RESUMO
O artigo enfoca a trajetória e a obra da escritora e jornalista de viagens estadunidense Marie Robinson Wright (1866-1914), que colaborou com jornais e revistas de seu país, alcançando renome por sua participação nas grandes exposições internacionais do período. Sua obra se insere no contexto do surgimento de um gênero de jornalismo investigativo e de viagens, nos Estados Unidos. A partir da década de 1890, Wright viajou pelos Estados Unidos e pela América Latina, editando livros, artigos e reportagens sobre os diversos países que visitou, escrevendo, por vezes, por encomenda de autoridades locais. Assim, desempenhou importante papel dentro do âmbito de ações que envolviam a aproximação dos Estados Unidos com os países do continente, na perspectiva do pan-americanismo.
Palavras-chave:
Pan-americanismo; Literatura de viagem; Mulheres escritoras, Marie Robinson Wright
ABSTRACT
The article focuses on the career and work of the American travel writer and journalist Marie Robinson Wright (1866-1914), who collaborated with newspapers and magazines in her country, achieving renown for her participation in the great international exhibitions of the period. Her work was part of the emergence of an investigative and travel journalism genre in the United States. From the 1890s onwards, Wright traveled around the United States and Latin America, publishing books, articles, and reports on the various countries she visited, sometimes writing on commission from local authorities. Therefore, she played an important role in the actions that involved bringing the United States closer to the countries of the continent, from the perspective of Pan-Americanism.
Keywords:
Pan-Americanism; Travel literature; Women writers; Marie Robinson Wright
Nossa pesquisa enfoca a trajetória e a obra da escritora e jornalista de viagens estadunidense Marie Robinson Wright (1866-1914), que colaborou com jornais e revistas de seu país, alcançando renome por sua participação nas grandes exposições internacionais do período. Sua obra se insere no contexto do surgimento de um gênero de jornalismo investigativo e de viagens, nos Estados Unidos, o qual foi crescentemente protagonizado por repórteres e jornalistas mulheres, sendo Nellie Bly (1864-1922) o exemplo mais conhecido (Parham, 2010). A partir da década de 1890, Wright viajou pelos Estados Unidos e pela América Latina, editando livros, artigos e reportagens sobre os diversos países que visitou, escrevendo, por vezes, por encomenda de autoridades locais.
No México e nos países do Caribe e da América do Sul, Wright se valeu de forma hábil de suas articulações políticas e atuou com funções oficiais e “oficiosas”, junto aos governos locais. Nossa análise busca entender como a atuação profissional e política da escritora se tornou expressão de uma forma de projetar a cultura e a sociedade dos países da América Latina nos Estados Unidos, sendo precursora na produção de informações e imagens da natureza e das riquezas da região, como na divulgação inédita das Cataratas do Iguaçu (Wright, 1906, pp. 456-460). Nessa atuação, Wright atendeu a demandas das autoridades, contando tanto com o aparato governamental, nos diversos países, para desenvolver suas pesquisas e para publicá-las, na forma de livros e textos para jornais e revistas, quanto com as encomendas de textos oficiais, como no caso do livro sobre a Exposição Centenária Nacional da Abertura dos Portos, em 1908, no Rio de Janeiro (Wright, 1908).
Nessas circunstâncias, Marie Robinson Wright se caracterizou como mais do que uma escritora-viajante, formando uma vasta teia de contatos na América Latina. O conjunto de seus textos, por sua vez, tornou a escritora referência na difusão de conhecimento sobre vários países do continente, inclusive sobre o Brasil. Em 1908, registrava o boletim mensal da União Internacional das Repúblicas Americanas:
A Secretaria Internacional [da União Internacional das Repúblicas Americanas] está recebendo tantos pedidos de informações, tanto dos Estados Unidos, como da Europa, a respeito dos itinerários e condições para viajar na América do Sul, que contratou o Sr. Lee McClung, Tesoureiro da Universidade de Yale, que fez recentemente uma viagem ao redor da América do Sul, e a Sra. Marie Robinson Wright, a distinta autora, que tem visitado todas as partes do continente meridional, para escrever breves artigos descritivos sobre os diversos caminhos e acomodações que possam servir de guia para as pessoas que intentam visitar aquela parte do mundo (South American Routes, 1908, p. 255. Traduzimos).
O trabalho da autora, em contrapartida, foi meio importante para a projeção dos ideais pan-americanos, o que incluía a postura na luta feminista e sufragista, que se somava aos demais traços que distinguiam a cultura estadunidense nas Américas, moldando, em seu exemplo, um perfil sobre a mulher moderna que se pretendia projetar. A obra de Marie Robinson Wright pode ser associada, assim, a um novo esforço de produção de conhecimentos sobre a América Latina, por meio de viagens, reportagens, pesquisas e artigos veiculados em periódicos científicos e de vulgarização, como a National Geographic Magazine, que se alinhava aos objetivos mais amplos dos Estados Unidos, ligados à reorientação da política externa do país que passava a se expressar no pan-americanismo na última década do século XIX.
A linha que se adotava na política externa, voltada ao continente, atendia aos interesses relacionados tanto à expansão econômica do país, para escoamento da sua produção agrícola e industrial, quanto ao atendimento da premissa de exercício do controle sobre novos territórios, reduzindo-se progressivamente o poderio de outros Estados na região, sobretudo da Inglaterra. Daí o interesse crescente de políticos, intelectuais e cientistas estadunidenses na obtenção, controle e divulgação de informações sobre a geografia, as “riquezas naturais”, a população, a organização política e administrativa e a história dos países latino-americanos.
Nossa análise da trajetória de Wright, ao lado da consideração do contexto ideológico e político da produção de seus textos, volta-se às condições específicas que presidiram a elaboração deles: a cronologia de suas viagens pelo México, Caribe e América do Sul, os contatos que manteve com autoridades nacionais e locais, escritores e cientistas, o trabalho de coleta de informações, o uso de imagens, sobretudo de fotografias, a organização de suas obras sobre os diversos países, o apoio que recebeu para a edição de seus livros, bem como os meios que garantiram sua edição e a recepção de suas publicações em periódicos estrangeiros e brasileiros.
