Resumo
Baseado em uma etnografia que acompanha a trajetória de quatro jovens da periferia da zona sul de São Paulo, este artigo investiga a forma como o empreendedorismo se desenvolve como a outra face da cultura periférica. Entendido como forma cultural utópica do trabalho por conta própria, defendemos que o empreendedorismo desloca horizontes de expectativa que eram identificados anteriormente como preponderantes entre os moradores da periferia - um emprego com carteira assinada e a participação política. O artigo conclui que, ao não se verem mais representados no mercado de trabalho e nas organizações de esquerda, esses jovens se apoiam na utopia do empreendedorismo para dar respostas tanto aos seus dilemas individuais quanto, coletivamente, ao seu projeto de autonomia periférica.
Palavras-chave:
Atores, agentes e sujeitos; Economia social; Mobilidade socioespacial; Periferias urbanas; Empreendedorismo; Trabalho e renda; Horizonte de expectativa
Abstract
Grounded in an ethnographic study tracing the trajectories of four young people from the southern periphery of the city of São Paulo, this article investigates how entrepreneurship has developed as the other face of peripheral culture. Conceptualized as a utopian cultural form of self-employment, this study argues that entrepreneurship redefines the horizons of expectation that were once central to the lives of residents living on the periphery - namely, the employment and social security record card and political engagement. The article concludes that, feeling increasingly unrepresented in both the labor market and in left-wing organizations, these young people turn to the utopian ideal of entrepreneurship to navigate their personal challenges and, collectively, advance their vision of peripheral autonomy.
Keywords:
Actors, Agents and Subjects; Social Economy; Socio-Spatial Mobility; Urban Peripheries; Entrepreneurship; Labor and Income; Horizons of Expectation
Introdução
Em março de 2024, uma postagem publicada sem alarde em uma rede social surpreendeu adeptos e observadores da cultura periférica. Ela comunicava a suspensão, por tempo indeterminado, dos saraus da Cooperativa Cultural da Periferia (Cooperifa) - fundada pelo poeta Sérgio Vaz -, os quais aconteciam semanalmente no Jardim Guarujá, na zona sul de São Paulo. O episódio, carregado de melancolia e autorreflexão, expôs o momento pelo qual passavam seus personagens e o movimento que criaram há mais de duas décadas. Ao mesmo tempo, está inserido em um contexto maior de expectativas erigidas pelos coletivos de cultura referentes tanto às periferias quanto a outros espaços.
Desde os anos 1970, as periferias urbanas ganharam destaque na literatura, em decorrência da intensa imigração das décadas anteriores, da precariedade dos serviços públicos enfrentada pelos seus moradores e dos movimentos sociais embrionários que surgiram ao largo da identidade operária (Caldeira, 1984; Zaluar, 1985; Sader, 1988). Tal perspectiva também se relaciona com a “virada periférica” nos estudos urbanos (Ren, 2021) e com as etnografias a partir das “margens” (Das, 2004). No centro dessa tendência estava não apenas a análise quantitativa da nova heterogeneidade das periferias (Marques, 2014), mas a observação qualitativa dos seus modos de vida, marcados, no caso brasileiro, por questões econômicas e sociais e pela presença cada vez maior do pentecostalismo e do mundo do crime (Silva, 2004; Almeida, 2004; Feltran, 2011).
Entre os anos de 1990 e 2010, a periferia ganharia novo protagonismo com a incorporação de uma identidade ligada ao território, entrelaçando experiências de trabalho e de cidade (Telles, 2006). Para Tiarajú D’Andrea (2013, p. 45), a virada para a periferia acontece a partir dos anos 1990, quando o “fazer político” entra em crise nas grandes cidades pelo “refluxo dos movimentos sociais e pelo avanço do neoliberalismo”, fazendo o termo “periferia” assumir um conteúdo crítico, de “subjetividade compartilhada e reconhecimento mútuo de uma condição” e de território onde se formam “sujeitos periféricos”.
É na cultura periférica que mais comumente se materializaram os estudos sobre essa nova subjetividade (Corrochano; Laczynski, 2021; Fontes, 2020; Tommasi; Silva, 2020). Segundo Nascimento (2010, p. 118), “a conformação de uma cena cultural nas periferias está diretamente ligada às intervenções literárias e políticas de escritores identificados com a chamada literatura marginal ou periférica”. Os saraus das periferias, “reuniões em bares de diferentes bairros suburbanos da cidade de São Paulo, onde os moradores declamam ou leem textos próprios ou de outros diante de um microfone” (Tennina, 2013, p. 12), faziam desses estabelecimentos também centros culturais, diante da escassez de equipamentos públicos desse tipo, como afirma Sérgio Vaz. Assim, sob o guarda-chuva dessa cultura se reuniram, no começo dos anos 2000, ativistas, artistas e empreendedores sociais que reivindicaram esse pertencimento ao território. Naquele momento, “o termo ‘periferia’ passaria a designar não apenas ‘pobreza e violência’ - como até então ocorria no discurso oficial e acadêmico -, mas também ‘cultura e potência’” (Oliveira, 2018, p. 21).
Fundamental para isso, a década anterior já havia colocado a periferia no cenário cultural nacional com a popularização do hip hop e, sobretudo, com o sucesso dos Racionais MC’s.1 Foi nesse ínterim que as periferias tomaram o lugar das fábricas no imaginário progressista, abalado por transformações geopolíticas, pela reestruturação produtiva e pelo ocaso do desenvolvimentismo (Harvey, 2008; Giddens, 1991; Feltran, 2007). O deslocamento do olhar acadêmico para a periferia nasceria da constatação de que não se tratava mais de um território operário e de que ele não deveria ser considerado meramente pela ausência de vínculo com o mercado de trabalho (Rizek, 2006).
Por outro lado, essa nova geração comprometida com a cultura periférica precisava se engajar em atividades que garantissem sua sobrevivência econômica. Ressentidos com o mercado de trabalho, esses jovens passaram a se apoiar cada vez mais no empreendedorismo como meio para a realização da sua emancipação enquanto sujeitos da periferia (Silva, 2019).2 No contexto atual, em que experiências emblemáticas da cultura periférica enfrentam certo esgotamento, revigora-se ainda mais a utopia do empreendedorismo - a forma cultural pela qual o trabalho por conta própria aparece no mundo contemporâneo (Costa, 2024a, 2024b; Prieto; Verdi, 2023). O empreendedorismo popular é um movimento de continuidades e mudanças em que práticas residuais da experiência popular são atravessadas por tendências de modernização e racionalização (Beck, 2011).
