Open-access Papo entre editores: Entrevista com Silvia Hunold Lara1

Conversation between Editors: Interview with Silvia Hunold Lara

Sílvia Hunold Lara, professora titular aposentada da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é uma das maiores referências nos estudos sobre escravidão, trabalho e relações sociais no Brasil colonial. Autora de obras fundamentais, como Campos da Violência: escravos e senhores na capitania do Rio de Janeiro, 1750-1808 (2023 [1988]), ela participou ativamente da história editorial da Revista Brasileira de História, tendo organizado, em 1988, um número marcante sobre a escravidão e a cidadania. Sua trajetória combina rigor historiográfico, engajamento político e compromisso com a democracia - valores que também atravessam a história da própria revista.

Sílvia Hunold Lara, retired professor at the State University of Campinas (Unicamp), is one of the leading authorities on studies of slavery, labor, and social relations in colonial Brazil. Author of seminal works such as Campos da Violência: escravos e senhores na capitania do Rio de Janeiro, 1750-1808 (Fields of Violence: Slaves and Masters in the Captaincy of Rio de Janeiro, 1750-1808), she played an active role in the editorial history of Revista Brasileira de História, organizing a landmark issue on slavery and citizenship in 1988. Her career combines historiographical rigor, political engagement, and a commitment to democracy - values that also run through the history of the magazine itself.

VALDEI LOPES DE ARAUJO, professor da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), é um dos principais nomes da Teoria da História e da História da Historiografia no Brasil. Autor de Atualismo 1.0: como a ideia de atualização mudou o século XXI (2019, com Mateus Pereira) e Independência Narrada (2022), tem se destacado por suas reflexões sobre as temporalidades históricas e os desafios contemporâneos da escrita da história. Ex-presidente da ANPUH (2021-2023) e ex-editor-chefe da Revista Brasileira de História (2019-2021), sua trajetória articula teoria, crítica e ação institucional, reafirmando o sentido público e colaborativo do fazer historiográfico.

VALDEI LOPES DE ARAUJO, professor at the Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), is one of the leading names in the Theory of History and History of Historiography in Brazil. Author of Atualismo 1.0: como a ideia de atualização mudou o século XXI (2019, with Mateus Pereira) and Independência Narrada (2022), he has distinguished himself for his reflections on historical temporalities and the contemporary challenges of writing history. Former president of ANPUH (2021-2023) and former editor-in-chief of Revista Brasileira de História (2019-2021), his career combines theory, criticism, and institutional action, reaffirming the public and collaborative nature of historiography.

A entrevista que segue integra uma série organizada pela atual gestão da Revista Brasileira de História, sob a coordenação do professor César Augusto Queirós, dedicada a registrar a memória editorial da revista por meio de conversas com professores e professoras que contribuíram para sua consolidação ao longo de quatro décadas. A iniciativa busca revisitar os bastidores de um dos mais importantes periódicos acadêmicos do país, refletindo sobre o papel coletivo da RBH na formação da historiografia brasileira contemporânea.

Valdei Araujo: É uma alegria estar aqui, nessa tarde do dia 2 de setembro de 2025, ao lado da professora Silvia Lara, para iniciar uma sessão de conversas, de diálogos entre editores e professores que se envolveram na produção da Revista Brasileira de História, que este ano completa 100 números publicados. Um feito extraordinário em qualquer situação, em qualquer localidade do mundo, para uma revista de História, mas ainda mais notável em um país cujo apoio à ciência é, infelizmente, ainda tão precário como o Brasil. Isso só foi possível porque a revista tem contado com o apoio desses professores e professoras que deixam, em parte, a sua carreira individual de lado para cuidar do interesse coletivo ao publicar uma revista.

Eu, particularmente, estou muito feliz de estar aqui, hoje, ao lado da professora Silvia Lara, uma formadora de historiadores e historiadoras, um nome reconhecidíssimo da historiografia brasileira. Não há quem não conheça a obra da professora Silvia Lara e a sua importância. Talvez nem todos conheçam, porém, a sua importante atuação na trajetória da Revista Brasileira de História. Esse envolvimento começa lá em 1988, quando a professora Silvia Lara participou da publicação de um número da revista. Ela vai nos explicar um pouco sobre como funcionava a revista naquele momento.

Mas eu não poderia deixar de mencionar que hoje também é uma data histórica, porque se iniciou, no Supremo Tribunal Federal, o julgamento da tentativa de golpe coordenada por Jair Bolsonaro e seus cúmplices. Então, é como se um ciclo fosse se fechando na redemocratização - processo que teve um marco fundamental na Constituição de 1988. Essa viagem no tempo, de algum modo, conecta passado e presente.

Professora Silvia Lara, a palavra é sua, para nos explicar o que era editar uma revista científica naqueles anos conturbados do início da redemocratização do país.

Silvia Hunold Lara: Muito obrigada. Antes de começar, quero dizer que é um prazer estar aqui, participando de alguma forma, colaborando com as homenagens a um trabalho coletivo de organização e manutenção da Revista Brasileira de História, desde o seu primeiro número, lá em 1981, com a professora Alice Canabrava, uma das fundadoras da ANPUH. A revista começou vinte anos depois da fundação da ANPUH e, já no seu primeiro número, anunciava sua combatividade, pronunciando-se contra as mudanças curriculares ocorridas em 1968. A atuação da ANPUH foi bastante importante naquela ocasião e a longa trajetória de lutas está expressa de diversas formas na revista. Isso é uma coisa muito boa.

É muito bom também estar aqui com gente que trabalhou na editoria da revista. Eu organizei dois números, não fiz parte dos conselhos, então, tenho uma participação menor. O primeiro número que eu organizei foi em 1988. Valdei estava lembrando da data histórica de hoje, mas 1988 foi o ano em que nossa Constituição foi promulgada. Eu espero que ela continue resistindo, apesar de tantas tentativas de reforma e de projetos de emendas constitucionais que pretendem desvirtuar seu espírito de cidadania, atentando contra a democracia no Brasil. Eu acho que a história da revista espelha uma trajetória de lutas pela democracia, que assumiu muitas formas diferentes ao longo do tempo.