No estudo das fontes, propriamente, concentramo-nos nos registros e impressões da escritora sobre paisagens, riquezas e potencialidades econômicas do Brasil. Para além das numerosas informações sobre a política, administração e produção econômica do país, nota-se a apropriação e a reelaboração, por Wright, de noções e interpretações contidas em textos da historiografia brasileira de seu tempo, a exemplo do mito da conquista do território pelos “bandeirantes” paulistas, que a autora mobilizou, como em um “jogo de espelhos”, como elemento para a construção de uma identidade americana e pan-americana.
MARIE WRIGHT, FEMINISMO E INTERESSES NACIONAIS
Em outubro de 1899, a revista feminista A Mensageira2 (Kamita, 2004) iniciava sua edição mensal exaltando um acontecimento que marcou a vida das brasileiras no primeiro dia daquele mês: a Dra. Myrthes de Campos tornou-se a primeira advogada a fazer a defesa de um réu no Brasil, a despeito das manifestações contrárias à atuação feminina, que predominavam no Instituto dos Advogados do Rio de Janeiro. Toda a edição da revista dedicou artigos e notícias ao tema. Registros como esse repercutiam de forma recorrente no periódico, voltado ao debate sobre a atuação da mulher na sociedade brasileira (A Mensageira, 1987, pp. 170-171).
Presidida por Preisciliana Duarte de Almeida, a publicação propunha-se a divulgar a atuação feminina em vários campos de conhecimento, fazendo ainda denúncias e defesas de direitos das mulheres em diversas esferas. Na mesma edição de outubro de 1899, na seção “Notas pequenas”, A Mensageira registrava a passagem por São Paulo das escritoras e jornalistas norte-americanas Marie Robinson Wright e Sara Hartman, que viajavam com o objetivo de preparar um livro sobre o Brasil. À altura da publicação, segundo a revista, as escritoras já haviam se dirigido aos estados do Norte do país e, em sua visita a São Paulo, haviam sido recebidas pelo presidente do estado, coronel Fernando Prestes de Albuquerque (1898-1900) e, em Piracicaba, pelo ex-presidente Prudente de Moraes (1894-1898). Em particular, a jornalista e historiadora Marie Robinson Wright era celebrada como a primeira escritora contemporânea da América do Norte (A Mensageira, 1987, pp. 182-183).
O feminismo foi uma luta bastante singular na vida de Marie Wright, ganhando maior força na sua atuação profissional depois da viuvez, conciliada com a maternidade e com posições políticas contundentes em defesa dos direitos da mulher e do sufrágio feminino. Como escritora viajante e jornalista, foi designada para cobrir e preparar publicações sobre grandes eventos internacionais, tendo por foco especial a América Latina e ganhando o reconhecimento de associações e sociedades culturais e científicas em vários países.
Nascida em Newman, na Geórgia, em 1866, Marie Louise Robinson Wright era filha de um rico fazendeiro e usufruiu de formação escolar privilegiada para jovens e meninas3. Sua trajetória foi marcada por uma série de rupturas com os padrões de sua época, para as moças de famílias proprietárias do Sul. Segundo os dados biográficos disponíveis, Marie fugiu de casa aos dezesseis anos para se casar com o então estudante e depois advogado Hinton P. Wright, de origem abastada, sendo deserdada pela família. No ambiente doméstico, acompanhou os estudos de Direito realizados pelo marido. O casal teve dois filhos e, depois do falecimento de Hinton Wright, Marie passou a se dedicar ao jornalismo. Primeiro vendeu assinaturas (Willard; Winslow; White, 1897, p. 330) e atuou como redatora do semanário Sunny South, editado em Atlanta, sendo depois contratada para escrever sobre o cotidiano das cidades do Sul para o New York World4, com o qual colaborou por cinco anos, nos anos de 1880 (Leonard, 1901, p. 1269). Em 1892, viajou pela primeira vez ao México em função da preparação de uma edição especial sobre o país para o New York World, encomendada pelo presidente Porfírio Diaz (1876-1880; 1884-1911), a qual seria editada, em suplemento ilustrado de oito páginas, no mês de agosto.
A Sra. Marie Robinson Wright, de The New York World, esteve aqui (em Atlanta) nas últimas três semanas. Ela foi enviada ao México em uma missão importante. A pedido do comitê da feira mundial, ela foi convidada por seu jornal para apresentar ao governo mexicano as vantagens de uma edição especial mexicana do The New York World como uma espécie de antecipação da exposição de um milhão de dólares que o México propõe ter na feira mundial. Ela teve uma conferência com o presidente e também com o Sr. [Ignácio] Mariscal, secretário de Estado, e ficou acordado que um suplemento mexicano de The World com 600.000 cópias, com oito páginas, será publicado. A Sra. Wright será assistida por repórteres e passará os próximos três meses em um vagão especial, visitando vários pontos de interesse na república. O presidente dará a ela toda a assistência na obtenção de informações e colocará à sua disposição o serviço fotográfico do governo. Seu sucesso aqui é um grande tributo ao tato e à iniciativa de uma mulher da Geórgia (The Atlanta Constitution, 1892, p. 2. Traduzimos).
Wright retornaria ao país em 1895, acompanhada de sua filha, Ida Dent Wright, para sua primeira atuação de maior vulto, para a qual obteve, mais uma vez, o apoio do governo de Diaz, que recebeu e condecorou a escritora. O presidente mexicano forneceu a ela cartas de apresentação, dirigidas aos governadores dos estados, escolta militar e facilidades para realizar suas viagens de trem e de navio (Dias, 1895), condições suficientes para que Wright pudesse estudar minuciosamente o território do país. Wright se deslocou então para regiões inóspitas, em viagens demoradas e cansativas, pelo período de um ano. O apoio do governo, junto à incumbência que recebeu de preparar a publicação sobre o México para ser apresentada na Exposição de Chicago (Mrs. Robinson Called..., 1914, p. 1), marcou o início de uma série de realizações importantes da viajante, que passava a escrever sobre a América Latina para o público estadunidense.