Baseado na interlocução com quatro jovens da periferia da zona sul de São Paulo, este artigo analisa como tais processos recentes ressignificam a experiência periférica e os horizontes de expectativa desses sujeitos, acompanhando a politização desses espaços nas décadas anteriores. Os jovens desta pesquisa, que se autodefinem como anticapitalistas e empreendedores em diferentes situações, desvelam ao mesmo tempo ceticismo e valores utópicos. Escolhemos esses quatro interlocutores porque todos eles estão, em alguma medida, engajados no mundo da cultura periférica, que carrega ideais de mudança (“potência”) mas também apresenta os discursos e as práticas do empreendedorismo social. Não se trata de casos homogêneos, pois os sujeitos trazem experiências distintas de vida na e da periferia. Eles tampouco representam a maioria dos habitantes da periferia paulistana - é possível que sua experiência com a cultura periférica e com o empreendedorismo social seja inclusive bastante minoritária. Entretanto, o acompanhamento atento de suas perspectivas nos oferece uma oportunidade para entender melhor como o empreendedorismo, comumente entendido como uma ideologia da ordem (Lima; Oliveira, 2021), se combina com este projeto de emancipação periférica.
A etnografia que fundamenta este texto foi conduzida na periferia da zona sul de São Paulo entre 2017 e 2021 e faz parte de uma investigação maior.3 Além da observação participante em eventos de empreendedorismo social, chegou-se aos interlocutores por meio do método bola de neve ou pela interação em redes sociais de empreendimentos notáveis da região. Aqui, procuramos articular o trabalho empírico com os conceitos de espaço de experiência e horizonte de expectativa do historiador Reinhart Koselleck (2006), apresentados na primeira seção. Na sequência, expomos os relatos de nossos interlocutores, analisamos as mudanças operadas em seus horizontes de expectativa, e apresentamos uma síntese entre empreendedorismo e a utopia da autonomia periférica na última seção.
1. Espaço de experiência e horizonte de expectativa
Em ensaio célebre, Reinhart Koselleck defende a adequação de dois conceitos - espaço de experiência e horizonte de expectativa - para investigar o tempo histórico, já que incorporam passado e futuro e “dirigem as ações concretas no movimento social e político” (2006, p. 308). É nesse sentido que utilizamos tais conceitos aqui, pois nos permitem enxergar a forma como os interlocutores desta pesquisa - jovens periféricos do início do século XXI -fazem um balanço da experiência acumulada das gerações que os antecederam na periferia paulistana e projetam suas expectativas baseados em uma revisão das utopias do passado. Pretendemos captar neste artigo um movimento de quebra geracional que ocorre em uma periferia que se altera historicamente, porém tem se mantido, como argumentamos no início, como um espaço de projeção de ideais de emancipação.
Para Koselleck, “espaço de experiência” se define como o passado feito presente, “aquele no qual acontecimentos foram incorporados e podem ser lembrados” (ibid., p. 309), mas esses acontecimentos não se referem apenas à experiência individual, já que nela estão contidas experiências alheias. Como defende Maurice Halbwachs (1992), mesmo a memória mais individual é formada por “quadros sociais” que a determinam e que permitem a identificação e a expressão dessa memória. No contexto desta pesquisa, o espaço de experiência é dado pela vivência da periferia e a partir da periferia, tanto na trajetória de vida dos jovens aqui retratados quanto na forma como eles compreendem a experiência das gerações que os antecederam nesse espaço.
Já o conceito de “horizonte de expectativa” se traduz em um “futuro presente”, informando como atores contemporâneos projetam o porvir, uma projeção que pode estar baseada na experiência do passado mas que não se resume a ela, apresentando sempre algo imponderável. A metáfora do horizonte é importante, pois ele marca a linha a partir da qual uma nova expectativa se desenvolve, embora ela nunca seja visível. Ao contrário da experiência, que pode ser apreendida como um todo, a expectativa tem um aspecto fugidio, de um tempo que escapa e que se desdobra em uma “infinidade de momentos temporais” (Koselleck, 2006, p. 310). Neste estudo, horizontes de expectativa tomam a forma de projetos de vida e projetos utópicos defendidos pelos atores periféricos em sucessivas gerações. Eles podem se relacionar com o Estado, tornando-se ideais de cidadania ou projetos político-partidários, ou podem prescindir dele, traduzindo-se em solidariedades comunitárias ou estilos de vida.
2. Quatro trajetórias
2.1. Anticapitalista
Jovem moradora do Jardim São Luís, Elisângela4 faz questão de enfatizar que é “pé no chão”, relatando passos medidos por prudência e uma surpreendente disposição para esperar pelo momento certo para dar saltos maiores. Elis, de 24 anos, indígena e paulistana, combina uma habilidade para o mundo da gestão (que se manifesta na fala carregada de jargões empresariais) com uma percepção apurada da realidade da periferia e das estratégias adequadas para atingir seus moradores.
Elis tem um emprego fixo em uma instituição filantrópica no Capão Redondo, onde trabalha com captação de recursos privados e convênios com a prefeitura. É justamente a falta de dinheiro que a força, neste momento, a ter um trabalho com carteira assinada. “Meu, eu não gosto de horário fixo, eu quero só empreender [...], mas eu gosto do dinheiro fixo. Viver sem ter certeza, nesse momento, pra mim, eu não consigo”, declara, ciente das inseguranças que uma aposta no empreendedorismo traz. Ela reconhece que, curiosamente, é justamente o “trabalho fixo” que garante que ela possa ser empreendedora.
