Open-access O envelhecimento do Brasil a partir de uma perspectiva demográfica municipal

Resumo

Objetivo  compreender o envelhecimento populacional brasileiro numa perspectiva demográfica municipal, revelando as desigualdades regionais e por estrato populacional.

Método  estudo agregado, observacional e transversal, com dados do Censo de 2022. O cenário de estudo foram os 5.570 municípios das cinco regiões administrativas do país. Coletou-se dados do percentual de população idosa, índice de envelhecimento (IE), índice de longevidade (IL), Índice de dependência de pessoas idosas (IDPI), Índice de substituição da população na força de trabalho (ISPFT), mediana de idade e Índice de previsibilidade de envelhecimento (IPE). A construção do indicador composto se deu a partir da análise de componentes principais (ACP).

Resultados  Na ACP, o teste de Bartlett foi significativo (p<0,001), KMO de 0,70 e determinante de 0,02. As comunalidades variaram de 0,935 a 0,995 e os fatores extraídos (dois) explicaram em 70,04% a variabilidade dos dados no primeiro fator e 25,56% no segundo fator. O primeiro fator foi carregado positivamente com as variáveis mediana da idade (0,977), ISPFT (0,962) e IDPI (0,944). No segundo fator, apenas o IL carregou positivamente (0,996).

Conclusão  Os municípios do estado do Rio Grande do Sul, da região Sul e de municípios pequenos são os mais envelhecidos. No entanto, no que se refere à longevidade da população, destacam-se os municípios da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, da região Nordeste do Brasil e entre 10.001 e 20.000 habitantes, o que evidencia a contribuição do estudo, no sentido de que políticas públicas de cuidado à população mais longeva necessita ter como priorização tais municípios.

Palavras-chave
Demografia; Envelhecimento; Brasil.

Abstract

Objective  To understand population aging in Brazil from a municipal demographic perspective, highlighting regional inequalities and differences across population-size strata.

Method  An aggregate, observational, cross-sectional study was conducted using data from the 2022 Census. The study setting comprised all 5,570 municipalities across the five regions of Brazil. Data were collected on the percentage of older adults, aging index (AI), longevity index (LI), old-age dependency ratio (OADR), labor force replacement index (LFRI), median age, and aging predictability index (API). The composite indicator was constructed using principal component analysis (PCA).

Results  In the PCA, Bartlett’s test was significant (p < 0.001), the KMO value was 0.70, and the determinant was 0.02. Communalities ranged from 0.935 to 0.995, and the first and second extracted factors explained 70.04% and 25.56% of the variance, respectively. The first factor showed positive loadings for median age (0.977), LFRI (0.962), and OADR (0.944). In the second factor, only LI showed a positive loading (0.996).

Conclusion  Municipalities in the state of Rio Grande do Sul and in the South Region, as well as small municipalities, showed the greatest degree of population aging. However, with regard to population longevity, municipalities in the states of Paraíba, Rio Grande do Norte, and Ceará, those in the Northeast Region of Brazil, and those with 10,001–20,000 inhabitants stood out. These findings highlight the contribution of this study by indicating that public policies addressing the care needs of populations with greater longevity should prioritize these municipalities.

Keywords
Demography; Aging; Brazil.

INTRODUÇÃO

O envelhecimento populacional tornou-se uma das maiores transformações sociais do século XXI1. Caracterizado pela inversão da pirâmide etária e maior longevidade, a quantidade e a proporção global da população idosa têm aumentado expressivamente, exigindo novas configurações socioeconômicas em âmbito mundial2–5.

Estima-se que até 2030 a população idosa alcance um percentual de 12%, o que representa cerca de 1,4 bilhões de pessoas com 60 anos de idade ou mais em nível mundial3. Tal contexto, aponta para a importância de elaboração de políticas públicas efetivas para além da legitimação de direitos fundamentais que ultrapassem o campo da legislação, resultando em medidas práticas que apoiem a inclusão, proteção e a cidadania plena da população idosa. Em outras palavras, criação e manutenção de espaços que instiguem sua participação social, com estímulo à autonomia e independência, buscando formas de possibilidades, de aumentar sua qualidade de vida, e a maior capacidade de realizar suas funções cotidianas.

