Open-access Batistas baianos, anticomunismo e ditadura militar: das representações políticas à prática colaboracionista

Bahian Baptists, Anti-Communism and the Military Dictatorship: From Political Representations to Collaborationist Practice

RESUMO

Este artigo tem a proposta de contribuir para a compreensão do atual estágio da militância protestante, mostrando como a denominação Batista, em especial as igrejas que a representavam no estado da Bahia, atuou no contexto do Golpe Civil-Militar de 1964, e despontou como uma importante produtora de discursos anticomunistas no país. Através da análise das fontes pesquisadas será possível demonstrar que o relacionamento dos batistas baianos com o Governo Militar estadual ocorreu por meio de três formas que se complementam: a defesa do Golpe Civil-Militar e do regime instaurado; a relação de barganha e clientelismo estabelecida entre os batistas baianos e os representantes da Ditadura no governo estadual; e o posicionamento anticomunista exposto na imprensa batista e no pronunciamento de suas lideranças durante esse período.

Palavras-chaves:
Batistas Baianos; Anticomunismo; Ditadura Militar

ABSTRACT

This article aims to contribute to the understanding of the current stage of Protestant militancy, showing how the Baptist Denomination, especially the churches that represented it in the state of Bahia, acted in the context of the Civil-Military Coup of 1964 and emerged as an important producer of anti-communist speeches in the country. Through the analysis of the sources researched, it will be possible to demonstrate that the relationship between Bahian Baptists and the state Military Government occurred through three forms that complement each other: the defense of the Civil-Military Coup and the established regime; the bargaining and clientelism relationship established between Bahian Baptists and representatives of the Dictatorship in the state government; and the anti-communist position exposed in the Baptist press and in the statements of its leaders during this period.

Keywords:
Bahian Baptists; Anticommunism; Military Dictatorship

INTRODUÇÃO

Considerando o notável crescimento no número de protestantes na política institucional, verificado nas últimas décadas, e sua potente influência no eleitorado brasileiro atual, trabalhos que investiguem historicamente o envolvimento deste grupo com a política do país são cada vez mais necessários. Neste sentido, este artigo se propõe a contribuir para a compreensão do atual estágio da militância protestante, mostrando como a denominação Batista, em especial as igrejas que a representavam no estado da Bahia, atuou no contexto do Golpe Civil-Militar de 1964 e da Ditadura, e despontou como uma importante produtora de discursos anticomunistas no país.

A presença batista na Bahia está diretamente ligada à organização deste grupo no país, pois foi Salvador a cidade escolhida para sediar a Primeira Igreja Batista do Brasil, em 1882. Por meio da análise das fontes pesquisadas será possível demonstrar que o relacionamento dos batistas baianos com o Governo Militar estadual ocorreu por três formas que se complementam: a defesa do Golpe Civil-Militar e do regime instaurado por ele; a relação de barganha e clientelismo estabelecida entre os batistas baianos e os representantes da Ditadura no governo estadual; e o posicionamento anticomunista exposto na imprensa batista e no pronunciamento de suas lideranças durante esse período. Cabe ressaltar que esses posicionamentos não foram hegemônicos, partiam das lideranças e dos grupos conservadores, que, no caso em questão, representavam a maioria dos membros da denominação Batista.

Ao longo deste texto, as representações batistas acerca do contexto político são pensadas à luz do conceito de Roger Chartier (1990, p. 23), segundo o qual as representações que permeiam a sociedade são construídas e determinadas seguindo interesses dos grupos que as forjam e as práticas deles perante a sociedade. Os conceitos de imaginário proposto por Girardet (1987), e de intelectual, elaborado por Gramsci (1982), também estão presentes e serão melhor definidos ao longo do texto.

“EM DEFESA DA ORDEM DEMOCRÁTICA”: REPRESENTAÇÕES BATISTAS SOBRE O GOLPE E O GOVERNO MILITAR

Para entender a atuação política dos batistas baianos no contexto da Ditadura Militar, uma breve incursão na relação entre o grupo e a política a nível nacional é necessária. Ao longo da história política do Brasil, os batistas mantiveram-se ao lado dos governos conservadores em diversos momentos. Em acontecimentos como a Revolução de 1930, por exemplo, quando na Bahia, seguindo a tendência nacional, o governador eleito foi deposto e substituído pelo Coronel do exército Ataliba Osório, os batistas apoiaram a transição “independentemente da sua legalidade ou legitimidade. Se havia governantes, eram fiéis; se havia governo eram a favor, mesmo que esse tivesse tomado o poder pela força das armas” (Silva, 2002, p. 607).

A postura descrita por Silva pode ser comprovada a partir do editorial do Jornal Batista, a respeito do golpe que deu início ao Estado Novo:

mais tranquilos e gratos os crentes ficaram a Deus depois que leram a nova Constituição, decretada pelo Sr. Presidente da República, com o apoio das classes armadas; constituição essa que fortalecendo o governo central e aparelhando melhor as autoridades para a defesa das próprias instituições que ela estabelece contra os seus inimigos, mantém o mesmo caráter democrático e federativo da Constituição substituída; e as liberdades individuais, sobretudo para nós, crentes, a liberdade suprema, que é a liberdade religiosa (Teixeira, 1937, p. 03).

Convém ressaltar que, num momento de reforma constitucional, a liberdade defendida pelos batistas foi sobretudo a religiosa, provavelmente, porque ainda havia o receio de que uma mudança na jovem constituição republicana brasileira alterasse de alguma forma a liberdade de culto de instituições religiosas não católicas no país, mais especificamente, as evangélicas.

Em consonância com a adesão à República, o civismo tornou-se uma característica muito forte da denominação. Para além do respeito ao governo, a ideia de amor e defesa incondicional e ufanista da Pátria foi algo que permeou o universo batista. Nos hinários oficiais elaborados para a Campanha Nacional de Evangelização de 1965, por exemplo, foi possível encontrar hinos com referências patrióticas. Em um deles, verificamos um trecho análogo ao Hino na Independência do Brasil, que diz: “ou ficar a pátria salva, ou morrer pelo Brasil” (Minha Pátria para Cristo, 1964, p. 05).