Com uma sócia, Elis tem uma produtora de audiovisual que também é um brechó de moda sustentável. Elas adquiriram os equipamentos da produtora ao vencer um edital do Programa VAI (Valorização de Iniciativas Culturais) voltado para a criação de uma rede de televisão comunitária.5 A partir daí, começaram a fazer pequenas produções locais e ensaios fotográficos exaltando uma estética periférica. A ideia do brechó nasceu da necessidade de “captar” mais recursos, já que os coletivos com que trabalhavam vivem no limite. No segundo ano, a produtora ainda funcionava essencialmente à base de permutas com comércios locais, uma prática que Elis valoriza, na medida em que permite driblar, por ora, a falta de verba de seus clientes e diversificar o público com que trabalham. O dinheiro viria com a profissionalização do negócio.
Aí falar um pouco do brechó. A gente tá tentando fazer editorial, fazer todo um kit... A nossa ideia é: “Meu, se os boys conseguem fazer, a gente também consegue fazer”, só que com a nossa cara, com a nossa identidade. A gente tá estudando o mundo deles, que é um mundo que na verdade é pra gente; [...] a Fashion Week lança, os bolivianos costuram, o Brás6 vende, e a gente consome. Então como a gente [...] constrói a nossa peça e a galera consome por um valor justo, sem estar explorando ninguém? Aí é um pouco disso [...]. Tem dado lucro? Não tem dado lucro, mas tem entrado uma remuneração, a gente tem pensado que é um investimento agora pra possível rentabilidade. (Elisângela, 24 anos, produtora, Jardim São Luís)
A trajetória de Elis é emblemática das transformações na vida dos jovens da periferia na última década, que vão além da urbanização e do acesso a bens e serviços: um grupo formado para a prática do empreendedorismo social (Catini, 2020). Frequentadora de uma organização social (OS) no Jardim São Luís quando adolescente e beneficiada com uma bolsa para um curso pré-vestibular, teve ali seu primeiro networking. Com 15 anos, fez um curso de empreendedorismo em outra OS, em que aprendeu sobre CNPJ, inscrição municipal, isenção de impostos. Aos 18, começou uma graduação em Relações Públicas na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), paga pela empresa em que trabalhava na época, “só que eu nunca me dei muito bem com hierarquia, e ao mesmo tempo [comecei a] pensar o valor do capital. Então quando você entende o valor de tempo dado e o dinheiro que não vem pra você, você começa [a pensar]: ‘eu vou dar esse tempo inteiro pra mim’”. Assim, fez apenas quatro meses de faculdade e largou o curso.
De volta ao bairro, começou a trabalhar como socioeducadora no Centro para Crianças e Adolescentes (CCA) e a militar em um coletivo anticapitalista do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), experiências que contraintuitivamente a incentivaram a empreender. Na militância de esquerda, ela conta que “foi pensando em estratégias de organização” e “entendendo como você consegue gestionar as pessoas”. Elis acabou se afastando da militância partidária, já que seu coletivo, formado majoritariamente por universitários de classe média alta, não compreendia as necessidades básicas de quem era “da quebrada”. Também percebia incoerências no partido de esquerda, que, depois de muitos anos de oposição ao Partido dos Trabalhadores (PT), mudou de posição repentinamente com a prisão de Lula. Com a vitória de Bolsonaro nas eleições de 2018, Elis resolveu desistir. “Meu, será que é válido eu gastar minha energia ridicularizando as piadas que ele faz, ou será que é melhor eu, nesse meu universo particular, que eu resido e que eu impacto, fazer algo que muda?”, pergunta, sem ter muita dúvida da resposta.
Para Elis, pouco importa se um trabalho é com carteira assinada ou não se ele for um trabalho precário - e, para o jovem da periferia, é provável que o seja. Assim, é com base na “potência” desperdiçada em ocupações que servem apenas para o sustento que ela interpreta o que chama de “consciência de consumo” e sua saída por meio do empreendedorismo. “O cara que faz o hambúrguer pro McDonald’s, ele sabe fazer o hambúrguer, só que ele faz o hambúrguer pro McDonald’s. Então, como pensar formas de conscientizar a galera a abrir o seu próprio negócio?”. Elis conta que foi a vivência na periferia, vendo gente “pronta pra brilhar e passando fome”, com amigos que abandonaram seus coletivos de cultura ou de militância para fazer hambúrguer em uma rede de fast food, que lhe acendeu um alerta.
Com essas experiências na bagagem, aliadas a seus conhecimentos de gestão, Elis se posiciona entre o ativismo e o negócio, pensando estratégias que sejam fiéis às suas preocupações com a sociedade - com um ou outro “perrengue” no processo - mas que também tenham potencial de criação de mercado. Então, para ela, a conexão entre local de moradia e representatividade de gênero, raça e orientação sexual nas suas produções não é apenas uma forma de exaltação de princípios de justiça social, mas um ativo, uma garantia de autenticidade que dá um selo progressista ao seu empreendimento.
São tensões que lhe causam alguns desconfortos. As marcas do passado militante ainda são sensíveis para Elis, que acabou se voltando sobretudo para a “galera dos negócios”, com quem não tem questões pessoais a serem debatidas, “e eu tô mais preocupada com o resultado do produto, de quantas pessoas estão sendo impactadas, que tipo de renda está sendo gerada...”. Elis considera que tem um estilo de vida sustentável, que a permite apoiar as causas que lhe são caras e afastar de si as responsabilidades imputadas pelos outros, como os coletivos de militância e de cultura. Da mesma forma, gostaria de eliminar a tutela do trabalho assalariado: “As pessoas poderiam não trabalhar, né? Nessa ideia de trabalho, de lucro, de remuneração, se fosse outro modo de vida...”. Desse modo, ela define sua situação hoje e como vê a sociedade em geral: o empreendedorismo é um exercício de afirmação utópica de liberdade, que inclui valores de coletividade porém se realiza sobretudo na esfera da agência individual.
2.2. Sujeito periférico
Nascido e criado no Grajaú, Júlio, de 32 anos, fez graduação em Comunicação Social na Universidade Santo Amaro (Unisa). Sua trajetória no mundo do trabalho começou aos 14 anos como empacotador e depois balconista em um supermercado. Já na faculdade, conseguiu um estágio em uma ONG de defesa do consumidor sediada na zona oeste. Depois, estagiou em uma redação, cobrindo tecnologia e finanças em um site de anúncios imobiliários. Atuou também como repórter em uma revista de tecnologia e negócios e em um site de notícias sobre a América Latina. Há cerca de dez anos, ele e outras duas colegas de graduação decidiram fundar uma produtora, descontentes em atuar no mercado de trabalho do Jornalismo, em que não se viam representados. Desde então, Júlio atua como gestor de conteúdos na produtora e faz outros trabalhos como freelance, nenhum deles com carteira assinada.
