RESUMO
No Brasil, durante o Estado Novo (1937-1945), o Institute of Inter-American Affairs da Fundação Rockefeller e o Ministério da Educação e Saúde do governo federal inauguraram o Serviço Especial de Saúde Pública como um gabinete que instaurou o Programa de Enfermagem. Enfermeiras dos Estados Unidos atuaram como consultoras em um esforço de retomada da profissionalização que rompeu o padrão de formação profissional vigente, considerado política e ideologicamente inoperante. Ao retraçar o processo histórico, o artigo remonta à atuação de mulheres nas relações internacionais no século XX, em especial Ella Hasenjaeger, cuja trajetória permite-nos vislumbrar os lugares assumidos por enfermeiras em políticas públicas de saúde que se estenderam dos Estados Unidos à América Latina, e no Brasil, a partir da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo.
Palavras-chave:
História das Mulheres; História da Enfermagem Brasileira; Políticas Públicas em Saúde
ABSTRACT
In Brazil, during the New State (1937-1945), the Institute of Inter-American Affairs of the Rockefeller Foundation and the Ministry of Education and Health of Federal Govern inaugurated the Special Public Health Service as an office that established the Nurse Brazil Party. Nurses from United States act as consultants in the endeavor to resumption nursing that broke the current model of professional training, considered politics and ideologically inoperative. By retracing the historical process, the article remounts to the work of women in international relations in the 20th century, particularly Ella Hasenjaeger, whose trajectory allows us to project places taken by nurses in public health policies that have come from the U.S. to Latin America, and in Brazil, from the Nursing School of University of São Paulo.
Keywords:
Women History; Brazilian Nursing History; Public Health Policies
INTRODUÇÃO
Durante a Conferência Panamericana de Montevidéu, Uruguai, em 1933, governos de diferentes países da América Latina assinaram tratados de cooperação internacional em prol da saúde pública como esforços de guerra. Os acordos evidenciaram a luta contra doenças endêmicas e epidêmicas como princípio em outra importante reunião interamericana, a Conferência dos Ministros das Relações Exteriores das Américas, sediada na cidade do Rio de Janeiro, Brasil, em 1942. Ambos os encontros constituíram indicativos seguros dos usos políticos de questões sanitárias como justificativas à necessidade do elo interamericano entre “nações amigas”. Desse movimento emergiu um complexo quadro cooperativo efetivado no Estado Novo (1937-1945), durante o governo de Getúlio Vargas, cuja historicidade desvelou, entre outros condicionantes, lugares ocupados por mulheres em políticas públicas de saúde internacionais estabelecidas entre Brasil e Estados Unidos pós-1930.
Mesmo que a terceira geração dos Annales, ou a renovação francesa da escrita da história, tenha destacado mulheres como “sujeitos históricos”, a crítica indicou que a historiografia produzida, ainda assim, não considerou a “epistemologia feminista” da qual resultasse uma história femininamente escrita (Le Goff, 1990; Scott, 1992; Sorj, 2019). Não mencionadas e consideradas na subalternidade em relação ao masculino, experiências femininas permaneceram na penumbra da história masculinamente escrita e fundada em axiomas que sustentaram a noção de homem como “sujeito universal”, de gênero masculino como “naturalmente dominante”, de patriarcado como representativo da experiência humana em perspectiva estruturalmente racista e homofóbica (Hollanda, 2019a; Lorde, 2021). De modo diametralmente oposto, a experiência de enfermeiras no Brasil pós-1930 evidenciou mulheres nas relações internacionais em atividades sociais como funcionárias do serviço diplomático.
No Brasil, o protagonismo feminino na política internacional, na instauração e no desenvolvimento da cooperação interamericana em enfermagem possibilitou a entrada em definitivo de mulheres na arena internacional, nos altos escalões dos órgãos gestores da política exterior, no âmbito das relações bilaterais em saúde pública. Levamos em consideração especificamente a experiência de Ella Hasenjaeger, uma das consultoras da Fundação Rockefeller (FR) que atuou na Escola de Enfermagem da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (EEFMUSP), fundamental na implantação do Nurse Brazil Party, ou Programa de Enfermagem (PE), durante o entreguerras, momento essencial para o avanço dos direitos das mulheres na cena internacional no século XX, quando ingressaram em organizações governamentais e instituições universitárias, atuando transnacionalmente contra o padrão de civilização incorporado ao colonialismo europeu (Gaspard, 2000; Zimmermann, 2016).
Ao romper o antigo modelo de formação profissional implantado a partir das vicissitudes da “Missão Parsons”, a EEFMUSP, fundada em 1942 por intermédio do PE, ampliou e qualificou o contingente de enfermeiros em todo o Brasil, fundamentalmente constituído por mulheres (Souza Campos; Oguisso, 2013). Com efeito, atuando em postos de trabalho no serviço público, enfermeiras egressas ou contratadas como docentes assumiram lugares importantes em instituições governamentais voltadas à saúde pública, como instrutoras de saúde rural e urbana, tutoras em organismos institucionais ligados a governos e a ministérios, diretoras e professoras em escolas de enfermagem, consultoras em programas financiados por agências internacionais e “enfermeiras-chefe” em espaços hospitalares construídos como “atitudes modernas” durante o Estado Novo (Amora; Costa, 2019).
Diante desse quadro político e institucional, bem como das prerrogativas anunciadas por pesquisadores que tratam o tema, sobretudo no que se refere à ausência de estudos, o artigo busca, nessa medida, colaborar com o debate sobre as mulheres nas relações internacionais no século XX, no Brasil e na América Latina (León; García; Rodríguez, 2024; Faria; Carmo, 2018). Desse modo, não pretende teorizar o campo das mulheres nas relações internacionais, tampouco biografar a consultora americana, mas evidenciar uma política pública em saúde ideologicamente administrada por mulheres durante a implantação de uma rede de cooperação internacional que transformou a formação e a orientação profissional da enfermagem brasileira, o que projetou as mulheres no campo das ciências médicas como intelectuais vinculadas à Universidade de São Paulo e representantes de autoridades políticas e institucionais em cargos de confiança, as quais, pioneiramente, assumiram “posição de destaque na organização da vida social” alinhada aos objetivos do movimento feminista, como destacou Bila Sorj (2019, p. 100).