Além das referências em seus hinos, era comum a participação das igrejas em desfiles cívicos. Na Bahia, todos os anos formavam-se os chamados “batalhões evangélicos”, compostos, em sua maioria, por batistas, para participar do desfile cívico do Dois de Julho - realizado anualmente em Salvador, em comemoração à independência do Brasil na Bahia. Uma dessas participações rendeu uma foto de capa do jornal Batista Baiano, acompanhada da seguinte legenda:

o batalhão evangélico ao pé do monumento ao 2 de Julho aguarda a entrada do governador. Após ouvir-se o seu discurso e sua posterior retirada a gigantesca multidão permaneceu reunida, atenta às palavras introdutórias do rev. Valdívio Coelho e ao sermão proferido pelo rev. Hercílio Arandas. Além dos alto falantes a mensagem foi transmitida pela Rádio Sociedade da Bahia (Sampaio, 1961, p. 01).

O respeito às autoridades servia como uma demonstração de lealdade e de aceitação do governo vigente, característica que se configurou majoritariamente em governos conservadores. No entanto, também foi possível observar tal característica no governo de João Goulart, provavelmente por influência do Movimento Diretriz Evangélica, de orientação progressista e que teve um papel significativo nos primeiros anos da década de 1960 até o Golpe (Almeida, 2011, p. 121). Em 1963, uma visita ao então presidente do país reforçou esse sentimento:

A Bíblia nos ensina o respeito às autoridades legalmente constituídas e nos concita a colaboração com aquelas que trabalham com o bem-estar coletivo. É com respeito e na livre disposição de colaborar com o Governo Federal que os pastores evangélicos de Brasília vêm à presença do Presidente da República, eleito e confirmado no cargo pela maioria do povo brasileiro (Nassar, 1963, p. 05).

A partir da segunda metade do ano de 1963, o breve momento de reconhecimento da autoridade do presidente foi sendo substituído por críticas à sua atuação, à medida em que a crise do governo escalonava:

Nossa terra está profundamente carecida de alguém que a ponha em ordem. Não se compreende como, com tantos recursos, o Brasil esteja passando pela pior crise financeira de sua história, apesar de não estar em guerra contra qualquer nação estrangeira. Quer nos parecer que a situação que atravessamos foi criada por inimigos internos. E que não existe mais patriotismo nem o espírito de civismo (Meyer, 1963, p. 01).

Ao longo da publicação citada, o articulista seguiu defendendo a ideia de uma certa “incompetência” do governo em lidar com os problemas do país, estes, ocasionados pelo fato de as pessoas estarem “perdendo seu senso de valores”, ao associarem-se ao comunismo e promoverem greves.

Seguindo esta linha de raciocínio, em outra publicação as Reformas de Base também foram alvo de críticas, segundo as quais o autor alegava que, para ele: “tudo que se está passando no Brasil: greve e mais greves; subversão, agitação da direita para a esquerda, tudo isso, insisto, no fundo e, na verdade, tem como causa ou origem as reformas de base” (Nogueira, 1963, p. 06). Nas narrativas batistas, em qualquer contexto, as manifestações grevistas eram consideradas agitação e baderna.

É importante pontuar que, desde os primeiros anos de atuação batista na Bahia, a produção de material impresso para a divulgação de suas doutrinas fez parte de uma estratégia que objetivava a conversão de novos indivíduos e a garantia da consolidação do grupo num campo religioso ainda dominado pelo catolicismo. No contexto histórico deste artigo, devido à sua circulação em todas as igrejas, os jornais do grupo despontavam como a mais importante ferramenta de divulgação das doutrinas e visões de mundo batistas. Segundo Adamovicz (2008, p. 77), a criação de um jornal único de circulação nacional efetivou-se como uma forma de incentivar a construção da ideia de pertencimento à denominação Batista.

Durante as décadas de 1960 e 1970, a direção da publicação nacional era responsabilidade do pastor José Reis Pereira, importante líder batista considerado um grande conhecedor da trajetória do grupo. Tal reconhecimento se deu principalmente por causa do livro apologético História dos Batistas no Brasil, escrito por ele em comemoração ao centenário da Primeira Igreja Batista do Brasil. Pela função que exercia enquanto escritor e editor de O Jornal Batista, podemos considerá-lo, dentro da perspectiva gramsciniana, como um intelectual orgânico da denominação Batista, visto seu papel como construtor e difusor de uma visão de mundo específica a ser assimilada pelo grupo religioso.

Na Bahia, o órgão oficial de notícias da Convenção Batista era o jornal Batista Bahiano, fundado em 1923 pelo atuante missionário norte-americano M. G. White, o qual tinha, durante as décadas de 1960 e 1970, o pastor e advogado Ebenézer Gomes Cavalcanti como redator-chefe. Assim como o Pastor José Reis Pereira, o Pastor Ebenézer Cavalcanti também pode ser caracterizado como um intelectual batista, em especial por conta da enorme quantidade de editoriais e matérias, muitos deles com temas políticos, e por seu papel de liderança entre os batistas baianos. Pode-se considerar que sua eficácia era ainda maior visto que ele, além de desempenhar a função de formador de um consenso, construiu de maneira assaz uma aliança entre seu grupo e o Estado, ou, como diria Gramsci, entre a sociedade civil e a sociedade política.

