Resumo
Os periódicos representam uma das principais formas de validação e difusão de conhecimento nas ciências. A ciência, no entanto, não é neutra, pois há uma complexa engrenagem acadêmica e mercadológica de produção de artigos que influencia o funcionamento da rede de conhecimento, citações e métricas de impacto. Este artigo aborda questões relacionadas às mudanças na qualificação dos periódicos brasileiros e latino-americanos ante os grandes indexadores editoriais. Foi realizada uma análise comparativa dos posicionamentos dos periódicos em Planejamento Urbano e Regional/Demografia (PURD)do Qualis (quadriênio 2013-2016 e Único de 2020), cujas variáveis incluem o posicionamento no Qualis, indexadores cadastrados e métricas de impacto. Os resultados apontam um alinhamento do método de classificação da Capes com critérios de grandes indexadores editoriais e o modo como essas mudanças se aproximam da lógica de publicação e priorização de alto impacto presente nas Ciências Exatas e Biológicas. Por fim, discutem-se os efeitos que essa abordagem pode trazer para o cenário de difusão científica em Planejamento Urbano e Regional.
Palavras-chave:
Planejamento urbano; Gestão urbana e regional; Teorias urbanas; Estudos urbanos; Colonialismo científico; Difusão científica; Periódicos científicos
Abstract
Journals represent one of the main ways of validating and disseminating knowledge in the sciences. Science is not neutral. There is a complex academic and marketing gear of article production that influences how the knowledge network, citations and impact metrics work. This article addresses issues related to changes in the qualification of Brazilian and Latin American journals in the face of major editorial indexes. A comparative analysis was made of the placements of journals in PUR/D of Qualis (the four-year period 2013/2016 and Único 2020). The variables include placement in Qualis, registered indexes and metrics of impact. The results point to an alignment of CAPES classification method with the criteria of major editorial indexes. These changes are alike the high-impact publication and prioritization logic present in the exact and biological sciences. Finally, we discuss the effects that approach can bring to the scenario of scientific diffusion in Urban and Regional Planning.
Keywords:
Urban Planning; Urban and Regional Management; Urban Theories, Urban Studies; Scientific colonialism; Scientific Diffusion; Scientific Journals
1. Introdução
Sob a dinâmica contemporânea de produção e disseminação do conhecimento, os periódicos científicos ocupam papel central como veículos de validação acadêmica e como instrumentos de poder dentro da rede global de informações. A maneira como esse conhecimento circula e se legitima está fundamentalmente ligada a uma rede de forças complexas, que envolvem questões de centralidade, influências culturais e econômicas, além de mecanismos de poder. Nesse contexto, a pressão por visibilidade internacional e o alinhamento com padrões globais afetam diretamente o modo como a ciência é praticada e divulgada em âmbito mundial.
A rede de conhecimento é um objeto mutante, sensível à pressão de forças como poder, centralidade e similaridades; a produção científica, incluindo aquela disseminada por meio dos periódicos, está sujeita a tais mecanismos de funcionamento da rede. Existem critérios e plataformas internacionais de indexação e qualificação de revistas científicas que até certo ponto influem na divulgação, no acesso e na influência dos artigos publicados. Em nível internacional, o Scimago, a Web of Science e o Scopus são as mais reconhecidas e as que apresentam métricas e critérios próprios de classificação dos periódicos científicos. Os padrões internacionais instituídos por essas plataformas impactam sistemas similares em escala nacional ou em nível continental (a exemplo da SciELO ou da RedALyC) e em critérios de qualificação de revistas em instituições como o Qualis da Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Esses padrões, ao moldarem as práticas editoriais e científicas, lançam luz sobre as forças culturais e políticas subjacentes que influenciam esses mesmos critérios, revelando as complexidades e as influências intrínsecas à ciência.
Como apontado por Quijano (2000) e Mignolo (2005), essa rede de conhecimento reflete não apenas uma hierarquia acadêmica, mas também uma colonialidade do saber, na qual o conhecimento produzido no Norte Global se torna a medida universal de validade. A colonialidade do saber, segundo Quijano (ibid.), implica a imposição de um padrão de conhecimento que subordina epistemologias não ocidentais, desconsiderando a diversidade de formas de conhecimento desenvolvidas em contextos não hegemônicos. Nesse sentido, a ciência, especialmente em suas formas mais institucionalizadas, perpetua relações de poder que marginalizam saberes periféricos, enquanto promove um discurso de universalidade que mascara essas assimetrias.
Harding (1998) também destaca que as hierarquias epistemológicas têm raízes profundas no colonialismo, uma vez que as epistemologias do Sul Global são historicamente excluídas ou subordinadas. A modernidade se estabelece como um projeto eurocêntrico, criando um “mito” de que o progresso e a ciência são monopólios ocidentais. Isso coloca os periódicos latino-americanos em uma posição de desvantagem, ao terem que se alinhar aos critérios e padrões de avaliação oriundos de contextos que não refletem suas realidades locais. A ciência não é neutra - ela carrega influências moldadas por perspectivas culturais, sociais e políticas. Em um contexto ampliado de rede de conhecimento, as pesquisas e publicações que se encaixam com mais precisão nos moldes acadêmicos internacionais recebem maior visibilidade.
No meio científico, observamos diversas críticas à universalidade da ciência. Harding (1998), Dussel (1993), Quijano (1992) e Mignolo (2017) apontam em seus trabalhos um mundo onde comunidades específicas (e poderosas) se apresentam como centros do mundo científico, com a pretensão de um discurso neutro e universal. Mas esse status de centralidade é uma autoavaliação que se reflete no mito da modernidade (Dussel (1993; Souza; Romagnoli, 2022). O conhecimento criado e circulado pelas periferias, ou seja, por países menos favorecidos e previamente conquistados - o Sul Global -, é mais um objeto a ser controlado pelo domínio das ditas centralidades. Como bem posicionado por Souza e Romagnoli (ibid, p. 4) “[...] a concepção moderna de ‘conhecimento’ só poderá conceber como ‘conhecimentos’ expressões do pensamento humano que se aproximem do modelo (método) ocidental ou que sejam compatíveis com seus princípios”. Essa crítica evidencia uma dinâmica de poder que não apenas marginaliza, como também forma uma barreira estrutural contra a inclusão e o reconhecimento de diversidades metodológicas.