Para situar o número que eu organizei, é preciso lembrar dos primeiros números da revista. Eles eram, digamos assim, bem de associação. Tinham artigos, notícias da associação, uma bibliografia, mas falavam mais para a associação e para seus membros - os professores universitários da área de História. Este perfil mudou em 1983. A revista se reorganizou do ponto de vista editorial, abriu novas seções, começou a ter números temáticos, correu atrás de financiamento para manter regularidade e se abriu para ser vendida nas livrarias. Então, passou a falar com um público mais amplo, indo além de seus associados. Esse foi um passo muito importante, eu acho, que se casa com o novo formato dos números temáticos.

Aos poucos, a revista passou a ter uma certa organização que já aparecia logo nos primeiros números, 6, 7, 8. Depois, começou a ter ensaios, artigos traduzidos, pesquisas em andamento, polêmicas. Mais adiante, aparece uma área de ensino, que depois se desenvolveu incrivelmente, a ponto de dar origem a uma nova revista dedicada a isso - mas que já estava presente em 1983. Naquela época, era a direção da revista ou seu comitê editorial que definiam os temas e chamavam alguém para organizar um número. Às vezes, era a própria comissão editorial que definia o tema e organizava o número.

Foi nessa condição que, em 1988, fui convidada para organizar o número 16. A presidente da ANPUH era a Raquel Glezer, mas quem me fez o convite foi a Déa Fenelon. Em 1988, havia a concretização da abertura, com a Constituição e, para os historiadores, a discussão da Abolição. Conversei um pouco com a Déa sobre isso. Disse a ela: não penso em fazer um número sobre a Abolição em si, pois há várias coisas sendo editadas, por conta do centenário. Penso ser mais interessante pensar na escravidão, pensar como a história da escravidão desaguou na Abolição e abrir o debate a partir daí. Era uma proposta que seguia o espírito da revista, que tinha se modificado já em meados dos anos 1980.

Naquela época, organizar um número era poder escolher o que publicar, convidar pessoas para escreverem artigos e manter um diálogo com os autores. Eu podia dizer: olha, será que você poderia fazer um artigo assim ou assado?”, ou “que temas você acha que seriam interessantes para serem discutidos?”. Depois de escrito o texto, eu podia conversar com o autor ou a autora para chegar a um formato final. Por isso, o processo de organização daquele número foi muito interessante. A história da escravidão, naquele momento, estava em ebulição, com várias propostas e temas novos, que começavam a aparecer. Hoje talvez sejam comuns, mas naquela época não eram: as crianças escravas, a atuação dos escravizados, a autonomia das roças no interior das plantations.

Quando eu estava trabalhando na organização daquele número, Peter Eisenberg, meu colega de departamento, me disse: eu tenho um documento que você vai achar incrível; um dos raros documentos escritos por alguém que foi escravo no Brasil, que foi trazido para cá pelo tráfico de escravizados, trabalhou como escravo em Pernambuco, viajou em alguns navios e conseguiu se libertar, fugiu, foi para Nova Iorque. Uma história extraordinária, que pouquíssima gente conhecia naquela época. Claro que aceitei a oferta. Ele começou a traduzir o texto, mas acabou falecendo no meio do processo e eu me responsabilizei por terminar o trabalho que ele havia começado e, assim, ele e Mahommah Gardo Baquaqua fizeram parte desse número da revista.

A ideia de compor números por temas permite agregar gente diversa, documentação, artigos de fora traduzidos, textos com novidades. E também polêmicas. A RBH já havia publicado um artigo de Peter Linebaugh, que tinha suscitado um debate fora do Brasil, então, incluí a crítica que ele recebeu e a réplica. O número contém ainda vários documentos - uma seção usual na revista, que depois desapareceu um pouco. No número que organizei estão alguns documentos que então eram novidade: testamentos, fontes orais, uma devassa num terreiro de Calundu. Aquele número da revista foi organizado na esteira de modificações que vinham de alguns anos.

De certa maneira, o clima político fora da área mais profissional da história acabou se fazendo presente também. Além disso, aquele número tinha a intenção de mostrar um pouco da cidadania dos escravizados, como sujeitos históricos. Esse era o grande motor historiográfico, naquele momento.

Valdei Araujo: A palavra-chave naquele momento, na retomada da cidadania, era a questão de uma Constituição efetivamente democrática, na qual a cidadania tivesse uma centralidade.

Agora, a sua atuação chegou a acompanhar o processo de produção do número? Porque, a partir de algum momento, a revista passa a ser 100% virtual. Ela não tem, hoje, por exemplo, edição física, mas em 1988 ela é uma revista física; não existiam revistas digitais ou virtuais. Tem uma lógica distinta de produção e de circulação. Me surpreendeu muito essa sua informação de que ela passa a ser vendida em alguns pontos. Você chegou a acompanhar a produção? Quem produzia? Era uma editora? Como era feito esse objeto que era a revista?

Silvia Hunold Lara: Quando a revista mudou, lá em 1983, ela passou a ter financiamento. A busca por financiamento, que hoje é algo cotidiano - pedir dinheiro para o CNPq, para a FAPESP, para as FAPs estaduais - passou a ser uma parte importante do trabalho editorial. Eu não participei disso, tarefa desempenhada pelos responsáveis pela revista. Eu só organizei o número, seguindo o padrão editorial das várias seções. Sugeri a ilustração para a capa, mas não participei da produção editorial propriamente dita.

Lá em 1983, quando a revista mudou seu formato, a ANPUH se associou a uma editora que foi importante no processo, que é a Marco Zero. Antigamente, havia uma impressão mecânica, que não era gravada. Depois, o digital foi entrando aos poucos, na produção gráfica inicial, na impressão, até passar para o 100% virtual.