É possível caracterizar os jornais batistas como pertencentes a uma mídia produzida por um grupo específico, podendo, dessa forma, ser analisados sob o conceito de mídias das fontes, ou seja, grupos que antes eram fontes da imprensa “tradicional” passam a produzir seus próprios meios de comunicação. Esse tipo de mídia - cada vez mais comum entre movimentos sociais, partidos políticos, órgãos oficiais do governo, entidades etc. - assume um caráter corporativista, segundo o qual grupos que possuem interesses específicos passam a produzir e difundir notícias tanto dentro do seu próprio grupo quanto em espaços de mídia tidos como oficiais, com alcance social mais amplo. A mídia corporativa poderia ser definida, portanto, como: “um meio informativo preocupado não apenas em transmitir informações intracorporis mas principalmente ocupar a agenda midiática com o ponto de vista setorial referente aos fatos gerais” (Sant’Anna, 2006, p. 03).

Além dos discursos jornalísticos, foram promovidos também eventos sobre o tema. Em outubro de 1963, a Faculdade de Teologia do Colégio Batista Brasileiro em São Paulo realizou uma conferência sobre reforma agrária com o Padre Felipe Neri Moschini, que apesar de ser católico recebeu elogios por compartilhar as mesmas ideias sobre o governo federal. A declaração do padre católico que mais chama a atenção é também a que mais foi elogiada: “Devemos temer o comunismo, mas, devemos temer muito mais, uma democracia em podridão” (Carvalho, 1963, p. 03).

Após o Golpe civil-militar de 1964, o contexto político nacional passou a ser tema ainda mais frequente nas páginas dos jornais da denominação, por meio de textos escritos pelas principais lideranças batistas. Um deles, publicado poucos dias após o Golpe, afirmava:

Havia muita gente iludida. Evangélicos, inclusive. Batistas, às centenas. Acreditavam, com a fé que informa o coração de novas criaturas, que o Brasil estava perlongando o caminho certo - o caminho da Justiça Social [...]. A palavra mágica, a justificar todas as omissões do governo era reformas. Não se fazia nada, porque - através das reformas - se prometia tudo. Reformas, reformas e reformas. Mas chegou o dia primeiro de abril. O famoso “Dia da Mentira”. E o impossível aconteceu. Ele se transformou no Dia da Verdade (Pereira, 1964d, p. 03).

O conceito de verdade é muito caro aos cristãos, visto que a Bíblia o associa ao próprio Cristo. Logo, recorrer à verdade para referir-se à destituição de Goulart configurava-se como mais uma estratégia de legitimação desse processo dentro do pensamento batista.

Ainda em 1964, por conta do instável clima político do pós-golpe, o pastor da Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro, João Soren, elaborou o documento A Igreja em Face das Injunções Políticas1 (Soren, 1964, p. 01). É importante dizer que o Pastor João Soren era um líder batista conhecido internacionalmente, por conta das viagens que realizava aos Estados Unidos da América para reafirmar as alianças com os missionários batistas daquele país. Além disso, suas opiniões sempre tinham espaço no jornal da denominação. O documento contou com ampla divulgação e pretendia servir de orientação doutrinária aos batistas brasileiros. Entretanto, apesar de teoricamente representar a decisão Batista de alhear-se a toda e qualquer forma de expressão política, ele cumpriu a função de declarar o apoio e a disposição da denominação junto ao Governo Militar.

Ao longo de todo o ano de 1964, os editoriais do OJB passaram a tratar o Golpe por meio da narrativa, comum entre os setores conservadores da sociedade brasileira, de que os militares salvaram a Pátria da “comunização” planejada pelo presidente João Goulart, como podemos observar no editorial publicado doze dias após a eclosão do golpe (o jornal era semanal):

Os acontecimentos políticos militares de 31 de março e 1º de abril que culminaram com o afastamento do Presidente da República vieram, inegavelmente, desafogar a nação. [...] O presidente que vinha fazendo um jogo extremamente perigoso foi afastado. A democracia já não está mais ameaçada. A vontade do povo foi entendida e respeitada... o povo brasileiro por sua índole, pela sua formação, repele os regimes totalitários e muito particularmente o regime comunista (Pereira, 1964f, p. 03).

Há aqui, a clara tentativa de aproximação da imagem do novo governo a fundamentos religiosos tão caros aos batistas, visto que, ao contrário do governo de João Goulart, seria orientado por Deus e teria suas decisões pautadas pelos princípios bíblicos. Mais do que isso, teria sido enviado diretamente por Deus para salvaguardar a Pátria do perigo eminente da comunização. Neste sentido, o texto seguia afirmando: “Estamos certos, por exemplo, de que Deus atendeu às orações incessantes de seu povo pela pátria. Porque o que aconteceu agora é, sob certos aspectos, verdadeiro milagre”.

A sustentação desse tipo de narrativa repetia-se na maioria dos eventos da vida política nacional, como, por exemplo, na posse do General Castelo Branco, em 1964, sobre o qual o editorial d’O Jornal Batista assegurava:

estar certo de expressar o pensamento do povo batista ao afirmar que o novo presidente contará com as orações dos batistas brasileiros. Votar-lhe-emos todo o respeito que votamos a qualquer autoridade, nos termos da Sagrada Escritura. Rogaremos sempre que Deus lhe conceda toda a sabedoria e que o use em benefício da nação. É assim que procedem os crentes (Pereira, 1964c, p. 03).

Nota-se que, ao usar as expressões “estamos certos”, “certo de expressar o pensamento do povo batista”, e “é assim que procedem os crentes”, o articulador, em ambos os textos, tentou passar a ideia de que existia uma unidade de opinião entre os batistas e uma prática comum a todos eles que os caracterizariam perante a sociedade, logo, aquele que pensasse diferente não podia ser considerado como tal, numa clara tentativa de construção de um consenso, por meio de um discurso hegemônico. Essa intolerância ao diferente foi um comportamento que se fez constante no meio conservador - maioria dos batistas -, resultando, muitas vezes, na denúncia aos aparelhos de repressão do governo militar de vários membros da denominação que expressavam ideias progressistas ou voltavam-se à prática social.

