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Lombalgia na terceira idade: distribuição e prevalência na Clínica Escola de Fisioterapia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

Low back pain at the third age: distribution and prevalence at the Physical Therapy School Clinic from the Southwestern Bahia State University, Brazil

Resumo

A degeneração da coluna vertebral inerente ao processo de envelhecimento, juntamente com o maior tempo de exposição a sobrecargas ao longo da vida, pode tendenciar o idoso a ser acometido pela lombalgia. Neste sentido, este estudo tem como objetivo determinar a prevalência e a caracterização da lombalgia em idosos atendidos no Setor de Geriatria da Clínica Escola de Fisioterapia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Trata-se de um estudo de caráter descritivo, com corte transversal, realizado por meio de investigação de prontuários. Foram analisados 44 prontuários de pacientes portadores de lombalgia, com idade igual ou superior a 60 anos, de ambos os sexos, a partir de um universo de 131 prontuários de idosos, encontrando-se uma prevalência de 33,6%. Os indivíduos são predominantemente mulheres, com faixa etária entre 60 e 69 anos, e aposentados. Verificou-se que dos 21 (47,73%) dos idosos apresentaram lombalgia de causa desconhecida; 19 (43,18%), dor do tipo crônica; e 26 (59,09%), irradiação para os membros inferiores. A partir deste estudo, constatou-se alta prevalência de lombalgia em idosos, sendo um dado importante para prevenção e intervenção precoce, no intuito de melhorar a qualidade de vida desta população.

Palavras-chave:
envelhecimento; coluna vertebral; dor lombar; idoso estudos transversais; Sudoeste da Bahia

Abstract

The degeneration of the spine inherent in the aging process, along with the higher length of exposure to burdens through life, may cause a tendency of the elderly to suffer from low back pain. Therefore, this study is aimed at determining the prevalence and characterization of low back pain on elderly attended in the geriatrics sector of the Physical Therapy School Clinic from the Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. It's a descriptive, cross-sectional study accomplished through research of 44 records of patients who suffered from low back pain, aged 60 or more, from both sexes, among 131 records of elderly, with a prevalence of 33.6%. The subjects were mainly women, belonging to age group of 60 to 69 years, and retired. It was verified that 21 (47.73%) of the elderly had low back pain of unknown origin; 19 (43.18%), chronic pain, and 26 (59.09%), irradiation to the lower extremity. Through this study, a high prevalence of low back pain in elderly people was found, and it is an important data to precocious intervention and prevention, so as to improve the quality of life of this population. for institutionalization.

Key words:
aging; spine; low back pain; aged; cross-sectional studies; South-west of Bahia

INTRODUÇÃO

O envelhecimento representa um processo natural e fisiológico que acontece de forma distinta em cada indivíduo.11. Muniz CF, Arnaut AC, Yoshida M, Trelha CS. Caracterização dos idosos com fratura de fêmur proximal atendidos em hospital escola público. Espaço para a Saúde 2007 jun; 8(2):33-8. Esse processo é um fenômeno mundial que, juntamente com o aumento da expectativa de vida, representa mudanças no perfil socioeconômico da população.22. BenedettiI TRB, Gonçalves LHT, Mota JAPS. Uma proposta de política pública de atividade física para idosos. Texto & contexto enfermagem / UFSC 2007 jul/set; 16(3): 387-98. No Brasil, o segmento que mais cresce é o idoso, chegando a cerca de 10% dos brasileiros.33. Pereira RJ, Cotta RMM, Franceschini SCC, Ribeiro RCL, Sampaio RF, Priore SE, et al. Contribuição dos domínios físico, social, psicológico e ambiental para a qualidade de vida global de idosos. Revista de psiquiatria do Rio Grande do Sul 2006 jan/abr; 28(1): 27-38. Tal panorama vem provocando repercussões na área da saúde pelo aumento no número de casos de doenças crônico-degenerativas e tornando-se desta forma um problema social.44. Tavares DMS, Pereira GA, Iwamoto HH, Miranzzi SSC, Rodrigues LR, Machado ARM, et al. Incapacidade funcional entre idosos residentes em um município do interior de Minas Gerais. Texto & contexto enfermagem / UFSC 2007 jan/mar; 16 (1) : 32-9.