Calcula-se atualmente que existam no Brasil cerca de 32,9 milhões de pessoas idosas, o que representa 15,8% da população total brasileira4. Os dados apontam uma maior concentração nas regiões Sul e Sudeste do país em comparação ao Norte e Nordeste, atingindo uma taxa anual de crescimento de 3%, ultrapassando países desenvolvidos5–9. Este cenário é influenciado por múltiplos fatores, tais como a queda da taxa de fecundidade e o aumento da expectativa de vida, que juntos vêm modificando a estrutura etária do país e do mundo de maneira irreversível10,11.

À luz da perspectiva demográfica, é fundamental compreender esse fenômeno na sociedade, uma vez que ele está intrinsecamente ligado a desafios estruturais que moldam a dinâmica social e econômica do país. Ressalta-se que o envelhecimento brasileiro é marcado por profundas desigualdades socioespaciais e históricas8,12–15. Logo, uma reflexão profunda sobre o papel das pessoas idosas na sociedade se faz necessária, fomentando assim um ambiente favorável à inclusão e à autonomia destas pessoas16,17.

Embora o Brasil tenha avançado com ações para mitigar os desafios e explorar as oportunidades que o envelhecimento populacional apresenta, ressalta-se que as desigualdades regionais ainda persistem2,7, de modo que o processo de envelhecimento não é de todo uniforme, uma vez que unidades federativas e seus municípios que apresentam melhores índices socioeconômicos tendem a envelhecer com maior qualidade de vida, podendo se tornarem mais longevas2,5–7. Nesse sentido, uma análise em nível municipal é fundamental, uma vez que a composição das regiões administrativas brasileiras e os diferentes estratos populacionais apresentam características peculiares, impactando diretamente na dinâmica sociodemográfica e no bem-estar da população nesses territórios18,19.

Uma análise do envelhecimento populacional, no entanto, não se limita à identificação de problemas, mas também representa uma oportunidade para repensar modelos de convivência, solidariedade e cuidado. Essa perspectiva orienta políticas públicas que valorizam e integram as pessoas idosas, favorecendo um futuro em que todas as idades coexistam de forma harmoniosa e produtiva20. A discussão da valorização e integração das pessoas idosas em uma sociedade, respeitando suas contribuições e assegurando seu bem-estar, deve estar no cerne das políticas públicas21,22.

Nesse sentido, para avaliar o envelhecimento populacional de determinados territórios, necessário se faz pensar em indicadores que permitam uma mirada mais ampla acerca do fenômeno da transição demográfica. Geralmente, a comunicação relativa ao envelhecimento populacional se baseia apenas na mediana de idade da população, percentual de pessoas idosas e índice de envelhecimento e, como de costume, são analisados isoladamente4,11,13,19,23. Aspectos como a longevidade da população, a dependência das pessoas idosas, a substituição da população na força de trabalho e a previsibilidade do envelhecimento da população são deixadas de lado.

Sendo assim, o presente trabalho teve como objetivo investigar o envelhecimento populacional no Brasil a partir de uma perspectiva demográfica municipal. Para tal finalidade, foi empregado através de indicadores demográficos relacionados ao envelhecimento, viabilizando observar as diversas desigualdades regionais e suas diferenças conforme o porte populacional desses municípios.

METODOLOGIA

Realizou-se um estudo agregado, observacional e transversal, a partir de dados secundários do Censo de 2022, relativos à população idosa, considerando como tais os indivíduos com 60 anos e mais. O cenário de estudo foram os 5.570 municípios brasileiros nas cinco regiões administrativas do país.

Como variáveis relativas ao envelhecimento populacional do estudo foram consideradas sete medidas, as quais estão definidas no Quadro 01.

Quadro 1
Descrição das medidas relacionadas ao envelhecimento populacional analisadas no estudo. Brasil, 2026.