COLABORAÇÃO E CLIENTELISMO: BATISTAS E A DITADURA NA BAHIA

Em se tratando dos batistas na Bahia, é possível observar que as demonstrações públicas de apoio ao governo ditatorial não ficaram restritas aos jornais ou discursos, mas também a eventos em que os batistas baianos se posicionaram publicamente como colaboradores do Regime Militar. Alguns meses após o Golpe, uma comitiva batista realizou uma visita ao presidente instituído pelos militares, o Marechal Castelo Branco. Diferente do tom de preocupação demonstrado na visita ao presidente anterior, os relatos da visita foram elogiosos e aliviados:

Ao receber ontem representantes da Convenção Batista Brasileira, o Presidente Castelo Branco recordou seus tempos de infância em Macejana e, com lágrimas nos olhos, cumprimentou cada um dos presentes, afirmando que, naquela época, os conhecia como crentes. Acrescentou o presidente que “a Revolução tem como bandeira e alicerce básico o Evangelho e, como força, a força do espírito”, acentuando que lhe compete inspirar seu Governo em Deus... (Pereira, 1964b, p. 01).

A visita oficial, liderada pelo pastor Rubens Lopes, teve a presença de uma comitiva de batistas baianos, dentre os quais estavam o pastor da Igreja Batista de Sião - uma das maiores igrejas de Salvador à época - Valdívio Coelho, o deputado Raymundo Brito e sua esposa e irmã de Valdívio, Alzira Brito, única mulher a fazer parte da comitiva.

Imagem 1
Castelo Branco (à esquerda), recebendo a visita dos representantes da Campanha, dentre eles, a baiana Alzira Coelho (Pereira, 1964a, p. 01).

Seguindo nesta linha, o texto que noticiou a visita apresentava Castelo Branco como um homem que respeitava a religião. Segundo a narrativa, o novo presidente admirava e reconhecia como honestos os batistas brasileiros:

fez uma referência aos batistas que diz conhecer desde sua meninice, no Ceará, dizendo admirá-los porque “mesmo os homens mais simples da roça fazem questão de dar testemunho de sua fé e são homens de vida simples e correta”! Daqui dizemos nós, sejamos sempre tais homens, de vida limpa e correta, que mereceram essa referência desse ilustre soldado que é o Presidente da República. [...] Todos que estavam reunidos no salão de imprensa do Palácio do Planalto ficaram emocionados com as palavras e atitudes do presidente Castelo Branco. Notava-se a sinceridade na sua voz e entonação. Esse homem por quem oramos sempre como cristãos, merece nosso respeito e apreciação (Pereira, 1964a, p. 01).

A Convenção Batista Baiana, no período estudado, reunia dezenas de comunidades - destacam-se entre elas a Igreja Batista Sião, dirigida à época pelo pastor e militar da reserva Rev. Valdívio de Oliveira Coelho, e a Igreja Batista Dois de Julho, pastoreada pelo advogado Ebenézer Gomes Cavalcanti. Essas duas comunidades batistas despontavam como principais na capital baiana, tanto por serem fortes e de classe média quanto por possuírem entre seus membros sujeitos com notável participação no cenário político baiano, a exemplo dos seus próprios pastores. Destacaram-se também neste contexto o político Raymundo Brito, deputado federal por quatro vezes consecutivas (1954, 1958, 1962 e 1966, sendo as três primeiras pela UDN e, após o Golpe Civil-Militar, pela ARENA), e o diácono batista Clériston Andrade, prefeito da cidade de Salvador entre 1971 e 1974.

O pastor Valdívio Coelho era ex-capelão do exército e tinha bastante prestígio não só entre os batistas baianos, como também no cenário batista nacional. Não por acaso, a Igreja Batista de Sião foi a escolhida para sediar a III Reunião Anual de Secretários Estaduais, além de uma Conferência entre líderes batistas brasileiros e missionários norte-americanos da Junta de Richmond (Pereira, 1964g, p. 01), ambos durante o mês de abril de 1964, ocasião em que seu pastor foi considerado “o mais cordial e eficiente hospedeiro do Brasil batista” (Pereira, 1964e, p. 01). Ainda nesse mesmo ano, Valdívio Coelho foi escolhido para ser o coordenador regional da Campanha Nacional de Evangelização. A importância nacional de Valdívio Coelho foi novamente reconhecida em 1970, quando, na ocasião da 52ª Assembleia da Convenção Batista Brasileira, realizada em Salvador, foi eleito para o cargo de 1º vice-presidente na diretoria da Convenção (Teixeira, 1983, p. 480).

Entre os membros da Igreja Batista de Sião, era conhecido por ser uma figura carismática, de personalidade muito forte, autoritário e com o total domínio sobre a congregação. Entretanto, nesse caso, esse domínio tinha uma característica especial: era exercido por toda a família Coelho, formando um verdadeiro clã.

O Pastor Ebenézer Cavalcanti era advogado, e, apesar de ter assumido um mandato político apenas uma vez e na década de 1950, exerceu um papel de fundamental importância na posição de apoio ao governo assumida pela denominação Batista na década de 1960, e foi responsável por vários dos textos anticomunistas publicados no jornal Batista Bahiano (Almeida, 2011, p. 96).

Além do episódio já citado da visita ao presidente Castelo Branco em Brasília, na Bahia, outros eventos marcaram a política de colaboração e simpatia dos batistas pelo novo governo. Em julho de 1964, numa cerimônia evangélica presidida pelo pastor Ebenézer Gomes Cavalcanti - que contou com a presença do vice-governador, Orlando Moscoso, e do prefeito de Salvador, Prof. Nelson Oliveira -, o general Humberto Melo recebeu o título de presidente de honra da seção baiana do Instituto de Cultura Religiosa. Durante a cerimônia, o presidente do instituto, o diácono batista Samuel Figueira, proferiu uma palestra criticando o marxismo, na qual destacou os pontos insustentáveis de sua teoria e como elas são incompatíveis com o Evangelho (Miranda, 1964, p. 08).