Os contatos com personalidades, escritores e autoridades na América Latina foram um elemento de destaque na atuação da escritora, que não pode ser desconsiderado, tendo sido provavelmente facilitado por vínculos tecidos a partir de suas boas relações políticas no jornalismo em Nova York e das redes familiares no Sul dos Estados Unidos. Wright representou o estado da Geórgia na Exposição Universal de Paris, em 1889, na Exposição Colombiana de Chicago, em 1893, e em Saint Louis, em 1904.
Seu estudo mais detalhado sobre o vizinho ao Sul foi publicado em 1897, sob o título Picturesque Mexico (Wright, 1897), e serviu de modelo para os trabalhos posteriores que realizaria sobre a América do Sul. Escrita para o público dos Estados Unidos, a partir de um levantamento quase enciclopédico, a obra, editada em inglês e dedicada a Porfírio Diaz - de quem se incluía o retrato, em fotografia -, era apresentada em um momento de consolidação das relações diplomáticas entre os dois países, após o encerramento do violento processo expansionista que levara à incorporação de parte do território mexicano em meados do século XIX. O trabalho teve repercussão nos Estados Unidos, sendo divulgado por meio de anúncios e notas em revistas literárias5. Em seguida, no período até 1910, Wright fez incursões por outros países do continente, inclusive o Brasil.
As escritoras viajantes da virada do século XIX para o século XX apresentavam diversos pontos em comum e, também, diferenças em suas trajetórias, tanto no que se referia ao caráter profissional ou amador de sua atuação, como no apoio e na estrutura que receberam para o desempenho de suas missões. No caso de Wright, suas viagens tinham finalidade profissional: a autora estava vinculada a periódicos de reputação e grande circulação e trabalhou por encomenda de autoridades governamentais estrangeiras, contando com o apoio de instituições e órgãos locais para o desempenho de suas tarefas. Sua escrita alinhava-se, assim, aos interesses mais imediatos dos governos locais e nacionais, fazendo reverberar o que atendia aos clamores políticos por projeção desses países no exterior.
Marie-Claire Hoock-Demarle utilizou a expressão “exploradoras” para se referir às escritoras contestadoras da primeira metade do século XIX, como a franco-peruana Flora Tristán e a inglesa Maria Graham, cuja atuação e produção textual pautavam-se por um forte senso de independência pessoal, tomando a vida política e social dos países visitados como centro de seu interesse (Pratt, 2008, pp. 156-157). Marie Robinson Wright, distintamente, afastou-se da literatura de viagem daquelas escritoras politicamente engajadas, destacando-se seus textos antes pelo caráter descritivo. Atuando de forma “oficial” ou “oficiosa”, visava à construção de um discurso de autoridade caracterizado pelo uso da estatística e pelas descrições técnicas de aspectos geográficos, históricos e administrativos, como na forma de um catálogo ou dos grandes volumes ilustrados que se divulgavam nas exposições internacionais (Hoock-Demarle, 1985, pp. 95-105).
A biografia e a escrita de Wright se misturam em meio à veloz projeção do seu trabalho e dos seus textos. Ela esteve em diversas ocasiões viajando pela América do Sul, reunindo dados e informações sobre os lugares que visitou. Esforçou-se por buscar o conhecimento sobre os países que constituíram o tema de seus trabalhos e enfrentou os riscos do percurso de longas distâncias e deslocamentos, como era característico das mulheres que se dedicavam ao exercício de um olhar “antropológico” em terras desconhecidas (Leite, 2000, pp. 129-143). Viajou em vapores, trens e diligências e percorreu os territórios do México e da Bolívia a cavalo e no lombo de mulas, alcançando os Andes em mais de uma ocasião (Mrs. Marie R. Wright Dead, 1914, p. 3).
Combinam-se, assim, os aspectos biográficos com a própria história da região no período. Os traços dessa trajetória e de uma escrita de viagem devem ser inseridos no contexto político de transformações pelas quais os Estados Unidos passaram entre final do século XIX e início do século XX, observando-se o aprofundamento dos interesses imperialistas na América Latina. Os enunciados adotados por Wright também devem ser analisados dentro de uma premissa mais ampla da formação e fortalecimento das redes políticas e culturais dos norte-americanos nos países do continente. Em notícia sobre o livro produzido em sua viagem ao Chile no Bulletin of the American Geographical Society, assinala-se o olhar de Wright sobre o país:
A história, o governo e o comércio da República [do Chile], suas cidades, vida social e belas residências, cultura, agricultura, mineração e aborígines, desde os campos de nitrato até a Terra do Fogo, são retratados no texto e em fotografias. As fotografias são belas e mostram todos os aspectos típicos do país e o que os chilenos têm feito para desenvolver a terra e avançar a civilização. É surpreendente ver que algumas residências que poderiam adornar os subúrbios de Nova York podem ser encontradas em Punta Arenas, no Estreito de Magalhães, a cidade mais ao sul do mundo. Alguns cartógrafos que ainda mostram Juan Fernandez como uma única ilha poderiam se beneficiar ao ler a descrição dessas ilhas pela Sra. Wright (The Republic of Chile, 1905, p. 189. Traduzimos).
Yasmin López Lenci assinala que a própria literatura de viagem/jornalismo assumiu, na época da atuação de Wright, a forma de uma profissão desempenhada também por mulheres, difundindo-se como parte de um modo de vida (norte-) americano, a ser “exportado” e ressignificado nos países visitados pelas jornalistas. Para a autora, Wright foi “uma daquelas mulheres viajantes e escritoras que propagaram esse projeto nacional norte-americano ao mesmo tempo em que construía sua própria condição feminina autônoma” (López Lenci, 2012, p. 8), segundo uma intenção que se traduzia na iniciativa de promover uma imagem que servisse de exemplo a ser seguido pelas mulheres latino-americanas. Construía-se assim a imagem de uma mulher independente norte-americana, sendo o feminismo também premissa cultural de superioridade. O fato de Wright, em razão de sua atuação profissional como escritora, ser levada a frequentar ambientes políticos e intelectuais fortemente masculinos, não a afastou de tornar-se uma firme voz a somar esforços em defesa do sufragismo e dos direitos da mulher. No Brasil, manifestou-se crítica do atraso do movimento feminista, em relação ao que se registrava nos Estados Unidos e na Europa àquela altura (Boussahba-Bravard; Rogers, 2018, pp. 215-233)6. The Brazilian Review, revista editada no Rio de Janeiro, descreveu a chegada de Wright e sua secretária ao Rio de Janeiro em agosto de 1899 como trazendo uma possível inspiração para as brasileiras: “Agora, com o exemplo intrépido dessas duas americanas para guiá-las, talvez elas [as mulheres brasileiras] se atrevam a sair de suas conchas um pouco mais” (The Brazilian Review, 1899, p. 515. Traduzimos).