Assim, a participação feminina na instauração de uma ampla rede de cooperação interamericana, com poder de decisão em organizações instituídas bilateralmente, legitimou o lugar das mulheres na política internacional brasileira durante a “sedução do moderno” (Tota, 2000). Tratadas na redução da escala de análise, vale dizer, na apreensão de sinais dispersos revelados por registros avaliados como sem importância histórica, as “provas testemunhais” foram interpretadas por intermédio do “impulso de narração”, ou “impulso de tratar a história”, como nominou Carlo Ginzburg (2007, p. 265) ao dissecar a perspectiva microanalítica, que embasou a retomada do feminino na instauração e no desenvolvimento do PE, em diálogo permanente com a teoria social feminista (Hollanda, 2019b), pois mulheres foram invisibilizadas na história diplomática e das relações internacionais (Aggestam; Towns, 2019; Gaspard, 2000).
Entre outros documentos, como fotografias, documentários e material de divulgação do SESP localizados no Centro Histórico-Cultural da Enfermagem Ibero-Americana (CHCEIA), da Escola de Enfermagem, e no Setor de Obras Raras da Biblioteca da Faculdade de Saúde Pública, ambos da Universidade de São Paulo, a retomada do tema focalizou o “Relatório 111”, redigido por Ella Hasenjaeger em 1947. Fonte da memória das mulheres, o registro compõe o conjunto documental caracterizado como Fundo SP - Saúde Pública, disponibilizado para consulta pelo Departamento de Arquivo e Documentação da Biblioteca de História das Ciências e da Saúde, da Casa de Oswaldo Cruz, da Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro.
Os sinais permitiram considerar como estratégico o lugar ocupado por Miss Ella na implantação do PE a partir de São Paulo. Mesmo não sendo a única mulher encaminhada para o Brasil, suas ações inseriram enfermeiras brasileiras na política internacional no século XX, em posições acadêmicas na EEFMUSP, como dirigentes do novo núcleo da formação e da orientação profissional brasileira. A enfermagem emergiu como um dos resultados do projeto modernizador alinhado aos interesses governamentais de Getúlio Vargas, ou seja, como um dos efeitos de sentido da experiência social e histórica em torno da “política de boa vizinhança” feminista e femininamente conduzida por mulheres, vale dizer, estrategicamente por elas apropriadas, pois conscientes das heranças imateriais do feminino.
NURSE BRAZIL PARTY: MULHERES E RELAÇÕES INTERNACIONAIS PÓS-1930
Em um contexto histórico marcado por imprevisibilidades e dissonâncias durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o Institute of Inter-American Affairs (IAIA), vinculado à FR, em parceria com o Ministério da Educação e Saúde (MES), ambos implantados durante o governo de Getúlio Vargas, historicamente reconhecido como Estado Novo, inauguraram o Serviço Especial de Saúde Pública (SESP) como um gabinete administrativo de investimentos derivados de acordos bilaterais entre Estados Unidos e Brasil em saúde pública. O Nurse Brazil Party, ou PE, fomentou a construção e a reestruturação de escolas de enfermagem existentes no Brasil, exemplarmente, a EEFMUSP, ícone modernista tanto em relação à arquitetura quanto à formação e à orientação profissional, nesse sentido, considerada a sua maior realização (Campos, 2006; Faria, 2007; Miura, 2011; Souza Campos; Oguisso, 2013).
Os resultados das ações de enfermeiras lideradas por Ella Hasenjaeger, consultora na EEFMUSP, propiciaram mudanças significativas em relação à diversidade da realidade demográfica brasileira, colaborando, poderosamente, para ampliar lugares ocupados por mulheres no campo da prática médica pós-1930, disseminando a profissão como universitária, científica, organizada por professores e professoras vinculadas ao chamado Centro Médico da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, as quais, nesse processo, inseriram uma visão feminina na política internacional por meio da formação e do exercício da enfermagem, considerando São Paulo como o centro irradiador da nova enfermagem brasileira (Bonini, 2014; Goulart, 2020; Santiago, 2011; Takashi, 2011)1.
Como um dos primeiros atos da oficialização profissional da enfermagem brasileira, o antigo modelo forjou um imaginário social em relação à “enfermeira-padrão” como sendo composto por mulheres brancas privilegiadas, centrado na exclusão de mulheres negras e de homens da formação profissional, restringindo, sobremaneira, o ilustrado contingente profissional, porém, ultrapassado em relação às inovações do campo (Barreira, 1997; Silva Junior, 2000), ainda que historicamente homens e mulheres negras existissem dentro e fora de espaços hospitalares ou educacionais em diferentes temporalidades, como enfermeiros pré-profissionais, cuidadores seculares, curandeiros, como pretos velhos, parteiras e enfermeiros práticos (Ribeiro, 1997; Moreira, 1999; Mott, 1999; Mota; Pimenta, 2022).
O esforço de retomada centrado em São Paulo colaborou decisivamente para o desmonte do viés racista, classista e generificado imposto à formação em enfermagem no Brasil anterior a 1930. O PE destituiu o modelo erigido em torno da Escola de Enfermagem Ana Nery (EEAN), fundada em 1923 como derivada da Reforma Sanitária de 1922, do mesmo modo, organizada por enfermeiras americanas vinculadas à FR, em um dos primeiros atos da profissionalização da enfermagem brasileira, liderado por Ethel Parsons, cujo legado histórico, não obstante, cristalizou uma imagem diametralmente oposta ao que objetivou o PE. Miss Ella atuou como mulher-chave no desmonte das antigas representações, ao fazer valer o elo diplomático interamericano que instituiu novas diretrizes à enfermagem brasileira, destacando, fundamentalmente, a centralidade da EEFMUSP, escola na qual permaneceu de 1944 a 1951, quando retornou aos Estados Unidos.