Os países dominantes do Norte Global exercem uma influência significativa na avaliação e no funcionamento dos periódicos científicos, moldando muitas vezes os padrões e critérios pelos quais a pesquisa é avaliada. Historicamente, a academia ocidental tem desempenhado papel central na definição das normas científicas, o que resulta em uma tendência à valorização de perspectivas desses países. Isso se reflete na preferência por métodos de pesquisa que se alinham mais estreitamente com a tradição científica de países dominantes da Europa e da América do Norte, muitas vezes desconsiderando epistemologias e abordagens de conhecimento originárias de outras culturas. Além disso, a linguagem utilizada nos periódicos científicos não raro reflete esse funcionamento da rede de conhecimento, favorecendo a publicação de trabalhos escritos em inglês em detrimento de outras línguas. Isso pode excluir pesquisadores de regiões em que o inglês não é a língua predominante e limitar a diversidade de vozes na produção científica (Ultramari; Cantarim; Jazar, 2019).
A imposição de padrões eurocêntricos também se manifesta na escolha de tópicos de pesquisa considerados relevantes, com frequência centrados em questões que são mais pertinentes às realidades dos países dominantes do Norte Global. A ciência não é universal; ela reproduz hierarquias e assimetrias globais no conhecimento científico. Mudanças nesse cenário exigem uma conscientização crítica sobre tais padrões e um esforço coletivo para promover uma ciência mais inclusiva e diversificada.
Diante disso, este artigo tem, pois, como principal objetivo a análise dos desafios enfrentados pelos periódicos brasileiros e latino-americanos na área de Planejamento Urbano e Regional (PUR) no contexto internacional de difusão de conhecimento, em busca de compreender as dinâmicas globais que afetam sua visibilidade e reconhecimento. Para isso, foi realizada uma análise comparativa das classificações desses periódicos no quadriênio 2013-2016 e no Qualis Único de 2020, a fim de identificar como as métricas internacionais moldam suas práticas editoriais. Além dessa análise, foram investigadas as barreiras epistemológicas e estruturais impostas pelo colonialismo científico, ressaltando o impacto da hegemonia eurocêntrica na ciência, que privilegia saberes ocidentais, especialmente nas Ciências Exatas e Biológicas, em detrimento das Ciências Humanas, como os estudos urbanos. Como resultado, discute-se a necessidade de estratégias que fortaleçam a inserção dos periódicos latino-americanos em indexadores globais, sem comprometer a relevância dos contextos regionais.
O cruzamento dos dados da classificação nacional com as informações de indexação e métricas de impacto de indexadores-chaves (Scimago; SciELO; Scopus; World of Science [WoS]; RedALyC; Latindex) permite uma análise para além de seu potencial de difusão científica, estendendo-se a sua capacidade adaptativa diante das pressões científicas internacionais. Entre as variáveis analisadas neste artigo estão: a classificação geral segundo o Qualis no quadriênio 2013-2016 e o Qualis Único de 2020, a inclusão nas principais plataformas de indexação e as principais métricas de impacto (JCR; SJR; índice H; índice H5; Q Scimago). Esse enfoque multidimensional pretende proporcionar uma visão abrangente sobre o impacto das métricas globais no reconhecimento acadêmico regional e nas estratégias de resistência ou conformidade adotadas pelos periódicos.
O estudo problematiza, ainda, algumas dificuldades que os periódicos nacionais e latino-americanos enfrentam para atingir patamares mais altos de reconhecimento em nível local e internacional. É necessário compreender tais obstáculos e identificar possíveis alternativas para a ampliação da visibilidade de nossos periódicos (não só em PUR, mas também de outras áreas em geral) e atingir um consequente posicionamento contra-hegemônico perante as grandes corporações editoriais globais.
O artigo está estruturado em cinco partes: 1. Introdução; 2. A produção da ciência como colonialismo global; 3. Método: métricas para uma análise da produção latino-americana; 4. Alcance e visibilidade da produção latino-americana; e 5. Considerações finais.
2. A produção da ciência como colonialismo global
Pode-se considerar o conhecimento científico um objeto imaterial que pode ser transmitido, difundido e circulado - desde que existam ambiente e veículo para sua difusão. Muitos fatores influenciam a forma como o conhecimento é produzido, por qual motivo e seu modo de circulação.
Nesse sentido, Latour (2000) nos lembra de indagar quem faz ciência e quais são os objetivos e interesses envolvidos na formação de uma pesquisa. A ciência se faz do lado de fora e de dentro - há um alinhamento entre os objetivos e interesses de um pesquisador do lado de dentro (do mundo científico) e de grupos do lado de fora (do mundo exterior). A existência de grupos com interesse e com capacidade de oferecer recursos de pesquisa para cientistas pode definir quais temas e trabalhos merecem destaque e prioridade. Para as Ciências Sociais, esses grupos podem ser compostos de políticos, professores, universidades, instituições de pesquisa e planejamento, o próprio Estado, a indústria, e assim por diante.
Pode-se entender que a produção de conhecimento científico depende de uma série de atores e agências, recursos e oportunidades, trocas e diálogos. As relações entre esses elementos são essenciais na configuração de um sistema que só faz sentido quando há a colaboração de diversos aliados. São tais características que levam Latour à seguinte realização: “se a tecnociência pode ser descrita como algo tão poderoso apesar de tão pequeno, tão concentrado e tão diluído, significa que tem as características de uma rede” (2000, p. 294).