Naquele tempo, a edição de uma revista ou de um livro era mais artesanal. No caso da RBH, o formato, o esquema gráfico, tudo foi produzido junto com a Marco Zero. Eu não participei disso. Só organizei aquele número, especificamente.

Valdei Araujo: E quem recebia os manuscritos? Eles chegavam via correio, chegavam nessa época já no computador, impressos, ou ainda tinha gente usando máquina de escrever?

Silvia Hunold Lara: O mais comum era a máquina de escrever. Em 1988, ainda era o começo do computador. Eu me lembro que, em 1989, o trabalho da secretaria ainda era bater cartas, fazer convites a máquina. A própria internet não era fácil nesse momento. Era um outro mundo, muito diferente do que a gente tem hoje.

Valdei Araujo: E desenvolver um outro tempo de produção também, não é, Silvia? Quanto tempo demorava para produzir um número como esse? Você lembra quanto tempo demorou o processo?

Silvia Hunold Lara: Isso eu não lembro. Eu até tentei achar, mas isso se perde na papelada que a gente acaba descartando, não é?

Valdei Araujo: Muita coisa dependia do correio: você mandar o manuscrito pelo correio, receber as provas.

Silvia Hunold Lara: Eu tenho memória de e-mails trocados sobre artigos, mas é muito mais recente, não remonta a esse período. Em 1989 ainda, os computadores estavam começando a se disseminar. Usávamos uns disquetes tamanho bolacha, que tinham que ser alternados; era preciso colocar um e depois o outro. Eu fiz a minha tese em 1986: ela foi datilografada numa máquina elétrica; tinha medo de perder o texto se ele não existisse no papel, se gravasse num disquete daqueles. Eu falei: nisso aqui eu não confio, né?

Valdei Araujo: Você fez muito bem, porque muita gente perdia, porque não havia muitos backups, era ainda uma tecnologia precária.

Silvia Hunold Lara: A tela do monitor era preta, com letras verdes. Acho que o meu primeiro computador foi desse período; ele tinha 252K de memória expandida, era considerado “turbinado”, para você ter uma ideia. Hoje 252K é nada, em termos de tamanho.

Valdei Araujo: Bom, e juntos, nessa conversa de hoje, temos o privilégio de poder pensar essa distância e tudo que se transformou. Você experimentou por dentro as transformações no processo editorial nesse intervalo de trinta anos: em 2018, você novamente organiza um dossiê.

Silvia Hunold Lara: Isso.

Valdei Araujo: E como é que foi esse dossiê de 2018? Quais as diferenças que te chamaram a atenção nesse processo?

Silvia Hunold Lara: A experiência em 2018 é bem diferente. Em 1994, a revista deixou de ser temática, abrindo-se para várias tendências. Ela deixa de ser autoral, como vinha sendo por 11 anos, para se abrir e abarcar mais tendências. Em 1996, começam a aparecer os dossiês. Às vezes, o dossiê é organizado pela comissão editorial da revista, às vezes, convida-se alguém para coordenar o dossiê. E, mais recentemente, há chamadas para que as pessoas apresentem os dossiês. Então, a revista vai se abrindo cada vez mais.

Quando organizei o dossiê do número 79, “Por escravos e por libertos”, eu não o propus. Foi o então editor da revista, Bruno Feitler, que entrou em contato comigo e disse: olha, são trinta anos do número da escravidão de 1988, você não quer fazer um outro sobre o mesmo tema?… Eu disse: não sei… Fiquei mesmo na dúvida. Nesse meio tempo, é interessante, porque havia decorrências das mudanças que levaram à abertura da revista. Entre o número de 1988, que eu organizei, e esse de 2018, no qual foi publicado o dossiê que coordenei, foi publicado outro dossiê a esse respeito - mais especificamente em 2006, no número 52, organizado pelo Manolo Florentino. No Editorial deste número, o Conselho Editorial da revista afirma que a escravidão tinha desaparecido do interesse da revista. Segundo o Conselho, cerca de 25% dos dossiês publicados desde 1986 tratam de questões historiográficas e teóricas. Temas clássicos, como a história da América, da escravidão, tinham presença diminuída, então era importante voltar a eles.

É um dossiê interessante o que Manolo Florentino organizou em 2006. Em 2018, quando pensei em um novo dossiê sobre o tema, conversei com o Bruno sobre os caminhos possíveis para apresentar novidades. Embora, desde os anos 1980, a ideia do protagonismo dos escravos e das escravas tenha sido algo cada vez mais importante nos estudos sobre a escravidão, achei interessante voltar ao tema para fazer um balanço dessas mudanças historiográficas. Demorei um pouco até formatar uma chamada de artigos que privilegiassem o ponto de vista dos escravizados sobre a escravidão.

E assim foi feito. Mas o papel do organizador do dossiê havia mudado completamente: eu tinha que lidar com o que chegava, com o que a comunidade de historiadores respondia a essa iniciativa. É um papel diferente, que só é autoral na ideia do dossiê, mas depois o trabalho é dividido com o editor-geral da revista, na triagem dos textos recebidos, e com os pareceristas, que avaliam cada artigo. É um trabalho bem mais coletivo. Há várias triagens: primeiro, para saber aqueles que estão dentro da temática do edital do dossiê; depois, o envio para os pareceristas; em seguida, a volta dos pareceres. O diálogo com os autores é bem menor do que antes, porque é mediado pelos pareceristas, que nem sempre caminham para aproximar o artigo da temática do dossiê. Bruno me ajudou a lidar com estas diferentes respostas.

Então, eu só tinha artigos sobre o Brasil, não tinha coisa de fora. Já não havia mais documentação, pois ninguém enviou um texto sobre fontes. Eu achava importante pensar que os escravizados no Brasil não eram só negros ou afrodescendentes, mas também indígenas, e que era necessário fazer comparações entre eles. Mas recebemos pouquíssimos artigos sobre escravizados indígenas e quase nada sobre o olhar deles a respeito da escravidão. Então, organizar o dossiê foi um trabalho de composição a partir de respostas.