Além das medidas supracitadas, também foram analisadas para tipificar o envelhecimento populacional as variáveis unidades federativas (os 26 estados e o Distrito Federal), regiões administrativas do país (Norte, Nordeste, Sudeste, Centro Oeste e Sul) e porte populacional dos municípios (Até 5.000, de 5.001 até 10.000, de 10.001 até 20.000, de 20.001 até 50.000, de 50.001 até 100.000, de 100.001 até 500.000 e acima de 500.000 habitantes). O Distrito Federal, por ter apenas um município, foi excluído da análise para os cálculos das medidas agregadas por unidade federativa.

Todas as medidas demográficas foram submetidas à investigação da existência de correlações estatísticas, a fim de identificar forte correlações entre elas (multicolinearidade). Aquelas variáveis com coeficientes de correlação de Pearson (r) acima de 0,9 foram analisadas em relação à sua proposta teórica relacionada ao envelhecimento populacional e apenas uma foi retida para a análise. Nesse sentido, as variáveis IE, % da população idosa e IPE foram excluídas da análise por apresentarem valores de coeficiente de correlação com as demais acima de 0,95 e, portanto, estarem medindo o mesmo constructo relacionado ao envelhecimento populacional que as retidas para a análise, sendo estas melhor distribuídas nos 5570 municípios. A análise estatística das variáveis retidas foi realizada a partir da técnica de interdependência do tipo análise de componentes principais (ACP), a qual identifica dimensões ou componentes, tendo como base as correlações entre as variáveis. Nesse sentido, quatro (04) variáveis foram retidas (Mediana da idade, IDPI, IL e ISPFT) e submetidas à ACP, técnica esta utilizada para sintetizar tais medidas demográficas correlacionadas e identificar dimensões latentes do envelhecimento municipal.

Para a realização da ACP, foram avaliados os pressupostos de adequação da matriz de correlações para aplicação da ACP e os parâmetros de cumprimento dos pressupostos foram todos seguidos. Entre eles se destacam as medidas de adequação do conjunto da amostra, teste de esfericidade de Bartlett; a medida de Kaiser-Mayer-Olkin (KMO); e o determinante; e individualmente a análise da matriz de anti-imagem, a fim de compreender a adequação de cada variável isoladamente. Com a confirmação da aplicabilidade da técnica, procedeu-se a ACP, tendo sido analisado, como critério, as variáveis cujas comunalidades estiveram no patamar de 0,5 ou mais. O número de fatores ou componentes extraídos foi determinado pelo critério de Kaiser, o qual informa o quanto cada fator explica em relação à variância total. Para facilitar a interpretação dos fatores, fez-se uso da rotação Varimax.

USO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Foram utilizadas ferramentas científicas e de apoio bibliográfico durante a elaboração do manuscrito, restritas às etapas de busca, organização, sistematização da literatura e revisão da normatização das referências. Utilizou-se o NotebookLM, versão web disponível em notebooklm.google.com, fabricante Google, com a finalidade de organização, gerenciamento das referências bibliográficas; etapa: organização e normatização das referências. Utilizou-se o SciSpace, versão web disponível em scispace.com, fabricante SciSpace, com a finalidade de busca, triagem e conferência de artigos científicos, além de apoio à verificação bibliográfica; etapa: revisão de literatura e revisão das referências. Utilizou-se o Consensus, versão web disponível em consensus. App, fabricante Consensus, com a finalidade de busca de artigos científicos e identificação de evidências pertinentes ao tema; etapa: revisão de literatura que subsidiou a discussão. Utilizou-se ainda o Zotero, versão web/desktop disponível em zotero.org, fabricante Corporation for Digital Scholarship, com a finalidade de armazenamento, organização, gerenciamento e conferência das referências bibliográficas; etapa: organização e normatização das referências. A responsabilidade integral pelo conteúdo, pela interpretação dos achados, pela seleção das referências e pela versão final do manuscrito é dos autores.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi disponibilizado no IBGE4 e pode ser acessado em https://censo2022.ibge.gov.br.

RESULTADOS

A descrição dos estados brasileiros em relação às variáveis demográficas relativas ao envelhecimento populacional, tomando como base o agregado dos seus municípios se encontra na Tabela 01. O Distrito Federal, como só possui um município, não está representado na Tabela.