Marie Robinson Wright criou imagens pioneiras do Brasil no exterior, especialmente voltadas ao público de seu país, vinculadas a uma visão de exuberância, encantamento e beleza de suas paisagens naturais e de suas riquezas e potencialidades econômicas. Nos textos e fotografias editados em seus livros figurava certo olhar dos Estados Unidos sobre o que deveria ser conhecido, no momento da afirmação de seu novo protagonismo econômico, político e cultural na América Latina. Essa atuação, sob outra perspectiva, convergiu com a intenção do governo brasileiro de repercutir uma imagem externa positiva, orientada ao “progresso” e associada ao projeto de modernidade republicano, que funcionaria como um atrativo para os almejados fluxos de visitantes, investimentos e imigrantes estrangeiros. The New Brazil, its Resources and Attractions: Historical, Descriptive and Industrial (1901), seu mais famoso e completo trabalho sobre o país, contou com duas diferentes edições, em 1901 e 1907, e foi produzido a partir de longas viagens pelo território e da visita aos vários estados.
Geografia e Literatura de Viagem
As viagens de Marie Robinson Wright ocorriam em meio a uma rápida produção de textos e à preparação de seus livros, no que a autora contava com o auxílio de sua filha e de assistentes, também mulheres escritoras e jornalistas. Elas reuniam em poucos meses valiosas informações sobre as vastas regiões percorridas no continente americano, em textos e imagens, sobretudo fotografias. Em 1905, Wright havia passado cinco anos viajando por Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Bolívia e Peru, coletando dados para seus livros (The Republic of Chile, 1905). Assumia assim uma reputação positiva que lhe rendia, a cada viagem, um novo leque de contatos que ampliava e fortalecia suas redes de relações nesses países. Em jornais e revistas americanos, ganhava reconhecimento com as notícias, por vezes algo fantasiosas, das suas longas e difíceis viagens, como “exploradora” da América do Sul, “intrépida” viajante, estudiosa dos países que visitou, escritora não diletante (Winslow, 1897, pp. 245-247; Marie Robinson Wright, 1999). O ponto de vista assumido pela jornalista e escritora deve ser examinado, portanto, dentro da premissa mais ampla da política de seu país para a região.
Em 1888, a fundação da National Geographic Society nos Estados Unidos, como uma instituição cultural e científica sem fins lucrativos, havia contado com a participação de membros do governo, em meio a debates acirrados sobre o horizonte de expansão territorial após a “conquista” do Oeste e sobre política externa. Apenas um ano antes da “Primeira Conferência Internacional dos Estados Americanos”, em Washington, D.C., o surgimento da nova sociedade científica indicava, também, a intenção de produzir conhecimentos sobre os países do Sul do continente americano. A cobertura de imprensa da mesma conferência, em 1889-1890, assistiu ao surgimento do termo “pan-americanismo” - uma extensão da ideia original de “Hemisfério Ocidental” de Thomas Jefferson e Henry Clay, do início do século XIX (Bethel, 2015), quando a afirmação de uma identidade entre as “Américas” passou a definir o projeto ideológico estadunidense. A National Geographic dedicou-se à pesquisa, produção e publicação de dados sobre geografia, incluindo riquezas naturais, população, organização administrativa, política e cultural, alinhando-se ao objetivo de incrementar os mercados para escoamento da produção agrícola e industrial estadunidense e para a exploração e comércio de produtos na região (Sotomayor, 1996, pp. 759-781).
No final do século XIX, a orientação editorial da National Geographic Society concentrou-se na difusão popular do conhecimento geográfico, o que implicou um cuidado especial na preparação de sua revista7, coincidindo esse foco com a expansão territorial e militar dos Estados Unidos para fora de seus limites nacionais. Assim, “contando com o novo interesse dos americanos pelo mundo”, nas palavras de Tamar Y. Rothenberg, a National Geographic Society transformou-se, por essa época, de uma “associação agradável de cientistas locais e com ideias semelhantes” em um canal de difusão das ideias de “exploração”, “aventura”, “exotismo” e história natural para o público de seu país (Rothenberg, 2016, pp. 2-3)8. Essa articulação, segundo López Lenci, combinou os debates internos ao campo disciplinar da geografia com o novo quadro da política estadunidense.
A fundação da National Geographic Society, bem como o lançamento de sua revista, a National Geographic Magazine, foram marcos no ressurgimento de um debate sobre geografia ocorrido no final do século XIX, que estava diretamente associado ao novo cenário político de disputas territoriais internacionais (López Lenci, 2012, p. 4. Traduzimos).
Em convergência com essas finalidades, a recém-criada National Geographic Magazine reproduzia, em seus artigos, a premissa imperialista, em articulação com a construção de um projeto civilizatório voltado aos países latino-americanos, assumindo a tarefa de divulgar curiosidades e descobertas, assim como o potencial econômico de regiões de interesse dos empreendimentos dos Estados Unidos. A visão de uma natureza “pitoresca”, “exótica” e “exuberante”, a ser conhecida no México, no Caribe e na América do Sul, propagada nos textos da revista, eludia, no entanto, aspectos políticos, históricos e arqueológicos, evidenciando a perspectiva mais ampla estadunidense, na qual
delinear uma visão imperial implicava justificar a hegemonia do discurso científico; a sublimação-expropriação do passado imperial americano; a equiparação da majestade da natureza selvagem norte-americana com a grandeza da transformação capitalista; a desterritorialização histórico-arqueológica da América Latina (López Lenci, 2012, p. 17. Traduzimos).