A enfermagem profissionalizou a “cultura feminina” (Hallan, 2000). Adequada às mulheres antes, durante e depois da institucionalização da profissão, o feminino dominou a enfermagem, ainda que as profissionais fossem figurativizadas masculinamente como mulheres brancas privilegiadas. Acadêmicas e cientistas, enfermeiras formadas pela EEFMUSP colaboraram para destituir os imperativos que mantinham as mulheres subservientes aos homens e socialmente projetadas como “mulher-esposa-mãe”. Em escala global, pós-1930, mulheres atuaram em agências internacionais, organizando missões diplomáticas, agindo em ministérios das relações exteriores, participando da vida política, econômica e social em diferentes países da América Latina, rompendo paradigmas masculinistas que proibiram o poder político feminino no debate internacional, mas não sem resistência (León; García; Rodríguez, 2024; León, 2023; García, 2023; Gaspard, 2000; Aggestam; Towns, 2019).
No Brasil, como enfermeiras contratadas por instituições hospitalares republicanas, as quais, por sua vez, exigiram permanentemente mão de obra especializada, mulheres graduadas em enfermagem alcançaram postos importantes da administração pública, tendo, no entanto, novamente de enfrentar resistência. A contratação em larga escala, não obstante, espelhou a expansão de programas de saúde em todas as regiões como atitude modernizadora, e também como resposta à crise da saúde pública na América Latina, justificando alterações estruturais na formação profissional, visando ao aumento expressivo de seu contingente para suprir a demanda provocada pela ampliação do parque hospitalar em âmbito nacional, vale reiterar, femininamente ocupado, em um contexto de debates sobre reformas e políticas em saúde pública importantes para o Brasil (Carvalho, 1992; Hochman; Fonseca, 2000).
O controle da saúde do trabalhador por meio da epidemiologia, da medicina preventivista e do movimento hospitalocêntrico reorganizou a nova formação profissional e fortaleceu o discurso populista de Getúlio Vargas, nesse ponto, em especial, no sentido da ampliação do parque institucional hospitalar, com a centralização do Estado no controle da saúde das populações em todo o Brasil. Luiz Antonio de Castro Santos e Lina Faria referendaram essa dinâmica ao afirmarem que, no cenário delineado, pesava “a preocupação política dos governos nacionais e estaduais com o atendimento público hospitalar” (2010, p. 93, grifado no original). A enfermagem reverberou a modernização em um momento original de conquistas da emancipação das mulheres como eleitoras, mesmo considerando que a liberdade não dependeu do voto ou dos direitos civis, mas da consciência da condição feminina ou “da percepção que as mulheres tinham de si mesmas”, como destacou Eleni Varikas (1989, p. 19).
A inserção de enfermeiras profissionais em instituições de saúde mantidas pelo governo federal, estadual e municipal revelou-se estrategicamente favorável à política populista de Getúlio Vargas. O desmonte das figurativizações atribuídas à profissão anteriores a 1930, radicalmente transformadas, destituiu restrições impostas pelo antigo “padrão Anna Nery”, considerado tecnicamente impeditivo em relação aos acordos bilaterais em saúde pública, pois elitizado, racista, desatualizado em relação à prática médica no entorno da saúde pública (Barreira, 1997; Ferreira; Salles, 2019; Moreira, 1999; Silva Junior, 2000).
O simbolismo da “enfermeira-padrão” cristalizou ilustrações inoperantes, as quais, no Brasil pós-1930, tornaram-se obsoletas do ponto de vista da modernização das instituições republicanas, dos avanços científicos e das inovações tecnológicas no campo da saúde pública hospitalocêntrica disseminada pelos Estados Unidos por intermédio de acordos bilaterais que demandavam um aumento expressivo de profissionais em todo o território brasileiro. Os lugares assumidos por mulheres em políticas públicas internacionais durante a instauração do PE contribuíram para dissolver tensões institucionais locais no entorno dos significados simbólicos da profissão. Autores consultados afirmaram que, no contexto histórico, em diferentes países da América Latina “desenvolve-se a investigação básica e clínica conectada com o crescimento hospitalar impulsionado pela industrialização” (García, 1981, p. 72), impondo uma nova prática médica que exigiu ampliação significativa dos contingentes profissionais em saúde, no Brasil, diminutos e centralizados.
Ainda que pela via do “feminismo tático” (Soihet, 2006), ou seja, por intermédio de ações de mulheres brancas privilegiadas ou mesmo a partir da reificação histórico-colonialista do “American way of life”, fortemente disseminado pela elite republicana durante o Estado Novo, a história da enfermagem permitiu considerar que a EEFMUSP demarcou ruptura com o antigo padrão, nesses termos, politicamente desfavorável. A implantação do PE ampliou e amplificou o protagonismo feminino na história das ciências da saúde, gerando um incremento no número de acadêmicas da Universidade de São Paulo e docentes da Escola de Enfermagem anexa à Faculdade de Medicina, as quais deslocaram o núcleo grosso do associativismo e do ensino da enfermagem do Rio de Janeiro para São Paulo, esforço feminino promovido, fundamentalmente, por ações da diretora Edith de Magalhães Fraenkel e da vice-diretora Maria Rosa Sousa Pinheiro, ambas sob a consultoria de Ella Hasenjaeger. Com isso, transformou-se, verticalmente, o lugar do feminino na política internacional a partir de São Paulo, “cidade laboratório” que historicamente recebeu altos investimentos da FR (Marinho, 2001).
