Resumo
Objetivo identificar as condições de fragilidade e seus fatores associados entre pessoas idosas longevas residentes na área urbana de uma macrorregião de saúde de Minas Gerais, Brasil.
Métodos estudo transversal, desenvolvido com 314 pessoas idosas longevas residentes em uma macrorregião de saúde de Minas Gerais. Os dados foram coletados nos domicílios mediante a aplicação de instrumentos validados no Brasil. Procederam-se as análises descritiva e regressão logística multinomial (p<0,05).
Resultados verificou-se que 44,3% do longevos eram frágeis, 44,3% pré-frágeis e 11,4% não frágeis. A condição de pré-fragilidade associou-se ao fato de morar só (p=0,047) e ao desempenho físico muito ruim/baixo (p=0,026), enquanto a fragilidade, ao desempenho físico muito ruim/baixo (p<0,001); ao indicativo de sintomas depressivos (p=0,029) e à presença de 5 ou mais morbidades (p=0,003).
Conclusão as condições de pré-fragilidade e fragilidade foram as mais frequentes entre os longevos. A manutenção do desempenho físico é um aspecto passível de atuação pelos profissionais de saúde, a ser trabalhado entre as pessoas idosas longevas visando postergar a pré-fragilidade e a fragilidade.
Palavras-Chave:
Idoso de 80 Anos ou mais; Idoso Fragilizado; Fragilidade; Enfermagem Geriátrica
Abstract
Objective to identify frailty conditions and their associated factors among oldest old individuals living in the urban area of a health macro-region of Minas Gerais state.
Methods a cross-sectional study of 314 oldest old from a health macro-region in Minas Gerais state, Brazil, was conducted. Data were collected from households by applying instruments validated for use in Brazil. Descriptive and multinomial logistic regression analyses (p<0.05) were carried out.
Results In the sample assessed, 44.3% of the oldest old were frail, 44.3% pre-frail and 11.4% non-frail. The pre-frail condition was associated with living alone (p=0.047) and very poor/poor physical performance (p=0.026), while frailty was associated with very poor/poor physical performance (p<0.001), the presence of depressive symptomatology (p=0.029) and of ≥5 morbidities (p=0.003).
Conclusion pre-frail and frail conditions predominated among the oldest old assessed. Maintaining physical performance is an aspect that can be targeted by health professionals in oldest old to delay pre-frailty and frailty.
Keywords
Aged; 80 and over; Frail Elderly; Frailty; Geriatric Nursing
INTRODUÇÃO
Com o aumento da expectativa de vida ocorre incremento da importância relativa das pessoas idosas e dos grupos etários com idades mais avançadas, os quais crescem em ritmo acelerado1. Os longevos, pessoas com 80 anos ou mais de idade, representam 2,0% dos brasileiros e estima-se que em 2060 esse percentual seja de 8,8%1,2.
Com o avançar da idade, há declínio das reservas fisiológicas, como a diminuição da massa muscular, considerada um forte preditor de desfechos adversos à saúde da população idosa, como a síndrome de fragilidade3. Essa síndrome biológica de múltiplas causas é caracterizada pelas reduções da força e da resistência musculares, e da função fisiológica, as quais levam ao aumento da vulnerabilidade do indivíduo, e predisposição ao desenvolvimento de dependência funcional e/ou morte4.
A prevalência da síndrome de fragilidade é significativamente maior entre os longevos, em pesquisas internacionais variam de 11,2% a 84,7%5-7, e, em nacionais de 14,8% a 58,0%8-10. Ademais, investigações entre longevos evidenciaram que, além do avançar da idade6,9, a síndrome de fragilidade está associada ao sexo feminino6,11; à ausência de companheiro12; ao maior número de morbidades13; ao indicativo de sintomas depressivos5,14,15, ao menor desempenho físico5,16 e à incapacidade funcional para realizar as atividades cotidianas7,15.