Outro importante evento que merece destaque foi a “Marcha da Família, com Deus, pela Democracia e pela Liberdade”, que, na capital baiana, aconteceu dia 15 de abril de 1964. É importante considerar que o fato de ter acorrido após o Golpe não diminui a sua importância. Segundo Célio Araujo:

A Marcha realizada em Salvador, no dia 15 de abril, na verdade foi uma entre as várias que ocorreram em todo o território nacional e que tiveram o seu caráter definido a depender do momento em que tenham acontecido: se antes do Golpe, assumiam o caráter de grande protesto popular contra o Governo; se ocorreram após o Golpe tiveram o sentido de “marcha de triunfo” (Araujo, 2008, p. 100).

Mesmo tendo a Igreja Católica como representante maior do campo religioso - a qual atuou, inclusive, em sua organização -, a Marcha contou com a expressiva participação dos protestantes, em especial os batistas, que desfilaram no “batalhão evangélico”. Além disso, o pastor Ebenézer Cavalcanti, assim como outras autoridades políticas e eclesiásticas, discursou no momento mais apoteótico da marcha, enquanto representante dos evangélicos (Calmon, 1964, p. 01 e 03). É importante destacar o impacto dessa participação, visto que batistas e católicos não costumavam estar juntos em desfiles públicos ou defendendo a mesma causa, pois o forte anticatolicismo batista não permitia.

Raymundo Brito e Cleriston Andrade não eram pastores - o primeiro nem era batista -, mas ocuparam papel central nessas oligarquias eclesiásticas baianas (Teixeira, 1982, p. 463), que não eram formadas apenas por pastores. O deputado Raymundo Brito não fazia parte da membrezia de nenhuma igreja batista, mas era esposo da Dr.ª Alzira Coelho - irmã do pastor Valdívio Coelho e uma influente mulher batista - e mantinha estreitas relações entre sua atuação política e a denominação. Por fazer parte da família Coelho, era considerado pela maioria dos batistas de Salvador como o representante desse grupo frente ao governo, e, por conta disso, gozava de grande prestígio e respeito por parte dos demais membros das igrejas batistas, ocupando até hoje o lugar de defensor político dos crentes nas representações do grupo. Na ocasião do Golpe Civil-Militar, Brito filiou-se à ARENA, passando a ser o responsável pelas barganhas políticas que atenderiam os interesses dos batistas baianos, ao passo que garantia o apoio destes ao Governo Militar.

O clientelismo político que trocava votos por serviços foi a principal característica da política do deputado Raymundo Brito. Ele efetivou-se como o representante e grande defensor dos evangélicos na Câmara. Esses, em agradecimento, organizaram uma “Comissão Evangélica Pró-reeleição do Deputado Raymundo Brito”, responsável por lançar, em 1962, o primeiro de vários manifestos em seu favor assinado não só por pastores batistas de diversas cidades baianas, como também por líderes metodistas e presbiterianos (Brito, 1989, p. 95). Conforme afirmou o pastor Ebenézer Cavalcanti, referindo-se ao deputado: “Sua eleição se tem devido, em larga medida, ao eleitorado evangélico, a que serve [...] São mais de trinta anos de vinculação, identificação, colaboração e prestação de serviços aos evangélicos” (Brito, 1989, p. 96).

Em 1966, numa demonstração de colaboração entre os militares e os batistas baianos, o então presidente militar do país, o Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, doou um vasto terreno ao Hospital Evangélico da Bahia, vindo pessoalmente para participar da cerimônia, que contou também com a presença do deputado federal Raymundo Brito e do “clã” da I. B. de Sião: o Pastor Valdívio Coelho, os diáconos e irmãos de sangue Raimundo e José Coelho, e Alzira C. Brito. Nessa ocasião, o pastor e também diretor executivo do Hospital Evangélico entregou ao presidente Castelo Branco o título de “Sócio Benemérito” do Hospital. Em discurso proferido na cerimônia, o pastor garantiu o apoio dos batistas, afirmando que:

os evangélicos da Bahia continuarão colaborando com Vossa Excelência, cumprindo o seu dever de cidadãos brasileiros, e, acatando com sofreguidão, as decisões sábias do Governo de Vossa Excelência, porque elas estão reconstruindo o Brasil dos nossos antepassados [...] estaremos orando a Deus que o Governo de Vossa Excelência continue reconstruindo o Brasil que há de figurar no concerto das maiores nações do mundo, porque este é o seu destino (Muniz, 1966, p. 03).

A partir de 1971, com a indicação pelos militares do então Deputado Federal Antônio Carlos Magalhães para o Governo da Bahia, o deputado Raymundo Brito foi convidado para ser Secretário de Justiça do Estado. Durante esse período, sua atuação ficou restrita à construção de fóruns em várias cidades do estado, visto que, em tempos de ditadura, eram outros os responsáveis por aplicar a justiça. Nesta ocasião, o coral da Igreja Batista de Sião, ainda pastoreada por Valdívio Coelho, foi convidado pela Assembleia Legislativa da Bahia para cantar na cerimônia de posse do novo governador do estado. Segundo a nota publicada no periódico nacional da denominação:

pela primeira vez na Bahia um Governador do Estado é empossado ao som da música de um coral. O convite partiu da Assembleia Legislativa que, legalmente, tem a responsabilidade e o privilégio de investir o alto dignatário. O programa incluiu o Hino Nacional Brasileiro e o Aleluia do Oratório o “Messias” de Handel, cuja honrosa tarefa coube ao coral da Igreja Batista de Sião, a convite do Presidente da Assembleia Deputado Orlando Spínola, “em virtude de ser o melhor coral da Bahia”, na admiração e palavras textuais do referido parlamentar (Oliveira, 1971, p. 06).