Tabela 01
Média e desvio padrão das variáveis demográficas analisadas em relação aos municípios pertencentes aos estados brasileiros. Brasil, 2026.

Em relação às variáveis demográficas apresentadas na Tabela 01, destaca-se o estado do Rio Grande do Sul, cujos municípios são os mais envelhecidos do país. De acordo com o coeficiente de variação, o índice de envelhecimento foi a medida que mais variou entre os municípios gaúchos, cerca de 33%. Em relação à longevidade dos municípios brasileiros, destacam-se três (03) estados nordestinos, sendo eles a Paraíba, o Rio Grande do Norte e o Ceará, os quais apresentam o maior % de pessoas idosas acima de 80 anos em relação ao total de pessoas idosas.

No que se refere às regiões e portes populacionais, as variáveis demográficas estão apresentadas na Tabela 02.

Tabela 2
Média e desvio padrão das variáveis demográficas analisadas em relação aos municípios pertencentes às distintas regiões e respectivos portes populacionais. Brasil, 2026.

Em relação às variáveis demográficas apresentadas na Tabela 02, destaca-se a região Sul do Brasil, cujos municípios são os mais envelhecidos do país. O índice de envelhecimento, de acordo com o coeficiente de variação, foi a medida que mais variou entre os municípios da região Sul, cerca de 37%. Em relação à longevidade dos municípios brasileiros, destacam-se aqueles da região Nordeste, os quais, em média, apresentam quase 17 pessoas idosas acima de 80 anos em relação ao total de pessoas idosas dos municípios nordestinos.

No que se refere aos portes populacionais dos municípios brasileiros, os mais envelhecidos são aqueles com menos de 5.000 habitantes. No entanto, no que diz respeito à longevidade, os que apresentam maior proporção de pessoas acima de 80 anos são os municípios com população entre 10.001 e 20.000 habitantes. Para quase a totalidade das medidas analisadas, há um decréscimo dos valores quando a população dos municípios vai aumentando. Tais valores voltam a aumentar nos estratos populacionais mais altos, sobretudo naqueles municípios com mais de 500.000 habitantes, sem, no entanto, ultrapassarem os valores relativos àqueles de pequeno porte populacional.

A elevada correlação entre as medidas demográficas para os 5.570 municípios brasileiros permitiu que a análise de componentes principais pudesse ser realizada. O teste de esfericidade de Bartlett foi significativo (p<0,001), a medida de KMO de 0,70 e o determinante de 0,02. As comunalidades variaram de 0,935 a 0,995 e os fatores extraídos (dois) explicaram em 70,04% a variabilidade dos dados no primeiro fator e 25,56% no segundo fator, somando 95,60% de explicação da variabilidade das variáveis retidas no modelo. O primeiro fator foi carregado positivamente com as variáveis mediana da idade (0,977), índice de substituição da população na força de trabalho (0,962) e índice de dependência das pessoas idosas (0,944). No segundo fator, apenas o índice de longevidade carregou positivamente (0,996). Nesse sentido, tomando como base o que as variáveis representam na interpretação da análise demográfica do envelhecimento populacional e as cargas fatoriais das variáveis retidas, denominou-se os fatores de envelhecimento e dependência para o primeiro fator e longevidade para o segundo fator.

A distribuição dos escores fatoriais para o primeiro fator por estado, região e porte populacional se encontra na Figura 01 (a, b e c) e para o segundo fator na Figura 02 (a e b).

Figura 01(a)
Características sociodemográficas do primeiro fator dos escores por estado. Brasil, 2026. Fonte: Própria autoria.
Figura 01(b)
Características sociodemográficas do primeiro fator dos escores por região. Brasil, 2026. Fonte: Própria autoria.
Figura 01(c)
Características sociodemográficas do primeiro fator dos escores por porte populacional. Brasil, 2026. Fonte: Própria autoria.
Figura 2(a)
Características sociodemográficas do - segundo fator dos escores por Estado. Brasil, 2026. Fonte: Própria autoria.
Figura 2(b)
Características sociodemográficas do segundo fator dos escores por porte região. Brasil, 2026. Fonte: Própria autoria.