Em agosto de 1906, a National Geographic Magazine preparou um número especial dedicado à América do Sul, justificado pela “atenção dirigida a essa região pela Conferência Pan-Americana do Rio de Janeiro, durante os meses de agosto e setembro” (South America, 1906, p. 424). Compunham o volume um mapa colorido do continente, seguido de estudos como “South America Fifty Years Hence” [América do Sul - 50 Anos Depois], de Charles M. Pepper, membro da Associação e representante do Pan American Railway Committee, grande projeto ferroviário com o qual se pretendia ligar os pontos extremos da América do Sul; “New Peruvian Route to the Plain of the Amazon” [Nova rota peruana para a planície do Amazonas], de Solon I. Bailey, do Harvard College Observatory; “The Fertile Pampas of Argentine” [Os férteis pampas da Argentina], de Edward James Cattell; e o editorial “What the Latin-American Republics Think of the Pan-American Conferences” [O que as repúblicas latino-americanas pensam sobre as Conferências Pan-Americanas].
A mesma edição da revista trazia o estudo de Marie Robinson Wright “The Falls of Iguazu” [As Quedas do Iguaçu] (Wright, 1906, pp. 456-460)9, sendo a autora apresentada pelas credenciais da autoria dos livros The Republic of Chile (1902), The New Brazil (1901) e Picturesque Mexico (1897). O estudo de Wright destaca a exuberância das Cataratas do Iguaçu, no Sul do Brasil, refletida na descrição de aspectos como a peculiar harmonia das suas quedas d’água, comparáveis, em “majestade”, às Cataratas do Niágara na América do Norte, e era ilustrado por fotografias. No local, o encontro dos rios Paraná e Iguaçu servia à ligação entre as repúblicas do Brasil, Argentina e Paraguai, no “coração da América do Sul”.
As Quedas do Iguaçu oferecem um contraste notável em relação às Cataratas do Niágara em muitos aspectos importantes. À medida que o rio faz a curva acentuada já mencionada, o principal volume de água corre ao redor da margem interna e é despejado em uma garganta longa e estreita, em um ponto caindo em um mergulho claro de 210 pés. No entanto, nem todo o volume do rio é despejado nesse local; o restante da água passa pelo cotovelo largo formado pela curva, circulando ao longo da margem oposta entre muitas rochas e ilhas antes de alcançar a borda do penhasco, sobre o qual a descida é feita em dois grandes saltos de aproximadamente 30 metros cada, em um vasto semicírculo de 900 metros. O comprimento total das Cataratas do Iguaçu, se medido na borda superior do penhasco, através de seu contorno irregular, incluindo os ilhéus que as intersectam, é duas vezes maior que o das Cataratas do Niágara, incluindo a interseção da Ilha Goat (Wright, 1906, p. 458. Traduzimos).
Um aspecto particularmente interessante neste sentido foi abordado no artigo já referido de Yasmín López Lenci (2012), no qual a autora analisou o surgimento de dois ícones da paisagem da América do Sul, retratados na National Geographic Magazine: as Cataratas do Iguaçu e Machu Picchu, no Peru. Na observação atenta de Lopez, a expressão da visão de uma natureza exuberante, propagada em textos como os de Robinson Wright, desnuda essa perspectiva mais ampla estadunidense, como parte do aparato ideológico intercultural que alçava o país ao papel de protagonista em uma ação civilizatória para o continente. Ligado ao traço que se destaca na representação de Wright como uma norte-americana moderna, antenada com as lutas das mulheres de seu tempo, revelam-se aspectos em sua produção e atuação que estão inter-relacionados, não podendo ser analisados de forma isolada, uma vez que pertenciam a esse contexto das políticas traçadas na perspectiva pan-americana.
Os vínculos pessoais formados por Wright em suas viagens originam-se de contatos com autoridades governamentais, políticos, membros de instituições culturais, educacionais e científicas nos países visitados, intelectuais renomados e jornalistas. No Brasil, a escritora ligou-se ao Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (Marie Robinson Wright, [s.d.]) e à Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro, e manteve correspondência com o escritor e diplomata Joaquim Nabuco (1849-1910) (Wright, 1908), então embaixador do Brasil nos Estados Unidos, com o escritor e engenheiro Euclides da Cunha (1866-1909) e com o geólogo estadunidense, naturalizado brasileiro, Orville Derby (1851-1915) (Wright, 190[?]). Por ocasião do seu falecimento, o Jornal do Commercio noticiava, em 21 de março de 1914:
[...] Desde então Mistress Wright se tornou particularmente querida em nossos meios intelectuais, diplomáticos e mundanos, que, nas suas subsequentes viagens ao Brasil, das quais resultou novo trabalho ilustrado, a acolheram com crescente afabilidade.
De resto, o seu encanto pessoal não poderia senão consolidar simpatias. Lembram-se todos, por certo, da sorridente fisionomia da inteligente americana, a que o nariz adunco e o queixo predominante davam uma nota viril, representada em seu caráter pela “endurance” e bravura com que atravessou o interior dos países desta parte do continente por ela visitados: pelo seu espírito observador e ávido de quadros e sensações novos e pela infatigável atividade, graças à qual pode percorrer por cerca de vinte anos vários Estados da América Latina (Noticiário, 1914, p. 1).
No quadro a seguir, procuramos mostrar alguns passos da trajetória da autora que nos permitem identificar os personagens com os quais ela manteve contato, em visitas e por meio de correspondência:
Em 1901, Marie Wright publicou The New Brazil: its Resources and Attractions. Historical, Descriptive, and Industrial, que dedicou ao presidente Manoel Ferraz de Campos Sales (1898-1902). O livro, em inglês, foi editado na Filadélfia por George Barrie & Son, que tinha representação londrina junto a C. D., Cazenove & Son. Foi divulgado em anúncios nos periódicos editados em língua estrangeira na capital federal, como Rio News e The Brazilian Review, e podia ser comprado na firma Crashley & Co., na Rua do Ouvidor, no centro da cidade. Em Washington, nos Estados Unidos, foi anunciado na seção “Bibliografia” do Monthly Bulletin of the Bureau of the American Republics, órgão de divulgação de notícias e artigos da União Internacional das Repúblicas Americanas, que era editado naquela cidade pelo Imprensa Oficial dos Estados Unidos (Bibliography, 1901-1907, pp. 365-366).