No mesmo ano, o diácono batista Clériston Andrade foi escolhido pelos militares e por ACM para ocupar o cargo de prefeito da cidade de Salvador, consolidando assim a aliança entre os batistas e os representantes do Governo Militar na Bahia. Sua escolha para prefeito da capital do estado foi motivo de grande orgulho para os batistas da cidade. Durante seu governo, manteve-se simbolicamente como representante da denominação, ao ponto de a imprensa baiana reportar-se a ele como o “pastor batista”, e a imprensa batista como “nosso irmão prefeito Dr. Clériston Andrade”.

A DIFUSÃO DO ANTICOMUNISMO ENTRE OS BATISTAS BAIANOS

No Brasil, o anticomunismo, em geral, esteve historicamente ligado às instituições mais conservadoras da sociedade, o que ajuda a explicar o fato de os discursos contra o comunismo, em geral, associarem a imagem do regime ao caos, à desobediência civil e ao fim da democracia e da propriedade privada; valores caros aos grupos liberais, nacionalistas e conservadores que, por sua vez, eram grandes responsáveis pela produção e difusão desse tipo de discurso.

Segundo Sá Motta (2002), as manifestações anticomunistas surgem no Brasil logo após a Revolução Russa de 1917, atingindo fases mais agudas em três períodos: de 1935 a 1937, impulsionadas pela Intentona Comunista, de 1946 a 1950, refletindo o contexto da Guerra Fria, e entre 1961 e 1964, sob o impacto da Revolução Cubana e do governo de João Goulart - neste último caso, tais manifestações ocuparam papel central na série de eventos que culminaram no Golpe Civil-Militar de 1964.

O imaginário anticomunista aqui é admitido enquanto um conjunto de atividades realizadas por grupos diversos que constroem e se guiam por um conjunto de representações. Segundo Sá Motta:

a ocorrência de manipulações foi um elemento constante na história do anticomunismo brasileiro. O terror anticomunista foi artificialmente insuflado, visando a obtenção de ganhos políticos, eleitorais e até pecuniários. Porém, isto não altera o fato de que muitos grupos e indivíduos anticomunistas agiam movidos por convicções ideológicas e não de forma oportunista (2002, p. 208).

Ainda segundo Sá Motta, é mais adequado falar em anticomunismos, no plural, visto sua capacidade de reunir “grupos políticos e projetos diversos. O único ponto de união é a recusa ao comunismo, em tudo o mais impera a heterogeneidade” (2002, p. 15).

As formas de ver o comunismo não se restringiam às representações políticas. A Igreja Católica, durante vários momentos da trajetória política do país, figurou como a principal instituição religiosa a posicionar-se publicamente contrária ao comunismo, mas, nesse caso, o discurso ia além de localizá-lo como um inimigo da moral e dos bons costumes, era frequentemente associado ao demônio, personagem que, no imaginário cristão, é a fonte de todo o mal.

Contudo, outros grupos religiosos, nesse caso os batistas, também produziram e reproduziram uma gama de representações acerca do comunismo e dos seus seguidores. Tal posicionamento teve fortes e significativos reflexos entre os protestantes, além de alocá-los como mais uma base de apoio aos grupos responsáveis pelo Golpe de 1964.

A princípio, a oposição batista ao comunismo fez breves passagens pelo terreno político, em que deveriam ser feitas as críticas a essa ideologia. O anticomunismo batista concentrou toda a sua energia no campo religioso, demonstrando um esforço em fazer com que a mensagem fosse mais apreendida pelos fiéis, acostumados com essa linguagem e preocupados com o destino do sentimento religioso diante da “ameaça comunista”. Neste sentido, a oposição batista ao comunismo seguiu a tendência das demais instituições religiosas, ou seja, justificava-se com o argumento de que o comunismo, além de pregar o ateísmo, estaria atacando valores morais considerados essenciais para a tradição cristã, ao defender o fim da família, a homossexualidade e o aborto. Entretanto, apesar de reproduzir clichês comuns ao vocabulário religioso, o anticomunismo batista partiu deles para conferir conotação própria a essas representações (Almeida, 2016).

Entre os batistas, as primeiras representações anticomunistas podem ser identificadas desde 1917, impulsionadas pela eclosão da Revolução Russa. A partir daí, não raro foram publicados artigos ou relatos nos jornais da denominação, condenando as teorias “maximalistas” - nome usado em referência a marxismo. O discurso produzido por este grupo ao longo do século XX é homogêneo e gira em torno de características atribuídas ao comunismo. Tal discurso manteve uma estrutura parecida ao longo de vários anos. Por outro lado, também se moldava de acordo com os acontecimentos políticos de cada período. É consenso que existem inúmeras proximidades entre este imaginário e o discurso anticomunista da igreja católica, visto que eles partem do mesmo referencial. Mas é possível delimitar as peculiaridades que os diferenciam. Para compreender essas diferenças, é fundamental destacar que o anticomunismo dos batistas se combina a um particular anticatolicismo e a representações muito mais próximas das especificidades e linguajar do universo evangélico.

O pastor baiano Ebenézer Cavalcanti foi o principal responsável pelos textos anticomunistas publicados no Jornal Batista Bahiano e no Jornal Batista. Em um de seus textos, demonstrou certa leitura marxista, provavelmente adquirida quando cursou direito na UFBA, ao fazer referência à assertiva marxista: “a religião é o ópio do povo”, afirmando que “o comunismo e não a religião é que é o ódio [sic] do povo. Por isso andam muito narcotizados e já não podem pensar por suas próprias cabeças à luz do glorioso Evangelho de Cristo” (Cavalcanti, 1964, p. 08). O artigo seguiu orientando porque não se deveria confiar nos comunistas:

não tenho notícia de vinda de qualquer russo ou russófilo comunista para pregar o evangelho de Cristo aos brasileiros. Os comunistas não creem em Deus. Não tenho notícia da vinda de qualquer chinês comunista para pregar o evangelho de Cristo aos brasileiros. Os comunistas, escravos de Mao Tshe [sic] não creem em Deus. Não tenho notícia da vinda de qualquer cubano comunista para pregar o evangelho de Cristo aos brasileiros. Os comunistas cubanos de Fidel Castro não creem em Deus. Os comunistas querem destruir nossa herança evangélica no Brasil.