Apesar de o envelhecimento não estar, necessariamente, relacionado às doenças e incapacidades, o idoso, por ser vítima de mecanismos fisiológicos que alteram a sua capacidade física, torna-se um forte candidato a apresentar queixas de lombalgia.55. Alves LC, Leimann BCQ, Vasconcelos MEL, Carvalho MS, Vasconcelos AGG, Fonseca TCO, et al. A influência das doenças crônicas na capacidade funcional dos idosos do Município de São Paulo, Brasil. Cad Saúde Pública 2007 ago; 23(8): 1924-30. A lombalgia é um sintoma referido na altura da cintura pélvica, gerando um quadro clínico de dor, incapacidade de se movimentar e trabalhar, representando, desta forma, uma grande causa de morbidade e incapacidade dentro dos distúrbios dolorosos que afetam o homem.66. Cecin HÁ. Proposição de uma reserva anatomofuncional, no canal raquidiano, como fator interferente na fisiopatologia das lombalgias e lombociatalgias mecânico-degenerativas. Rev Assoc Med Bras 1997; 43(4): 295-310.,77. Toscano JJO, Egypto EP. A influência do sedentarismo na prevalência de lombalgia. Revista brasileira de medicina do esporte 2001 jul/ago; 7(4): 132-7.

Predominantemente no idoso tem início insidioso, e é causada pela degeneração de estruturas da coluna vertebral inerente ao processo de envelhecimento, que gera alterações nas partes ósseas (achatamento dos corpos vertebrais e perda de massa óssea, que poderá predispor a fraturas), além de modificações discais e ligamentares da coluna vertebral.88. Castro MG. A coluna lombar do idoso. Revista brasileira de ortopedia 2000 nov/dez; 35(11/12): 423-5.

Embora um episódio isolado possa ter recuperação espontânea ou diminuir sua intensidade, este tipo de dor é em geral uma condição recorrente que freqüentemente evolui para um estado crônico.99. Delisa JA. Tratado de Medicina de Reabilitação: princípios e prática. 3.ed. São Paulo: Manole; 2002. v. 2. Do ponto de vista evolutivo, a dor lombar é considerada aguda quando tem duração menor que seis semanas, subaguda entre 6 a 12 semanas, e crônica com mais do que 12 semanas.1010. Woolf AD, Pfleger B. Burden of major musculoskeletal conditions. Bull World Health Organ 2003 Sep; 81(9): 646-56.,1111. Brazil AV, Ximenes AC, Radu AS, Fernades AR, Appel C, Maçaneiro CH, et al. Diagnóstico e Tratamento das Lombalgias e Lombociatalgias. Revista brasileira de reumatologia 2004 nov/dez; 44(6): 419-25.

As dores lombares podem ser primárias ou secundárias, com ou sem envolvimento neurológico (lombociatalgias)1111. Brazil AV, Ximenes AC, Radu AS, Fernades AR, Appel C, Maçaneiro CH, et al. Diagnóstico e Tratamento das Lombalgias e Lombociatalgias. Revista brasileira de reumatologia 2004 nov/dez; 44(6): 419-25. e podem ser causadas por patologias inflamatórias, degenerativas, neoplásicas, defeitos congênitos, déficit muscular, predisposição reumática e outras. No entanto, esse quadro patológico pode estar associado também a múltiplas causas como, por exemplo, fatores sociodemográficos (idade, sexo, renda e escolaridade), comportamentais (tabagismo e sedentarismo), fatores encontrados nas atividades cotidianas (trabalho físico pesado, vibração, posição viciosa e movimentos repetitivos) e outros (obesidade e morbidade psicológica)1111. Brazil AV, Ximenes AC, Radu AS, Fernades AR, Appel C, Maçaneiro CH, et al. Diagnóstico e Tratamento das Lombalgias e Lombociatalgias. Revista brasileira de reumatologia 2004 nov/dez; 44(6): 419-25.

12. Silva MC, Fassa ACG, Valle NCJ. Dor lombar crônica em uma população adulta do Sul do Brasil: prevalência e fatores associados. Cad Saúde Pública 2004 mar/abr; 20(2): 377-85.
-1313. Andrade SC, Araújo AGR, Vilar MJP. “Escola de Coluna”: revisão histórica e sua aplicação na lombalgia crônica. Revista brasileira de reumatologia 2005 jul/ago; 45(4): 224-8..