Os resultados da ACP e respectivos indicadores compostos apontam para o Rio Grande do Sul, a região Sul e os municípios com até 5.000 habitantes como os mais envelhecidos. Em relação à longevidade, os resultados da ACP confirmam o que fora observado na análise descritiva das medidas demográficas. A Paraíba, o Rio Grande do Norte e o Ceará como os estados com municípios mais longevos, a região Nordeste como um todo e os municípios com população entre 10.001 e 20.000 habitantes como os mais longevos.

DISCUSSÃO

O envelhecimento da população brasileira é um fato registrado pelo Censo 2022. Nesse estudo, que utilizou dados do envelhecimento populacional analisados sob a perspectiva municipal e agregados por estados, regiões e portes populacionais, disponibilizados pelo Censo 2022, confirma, a partir da análise de componentes principais, sobretudo em relação ao primeiro fator, “envelhecimento e dependência”, representado por maiores valores de mediana de idade, índice de substituição da população em idade ativa e índice de dependência de pessoas idosas, que os municípios do estado do Rio Grande do Sul, da região Sul do Brasil e de municípios com menos de 5.000 habitantes são os mais envelhecidos.

No entanto, no que se refere à longevidade da população, analisada sob a perspectiva do segundo fator obtido na análise de componentes principais, destacam-se os municípios dos estados da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, aqueles da região Nordeste do Brasil e com população entre 10.001 e 20.000 habitantes, o que representa a novidade da informação demográfica analisada, a partir da perspectiva municipal e da análise de componentes principais.

A Região Sul do Brasil, em especial o estado do Rio Grande do Sul, apresenta um perfil demográfico marcado por intenso envelhecimento populacional, representando 17% da população idosa de todo o território Brasileiro24. Os dez municípios brasileiros com a estrutura etária mais envelhecida concentram-se nesta unidade federativa, historicamente reconhecida como uma das precursoras da transição da fecundidade, e esse quadro reflete a convergência de fatores demográficos e socioeconômicos, como a redução persistente das taxas de fecundidade, o aumento da expectativa de vida e, sobretudo, a forte migração de populações jovens para centros urbanos em busca de novas oportunidades4,12. O impacto é maior principalmente em municípios com população de até 5 mil habitantes, onde a taxa de natalidade encontra-se em declínio, já que o fluxo migratório reduz o contingente de pessoas em idade reprodutiva, acelerando o envelhecimento relativo6. Como resultado, observa-se uma pirâmide etária declinando na base e crescente no topo, caracterizando um estágio avançado da transição demográfica e impondo desafios relevantes para as políticas públicas, especialmente nas áreas de saúde, previdência e assistência social3,10,14.

Em relação à área da saúde, os desafios mais importantes decorrentes do envelhecimento populacional, sobretudo nessas unidades territoriais mais envelhecidas, dizem respeito à mudança no perfil epidemiológico, caracterizado pelo aumento das multimorbidades (duas ou mais doenças crônicas), as quais geram incapacidades, elevando custos e necessidade de cuidado contínuo e multidisciplinar25,26. Outro ponto importante é a necessidade de readequação do modelo de atenção do Sistema Único de Saúde, ainda muito voltado a condições agudas e saúde materno-infantil com pouca ênfase em prevenção, reabilitação e manutenção da capacidade funcional da pessoa idosa27 e, ainda, insuficiência de atenção primária organizada para pessoas idosas dependentes, falta de profissionais capacitados na área do envelhecimento e fragmentação do cuidado25,27,28.