Cursou a faculdade com uma bolsa do Sindicato dos Comerciários de São Paulo (SECSP) e foi com essa experiência que ele e suas colegas começaram a questionar a representação da periferia feita pela mídia tradicional: “Que mídia é essa pra qual eu tô trabalhando? Que imaginário é esse que eu tô ajudando a construir exatamente?”, incômodo que ele estende para a universidade, salientando o quanto ela lhe “aumentou o repertório” para que pudesse analisar a sua realidade, mas o afastou, por exemplo, da sua primeira militância na Igreja Católica. Familiarizado com o circuito da cultura periférica da zona sul, ele remete ao poeta Sérgio Vaz em sua defesa de uma comunicação “deselitizada” e democrática, assim como a poesia que emana dos saraus da Cooperifa. “O que a gente faz não é novidade, acho que o que tem de novo é o acesso à universidade, que permitiu que a gente acessasse teoria e outros conhecimentos”, enfatizando o impacto das novas tecnologias, como a internet, a qual “permitiu que a gente se conectasse, por exemplo, com outros coletivos de comunicação”.
Júlio se descreve como um sujeito periférico. Provocado sobre isso, o jornalista faz referência à tese de doutorado de D’Andrea, A formação do sujeito periférico: cultura e política na periferia de São Paulo, defendida em 2013 na Universidade de São Paulo (USP). Em seus próprios termos, o sujeito periférico é uma pessoa “oriunda de periferias e que, a partir do entendimento desse lugar que ocupa, […] começa a agir politicamente para transformar sua realidade”. Com sua tese, D’Andrea parece ter criado um código em que sujeitos políticos como Júlio pudessem se identificar. Júlio reflete sobre o papel da sua produtora nessa transformação:
Tem um lugar que a gente quer chegar [...]. A gente acredita na nossa emancipação enquanto sujeitos periféricos e a gente não acha que isso vai se dar nesse sistema que é capitalista, que é racista, que é machista, que é LGBTfóbico, que tem uma série de divisões. Então a nossa busca é por superar isso. Mas, por outro lado, é o sistema em que a gente tá inserido também, então é muito contraditório, a gente fica tentando encontrar um meio-termo [...]. No momento atual, também a gente não espera que vai haver uma grande ruptura. E os boletos chegam, né? (Júlio, 32 anos, comunicador, Grajaú)
Júlio reúne duas características não necessariamente contraditórias, mas que parecem vindas de dois universos constantemente em tensão, a periferia e a universidade. Na sua quebrada, ele admite ter ainda um “longo caminho” para que a produtora alcance um público maior. Às dificuldades financeiras e técnicas e à falta de estrutura e recursos se soma uma dificuldade de linguagem: “A gente fala com um público muito específico, que é um público que também é de movimento, é de coletivo, ou já tem um engajamento político, ou teve acesso ao ensino superior”.
Diferentemente de Elis, Júlio enxerga mais vantagens em empregos com carteira assinada e encara o empreendedorismo de maneira mais crítica. Comenta que teve sorte: em um mercado de trabalho marcado pela “pejotização”, como é o da comunicação, conseguiu ter sua carteira assinada no passado e lamenta que, agora com seu negócio próprio, provavelmente não terá acesso à aposentadoria. Considera o epíteto “empreendedor” uma mentira: “Eu não me considero empreendedor, apesar da gente... no nosso caso, a gente criou um negócio do zero, mas assim, é porque a gente fala que a gente criou o nosso trabalho, a gente criou o nosso emprego”, diz Júlio. Assim, apesar das suas críticas ao discurso do empreendedorismo e seu apoio à formalização do trabalho, Júlio se viu impelido a deixar um mercado de trabalho que o desumanizava e não o reconhecia (embora lhe garantisse direitos formais) para abrir o próprio negócio e mergulhar nas suas incertezas, repetindo a trajetória de outros jovens “empreendedores” da periferia.
Júlio dá sinais de certo cansaço, o que também não é novidade diante da hostilidade crescente contra o ativismo nas periferias (Rocha, 2018). No entanto, anima-se ao falar sobre um dos projetos de sua produtora, que reconta as histórias de vida de mulheres que participaram de movimentos de luta por direitos na região do Grajaú:
Porque a gente percebe no nosso público - e também é uma inquietação nossa -, de que parece que tá tudo acabado, sabe? Que não tem saída. [...] As pessoas estão cansadas, assim, dessa luta. As pessoas tão fazendo a sua luta ali na sua casa, ali de conseguir se manter vivo, sobreviver. Então, como que a gente parte pra essa questão que não é do aqui e do agora, mas de ampliar esse espaço de tempo? Trazer a história dessas mulheres, por exemplo, é a gente voltar 30, 40 anos, mostrar o que elas fizeram lá atrás, quando era tudo mato - literalmente - aqui. (Júlio, 32 anos, comunicador, Grajaú)
2.3. Potências
Em seu cartão de visitas, marrom-claro adornado com motivos africanos, Vitória indica sua atividade como “produtora cultural”, “designer de sustentabilidade”, “facilitadora” e “astróloga”. A moradora do Grajaú de 27 anos tem muitas ocupações e se recusa a ter um “rótulo”, mas é impelida a aceitar, para resumir, o de produtora.7 À época da entrevista, ela trabalhava e estudava remotamente e fazia bicos como fotógrafa - função que, aliás, não constava no seu cartão.
