RESUMO
Recentemente, estudos lançaram luz sobre epistolários enquanto gênero literário, mídia específica, expressão de uma história conectada, e/ou analisaram sua composição material. O objetivo deste artigo é demonstrar como os métodos digitais podem ser utilizados para revelar conexões aristocráticas supralocais. Assim, almeja-se contribuir para um entendimento de uma história conectada da aristocracia alto-medieval. A principal fonte para isto será o epistolário de Alcuíno. Defendemos que o emprego de tecnologias GIS para mapear o conjunto epistolário do autor pode revelar como estas redes se manifestam e reproduzem relações de poder diversas, conectando e transformando a aristocracia no processo. Dois aspectos serão ressaltados: como estas redes se manifestam de forma diferente, de acordo com o gênero das pessoas envolvidas das missivas (em particular as mulheres); e como o domínio do fluxo de rios era fundamental nas conexões aristocráticas de longa distância.
Palavras-chave:
História Medieval; Métodos Digitais; Alcuíno
ABSTRACT
Recent studies have shed light on epistolaries as a literary genre, a specific medium, and an expression of a connected history, as well as analyzed its material composition. This article aims to demonstrate how digital methods can be used to reveal supra-local aristocratic connections. Thus, it intends to contribute to an understanding of the connected history of the high medieval aristocracy. The main source for this will be Alcuin’s epistolary writings. We argue that the use of GIS technologies to map the author’s epistolary collection can reveal how these networks manifest and reproduce diverse power relations, connecting and transforming the aristocracy in the process. Two aspects will be highlighted: how these networks manifest themselves differently according to the gender of the people involved in the missives (in particular women), and how mastery of the flow of rivers was fundamental in long-distance aristocratic connections.
Keywords:
Medieval History; Digital Methods; Alcuin
1. INTRODUÇÃO
O estudo das cartas (epistolografia) nas sociedades pré-modernas é realizado há décadas. Porém, boa parte da historiografia que lidou com este gênero de fonte se focou em seu conteúdo. Recentemente, estudos como os de Jordan Zweck, Antjie Richter e Bovo lançaram luz sobre o epistolário enquanto gênero literário, mídia específica, expressão de uma história conectada, e/ou analisaram sua composição material. Contudo, os métodos digitais pouco foram empregados neste gênero de documentação primária. O objetivo deste artigo é demonstrar como os métodos digitais podem ser utilizados para revelar conexões aristocráticas supralocais. Assim, este artigo almeja contribuir para um entendimento de uma história conectada da aristocracia alto-medieval. A principal fonte para isto será o epistolário de Alcuíno. Uma das hipóteses principais do artigo é que o emprego de tecnologias GIS para mapear o conjunto epistolário de Alcuíno pode nos revelar como essas redes se expressam, manifestam e reproduzem relações de poder diversas.
O artigo seguirá o seguinte caminho para desenvolver seus argumentos: em primeiro lugar, será discutida a relação entre humanidades digitais e epistolários medievais. Nesta seção, a medievalística será compreendida diante de suas inovações e seus desafios atuais, tentando-se indicar os possíveis ganhos que Métodos Digitais podem oferecer. Em seguida, identificar-se-ão as tendências de abordagens e metodologias desenvolvidas para se trabalhar com epistolários, focando-se sobretudo na Idade Média.
O artigo apresentará Alcuíno em seu contexto, discutindo sua trajetória pessoal, marcada pela circulação espacial e posterior circulação epistolar. Para melhor compreender a análise proposta, será apresentada e explicada a montagem da amostra das cartas utilizadas neste artigo. O próximo passo será apresentar a base de dados que está sendo construída ao longo da pesquisa em vias de realização, assim como o que os dados presentes nesta base de dados indicam até agora em relação à posição dos destinatários das cartas. Em seguida, o resultado da transposição dos dados para mapas utilizando o sistema QGIS será apresentado e discutido, assim como as possibilidades de pesquisa, em particular atentando para como diferentes localidades são alcançadas (e sua proximidade com as vias de deslocamento possíveis), por quais vias e quais destinatários. As hipóteses desenvolvidas no artigo são: 1) As correspondências que envolvem mulheres apresentam uma incidência mais elevada de trocas de presentes; 2) o posicionamento nas vias fluviais é essencial para potentados aristocráticos. Para explorar esta ideia, o mapeamento dos destinatários das cartas se faz essencial, algo possibilitado apenas pelo georreferenciamento mencionado.
2. HUMANIDADES DIGITAIS E EPISTOLÁRIOS MEDIEVAIS
2.1) A medievalística e as humanidades digitais
A História Medieval desde o início do século XX foi um dos laboratórios e contextos por meio dos quais as inovações teóricas, metodológicas e teórico-metodológicas tomaram corpo e espaço historiográfico (Burke, 2011). Até hoje, o campo mantém a sua tradição, sendo atravessado por questões como as discussões sobre História Global e Conectada e a História Decolonial (Cândido da Silva, 2020; Silveira, 2019). Este artigo pretende adotar a perspectiva da História Conectada, na medida em que compreende que comunicação e circulação não são a exceção do mundo medieval, mas são estruturas fundamentais deste contexto. Neste sentido, investirá no entendimento de que problemas devem ser abordados para além de fronteiras pré-estabelecidas de reinos ou potentados, também superando a “fragmentação historiográfica e as compartimentações disciplinares” (Cândido da Silva, 2020, p. 14). Assim, o diálogo desta perspectiva com os Métodos Digitais parece fundamental.