A identificação da presença de fatores clínicos adversos à saúde da pessoa idosa associada à avaliação criteriosa dos marcadores de fragilidade permite a gestão adequada da síndrome, com elaboração de intervenções efetivas no cuidado a esse grupo etário8-10. Para tanto, pesquisas que busquem analisar as condições de fragilidade e seus fatores associados entre os longevos, são essenciais para subsidiar a definição de prioridades e intervenções em saúde.
Ao considerar o aumento no percentual de longevos1,2, grupo etário mais vulnerável à síndrome de fragilidade5-10, a atual investigação tem como intuito contribuir para aprofundar o conhecimento sobre a temática. Ressalta-se a escassez de estudos que abordaram os fatores sociodemográficos e de saúde associados às condições de fragilidade em pessoas idosas longevas14, desta forma, os achados podem contribuir com a reorganização da rede de atenção à saúde da população idosa.
Assim, objetivou-se identificar as condições de fragilidade e seus fatores associados entre pessoas idosas longevas residentes na área urbana de uma macrorregião de saúde de Minas Gerais, Brasil.
MÉTODOS
Inquérito transversal e analítico, guiado pela ferramenta Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE), desenvolvido em uma macrorregião de saúde de Minas Gerais, composta por três microrregionais de saúde, totalizando 27 municípios, e habitada por 806.172 indivíduos, 15,6% dos quais com 60 anos ou mais de idade, e esse subgrupo, por sua vez, com 14,8% de pessoas idosas longevas2.
A população foi constituída por pessoas idosas longevas residentes na área urbana dos 27 municípios que compõem a referida macrorregião de saúde (MG), Brasil. Para o cálculo do tamanho amostral, utilizou a prevalência de fragilidade em longevos de 14,8%9, uma precisão de 5% e um intervalo de confiança de 95,0%, chegando-se a uma amostra de 277 longevos. Considerando a perda de amostragem de 20,0%, o número de tentativas de entrevistas máximo foi de 332.
Para a seleção dos longevos utilizou-se amostragem por conglomerado em múltiplo estágio. No primeiro estágio, considerou o sorteio arbitrário de 50% dos setores censitários de cada município da macrorregião de saúde, por amostragem sistemática. Após calculou-se para cada município a quantidade de domicílios a ser selecionada proporcionalmente ao número total de pessoas idosas residentes nos 27 municípios da referida macrorregião de saúde. Em seguida, a quantidade de domicílios foi dividida pelo número de setores censitários, obteve-se o número semelhante de pessoas idosas a serem entrevistadas em cada setor censitário. Por último, em cada setor censitário, o primeiro domicílio foi selecionado aleatoriamente e os demais, em sentido horário padronizado, até saturar a amostra do setor.
Os critérios de inclusão foram ter 80 anos ou mais de idade e residir na área urbana da macrorregião de saúde (MG). Excluíram-se as pessoas idosas com declínio cognitivo, avaliado por intermédio do Mini Exame do Estado Mental17; institucionalizadas; sequelas graves de acidente vascular cerebral com perda de força muscular nos membros inferiores e superiores e afasia; doença de Parkinson em estágio grave ou instável com comprometimentos da motricidade, fala e/ou afetividade.
Foram entrevistados 320 pessoas idosas longevas, das quais seis apresentaram declínio cognitivo. Assim, 314 longevos compuseram a amostra final da atual pesquisa.
A coleta dos dados foi realizada no domicílio das pessoas idosas, de maio de 2017 a junho de 2018, por entrevista direta. Para tal, foram selecionados dez entrevistadores da área da saúde, os quais passaram por treinamento, capacitação e abordagem sobre questões éticas da pesquisa.
Os dados sociodemográficos e as morbidades foram obtidos pela aplicação do questionário estruturado elaborado pelos membros do Grupo de Pesquisa em Saúde Coletiva.
Para mensuração do desempenho físico utilizou-se a versão brasileira Short Physical Performance Battery (SPPB) composta pela somatória da pontuação nos testes de equilíbrio, velocidade da marcha e levantar-se da cadeira cinco vezes consecutivas. O escore total varia de 0 a 12 pontos; classificados em: desempenho muito ruim (0 a 3 pontos); baixo desempenho (4 a 6 pontos), moderado desempenho (7 a 9 pontos) e bom desempenho (10 a 12 pontos)18.
