Qualidade dos estudos clínicos publicados na RBGO ao longo de uma década (1999-2009): aspectos metodológicos, éticos e procedimentos estatísticos

Quality of clinical studies published in the RBGO over one decade (1999-2009): methodological and ethical aspects and statistical procedures

Resumos

OBJETIVO: Avaliar a evolução metodológica e do delineamento estatístico nas publicações da Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (RBGO) a partir da resolução 196/96. MÉTODOS: Uma revisão de 133 artigos publicados nos anos de 1999 (65) e 2009 (68) foi realizada por dois revisores independentes com formação em epidemiologia clínica e metodologia da pesquisa científica. Foram incluídos todos os artigos clínicos originais, séries e relatos de casos, sendo excluídos os editoriais, as cartas ao editor, os artigos de revisão sistemática, os trabalhos experimentais, artigos de opinião, além dos resumos de teses e dissertações. Características relacionadas com a qualidade metodológica dos estudos foram analisadas por artigo, por meio de check-list que avaliou dois critérios: aspectos metodológicos e procedimentos estatísticos. Utilizou-se a estatística descritiva e o teste do χ2 para comparação entre os anos. RESULTADOS: Observa-se que houve diferença entre os anos de 1999 e 2009 no tocante ao desenho dos estudos e ao delineamento estatístico, demonstrando maior rigor nos respectivos procedimentos com o uso de testes mais robustos, relativamente, entre os anos de 1999 e 2009. CONCLUSÕES: Na RBGO, observou-se evolução metodológica dos artigos publicados entre os anos de 1999 e 2009 e aprofundamento nas análises estatísticas com o uso de testes mais sofisticados, como o uso mais frequente das análises de regressão e da análise multinível, que são técnicas primordiais na produção do conhecimento e planejamento de intervenções em saúde. Isso pode resultar em menos erros de interpretações.

Estatística; Ética em pesquisa; Comitês de Ética em Pesquisa; Declaração de Helsinki; Má conduta científica; Publicações periódicas como assunto; Publicações periódicas como assunto; Ensaios clínicos como assunto; Ginecologia; Obstetrícia


PURPOSE: To evaluate the methodological and statistical design evolution of the publications in the Brazilian Journal of Gynecology and Obstetrics (RBGO) from resolution 196/96. METHODS: A review of 133 articles published in 1999 (65) and 2009 (68) was performed by two independent reviewers with training in clinical epidemiology and methodology of scientific research. We included all original clinical articles, case and series reports and excluded editorials, letters to the editor, systematic reviews, experimental studies, opinion articles, besides abstracts of theses and dissertations. Characteristics related to the methodological quality of the studies were analyzed in each article using a checklist that evaluated two criteria: methodological aspects and statistical procedures. We used descriptive statistics and the χ2 test for comparison of the two years. RESULTS: There was a difference between 1999 and 2009 regarding the study and statistical design, with more accuracy in the procedures and the use of more robust tests between 1999 and 2009. CONCLUSIONS: In RBGO, we observed an evolution in the methods of published articles and a more in-depth use of the statistical analyses, with more sophisticated tests such as regression and multilevel analyses, which are essential techniques for the knowledge and planning of health interventions, leading to fewer interpretation errors.

Statistics; Ethics, research; Ethics Committees, research; Helsinki Declaration; Scientific misconduct; Periodicals as topic; Periodicals as topic; Clinical trials as topic; Gynecology; Obstetrics


Qualidade dos estudos clínicos publicados na RBGO ao longo de uma década (1999-2009): aspectos metodológicos, éticos e procedimentos estatísticos

Quality of clinical studies published in the RBGO over one decade (1999-2009): methodological and ethical aspects and statistical procedures

Joceline Cássia Ferezini de SáI; Gabriela MariniII; Rafael Bottaro GelaletiII; João Batista da SilvaIII; George Dantas de AzevedoIV; Marilza Vieira Cunha RudgeV