A palavra “rede” pressupõe uma estrutura formada por fios, malhas e pontos de interação - os nós. Esses “nós” simbolizam locais de concentração de força e, no caso da rede de conhecimento, de mais poder e recursos. A interpretação dos nós varia conforme o contexto, podendo representar atores individuais, organizações, cidades, universidades e até mesmo instituições associadas com a disseminação de conhecimento (o que inclui as publicações de cunho científico).
É primordial reconhecer que essa estrutura em rede, que organiza e dissemina o conhecimento, também reflete as desigualdades coloniais presentes no sistema-mundo moderno. A colonialidade do poder, pois, se manifesta não apenas na esfera econômica e política, mas igualmente na produção do saber (Quijano, 2000). A ciência, em sua forma contemporânea, carrega consigo um legado colonial que subordina epistemologias não ocidentais e privilegia saberes produzidos nos centros de poder do Norte Global.
Se o conhecimento é um objeto imaterial que circula em uma rede, isso significa que - para além de estar sujeito a alinhar-se ao jogo de interesse, aos atores e aos demais elementos de seu ambiente -, ele também necessita de formas concretas de circulação. Ou seja, para circular, é necessário um veículo com capacidade de transmitir o conhecimento. Esse veículo pode ter dois tipos de natureza: (i) agente ou (ii) objeto. O agente de transferência, segundo Stone (2004), pode ser um profissional, político, pesquisador, instituição ou uma organização. Também para Latour (1993; 2012), pessoas, documentos e arquivos são exemplos de intermediadores ou mediadores que fazem a conexão entre atores. Os intermediários são agentes ou objetos que transportam o conhecimento e ideias de lugar para lugar sem modificá-los. Os mediadores, por outro lado, são atores que podem ser pessoas ou objetos viajantes que, apesar de mobilizarem o conhecimento, acabam distorcendo e modificando o significado daquilo que deveriam transmitir (Latour, 2012; Müller, 2015).
Assim, no contexto da circulação do conhecimento, os periódicos científicos atuam como veículos de conhecimento, utilizando os artigos como documentos materiais/imateriais que podem ser difundidos em uma rede científica estruturada. Dessa forma, os periódicos científicos são exemplos de intermediários com a capacidade de difusão de conhecimento em larga escala, sem modificar o sentido original de seu conteúdo. Por isso, produção contínua e publicação frequente de artigos em revistas científicas são não apenas desejáveis, mas essenciais para a maioria dos pesquisadores. É necessário reconhecer, porém, que há uma cobrança de publicação imposta a professores, alunos e demais pesquisadores, que serve não só para avaliar a qualificação profissional individualmente, mas também para definir notas dos programas de pós-graduação e instituições de pesquisa às quais estão vinculados. Essa dinâmica influencia diretamente as prioridades das revistas selecionadas para publicação, leitura e citação.
Nesse contexto, a colonialidade do saber se manifesta de maneira ainda mais evidente nas dinâmicas de publicação acadêmica. O controle sobre os meios de difusão do conhecimento - incluindo os periódicos científicos - é uma das formas mais poderosas de manter a hegemonia epistêmica (Mignolo, 2017). As revistas científicas de maior impacto global, localizadas majoritariamente nos Estados Unidos e na Europa, funcionam como “guardiãs” de um cânone científico que exclui ou subordina outros modos de saber. Essa hierarquia epistêmica limita o espaço para epistemologias alternativas e marginaliza a produção científica do Sul Global, obrigando pesquisadores latino-americanos a se conformarem aos critérios estabelecidos por esses centros hegemônicos de produção do conhecimento. Essa lógica coloca os periódicos latino-americanos, e de outras regiões do Sul Global, em uma posição estruturalmente desfavorecida na rede de conhecimento global.
Em tal cenário de marginalização epistêmica, a consolidação de instituições de ensino e pesquisa em urbanismo e planejamento urbano nos países tidos como periféricos, em conjunto com as novas demandas específicas de cidades desses países, pavimentou o caminho para a renovação das formas de pensar (e replicar) ideias. Ainda presente, a herança do colonialismo continua influenciando os diálogos estabelecidos na rede de conhecimento, agora assumindo outras faces. Sobre essa questão, a citação de Boucher et al. (2009) reforça o papel que a história, a influência e as diferenças entre as cidades têm na trajetória da urbanização de cada uma delas:
Cidades em todo o mundo têm histórias extremamente distintas. Elas são constituídas e compostas na interseção de diversas influências e condições. Embora esse seja igualmente o caso das cidades do Sul Global, suas trajetórias de urbanização são marcadas pela diferença colonial. Espaços, recursos e corpos foram disponibilizados para a instanciação de uma modernidade configurada externamente e inscritos nos circuitos de acumulação onde uma perda líquida de coisas em seus fluxos para o Norte exigia uma compensação irregular e sempre insuficiente. O colonialismo projetou várias instabilidades. Por exemplo, a mão de obra era com frequência deslocada e a residência urbana era sempre temporária. As cidades eram domínios de um tipo particular de posicionamento, em que as distinções entre cidadão e sujeito podiam ser marcadas, em que a mobilidade de ideias, corpos e economias “nativas” podia ser controlada e em que os sinais da modernidade podiam ser inscritos (Boucher et al., 2009, p. 990, tradução nossa).
Essas relações de poder, colonialismo e heranças pós-coloniais são os principais aspectos que ditam as centralidades e as formas de diálogos na rede de conhecimento (Cantarim; Ultramari, 2023). Para Boucher et al. (2009, p. 991), “a estranha linguagem da urbanização somente é legível se as relações de poder forem espacial e temporalmente entendidas” (tradução nossa) - uma lógica que se aplica não apenas à escala das cidades, mas também às redes urbanas em todos os seus aspectos materiais e imateriais.