Foi muito diferente do que fiz em 1988. Os dois caminhos têm prós e contras. Um fica muito autoral e acaba se assemelhando à organização de uma coletânea... Se os dossiês não apresentam uma diversidade ou não se abrem muito às polêmicas, às ideias contrastantes, o debate fica reduzido. Ao mesmo tempo, sem a ideia de uma intervenção historiográfica autoral, a revista acaba sendo mais um canal de difusão do que está sendo feito. Por outro lado, mais gente pode participar, os canais de publicação ficam mais abertos. São dois caminhos de natureza bem diferentes. Não sei a sua experiência, como foi, Valdei, como editor nesse período.

Valdei Araujo: O que eu achei interessante é que eu começo a editar a revista em 2019, sucedendo justamente o Bruno Feitler, que tinha sido o editor anterior. Eu recordo bem desse dossiê que você organiza em 2018, até porque eu estava assumindo a revista e precisava me pôr a par do que estava acontecendo. Mas o que a sua fala confirma, antes de eu começar a falar um pouco sobre a minha experiência, é que, de fato, a RBH, por mais que se transforme profundamente ao longo desses seus 45 anos de história, não deixa de ser um retrato da historiografia.

Essas diferenças que você constatou da sua experiência em 1988, e depois, da experiência em 2018, são um bom documento de como a própria historiografia está se transformando. Ela vai se democratizando, vai se ampliando, vai adquirindo outros padrões disciplinares. O artigo vai se tornando a produção quase que principal do historiador; lá em 2018, era o livro ainda. Embora o livro hoje seja importante, em 2018 ele tem uma centralidade que o artigo não tem ainda. O artigo talvez seja esse espaço da polêmica, do debate, que é mais frequente lá nos anos 1980 do que hoje, para o bem e para o mal. E a revista, com esse olhar atento, principalmente de quem a ajudou a produzir, acaba sendo um documento privilegiado para produzir um retrato da nossa historiografia, da nossa cultura disciplinar, das transformações.

Eu achei bem interessante, no seu relato, como a revista, lá em 1988, ainda é uma revista de uma comunidade, em que há notícias e publicação de documentos. Então, ela tem uma importância cultural e comunitária que vai perdendo. Ela vai se tornando uma revista estritamente acadêmica; não cabe muito mais notícia, porque também essa notícia migra para outros espaços. Hoje, você tem as redes sociais, os e-mails, como forma de comunicação, e a revista deixa de ser esse principal veículo de diálogo da comunidade no seu dia a dia.

As mudanças de tempo também, que acho que você constatou muito bem: o tempo de produção de um volume lá nos anos 80. Até porque, salvo engano, a revista, em algum momento, era um volume por ano. Apenas depois passa a ser dois exemplares por ano. Hoje, ela é quadrimestral, então, o ritmo da produção das revistas e do artigo é muito maior, é tudo muito mais veloz. Esse trabalho super desejável de dialogar com o autor, de retornar o artigo, construí-lo quase a quatro mãos, é quase impossível na cultura acadêmica atual. Há o parecer e você responde aquele parecer - que hoje, embora a gente tente valorizar a ideia dos pareceres, tende a ser cada vez mais sucinto, também, porque a gente dá uma quantidade enorme de pareceres, e essa dimensão do diálogo na produção se perde um pouco.

É óbvio que vai ganhando outros espaços, talvez. Então, a revista, na sua materialidade, documenta bem essas perdas, mas também esses ganhos. É menos autoral, mas, ao mesmo tempo, é mais aberta para uma comunidade que vai se pluralizando. Ela cresceu de maneira extraordinária nesses trinta, quarenta anos. Fica imaginando a tiragem da revista nos anos 80. Quantos exemplares nós deveríamos imprimir da revista? Mil exemplares? Não sei.

Silvia Hunold Lara: Dois mil exemplares era a tiragem nos anos 1980. Imprimia-se um maior número de exemplares nos anos 80 do que hoje em dia, tanto para livros como para revistas. Hoje, você tem até a impressão on demand, ou então a publicação online, mas não sei qual o volume de demandas nem de downloads.

Valdei Araujo: Eu acho que esse pode ser um bom gancho para eu falar um pouco também da minha experiência, que começa em 2019. A sua, em 88, vai ser marcada pela Constituição, pelo bicentenário da abolição. A minha foi marcada pela pandemia da COVID-19, no final desse primeiro semestre. Eu assumi em agosto de 2019. Em 31 de dezembro, a gente é atingido pela notícia da COVID, que vai se mostrando na sua gravidade até março, quando a pandemia é declarada. Em março, ficou evidente que a gente não podia mais sair de casa. Fechou tudo e estávamos lá no início de uma gestão da ANPUH-Brasil, e eu, no início da gestão da RBH.

A digitalização, por um lado, ajudou na produção, porque nada se fazia mais presencialmente na sede da ANPUH. Então, imagino que, se fosse no passado, esse impacto teria inviabilizado a revista. Como você produz uma revista física, nessas condições? É preciso ir ao correio buscar os manuscritos, ir à gráfica. O processo teria sido inviabilizado. E, além da pandemia, nós temos o pandemônio que foi o governo de Jair Bolsonaro. Sim, em 1988, a gente estava numa abertura de expectativas democráticas, e em 2018, infelizmente, era o contrário. Em 2018, 2019, nós vimos uma certa ameaça autoritária no horizonte, e isso convocava a revista a se posicionar.

Então, acho que o que mais marcou a minha gestão foi essa necessidade de fazer com que uma revista que havia caminhado para ser cada vez mais estritamente acadêmica recuperasse sua história de combate público. Combate pela educação pública, pelo currículo, luta pela democracia. Era preciso reconectar, num ambiente muito diferente, essa necessidade de ter uma voz pública mais decisiva. Por isso, uma das coisas importantes da minha gestão foi ocupar o canal do YouTube da Associação com lives, com debates públicos que mobilizaram autores, editores e organizadores envolvidos com a revista.