IPrograma de Pós-Graduação em Ciências da Saúde, Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN - Natal (RN), Brasil

IIPrograma de Pós-Graduação em Ginecologia, Obstetrícia e Mastologia, Faculdade de Medicina de Botucatu, Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" - Unesp - Botucatu (SP), Brasil

IIIDepartamento de Educação Física, Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN - Natal (RN), Brasil

IVCentro de Biociências, Departamento de Morfologia e Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde, Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN - Natal (RN), Brasil

VDepartamento de Ginecologia e Obstetrícia, Faculdade de Medicina de Botucatu, Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" - Botucatu (SP), Brasil

Correspondência

RESUMO

OBJETIVO: Avaliar a evolução metodológica e do delineamento estatístico nas publicações da Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (RBGO) a partir da resolução 196/96.

MÉTODOS: Uma revisão de 133 artigos publicados nos anos de 1999 (65) e 2009 (68) foi realizada por dois revisores independentes com formação em epidemiologia clínica e metodologia da pesquisa científica. Foram incluídos todos os artigos clínicos originais, séries e relatos de casos, sendo excluídos os editoriais, as cartas ao editor, os artigos de revisão sistemática, os trabalhos experimentais, artigos de opinião, além dos resumos de teses e dissertações. Características relacionadas com a qualidade metodológica dos estudos foram analisadas por artigo, por meio de check-list que avaliou dois critérios: aspectos metodológicos e procedimentos estatísticos. Utilizou-se a estatística descritiva e o teste do χ2 para comparação entre os anos.

RESULTADOS: Observa-se que houve diferença entre os anos de 1999 e 2009 no tocante ao desenho dos estudos e ao delineamento estatístico, demonstrando maior rigor nos respectivos procedimentos com o uso de testes mais robustos, relativamente, entre os anos de 1999 e 2009.

CONCLUSÕES: Na RBGO, observou-se evolução metodológica dos artigos publicados entre os anos de 1999 e 2009 e aprofundamento nas análises estatísticas com o uso de testes mais sofisticados, como o uso mais frequente das análises de regressão e da análise multinível, que são técnicas primordiais na produção do conhecimento e planejamento de intervenções em saúde. Isso pode resultar em menos erros de interpretações.

Palavras-chave: Estatística, Ética em pesquisa, Comitês de Ética em Pesquisa, Declaração de Helsinki, Má conduta científica, Publicações periódicas como assunto/ética, Publicações periódicas como assunto/normas, Ensaios clínicos como assunto/ética, Ginecologia, Obstetrícia

ABSTRACT

PURPOSE: To evaluate the methodological and statistical design evolution of the publications in the Brazilian Journal of Gynecology and Obstetrics (RBGO) from resolution 196/96.

METHODS: A review of 133 articles published in 1999 (65) and 2009 (68) was performed by two independent reviewers with training in clinical epidemiology and methodology of scientific research. We included all original clinical articles, case and series reports and excluded editorials, letters to the editor, systematic reviews, experimental studies, opinion articles, besides abstracts of theses and dissertations. Characteristics related to the methodological quality of the studies were analyzed in each article using a checklist that evaluated two criteria: methodological aspects and statistical procedures. We used descriptive statistics and the χ2 test for comparison of the two years.

RESULTS: There was a difference between 1999 and 2009 regarding the study and statistical design, with more accuracy in the procedures and the use of more robust tests between 1999 and 2009.

CONCLUSIONS: In RBGO, we observed an evolution in the methods of published articles and a more in-depth use of the statistical analyses, with more sophisticated tests such as regression and multilevel analyses, which are essential techniques for the knowledge and planning of health interventions, leading to fewer interpretation errors.