Eu detesto rótulo. Não gosto, não consigo. Hoje eu me sinto facilitadora, uma pessoa que facilita encontros, que facilita relações, que facilita acesso, acho que é isso. Assim, então, eu acho que é difícil me colocar numa caixinha, porque eu vou saindo dela. [...] Eu acho que incentivo pessoas a acreditarem nos próprios sonhos, a acreditarem em vocês mesmos, porque eu acho que a partir do momento que você acredita em você, você pode ser o que você quiser. [...] Isso é muito a nova era que me traz, que eu tô muito no futuro, olhando pro que o futuro quer emergir. E o futuro não quer caixinhas, entendeu? [...] Vou usar o seu exemplo. Sociólogo, sociólogo, sociólogo... Todo mundo me vendo assim, e, se eu quiser mudar, eu não posso, porque tá todo mundo falando que eu sou isso. Então eu acabo me convencendo que eu sou isso. Só isso. (Vitória, 27 anos, produtora, Grajaú)
Em um festival de empreendedorismo que organizou em 2013 no Grajaú, ela e uma sócia dividiram a mesma barraquinha de artesanato e alimentação vegetariana e descobriram que tinham “a maior potência juntas”. São parceiras até hoje. A seus colegas empreendedores, Vitória se refere sempre como “potências”. Seu objetivo naquele festival era reuni-las e ganhar algum dinheiro. Com o propósito alcançado, ela e os demais se animaram: em 2017, realizaram uma nova edição do evento. Com o suporte da Red Bull, as feiras passaram de cerca de dez empreendedores para o dobro disso. Seu estímulo inicial? “Ver que a periferia tem grana”, diz. Falar de dinheiro, para Vitória, é um problema que ela alega ter superado; antes, sentia que “não podia almejar o dinheiro” e devagar foi descobrindo meios de romper com esse “tabu”.
Apesar da pouca idade, Vitória tem algumas histórias inusitadas para contar. Seu primeiro trabalho foi com o pai na sua imobiliária, em Pinheiros. Trabalhou por alguns meses com telemarketing enquanto cursava uma graduação em Psicologia nas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), que não concluiu. Após fazer alguns estágios, com 22 anos conheceu a agroecologia por meio de um coletivo de permacultura e se mudou para um assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em São José do Campos. Pouco tempo depois e de volta ao Grajaú, resolveu ser empreendedora por incentivo do pai.
Apesar da sua urgência em fazer acontecer, o que a leva a mobilizar uma cadeia de redes e contatos, sua percepção é a de quem se sente por vezes sozinha, com desejos que se desencontram da vida real da quebrada, o “quilombo moderno”, em suas palavras. Ela responde a isso afirmando que o desafio neste momento seria despertar as pessoas, “porque o plano foi tão bem arquitetado que a gente acaba matando os nossos sonhos”. Que plano? O do “genocídio”, ela responde, o qual muitos dos seus pares na periferia, amortecidos pela televisão, ignoram. Vitória entende o genocídio à sua maneira, não necessariamente como a ação violenta do Estado contra segmentos subalternizados, mas sim o extermínio de “sonhos” pela mídia. Esse sonho é o da autonomia, que ela acaba encarnando no empreendedorismo.
A contrariedade de Vitória ao trabalho assalariado é chave para a compreensão de uma dimensão emancipatória do empreendedorismo - a ânsia de não ter patrão. Apontando para a avenida, ela nota que “a galera faz um puxadinho dentro de casa pra empreender, pra virar negócio, pra não ter que trabalhar pros outros. Quem é que gosta de trabalhar pros outros, pelo amor de Deus?”. O empreendedorismo sonhado por Vitória deve servir à construção de um futuro utópico. É com esse mote que ela dá palestras em diversas regiões da cidade, nas quais propõe o seguinte exercício de imaginação: “Quando você pensa no futuro, o que você pensa? Aí pensou várias coisas. Dentro desse futuro que você pensou várias coisas, você vê pessoas trans dentro desse futuro? Se você pensou e não pensou nas trans, você não tá muito no futuro, sabe, que acolhe, participativo no geral...”.
Por sinal, seu pai pode ter sido sua primeira inspiração empreendedora, mas não estaria “muito no futuro” imaginado por Vitória. Em 2018, ela rompeu com ele, que votou em Jair Bolsonaro para presidente. Uma virada e tanto para esse ex-militante petista, do qual Vitória se lembra bem pelas fotos que guardou, onde aparece carregada nos ombros e vestida de vermelho em eleições anteriores. “Cara, é difícil dizer, porque meu pai não terminou o Ensino Médio, mas é uma das pessoas mais inteligentes que eu conheço, que ele lê muito. Autodidata”. Apesar de rechaçar o ex-presidente como uma figura excludente e autoritária, Vitória também rechaça a participação política entendida de maneira mais estrita. Ela relata nunca ter votado em um candidato, qualquer que fosse sua proposta. Nas primeiras eleições de que participou, votou nulo ou em branco, e na de 2018, em que despontava Bolsonaro, sequer saiu de casa, por não se sentir “estimulada”. Afirma que “é muita televisão na cabeça da galera também... Então não tem como competir com isso, velho, não tem. Então, o que você pode fazer é suas microcoisas ali, estimulando um a um, como você pode”. Tem certo apreço por Lula - que também “não é santo” - e afirma reconhecer sua contribuição aos desfavorecidos. Entretanto, a rigor, sua opinião sobre a política é a de que “o sistema já faliu... porque eles têm tanto apego lá ao lugar onde eles estão que já está arruinado há muito tempo. Vai ficar protegendo esse circo aí? Porque isso aí é um circo”.
Assim, Vitória finca suas esperanças individuais e coletivas no seu negócio, pelo qual pretende superar definitivamente o trabalho assalariado, uma “escravidão moderna”. O empreendedorismo, por sua vez, constitui-se de “novas embalagens para antigos interesses”, como diz a frase do cantor Criolo que ela tanto gosta de repetir, e, por mais que tenha perdido a “magia” ao virar moda, está no cerne do seu sonho de, ao vencer, “proporcionar ambientes mais saudáveis para pessoas menos favorecidas”. Vitória espera do futuro “paz de espírito, prosperidade, abundância e riqueza”, conquistar seu “lugar ao sol” e “empreender sem culpa, só pelo dinheiro”. Não descarta sair definitivamente da periferia e não quer se sentir culpada por isso, porque acredita que levará a quebrada para outros lugares. A sua vitória, justifica, “já é um impacto, porque não querem que eu vença”.