Com base na perspectiva de uma ciência dominada por uma hegemonia ocidental (especialmente estadunidense e eurocêntrica), que impõe um modelo global de conhecimento e produção científica e que, ao mesmo tempo, se proclama neutra e universal, podemos afirmar que temos um contrassenso. Essa abordagem tende a ignorar as histórias específicas das expansões coloniais europeias no Sul Global, assim como dos efeitos da exploração de escravizados e de populações nativas durante o “desenvolvimento” das sociedades ocidentais. Para Boatcă (2022, p. 9), “a fundamentação dos campos centrais da teoria e da pesquisa nas premissas epistemológicas do contexto europeu ocidental produziu, sistematicamente, pontos cegos metodológicos e geopolíticos duradouros que a análise do sistema-mundo ainda ajuda a iluminar”.
Na rede de conhecimento - parte importante do aspecto imaterial da rede urbana -, variáveis como poder, formação de centralidades e estabelecimento de diálogos nem sempre seguem um padrão ou acontecem de forma previsível. Em muitos casos, o que se percebe é o contrário: uma forte inconstância na circulação e na adaptabilidade das ideias. Vazios e desvios de percurso podem impedir que a circulação transcorra dentro dos circuitos esperados - o que remete ao conceito de “topological multiplicities”, segundo o qual, apesar dos esforços em capturar e circular conhecimento dentro de um sistema específico, certo nível de conhecimento escapa ao circuito e cria fluxos distintos (Müller, 2014, p. 322).
A imprevisibilidade na circulação das ideias leva à observação de que trajetórias inesperadas, adaptações, fragmentações e recirculações são constantes dentro de uma rede de conhecimento. Todo o processo que permite transmitir o conhecimento à distância, envolvendo objetos que carregam tais ideias, também possibilita que novas interpretações e ajustes sejam realizados em diferentes contextos. Essa dupla característica confere às redes uma natureza instável ou fluida (Müller, 2015).
Dentro de um contexto científico e contra-hegemônico, pode ser desejável a formação de circuitos alternativos por onde fluxos de conhecimento não estejam presos a rígidos critérios internacionais. No caso dos periódicos, uma adaptação e independência em relação aos critérios de qualificação do mercado editorial global podem significar mais espaço de diálogo e crescimento das revistas em nível continental. Isso pode ser evidenciado por três aspectos desejáveis e promissores para a rede de conhecimento, especialmente no que se refere ao estudo da cidade.
Primeiro, a maior independência das periferias globais em relação aos países centrais - especialmente no tocante ao desenvolvimento científico de estudos urbanos - destaca uma resistência às normativas eurocêntricas e estadunidenses que dominam os critérios de indexação, como Scopus e Web of Science. Essa autonomia pode fomentar uma produção de conhecimento que ressoa mais profundamente junto às realidades locais, valorizando metodologias e teorias que emergem fora dos centros tradicionais de poder acadêmico.
Segundo, as particularidades das cidades do Sul Global incentivam a criação de soluções locais e a troca de conhecimento entre as periferias. Essa dinâmica estimula uma rede de conhecimento mais inclusiva e diversificada, onde as experiências urbanas dessas regiões podem ser compartilhadas e adaptadas, criando um tecido de informações que desafiam as narrativas dominantes e promovem a sustentabilidade e a inovação adaptada aos contextos locais.
Terceiro, a própria natureza da rede de conhecimento permite uma maleabilidade e a adaptabilidade das ideias. A flexibilidade da rede facilita a interação entre influências hegemônicas e forças internas, ampliando as possibilidades de disseminação e enriquecimento do conhecimento científico. No campo do planejamento urbano e regional no Brasil, na América Latina e nos demais países do Sul Global (Ultramari; Cantarim; Jazar, 2019), isso significa uma oportunidade de desenvolver teorias e práticas que refletem as nuances específicas de cada região, promovendo uma troca de saberes que transcende fronteiras geográficas e epistemológicas.
Essas características reforçam um cenário no qual o conhecimento, para além de circular, também é transformado e apropriado de maneira que reflete e respeita a diversidade global. A formação de tais circuitos alternativos desafia o status quo e propicia um campo fértil para o avanço de um diálogo científico mais equitativo e representativo das diversas realidades urbanas mundiais.
3. Método: métricas para uma análise da produção latino-americana
No que diz respeito à metodologia, este artigo apresenta uma abordagem quantitativa para examinar o posicionamento das revistas científicas brasileiras e latino-americanas dentro dos critérios estabelecidos pelo sistema Qualis para os períodos do quadriênio 2013-2016 e o Qualis Único de 2020. A seleção de periódicos focou exclusivamente aqueles classificados nos estratos A1, A2 ou B1, situados no Brasil ou em outros países da América Latina, e categorizados sob a área de Planejamento Urbano e Regional.
Para a análise1, foram coletados dados de classificação diretamente da Plataforma Sucupira, enquanto informações de indexação e métricas de impacto foram obtidas das seguintes bases de dados: Scimago, SciELO, Scopus, World of Science, RedALyC e Latindex. Para além da presença dos periódicos nessas bases de indexação, também se realizou o levantamento das seguintes métricas de impacto: JCR; SJR; índice H; índice H5; Q Scimago.
Os dados foram extraídos dos respectivos websites oficiais para cada classificação ou métrica, garantindo, assim, a precisão e a atualidade das informações utilizadas. Estas foram sintetizadas e apresentadas na forma de imagens e gráficos comparativos, permitindo uma análise visual dos cenários nos períodos mencionados e fornecendo uma base para a discussão posterior.
Esse recorte específico foi escolhido não apenas pela disponibilidade e consolidação dos dados, mas também por possibilitar uma investigação profunda sobre como esses periódicos são valorizados ou marginalizados de acordo com os critérios estabelecidos, tanto em âmbito local como no internacional. Desse modo, a metodologia adotada permitiu, portanto, abordar de maneira crítica e contextualizada as estruturas de poder que influenciam a visibilidade acadêmica e o reconhecimento no cenário global da pesquisa científica.
