a medida não pergunta diretamente se a pessoa se sente só, enquanto uma pequena diferença − com mulheres relatando mais solidão − aparece quando a pergunta é explícita (Barreto et al., 2025; Borys; Perlman, 1985). Mulheres vivem mais, apresentam maior probabilidade de viuvez em idades avançadas, concentram trabalho doméstico e de cuidado, estão mais expostas à pobreza na velhice e podem experimentar solidão mesmo em domicílios numerosos, quando há baixa reciprocidade afetiva e excesso de responsabilidades (Barreto et al., 2021). Homens, por sua vez, tendem a ser mais vulneráveis a redes relacionais estreitas fora do casamento, à perda de vínculos após separação ou viuvez, a normas de masculinidade que restringem a expressão de sofrimento emocional e, em contextos de violência, à mortalidade precoce, ao encarceramento e ao desaparecimento (Courtenay, 2000; Creighton; Oliffe, 2010; McKenzie et al., 2018). A solidão de uma mulher idosa cuidadora no Uruguai, a de um homem viúvo no México, a de uma mãe colombiana que busca um filho desaparecido e a de uma jovem negra na periferia brasileira não pertencem ao mesmo mecanismo, ainda que possam ser captadas pela mesma escala.

É nesse ponto que a literatura latino-americana sobre cuidado se torna decisiva. Para Wajnman (2012), famílias e domicílios devem ser tratados como arranjos demográficos historicamente mutáveis, e não como unidades naturais de suporte. Arriagada (2007) discutiu o desencontro entre transformações familiares e políticas públicas na América Latina. A partir da experiência uruguaia, Aguirre e Ferrari (2014) mostraram como a construção de sistemas de cuidado depende de consensos institucionais e de uma proteção social mais igualitária. Batthyány (2020) sistematizou o cuidado como eixo de uma economia feminista e como componente central do bem-estar social na região.

Esses trabalhos deslocam a discussão. A pergunta deixa de ser apenas “quem mora com quem?” e passa a ser “quem cuida, quem recebe cuidado, quem fica sem cuidado e quem paga o custo relacional do cuidado?”. Domicílio não é sinônimo de rede; coabitação não é sinônimo de suporte; família não é sinônimo de proteção. A demografia do cuidado permite distinguir presença física, disponibilidade emocional, obrigação moral, transferência de tempo, dependência funcional e reciprocidade. Permite, também, entender por que a solidão pode ser vivida por quem cuida continuamente. A solidão da pessoa cuidadora não decorre da ausência de pessoas ao redor, mas, muitas vezes, da falta de reconhecimento, descanso, reciprocidade e proteção institucional.

Raça, território e desigualdades relacionais

A produção sobre solidão na América Latina ainda tende a tratar raça/cor, etnia e território como dimensões secundárias. No Brasil, raça/cor aparece com frequência como variável de controle ou item de tabela descritiva, raramente como eixo estruturante da pergunta de pesquisa. Essa abordagem é insuficiente em uma sociedade na qual desigualdade racial organiza padrões de mortalidade, renda, moradia, inserção no trabalho, segurança pública, acesso a serviços e exposição ao racismo institucional (Lima, 2010; Osório, 2009; Telles, 2003). Cada uma dessas dimensões é também relacional: define onde se vive, quem circula, quem é protegido, quem é vigiado, quem perde familiares precocemente e quem dispõe de tempo, dinheiro e segurança para manter vínculos.

Essa questão, porém, não deve ser formulada apenas a partir da experiência brasileira. Na Colômbia, desigualdades territoriais, racialização de populações afrodescendentes e indígenas, conflito armado, deslocamento interno e violência urbana produzem ecologias relacionais distintas, marcadas pela ruptura duradoura de redes familiares e comunitárias entre pessoas deslocadas (Curcio et al., 2019; McEniry et al., 2019). No México, a combinação entre migração internacional, violência, desaparecimentos, envelhecimento e desigualdades regionais redefine redes familiares e obrigações transnacionais, com evidência de maior solidão e sofrimento emocional entre pais idosos cujos filhos migraram (Antman, 2010; Yahirun; Arenas, 2018; Montes de Oca; Molina; Avalos, 2009). No Caribe, experiências de migração, envelhecimento e redes familiares transnacionais exigem perguntas que não se ajustam bem à oposição simples entre morar só e morar acompanhado (Matos-Moreno et al., 2025; Olwig, 2007).