Apesar da magnitude do impacto social e econômico, apontada em estudos internacionais, no Brasil há escassez de estudos sobre prevalência de lombalgia em idosos. Esse fato dificulta a sensibilização de profissionais da área de saúde, a alocação de recursos humanos e materiais, e a criação de estratégias visando ao controle da dor lombar nessa população, tornando emergente a necessidade de estudos epidemiológicos com este enfoque.1414. Dellaroza MSG, Pimenta CAM, Matsuo T. Prevalência e caracterização da dor crônica em idosos não institucionalizados. Cad Saúde Pública 2007 maio; 23(5): 1151-60. Nessa perspectiva, este estudo tem por objetivo determinar a prevalência e a caracterização da lombalgia em idosos atendidos no Setor de Geriatria da Clínica Escola de Fisioterapia (CEF) da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB).

METODOLOGIA

Trata-se de estudo de caráter descritivo, com corte transversal e realizado por meio de investigação de prontuários durante o período de agosto de 2005 a agosto de 2007. Nesse período foram levantados 131 prontuários de pacientes atendidos pela Clínica Escola de Fisioterapia da UESB, sendo que, destes, 44 eram idosos e portadores de lombalgia. Considerou-se idoso todo indivíduo com mais de 60 anos, conforme preconizado pela OMS para países em desenvolvimento.1515. Costa LVA. Política Nacional do idoso: perspectiva governamental. Anais do 1° Seminário Internacional do Envelhecimento Populacional: Uma agenda para o fim do século. MPAS, Brasilia, 1988.

Como instrumento de coleta dos dados, foi utilizado um roteiro estruturado com variáveis sociodemográficas (idade, gênero e ocupação) e relacionadas à lombalgia (doenças associadas, diagnóstico clínico, duração e localização dos sintomas).

A análise estatística foi descritiva, na qual os dados foram organizados, tabulados, e posteriormente descritos e apresentados em forma de tabelas.

Os procedimentos de coleta realizaram-se após parecer favorável do Comitê de Ética da UESB, sendo atendidos os aspectos éticos constantes na Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde.1616. Conselho Nacional de Saúde. Resolução n°. 196, de 10 de outubro de 1996. Brasília (DF): Conselho Nacional de Saúde; 1996.

RESULTADOS

A partir da análise dos dados, foram encontrados 44 idosos portadores de lombalgia em um universo de 131 atendidos no Setor de Geriatria da CEF-UESB, demonstrando uma prevalência de 33,6% desta patologia, no grupo em questão. Destes, 26 (59,1%) correspondiam ao gênero feminino e 18 (40,9%), ao gênero masculino.

Em relação à faixa etária, houve variação de 60 a 86 anos, e uma média de 69,12 + 7 anos. A prevalência de lombalgia foi predominante na faixa etária de 60-69 anos, tanto no gênero feminino (73,1%) como no masculino (55,6%), como pode ser observado na Tabela 1. Quanto à ocupação, verificou-se que a maioria era aposentada (20 – 45,4%) e nove realizavam trabalho doméstico (20,4%), como mostra a Tabela 2.

Tabela 1
Distribuição dos pacientes com lombalgia segundo a faixa etária e gênero. Jequié/BA, 2007
Tabela 2
Distribuição de pacientes com lombalgia segundo ocupação e gênero. Jequié/BA, 2007

Entre a população de idosos, a hipertensão arterial foi a patologia associada de maior incidência, com 21 (47,7%), seguida das doenças cardiovasculares, coronariopatias, arritmias e varizes com oito (18,2%), conforme detalhado na Tabela 3. O diabetes mellitus e a artrose apresentaram percentagens iguais de 9,1% e apenas 2,3% dos indivíduos referiram não apresentar nenhuma doença associada.

Tabela 3
Prevalência de doenças associadas segundo o gênero em pacientes com lombalgia. Jequié/BA, 2007

Verificou-se também que 21 indivíduos (47,7%) não têm o diagnóstico da lombalgia associado a alguma causa aparente. Já 12 (27,3%) apresentam confirmação de espondiloartrose lombar como fator etiológico, e sete (15,9%) têm a hérnia de disco lombar como causa. Histórias de trauma também participam como fator determinante do início dos sintomas, com 9,1% dos acometimentos (tabela 4).

Tabela 4
Distribuição dos idosos segundo causa da lombalgia e gênero. Jequié/BA, 2007.

Segundo a duração da algia, a maior parte das mulheres (12 - 46,1%) e dos homens (7 - 38,9%) apresenta lombalgia do tipo crônica, ou seja, há mais de 12 semanas (Tabela 5). No que diz respeito à localização da dor, notou-se que a maior parte da população (59,1%) apresenta irradiação para os membros inferiores, 34,1% apresenta dor apenas na região lombar, e 6,8% não especificou a localização durante a avaliação (Tabela 6).