Keywords: Statistics, Ethics, research, Ethics Committees, research, Helsinki Declaration, Scientific misconduct, Periodicals as topic/ethics, Periodicals as topic/standards, Clinical trials as topic/ethics, Gynecology, Obstetrics

Introdução

As publicações científicas são usadas pelos clínicos na orientação a ser prescrita aos pacientes. Dessa forma, a qualidade das pesquisas é fundamental, pois falhas metodológicas na elaboração e desenvolvimento do estudo podem resultar em conclusões errôneas que prejudicam o paciente1. Seguir os passos fundamentais da pesquisa clínica é essencial para a interpretação adequada dos resultados2. Na Medicina contemporânea, baseada em evidências, os aspectos anteriormente citados e a análise estatística detalhada e empregada com rigor científico ganham cada vez mais importância.

Outro aspecto importante da pesquisa clínica é a adequação aos princípios éticos. Nesse sentido, um marco histórico dentro do cenário brasileiro é a resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), regulamentando os estudos científicos envolvendo seres humanos. Essa resolução incorpora, sob a ótica do indivíduo e da coletividade, os quatro referenciais básicos da bioética - autonomia, não maleficência, beneficência e justiça - e visa assegurar os direitos e deveres que dizem respeito à comunidade científica, aos sujeitos da pesquisa e ao Estado3.

Nos últimos dez anos na área de ginecologia e obstetrícia (GO), houve avanço científico que gerou repercussões importantes na prática clínica. A Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (RBGO), indexada na SciELO em 1998, é considerada uma das principais referências nacionais da área. Desde 2008, está indexada no PubMed, atestando o aprimoramento da sua qualidade científica. Como pesquisadores e responsáveis pela formação de residentes e pós-graduandos, como membros do Corpo editorial da RBGO, gostaríamos de observar o aumento da qualidade dos artigos publicados em um período de dez anos em que a revista aumentou a visibilidade, fazendo parte de novas bases de dados. Esse aprimoramento deverá ser avaliado em relação ao desenho do estudo, à análise estatística apropriada e à incorporação dos aspectos éticos definidos na portaria 196/96 do Ministério da Saúde. Essa ideia não é original, pois várias revistas internacionais vêm realizando essa análise da influência do tempo na melhoria da qualidade das publicações2,4,5.

A nossa hipótese é de que, nesse intervalo de dez anos, mais ensaios clínicos, estudos de coorte e estudos de caso-controle e menos publicações de séries de casos e relato de casos tenham sido publicados. Também que a análise estatística tenha melhorado ao longo do tempo com a incorporação de medidas de efeito - risco relativo (RR) e Odds Ratio (OR) -, intervalo de confiança e diminuição de apenas o valor p. Outro aspecto é que seja realizado o cálculo de tamanho amostral, que representa não apenas qualidade metodológica, mas também um aspecto ético fundamental de não colocar em risco, de modo desnecessário, o sujeito da pesquisa. Outro fator a ser considerado na qualidade metodológica é que os autores definam a hipótese do projeto. Assim, para testar a nossa hipótese, foram revisados todos os artigos publicados na RBGO em 1999 e em 2009, especulando-se quais avanços aconteceram na última década e identificando-se as fraquezas e as fortalezas nesses estudos nesse intervalo de tempo.

O objetivo do presente estudo foi quantificar a influência do tempo na evolução metodológica, no delineamento estatístico e na incorporação da resolução 196/96 nas publicações da RBGO nos anos de 1999 e 2009.

Métodos

A base de dados usada para revisão dos artigos publicados nos anos de 1999 e 2009 foi a biblioteca SciELO, onde estão disponíveis todos os volumes da revista. A revisão foi realizada por dois pesquisadores independentes com formação em epidemiologia clínica e metodologia da pesquisa científica, que trabalharam de forma isolada e, no final da análise, foi feita uma comparação entre os resultados. Foram incluídos todos os artigos clínicos originais, séries e relatos de casos, sendo excluídos editoriais, cartas ao editor, artigos de revisão sistemática, trabalhos experimentais, artigos de opinião, além dos resumos de teses e dissertações. Os conceitos usados para classificar os estudos foram baseados no Rothman - Manual for reviewers and glossary of Cochrane Collaboration terms6.