Na verificação do indicativo de sintomas depressivos utilizou-se a versão reduzida da Escala de Depressão Geriátrica, validada no Brasil, composta por 15 questões e com escore total que varia de 0 a 15 pontos19. Considerou-se como indicativo de sintomas depressivos a pontuação maior que cinco19.
A capacidade funcional foi mensurada pelas atividades básicas (ABVD)20 e instrumentais (AIVD)21 da vida diária. Utilizou-se o Índice de Katz, adaptado à realidade brasileira, para avaliar as ABVD, contendo seis itens que medem o desempenho da pessoa nas atividades de autocuidado20. Para as AIVD, usou-se a Escala de Lawton e Brody, validada no Brasil, com escore que varia de 7 (maior nível de dependência) a 21 pontos (independência completa), categorizando a pessoa idosa como dependente total (7 pontos), parcial (8 a 20 pontos) e independente (21 pontos)21.
A síndrome de fragilidade foi identificada por meio dos cinco componentes do fenótipo de fragilidade: (1) perda de peso não intencional; (2) autorrelato de exaustão e/ou fadiga; (3) diminuição da força muscular; (4) lentidão na velocidade de marcha; (5) baixo nível de atividade física3. O primeiro componente foi avaliado pela pergunta: “No último ano, o senhor perdeu mais do que 4,5 kg ou 5% do peso corporal sem intenção?”. O segundo, mensurado por duas questões da versão brasileira da escala de depressão do Center for Epidemiological Studies, itens 7 (“Sentiu que teve que fazer esforço para dar conta das suas tarefas habituais?”) e 20 (“Não conseguiu levar adiante suas coisas?”)22. Para o terceiro, utilizou-se a força de preensão manual, mensurada pelo dinamômetro hidráulico manual Jamar, modelo Saehan® (SH5001 – 973). Foram obtidas três medidas, apresentadas em quilograma/força (kgf), com um intervalo de um minuto entre elas, sendo considerados o valor médio e os pontos de corte ajustados pelo sexo e índice de massa corporal3. No quarto componente, considerou-se o tempo de marcha (segundos). O longevo percorreu uma distância total de 8,6 metros, sendo os dois metros iniciais e finais desconsiderados para o cálculo do tempo gasto na marcha. Foram realizadas três medidas, considerando-se o valor médio e os pontos de corte ajustados pelo sexo e altura3. O quinto foi medido pela versão longa do Questionário Internacional de Atividade Física, adaptada para pessoa idosa23. Considerou-se ativos aqueles que despediam 150 minutos ou mais de atividade física semanal; e inativos entre 0 e 149 minutos24. Os longevos com comprometimento em três ou mais itens foram classificados como frágeis; em um ou dois pré-frágeis e sem comprometimento, não frágeis24.
As variáveis sociodemográficas estudadas foram: sexo (feminino; masculino), faixa etária, em anos completos (80 a 89; 90 ou mais), estado conjugal [com companheiro (a); sem companheiro (a)], arranjo de moradia [mora só; mora acompanhado (a)], escolaridade, em anos completos de estudo (0 a 4; 5 ou mais), renda individual mensal, em salários-mínimos (≤1; >1); variáveis de saúde: desempenho físico (muito ruim/baixo; moderado/bom), indicativo de sintomas depressivos (sim; não), capacidade funcional para as ABVD (independente; dependente) e AIVD (independente; dependente total/parcial); número de morbidades (0 a 4; 5 ou mais); variável desfecho: condições de fragilidade (não frágil, pré-frágil e frágil).
Os dados foram inseridos no banco de dados no programa Excel® e realizada a dupla digitação. As inconsistências foram verificadas entre as duas bases de dados, e realizada a correção, se necessária.