Reconhecemos a recente revisão do sistema Qualis pela Capes, especificamente para o quadriênio 2017-2020, e verificamos mudanças significativas na metodologia de avaliação de periódicos utilizados pelos programas de pós-graduação no Brasil. Essas modificações visam abordar críticas anteriores relacionadas à multiplicidade de estratos e à falta de uniformidade na classificação dos periódicos entre diferentes áreas de conhecimento. A transição para um modelo que faz uso de indicadores bibliométricos objetivos, como o CiteScore, o Fator de Impacto e o índice H do Google Scholar, reflete uma tentativa de alinhar mais de perto a avaliação com padrões internacionais, promovendo maior precisão e comparabilidade.
Essas mudanças, embora significativas para a prática acadêmica, não foram discutidas neste artigo devido ao foco de nossa análise recair na exploração dos mecanismos mais amplos e globais de controle e distribuição do conhecimento científico. Assim, nossa discussão concentrou-se em entender como os critérios internacionais de avaliação científica, particularmente aqueles que perpetuam hegemonias epistêmicas, moldam a produção de conhecimento. Por fim, exploramos como alternativas contra-hegemônicas podem ser formadas para desafiar as normas dominantes.
4. Alcance e visibilidade da produção latino-americana
O levantamento contempla os estratos mais altos de classificação nos Qualis, de A1 a B1. Para o quadriênio de 2013-2016, foram selecionados os estratos A1, A2 e B1. Para o Qualis Único, foram selecionados os estratos A1, A2, A3, A4 e B1 (A3 e A4 não existiam nos quadriênios anteriores do Qualis, foram criados no Único). Para fins de análise comparativa, consideramos os estratos A3 e A4 como subdivisões do antigo A2, permitindo uma análise conjunta dos estratos A2/A3/A4 entre o quadriênio de 2013-2016 e o Qualis Único.
A análise é estruturada para comparar inicialmente os periódicos classificados como A1; em seguida, é feita uma avaliação conjunta dos estratos A2/A3/A4; e, por fim, uma análise dos periódicos B1. Vale ressaltar que o propósito deste estudo não é desafiar a metodologia do Qualis; ao contrário, buscamos identificar oportunidades para ampliar a difusão dos periódicos dentro da área de Planejamento Urbano e Regional, considerando as barreiras existentes que limitam seu alcance e visibilidade.
4.1 Comparativo dos periódicos A1
Os primeiros dados comparados dizem respeito à identificação das revistas A1 na área de Planejamento Urbano e Regional do Qualis - e de seus índices de desempenho nos indexadores, assim como os quartis do Scimago (Q1-Q4). A Figura 1 fornece um resumo visual dessas informações, destacando as métricas de performance e a distribuição dos quartis para facilitar a compreensão do posicionamento dessas revistas no contexto acadêmico mais amplo.
Relação das revistas científicas brasileiras e latino-americanas classificadas como A1 no quadriênio 2013-2016 e no Qualis Único
É importante reconhecer que as alterações observadas não indicam uma diminuição na possibilidade de publicação em periódicos de alta classificação, mas uma mudança no controle dessa classificação pelas áreas. Notavelmente, quatro periódicos (à direita) - aqueles cuja área de Planejamento Urbano e Regional/Demografia (Purd) goza de um pouco mais de autonomia no que se refere à decisão de critérios e pequenas alterações de estrato - ilustram essa tendência. Essa autonomia resultou na elevação de três periódicos à classificação A1 pela primeira vez, um feito que possivelmente não teria sido alcançado sob os critérios anteriores, tipicamente dominados pelas ciências da saúde. A Revista EURE foi a única que manteve a classificação ao longo de ambos os períodos. As demais publicações permaneceram sob o domínio das áreas-mãe e não foi feito o levantamento das respectivas classificações - é possível que a de muitas tenha permanecido como A1.
Na comparação entre as amostras dos dois períodos, algumas diferenças podem ser identificadas, além da redução da quantidade de periódicos e da maior especificidade no Qualis Único. Primeiro, as duas revistas científicas com maiores métricas de JCR, índice H, índice H5 e SJR pertencem às áreas de Biológicas e Saúde: Revista de Saúde Pública e Cadernos de Saúde Pública. Embora abordem temas tangenciais ao urbano e ao social, elas operam sob uma lógica de publicação que prioriza altos fatores de impacto, alta frequência de publicação e rápida obsolescência de pesquisa, características prevalentes nas áreas-mãe2. Em contraste, novamente a EURE é a única revista classificada como Q1 no Scimago, destacando-se como líder em seu segmento de estudos urbanos/planejamento urbano. Apesar de as métricas serem superiores para os periódicos de Biológicas e Saúde, eles estão classificados como Q2 no Scimago, um indicativo das discrepâncias entre as lógicas de publicação dessas áreas disciplinares.
Outro aspecto importante para a compreensão do desempenho dessas revistas é a indexação nas principais plataformas nacionais e internacionais, o que permite mensurar sua visibilidade nesses sistemas de aferição. A Figura 2 traz um resumo da quantidade de periódicos cadastrados nos principais indexadores durante ambos os períodos, oferecendo uma perspectiva quantitativa sobre sua representação e impacto.
Presença nos principais indexadores das revistas científicas brasileiras e latino-americanas classificadas como A1 no quadriênio 2013-2016 e no Qualis Único
Os quadrados em amarelo mostram o número de revistas que estão indexadas simultaneamente em mais de uma base, tanto no Qualis 2013-2016 como no Qualis Único. As barras de cor cinza, por sua vez, apresentam a quantidade de revistas em cada base, separadamente. Observa-se a predominância de revistas em bases regionais como SciELO e RedALyC, enquanto é perceptível uma redução na presença de periódicos em indexadores globais para o Qualis Único, particularmente no World of Science.