A hierarquia de evidências dos estudos foi feita de acordo com a escala produzida pelo "Oxford Center for Evidence-based Medicine Levels of Evidence"7, classificando do menor para o maior nível de evidência com adaptações introduzidas por Ferreira et al.8: estudos laboratoriais (in vivo e in vitro) - nível de evidência 1; revisões e série de casos ou relato de casos - nível de evidência 2; estudos descritivos ou cross-sectional - nível de evidência 3; estudos de caso-controle - nível de evidência 4; estudos de coorte - nível de evidência 5; clinical trials controlados - nível de evidência 6; clinical trials randomizados - nível de evidência 7; revisão sistemática com ou sem meta-análise - nível de evidência 8.

Foi elaborado um check-list com diversas características relacionadas com a qualidade metodológica dos estudos por artigo. Todos os estudos foram avaliados por dois critérios: 1) aspectos metodológicos - desenho do estudo (ensaio clínico controlado e randômico), coorte (retrospectiva e prospectiva), caso-controle, transversal, descritivo, série de casos e relato de caso, fonte de dados (prontuários, questionários, base de dados e pacientes - avaliação clínica) e tipo de projeto (unicêntrico ou multicêntrico); 2) procedimentos estatísticos: presença do cálculo amostral (com e sem poder estatístico e alfa), métodos estatísticos especificados, variáveis dependentes e independentes, variáveis de confundimento, valor p, descrição genérica do p (significativo e não significativo), intervalo de confiança e descrição dos resultados no resumo com relato do valor p no tópico resultados e testes estatísticos utilizados; 3) aspectos éticos: relato da aprovação do estudo no Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), número do protocolo, referência da Instituição de Ensino Superior (IES) vinculada ao CEP, termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) e aprovação da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), quando necessário.

Para análise dos resultados, foi aplicada a estatística descritiva (frequência absoluta e relativa) e o teste do χ2 para comparação entre os anos. Foi utilizado o pacote estatístico Statistical Package for the Social Sciences (SPSS)® versão 19.0 para Windows. O nível de significância usado nos testes foi 5% (a=0,05), considerado estatisticamente significativo quando p<0,05.

Este estudo foi analisado e aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp), com número de ofício 105/2012.

Resultados

Após revisão nos anos de 1999 e 2009, foram encontrados 126 artigos em 1999 e 127 em 2009. Dos 126 artigos de 1999 analisados, 80 foram incluídos e 46 não se adequaram ao critério de inclusão, sendo 10 editoriais e 36 resumos de tese. Dos 80 artigos (66 trabalhos originais e 14 relatos de caso), foram utilizados 65 e excluíram-se 15 (5 experimentais, 1 sobre validação de questionário, 3 descrições de materiais cirúrgicos e 6 investigações técnicas). Dos 127 artigos de 2009, 73 foram incluídos e 54 não entraram no critério de inclusão (13 editoriais, 11 revisões e 30 resumos de tese). Dos 73 artigos incluídos, 71 eram trabalhos originais e 2, relatos de caso. Destes, foram utilizados 68 artigos e 5 foram excluídos (4 experimentais e 1 ecológico).

No que se refere aos aspectos metodológicos dos estudos clínicos publicados na RBGO, é possível observar que houve redução no número/porcentagem de artigos sobre ensaio clínico controlado e randômico, coorte, descritivo, série/estudo de caso e não relatado (NR) e aumento no número/porcentagem de artigos caso-controle e transversal, comparando-se o ano de 2009 em relação a 1999. Com relação à fonte de dados e ao tipo de projeto, não foi verificada diferença estatisticamente significativa entre 2009 e 1999 (Tabela 1).