Após a conferência da completude, os dados foram submetidos às análises de frequências absoluta e relativa. Para verificar os fatores associados às condições de fragilidade, realizou-se a regressão logística multinomial, precedida pela análise bivariada, empregando-se o teste qui-quadrado. As variáveis que atenderam o critério estabelecido (p≤0,10) foram incluídas no modelo de regressão logística multinomial, tendo como desfecho às condições de fragilidade. As variáveis independentes estudadas foram: sexo, faixa etária, estado conjugal, escolaridade, arranjo de moradia, renda mensal individual, desempenho físico, indicativo de sintomas depressivos, capacidade funcional para as ABVD e AIVD e número de morbidades. Considerou-se um intervalo de confiança de 95% e um nível de significância de p<0,05.
O projeto foi pelo aprovado Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos, protocolo nº 2.053.520. Às pessoas idosas longevas, foram apresentados os objetivos e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido; e oferecidas informações pertinentes. Após a anuência e assinatura do referido Termo, conduziu-se a entrevista.
RESULTADOS
Entre os longevos (n=314), a média de idade foi de 84,81 (±4,12; mín. 80 e máx. 101) anos. Ademais, a maioria era do sexo feminino, na faixa etária de 80 a 89 anos, sem companheiro, morava acompanhada, com 0 a 4 anos de estudo, renda mensal individual ≤1 salário-mínimo, desempenho físico moderado/bom, sem indicativo de sintomas depressivos, independente para as ABVD, dependente total/parcial para as AIVD e com 5 ou mais morbidades (Tabela 1).
Distribuição das variáveis sociodemográficas e de saúde de pessoas idosas longevas residentes em uma macrorregião de saúde, Minas Gerais, Brasil, 2021.
A Tabela 1 apresenta a distribuição das variáveis sociodemográficas e de saúde das pessoas idosas longevas residentes em uma macrorregião de saúde (MG).
Concernente às condições de fragilidade verificou-se maior percentual entre pessoas idosas frágeis (44,3%) e pré-frágeis (44,3%), seguidos das não frágeis (11,4%).
Para identificar os fatores associados às condições de fragilidade realizou-se a análise bivariada preliminar. As variáveis que atenderam o critério estabelecido (p≤0,10) foram inseridas no modelo final de regressão logística multinomial, sendo: faixa etária (p=0,090); arranjo de moradia (p=0,047); desempenho físico (p<0,001); indicativo de sintomas depressivos (p<0,001); AIVD (p=0,010) e número de morbidades (p<0,001) (Tabela 2).
Distribuição das variáveis sociodemográficas e de saúde segundo as condições de fragilidade das pessoas idosas longevas residentes em uma macrorregião de saúde, Minas Gerais, Brasil, 2021.
A Tabela 2 apresenta a distribuição das variáveis sociodemográficas e de saúde segundo as condições de fragilidade das pessoas idosas longevas residentes em uma macrorregião de saúde (MG).
Na Tabela 3 encontra-se o modelo final de regressão logística multinomial para as variáveis associadas às condições de fragilidade das pessoas idosas longevas residentes em uma macrorregião de saúde (MG).
Modelo final de regressão logística multinomial para as variáveis associadas às condições de fragilidade das pessoas idosas longevas residentes em uma macrorregião de saúde, Minas Gerais, Brasil, 2021.
A condição de pré-fragilidade associou-se ao arranjo de moradia, morar só (p=0,047) e ao desempenho físico muito ruim/baixo (p=0,026), enquanto a fragilidade, ao desempenho físico muito ruim/baixo (p<0,001); ao indicativo de sintomas depressivos (p=0,029) e à presença de 5 ou mais morbidades (p=0,003) (Tabela 3).
DISCUSSÃO
Na atual pesquisa, as condições de pré-fragilidade e fragilidade foram as mais frequentes entre os longevos. A pré-fragilidade associou-se ao arranjo de moradia, morar só e ao desempenho físico muito ruim/baixo, enquanto a fragilidade, ao desempenho físico muito ruim/baixo; ao indicativo de sintomas depressivos e à presença de 5 ou mais morbidades.