Além disso, a avaliação do desempenho dos periódicos pode ser realizada por meio da análise dos índices utilizados pelas plataformas de indexação. A Figura 3 apresenta essas métricas para cada revista, agrupadas em gráficos para cada período analisado, facilitando a visualização das tendências e mudanças ao longo do tempo nos padrões de indexação e de impacto dos periódicos.
A Figura 3 compara o cenário das revistas em Purd do quadriênio 2013-2016 (gráficos da parte superior) com o cenário do Qualis Único (gráficos da parte inferior). A primeira informação a chamar atenção é a redução na quantidade de barras, resultado da diminuição do número de revistas vinculadas à área-mãe Purd no Qualis Único. Essa exclusão das revistas mais próximas das Ciências Exatas e Biológicas no Qualis Único impacta diretamente os picos máximos das métricas. A análise dos gráficos comparativos revela uma disparidade de impacto ou visibilidade das revistas sob a área-mãe Purd em comparação com aquelas sob a tutela de outras áreas-mãe. Essa discrepância é particularmente evidente nos índices H e H5, em que os picos de desempenho são mais elevados no quadriênio anterior, período que incluía revistas de áreas como Saúde Pública, por exemplo.
Principais métricas das revistas científicas brasileiras e latino-americanas classificadas como A1 no quadriênio 2013-2016 e no Qualis Único
Também se observa significativa redução no número de revistas que apresentam o índice JCR. No cenário atual do Qualis Único, mais uma vez apenas a revista EURE mostra um score JCR de 0.905, enquanto, no quadriênio 2013-2016, oito das dez revistas avaliadas ostentavam esse índice. Tal mudança reflete a circunstância de que apenas uma das quatro revistas analisadas está indexada no World of Science, evidenciando as consequências da alteração no escopo de indexação e no perfil de visibilidade das publicações sob a nova configuração do Qualis. Ou seja, há uma tendência de menor visibilidade e poder de impacto nos periódicos do Qualis Único em Purd em comparação com o quadriênio anterior, justamente por ser um retrato mais fiel da colocação dessas ciências em um cenário ampliado de difusão dos periódicos científicos.
4.2 Comparativo dos periódicos A2/A3/A4
As categorias A3 e A4 foram introduzidas no sistema de classificação Qualis para o Qualis Único e não estavam presentes na avaliação do quadriênio 2013-2016. Para fins de análise comparativa, as classificações A3 e A4 foram somadas ao estrato A2 (Único), equiparando-se às revistas classificadas como A2 no quadriênio anterior (2013-2016). Essa abordagem permitiu uma análise mais coerente, ao considerar a evolução e a expansão dos critérios de classificação.
Diante do maior volume de periódicos nos estratos A2 e inferiores, optamos por não detalhar individualmente os nomes e dados específicos de cada revista. Em vez disso, o foco recai sobre uma análise conjunta, concentrando-se particularmente nas plataformas de indexação e nas métricas associadas a esses estratos. A Figura 4 apresenta o número de revistas e suas informações de indexação nas principais plataformas, facilitando a compreensão do alcance e da visibilidade dessas publicações no contexto acadêmico mais amplo.
Principais indexadores das revistas científicas brasileiras e latino-americanas classificadas como A2/A3/A4 no quadriênio 2013-2016 e no Qualis Único
Novamente percebemos uma redução expressiva no volume de revistas brasileiras e latino-americanas nos estratos mais altos na mais recente avaliação do Qualis Único. Os dados de indexação mostram que há drástica redução na porcentagem de revistas cadastradas nos principais indexadores. De um total de sessenta revistas no quadriênio 2013-2016, apenas treze se mantiveram indexadas em 2020, representando uma redução superior a 75%. Com exceção da RedALyC e do Latindex, cuja participação foi estável, todas as outras bases de indexação experimentaram queda significativa em termos percentuais. Não foi registrada a presença de nenhuma revista nos estratos analisados no WoS para o Qualis Único. Ou seja, novamente o que se percebe é um retrato mais próximo da realidade dos periódicos latino-americanos em Purd e da dificuldade de posicionamento dentre as bases de indexação internacionais.
O declínio na indexação reflete-se diretamente nas métricas disponíveis para esses periódicos, como evidenciado na Figura 5. A ausência de indexação nas principais bases de dados resulta em uma carência correspondente de dados para os principais índices de impacto. Atualmente, a única métrica ainda disponível para o Qualis Único, embora com dados faltantes para duas revistas, é o índice H5, do Google Journal Metrics. Tal cenário sublinha a conexão delicada entre a presença nas bases de indexação e a capacidade de gerar métricas de impacto reconhecíveis e comparáveis internacionalmente.
Principais métricas das revistas científicas brasileiras e latino-americanas classificadas como A2/A3/A4 no quadriênio 2013-2016 e no Qualis Único
Quando comparamos os gráficos do índice H5 para os dois períodos, o que se percebe é uma diminuição nos valores absolutos do índice. Há, ainda, duas revistas cuja métrica não está disponível para o Qualis Único, evidenciando uma lacuna na capacidade de avaliação e visibilidade dessas publicações em plataformas de métricas globais.
4.3. Comparativo dos periódicos B1
A análise dos periódicos classificados no estrato B1 revela desigualdades ainda mais acentuadas entre os dois cenários. No quadriênio 2013-2016, havia 153 revistas brasileiras e latino-americanas classificadas nesse estrato, conforme indicado na Figura 6. Entretanto, para o Qualis Único, esse número sofreu drástica redução, ficando apenas com onze revistas. Esse declínio acentuado reflete não apenas mudanças nos critérios de classificação e avaliação adotados pelo Qualis, mas também indica potencialmente um cenário de contração no panorama editorial científico na região, com possíveis implicações para a circulação e o reconhecimento acadêmico dessas publicações em contextos mais amplos.