Na Tabela 2, estão mostrados os resultados referentes aos procedimentos estatísticos utilizados nos anos de 1999 e 2009. Em 2009, houve diferença estatisticamente significativa entre as variáveis: presença de cálculo amostral com poder estatístico e alfa, método estatístico especificado, descrição dos resultados no resumo e relato do valor p das análises. Adicionalmente, também estão descritos na Tabela 2 os 10 testes estatísticos mais utilizados nos estudos clínicos publicados na RBGO nos anos destacados. Com exceção do teste U de Mann-Whitney, que foi mais utilizado no ano de 2009 (p<0,05), não houve diferença na utilização dos outros testes estatísticos entre os anos de 1999 e 2009 (Tabela 2).

Em relação aos aspectos éticos, foi observado aumento no número de artigos contendo aprovação do CEP, número do protocolo após a aprovação do CEP, referência à IES e a presença do TCLE comparando-se 2009 em relação a 1999.

Discussão

A escolha da RBGO para quantificar a influência do tempo (dez anos de intervalo) na metodologia da pesquisa para análise estatística dos artigos publicados e a introdução do novo conceito da ética em pesquisa envolvendo seres humanos no Brasil dependeu da participação de três autores membros do corpo editorial da referida revista, do fato de a revista pertencer à Sociedade Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia e porque, nesse período de tempo, a revista aumentou a visibilidade, fazendo parte de novas bases de dados (da SciELO para o PubMed). Por outro lado, uma das limitações deste estudo foi o fato de se utilizar apenas essa revista.

É notável a predominância de estudos com baixo nível de evidência (estudos in vitro, estudos em animais, revisões narrativas, estudos transversais, relatos de casos ou série de casos). Além disso, estudos com maiores níveis de evidências, como o randomized controlled trial (RCT) e revisão sistemática (RS), representaram apenas 1,9% dos artigos enumerados no Lilacs. Devido ao tipo de estudo, o RCT é o único capaz de minimizar os vieses importantes que poderiam distorcer os resultados das intervenções, além de fornecer informações com maior validade, quando comparado a outros tipos de estudos, e ser a principal fonte de estudos primários para RS na literatura9. Uma distribuição similar de desenhos de estudo também foi demonstrada em estudos anteriores. Na avaliação de revistas odontológicas brasileiras, Leles et al.10 verificaram que projetos com maior volume de publicação foram pesquisas in vitro, representando 28% dos artigos analisados. Oliveira et al.11 avaliaram 5.453 artigos publicados na área de Odontologia entre 1993 e 2003 e constataram que apenas 6,4% eram RCT ou ensaio clínico controlado (ECC), enquanto 4 (0,07%) eram RS.

De acordo com Dauphinee et al.1, os ensaios clínicos deveriam ser mais utilizados, pois esse tipo de estudo fornece alto nível de evidência médica e eficácia das intervenções terapêuticas. Em seu estudo realizado, foi verificada melhoria na qualidade dos relatórios dos estudos clínicos com a ressalva de que ainda há lacunas a serem consideradas para melhorar ainda mais esses estudos. Contudo, parece não ter ocorrido avanço no número de ensaios clínicos randomizados entre os dois momentos no referido estudo. Segundo Concato et al.12, esse tipo de estudo requer maior dispêndio de recursos, além da necessidade da presença do pesquisador para executar a intervenção, fator que pode limitar os procedimentos em determinadas circunstâncias.

Foi notado que, nos últimos anos, houve um acentuado aumento na descrição dos métodos utilizados nos estudos clínicos da RBGO e que isso ocorreu principalmente a partir da resolução 196/96. Outro aspecto é a maior frequência dos estudos de prevalência em 2009, pois, quando esses são utilizados adequadamente, são considerados como excelente meio de aquisição de informações e construção do conhecimento científico13.

Nesse sentido, há maior preocupação com o delineamento estatístico, que passa a ter uma conotação mais rigorosa nos estudos realizados em 2009, nos quais, a partir do cálculo amostral, há ênfase do poder do teste estatístico e alfa, em conjunto com o método a ser empregado. Essa exterioridade evidencia uma preocupação com a clareza e qualidade dos dados, os quais perpassam pelo conhecimento da normalidade destes, que é um aspecto preponderante que define os procedimentos de análises subsequentes, influenciando de forma significativa as conclusões do estudo2.