Território constitui regime de acesso a transporte, segurança, serviços de saúde, espaços públicos, redes comunitárias, mercado de trabalho e equipamentos de cuidado (Santos, 1996; Haesbaert, 2004). Uma mulher idosa residente em uma área rural chilena, uma pessoa idosa em uma periferia de Medellín, um migrante venezuelano em Boa Vista, uma família afetada por desaparecimento no México e um adulto mais velho em uma cidade intermediária brasileira experimentam formas distintas de proximidade e distância. A demografia da solidão precisa tratar essas diferenças territoriais como parte do fenômeno a ser explicado, e não como variação residual a ser estatisticamente neutralizada.

A crítica de Quijano (2000) à colonialidade do saber ajuda a formular esse problema. Quando categorias produzidas em matrizes históricas específicas são aplicadas como universais, processos centrais das periferias aparecem como particularidades locais. Na demografia da solidão, isso ocorre quando violência, racismo, informalidade, cuidado familiar compulsório e precariedade territorial são tratados como contexto, e não como parte da explicação. A contribuição latino-americana, portanto, não consiste apenas em preencher lacunas de dados para entrar no debate global, mas também em tensionar os conceitos com os quais esse debate foi construído.

Para além do familismo protetor: ambivalência familiar e demografia do cuidado

A literatura internacional frequentemente associa América Latina a familismo, convivência intergeracional e redes familiares densas. Embora essa interpretação capture uma parte da realidade, torna-se problemática quando transforma densidade familiar em proteção automática contra a solidão. Família pode proteger, mas também pode sobrecarregar, silenciar, controlar, abandonar e distribuir cuidado de forma profundamente desigual. Por isso, a demografia latino-americana da solidão precisa substituir a hipótese do familismo protetor pela hipótese da ambivalência familiar (Lüscher; Pillemer, 1998).

Essa ambivalência manifesta-se de diferentes formas na região. No Brasil, a demografia das famílias e dos domicílios mostra que arranjos intergeracionais são atravessados por renda, gênero, envelhecimento, dependência e necessidade econômica (Camarano; Kanso, 2010; Wajnman, 2012). Estudos recentes com os dados do Elsi-Brasil sugerem que morar em domicílios multigeracionais não se associa automaticamente a menor solidão quando se considera a qualidade das relações familiares (Marcelino et al., 2024). Em outras palavras, a composição domiciliar fornece informações relevantes, mas não informa tudo.

No Uruguai, o debate sobre sistema nacional de cuidados mostrou que delegar o cuidado exclusivamente à família tende a reforçar desigualdades de gênero (Aguirre; Ferrari, 2014; Batthyány, 2020). No México, estudos baseados no MHAS apontam a necessidade de distinguir isolamento social, solidão, suporte social e mortalidade, em vez de assumir que sociedades “coletivistas” neutralizam riscos relacionais (Kammar-García et al., 2023). Na Colômbia, pesquisas sobre redes de apoio em adultos mais velhos mostram que participação social, suporte familiar e vulnerabilidade material precisam ser analisados conjuntamente (Lizcano Cardona et al., 2020).

A demografia do cuidado oferece maior densidade teórica a esses exemplos. Oliveira, Vieira e Marcondes (2019) situam mudanças e continuidades nas relações de gênero e geração no Brasil em perspectiva histórica. Agree e Glaser (2009) lembram que o cuidado informal constitui um tema essencialmente demográfico, pois depende de estrutura etária, parentesco, sobrevivência, saúde, coabitação, tempo e recursos. A solidão, portanto, não é alheia ao cuidado: pode resultar de sua ausência, de sua distribuição desigual ou de sua concentração em um número reduzido de pessoas.

Essa aproximação também exige distinguir família, domicílio e rede de cuidado. Uma pessoa pode morar acompanhada e não ter com quem conversar; pode morar sozinha e ter vínculos comunitários fortes; pode cuidar de muitos e não ser cuidada por ninguém; pode depender de cuidado e sentir-se um peso para a família; pode receber ajuda instrumental e continuar emocionalmente só. A demografia da solidão precisa incorporar medidas de qualidade relacional, reciprocidade, conflito, obrigação, sobrecarga e apoio emocional e instrumental. Sem isso, a leitura de arranjos domiciliares continuará produzindo inferências frágeis.