Os Métodos Digitais também têm sido utilizados de forma inovadora pelo campo das humanidades. Ferramentas de gerenciamento de referências e bibliografia, por exemplo, vêm se popularizando desde 2008 (Lorenzetti; Ghali, 2013). No mesmo sentido, a discussão sobre abordagens interdisciplinares que lidem com a questão de geolocalização também proliferou nos últimos anos, variando da discussão mais ampla de uma abordagem geral para as ciências sociais até os estudos voltados para a especificidade da História e da arqueologia (González-Tennant, 2016; Knowles, 2016; Martí-Henneberg, 2011). O campo da História da Arte também tem debatido constantemente o tema com foco em questões conceituais e teóricas, de diferentes abordagens, assim como no impacto dos métodos digitais sobre os sentidos possíveis da arte (Brown, 2020).
A História também tem sido palco destes debates, pelo menos desde a década de 1990 (Morris, 1991). Esta discussão tem se dado sobretudo no sentido de identificar a relação e a contribuição específica da História no campo mais amplo das Humanidades (Lucchesi; Silveira; Nicodemo, 2020). Assim, os métodos digitais superaram a perspectiva de serem apenas ferramentas para revelar seu potencial de transformar a pesquisa histórica, ao permitirem novas perguntas, problemas e respostas (Brasil; Nascimento, 2020). A relação entre Métodos Digitais e epistolografia também representa parte deste movimento efervescente, conforme exemplificado por Alcantara, Braga e van den Heuvel (2020) a partir da plataforma ePistolarium.
A proximidade entre medievalismo e métodos digitais advém do peso da arqueologia nos estudos medievais (Evans; Daly, 2006). Da mesma forma, nas duas últimas décadas o pensamento sobre a Idade Média também avançou muito, ao pensar a diversidade das mídias no mundo medieval (Foys, 2017). Neste sentido, diversos trabalhos abordando questões como tapeçarias, o manuseio de manuscritos, o som dos sinos e de instrumentos de sopro, etc., ganharam espaço em função do uso de ferramentais digitais e eletrônicos (Foys, 2014).
O conhecimento das mídias no mundo medieval foi ampliado em função do diálogo da medievalística com os métodos digitais. Porém, é necessário pensar no impacto dialógico que os métodos digitais também tiveram no entendimento das mídias produzidas em contexto medieval. A digitalização de manuscritos medievais encontrou resistência a princípio entre os especialistas, por pensarem que elementos fundamentais da materialidade do manuscrito se perderiam sem acesso à sua versão material. Este grupo de pessoas foram chamadas por Stephen Nichols de “Céticos Digitais” (Nichols, 2016, p. xxiii). Outras linhas de reflexões apontam que a digitalização em alta resolução sinaliza na direção de abrir novos caminhos de interrogação sobre o contexto de produção destes manuscritos e seus contextos (Scherff; Sobehrad, 2023, p. 3). Nichols, por exemplo, defende que recursos digitais possuem uma propensão a responder melhor a questão “por que” objetos como manuscritos apresentam sua aparência, em contraposição à análise do objeto concreto, que pode entender melhor o modo “como” estes objetos eram construídos (Nichols, 2016, p. xxiii).
Enumerados alguns dos possíveis caminhos explorados pelas Humanidades Digitais relacionados ao medievalismo, é necessário passar às considerações concernentes ao tipo de fonte sobre o qual estes métodos irão incidir neste artigo: as cartas.
2.2) Epistolários medievais
O estudo das cartas pré-modernas remonta a, pelo menos, o início do século XX (Richter, 2013, p. 5). Nos estudos dedicados à Antiguidade, há uma variedade de coletâneas de traduções, indo do mundo mesopotâmico até o romano, passando pelo mundo grego, e mesmo pelos estudos bíblicos (Constable, 1976; Malherbe, 1988; Oppenheim, 1967; Trapp, 2003; White, 2010). As questões que estas cartas abordam, as possibilidades de enquadramento e pesquisa também foram ampliadas neste sentido. Assim, foram identificadas, por exemplo, cartas dedicadas ao fenômeno de apresentar condolências (Chapa, 1998); cartas escritas por mulheres no Egito Antigo (Bagnall; Cribiore, 2006); epístolas na república romana tardia (White, 2010).
O mundo antigo utilizou cartas a ponto de estudiosos postularem que elas são praticamente tão antigas quanto o alfabeto (Baños, 2005). A sistemática reflexão sobre a produção deste tipo de escrita é convencionalmente chamada de epistolografia (Bovo, 2015, p. 264). No campo das análises dedicadas ao período medieval, também há discussões relevantes no que diz respeito ao entendimento do fenômeno epistolar. Assim, a historiografia especializada no tema também discutiu, por exemplo, formas de saudação e de escrita formal no mundo bizantino (Grünbart, 2005); as cartas de comerciantes judeus e o aspecto de uma constituição comunitária (Goitein, 1973); quais os formatos possíveis, adequados e desejados de cartas (Poster; Mitchell, 2007). O período entre os séculos XI e XII já foi considerado a “era de ouro” da arte epistolar, na medida em que teriam se tornado até então o gênero preferido para a comunicação escrita (Bovo, 2015, p. 264). É neste período que surgem os primeiros manuais de artes dictaminis, espécie de manual de regras para a composição de cartas (Bovo, 2015, p. 284).