A identificação do comunismo com sujeitos e ações considerados contrários a Deus no imaginário cristão foi constante. Logo, a oposição batista ao comunismo transcendeu o terreno político, sendo suas representações deslocadas, quase que em sua totalidade, para o discurso religioso. Em decorrência, várias dessas representações chegaram a extremos e por vezes abstraíam-se totalmente da realidade.

No pensamento protestante, especialmente batista, essas representações iam desde a acusação de ateísmo até a de satanismo, o que seria bem mais grave haja vista que, do ponto de vista protestante, as seitas satânicas, ao contrário dos ateístas que apenas negam a existência de Deus, reconhecem sua existência por serem inimigos dele, ou seja, pior do que destruir a religião, almejariam destruir o próprio Deus. Essa forma de pensar é a tônica do livro: Era Marx um satanista?, escrito pelo pastor protestante romeno Richard Wurmbrand e traduzido no Brasil pela Missão Editora Evangélica.

No livro, Wurmbrand acusa Marx de ser adepto de seitas satânicas, tomando por base o poema “Oulanem” - um dos primeiros escritos do jovem Marx -, que, segundo ele, era um anagrama da palavra “Emanuel”, prática comum entre os satanistas. Os versos desse poema seriam a prova de que, ao contrário do que se pensa, Marx e “seus colegas” acreditavam em Deus e o odiavam, isso porque o filosofo alemão

pode ter sido envolvido nas doutrinas altamente secretas da Igreja de Satanás, e ter recebido os rituais de iniciação. Satanás fala através de seus adoradores que o veem em suas orgias alucinatórias. Assim, Marx é apenas o porta-voz de Satanás, quando declara: “Desejo vingar-me d’Aquele que governa lá em cima” (Wurmbrand, [s.d.], p. 12).

O pastor termina com um alerta de que o combate contra o comunismo era espiritual, visto que forças “satânicas estariam preparando a Rússia para a vitória do marxismo”. Dessa forma, fortalecia no imaginário protestante a ideia de que o inimigo era espiritual e não humano (Wurmbrand, [s.d.], p. 71).

O imaginário bélico acusava uma guerra do comunismo contra o próprio cristianismo, o que pode ser observado em um texto publicado no Jornal Batista, cujo discurso se aproxima dessa lógica: “O mundo, mais uma vez, contempla um choque de ideologias que se defrontam. Desta feita, é a resistência do combatido Cristianismo aos ataques do Comunismo ateu, cruel, tirano, porém sagaz, inteligente e fascinante, em face do tema que explora” (Arandas, 1963, p. 04).

Para além da associação a representações negativas de destruição, encontramos uma forma peculiar de anticomunismo pela associação, no caso da Rússia, do comunismo às citações bíblicas referentes ao evento do Apocalipse. Tal descrição é a tônica do livro escrito pelo pastor norte-americano M. R. De Haan O levantamento e a Queda do Comunismo, traduzido e distribuído pela Imprensa Batista Regular em 1963. Nas palavras do autor:

nada existe na história do comunismo que sugira que a Maré Vermelha possa ser estancada por meios humanos. Porém quando deixamos de lado a História e nos voltamos para a Profecia bíblica, o quadro inteiro se transforma, pois a Bíblia nos fornece, com incomum clareza e definição, a futura destruição completa do comunismo ateu e a derrota da Rússia e dos seus aliados (De Haan, 1963, p. 27).

Esse livro fazia parte de um conjunto de várias outras publicações anticomunistas distribuídas tanto pela Casa Publicadora Batista quanto por outras editoras protestantes que circulavam no meio evangélico. Em geral, esse tipo de bibliografia era produzido por pastores evangélicos que, brasileiros ou não, tinham suas obras divulgadas pelos jornais e disponibilizadas nas bibliotecas dos Seminários protestantes. Na biblioteca do Seminário Batista Teológico do Nordeste (SBTNe), em Feira de Santana, Bahia, é possível encontrar dezessete livros referentes ao tema comunismo, sendo que apenas quatro deles tratam o assunto por meio de linguagem científica. É relevante notar a existência dessa bibliografia na biblioteca do Seminário, visto ser ele um local responsável pela formação da maioria dos pastores e líderes batistas baianos.

Sob títulos carregados de ironia, como Você Pode Confiar no Comunismo (Schwarz, 1963); de insinuação direta, como Cristo em Cadeias Comunistas (Wurmbrand, 1971); ou esperançosos, como Encontrei Deus na Rússia Soviética (Noble, 1977), escritores evangélicos alegavam estar descrevendo o comunismo e seus métodos, e como viviam os países onde o comunismo já era o regime oficial. Para isso, os autores utilizaram argumentos conservadores carregados de preceitos e preconceitos cristãos, e, sob esta perspectiva, elaboraram uma interpretação própria das doutrinas marxistas e dos eventos históricos abordados.

Entre as publicações de autores nacionais, o livro do pastor presbiteriano Antenor Santos de Oliveira Você Conhece o Comunismo? Mas Conhece Mesmo, lançado em 1964, aparentemente empolgou os batistas baianos e faz parte até hoje do acervo da biblioteca do SBTNe. Seu lançamento foi divulgado numa elogiosa nota no Jornal Batista de julho de 1964, afirmando tratar-se de uma “obra bastante atual, mormente face aos acontecimentos de 31 daquele mesmo mês [março]” (Freitas, 1964, p. 06). A obra se configurava como um alerta sobre os perigos os quais o Brasil estaria enfrentando no governo de João Goulart.