Principais indexadores das revistas científicas brasileiras e latino-americanas classificadas como B1 no quadriênio 2013-2016 e no Qualis Único
A indexação dessas revistas se torna quase inexistente para o Qualis Único, uma vez que nenhuma delas figura nos principais indexadores internacionais. A visibilidade de tais publicações diminui de forma proporcional à participação de cada uma nas bases indexadoras. Observamos que o Latindex foi a única base de dados que permaneceu com alta representatividade de periódicos no período, embora tenha critérios menos rigorosos para o cadastramento de revistas, o que pode não refletir necessariamente um padrão elevado de qualidade ou impacto acadêmico.
Assim como observado no estrato B1 do quadriênio anterior, as principais métricas, como JCR, SJR e índice H, também estão indisponíveis para a maioria das revistas no Qualis Único (Figura 7). Essa ausência de dados implica uma dificuldade adicional na avaliação do impacto e na compreensão da evolução qualitativa dessas revistas no contexto acadêmico global.
Principais métricas das revistas científicas brasileiras e latino-americanas classificadas como B1 no quadriênio2013-2016 e no Qualis Único
Na comparação entre os dois períodos avaliados, notamos uma queda expressiva nos valores do índice H5 das revistas do estrato B1 no Qualis Único. Três das onze revistas desse estrato não têm disponível a métrica índice H5. Esse padrão sugere que, à medida que os estratos de análise diminuem em prestígio, há uma redução correspondente na disponibilidade de dados e na presença nas bases de indexação, sinalizando severa diminuição na visibilidade desses periódicos. Em outras palavras, há uma tendência de que periódicos de estratos mais baixos sejam indexados em menos plataformas e de menor alcance. Esse fato torna a visibilidade científica reduzida e restringe a quantidade de dados sobre as métricas de impacto. É exatamente isso que observamos na Figura 7.
A Figura 8 apresenta um panorama que compara todos os estratos analisados para os dois períodos considerados. Além das informações quantitativas e de indexação, a figura destaca a representatividade de cada um dos países latino-americanos presentes no recorte, ampliando a compreensão do impacto regional e da distribuição geográfica das publicações. Essa perspectiva sublinha as variações na produção científica e nas oportunidades de visibilidade acadêmica entre diferentes nações do continente.
Panorama comparativo dos países e dados de indexação das revistas científicas brasileiras e latino-americanas classificadas como A1/A2/A3/A4/B1 no quadriênio 2013-2016 e no Qualis Único
A Figura 8 também resume como as revistas de Purd estão representadas nas bases, tanto de forma isolada quanto em conjunto. Esses números mostram as porcentagens de periódicos indexados em relação ao total de estratos analisados (de A1 a B1). Dentro dos quadrados amarelos, temos a porcentagem de participação de periódicos de cada país da América Latina em ambos os Qualis. A representatividade latino-americana é maior no Qualis Único, o que reflete uma possível característica da área de Purd, ao menos no que diz respeito à avaliação do Qualis. Os círculos apresentam a porcentagem de periódicos cadastrados em cada uma das principais bases de indexação; enquanto os retângulos em mostarda mostram porcentagens dos periódicos com sobreposição nos principais indexadores. Com exceção do Latindex e do RedALyC, houve redução na presença das revistas nas demais bases de indexação desde o quadriênio 2013-2016 até o Qualis Único.
Esse declínio identificado no Qualis Único evidencia as dificuldades enfrentadas pelos periódicos de Purd no tocante à inserção junto a indexadores regionais e globais. A situação dessas revistas pode ser indicativa de um desafio mais amplo que possivelmente afeta muitos outros periódicos nas Ciências Humanas e Sociais, sugerindo uma problemática generalizada de visibilidade e reconhecimento em plataformas de indexação de prestígio internacional. Essa análise sugere a necessidade de uma avaliação mais crítica e talvez de estratégias mais eficazes para melhorar a inserção e o impacto de tais publicações no cenário acadêmico global.
Considerações finais
A análise proposta neste artigo observa um espectro específico da difusão científica na área de Purd: a visibilidade e o alcance dos periódicos nacionais e latino-americanos. Compreender as formas de comunicação científica especializada no formato de artigos, sem dúvida, propicia maior participação em um processo amplo envolvendo as demais áreas e ambientes de produção da ciência. Conforme delineado inicialmente, nosso intuito era entender as dinâmicas globais que afetam sua visibilidade e reconhecimento, e, por meio de uma análise comparativa dos estratos do Qualis entre 2013 e 2016 e do Qualis Único 2020, conseguimos evidenciar como as métricas internacionais moldam o comportamento editorial desses periódicos.
As bases indexadoras e os métodos internacionais de avaliação de periódicos uniformizam a lógica de publicação dos artigos, impactando diferentemente os diversos campos científicos. A redução expressiva na indexação de periódicos em importantes bases internacionais, como Scopus e Web of Science, revela uma diminuição da visibilidade internacional dessas publicações. Essa situação reflete os desafios enfrentados por periódicos de regiões periféricas em campos globais de poder e conhecimento.
Além disso, exploramos as barreiras epistemológicas impostas pelo colonialismo científico, destacando como a hegemonia eurocêntrica impacta a valorização de saberes específicos. No contexto de um campo que historicamente privilegia as Ciências Exatas e Biológicas, verificamos a necessidade urgente de novas estratégias para aumentar a inserção dos periódicos latino-americanos em indexadores globais, promovendo ao mesmo tempo a diversidade epistemológica e metodológica que reflete as realidades do Sul Global.