A definição do conceito de “carta” segundo o período medieval é, em si, uma tarefa particularmente difícil. Giles Constable, ao tentar definir o que seria o modus epistolaris medieval, tenta unir forma e função: a forma é uma mensagem com uma saudação e assinatura, além de ser breve; a função é a comunicação entre remetente e destinatário, sendo a necessidade da carta imposta pela distância (Constable, 1976, pp. 18-20, 25). Ainda assim, para o autor as cartas medievais se diferem das do período da modernidade e da antiguidade, assim como das de nosso presente (Constable, 1976, p. 14). Mas isso não deve ser exatamente um problema, uma vez que esta definição mais ampla também encontra lastro no pensamento epistolar das pessoas que viveram na Idade Média, para as quais a forma epistolar é marcada justamente por ser mais abrangente que a moderna (Camargo, 1991, p. 18). Segundo Baños, a partir do século XI a arte epistolar foi fundamental para o treinamento, o exercício e o aperfeiçoamento da retórica (Baños, 2005, p. 97).
Uma definição mais significativa para o contexto o qual este artigo se dedica a entender foi avançada por Jordan Zweck. Para o autor, “uma carta é qualquer mensagem escrita endereçada por uma ou mais pessoas para outra pessoa ou grupo de pessoas para a(s) qual(is) esta mensagem é esperada que seja entregue” (Zweck, 2018, p. 4). Esta definição é particularmente importante, considerando que algumas cartas de Alcuíno são endereçadas especificamente para grupos de pessoas: algumas são para nobres e altos aristocratas de reinos; outras, para comunidades monásticas; outras, para setores mais populares e também aristocráticos (Ep. 16, 18, 19, 90, 138, 140, Dummler, 1994).
As cartas na Idade Média, portanto, são diferentes das cartas de outras temporalidades, e algumas de suas características específicas precisam ser apresentadas. A primeira questão importante a ser lembrada é que as cartas na Idade Média circulam por meio de emissários. Em outras palavras, não há um serviço impessoal e puramente administrativo que as carrega do emissor ao destinatário. Pelo contrário, cartas estão repletas de pessoalidade. Trata-se de textos que, como vários outros textos medievais, eram para serem lidos em voz alta (Kelly, 1990). Autores como Beda atentavam para a necessidade de se construir períodos curtos e breves na redação textual, pelo caráter oral dos textos (Brown, 2009). A redação epistolar de Alcuíno observa este cuidado de forma exemplar, se tornando um dos motivos pelos quais suas cartas passaram por diversas cópias e lograram uma espécie de curadoria (Alcuin; Chase, 1975). Além disso, o emissário que carregava a carta, além de levá-la, portava também a autoridade e mesmo a legitimidade de seu emissor. A carta que Alcuíno envia a Aethelfrida deixa claro que a missiva irá cumprir a função da língua do remetente (Ep. 105, Dummler, 1994)1. Em outra carta endereçada a Edilburga, Alcuíno diz que, embora “a distância seja invejosa, impedindo a doçura da conversa ao vivo, ainda assim a redação das cartas permite demonstrar meiguice; e [n]o [que] a voz não prevalece, [que] esta carta diga” (Ep. 102, Dummler, 1994)2.
As cartas na Idade Média eram, portanto, ferramentas de comunicação e projeção de voz - e, portanto, poder e pessoalidade. Também por isso, cartas são um tipo de gênero textual muito citado em outros gêneros textuais. Em um estudo de caso, Henry Bainton identificou que Roger de Howden (?-1202) cita diversos outros gêneros textuais ao longo da Gesta regis Henrici secundi e da sua Chronica. Porém, a grande maioria destes são chamados por Roger de epistolae (o termo latino para carta), chegando a totalizar 76% de sua Gesta (Bainton, 2017, p. 6). O modelo epistolar parece ter sido tão importante e definidor para as demais formas textuais da Idade Média que Frank Barlow chega a apontar que boa parte dos documentos medievais acabam sendo adaptados para o padrão de cartas (Barlow, 1950, p. xliii). Em outras palavras, cartas gozavam de tamanho prestígio que acabavam por interferir nos demais gêneros, justamente porque eram capazes de emprestar legitimidade e veracidade histórica.
O conjunto de atos de escrever, entregar, receber, armazenar cartas, incluindo a atividade física dos escribas, o selar das mensagens, a leitura em voz alta e pública, a performance do leitor, etc., foram chamadas por Jordan Zweck de “atos epistolares” (Zweck, 2018, p. 7). Ao estabelecer a metodologia de abordagem das cartas neste sentido, Zweck por um lado amplia a quantidade de pessoas implicadas no processo de comunicação envolvido na troca de cartas, enquanto, por outro, atenta para os elementos de poder presentes nesta documentação.
Antje Richter analisou a escrita de cartas na China pré-moderna em um estudo importante para a epistolografia, abarcando o período do século III ao VI d.C. A historiografia apresentada nos parágrafos anteriores aborda diferentes inovações setorizadas: as possibilidades de recorte epistolar (por gênero, por grupo étnico, etc.), a materialidade das cartas, as convenções da escrita dos documentos, etc. O trabalho de Antje Richter, contudo, leva em consideração todos estes elementos, ao mesmo tempo em que considera os utensílios utilizados na criação das cartas, envelopes e selos, o transporte das cartas, as cartas como gênero literário, etc. Se a base de dados montada até o presente momento sobre o conjunto epistolar de Alcuíno ainda não permite uma síntese desta monta, este tipo de caminho permanece como horizonte possível (e desejável) para futuros desenvolvimentos da pesquisa cujos resultados parciais este artigo publiciza.