Nos dois países, o livro visava um público de consumidores abastados, representados, no Rio, por homens de negócios ingleses e americanos, ligados às firmas estrangeiras. Foi adquirido por autoridades federais, como funcionários do Itamaraty, e por governos estaduais, conforme sugerem as autorizações de créditos em favor da autora, concedidas por diversos órgãos públicos (como Diário de Pernambuco e Jornal do Commercio, cf. Noticiário, 1902; 1909). Serviu de presente a visitantes, nas recepções de personalidades e autoridades estrangeiras em repartições e instituições do Brasil, sendo os exemplares distribuídos em bibliotecas, no país e no exterior.
A obra foi redigida em dois anos, a partir da primeira visita de Marie Robinson Wright ao Brasil e de seguidas viagens às capitais e interior dos estados, quando a autora se hospedou em grandes cidades, como São Paulo no Rio de Janeiro, mantendo contatos com personalidades e instituições do universo político e intelectual do país (The New Brazil, 1901, p. 465). Localizamos informações sobre sua passagem por cidades brasileiras, na maioria das vezes, de forma fragmentada, nas menções eventuais ou em breves referências ao nome de Wright em periódicos. Isso impôs, na pesquisa, a necessidade de estabelecer uma cronologia da permanência da autora no Brasil, identificando os contatos político-institucionais com os quais encontrou apoio, recursos e facilidades para seus deslocamentos, bem como acesso às informações coletadas, que aparecem em suas obras. Registramos, também, aportes financeiros recebidos em função da venda dos exemplares.
Ainda sobre o livro, tratava-se de obra fartamente ilustrada, composta no formato octavo, trazendo, em sua capa, o título gravado em dourado, sobre as armas da república brasileira. No miolo, com 450 páginas na edição de 1901, e 494 páginas na de 1907, incluíam-se mais de 300 fotografias, tiradas de diferentes pontos, correspondendo a registros de paisagens urbanas e do interior do país, monumentos e edifícios públicos, ruas, praças e jardins, matas, florestas e cachoeiras, além de numerosos retratos de personalidades e homens públicos, bem como de pessoas anônimas. Embora se possa identificar, no conjunto de imagens, reproduções de profissionais não diretamente creditados, José Antonio Aristizábal sugere, em seu estudo sobre mulheres fotógrafas na América Latina, que a própria Wright pode ter sido responsável por uma parte dos registros de imagens que figuram em seus livros (Aristizábal, 2014)10. Essa característica da publicação foi descrita na Brazilian Review como “distintamente bela”, dado que tais ilustrações ofereciam “uma ideia melhor da vastidão e grandeza deste território incomparável do que fariam volumes de secas estatísticas” (Books and Notices, 1901, p. 465).
Na edição de 1901, o texto distribuía-se em trinta e seis capítulos, reduzidos para trinta e cinco na segunda edição, em 1907, segundo a finalidade da autora, expressa na dedicatória, de fornecer uma descrição da vida e do progresso do Brasil, nação “cuja firme aderência aos princípios de independência fora premiada com grande prosperidade” (Wright, 1907, p. 5)11. Wright iniciava por um relato da História do Brasil desde a conquista portuguesa até o ano de 1900, o qual precedia os capítulos sobre a capital federal e os estados, em que eram destacados homens públicos, instituições de ensino, hospitais, igrejas, comércio e meios de transporte. A História do país organizava-se segundo grandes marcos políticos - o período colonial (“Early History and Tradition”), a independência, a queda do império e a gênese da República e os primeiros anos republicanos -, arrolando-se personagens históricos, anedotas e leituras da historiografia oitocentista, já ressignificadas após a mudança do regime, com destaque aos mitos bandeirantes da “conquista do território”.
A autora discorria, em seguida, sobre temas econômicos como a produção do café e da erva mate, a exploração da borracha no Acre e no Amazonas, as riquezas naturais e a mineração. Na primeira edição constavam dois capítulos intitulados “Habitantes primitivos e folclore” e “Costumes nacionais e características”, suprimidos na edição de 1907, com o objetivo, talvez, de preparar um novo livro sobre a vida cultural no Brasil. Destinado a estreitar os laços entre as duas grandes nações americanas, o livro de Wright manifestava a aposta na continuidade do progresso do Brasil, confirmando-se essa visão por balizas estrangeiras, o que, por outro lado, demarcava o distanciamento da escritora de seu objeto. Podemos citar como exemplo o trecho a seguir, em que visitantes e as próprias potências estrangeiras são mobilizados como testemunhos de seu julgamento sobre o presente e do futuro do país:
O mais gratificante para quem ama o Brasil é retornar após alguns anos de ausência para perceber que as previsões otimistas foram mais do que cumpridas, e que o país e seus vinte e cinco milhões de habitantes despertaram um interesse universal, com as potências estrangeiras reconhecendo como nunca antes o alto destino que se evidencia para esta nação. Estadistas que visitaram o Brasil e estudaram suas condições políticas e sociais são unânimes em expressar confiança em relação ao seu futuro promissor. O Hon. John Barrett, Diretor do Bureau Internacional das Repúblicas Americanas, está entusiasmado com o progresso que este país fez nos últimos anos, e sua permanência na América do Sul o qualifica especialmente para falar com autoridade. Todo visitante estrangeiro distinto tem palavras de elogio a respeito das qualidades sociais do povo brasileiro. A cortesia encontra aqui sua expressão mais suave; a hospitalidade não conhece ambiente mais acolhedor; e não existe em todo o mundo um melhor exemplo do que significa a polidez do que se vê no comportamento e na fala de uma típica senhora ou cavalheiro brasileiro (Wright, 1907, p. 493. Traduzimos).
Na segunda edição de The Brazil, além do acréscimo do registro e da descrição das reformas que haviam transformado a fisionomia da capital brasileira, incluía-se a menção à Terceira Conferência Pan Americana, realizada em 1906 na mesma cidade.
Pela primeira vez na história do Novo Mundo realizou-se uma conferência com os principais estadistas representando cada uma das repúblicas que o compõem em uma capital sul-americana; e, pela primeira vez na história da república dos Estados Unidos, o Secretário de Estado fez uma visita oficial a uma nação estrangeira.