Quando consideramos os testes estatísticos empregados de um período para outro, foi observado avanço dos testes que buscam correlação entre as variáveis ou diferenças entre os grupos quando comparados aos testes de associação, os quais apresentam maior frequência no primeiro instante. Isso mostra maior preocupação no emprego de avaliações mais sofisticadas e adequadas nos artigos no segundo momento, fator que é preponderante para responder corretamente os objetivos propostos5. Neste estudo, foi observado um avanço nos artigos publicados na RBGO em 2009 em relação a 1999; no entanto, ainda há necessidade do emprego de testes mais sofisticados nas análises estatísticas.

Com relação aos aspectos éticos avaliados nesta revisão, cabe ressaltar que o Código de Nuremberg e a Declaração de Helsinque são documentos que fazem referência à experimentação médica em seres humanos. A resolução do CNS-MS de 1988 faz referência à pesquisa na área de saúde, e a atual legislação brasileira, resolução 196/96 do CNS-MS, refere-se a qualquer pesquisa envolvendo seres humanos, inclusive de áreas como sociologia, economia e meio-ambiente14. Essa resolução pode ser considerada um marco no cenário das pesquisas no Brasil. As normas e diretrizes propostas consideram os avanços técnico-científicos contemporâneos e têm um forte alinhamento com os princípios bioéticos da autonomia, beneficência, não maleficência e justiça, que têm sido amplamente utilizados no contexto da prática de pesquisa internacionalmente. Além desses, outros princípios estão contidos na resolução, entre eles: confidencialidade, privacidade, voluntariedade, equidade e não estigmatização. Esses preceitos funcionam como salvaguarda adicional dos sujeitos participantes, visando, ainda, garantir direitos e deveres de cientistas, de patrocinadores, das instituições envolvidas, do Estado e dos próprios sujeitos14.

As diretrizes definidas pela resolução 196/96 visam a todas as pesquisas que envolvam seres humanos, em qualquer área do conhecimento, determinando que devem ser submetidas à apreciação de um CEP. Uma consequência disso foi que todas as instituições que desenvolvem pesquisas com seres humanos foram obrigadas a constituir um ou mais CEPs. Na impossibilidade dessa medida, os projetos de pesquisa da instituição devem ser encaminhados para o CEP de outra instituição, de preferência para aquele que seja indicado pela CONEP. Essa resolução também determina o que deve constar do conteúdo do TCLE e que o mesmo deve ser avaliado pelo CEP, o qual decide se realmente o TCLE esclarece os potenciais sujeitos da pesquisa e permite-lhes tomar uma decisão autônoma e voluntária de participar ou não de uma pesquisa15.

É notável que as pesquisas científicas, principalmente envolvendo seres humanos, têm avançado consideravelmente no Brasil, tornando cada vez mais importante o papel da ética e dos comitês em todas as áreas do conhecimento, no intuito de resguardar os direitos e a autonomia dos sujeitos das pesquisas16. Nossos resultados confirmam o descrito anteriormente e mostram que os artigos publicados na RBGO apresentaram um grande aumento na utilização do Comitê de Ética nas pesquisas nos últimos 10 anos (30,8% em 1999 e 92,6% em 2009). Esses resultados são positivos e promissores devido à importância do CEP, mostrando uma grande evolução na pesquisa clínica.

A baixa frequência de artigos que utilizaram o CEP no ano de 1999 pode ser devido à recente implantação da resolução 196/96 e da pequena cobrança das revistas cientificas14 quanto à utilização do Comitê nos trabalhos publicados. Apesar de ser crescente e significativamente diferente entre os anos, ainda não é um costume das revistas descreverem o número do protocolo de aprovação do CEP, justificando a porcentagem de 23,5% no ano de 2009. Esse dado pode revelar que os autores talvez desconheçam a importância de fazerem referência ao número do protocolo aprovado pelo CEP.