Tabela 5
Distribuição dos idosos segundo duração de lombalgia e gênero. Jequié/BA, 2007
Tabela 6
Distribuição dos idosos segundo a localização da dor e gênero. Jequié/BA, 2007

DISCUSSÃO

Apesar dos diversos estudos que quantificam a prevalência da lombalgia em grupos populacionais determinados,1414. Dellaroza MSG, Pimenta CAM, Matsuo T. Prevalência e caracterização da dor crônica em idosos não institucionalizados. Cad Saúde Pública 2007 maio; 23(5): 1151-60.,1717. Polito MD, Maranhão Neto GA, Lira VA. Componentes da aptidão física e sua influência sobre a prevalência de lombalgia. Revista brasileira de ciência & movimento 2003 jun;11(2): 35-40.1919. Ponte C. Lombalgia em cuidados de saúde primários: sua relação com características demográficas. Revista portuguesa de clínica geral 2005; 21: 259-67. há escassez de material publicado especificamente na população idosa. Em estudo de caracterização de idosos realizado por Trelha,1818. Trelha CS, Revaldaves EJ, Yussef SM, Dellaroza MSG, Cabrera MAS, et al. Caracterização de idosos restritos ao domicílio e seus cuidadores Espac'o para a Sauìde 2006 dez; 8(1): 20-7. a prevalência encontrada foi de 50%, demonstrando a alta susceptibilidade dessa população a esta patologia. No presente estudo, verificou-se uma menor prevalência (33,6%), entretanto, o caráter incapacitante da dor lombar torna significante a prevalência encontrada neste artigo.

A distribuição entre os sexos está de acordo com a literatura, visto que a mulher apresenta maior prevalência do que os homens.1212. Silva MC, Fassa ACG, Valle NCJ. Dor lombar crônica em uma população adulta do Sul do Brasil: prevalência e fatores associados. Cad Saúde Pública 2004 mar/abr; 20(2): 377-85.,1818. Trelha CS, Revaldaves EJ, Yussef SM, Dellaroza MSG, Cabrera MAS, et al. Caracterização de idosos restritos ao domicílio e seus cuidadores Espac'o para a Sauìde 2006 dez; 8(1): 20-7.2424. Bassols A, Bosch F, Campillo M, Banos JE. El dolor de espalda en la población cata-lana. Prevalencia, características y conduta terapéutica. Gac Sanit 2003; 17(2): 97-107. Alguns autores supõem que as mulheres estão expostas a riscos maiores que os homens, devido a particularidades anátomo-funcionais que, quando somadas, podem corroborar o surgimento de lombalgias, como: menor estatura, menor massa muscular, menor densidade óssea, fragilidade articular e menor adaptação ao esforço físico. Além disso, as cargas ergonômicas impostas pela realização das tarefas domésticas, além do trabalho fora de casa, potencializam este risco.1212. Silva MC, Fassa ACG, Valle NCJ. Dor lombar crônica em uma população adulta do Sul do Brasil: prevalência e fatores associados. Cad Saúde Pública 2004 mar/abr; 20(2): 377-85.,2323. Lebeouf-Yde C, Kyvik KO, Bruun NH. Low back pain and lifestyle. Part I: smoking. Information from a population-based sample of 29,424 twins. Spine 1998; 23(20): 2207-13.,2424. Bassols A, Bosch F, Campillo M, Banos JE. El dolor de espalda en la población cata-lana. Prevalencia, características y conduta terapéutica. Gac Sanit 2003; 17(2): 97-107.

Ao contrário da maioria das pesquisas, pode-se observar que a prevalência de lombalgia decresceu com o aumento da idade em ambos os sexos.2525. Deyo R. Low-back pain. Sci Am1998; 279: 48-53.,2626. Van Doorn T. Low back disability among self employed dentists, veterinarians, physicians and physical therapists in the Netherlands. Acta Orthop Scand 1995; 66: 1-64. Este resultado pode se dever ao fato de que indivíduos na faixa etária de 60 a 69 anos em geral são mais ativos e mantêm atividades profissionais mesmo com a aposentadoria, o que ocorre menos para a maioria das pessoas acima desta faixa de idade.2121. Silva ALR. Correlação entre lombalgia e as características antropométricas de trabalhadores bancários da cidade de Londrina – PR. [monografia] Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina; 1999.