2.4. Céu estrelado
Frequentadora dos saraus da Cooperifa, com opiniões incisivas e raciocínio ligeiro, Maria Rita, de 27 anos, equilibra trabalhos fixos e como freelance, toca um jornal próprio e faz militância. A jornalista afro-indígena fez seu trabalho de conclusão de curso na faculdade particular FMU justamente sobre empreendedorismo periférico. Começou aos 14 anos como jovem aprendiz de auxiliar administrativa na USP. Formou-se em Comunicação Social com financiamento do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e começou a atuar como repórter e assessora de imprensa para um deputado na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp). Também fazia matérias colaborativas abordando o cotidiano da periferia para o Mídia Ninja.
Recentemente, concluiu que, “hoje, eu não trabalharia tão cedo, porque eu acho que é uma coisa que bloqueia várias outras coisas”. Essa “coisa”, no caso, é o mercado de trabalho. Há cerca de três anos, Maria criou seu próprio jornal online, o que lhe abriu algumas portas no universo do midiativismo. Ela conta que, “pondo na ponta do lápis”, valia a pena investir no trabalho por conta própria, “sem passar raiva, sem ficar aguentando chefe te enchendo o saco”. Todavia, seu envolvimento com a pauta política em um dos jornais em que estagiou também lhe rendeu algumas oportunidades, como a assessoria na Alesp, que pagava suas contas. Maria rejeita em absoluto a ideia de ter uma carreira no sentido convencional do termo, escalando postos em uma empresa e esperando ser reconhecida no longo prazo. Por sinal, ela acha que “a gente tem que acabar com essa cultura de que ‘você tem que entrar no mercado de trabalho’”, não vê sentido em trabalhar com carteira assinada e não hesita em se definir como uma “empreendedora”, o que, inclusive, associa a uma vida com mais qualidade.
O que o empreendedorismo significa pra você?
O que o empreendedorismo significa pra mim? Ir além do que tinham imposto, do que tinham mostrado, né, porque... O que tinham mostrado pra você como padrão, porque você tem que entrar numa empresa e fazer carreira, e o empreendedor, ele consegue ir além disso, fugindo desse padrão e geralmente fazendo alguma diferença. Só de não estar no formato comum, a gente já está fazendo alguma diferença, então, pra mim, o empreendedorismo é isso: você aprender a conseguir sobreviver à sua maneira e sendo, teoricamente, fora do sistema. (Maria Rita, 27 anos, comunicadora, Taboão da Serra)
Maria verbaliza com muita precisão o impulso emancipatório que ela e outros de sua geração periférica veem no empreendedorismo. De fato, trata-se de uma apropriação política de um conjunto de preceitos que são exóticos apenas na aparência. A impregnação empreendedora vem de um reforço individualista diante não exatamente da precarização do mercado laboral em si, mas da consciência dessa precariedade. Sua trajetória no mundo do trabalho é relativamente curta, mas ela o percebe como uma prisão; mais do que isso, trata-se do próprio “sistema”. Portanto, torna-se um raciocínio lógico ver o ato de empreender como estar fora desse sistema, “ir além do que tinham imposto”. Ao reivindicar o empreendedorismo, Maria também se vê como anticapitalista: “O capitalismo não é bom em nada. Ah, tem capitalismo consciente... capitalismo sempre oprime alguém. E eu me sinto culpada de estar oprimindo alguém”, lamenta Maria.
Maria Rita é herdeira de gerações engajadas com a participação política nas periferias brasileiras. Hoje, é adepta da umbanda, mas cresceu em uma Comunidade Eclesial de Base (CEB) em Taboão da Serra. Seu pai foi candidato a vereador pelo PT e ainda acompanha a política, assim como sua mãe. Maria, aliás, era filiada ao PSOL, lulista fervorosa e via nos programas sociais dos primeiros mandatos do presidente, sobretudo para a educação, projetos “revolucionários”, como o Programa Universidade Para Todos (Prouni): “Quando que você viu preto no Mackenzie?”, pergunta retoricamente.
Contudo, assim como Júlio, muitas vezes se vê falando entre poucos ao perceber que a pluralidade que existe na periferia não necessariamente pende para o seu lado, o da cultura periférica, ela mesma resultado de uma nova estratificação da periferia. “Porque a cultura na periferia, apesar de estar na periferia, ela é elitizada. Não é todo mundo que tem acesso, e mesmo quando tem acesso, as pessoas não entendem aquilo como cultura, não entendem como diversão, acham chato vir no sarau... O sarau está na quebrada, mas a pessoa da quebrada não vem no sarau”, aponta.
Sua posição política a levou, assim como Vitória, a romper com parentes e amigos na eleição de Bolsonaro em 2018, “porque votaram contra a minha vida. Sou preta, sou bissexual, e tipo, tudo o que eu sou... sou jornalista, tudo o que eu sou é um atentado pra eles”. Contudo, sua trajetória militante nos coletivos de esquerda também é permeada de desconforto, pois “a maioria é branco, burguês. É muito fácil...”. Contudo, mesmo com todas as adversidades, de dentro ou de fora da política, ela mantém a perseverança, que encontra sobretudo na sua comunidade de reconhecimento: empreendedores periféricos que distribuem sonhos pela pracinha diante do sarau da Cooperifa e que, nos seus momentos mais comoventes, fazem-na crer ser possível tomar de assalto o céu estrelado. “Cultura periférica eu acho que é o que vai salvar este país ainda”, encerra Maria.
3. Horizontes móveis
Como discutimos no início, ao apresentar essas quatro trajetórias, intencionávamos investigar mudanças em um grupo específico da juventude periférica: aquele engajado em projetos de transformação social, de perfil progressista, que poderia ter, em outros momentos históricos, engrossado as fileiras dos partidos de esquerda, movimentos sociais e ONGs nas periferias paulistanas, mas que hoje concentra suas energias utópicas no empreendedorismo. De maneira geral e ainda que de formas diferentes e em distintos níveis, os quatro jovens aqui retratados colocam de lado dois horizontes de expectativa que eram centrais para a geração de seus avós e pais: ter um emprego com carteira assinada e a participação política.