Outro estudo que serviu de inspiração para este artigo é o trabalho de José Maria Imizcoz, que trabalha justamente com redes aristocráticas a partir da comunicação epistolar, porém, focando no período moderno (Imízcoz Beunza; Arroyo Ruiz, 2011). O estudo de Imízcoz também revela sua importância, por se tratar de um desenvolvimento a partir de um ator social específico (o que chama de “redes egocentradas”). Assim, a contribuição deste texto seguirá na esteira de outros trabalhos realizados que caminharam para o potencial da epistolografia como um caminho frutífero para a construção de uma História Conectada (Bovo, 2021). O próximo passo é abordar as cartas, começando com a sua contextualização no âmbito da vida de Alcuíno.
3. ALCUÍNO E SEU EPISTOLÁRIO: UMA JANELA DE POSSIBILIDADES
3.1) A trajetória de Alcuíno
Alcuíno nasceu por volta de 740, na região de York (Costrino, 2020). Desde criança, foi criado na igreja, sendo educado por intelectuais que compuseram o que fora chamado de “era de ouro da Nortúmbria” (Hawkes; Mills, 1999). Alcuíno chegou ao status de diácono, embora não haja evidências de que ele tenha feito votos monásticos (Alcuin, 1983, pp. lxv-lxxv). No final das décadas de 760, tornou-se, juntamente a Elberto (arcebispo de York em 767-778), um reformulador da Igreja da Nortúmbria, sendo o mestre da chamada “escola de York” e o responsável pela biblioteca que Elberto herdou e ampliou (Lapidge, 2005, pp. 229-232). Alcuíno provavelmente leu autores cristãos e pagãos nesta biblioteca, e, ao assumir a administração da igreja, teria sido o responsável por ampliar sua biblioteca, transformando-a em uma das maiores do mundo (Costrino, 2020, p. 154).
Em 781, quando Embaldo foi eleito arcebispo de York, Alcuíno foi enviado para buscar o palium em Roma. No caminho de volta para Inglaterra, em Parma, encontrou Carlos Magno e seu entourage. Este foi um passo importante para o intelectual, uma vez que Alcuíno passou à esfera de poder e círculo de influência da realeza carolíngia. Passava então a integrar um grupo de intelectuais que incluía Pedro de Pisa, Paulino de Aquiléia e Fulrardo de Saint-Denis. Em 782, Alcuíno se tornou o mestre da escola palatina de Carlos Magno em Aquisgrana, na qual ensinou os filhos de Carlos Magno e da nobreza carolíngia (Veyrard-Cosme, 2017).
Alcuíno possivelmente retornou à Inglaterra em 786, para fazer o papel de juiz da Igreja a respeito da adequação às regras eclesiásticas e à extirpação de eventuais heresias (Dales, 2013). Após esta viagem, retornou ao continente, e, em 796, Carlos Magno o alocou como responsável pela abadia de São Martinho (em Tours), na qual ficou até a sua morte (Story, 2023, p. 111). A maior parte das cartas de Alcuíno que chegaram até nós diz respeito a este período em que ficou alocado neste mosteiro (Veyrard-Cosme, 2017).
A trajetória de Alcuíno envolveu, portanto, laços com os altos escalões da aristocracia, contato e diálogo com intelectuais de várias localidades. Além disso, em suas viagens estendeu suas conexões e relações com a aristocracia. O melhor corpus de evidências para o estudo destas conexões certamente são suas cartas. É necessário, portanto, passar a elas.
3.2) Recorte espaço-temporal das cartas e metodologia
Os textos de Alcuíno passaram por um processo de curadoria, sendo utilizadas como forma de ensinar, às gerações seguintes, tanto a língua latina quanto gêneros textuais específicos (epistolares, poemas, questões gramaticais, etc.) (Bullough, 2004a). Os próprios escritos de Alcuíno e seu manejo do latim tinham a clareza didática como um dos pilares da sua redação (Costrino, 2020, p. 156). Este artigo diz respeito a uma pesquisa em andamento, por isso, a base de dados ainda está em processo de construção. Sendo assim, o artigo se referirá à primeira metade das cartas de Alcuíno que constam na coletânea conhecida como Monumenta Germinae Historica, por ter sido até agora o esforço mais sistemático de padronização e editoração das cartas como um todo. Foram cotejadas, em particular, as edições produzidas por Stephen Allot, Colin Chase, Christiane Cosme-Veyrard, bem como alguns apontamentos de Joseph Pucci (Alcuin, 2018; Alcuin; Allott, 1974; Alcuin; Chase, 1975; Alcuin; Pucci, 2024; Veyrard-Cosme, 2017).
O volume da Monumenta consultado foi aquele editado por Ernst Dümmler (1994), e as citações das cartas mantêm a numeração proposta pelo editor. Embora este volume da Monumenta compile 311 cartas como sendo de Alcuíno ou relacionadas diretamente a ele, atualmente a indicação é a de que, destas, apenas 280 são de autoria do autor (Bullough, 2004b, p. 129; Story, 2023, p. 117). A maioria destas cartas data do período posterior a 796. Isto se deve, por um lado, à posição mais consistente e definitiva de Alcuíno como gestor do mosteiro de São Martinho; por outro, ao exercício de coletas e cópias de forma sistemática das cartas por parte dele e da abadia (Bullough, 2004a, pp. 60-65).