A lombalgia é uma das moléstias mais comuns em trabalhadores, constituindo uma das principais causas de absentismo em grandes centros industriais. Estima-se que cerca de 70 a 80% da população são atingidos em alguma época de sua vida laboral.1313. Andrade SC, Araújo AGR, Vilar MJP. “Escola de Coluna”: revisão histórica e sua aplicação na lombalgia crônica. Revista brasileira de reumatologia 2005 jul/ago; 45(4): 224-8.,2727. Mariano NE, Alberto BS, Octavio SM, Ignacio MR, Margarida PN, et al. La polémica sobre las lumbalgias y su relación con el trabajo: estudio retrospectivo en trabajadores con invalidez. Cad Saúde Pública 2005 maio/jun; 21(3): 887-97. Esta patologia apresenta maior freqüência em trabalhadores que se submetem a esforços físicos pesados, como levantamento de pesos, movimentos repetitivos e posturas estáticas mantidas.2727. Mariano NE, Alberto BS, Octavio SM, Ignacio MR, Margarida PN, et al. La polémica sobre las lumbalgias y su relación con el trabajo: estudio retrospectivo en trabajadores con invalidez. Cad Saúde Pública 2005 maio/jun; 21(3): 887-97. Neste estudo, pode-se observar que 47,73% mantêm atividade profissional, sendo que a maioria das profissões apresentadas é composta por atividades que demandam grande esforço físico, como pedreiro, lavrador e atividades domésticas.

O III Consenso Brasileiro de Hipertensão Arterial apresentado pela Sociedade Brasileira de Hipertensão (1998) apresenta que 65% dos idosos no Brasil são hipertensos, demonstrando assim a alta taxa dessa patologia nesses indivíduos.2828. III Consenso Brasileiro de Hipertensão Arterial. Sociedade Brasileira de Hipertensão. Revista Brasileira de Clinica Terapia 1998; 24: 233-72. A grande prevalência de hipertensão arterial encontrada nesse estudo (47,73%) foi demonstrada também por Trelha,1818. Trelha CS, Revaldaves EJ, Yussef SM, Dellaroza MSG, Cabrera MAS, et al. Caracterização de idosos restritos ao domicílio e seus cuidadores Espac'o para a Sauìde 2006 dez; 8(1): 20-7. que relatou a incidência de 70,8% entre os idosos avaliados em sua pesquisa.

A eficiência biomecânica do disco intervertebral diminui com o envelhecimento, devido à sua desidratação e ao aumento do estresse mecânico, comprometendo a integridade desse verdadeiro amortecedor de choques e presdipondo-o à herniação.66. Cecin HÁ. Proposição de uma reserva anatomofuncional, no canal raquidiano, como fator interferente na fisiopatologia das lombalgias e lombociatalgias mecânico-degenerativas. Rev Assoc Med Bras 1997; 43(4): 295-310. Concomitantemente, as alterações ósseas decorrentes do processo de envelhecimento, juntamente com desordens estruturais e desvios mecânicos, tornam as patologias degenerativas o principal fator etiológico das lombalgias na fase senil, sendo a osteoartrose o maior motivo de consultas médicas.2929. Tosato JP, César GM, Caria PHF, Gonzalez DAB, Calonego CA. Avaliação da dor em pacientes com lombalgia e cervicalgia. COLUNA/COLUMNA 2006; 6(2): 73-7.

No presente estudo, nota-se que grande parte dos pacientes não possui diagnóstico sobre a causa etiológica da patologia. Em concordância com esse achado, Tosato2929. Tosato JP, César GM, Caria PHF, Gonzalez DAB, Calonego CA. Avaliação da dor em pacientes com lombalgia e cervicalgia. COLUNA/COLUMNA 2006; 6(2): 73-7. demonstrou, em sua pesquisa, realizada no município de Piracicaba/SP, que 32,3% dos indivíduos analisados apresentaram lombalgia sem uma causa aparente. Neste, verificou-se que as causas principais da dor lombar foram espondiloartrose e hérnia de disco, coincidindo com os resultados do estudo de Castro.88. Castro MG. A coluna lombar do idoso. Revista brasileira de ortopedia 2000 nov/dez; 35(11/12): 423-5.