As descrições das práticas dos comunistas também recorriam a imagens escatológicas e desqualificadoras, transcendendo totalmente o terreno político para o campo específico da religião:

Quando saqueiam, incendeiam, degolam e esquartejam, fazem-no em nome do “inevitável processo histórico”, ao invés de dizerem a verdade. Para dizerem a verdade precisariam declarar: Nós matamos, incendiamos, levamos ao paredão, suplicamos em nome do demônio, do diabo, que deseja ver incendiado o mundo. [...] Nero, Stalin, Fidel Castro, Lampião e seus irmãos e seu pai o diabo são todos iguais. Se nós sabemos os métodos do demônio e compreendemos por que o demônio age como age, podemos entender então os métodos dos comunistas seus filhos... (Oliveira, 1964, p. 67).

Nesse trecho, o nome de Lampião chama a atenção. A associação da imagem do cangaceiro aos “demoníacos comunistas” provêm da já conhecida fama de bandido, e do apelo à violência que a sua imagem evoca no nordeste brasileiro.

Para os batistas, não havia dúvida de que o mundo livre e democrático estava ameaçado pelo “perigo vermelho” e, para reafirmar a ideia de que perseguir a religião e seus seguidores era o único objetivo dos comunistas, o jornal Batista Baiano, sob a liderança do pastor Ebenézer, passou a publicar histórias supostamente ocorridas em países comunistas, no intuito de mostrar como aqueles que insistiam em manter sua fé em Deus eram duramente tratados sob esse regime. Neste sentido, é possível encontrar artigos como “Guarda Vermelha chinesa humilha pastor batista de 70 anos” (Gomes, 1967, p. 04) ou “Soviético vendia orações e foi preso”, no qual, segundo a notícia:

um policial soviético foi preso por seu desempenho junto a um grupo secreto que vendeu mais de 12.000 faixas inscritas com oração [...] o órgão oficial do Partido Comunista, enquanto desaprova tais iniciativas, critica com mais ênfase a natureza religiosa dos artigos repetindo os ataques comunistas sobre a “influência da religião” (Cavalcanti, 1968, p. 03).

O imaginário apresentado aqui foi elaborado utilizando fragmentos do real, algo perceptível quando se observa a historicização dos fatos relativos à ascensão do Comunismo na URSS, ou quando observamos que, ao longo das décadas, os discursos se moldavam aos eventos políticos do Brasil e do mundo. Neste sentido, a mitologia do complô precisa do real para se organizar. Entretanto, na construção do imaginário esse real é deformado. Como destacou Girardet, “o contexto cronológico é abolido; a relatividade das situações e dos acontecimentos, esquecida; do substrato histórico não restam mais que alguns fragmentos de lembranças vividas, diluídas e transcendidas pelo sonho” (1987, p. 35).

No caso do discurso religioso largamente utilizado pelos batistas, a ideia do que seria real fica a cargo das crenças deste grupo. Apesar do demônio não ser palpável, e do Apocalipse ser uma profecia religiosa desprovida de atestado científico, na mentalidade protestante estas imagens são dotadas de verdade absoluta e, portanto, inserem-se na sua concepção do que é possível, real.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Durante os primeiros anos de Governo Militar, as lideranças batistas baianas deixaram de atuar apenas no campo do discurso e passaram à colaboração prática, que ia desde a participação em eventos públicos de apoio às autoridades governamentais até à aliança de seus membros ao governo, ocupando, eles próprios, funções executivas ou parlamentares num contexto histórico em que a participação de evangélicos no mundo político ainda não era comum ou sequer incentivada.

A justificativa para esse posicionamento, ao que parece, segue duas linhas: a quase “obrigação” de colaborar com um governo que, além de ter livrado o país da ameaça comunista, ainda conseguia anular a sua atuação, garantindo que eles não mais voltariam a ameaçar a democracia, não importando os métodos que o governo usasse para isso; e a necessidade de defender os interesses dos evangélicos, mas, dessa vez, numa conjuntura política totalmente propícia à participação de grupos conservadores.

Para garantir que a posição das lideranças batistas fosse hegemônica, qualquer posicionamento contrário à doutrina oficial da denominação era duramente combatido, evitando assim que a frutífera relação consolidada com os militares sofresse riscos de ser abalada. Dessa forma, o tratamento dispensado aos membros que ousavam contestar as hierarquias eclesiásticas e políticas reproduziu a repressão implementada pelos militares na sociedade em geral e gerou conflitos que resultaram em mudanças no cenário batista baiano.

A discussão proposta neste artigo pode nós ajudar a entender o período da Ditadura Militar no Brasil como sendo o ponto de virada para a inserção dos evangélicos na política brasileira, visto que, tomando por exemplo os batistas, várias lideranças religiosas, ou membros que compunham os “clãs” das principais igrejas, aproximaram-se do campo político sob a justificativa de apoiarem um regime que estaria livrando o país do comunismo “ateu”. Soma-se a esse movimento o espaço aberto a novos grupos religiosos devido aos conflitos entre vários setores da Igreja Católica e os militares.

As representações e as práticas políticas elaboradas pelos batistas estavam essencialmente vinculadas à forma de existência desse grupo religioso na sociedade brasileira e, em especial, na Bahia, considerada, desde o Império, como capital religiosa do país, e sede do arcebispado católico desde o período colonial. Neste sentido, a denominação certamente acreditava que o respeito ao poder estabelecido garantiria seu espaço no cenário religioso brasileiro, marcado pela hegemonia católica. Durante o Governo Militar, a caraterística da submissão às autoridades constituídas alinhou-se à ideologia do estado de exceção.

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  • 1
    Além de ter sido publicado na capa do Jornal Batista, uma versão resumida desse documento pode ser encontrada em Reily (2003, pp. 319-322).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    28 Abr 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    06 Mar 2024
  • Aceito
    28 Fev 2025
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