As restrições impostas pelo antigo padrão revelaram-se impeditivas ao desenvolvimento da saúde pública, substancialmente em relação à ampliação do parque hospitalar. O êxito esperado com a implantação do PE possibilitou a inserção de mulheres e de homens de diferentes regiões do Brasil no serviço público, como bolsistas SESP, por meio do “efeito demonstração” (Castro Santos; Faria, 2010). Como enfermeiros hospitalares, os profissionais formados a partir do PE desmantelaram imaginários erigidos no entorno da enfermagem, e anteriormente traduzidos por educadoras e visitadoras sanitárias como enfermeiras de guerra, práticas ou “freiras sem o hábito”. Ao implantar uma formação profissional fundada na administração hospitalar, na epidemiologia, na prevenção de doenças e nas atuações em diferentes clínicas médicas, o PE inseriu mulheres no campo das profissões como intelectuais em instituições universitárias brasileiras que se destacaram na história diplomática e nas relações internacionais no âmbito da saúde pública no Brasil pós-1930, ampliando a agenda política transnacional em relação ao feminino com mulheres no trabalho, políticas de gênero e igualdade de gênero (Aggestam; Towns, 2019; Faria; Carmo, 2018; Boris; Hoehtker; Zimmermann, 2018).
A implantação do PE permitiu às mulheres brasileiras uma possibilidade a mais de se apropriarem de suas vidas com a inserção definitiva do feminino no campo da administração em serviços públicos de saúde, cujos desdobramentos significativamente se estenderam a países como Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Peru, Bolívia, Venezuela, Costa Rica e México, citados no documentário escrito por Amália Corrêa de Carvalho e publicados em comemoração aos cinquenta anos da Escola de Enfermagem de São Paulo (1992, p. 42). O ativismo feminino avançou durante o período entreguerras.
No que se refere à experiência brasileira, a profissionalização considerada “padrão” atrelou a enfermagem a mitos contraproducentes interpretados negativamente em relação aos objetivos do PE. O antigo modelo não se coadunou com a política bilateral, tampouco com os interesses político-econômicos do Brasil e dos Estados Unidos, pois desse acordo derivou a modernização da rede de assistência à saúde das populações com geração de empregos em todo o território brasileiro, ampliando, exponencialmente, o consumo de produtos e de equipamentos hospitalares produzidos pela indústria americana (Gomes, 1998; Tota, 2000). Ainda assim, o lugar social da enfermagem como palco de uma política internacional possibilitou ao feminino atuações efetivas na prática médico-hospitalar em todo o Brasil, as quais foram fundamentais à manutenção da prática médica hospitalocêntrica e preventivista em um processo de realinhamento da história da saúde brasileira (Hochman; Fonseca, 2000).
Os múltiplos significados atribuídos às enfermeiras pós-1930 corroboraram a emancipação feminina no Brasil. As mudanças derivadas desse processo atingiram tanto o cotidiano vivido quanto o imaginário forjado, redimensionando o lugar do feminino na vida social mais ampla a partir da enfermagem, em um contexto no qual a entrada de mulheres na diplomacia encontrava restrições e impedimentos, seguindo tendências internacionais, conforme destacaram Karin Aggestam e Ann Towns (2019). Mesmo não atuando como diplomatas, as enfermeiras mobilizaram diplomaticamente a vida política brasileira a partir de redes transnacionais de mulheres (Zimmermann, 2016; Boris; Hoehtker; Zimmermann, 2018).
O PE permitiu novos impulsos à profissionalização, bem como à inserção do feminino em um campo de decisões político-administrativas internacionais relacionadas à saúde pública em todas as regiões do Brasil. Com efeito, noções como “modernização” e “nações amigas” ampliaram consideravelmente o mercado consumidor de produtos médicos em escala interamericana, contribuindo, ao mesmo tempo, para dinamizar a presença feminina no programa de modernização do estado nacional, em atividades sociais e institucionais nas quais elas imprimiram protagonismo, liderança e autoridade, em um contexto histórico singular da história das mulheres brasileiras em relação à prática médica e às políticas assistenciais (Martins, 2011; Mota; Marinho; Campos, 2015).
A atuação profissional em escala interamericana no campo da saúde pública exigiu deslocamentos consideráveis, portanto, enfermeiras usaram com frequência o avião como meio de transporte. Convocadas para viagens a outros países, ou ao interior do Brasil, em visitas técnicas às regiões de interesse dos Estados Unidos - sobretudo às regiões norte-nordeste, em estados como Amazonas, Pará, Bahia, além do Vale do Rio Doce, em Minas Gerais, do Rio Grande do Sul e Paraná -, transitaram por espaços masculinamente dominados, sendo legitimadas por suas atuações profissionais em políticas públicas como enfermeiras SESP (Bonini, 2014; Goulart, 2020; Santiago, 2011). Intelectuais, participaram como convidadas em eventos nacionais e internacionais nos quais disseminaram protocolos elaborados em cursos, reuniões, palestras, conferências, encontros diversos promovidos em escolas, universidades, associações, ligas, hospitais, programas de rádios, além de um amplo conjunto de material de divulgação, como o Boletim SESP, usado para o desmonte do antigo padrão profissional forjado nas origens da enfermagem moderna no Brasil (Mayberry; Baker, 2011).
Em sua trajetória na EEFMUSP, Ella Hasenjaeger instalou serviços de saúde no interior do estado de São Paulo e desenvolveu uma abordagem científica do cuidar-cuidado com projetos executados na Santa Casa de Misericórdia de Santos, no litoral paulista, estágios em hospitais psiquiátricos, como o Hospital Pinel, de Pirituba, e o Hospital de Juquery, em Franco da Rocha, ambos situados nas imediações da capital paulista. Suas ideias imprimiram disciplina acadêmica e rigor científico à formação profissional, instituindo, decisivamente, a nova orientação à enfermagem brasileira, vale dizer, acadêmica, científica, em consonância com o que havia de mais moderno na prática médica (Carvalho, 1980b).