O recorte realizado pela pesquisa seguiu, por um lado, a ordem identificada como cronológica por Dümmler. Isso significa que as cartas que foram analisadas datam de um período inicialmente identificado como 786 (as cartas 1 a 3), podendo, na verdade, retroceder alguns anos (particularmente a 1 e a 2). O corte amostral se encerra na carta n. 150, da Monumenta, sendo esta carta direcionada à “Áquila”, o codinome latino (“águia”) para Arno (740-821), arcebispo de Salzburgo e abade do mosteiro de São Pedro.
A opção por analisar pouco mais da metade das cartas disponíveis não representa um problema, na medida em que representa um momento-chave da pesquisa, e permite reavaliar tanto o banco de dados formulado até agora quanto aquilo que os dados apontam e que o aporte dos Métodos Digitais permite visualizar sobre os mesmos. Por outro lado, é fundamental lembrar que os dados que temos sobre cartas na Idade Média é sempre um recorte muito pequeno do que aquela sociedade produziu. O total de cartas que sobreviveram e chegaram aos nossos dias não é necessariamente representativo do total das que existiram (Garrison, 1999).
A base de dados está sendo montada utilizando-se uma planilha produzida no Google Planilhas. Os dados estão sendo coletados a partir da numeração das cartas segundo a edição da Monumenta, variando de 1 até 311. Os metadados levantados nas mesmas são: o seu número na coletânea de fontes traduzidas English Historical Documents; o número de equivalência nas traduções de Allot e Veyrard-Cosme; se as cartas são consideradas autênticas ou não; a localização de Alcuíno para o envio delas; os dados de geolocalização da (provável) posição de Alcuíno (altitude e latitude, para gerar pontos e camadas em softwares de GIS, localizando-se estes espaços via GPS); a datação de cada carta segundo Dümmler; o destinatário das cartas; o link para a base de dados prosopográfica PASE (Prosopography of Anglo-Saxon England); o link para o Oxford Dictionary of National Bibliography; o link para a página da pessoa destinatária na Wikipedia; o gênero da pessoa destinatária (com cor assinalada para mulheres, uma vez que estas são minoritárias); o tema ou assunto da carta; o título utilizado para descrever o destinatário (pai, filho, professor, abade, bispo, conde, etc.); o título em latim, conforme a declinação que aparece na carta; o título em latim alterado para o nominativo; se há menção direta a presentes sendo trocados nas cartas; qual(is) é(são) o(s) presente(s) mencionados, em português; qual o termo latino que descreve ou qualifica o presente; o nome da possível localização do destinatário (abadias, palácios etc.), o código georreferenciador da localização do destinatário (para uso em GIS).
A localização de Alcuíno e destinatários se dá mormente por aproximação, uma vez que a intenção deste tipo de abordagem não é precisar exatamente o prédio em que a pessoa estava. O intento é sobretudo obter uma ordem de grandeza aproximada das distâncias e localizações das conexões aristocráticas que estas redes epistolares revelam e reproduzem. Ainda assim, foram marcadas em vermelho as cartas cujo destinatário não é possível de ser localizado. Infelizmente, estas são razoavelmente comuns: 45 de um total de 150 sem o nome do destinatário explicitado3. Porém, quando foi possível localizar aproximadamente a localização do destinatário, os pontos latitudinais e longitudinais foram identificados a partir das páginas da Wikipedia dos respectivos locais, utilizando-se para isso sua versão em inglês. Por exemplo, a abadia na qual Alcuíno se radicou parte considerável do tempo em Tours foi verificada na página da “Basilica of Saint Martin, Tours”, na Wikipedia, cujas coordenadas são 47°23’35”N 0°40’58”E. Após colher esta informação, ela foi checada juntamente ao “My Maps” e, uma vez confirmada, inserida na planilha que organiza a base de dados da pesquisa. Este foi o procedimento adotado para a criação de pontos nos mapas.
A partir dos dados coletados nesta planilha, o passo seguinte foi a transformação dos dados de georreferenciamento em pontos, para que pudessem ser trabalhos em softwares de geolocalização. Para a geração de pontos e camadas, foi utilizada a plataforma “My Maps” do Google. Após terem sido criados o ponto e a camada, estes foram exportados para o formato KMZ. A escolha deste formato se deu pela sua fácil manipulação no âmbito do software escolhido para a criação de mapas, o QGIS. O QGIS foi selecionado por se tratar de uma plataforma gratuita de código aberto, com ampla gama de funcionalidades para visualização, edição e geração de mapas. É necessário agora passar à apresentação e análise do que foi gerado na pesquisa até o presente.
3.3) Cartas, mapas e caminhos dos dados parciais
Os mapas que se seguem foram produzidos na plataforma QGIS. Para a sua produção foram utilizados os mapas produzidos pela iniciativa TOPAMA (Topographie de l’antiquité et du Moyen Âge) (Lienhard; Brochard; Beaud, 2023). Embora as cartas utilizadas na pesquisa sejam produzidas entre os anos de 786 e 798, optou-se por manter a demarcação por cores da região da Saxônia (incorporada por Carlos Magno a partir de 782), da Turíngia controlada pelos ávaros (até a conquista carolíngia em 782) e da Baviera (também em 782). Estas regiões se mantiveram marcadas no mapa em função de terem sido recém-incorporadas ao domínio régio e ao cristianismo. Parte fundamental da comunicação de Alcuíno com estas regiões tem como objetivo elucidar questões doutrinárias relacionadas à conversão dos saxões. Também estão representadas as divisões dos reinos ingleses alto-medievais, embora a base de dados disponibilizada pela plataforma TOPAMA tenha fundido os reinos de Wessex, Essex, Sussex e Kent. É fundamental destacar que os mapas produzidos são aproximações, em particular em relação a fronteiras.