Para a previdência social, os desafios residem no forte aumento da razão de dependência de pessoas idosas, o que coloca em risco a sustentabilidade fiscal da previdência26,29. Além disso, há uma necessidade premente de conciliar alto nível de proteção à pessoa idosa com equilíbrio intergeracional, com ônus sobre trabalhadores mais jovens29. Quanto à assistência social, o aumento de pessoas idosas pobres, dependentes e sem suporte familiar, exigirá uma rede formal de cuidados de longa duração, tanto domiciliar, quanto comunitária e institucional, que ainda é muito incipiente27,30, a despeito da aprovação da Política Nacional de Cuidado conforme a lei nº 15.069. A persistência de desigualdades, idadismo e violência contra pessoas idosas, com cobertura e implementação lenta do Estatuto da Pessoa Idosa e da não revisão da Política Nacional do Idoso, inclusive em sua nova denominação, trazem um grande desafio às políticas sociais e de direitos humanos30,31.

No que se refere à longevidade da população idosa, a dinâmica social demográfica dos estados do Nordeste do Brasil revela um processo contínuo de envelhecimento populacional em seus municípios com população média entre 10 e 20 mil habitantes, com destaque para os estados da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, os quais apresentam maiores índices de longevidade24,32,33. De acordo com a literatura, essas unidades federativas passaram por um processo acelerado de transição demográfica nos últimos tempos, com queda da fecundidade e redução da mortalidade, devido à ampliação das políticas públicas de saúde, à melhoria das condições de saneamento básico e o fortalecimento da atenção primária, o que tem proporcionado maior qualidade de vida, tornando essas regiões relativamente mais longevas24,32,33. Além disso, há outro fator bastante importante, a forte migração da população jovem para grandes centros urbanos em busca de oportunidades, o que tem acentuado proporcionalmente o contingente de pessoas idosas nessas regiões, justificando os indicadores de longevidade observados. Paralelamente a isso, fatores socioculturais e comportamentais, como redes comunitárias mais conectadas, estilos de vida menos acelerados e menor exposição a contextos urbanos estressantes, proporcionam maior qualidade de vida, elevando a maior longevidade dessa população33,34.

Em contrapartida, as consequências desse cenário incluem a crescente pressão sobre os sistemas locais de saúde e assistência social, a redução relativa da população em idade ativa e a necessidade de reorientação das políticas públicas municipais, com vistas à promoção do envelhecimento saudável, à inclusão social e à sustentabilidade socioeconômica frente ao avanço acelerado do envelhecimento populacional regional33,32, o que denota a necessidade de se reduzir a vulnerabilidade programática-institucional presente nesses territórios, caracterizada pela ausência de políticas públicas35.

Nesse sentido, a partir da análise de componentes principais, produziu-se dois fatores, os quais podem contribuir para a produção de políticas públicas municipais mais direcionadas à população idosa, considerando que avançam em relação ao modo usual de análise de índices isolados. Com isso, consegue-se dimensionar a necessidade de pessoas cuidadoras, de serviços de atenção domiciliar e de estruturação da rede de atenção às pessoas idosas em nível municipal.

Algumas limitações do estudo se fazem necessárias serem explicitadas com vistas à compreensão da validade externa do mesmo. O uso de dados agregados, os quais se adequam para as análises realizadas no estudo, quais sejam, análises municipais e não individuais, impedem, portanto, uma análise em nível de indivíduo outro ponto importante é o caráter transversal do estudo, o que revela um retrato do momento demográfico produzida por dados censitários, os quais são apropriados para as análises realizadas, mas não o são para uma compreensão do processo contínuo de envelhecimento populacional.

CONCLUSÃO

O estudo revelou que os municípios do estado do Rio Grande do Sul, da região Sul e de municípios pequenos são os mais envelhecidos. No entanto, no que se refere à longevidade da população, destacam-se os municípios da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, da região Nordeste do Brasil e entre 10.001 e 20.000 habitantes. A distinção entre envelhecimento municipal e longevidade reforça a necessidade de políticas públicas territorializadas, capazes de considerar diferentes estágios da transição demográfica e demandas específicas de cuidado, proteção social e planejamento intergeracional.

Financiamento

Não houve financiamento para a execução desse trabalho.

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Correspondência

Correspondência Claylton Silva Antunes klarkin2020@hotmail.com

Conflito de interesse

Os autores declaram não haver conflito na concepção deste trabalho.

Editado por

Cristian Arnecke Schröder

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Out 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    07 Mar 2026
  • Aceito
    03 Ago 2026
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