A atuação da consultora consubstanciou seu lugar de destaque no PE, revelado em relatórios encaminhados por enfermeiras americanas que atuaram em diferentes escolas de enfermagem brasileiras e remetidos a Miss Ella, a partir dos quais, por sua vez, ela elaborava um único documento, encaminhado à FR. Durante sua permanência na EEFMSUP, em seus relatórios-síntese, pontuava mensalmente, em uma ordem que se repetia, o número de ingressantes em cursos de graduação, os avanços alcançados por escolas atendidas, os projetos realizados ou em desenvolvimento discutidos em encontros e reuniões associativas. No “Relatório 111”, por exemplo, destaca a relevância do Primeiro Congresso Brasileiro de Enfermagem, que ela estrategicamente liderou, organizado por docentes da EEFMSUP, em outubro de 1947, momento em que ocorreu a inauguração de parte do prédio modernista que alterou a arquitetura hospitalar brasileira (Amora; Costa, 2019; Miura, 2011).
Crucial para o discurso em torno do estado moderno, o PE consagrou a definição do modelo de prestação de serviços públicos de saúde voltados à população brasileira com significativo fortalecimento do poder público (Fonseca, 2007; Moreira, 1999). A permanência de Miss Ella em São Paulo, bem como a construção da EEFMUSP, indicaram o potencial do estado para o desenvolvimento do PE, vale dizer, da reorganização da formação profissional da enfermagem brasileira. Como reiterou a historiografia, a cidade emergiu como núcleo importante no âmbito das relações historicamente estabelecidas com a FR no campo da saúde, a partir da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, que manteve anexa a EEFMUSP de 1942 a 1963 (Marinho, 2001; Mehry, 1985; Santiago, 2011).
Diante desse quadro político e ideológico, o novo modelo anulou princípios norteadores da profissão anteriores a 1930, pois estavam adequados única e exclusivamente às mulheres de classes médias urbanas brancas e privilegiadas, rapidamente absorvidas em espaços hospitalares consolidados nas grandes capitais ou em setores específicos da administração pública (Ferreira; Salles, 2019; Martins, 2011). Fundado no feminino, o amplo projeto de reformulação profissional destituiu simbolismos atribuídos à “enfermeira-padrão”, espraiando-se da cidade de São Paulo para o Brasil, ainda que cidades como Niterói, Rio de Janeiro, Goiânia, Manaus, Belém, Santarém, Salvador e Itabira - nesse caso, devido à assinatura do decreto-lei que criou, em 1942, a Companhia Vale do Rio Doce para fornecimento de matéria-prima às empresas siderúrgicas de interesse dos Estados Unidos - tenham sido mencionadas no “Relatório 111”.
Nessa vertente, novos postos de trabalho voltados à saúde das populações adensaram a capacidade assistencial da enfermagem e das políticas públicas gestadas no governo de Getúlio Vargas. Como um campo profissional que agregou enormes contingentes de trabalhadores, em especial, mulheres em altos cargos no governo federal, estadual e municipal, a enfermagem assumiu tanto a administração quanto o planejamento em áreas vitais ao desenvolvimento da prática médica hospitalar em todo o território nacional pós-1930.
“NURSES ADVISORS”: LIDERANÇA FEMININA E ENFERMAGEM BRASILEIRA PÓS-1930
Ao propor a modernização do País, o programa político varguista procurou imprimir visibilidade distinta à nação, como desvinculada das faltas existenciais e institucionais que inferiorizaram o Brasil e os brasileiros. Em São Paulo, o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, que manteve a EEFMUSP anexa institucionalmente em sua primeira fase, reverberou impactos do processo de intervenção americana na implementação de instituições de saúde na capital paulista e alhures (Mott; Sanglard, 2011). A enfermagem, em suas novas dimensões, ampliou acordos movidos entre Brasil e Estados Unidos em relação à saúde pública, uma vez que era considerada prioritária ao bem-estar da população no continente americano e ao desenvolvimento físico e intelectual das “nações amigas”, como destacou Antônio Pedro Tota (2000).
A mudança na formação e na orientação profissional da enfermagem imprimiu novas possibilidades de atuação no campo médico-hospitalar como, por exemplo, na compra de produtos médico-cirúrgicos, na aquisição de equipamentos de proteção individual, na utilização de fármacos que engendraram uma infinidade de produtos usados por trabalhadores da saúde no exercício de suas funções. Novas tecnologias hospitalares e farmacológicas ampliaram enormemente os consumos, nesses termos, formalizados a partir de protocolos firmados em agenda sanitária pan-americana, que conferiam poder de decisão à enfermagem tanto em relação à autonomia institucional hospitalar quanto universitária, como os esforços liderados por Maria Rosa Sousa Pinheiro e Glete de Alcântara, que permitiram a desanexação da Escola de Enfermagem da Faculdade de Medicina, em 1962, oficializada em 1963 (Santiago, 2011).
O inventário das consultoras americanas realizado por Barbara Bonini (2014) reiterou a representatividade feminina em um processo histórico considerado como terceira onda da profissionalização da enfermagem no Brasil. O PE propôs a construção de polos irradiadores do novo ensino de enfermagem administrados por enfermeiras graduadas em escolas fundadas e apoiadas pelo IAIA-SESP, destacadamente a EEFMUSP, mas também a tradicional Escola Luiza de Marillac, de orientação religiosa católica, no Rio de Janeiro, e a Escola de Niterói, atualmente Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, da Universidade Federal Fluminense (EEAAC/UFF), criada em 1942 pelo PE.
Além de Ella Hasenjaeger, o inventário das enfermeiras americanas desvelou a participação de Agnes Stewart Waddell Chagas, Alice Marcella Fay, Anna Matter, Anne Shaw Wells, Appolonia F. Olson Adams, Beatrice Louise Lennington, Berenice Herreid, Carol H. Reno Teixeira, Catarine M. Kain, Clara Louise Kieninger, Clara Walter Curtis, Celestine Wesnofske, Dolores M. Keese, Dorothy Doyle Watts, Elizabeth Waterbury, Elizaberth Reed, Eunice Herreid, Florence Murphy, Gladys A. Lee, Gertrude M. Hodgman, Helen Bouneau, Irene Weed, Lottie Chaikin Plaut, Lucy Goedert, Mabel Jhonson, Margareth Albold, Mary Frances Frazier, Millie M. Quass, Rosita V. Putegnat, Ruth J. Smith, Sue Nickerson, Tessie Fern Williams, Vera B. Frazer e Verna Rogier como “Nurses Advisors” que participaram do PE implementado pelo SESP no Brasil (Bonini, 2014).