Referente às condições de fragilidade, pesquisas nacionais8,9,25 e internacional7, entre pessoas idosas da comunidade7-9 e cadastradas na Atenção Primária à Saúde25, verificaram prevalências superiores de pré-fragilidade e não fragilidade7-9,25, em relação ao atual estudo. Destaca-se que os longevos pré-frágeis representam quase metade da população da pesquisa e de acordo com a literatura científica essa condição apresenta maiores chances de melhora da condição de fragilidade26. Ademais, as características das pessoas idosas longevas pré-frágeis da atual pesquisa, como morar só9,12 e a presença de multimorbidade13 também podem contribuir para o comprometimento dos componentes do fenótipo de fragilidade.
No que concerne à prevalência de longevos frágeis, percentual superior foi identificado em estudo no município de Erval Seco (RS) (58%)8, na Índia (84,7%)5 e em Portugal (71,8%)6; e inferior (14,8%) em Curitiba (PR)9 e no Vietnã (11,2%)7. Em inquérito nacional, observou-se maior percentual de fragilidade entre longevos, principalmente nas faixas etárias mais avançadas como nonagenários e centenários10, o que condiz com a atual investigação. Nessa perspectiva, é essencial a construção de planos de cuidados direcionados às pessoas idosas frágeis e pré-frágeis, envolvendo uma equipe multiprofissional, a triagem precoce pelo enfermeiro na Atenção Primária à Saúde e intervenções que possibilitem a redução dos resultados adversos da fragilidade7.
O enfermeiro, principalmente na Atenção Primária à Saúde, ao realizar a avaliação e classificação das pessoas idosas de acordo com sua condição de fragilidade8 consegue direcionar os cuidados conforme as particularidades e necessidades do longevo25. Na consulta de enfermagem, a identificação das características sociodemográficas e de saúde que representam maior risco e do comprometimento dos componentes do fenótipo de fragilidade possibilita um plano de cuidados individualizado e com intervenções efetivas. Essas ações em saúde, em todos os níveis de atenção, devem garantir a integralidade da assistência, o apoio e o suporte social à pessoa idosa e à sua família25. Diante disso, há possibilidade de identificação de prioridades, manutenção e/ou restauração da capacidade funcional e prevenção da fragilidade8.
A pré-fragilidade associada ao arranjo de moradia morar só diverge de estudo nacional desenvolvido entre longevos9. A pessoa idosa que mora sozinha pode apresentar menor frequência de interação social e de realização de atividades cotidiana e físicas, que auxiliam na melhora da força muscular9,12. Isso pode resultar em maior risco de comprometimento nos componentes do fenótipo de fragilidade e desenvolvimento da condição pré-frágil12. Assim, é necessário que a pessoa idosa desenvolva ou mantenha laços sociais e de apoio9, mesmo morando sozinha, já que auxiliam na manutenção da saúde e na prática de condutas adaptativa em situações de eventos adversos9.
Tal como na atual investigação, as condições de pré-fragilidade e fragilidade foram associadas ao desempenho físico muito ruim/baixo entre longevos da Índia5 e China16. Especificamente entre os frágeis, estudo observou que apresentam diminuição da performance física e muscular5, podendo impactar negativamente no desempenho de membros inferiores avaliado pelo SPPB. Ainda, os longevos apresentam maiores chances de desenvolvimento de sarcopenia quando comparados aos mais jovem, e logo, podem apresentar pior desempenho físico e fragilidade5. Esses achados, consubstanciados pela literatura científica5,16, alertam para a necessidade de avaliação da performance física como uma forma de contribuir na implementação de ações em saúde, buscando a melhoria do quadro clínico.