É evidente que as revistas de Purd têm participação limitada nessa disputa assimétrica, especialmente quando consideramos o recorte geográfico latino-americano. Ainda assim, é possível notar a persistência de certos periódicos e o fortalecimento de outras revistas dessa área. Nas últimas duas ou três décadas, o cenário de publicação científica nesse segmento sofreu transformações consideráveis. Enquanto excelentes periódicos deixaram de existir (como é o caso de Espaços e Debates), novas revistas científicas surgiram, proporcionando espaço para uma diversidade de debates e resultados de pesquisa - muitas das quais alcançam níveis de excelência. Este estudo indica a existência de grande quantidade de revistas que não atingem maior visibilidade em razão de detalhes em seus processos editoriais e que poderiam rapidamente participar do cenário de difusão científica se ajustes simples fossem implementados. Tais ações atenderiam os critérios de qualificação e indexação das bases de dados e métricas nacionais e internacionais e contribuiriam para aumentar a qualidade do próprio periódico.
As revistas brasileiras e latino-americanas estão bem posicionadas para contribuir ativamente na disseminação do conhecimento dentro das estruturas científicas locais, como Capes, CNPq, SciELO e RedALyC. A valorização e a participação dessas bases latino-americanas poderiam aumentar de maneira significativa a visibilidade de pesquisas, artigos e periódicos da região, sem necessariamente excluir o sistema global de indexações e avaliações. Ao contrário, isso representaria uma alternativa viável ao exigente e muitas vezes excludente mercado editorial global, que não raro marginaliza perspectivas e metodologias emergentes do Sul Global, como demonstrado pelas dificuldades de inserção dos periódicos de Purd em indexadores internacionais.
No que diz respeito à colonialidade do saber, essa marginalização não é acidental; ela parte de uma estrutura histórica que prioriza epistemologias eurocêntricas (Quijano, 2000; Mignolo, 2017). A uniformização dos critérios de avaliação e indexação globalmente aceitos, que privilegiam a produção científica das metrópoles do Norte Global, reforça as assimetrias no acesso e no reconhecimento acadêmico. Assim, iniciativas como SciELO e RedALyC se reafirmam não somente como respostas pragmáticas a um sistema excludente, como representam tentativas de decolonizar a produção e a disseminação do saber, criando plataformas que permitem a valorização de metodologias e temas relevantes ao Sul Global.
Alcançar alternativas para a difusão da ciência com base em uma perspectiva decolonial é uma mudança que depende de toda a comunidade científica local - não apenas de uma boa organização, qualificação e presença em bases de dados locais dos periódicos, mas também de uma valorização dos pesquisadores por seus pares. Ler, citar e compartilhar os artigos de qualidade produzidos no Brasil e na América Latina é imprescindível para fortalecer a rede de conhecimento em nosso território. Esse esforço não deve ser um incentivo a citações superficiais para inflar métricas, mas uma valorização autêntica das pesquisas de alta qualidade produzidas e/ou publicadas na região. Dessa forma, o processo de decolonização da ciência busca contrapor a predominância do conhecimento importado sobre o local, promovendo um equilíbrio mais justo de recursos, mesmo para periódicos que não apresentam alta classificação.
Ao se oporem à colonialidade do saber, processos de decolonização da ciência exigem não apenas a criação de alternativas ao sistema hegemônico, como também a criação de espaços para que epistemologias locais possam se fortalecer. Essa iniciativa pode envolver uma crítica ativa às formas pelas quais as métricas de avaliação internacional tendem a invisibilizar ou subvalorizar o conhecimento produzido no Sul Global. Em resposta, uma ciência verdadeiramente inclusiva deve apoiar práticas editoriais que reflitam a diversidade epistemológica e o potencial criativo dos países latino-americanos, sem necessariamente se submeter aos padrões internacionais de indexação.
A decolonização da ciência, especialmente em áreas como Purd, é de extrema importância para abordar as assimetrias nas práticas de disseminação do conhecimento e do reconhecimento acadêmico. Esse desafio envolve reconhecer e valorizar as epistemologias e metodologias do Sul Global, promovendo maior equidade na ciência. Educadores e pesquisadores são encorajados a desafiar as narrativas eurocêntricas e a integrar abordagens que refletem as diversas realidades socioculturais e ambientais, como apontado por Santos (2018) e Mignolo (2007; 2008). Esses esforços visam a uma educação científica que seja global em seu alcance e inclusiva em sua prática.
Iniciativas como o SciELO são relevantes e merecem destaque como referência em difusão científica no Brasil e na América Latina. A instituição SciELO, apesar de operar com recursos limitados e enfrentar recentes ameaças de cortes orçamentários e redução de impacto, continua a manter uma coleção crescente de periódicos avaliados por critérios objetivos e métricas científicas. Essa plataforma não apenas reconhece as particularidades regionais e as especificidades de diferentes áreas do conhecimento, como também empodera editores e colaboradores. Fundamentalmente, o SciELO está comprometido com a promoção da ciência aberta, tanto na produção como na disseminação de conhecimento, e é sustentado por uma estrutura organizacional que lhe garante independência e controle público. Meneghini (2010), em um texto nomeado “Publication in a Brazilian journal by Brazilian scientists whose papers have international impact”, destaca que, além de aumentar a acessibilidade à ciência, o SciELO foi fundado com vistas a aumentar o interesse de autores em publicar nos periódicos nacionais.
Se queremos explorar os caminhos incertos de uma decolonização da ciência, é preciso reconhecer os mecanismos autênticos de maneiras de fazer ciência que tenham condições de tensionar as assimetrias dos sistemas métricos internacionais. O fortalecimento de iniciativas locais, como SciELO e RedALyC, é fundamental nesse processo. Existe uma possibilidade real de construir uma infraestrutura robusta para a difusão científica em toda a América Latina, o que requer a colaboração ativa de periódicos, editores, autores e cientistas em busca de se fortalecer e prosperar. Essa colaboração é essencial para promover uma rede científica mais inclusiva e representativa, que valorize as contribuições locais ao mesmo tempo que alcança reconhecimento internacional.
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Fonte: Elaborada pelos autores (2020).
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