Entre as consultoras técnicas que atuaram em escolas do Rio de Janeiro, o “Relatório 111” destacou Irene Weed como “Public Health Nursing Service in Niteroi”, ou “Aid of the School of Nursing of Niteroi”, e Catherine M. Kain como “Aid to the School of Nursing in Niteroi”, ou “Aid of Catholic Schools of Nursing”. Ambas as enfermeiras encaminharam relatórios para Ella Hasenjaeger, nominada como “Aid to the School of Nursing of the University of São Paulo”, ou “Nursing Training Division of S.E.S.P.”, sinalizando o lugar de destaque assumido no PE a partir de relatórios-sínteses enviados a Clara Walter Curtis, nominada “Chief Nurse Brazil Party” da FR.
A nova enfermagem materializou o discurso de Getúlio Vargas como “pai dos pobres”. Ao inserir contingentes significativos de enfermeiras ao serviço público, principalmente mulheres oriundas de classes sociais menos favorecidas, sem distinção de raça e de gênero, o PE disseminou o novo ensino, preparou mão de obra qualificada exigida por instituições e unidades de saúde construídas para esse fim em todo o território nacional, gerou postos de trabalho mantidos pelo Estado e atendeu, desse modo, aos propósitos da cooperação interamericana bilateral. Em carta anexada entre documentos do “Relatório 111”, endereçada ao International Council of Nurses (ICN), sediado em Genebra, Suíça, Miss Ella assim avaliou os desdobramentos desse processo:
We in Brazil, are grateful too, for recent help we have received through your nurses representatives sent to us through our cooperative Governmental projects under the Institute of Inter-American Affairs, and Special Department Health in Brazil. Without the help of activities of this cooperative project we could not have realized some of our most recent successful accomplishments such as the Home for the School of Nursing under the University of São Paulo, the School of Nurses the State of Rio de Janeiro, the health centers and hospitals established in the Amazonas and Rio Doce Valley (Hasenjaeger, 1947, p. 2).
A exigência de mão de obra qualificada implicou o desmonte do antigo padrão, pois a realidade vivida anteriormente colaborava para caracterizar o subdesenvolvimento do Brasil. A partir da falta de assistência médico-sanitária, de profissionais enfermeiros e de espaços hospitalares, usados como critérios à permanência e à ampliação de apoios por agências governamentais e filantrópicas americanas financiadoras de altos investimentos na saúde pública, o campo movimentou elevadíssimos valores destinados a São Paulo pela FR (Castro Santos; Faria, 2010; Marinho, 2001). Os acordos incluíram formação profissional, construção de escolas e de hospitais, ampliação da engenharia sanitária, instalação de bases de atendimento médico-hospitalar, apoio a institutos de pesquisa nas regiões Norte e Nordeste, além da ampliação de recursos humanos qualificados, anunciados massivamente como essenciais ao desenvolvimento de uma rede assistencial institucional renovadora do Estado nacional, no caso, modernizado por intermédio da saúde pública, da engenharia sanitária, da prática médica hospitalocêntrica e preventivista, ainda que excludente e discriminatória (Paim; Almeida Filho, 1998).
Os emblemas erigidos em torno dos mitos forjados ao ensino da enfermagem anterior a 1930 negligenciaram a atuação de mulheres tipicamente brasileiras, em especial, moças pobres, pretas e pardas, historicamente invisibilizadas, ainda que existentes na história da enfermagem profissional e pré-profissional. Os indícios históricos e sociais que emergiram do “Relatório 111” desvelaram que mudanças impostas pelo PE não ocorreram sem enfrentamentos às hostilizações, mas que, mesmo assim, foram diplomaticamente solucionadas, ainda que valores e costumes racistas atingissem mentes, corpos e comportamentos dos profissionais de saúde, não somente da enfermagem (Tarelow; Souza Campos, 2023).
As tensões entre antigas e novas líderes da enfermagem no Brasil foram femininamente abafadas com o evento realizado por docentes da EEFMUSP, em 1947. Apoiado por organizações internacionais reconhecidas, como o ICN, ligado à Organização Mundial da Saúde (OMS), o Primeiro Congresso Brasileiro de Enfermagem legitimou a transferência do movimento associativo do Rio de Janeiro para São Paulo, vale dizer, à Associação Brasileira de Enfermeiras Diplomadas - ABED (Takashi, 2011), o que aconteceu igualmente no que diz respeito à responsabilidade editorial dos Annaes de Enfermagem, primeiro periódico da enfermagem no Brasil, liderado, nessa transição, por Glete de Alcântara. O evento consubstanciou a inauguração do icônico prédio modernista (Miura, 2011) e reverberou a enfermagem brasileira em escala global. Tal ação minou qualquer possibilidade de recusa ao processo de renovação da identidade profissional por parte das antigas líderes vinculadas à hegemonia do “padrão Anna Nery”, impeditivo ao ingresso de homens e de mulheres na profissão, e que forjava um contingente tecnicamente ultrapassado.
O ensino preconizado por universidades americanas de cidades como Philadelphia, Boston, Minneapolis, Pittsburgh, Chicago e New York, visitadas por Edith de Magalhães Fraenkel em 1940, inspiraram a formação de enfermeiras graduadas pela EEFMUSP. A primeira turma contou com 16 alunas, oito das quais contempladas com bolsas de estudos nos Estados Unidos, em 1946, realizando estudos pós-graduados nas mesmas instituições, retornando ao Brasil com títulos de mestres. Contratadas, as tituladas adensaram o grupo de mulheres que formalizaram o primeiro corpo docente da EEFMUSP, em parceria com a diretora Edith de Magalhães Fraenkel e Maria Rosa Sousa Pinheiro, vice-diretora, além de Yolanda Lindenberg Lima, Zélia Constantino de Carvalho, Ruth Borges Teixeira, Haydée Guanais Dourado, Glete de Alcântara e Clarice Della Torre Ferrarini, nesse caso, colaboradora na supervisão em estágios no Hospital das Clínicas, mulheres que atuaram lado a lado com médicos e que ocuparam cargos importantes na Faculdade de Medicina (Secaf; Costa, 2007; Souza Campos; Oguisso, 2013).