[...] A atenção das grandes potências foi dirigida ao Brasil como nunca antes, e seus olhos foram abertos para o fato de que, na América do Sul, assim como na América do Norte, o espírito da civilização ocidental desenvolveu fatores poderosos e imponentes no controle da política mundial. [...] Nesse período, o Brasil mudou sua forma de governo de um império para uma república, e a cordialidade que caracterizava sua atitude em relação aos Estados Unidos sob o regime anterior foi fortalecida na nova ordem de coisas. Existe um laço natural entre o Brasil e os Estados Unidos em relação à sua grandeza territorial e ao seu destino político; e a amizade que existe entre esses países só pode gerar bons resultados (Wright, 1907, pp. 101-108. Traduzimos).
Em 1908, de novo no Rio de Janeiro, Marie Robinson Wright acompanhou os trabalhos de preparação e as obras de construção dos espaços destinados à “Exposição Comemorativa do Centenário de Abertura dos Portos às Nações Amigas”, assim como a própria exibição, tema de seu novo livro, The Brazilian National Exposition of 1908 (Wright, 1908).. Essa exposição foi a primeira do gênero no Brasil a ter um espaço construído destinado especialmente à sua montagem e realização, na efeméride que marcava os cem anos da abertura dos portos às nações amigas, antes da independência política de Portugal. As obras de construção dos diversos pavilhões da exposição, o aterro da esplanada formada na Praia Vermelha, entre os bairros de Botafogo e da Urca, e as mudanças e novas estruturas viárias representavam a marca da nova cidade-capital que se exibia ao mundo, símbolo de modernidade e da uma nova etapa do país, republicana e liberal (Corrêa; Martins, 2020, pp. 319-344).
O novo livro de Wright, dedicado à exposição, era também fartamente ilustrado com fotografias, na forma de retratos e amplas vistas do Rio de Janeiro. Em seu texto, distribuído por 204 páginas e vinte e quatro capítulos, natureza e cidade reuniam-se para encenar a manifestação do “progresso”, nos termos do alinhamento ao projeto ideológico e cultural pan-americano.
O significado da ocasião não passou despercebido para os visitantes estrangeiros que testemunharam a inauguração da Exposição Brasileira de 1908. Isso indicava que as antigas tradições europeias em relação às “terras do futuro” latino-americanas precisavam ser descartadas, pois já não eram mais aplicáveis; e que, pelo menos, um desses países, conforme demonstrado nesta Exposição, merece ser classificado entre as “terras do presente” mais progressistas (Wright, 1908, p. 37. Traduzimos).
Segundo a jornalista e escritora, a “apoteose do sentimento pan-americano” prevalecente no Brasil expressava-se naquela capital no “belo Palácio Monroe, situado próximo à junção da Avenida Central com a Avenida Beira-Mar” (Wright, 1908, p. 196), ocupando local privilegiado, por sua vista para a baía de Guanabara. Ela ainda destaca que se reunira no local, dois anos antes, a conferência dos estados americanos. No recinto da exposição, o novo “jogo de espelhos” entre Estados Unidos e Brasil era notado, de modo mais singelo, no modo como o público era recebido nos estandes e pavilhões: “os visitantes recebem lembranças da maioria dos expositores nos diferentes edifícios, e o efeito é tão americano quanto a Broadway na véspera de Natal, quando todos carregam um pacote” (Wright, 1908, p. 83. Traduzimos).
Barão do Rio Branco na inauguração do terceiro Congresso Pan-Americano, no Rio, em junho de 1906.
A contribuição de Wright aos interesses pan-americanos seria reconhecida, mais tarde, em edição do Bulletin of the Paramerican Union do primeiro semestre de 1914, ano do falecimento da escritora12. Na seção “Proeminent in Pan American Affairs” registrava-se que:
A Sra. Wright foi reconhecida e saudada em todas as capitais do Novo Mundo. [...] No entanto, foi como observadora e, especialmente, como escritora que a Sra. Wright ganhou sua fama. Seus livros foram escritos sobre o Brasil, Bolívia, Chile, Peru e México. Ela tinha o dom de ver o lado positivo dos povos e países que visitava e de compreender, com apreço, o caráter natural e cultural deles (Proeminent in Pan American Affairs, 1914, pp. 370-371. Traduzimos).
CONCLUSÃO
As pesquisas no campo da história das mulheres têm demonstrado nos últimos anos a sua crescente atuação em diversas esferas, inclusive políticas. Sabemos, no entanto, que o desempenho das mesmas em cargos e funções oficiais enfrentou muitos empecilhos e desafios ao longo do tempo, embora até hoje não possamos considerar tais obstáculos completamente superados. Neste sentido é que podemos assinalar sua atuação em diferentes campos, nos quais representaram, direta ou indiretamente, interesses de governos e de Estados, como na virada do século XIX para o século XX, no contexto do pan-americanismo.
A atuação de Marie Robinson Wright junto ao alto escalão de governos da América Latina, permitindo a formação de uma vasta rede de influências e contatos, amparou e deu suporte aos seus deslocamentos e viagens, obtendo a escritora, nesses espaços oficiais, subsídios para a edição de suas publicações e seu sucesso profissional. Também os estudos realizados por Wright atendiam a interesses políticos específicos, contribuindo na disseminação de visões sobre países da América Latina nos Estados Unidos, em um momento crucial de expansão do projeto pan-americano que criava maior proximidade cultural entre os Estados Unidos e aquela região. Suas obras valorizaram elementos naturais das Américas, em uma dimensão exuberante e pitoresca, formando um olhar do público norte-americano sobre essas culturas e sociedades que, ao mesmo tempo, assinalava proximidades e traços distintivos entre seu país e os países que conheceu, como em um jogo de espelhos. Os relatos históricos incluídos nos livros da escritora sobre o Brasil basearam-se em uma leitura da historiografia do Oitocentos, produzida e difundida pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, mas ela também se valeu de relatos diversos de moradores e pessoas que a acompanhavam durante os percursos pelos estados e amplo acesso à bibliografia e a fontes oficiais, que nem sempre eram fiéis à veracidade das informações. A História do Brasil de Marie Wright se desenvolve sem rupturas dramáticas, pela enumeração de temas, personagens e interpretações apropriadas dos historiadores do país, que vinham sendo ressignificados com o início da república. O tom descritivo não era, no entanto, involuntário. Ressalta-se a edição de seus livros em um momento em que capitais estrangeiros voltavam seus interesses às potencialidades e aos recursos naturais e minerais em países da região, em uma disputa que, de resto, pretendia ainda eliminar o poderio britânico sobre o continente.