O primeiro mapa, abaixo, apresenta a localização dos destinatários das cartas de Alcuíno, nos círculos vermelhos. É fundamental lembrar que, das 150 cartas analisadas, 45 não puderam ter seu(a) destinatário(a) geolocalizado(a). Então, o que é possível observar nos pontos vermelhos representa 70% da amostra utilizada na produção deste artigo. O palácio de Aquisgrana e a Basílica de São Pedro (na qual o bispo de Roma se encontrava) estão representados por uma estrela (cada). A localização da abadia de São Martinho de Tours, na qual Alcuíno produziu a maior parte das suas cartas, está representada por um triângulo.
O primeiro ponto fundamental de observar neste mapa é que as cartas cujo georreferenciamento é possível indicam que a via de comunicação principal ainda parece ser a fluvial. O mapa apresentado inseriu a rede fluvial de rios principais e secundários na região recortada. Como se pode observar, os pontos receptores das cartas estão, em sua esmagadora maioria, próximos a estes rios e, quando não, estão em uma costa marítima. As cartas, conforme explicado nas seções anteriores, viajavam com porta-vozes e com outros presentes. Portanto, o que este primeiro mapa permite observar é que possivelmente o fluxo de pessoas, bens, palavras e ideias que estas cartas representam se deslocavam sobretudo em barcos. Embora o deslocamento e o domínio fluvial tenham sido apontados recentemente como algo fundamental na expansão e nas conquistas vikings, esta é uma realidade até o presente pouco observada para o conjunto do mundo alto medieval (Jarman, 2021). Um passo fundamental para a compreensão dos “atos epistolares” é o domínio da marinhagem, ou a necessidade de arcar com recursos que permitam pagar por esta forma de transporte. Assim, o domínio do fluxo fluvial para o entendimento de uma História (epistolar) Conectada do período parece fundamental, e o georreferenciamento revela esta dimensão pouco evidenciada historiograficamente.
Aquisgrana, contudo, indica que o fluxo fluvial não pode ser pensado de forma isolada, mas como integrado às rotas terrestres, de forma a torná-las interdependentes. Embora construídas sobretudo sobre as vias romanas, o período carolíngio utilizou e aprimorou algumas destas rotas, como a do Reno (Gravel, 2022).
O segundo mapa diz respeito às cartas endereçadas especificamente a mulheres. Embora a coleção epistolar de Alcuíno seja conhecida por compreender mais mulheres que fontes de outra natureza, elas ainda representam uma percentagem menor no que diz respeito ao endereçamento destas cartas. Assim, da amostra total de 150 cartas, 14 são endereçadas a mulheres, cerca de 9,34%. Porém, em função da amostragem ser relativamente pequena, as cartas cujas destinatárias não são nomeadas representam um número absoluto pequeno (3 cartas), mas uma percentagem significativa de cerca de 21,43% (Ep. 69, 103 e 106). Além disso, uma delas é chamada apenas de esposa (uxor) de um duque (dux) da região de Sens, na Gália (Ep. 69). Algumas destinatárias são nomeadas, mas não é possível localizá-las quando da recepção das cartas (como Rotrude e Berta, filhas de Carlos Magno) (Ep. 72). Apenas uma carta (Ep. 50) é endereçada a uma mulher leiga, “Lugarda, a mais nobre mulher” (nobilissimae feminae Leutgardae), que, como a missiva explicita, estava baseada na Saxônia (representação aproximada do segundo mapa). Como há menos pontos a serem marcados, foi possível registrar o nome de cada localidade no mesmo.
Os tamanhos dos pontos no mapa são proporcionais à frequência das cartas enviadas aos referidos destinos. Assim, quanto maior o ponto, mais frequente foi a correspondência entre Alcuíno e seu destinatário. Desta forma, observa-se que Gisela, alocada como freira na Abadia de Chelles, é a correspondente mais frequente desta amostragem: 3 cartas são destinadas a ela, o que representa 21,43% da correspondência. É bem provável que Gisela tenha sido empurrada para a vida monástica como parte da estratégia dos carolíngios para controle da descendência, por um lado, e para evitar conflito político entre os maridos das princesas, por outro (Nelson, 2019). Não por acaso, as já citadas Rotrude e Berta (mesmo tendo companheiros e filhos) mantiveram-se solteiras e foram encaminhadas para mosteiros eventualmente (Nelson, 2019). A valorização da virgindade aparece nas cartas de Alcuíno trocadas com estas mulheres específicas, explicando o valor teológico, moral e espiritual que o afastamento do leito conjugal produz (Ep. 15, 32 e 72)4. Porém, estas cartas podem ter outra função conjugada com esta. Como Alcuíno voltou à Nortúmbria algumas vezes, é possível que as cartas direcionadas a Rotrude e Berta, Pepino (filho de Carlos Magno) e Gisela (irmã de Carlos Magno) tenham sido redigidas enquanto o autor estivesse em solo nortúmbrio (Story, 2023, pp. 115-116). Assim, ele mantinha contato com a corte carolíngia e sua presença permaneceria viva na memória da corte como um todo, evitando que seu peso fosse reduzido no jogo de poder carolíngio. Esta pode ser uma explicação para a frequência maior das cartas para Gisela (em Chelles).