Composto por enfermeiras de origens institucionais diversas, com experiência docente anterior em organismos internacionais e com estudos realizados nos Estados Unidos, as primeiras professoras da EEFMUSP fizeram do novo espaço de formação profissional o mais moderno e atualizado do Brasil. Voltada às novas diretrizes da prática médica hospitalocêntrica, a formação profissional refletiu paradigmas técnicos da saúde pública preconizada nos Estados Unidos, que redefiniram “as diretrizes da teoria e prática no campo da saúde social no mundo ocidental” (Paim; Almeida Filho, 1998, p. 303), disseminando, não obstante, o imperialismo americano por meio do “American way of life”.
A participação de Miss Ella, mestre em enfermagem pelo Teacher’s College, Columbia University, New York, contribuiu significativamente para as mudanças no ensino da enfermagem brasileira pós-1930, reiterando o que divulgou o slogan “a doença não conhece fronteiras”, impresso no Boletim do SESP. Mesmo considerando a existência de interesses econômicos imperialistas, o impacto provocado por sua influência demarcou um novo capítulo da história das mulheres no Brasil. O movimento encetado pelo IAIA-SESP e financiado pela FR alterou o ensino da enfermagem, inseriu homens na profissão e permitiu às mulheres negras seus lugares como enfermeiras. Tais mulheres, como “ilustres inominadas”, atuaram poderosamente no Amazon Program, protagonizando a história da saúde em escala pan-americana como diretoras em instituições de ensino superior públicas, como professoras, pesquisadoras e instrutoras em programas de saúde. Suas trajetórias redimensionaram o papel da mulher na enfermagem brasileira a partir da cooperação interamericana em torno do PE (Souza Campos; Oguisso, 2013).
O movimento de cooperação internacional propiciou ascensão social e mobilidade às mulheres de diferentes regiões do Brasil, mas não sem hostilizações. A produção acadêmica revelou humilhações que atingiram estudantes negras expostas ao racismo científico, segregadas frente aos privilégios de moças brancas selecionadas para estudos pós-graduados nos Estados Unidos, cujos retornos às cidades de origem, cláusula do Termo de Outorga ao término da formação em enfermagem em São Paulo, foram seguidos à risca. Ainda assim, com efeito, o PE possibilitou às mulheres negras retomarem seus lugares no âmbito da enfermagem profissional, pois, na dimensão das artes de curar, sempre foram protagonistas (Mott, 1999; Mota; Pimenta, 2022).
Ella Hasenjaeger permitiu às alunas de escolas diversas instaladas no Brasil a participação como “alunas especiais” em atividades desenvolvidas na EEFMUSP, bem como às oriundas de diferentes países da América Latina, como afirmou Amália Correia de Carvalho (1992), com a implantação da prática identificada como “sistema de filiação”. O programa recebeu alunas para estágios e cursos rápidos promovidos em áreas desmerecidas ou inovadoras, como psiquiatria, epidemiologia, doenças transmissíveis e em todas as clínicas médicas, cujo reconhecimento foi disseminado por egressas desse importante esforço feminino de retomada da enfermagem brasileira2.
O “Relatório 111”, encaminhado pela Nursing Training Division of SESP ao Nurse Brazil Party da FR, em 1947, permitiu observar como as enfermeiras pautaram ações decisórias em relação à carência de profissionais e outras demandas existentes no âmbito da saúde pública no Brasil, exigindo da cooperação interamericana resolutividade em decisões por elas demandadas. Todos os acontecimentos foram documentados com orientação centrada no registro de ações das Nurses Advisors, como comprovação dos progressos alcançados pelo PE, sempre nessa perspectiva.
Os relatórios mensais que formalizaram o “Relatório 111” seguiram um padrão que se repetia. Datilografados em língua inglesa, demarcaram pontos de interesse específico das escolas atendidas pelo PE: o movimento associativo, as visitas técnicas a locais de interesse americano em regiões nas quais o SESP construiu ou apoiou escolas de enfermagem, especialmente no Amazonas, a implantação de cursos de treinamento rápido, indicando, ainda, o número de graduados, as solicitações de verbas para materiais de ensino e pesquisa, a necessidade de aquisição e de publicação de referências bibliográficas, além de correspondências e de ofícios institucionais com demandas internas, como, por exemplo, a imperiosa ampliação dos quadros profissionais:
At present there are about 700 graduate nurses for a population of about 47 million, distributed over an area of 3.386.000 square miles. Which means it is 3 times larger than Argentina, and equal to the United States in size, with an addition of the state of Texas. It is interesting to note that of the approximate 500 graduate nurses employed at present, 250 are employed in public health nursing distributed from the Amazonas to the Rio Grande do Sul, a distance of about 4.000 miles. The remaining 250 are almost exclusively, serving in Schools of Nursing (Hasenjaeger, 1947, p. 5).
Miss Ella empregou o modelo de organização e administração de escolas para enfermeiras americanas pautado no Guia Curricular para Escolas de Enfermagem, originalmente publicado sob a denominação de A Curriculum Guide for Schools of Nursing, editado em 1917, publicado como segunda edição em 1927, e como terceira edição em 1937 (Souza Campos; Oguisso, 2013). Preparado pela Comissão de Currículo da Liga Nacional de Educação em Enfermagem, o material norteou pedagogicamente a reorganização do ensino da enfermagem em perspectiva alinhada ao Relatório Flexner, como paradigma que norteou a prática médica a partir dos Estados Unidos (Paim; Almeida Filho, 1998).