A associação entre a fragilidade e o indicativo de sintomas depressivos, condiz com pesquisas desenvolvidas entre longevos na Índia5; e centenários em Portugal27. Em divergência, investigação realizada entre pessoas idosas chinesas observou-se que os longevos frágeis apresentaram menores chances de desenvolvimento de sintomas depressivos28. Destaca-se que, a relação entre o indicativo de sintomas depressivos e a síndrome de fragilidade pode ser considerada uma via bidirecional14. A exaustão e/ou fadiga são, frequentemente, identificadas em idosos frágeis, fazendo com que haja piora do indicativo de sintomas depressivos de acordo com a progressão da fragilidade14. Ademais, os sintomas depressivos podem facilitar o comprometimento dos componentes da síndrome de fragilidade, como lentidão na velocidade de marcha, perda de peso não intencional, fadiga e diminuição da atividade física e da força muscular3, e predispor a pessoa idosa à condição frágil e pré-frágil5,27. Nesse contexto, a avaliação e identificação dos fatores associados à condição de fragilidade torna-se essencial na prática clínica, visto que tanto o indicativo de sintomas depressivos quanto a fragilidade tem impacto negativo na qualidade de vida e aumentam a demanda por serviços de saúde, o número de morbidades e a mortalidade13. E quando ocorrem em simultâneo podem exacerbar os efeitos adversos à saúde5,27.
A associação entre a fragilidade e a multimorbidade também foi identificada em revisão sistemática com metanálise13, entretanto, resultado divergente foi verificado em estudo nacional com longevos8. Outra investigação obteve relação bidirecional entre a fragilidade e a presença de multimorbidade29. Durante o processo de envelhecimento humano as morbidades são frequentemente identificadas entre as pessoas idosas devido ao acúmulo de deficit biológicos específicos30. Além disso, as doenças crônicas interagem entre si fazendo com que haja uma potencialização de efeitos negativos e/ou desenvolvimento de novos sinais e sintomas clínicos17. Concomitante à presença de multimorbidade13,29-30 e acúmulo de deficit29, podem ocorrer tanto o aumento de estressores que exacerbam o declínio de reservas fisiológicas em múltiplos sistemas, quanto a alteração homeostática3,29. Nesse quadro clínico, a pessoa idosa pode ficar imersa em um ciclo negativo de resultados adversos com dificuldade na recuperação da homeostase, aumento do risco de desenvolvimento de novas morbidades e piora da sua condição de fragilidade29.
Ressalta-se que ainda são escassos os Guidelines que propuseram uma análise ampla e global da multimorbidade para o desenvolvimento de intervenções na prática clínica, considerando as necessidades individuais de idosos segundo as condições de fragilidade29. A maioria objetivou ações com foco em doenças individualizadas e não avaliou a condição frágil ou pré-frágil29. Isto pode gerar um tratamento ineficaz dos que apresentam comorbidades 29, e/ou que estão na condição frágil.
Este estudo tem como limitação o autorrelato das morbidades, entretanto, destaca-se que a amostra representativa de uma macrorregião de saúde de Minas Gerais e os achados apresentados, contribuem para ampliar o conhecimento científico sobre as condições de fragilidade e seus fatores associados entre pessoas idosas longevas. Ademais, os resultados fornecem subsídios para novas pesquisas, e sugere-se a realização de estudos multicêntricos e coortes nacionais, com amostras representativas da população com 80 anos ou mais de idade nos diversos estados brasileiros, a fim de contribuir com a melhoria da atenção à saúde dos longevos.
CONCLUSÃO
As condições de pré-fragilidade e fragilidade foram as mais frequentes entre as pessoas idosas longevas. A pré-fragilidade associou-se ao arranjo de moradia, morar só e ao desempenho físico muito ruim/baixo, enquanto a fragilidade; ao desempenho físico muito ruim/baixo, ao indicativo de sintomas depressivos e à presença de cinco ou mais morbidades.
O desempenho físico é um aspecto passível de atuação pelos profissionais de saúde e deve ser trabalhado entre os longevos visando postergar a pré-fragilidade e a fragilidade. Ademais, os achados revelam uma compreensão ampliada dos fatores associados às condições de fragilidade, assim, estes resultados poderão subsidiar a proposição de ações tanto da equipe multiprofissional, como as específicas da enfermagem para a avaliação e a abordagem da pessoa idosa longeva na atenção primária à saúde, bem como, o desenvolvimento de políticas públicas relacionadas à organização da atenção à saúde do idoso.
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Editado por: Maria Luiza Diniz de Sousa Lopes