Então, no que diz respeito aos dossiês que promovemos, um deles foi sobre o negacionismo, porque o vivíamos cotidianamente: tanto o negacionismo histórico de Brasil Paralelo, de Escola Sem Partido, da própria Secretaria de Cultura do Governo Federal, promovendo visões negacionistas da história, e tínhamos a nossa própria vida ameaçada pelo negacionismo da COVID. Então, não teve jeito, resolvemos promover esse dossiê sobre negacionismo, para o qual tivemos uma demanda muito grande - ele gerou muito debate nas redes sociais, em diversas lives.

Então, como você dizia, como se mede o impacto de uma revista que circula entre seus assinantes e que teve, nos anos 1980, certamente um impacto enorme? Porque todo associado recebia a RBH em casa. Eu lembro que eu a recebia nos anos 1990, como estudante de graduação e assinante. Então, o impacto disso era enorme. Hoje, no mundo do excesso de informação, a RBH é só mais uma dentre centenas de revistas de história e uma quantidade enorme de fontes de informação que existem no Brasil.

Então, em minha gestão colocaram-se essas perguntas: Como tornar a revista relevante para além do debate acadêmico? Como envolvê-la com a divulgação científica? Como fazer com que o material da revista interferisse também no debate para além do espaço acadêmico? O debate acadêmico é superimportante. Também era desafiador naquele momento, porque as revistas começam a ser avaliadas. É algo que não existia nos anos 1980, e que foi sendo lentamente introduzido no final dos anos 1990 e nos anos 2000 - a ideia de que as revistas sofrem um processo de avaliação externa, que é o Qualis periódicos.

Então, naquele momento, o que era cada vez mais importante para a avaliação da revista era o seu fator de impacto, o seu fator H do Google; quantas citações a revista recebia. Assim, esse esforço da divulgação científica também estava muito ligado à melhoria dos indicadores da revista. Isso aparece lá no IMAGO. Melhoramos, de maneira muito substantiva, o número de citações que a revista recebia. Porém, de fato, a editoração científica e o surgimento da figura do editor, do editor-chefe, vai acompanhando a complexidade do mundo da editoração científica a partir dos anos noventa.

É algo que nós fazíamos como uma atividade cultural, ou autoral, como você muito bem coloca, e que hoje virou uma profissão. Hoje se discute muito até que ponto um editor não tem que se profissionalizar. Na minha gestão eu trouxe um colega da biblioteconomia aqui da UFOP, que era especializado em revistas acadêmicas e científicas, o Marcos Eduardo de Oliveira. Ele deu toda uma assessoria no início, muito apoiado pela presidenta da ANPUH, a professora Márcia Mota, e ajudou muito a RBH a se recolocar nesse mundo da editoração científica profissional, de uma editoração que virou um negócio.

Por isso, há as grandes plataformas que movimentam milhões e milhões, circulando o conhecimento produzido pelas revistas. É muito interessante, nessa perspectiva, ver o quanto a editoração científica se transformou e o quanto nós perdemos também. Confesso, Silvia, que fiquei com inveja desse seu trabalho em 1988, que era fundamentalmente um trabalho autoral e intelectual, de construir um volume no seu conteúdo. De uns anos para cá, o trabalho do editor é sobretudo empresarial, de produzir um objeto dentro da economia da ciência contemporânea.

Claro que esse trabalho intelectual foi distribuído pela comunidade. Na minha gestão, uma das novidades que introduzimos foi essa chamada de dossiês. Antes, era uma prerrogativa do conselho editorial e do editor. A partir de então, nós criamos chamadas públicas de dossiês. Então, enquanto no passado a maior parte dos autores eram convidados, hoje os autores enviam artigos para o dossiê. Agora, então, abre-se para a própria comunidade propor também temas de dossiê, a partir, naturalmente, de uma série de critérios, inclusive, de representatividade, de participação internacional, de representação de gênero, étnico-racial e regional.

Essas também são preocupações mais recentes, dos últimos dez anos, que atravessam muito, também, a produção científica das revistas, hoje. Enquanto, em seu número de 2018, você colocava essa questão do escravizado falando por si mesmo, hoje temos essa preocupação dos grupos minorizados, que estão subrepresentados na nossa cultura científica, e esperamos que eles possam também ter esse espaço em todo o circuito da produção científica. Esperamos que eles produzam artigos, temas de dossiê, que estejam dentro dos conselhos editoriais. A questão da representação regional, por exemplo: a revista sempre foi muito criticada pelos colegas do Nordeste e do Norte por não abrir espaço suficiente para esses pesquisadores.

A minha gestão avançou nessas demandas, mas não só. O trabalho da RBH, nos últimos anos, é um trabalho de passar tocha, mesmo. Há descontinuidades importantes, mas há grandes continuidades institucionais. A existência de uma eleição pode nos levar a imaginar que talvez houvesse muita descontinuidade. Porém, ao contrário, eu acho que o compromisso dos colegas com a revista é muito sério, muito sólido, que resiste a diferenças internas, ideológicas, diferenças políticas que atravessam a comunidade. Creio que a revista tem, nos últimos 20, 30 anos, apresentado uma trajetória muito linear, talvez até demais, na incorporação dessa cultura científica na produção de periódicos na contemporaneidade.

Um outro dossiê que foi produzido na minha gestão foi dedicado ao campo da história antiga, o primeiro da história da RBH. Os colegas de história antiga afirmavam que a RBH era uma revista de história do Brasil. E a gente sempre falava: não, não é bem assim. Sempre houve conteúdo de história medieval, de história antiga, de história da América, dentro da RBH, mas naturalmente a história do Brasil é aquilo que predomina, não é? No entanto, foi um fato importante a gente ter esse primeiro dossiê, em perspectiva global - e não apenas europeia -, de autores falando sobre história antiga.