Inaugurado pelas políticas de Getúlio Vargas das décadas de 1930 e 1940, que ofereciam direitos sociais a trabalhadores formais urbanos, o horizonte de expectativa do emprego com carteira assinada marcou gerações subsequentes das periferias urbanas brasileiras durante o século XX, ainda que a maioria estivesse empregada no setor informal e não pudesse desfrutar, na prática, desses direitos. Como definiu Wanderley Guilherme dos Santos (1979, p. 75-76), “tornam-se pré-cidadãos, assim, todos aqueles cuja ocupação a lei desconhece [...]. O instrumento jurídico comprovante do contrato entre o Estado e a cidadania regulada é a carteira profissional, que se torna, em realidade, mais do que uma evidência trabalhista, uma certidão de nascimento cívico”.
Assim, o acesso à “cidadania regulada” de Santos (1979), que caracterizou essa relação vertical e autoritária entre Estado e sociedade marcada pelo corporativismo, foi por muito tempo considerado a verdadeira utopia das classes populares brasileiras. Adalberto Cardoso (2019) viu no modelo de desenvolvimento varguista a semente de uma identidade social e política inspirada nessa utopia, possível porque trajetórias reais de ascensão social criavam entre os excluídos a aspiração ao mundo dos direitos. “Vargas enquadrou, pela violência física e simbólica, o horizonte de expectativas e a vida cotidiana dos trabalhadores, limitando-os às fronteiras mesquinhas da sociabilidade capitalista, ao prometer acesso ao mundo do consumo e aos bens da civilização liberal” (ibid., p. 226), simbolizados pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Contudo, nas periferias brasileiras, não somente o mundo dos direitos sociais era aberto pela carteira de trabalho, mas também o dos direitos civis, já que o status de trabalhador comprovado pelo documento era o que muitas vezes evitava prisões arbitrárias por vadiagem (Silva, 1971, p. 17).
É importante ressaltar que o horizonte de expectativa da carteira de trabalho se referia sobretudo à esfera do reconhecimento proporcionado por ela, que se mostrava muitas vezes dissonante com as expectativas individuais. Diagnósticos das décadas de 1960 e 1970 já apontavam que muitos moradores da periferia preferiam o trabalho por conta própria, que garantia a aos trabalhadores mais autonomia, em detrimento do emprego formal (Durham, 1978; Silva, 1971; Cardoso; Camargo; Kowarick, 1975). Contudo, um olhar mais atento revela que essa preferência era manifestada nas escolhas pessoais, baseadas em experiências concretas no mundo do trabalho, mas não em projeções geracionais ou mesmo em projetos individuais de jovens trabalhadores. Nesses casos, prevaleciam as ocupações “não manuais assalariadas”, como o trabalho de escritório (Durham, 1978, p. 171; Cardoso; Camargo; Kowarick, 1975, p. 16).
É justamente esse “trabalho de escritório” que é rejeitado por nossos interlocutores: assessorias parlamentares e de ONGs, redações, imobiliárias e telemarketing. Para alguns dos jovens aqui retratados, como Elis e Maria Rita, o emprego formal “paga as contas”, mas é entendido como uma atividade secundária se comparada ao empreendedorismo. Mesmo reconhecendo as vantagens do emprego com carteira assinada, Júlio decidiu abandoná-lo por se ver subjugado por relações de trabalho em que não se via representado. No entanto, é Vitória quem resume a perspectiva desses jovens com relação a tal horizonte de expectativa datado: a carteira de trabalho é rotuladora, prende os indivíduos em categorias profissionais e, assim, limita o seu potencial. Em contraposição, esses jovens veem no empreendedorismo a possibilidade de “criar seu próprio emprego”, seja para escapar de relações de trabalho opressoras e hierárquicas, seja para fugir do cotidiano maçante e realizar mais plenamente o que acreditam ser o seu potencial individual.
Já o horizonte da participação política emerge na história brasileira sobretudo no período de redemocratização. Eder Sader (1988) foi quem melhor caracterizou esse impulso de participação ao retratar os novos personagens - metalúrgicos, CEBs, clube de mães etc. - que povoavam a região metropolitana de São Paulo e interpelavam o Estado autoritário exigindo direitos no final dos anos 1970 e início dos anos 1980. Esses movimentos sociais expressavam, para Sader, um novo arranjo das classes trabalhadoras brasileiras, que com isso rompiam com o corporativismo subordinado e alteravam definitivamente as relações entre Estado e sociedade na reivindicação de direitos. Em análise análoga, James Holston (2013) identificou a luta pela regularização fundiária nas periferias paulistanas como uma “cidadania insurgente”, na qual o direito à moradia abriria as portas dos demais direitos. A conquista de direitos via participação política se torna, então, um grande horizonte de expectativa nas primeiras décadas da redemocratização, com muitos moradores da periferia apostando em projetos político-partidários, sobretudo o Partido dos Trabalhadores.
A relação com esse horizonte utópico da participação política é bastante ambígua entre os quatro jovens que acompanhamos. Enquanto Maria Rita ainda é militante partidária de esquerda e Júlio se orgulha de produzir material audiovisual que exalta lutas passadas, Vitória e Elis se mostram mais céticas em relação à militância partidária e social mais tradicional. Apesar de se posicionarem como progressistas, a favor de causas liberais e contrárias ao governo do ex-presidente Bolsonaro, as duas relatam não ter votado nas eleições de 2018, quando ele foi eleito. Essas ativistas periféricas têm investido cada vez mais nas “microcoisas”, em um tipo de engajamento típico das propostas de impacto social celebradas nos circuitos do filantrocapitalismo global (Sklair; Glucksberg, 2020; Sales, 2022).
Contudo, essa posição também reflete um desgaste com relação ao distanciamento da esquerda tradicional da periferia. Ao explicar seu afastamento da militância, Elis vê as disputas contemporâneas, marcadas pela “ridicularização de piadas” típica da política das redes sociais, como perda de tempo e pouco relevantes para a sua realidade. E mesmo aqueles que ainda se mantêm na militância tradicional, como Maria Rita, declaram não se verem representados nas organizações de esquerda, que não têm recorte periférico: “A maioria é branco, burguês”. Assim, é novamente o empreendedorismo que carrega a promessa de realização das utopias contidas em seu progressismo (um mundo sem homofobia, transfobia, racismo, machismo etc.), mas também as expectativas de emancipação econômica da sua comunidade periférica.