Hardy et al.17 estudaram o conhecimento e a opinião de pesquisadores brasileiros sobre o conteúdo da resolução 196/96 do CNS em relação ao TCLE e concluíram que, apesar da difusão dada à resolução, nem todos os sujeitos desse estudo a conheciam, mesmo estando ligados a universidade ou centro de pesquisa. Esses dados estão de acordo com nossos resultados, os quais mostraram que, em 2009, 60,3% dos artigos fizeram referência à presença do TCLE, o que, apesar do crescimento em relação ao ano de 1999 (24,6%), demonstra a necessidade de maior conhecimento dos pesquisadores e aplicação desse conhecimento em prol dos sujeitos envolvidos na pesquisa.

Garbin et al.18 descrevem o CEP/Conep como um sistema em construção e aperfeiçoamento no intuito de acompanhar as mudanças científico-tecnológicas e as transformações de pensamento da sociedade brasileira, notadamente da comunidade científica. Os autores lembram, ainda, que o sistema CEP/Conep e a crescente necessidade de revisão ética dos projetos de pesquisa têm colocado o Brasil à frente dos outros países no que diz respeito às normas éticas em pesquisa, o que pode ser constatado pelo fato de esse sistema ser considerado avançado por muitos pesquisadores18.

Devemos lembrar que a resolução 196/96 e os CEPs contribuem para a concretização da democracia deliberativa e que a revisão ética de projetos de pesquisa supõe uma reflexão cuidadosa e sistemática, que reside em dois aspectos fundamentais: a relevância da pesquisa e as consequências da mesma para todos os envolvidos (sujeitos e pesquisadores), colocando-se os sujeitos da pesquisa na condição de cidadãos e a ciência sob o crivo da sociedade, a qual deve ser beneficiada pelas pesquisas. Isso significa que os aspectos éticos das pesquisas devem ser encarados com seriedade durante todo o seu desenvolvimento: da revisão ética e acompanhamento do projeto até a entrega do relatório final ao CEP19.

Sabe-se que a publicação de artigos científicos é um dos principais critérios de avaliação da produtividade dos pesquisadores e das instituições de pesquisa. A integridade do sistema científico de investigação depende da seriedade dos pesquisadores20. No entanto, a política editorial das revistas científicas, objetivando melhorar não só os aspectos técnicos dos artigos, mas também a editorial das revistas científicas, objetivando melhorar não

só os aspectos técnicos dos artigos, mas também a ética dos estudos, poderia contribuir de modo efetivo para a melhoria global das publicações brasileiras14.

Concluímos que a análise dos resultados evidencia claramente que, em dez anos, houve evolução metodológica, melhora na qualidade da análise estatística dos trabalhos publicados e preocupação com os aspectos éticos envolvidos com os sujeitos da pesquisa na Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia.

Agradecimentos

À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) pelo financiamento do Projeto desenvolvido dentro do Programa de Cooperação Acadêmica (Procad) entre a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp).

Aos docentes e alunos que ajudaram no Projeto Procad 057/2007 entre as universidades Unesp e UFRN (Eduardo Caldas Costa, Maria Thereza Albuquerque Barbosa Cabral Micussi, Técia Maria de Oliveira Maranhão e Débora Cristina Damasceno).

Recebido: 05/07/2013

Aceito com modificações: 06/11/2013

Conflito de interesses: não há.

Trabalho realizado no Setor de Climatério e Menopausa do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" - UNESP - Botucatu (SP), Brasil.

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  • Correspondência:
    Marilza Vieira Cunha Rudge
    Departamento de Ginecologia e Obstetrícia - Faculdade de Medicina de Botucatu - Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho"
    Avenida Prof. Montenegro, s/n Distrito de Rubião Júnior
    CEP: 18618-970 Botucatu (SP), Brasil

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Jan 2014
  • Data do Fascículo
    Nov 2013

Histórico

  • Recebido
    05 Jul 2013
  • Aceito
    06 Nov 2013
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