Foi um dossiê muito bem-sucedido. Além do dossiê sobre negacionismo, deixamos organizado um sobre racismo e questões étnico-raciais, que foi produzido na gestão seguinte. Foi um dossiê extraordinário, também muito importante, naquele momento de ataques à cultura democrática. Era importante reforçar todos os valores democráticos da nossa comunidade historiadora e se colocar de maneira clara no caminho contrário a um governo federal que reatualizava o racismo, a perseguição às minorias.

Acho que a diferença principal que eu vejo daquele momento de 1988 para hoje é essa democratização, com tudo que ela representa de desafios, de uma produção intelectual mais distribuída, mas que também dilui questões e, muitas vezes, evita a polêmica. Eu acho que vemos cada vez menos polêmicas nos textos de artigos acadêmicos. A ideia do debate público, da confrontação de ideias mais aguerridas que nós vimos nos anos 80, vai se afastando de nós. É difícil saber as razões, são muitas as causas. A própria democratização dos espaços também tornou a Revista Brasileira de História, por mais importante que ela continua a ser, um fórum dentre outros.

Não sei como era a sensação nos anos 1980. Talvez você pudesse voltar a falar um pouco sobre isso. Quando você queria publicar, quais eram as possibilidades de publicação naquele momento?

Silvia Hunold Lara: Continuando um pouco a tratar desses contrastes, acho que, ao mesmo tempo, há essa diversificação e também essa profissionalização da área editorial e das avaliações, que vão se estabilizando. Mas elas vêm tanto para o bem quanto para o mal. Eu, por exemplo, tenho uma enorme dificuldade de escrever um artigo só de 20 páginas. Às vezes, isso pode caber muito bem, mas, às vezes, não. Quer dizer, muitas vezes, há necessidade de percorrer uma análise documental para poder fundamentar e defender um argumento, além de fazer um bom diálogo historiográfico, o que exige mais páginas. Então, o limite de 20 é uma amarra.

Se isso se justifica no livro impresso, físico, porque há limitação do número de página, dado que o papel é caro, isso não acontece na dimensão virtual. Hoje em dia, as revistas também vão se fazendo em fluxo contínuo, e talvez aqui possamos abrir novas possibilidades. Acho ainda que há outra diferença importante, que é a pressão pela publicação. Lá atrás, nos anos 1980, ela era muito menor do que hoje em dia. Como parecerista de revistas - não só da Revista Brasileira de História, mas de várias revistas acadêmicas -, percebo que muitos dos textos que são propostos ainda não estão bem-acabados, ainda são capítulos de dissertações ou teses, que se quer publicar logo para fazer currículo, para poder passar num concurso, ser bem colocado aqui e ali. Então, acho que essa profissionalização também tem uma dimensão complicada. Complicada no mau sentido, mesmo. Acho que ela não funciona direito. E a revista, inclusive a Revista Brasileira de História, acaba sofrendo.

Acho muito bom haver, hoje, uma especialização da história, voltada para as questões didáticas. Esse é um campo que se ampliou muitíssimo. É necessário um veículo de divulgação para essa área. Porém, por outro lado, essa dissociação entre pesquisa e questões didáticas não me parece muito boa. A RBH acaba ficando mais com o âmbito acadêmico e se distancia um pouco da dimensão social de nosso trabalho profissional. Acho importante pensar no quanto a pesquisa sobre determinados temas e assuntos reverbera questões que são da nossa vivência como cidadãos e cidadãs, no mundo de hoje.

Embora estejamos falando de uma revista nacional, acho interessante pensarmos no significado de um evento que ocorreu na semana passada, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, em defesa da História no currículo das escolas paulistas. Sim, isso está sendo tirado de nós. Quer dizer, voltamos a uma luta quase ancestral da nossa ANPUH, que acontece agora, no estado de São Paulo, mas que existe também em vários outros estados. Não foi só no período infeliz do governo Bolsonaro, com todas as restrições e propostas de Escola Sem Partido, de pronunciamentos contra as abordagens de gênero. Acho que a História está sob ataque novamente. Esteve sob ataque durante o negacionismo bolsonarista, mas tal ataque está latente hoje em dia - e aflora aqui e ali.

Há questões que temos que enfrentar. Como isso impacta a nossa pesquisa? Como isso impacta a maneira como nós divulgamos o resultado do nosso trabalho? Com quem nós queremos falar quando dizemos: olha, estou fazendo um trabalho sobre tal assunto. Com quem eu quero falar? Qual é o sentido do investimento, do esforço da pesquisa, do financiamento, que em geral é público, ligado a escolas públicas ou a escolas particulares que têm uma tradição de atuação pública, como as pontifícias católicas? Estes são desafios que hoje se colocam para a nossa própria associação, que tem enfrentado esses dilemas de diversas maneiras. E se colocam igualmente para a revista.

Acho que você, Valdei, coloca muito bem como a revista espelha essa longa trajetória da ANPUH e essas dimensões da atuação dos historiadores no Brasil.

Valdei Araujo: Eu queria agradecer muito à própria associação, porque nem sempre é evidente para o público em geral o que é eleição para a editoria das revistas. É uma eleição separada da diretoria da associação, inclusive para manter a autonomia da revista. Então, quando os estatutos foram pensados, uma revista acadêmica não poderia sofrer carteirada de um diretor da associação.

A eleição do editor da RBH e do seu conselho editorial é uma; a eleição para a diretoria da ANPUH é outra. Mas é claro que quem financia a RBH é a ANPUH Brasil, com o dinheiro dos associados e das associadas. Há, portanto, uma relação de dependência financeira, mas, ao mesmo tempo, existe uma total autonomia intelectual e de gestão das revistas.