4. Considerações finais
Como argumentamos ao longo deste artigo, o empreendedorismo aparece como consequência das opções de vida desses jovens, uma outra face da cultura periférica que promovem. Ele emerge como uma saída para dilemas enfrentados nas suas experiências individuais e coletivas. Trabalho e participação política, apesar de aparecerem em diferentes momentos em suas narrativas, fazem parte de um mesmo universo simbólico descartado, que já não correspondem aos seus modos de vida e às suas aspirações políticas.
Se a “disputa do Estado” e a “conquista da carteira de trabalho” eram os horizontes anteriores, agora eles são vistos como o “sistema”, um “projeto” de “genocídio de sonhos”, e neles não há espaço para emancipação - pelo contrário. Esta se realiza, então, pela agência individual no mercado, que impacta “esse meu universo particular”. O horizonte de expectativas, porém, parece utópico, onde tudo é “potência”: há a manutenção do político na forma de uma sociedade em que se quer viver, mais igualitária.
Desse modo, por um lado, o empreendedorismo alimenta a expectativa de autonomia individual, limitada pelo mundo do trabalho. Ele encarna a utopia do mundo sem patrões e sem hierarquias, sem horário de trabalho fixo, sem rótulos, de dedicação às atividades que promovem a realização pessoal. Por outro lado, oferece um caminho que busca a transformação social em uma sociedade que está cada vez menos interessada na militância e na organização partidária. Pelo empreendedorismo, defendem nossos interlocutores, é possível mudar a realidade da quebrada, fazendo o dinheiro circular internamente, cortando intermediários, cobrando preços justos e sem exploração. Ele encarna, assim, uma utopia de autonomia periférica, em que as mudanças econômicas da periferia fariam parte de uma transformação mais ampla, gerada por moradores locais e a partir deles, a qual lhes garantiria uma vida mais digna frente às adversidades impostas pelas forças externas. Esse projeto de autonomia coletiva é traduzido pela expressão “nóis por nóis”, que, com seu discurso de cooperativismo, bastante inspirado na economia solidária (Corrochano; Laczynski, 2021), também transmite o ceticismo com a política tradicional e com as possibilidades de integração.
Para fazer esse horizonte emergir, contudo, esses jovens deixam baixas pelo caminho. O discurso dos direitos desaparece de seu vocabulário, já que o Estado é substituído pelo mercado como palco das lutas emancipatórias. Baixas também acontecem no plano individual, pois, para se dedicarem ao empreendedorismo, eles acabam acumulando jornadas duplas, visto que precisam do emprego fixo para “pagar os boletos”. A equação só é possível porque o empreendedorismo não é considerado trabalho, e sim um modo de vida. São essas baixas que têm justificado a interpretação do empreendedorismo como expressão de uma subjetividade neoliberal, focada na perda de direitos e no autogerenciamento, além de ser geradora de dominação de classe (Iamamoto; Mano; Summa, 2021, Amorim; Moda; Mevis, 2021; Laval; Dardot, 2013). Neste artigo, entendemos a relação entre a utopia periférica anticapitalista e a ideologia empreendedora fomentada pelo neoliberalismo como uma tensão constitutiva da ação política dos nossos interlocutores, que aparece com diversos matizes e nuances em cada um dos casos, mas que não necessariamente atribui suas práticas à subordinação de classe.
O empreendedorismo que emerge da cultura periférica também “herda” contradições de outros movimentos que o antecederam na periferia, como as ONGs, os movimentos sociais e os partidos de esquerda. Paradoxalmente, a incorporação de conceitos acadêmicos e do discurso progressista, mesmo que estes tenham sido feitos para representar a periferia, gera um estranhamento em relação aos demais moradores da periferia. Além disso, como salientamos no início, na grande heterogeneidade das periferias brasileiras, os projetos de autonomia e emancipação periférica ainda têm dificuldades para se popularizarem, diferentemente do que ocorre com o empreendedorismo, que se enraíza com facilidade em atores periféricos dos mais diferentes perfis.8 Se a cultura periférica se pauta por uma cultura “deselitizada”, Maria Rita, por exemplo, a vê justamente como uma cultura da elite da periferia e constata que “a pessoa da quebrada não vem no sarau”. São paradoxos que alcançam também seus intérpretes na universidade, que buscam na periferia um novo sujeito político, muitas vezes alheios à heterogeneidade e às tensões que os próprios jovens periféricos reconhecem.
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1
Por sinal, como observou Fontes (2020, p. 6), os saraus em São Paulo também não se limitaram às periferias; eventos semelhantes foram organizados no centro da cidade, com públicos de classe média.
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2
Silva (2019, p. 193) traz vários relatos dessas atividades, em que na confecção de um produto (roupas, acessórios etc.) há uma “desconstrução de paradigmas e a possibilidade de ressignificação contínua de suas identidades e subjetividades”. Em um dos casos mencionados, uma empreendedora define seu ateliê como uma “fábrica de sonhos”.
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3
Esta pesquisa mapeou diversas formas como o empreendedorismo se cruza com as experiências de vida na periferia paulistana, incluindo algumas que não são necessariamente marcadas pela cultura periférica e pelo empreendedorismo social (Costa, 2024b).
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4
Os nomes dos interlocutores foram alterados.
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5
O VAI TEC é um programa de aceleração de negócios promovido pela Agência São Paulo de Desenvolvimento (ADE Sampa) em colaboração com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho.
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6
O bairro do Brás está localizado na região central de São Paulo e é conhecido pelo comércio atacadista de roupas e tecidos.
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7
Livia de Tommasi e Gabriel Silva (2020) notaram, por sinal, que muitos indivíduos que circulam pela cultura de periferia acabam assumindo a ocupação laboral de produtor, apesar da heterogeneidade de suas funções.
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8
Diversos trabalhos já apontaram para a aproximação do empreendedorismo com o pentecostalismo e com um ethos popular mais enraizado, baseado numa vontade de autonomia do trabalho constitutiva das periferias brasileiras (ver Costa, 2024b; Almeida, 2017; Durham, 1978).