Uma agenda de inclusões deliberadas

A consolidação da demografia da solidão na América Latina depende da incorporação deliberada de novas dimensões aos sistemas de informação já existentes. A primeira inclusão é conceitual: distinguir solidão, isolamento social, morar só, ausência de suporte, baixa conexão, abandono e desconexão relacional. Esses termos podem se sobrepor, mas não devem ser tratados como equivalentes. Uma política baseada em isolamento social não responde necessariamente à solidão subjetiva; uma intervenção contra solidão não substitui a expansão de serviços de cuidado; uma estimativa de domicílios unipessoais não mede sofrimento relacional.

A segunda inclusão é metodológica: incorporar módulos harmonizados de solidão, isolamento e redes em inquéritos nacionais e regionais. PNS, Elsi-Brasil, Sabe, MHAS, Creles, pesquisas de qualidade de vida na velhice, inquéritos de saúde mental e pesquisas de uso do tempo poderiam incluir perguntas mínimas comparáveis sobre solidão subjetiva, frequência de contatos, apoio emocional, apoio instrumental, conflito familiar, cuidado recebido e cuidado prestado. Sempre que possível, essa agenda deve ser longitudinal, mas não precisa esperar desenhos ideais para começar. Mesmo módulos transversais, se repetidos com a mesma metodologia, já permitiriam melhor monitoramento temporal.

A terceira inclusão é analítica: publicar estimativas estratificadas por sexo/gênero, idade, coorte, raça/cor ou etnia, escolaridade, renda e território. A ausência dessas estratificações não representa apenas uma lacuna técnica. Trata-se de decisão analítica que define quem aparece e quem desaparece do problema. No Brasil, raça/cor deve deixar de ser variável periférica. Em países andinos, caribenhos e mesoamericanos, etnia, idioma, ruralidade, migração e pertencimento territorial devem ganhar maior centralidade.

A quarta inclusão é teórica: aproximar a demografia da solidão da demografia do cuidado. Isso implica medir não apenas quem vive com quem, mas também quem cuida de quem, quem precisa de cuidado, quem não recebe cuidado, quem está sobrecarregado e quem permanece sem reciprocidade. Wajnman (2012), Arriagada (2007), Aguirre e Ferrari (2014), Batthyány (2020) e Sorj (2014) oferecem um repertório latino-americano mais adequado para essa tarefa do que a hipótese genérica de que sociedades familistas estariam naturalmente protegidas contra a solidão.

Por fim, a quinta inclusão é comparativa: construir uma agenda latino-americana que não dilua a região em médias globais. O México pode contribuir com o MHAS e com a análise de redes familiares transnacionais; o Chile, com pesquisas sobre envelhecimento acelerado, ruralidade e debates recentes sobre isolamento na velhice; o Uruguai, com sua experiência institucional em políticas de cuidado; a Colômbia, com estudos sobre redes de apoio e efeitos relacionais da violência; a Argentina, com a tradição de estudos sobre memória e desaparecimento; Costa Rica, Cuba, Peru, República Dominicana, Porto Rico e Venezuela, com dados e experiências úteis para estudos multicêntricos como o 10/66 e para a ampliação de análises sobre envelhecimento, saúde e cuidado. Em síntese, a América Latina deve aparecer como laboratório comparativo, não como pano de fundo, especialmente em estudos de solidão.

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    » https://doi.org/10.1111/jomf.12479
  • Reconhecimentos:
    Não aplicável.
  • 1
    Convém destacar que mesmo os itens indiretos de escalas como a UCLA não estão imunes ao contexto e ao estigma; a diferença analiticamente relevante está menos na oposição objetivo/subjetivo e mais no caráter uni ou multidimensional do instrumento e no modo como cada formato de pergunta se relaciona com o viés de desejabilidade social (Cacioppo; Hawkley, 2009).
  • Financiamento:
    Este estudo foi financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior − Brasil (Capes), Código financeiro 001.
  • Aprovação ética:
    O autor certifica que o trabalho não inclui seres humanos ou animais.
  • Disponibilidade de dados e material:
    Os conteúdos já estão disponíveis.

Editado por

  • Editores:
    Bernardo Lanza Queiroz, Júlia Almeida Calazans e Maria Carolina Tomás.

Disponibilidade de dados

Os conteúdos já estão disponíveis.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    16 Maio 2026
  • Aceito
    03 Jul 2026
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