No período de 2019 a 2021, a RBH foi bancada integralmente pela ANPUH Brasil. E, salvo engano, isso redundou em custos de mais de 100 mil reais. Há salários dos assistentes editoriais, porque, ao contrário do que muitos pensam, uma revista digital não é sem custo. Ela tem inúmeros custos: precisa ser revisada, há custos de tradução, de hospedagem, de assistência editorial. Na minha gestão, editar esses seis números ficou em mais de 100 mil reais, pagos quase que integralmente pela ANPUH Brasil, já que não havia editais de financiamento no governo Bolsonaro.

Mas você traz um outro elemento, Silvia, que eu acho muito importante. Durante muito tempo, nesse período da profissionalização editorial, a gente pensava o artigo muito dentro do sistema da pós-graduação e da pesquisa. O artigo era quase que a unidade de avaliação dos programas de pós-graduação. Quando você avaliava os programas, que representam a nata da pesquisa em história, parte desse processo se dava pelo impacto das revistas.

Agora, isso mudou. Não mais se avalia a revista, e ainda não sabemos qual será o impacto dessa mudança sobre elas. Até então, na minha gestão, as revistas recebiam Qualis, e a RBH sempre esteve no topo, com Qualis A1. Isso repercutia fortemente no sistema de pós-graduação.

O que não estávamos muito acostumados a fazer era pensar a produção científica para além da pós-graduação e da pesquisa, ou seja, no diálogo com a sociedade, na divulgação científica. Nem falo ainda de história pública, mas de divulgação científica.

E a crise do governo Bolsonaro, que ameaçou interromper a nossa experiência democrática - ainda recente, mas que parecia sólida e bem-sucedida -, deixou evidente que não dava mais para ficarmos em casa escrevendo apenas artigos ultra especializados. Era preciso defender a ciência, e uma forma de defendê-la era tornando-a mais conhecida.

As revistas, a partir daquele momento, perceberam que não poderiam se dedicar apenas à produção de ciência de alta qualidade. Elas também precisariam ser lidas pela sociedade. Era preciso criar formas para que a sociedade não parasse no Brasil Paralelo, mas tivesse acesso a conteúdo cuja fonte fosse, por exemplo, um artigo da RBH.

É claro que não vamos pedir ao cidadão comum que leia um artigo da RBH, nem pedir a um historiador que escreva um artigo científico para o público leigo, porque são coisas incompatíveis. Mas existe um trabalho a ser feito, e para ele surge um novo profissional: o divulgador científico.

Um dos grandes desafios das revistas hoje é estarem acopladas a um sistema de divulgação científica mais profissional, que estamos lentamente construindo. Ele ainda é subfinanciado, mas é fundamental para a legitimidade da ciência. Não adianta colocar um homem na Lua, se o homem comum não entende a importância desse feito. Se a sociedade investe bilhões para levar alguém à Lua, mas o senhorzinho ou a senhorinha que pagam os impostos nem sabem o que é a Lua, o que é uma nave espacial, o que é pesquisa, o sentido desse investimento se perde.

As ciências chamadas de “duras” já entenderam isso e investem muito dinheiro em divulgação científica. Nas humanidades, por muito tempo, o modelo foi: vamos influenciar as elites, com os grandes pensadores da história, e o trabalho estará feito. Mas não é assim. A sociedade se democratizou e hoje precisamos influenciar toda a sociedade.

Esse trabalho de divulgação científica nós estamos aprendendo a fazer, errando e acertando. Ainda não é simples nesse cenário, mas é um aprendizado em curso.

Silvia Hunold Lara: Sem dúvida alguma, não é simples. Acho que é muito importante pensar o quanto nós, historiadores de profissão, de certa maneira, abrimos mão de fazer esse trabalho de divulgação. Quem tem feito isso, no nosso lugar, em geral, são os jornalistas.

Não quero falar mal dos jornalistas. O que estou falando é mal dos historiadores, brincando um pouco. Quer dizer, nós abrimos um espaço. O jornalista lê os livros escritos pelos historiadores e é capaz de construir uma narrativa, um texto acessível. Escreve em blogs e produz podcasts, de diferentes maneiras. Tem alguns interessantíssimos, e outros, não.

Em geral, os historiadores acabam participando pouco disso. A gente faz mesa-redonda, faz coisas num formato meio antigão, meio caretão, que têm pouca penetração junto ao público mais jovem. É difícil para a gente. Pelo menos, para gente das antigas, como eu. Eu, por exemplo, tive que abrir uma conta no Instagram para poder fazer o lançamento de um livro, mas eu não uso, não tenho tempo, não consigo, não faz parte do meu repertório.

Valdei Araujo: É efetivamente uma outra profissão, ou, pelo menos, uma outra vocação dentro de uma mesma profissão. Então, o historiador precisa ter também essa vocação. Não significa que todo historiador vai ter que fazer tudo, mas a gente tem que valorizar os colegas que começam a se profissionalizar nesse trabalho de divulgação científica e de história pública.

São vocações diferentes, mas que dialogam. O que aconteceu com o ensino de história: tem colegas que escrevem livros didáticos que não são pesquisadores tradicionais, mas são pesquisadores do livro didático, que é uma ciência própria.

Silvia Hunold Lara: Pois é, acho incrível quando essas iniciativas voltam. Para treinar o meu francês, voltei a escutar o que hoje a gente chamaria de podcasts, que eram programas de rádio feitos por historiadores franceses, lá nos anos 1970. Eles estavam falando sobre pesquisa pesada, sobre a Idade Média, publicando livros e artigos nos Annales e estavam também lá no rádio.

Há um desafio importante: a gente precisa se abrir. Eu coordeno uma coleção de livros que são só digitais, por exemplo. O que é um livro digital? Quais são as potencialidades de um livro digital? E as publicações abertas, o que elas podem trazer de novo, de diferente? Acho que tem pouca gente que ousa, que se arrisca, sabe?

Valdei Araujo: A gente está repetindo no digital os velhos meios, então, a gente publica o livro digital, que é igual...