Outro ponto importante de considerar são as cartas de número 50 e 68, as quais circularam em zonas relativamente novas para o poderio carolíngio. A carta de número 50 é a voltada para Lugarda. Alcuíno solicita informações sobre a estadia de Carlos Magno na Saxônia, sobre a prosperidade do exército cristão, e sobre o retorno do rei à sua terra natal, à sua casa de inverno e ao seu palácio5. Embora abundem elogios a Lugarda ao longo da (curta) carta, é nítida a tentativa de obter informações sobre as movimentações da nobreza carolíngia. Além da pura obtenção de informações, se o envio da carta exige o “ato epistolar”, Alcuíno também está impondo a sua presença na região de fronteira, além de fazer ecoar sua voz, aconselhando o retorno do rei e do seu exército (Garrison, 1996). Por se tratar de uma região fronteiriça, a questão militar não pode ser desprezada, e a perda de uma batalha neste contexto poderia ter resultados imprevisíveis (Bullough, 2004a, p. 125). É fundamental lembrar-se do impacto que o saque de Lindisfarne pelos pagãos vikings em 793 (e a carta 50 é datada de 795, apenas dois anos depois) produziu sobre Alcuíno. Além disso, ao elogiar efusivamente o estatuto nobre da mulher, o autor acaba por estabelecer o que é esperado de uma mulher deste estatuto social. Assim, o pedido dele acaba parecendo com outro aspecto da obrigação moral de quem ocupa este tipo de posição social. As cartas, seu léxico e até os apelidos representam e tentam reforçar o que Alcuíno entendia que deveria ser a ordem social (Garrison, 1996, p. 256).
Já a carta de número 68 é escrita para a abadessa Adaula (que Dümmler aloca na região de Salzburgo). Esta contém exortação de virtudes: humildade, paciência, piedade, evitar vaidades, e manter a vida sóbria e casta. Porém, a carta (ao contrário das demais) contrabalança com frequência virtudes e vícios, fazendo um jogo de negativo e positivo dual que se difere dos conteúdos das demais: “A todo momento mantenha diante de seus olhos os castigos dos ímpios e as recompensas dos justos”; “o amor por ele [o mundo] dará origem à dor depois”, dentre outros6. Em outras palavras, quando contrastada com a amostra geral de cartas, a carta de Adaula parece indicar que Alcuíno estava não apenas apontando as virtudes que ele achava essenciais, mas também corrigindo o que supunha ser uma prática diária que fugiria da ortodoxia a qual ele gostaria de projetar nos domínios carolíngios. E, sobretudo, uma mulher que ocupava a função de abadessa não poderia se furtar a erros primários como os dos pagãos ou hereges. Portanto, também há o estabelecimento de cobranças a partir de padrões morais de comportamentos.
As cartas 50 e 68 tratam de regiões até pouco tempo fronteiriças para o mundo carolíngio, permanecendo relativamente distantes dos palácios e de suas escolas de formação, e cuja atenção às heresias e ao paganismo (como prática interna ou de invasores externos) parece ter sido sempre uma preocupação. Esta inquietação (envolvendo uma leiga e uma abadessa) compreendiam obrigações e comportamentos que deveriam ser padronizados em função da posição social da pessoa: a nobreza (Garrison, 1996). Ao estabelecer atos epistolares nestas regiões, Alcuíno está se projetando sobre elas, estabelecendo conexões, fontes de informação, padrões de comportamento, e ofertando conselhos militares.
Um caminho de investigação que estas cartas podem abrir é justamente pensar no quanto as sucessivas reformulações carolíngias não foram impactadas pela expansão territorial e religiosa, e, ao mesmo tempo, pelo receio de refluxo do mundo cristão. Em outras palavras, seria interessante considerar o impacto da “periferia” sobre o “centro” a partir das reflexões da História Conectada. Uma das grandes vantagens da História Conectada é o deslocamento escalar de hipóteses explicativas para fenômenos históricos; assim, o deslocamento dos palácios carolíngios para os desafios cotidianos da expansão aristocrática pode representar um caminho para pensar as transformações sociorreligiosas do período carolíngio. A visualização destas cartas no mapa ajuda a perceber este seu caráter fronteiriço, e futuros trabalhos que explorem esta temática certamente ganharão profundidade se também fizerem o georreferenciamento destes fenômenos.
Por último, uma questão fundamental para pensar os atos epistolares pode ser mais bem compreendida a partir do recorte de gênero. Das 14 cartas envolvendo mulheres, 3 delas (21,43%) mencionam presentes trocados. Estas são as cartas trocadas com a freira Hundruda, da corte do rei Offa, da Mércia (Ep. 62); a enviada para Eteltida, mãe do rei Etelredo, da Nortúmbria (Ep. 79); e, por último, à irmã anônima (Dulcissima sorori) é dirigida a carta 103. Este número pode parecer pequeno em termos absolutos; porém, ele é exatamente o mesmo número de cartas de homens que mencionam a troca de presentes. Da amostra utilizada na pesquisa, apenas as cartas 76, 120 e 148 mencionam presentes para homens. A carta 76 menciona presentes trocados com Remédio, bispo de Chur; a 120 menciona como presentes o envio de livros e da Vita Santi Willibrordi para Beornrado, arcebispo de Sens; já a 148 menciona os presentes (munera) de Carlos Magno enviados por Fridulguilso. Embora as cartas trocadas entre homens representem 90,67% da totalidade das missivas trocadas, são mencionados presentes que acompanham as delegações em apenas 2,20% delas. Em outras palavras, há duas possibilidades de resposta para compreender esta dinâmica. A primeira é que o corte de gênero estabelece que as relações epistolares tecidas por Alcuíno com mulheres eram mais generosas em relação a outros presentes, e esta abundância era parte da diplomacia com este corte (mesmo com distâncias maiores entre os contatos). A segunda é que o modelo de relação que as cartas revelam era mais transparente quanto às doações feitas para mulheres e por mulheres, com o corte de gênero expressando mais etiqueta que generosidade. Futuras pesquisas podem explorar esta questão, aprofundando o debate.