Marie Wright se cercou de outras mulheres em suas viagens e no desempenho de seu trabalho de observação, escrita e pesquisa, contando inclusive com a ajuda da sua filha Ida. Foram essas mulheres que estiveram ao seu lado na organização das viagens e na preparação de textos e publicações. Mas sua rede de contatos e vínculos políticos e institucionais envolvia um amplo espectro de homens do governo, da diplomacia, do jornalismo e da vida intelectual, como interlocutores e financiadores dessas obras. Por outro lado, interessa ressaltar que Wright seguia viagem com as recomendações das altas autoridades de cada país, o que a colocava em situação de vantagem para executar essas missões, por dispor de recursos e de um aparato de proteção, também oficial. A experiência de Wright com os desafios que enfrentou na vida privada talvez ajude a compor sua biografia e trajetória, pautada pela independência e pela valorização de uma atuação feminina, bem como pela defesa de expansão de direitos, como o sufragismo. Como resultado dessa atuação e de seu papel proeminente no jornalismo, ela se tornou vice-presidente da National Woman’s Press Association, ainda em 1896.
O salto entre a atuação jornalística no Sul dos Estados Unidos e, pouco tempo depois, o seu papel de representante e porta-voz do governo mexicano em exposições e publicações, comissionada por Porfírio Diaz, permite dimensionar sua trajetória a partir de um ângulo particular. Marie Wright mostrou-se agente nas trocas políticas e culturais entre Estados e governos, ligadas ao contexto pan-americano, formando, como personagem, um modelo das projeções de seu país para toda a região. Tal atuação implicou, ao mesmo tempo em que se desdobrou, nas participações em associações científicas e culturais - como, no Brasil, o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo - e na recepção nos gabinetes oficiais. Uma delicada e perspicaz costura política permitiu a construção de bases importantes para que, por meio de seus livros, fosse veiculada a renovada apresentação do Brasil no exterior, por sua exuberância natural.
REFERÊNCIAS
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- WRIGHT, Marie Robinson. Carta a Euclides da Cunha; Rio de Janeiro, 22 jun. 190[?]; Setor de Manuscritos. Rio de Janeiro (Biblioteca Nacional - BN). 190[?].
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1
Essa pesquisa contou com fomento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e do Programa de Incentivo à Produção Científica, Técnica e Artística - PROCIÊNCIA, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
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2
A Mensageira: Revista literária dedicada à Mulher Brasileira foi uma revista publicada em São Paulo, dirigida por Presciliana Duarte de Almeida, que circulou entre 1897 e 1900, com regularidade quinzenal e mensal.
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3
Para o levantamento da trajetória de Marie Robinson Wright reunimos informações dispersas coletadas em fontes primárias e em bibliografia diversa, que serão referidas ao longo do texto. Para as obras de referência com informações sobre a escritora: Willard e Livermore (1893, pp. 804-805); Willard, Winslow e White (1897, p. 330); Leonard (1901, p. 1269); National Society of the Daughters... (1927, p. 241).
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4
O jornal New York World foi editado em Nova Iorque entre 1860 e 1931 e teve destacado papel na história da imprensa nos Estados Unidos, como uma importante voz do Partido Democrata. Entre 1883 e 1911, esteve sob o comando do editor Joseph Pulitzer. Cf. Wiki Team ([s.d.]).
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5
Ver, por exemplo, The Publishers’ Weekly (Nota, 1898, p. 264).
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6
Karen Offen (2018) nos apresenta a enorme mobilização para a criação de uma rede franco-americana de mulheres nas Exposições Universais de 1889, 1893 e 1900. Ela mostra como esse ambiente das grandes exposições foi marcado pelos debates políticos do movimento feminista, que buscava reconhecimento e difusão internacional.
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7
Segundo López Lenci: “National Geographical Society (NGM), cambió de giro hacia 1898 con el nombramiento de Alexander Graham Bell como presidente de la institución. A partir de este momento la política editorial enfocó la difusión popular del conocimiento geográfico, cobrando el boletín una dimensión nueva sobre todo con la designación de Gilbert H. Grosvenor como editor, quien fomentó el acercamiento popular a la geografía a través del especial cuidado en la edición” (López Lenci, 2012, p. 3).
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8
No ano de 1920, a National Geographic Magazine alcançava a circulação de 750.000 exemplares.
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9
Com esta publicação, Wright foi uma das primeiras mulheres a ter um artigo publicado na National Geographic Magazine (Marie Robinson Wright, 1914).
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10
Há também notícia de que, em julho de 1909, Wright solicitou isenção de taxas para despacho de uma caixa de clichês fotográficos (Seção Comercial, 1909, p. 7).
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11
A menção à “prosperidade” em meio à crise econômica e às duras condições impostas às empresas e à população pelo regime financeiro do governo de Campos Sales foi recebida não sem ironia pelo redator do Brazilian Review: “The assertion that the ‘great prosperity’ we are now enjoying, is the result of merit and sticking to the principles of independence, reads under existing circumstances somewhat like ‘sarkusm’, but allowance must be made for American ways of looking at things and the poetic licence always extended to ladies” (Books and Notices, 1901, p. 465).
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12
Composta pelo Secretário de Estado dos Estados Unidos, pelos embaixadores do Brasil e do México no país e por encarregados de negócios dos demais países latino-americanos, a União Pan-Americana foi criada na I Conferência Pan-Americana, em Washington, em 1890 - ainda como Internacional Union of American Republics -, e tinha por objetivo promover entendimentos em assuntos comerciais e jurídicos de âmbito comum entre os países americanos.






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