Silvia Hunold Lara: Igual a um PDF, algo assim, sem que se aproveite do âmbito digital.

Valdei Araujo: O tamanho do artigo científico não mudou muito. Desde os anos 1980 até hoje, o artigo científico varia entre 20 e 25 páginas na área de história.

Silvia Hunold Lara: Às vezes é bom poder escrever mais. Eu gosto muito, na minha área, da Afro-Ásia, por exemplo. Ela consegue ter diferentes níveis de intervenção, com textos mais soltos, sem limitação de número de páginas; consegue publicar várias pesquisas de ponta, resenhas, promover debates. Ela tem uma dinâmica interessante, eu acho.

Sinto que a Revista Brasileira de História é mais engessada, de certa maneira, comparando as duas. Ao completar 100 números, mesmo que já venha, de uns 20 anos para cá, ensaiando e se aprimorando num certo formato, talvez a revista possa lançar um desafio, não é? Como seria poder falar da pesquisa e, ao mesmo tempo, falar para fora do mundo acadêmico, dos profissionais da história? Não necessariamente ir para o ensino, mas sim pensar nas várias dimensões que você mencionou.

Com quem a gente quer falar? Como é que a gente fala do que é história? Eu lembro de quando eu fazia minha pesquisa para o doutorado. Muita gente me dizia: isso é do tempo dos escravos... Mas o que é o tempo dos escravos? Lá para trás, nos anos 1980, 1990? E hoje em dia?

Valdei Araujo: Temporalidade popular.

Silvia Hunold Lara: É, acho que esse desafio que está diante da revista, ao completar 100 números, talvez possa ser assumido pela nova geração.

Valdei Araujo: E trazer o último ponto do roteiro que o César nos mandou, quando fez esse convite para esse bate-papo: que a gente falasse um pouquinho da nossa experiência e falássemos também dos desafios da revista daqui para frente, digamos, para os próximos 100 números. Não sei se a gente consegue falar dos próximos 100 números. Porém, já colocamos algumas questões, digamos, para o próximo semestre, nesse mundo que vai se transformando tão rapidamente.

O desafio de se produzir uma revista mais solta, talvez, deve aproveitar que o próprio Qualis perde relevância. O Qualis era uma camisa de força muito poderosa para o sistema de periódicos, que fez com que eles ficassem cada vez mais parecidos uns com os outros. Talvez, com o seu enfraquecimento - e a ênfase, agora, é na circulação do próprio artigo -, a gente possa repensar nossas revistas, não só a RBH, para que elas se tornem, de novo, espaços interessantes de frequentação. Não só aquele espaço em que você vai buscar o seu artigo para pesquisa, mas um espaço em que você vai buscar o debate. Qual o debate relevante para a comunidade historiadora no momento? Então, essa talvez possa ser uma direção, assim como a experimentação com outras mídias.

O audiovisual tem se democratizado muito na sua forma de produzir: desde entrevistas, como você disse, recuperando essa experiência do rádio, mais podcasts, mais entrevistas, essa conversação com a sociedade, com a comunidade de historiadores. Pois eu acho que a gente tem que sempre conversar com ela - porque é uma revista da associação, então, tem que conversar com a comunidade e com a sociedade brasileira como um todo. Não é fácil nessa oferta - há muita oferta de informação, uma disputa gigante pela atenção -, mas temos muito conteúdo relevante, não podemos desistir de brigar pela atenção da pessoa comum. Temos que continuar nessa tarefa, que é uma tarefa educacional importante.

Gostaria de trazer um dado que você perguntou e eu fui buscar, da questão do impacto. A RBH, em 2020, que foi o último ano da minha gestão, teve picos de 100 mil acessos no site do Scielo, o qual hoje acolhe a revista. Então, em um ano, você tem 100 mil acessos à nossa revista. O que são esses acessos? É difícil qualificar. Alguém que vai buscar um artigo, baixou um artigo. Porém, com certeza é um acesso que vai para muito além da comunidade historiadora.

A gente fala hoje para além da comunidade, talvez ainda para o especialista, mas tem um trabalho aí que a gente pode fazer com esse conhecimento acumulado. O seu dossiê de 1988, ainda tão relevante nas preocupações, tanto material importante acumulado na revista, e ele precisa ser ressignificado, atualizado, trazido para o debate, para ele também não ficar numa sociedade desmemoriada, que parece ser o caso de nossa sociedade contemporânea. As pessoas pegam os artigos dos últimos 5 anos. As pessoas já não têm mais esse trabalho de fazer um levantamento exaustivo do debate. Aumentou a oferta, você encurta a sua bibliografia. Então, são alguns desafios.

Silvia Hunold Lara: Com certeza. Vamos ver o que vem por aí. Eu tenho esperança de que venha coisa boa, bem boa.

Valdei Araujo: Vem sim, a gente faz coisa boa. Se não vier, a gente fabrica.

Silvia Hunold Lara: A gente quer ajudar a inventar, não é?

Valdei Araujo: Ô Silvia, que prazer conversar com você, viu?

Silvia Hunold Lara: Muito bom conversar com você também, Valdei. Acho que era isso que nós tínhamos…

Valdei Araujo: Acho que sim. O nosso anfitrião está aí nos bastidores. Falamos uma hora e dois minutos, César. Estamos ali, bem no limite.

Declaração de disponibilidade de dados:

Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.

REFERÊNCIA

  • LARA, Silvia Hunold. Campos da Violência: escravos e senhores na capitania do Rio de Janeiro, 1750-1808. Campinas: Editora da Unicamp; IFCH; CECULT, 2023 [1988].
  • 1
    Entrevista realizada no dia 2 de setembro de 2025, às 14h00 (horário de Manaus), pelo Streamyard.
  • Editor responsável:
    César Augusto Bulboz Queirós.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    26 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    03 Set 2025
  • Aceito
    09 Out 2025
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