CONCLUSÃO
A epistolografia não é um campo de estudos inovador por si. Este artigo tentou apresentar as possibilidades de cruzamento da epistolografia, os métodos digitais voltados para georreferenciamento e a perspectiva da História Conectada. Assim, embora algumas das cartas de Alcuíno tenham sido enviadas quando ele estava na Inglaterra, as cartas para a família de Carlos Magno representam uma vontade de permanecer na corte, ao se inserir na troca de presentes e se manter vivo nos corações e mentes da mais alta nobreza. Alcuíno permanecia consciente da necessidade da contínua conexão com as esferas de poder.
Outro caminho surpreendente aberto pelo georreferenciamento é o quanto o domínio do espaço fluvial é algo até então invisibilizado pela historiografia dedicada à comunicação e circulação no contexto analisado. Seja na Inglaterra, na Irlanda ou no mundo carolíngio, os mosteiros, abadias, etc., ou mesmo os espaços de poder laico que as cartas indicam, parecem estar próximos a rios, ou então a eixos de circulação marítimas. Que estes lugares tenham sido fundados justamente devido às grandes vantagens que o acesso a água proporciona é algo há muito discutido. Porém, entender que as conexões aristocráticas dependem do domínio destes processos, incluindo aí a marinhagem, o combate a eventuais piratas, o conhecimento dos fluxos fluviais, etc., parece uma novidade. Ao mesmo tempo, parece abrir uma janela para entender a disfunção que o avanço dos povos conhecidos como vikings (que dominavam este tipo de conhecimento) pode ter provocado.
Por último, a visualização das cartas endereçadas a mulheres permitiu compreender que, por um lado, Alcuíno estava preocupado com manter estas mulheres em um formato comportamental adequado ao seu estatuto social - castidade, virgindade, humildade, paciência, piedade, evitar vaidades, etc. Por um lado, estes certamente são valores fundamentais, na medida em que a maior parte das mulheres a quem Alcuíno se dirige são abadessas e, portanto, responsáveis pelo cuidado das almas das pessoas sob sua responsabilidade. Mas se levarmos em consideração que parte significativa das suas correspondentes estão em regiões recém-incorporadas pelos carolíngios, e que Alcuíno estava empenhado em combater heresias e paganismo (a mando do próprio Carlos Magno), a relação estabelecida nestas regiões fronteiriças ganha outras cores. A principal delas é entender a possibilidade de que as transformações profundas do mundo carolíngio podem ser frutos dos rearranjos das conexões aristocráticas em um momento-movimento de expansão desta mesma aristocracia.
A articulação entre estes fenômenos (gênero, espaço, localização, conexão) pode ampliar o entendimento do fenômeno aristocrático, ganhando novas camadas e perspectivas inéditas, que não seriam possíveis de ser vistas sem o aporte dos Métodos Digitais e da História Conectada.
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1
“Quia praesentaialiter verbis vestram dulcissimam dilectionem ob longitudinem habitationis nostrae ammonere nequeo, ideo litterarum officio imprere non cesso, quae linguae ministratione denegatur.”
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2
“Quia invida terrarum longiquitas mutuae confabulationis prohibet dulcedinem, datur nobis litterarum officio caritatis demonstrare suavitatem; et quod vox non valet, hoc carta loquatur.”
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3
Ep. 8, 12, 14, 29, 34, 37, 38, 39, 40, 45, 53, 54, 55, 58, 62, 63, 65, 69, 71, 72, 73, 79, 80, 81, 82, 88, 89, 104, 105, 106, 109, 110, 111, 118, 122, 130, 132, 133, 134, 137, 138, 140, 142, 145, 149.
-
4
Ep. 15: “Dilectissimae in christo vingini gislae alchvinus humilis levita salutem.”; Ep. 32: “[...] utraque in Dei servitio sempre studiosa, in castitate facientes quase sunto Deo placita.”; Ep. 72: “Carissimis in Christo Vinginibus Rodthrudae et Berchtae sempiterane beatitudinis salutatem.”
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5
“Obsecro, si lngior domni regis tardatio fiat in Saxonia, ut mihi demandare curaveris de prosperitate illius exercitusque christiani; et de reversione eius in patriam; et de hiemali mansione, in quo palatio prosperante Deo hibernare dispositum habeat.”
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6
“In omni momento ante oculos tuos habeto poenas impiorum et praemia iustorum. Non deficiat spes et dilectio tua in bonitate Dei, tunc non deficiet misericordia eius in te.; Praeterit enim figura huius mundi, et amiores eius diletiones amiores postea parturient dolores.”



Fonte: Elaboração própria conforme discutido na seção 3.2.
Fonte: Elaboração própria conforme discutido na seção 3.2.