Analisando a duração da lombalgia, foi verificada prevalência maior da lombalgia crônica (43,2%) em relação à aguda (11,4%) e subaguda (2,3%), estando de acordo com outros artigos.66. Cecin HÁ. Proposição de uma reserva anatomofuncional, no canal raquidiano, como fator interferente na fisiopatologia das lombalgias e lombociatalgias mecânico-degenerativas. Rev Assoc Med Bras 1997; 43(4): 295-310.,2121. Silva ALR. Correlação entre lombalgia e as características antropométricas de trabalhadores bancários da cidade de Londrina – PR. [monografia] Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina; 1999. Já o estudo realizado no Sul do Brasil verificou a presença da dor crônica em apenas 4,2% da população, confrontando, portanto, os dados da pesquisa. Segundo Figueiró e Teixeira,3030. Figueiró JAB, Teixeira MJ. Reações comportamentais desencadeadas pela dor. Revista Medica (São Paulo) 1995; 74(2): 67-8. este tipo de dor com duração prolongada compromete componentes biológicos, sociais e emocionais e pode gerar muitos efeitos na vida do idoso, como alterações de sono, irritabilidade e depressão, interferindo na funcionalidade e, conseqüentemente, na qualidade de vida desses indivíduos.1212. Silva MC, Fassa ACG, Valle NCJ. Dor lombar crônica em uma população adulta do Sul do Brasil: prevalência e fatores associados. Cad Saúde Pública 2004 mar/abr; 20(2): 377-85.,3030. Figueiró JAB, Teixeira MJ. Reações comportamentais desencadeadas pela dor. Revista Medica (São Paulo) 1995; 74(2): 67-8. O estudo de Ponte apresenta resultado discrepante, demonstrando incidência de lombalgia aguda de 84,8% em uma população de 18 a 84 anos.1919. Ponte C. Lombalgia em cuidados de saúde primários: sua relação com características demográficas. Revista portuguesa de clínica geral 2005; 21: 259-67.

Foi verificado que 59,1% dos idosos deste estudo apresentaram dor lombar com irradiação para membros inferiores. A lombalgia pode localizar-se difusa ou pontualmente na região lombar, assim como pode expandir-se para os membros inferiores. Neste último caso, sugere-se a possibilidade de comprometimento radicular, cuja etiologia pode ser degenerativa (discoartrose) ou compressiva (hérnia discal), podendo gerar repercussões clínicas, como alterações dos reflexos, da sensibilidade e da força muscular.3131. Alexandre NMC, Moraes MAA. Modelo de avaliação físico-funcional da coluna vertebral. Rev Lat Am Enfermagem 2001 mar; 9(2): 62-75.

Pode-se notar que, mesmo com avanços na área da ergonomia aplicada e da medicina, o crescimento das lombalgias e lombociatalgias supera em 14 vezes o crescimento populacional, sendo uma das razões mais comuns para aposentadoria por incapacidade total ou parcial, além de gerar altos custos de assistência ao sistema de saúde, demonstrando o grande impacto biológico, financeiro, social desta patologia na sociedade atual.66. Cecin HÁ. Proposição de uma reserva anatomofuncional, no canal raquidiano, como fator interferente na fisiopatologia das lombalgias e lombociatalgias mecânico-degenerativas. Rev Assoc Med Bras 1997; 43(4): 295-310.,1313. Andrade SC, Araújo AGR, Vilar MJP. “Escola de Coluna”: revisão histórica e sua aplicação na lombalgia crônica. Revista brasileira de reumatologia 2005 jul/ago; 45(4): 224-8.,2020. Garcia Filho RJ, Korukian M, Santos FPE, Viola DCM, Puertas EB. Ensaio clínico randomizado, duplo-cego, comparativo entre a associação de cafeína, carisoprodol, diclofenaco sódico e paracetamol e a ciclobenzaprina, para avaliação da eficácia e segurança no tratamento de pacientes com lombalgia e lombociatalgia agudas. Acta ortopedica brasileira 2006; 14(1): 11-6.

CONCLUSÃO

A lombalgia pode levar à incapacidade funcional, restringir a qualidade de vida do idoso na comunidade e ameaçar sua independência. A alta prevalência encontrada neste estudo é um fator preocupante e que auxilia no desenvolvimento de estratégias direcionadas com o intuito de proporcionar intervenção, tanto para tratamento quanto para a prevenção de novos acometimentos, a fim de garantir o bem-estar dessa população no Brasil.

REFERÊNCIAS

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    05 Ago 2019
  • Data do Fascículo
    Jan-Apr 2008

Histórico

  • Recebido
    25 Maio 2007
  • Aceito
    24 Jan 2008
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