Publicações importantes, como A Practical Devise for Their Use, de 1927, Scarlet Fever Immunization, de 1936, The Subsidiary Worker, de 1938, Textbook for Male Practical Nurses, de 1941, bem como o livro Assepsis in Communicable Disease Nursing: Principles and Practice as Applied in a Communicable Disease Hospital, editado originalmente, em 1944, pela editora Lippincott, Philadelphia, destacaram a notoriedade e a importância de Ella Hasenjaeger no desenvolvimento da enfermagem. No Brasil, fundamentalmente, Ella atuou na organização de enfermarias para doenças contagiosas e tropicais no Hospital das Clínicas, e na implantação de escolas de enfermagem e estágios em hospitais, em diferentes estados, com uma atuação poderosa na reorganização da ABED.
A EEFMUSP, por intermédio da consultora, desenvolveu o modelo de ensino fundado na pesquisa científica do processo saúde-doença e na internacionalização da formação em enfermagem com recursos financeiros oriundos da FR, que garantiram o alcance dos objetivos do PE. Nesse diapasão, a nova enfermagem emergiu reorganizada por enfermeiras lideradas por Miss Ella, cujas ações ampliaram o lugar das mulheres na história das ciências da saúde, expandindo suas atuações na vida acadêmica brasileira como cientistas, no caso, a partir da Universidade de São Paulo. O “Relatório 111” permitiu entrever os alcances desse amplo projeto instaurado no Brasil:
In conclusion it would seem that the cooperative Governmental project which through the Serviço Especial de Saúde Pública constructed this Nursing School and residence added much to stimulate the interest of highly education young women in to nursing. If this schools continues to grow and develop its young graduates into the real value of an intelligent informed nursing service group, our next report for the International Congress of Nursing will show great improvement, as will the nursing service for Brazil be improved. Now, there is in evidence that this is the best school in Brazil. We hope this will not affect those beginning, by thinking they are so good, they don’t need more preparation. This attitude is not in evidence as whole among of graduates of our school. We want to send a number off for advanced educational programs to the States and England, since England has offered some “bolsas”. Respectfully submitted. December, 3rd, 1947 (Hasenjaeger, 1947, p. 2).
Mulheres de todas as regiões do Brasil foram formadas como enfermeiras em uma das mais importantes instituições universitárias da América do Sul, elevando, sobremaneira, o status profissional da profissão a partir de São Paulo e o seu lugar no campo das ciências da saúde, como cientistas vinculadas à Universidade de São Paulo. Edith de Magalhães Fraenkel, por ocasião da cerimônia solene de despedida da consultora americana na EEFMUSP, assim caracterizou sua atuação:
Consultora de enfermagem desta Escola, desde 1944, foi para nós mais que uma simples representante da política de Boa Vizinhança. Integrou-se ao grupo que se propunha não a discutir diplomas, mas a formar verdadeiras enfermeiras. Foi, nesse grupo, sempre força estimulante, e sua benéfica influência se fez sentir não só em São Paulo, como em quase todos os Estados do Brasil (Carvalho, 1980a, p. 49).
A liderança paulista, consubstanciada por ações que marcaram a trajetória de Ella Hasenjaeger, efetivou a ruptura com o antigo padrão e projetou a enfermagem brasileira ao âmbito da diplomacia, das relações internacionais. A transferência da ABED e do periódico Annaes de Enfermagem para São Paulo fortaleceu o aumento expressivo de enfermeiras paulistas em suas publicações como autoras, editoras, tradutoras e membros consultivos, reforçando as bases acadêmicas e associativas da nova enfermagem no Brasil pós-1930, centrada na EEFMUSP. O PE atribuiu novo significado à profissão, projetou mulheres na diplomacia internacional, nas organizações bilaterais e nas políticas públicas de saúde.
A história das mulheres fundou novo domínio e ressignificou o viés unitário recorrente em um tipo específico de historiografia, vale dizer, ocidental e colonialista. A mudança paradigmática no campo da pesquisa em história revisitou o conceito central de gênero e questionou esquemas historicamente aceitos no entorno de experiências vividas femininamente, no caso, durante o processo histórico da profissionalização em enfermagem, considerado divisor da formação profissional brasileira, parte da história das mulheres nas relações internacionais no século XX. Ao evocar atuações de enfermeiras, as considerações aproximaram saberes julgados em separado, fortaleceram a importância da pesquisa interdisciplinar entre história e saúde e, desse modo, tornaram possível a análise da colaboração da enfermagem no processo de emancipação feminina, derivado do projeto de modernização do Estado nacional, desencadeado durante o governo de Getúlio Vargas. As enfermeiras avançaram a história das mulheres no Brasil.
O PE amalgamou usos e abusos de propósitos políticos de Getúlio Vargas durante o Estado Novo. Influências americanas e a necessidade de inclusão de mulheres no universo do trabalho urbano mantiveram o plano de expansão da enfermagem como prioritário à organização de instituições públicas de saúde, as quais, não obstantes, foram estabelecidas segundo o interesse econômico americano. Sobretudo, as atividades descritas no “Relatório 111” permitiram considerar a primazia de Ella Hasenjaeger na reestruturação da enfermagem brasileira pós-1930 como movimento feminino-feminista que reorientou o exercício da enfermagem, marcando a geração de uma nova liderança genuinamente brasileira, projetando mulheres como intelectuais vinculadas à Universidade de São Paulo.
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1
Outras escolas foram apoiadas pelo SESP como parte dos acordos bilaterais entre Brasil e Estados Unidos, incentivados financeiramente por organismos internacionais. A retomada da enfermagem pós-1930 demarcou a fundação da Escola de Enfermagem de São Paulo, em 1942, bem como, no mesmo ano, da Escola de Enfermagem do Estado do Rio Janeiro, localizada em Niterói, da Escola de Enfermagem de Manaus, em 1946, primeira da região amazônica, da Escola de Enfermagem de Recife, em 1949, no estado de Pernambuco, da Escola de Enfermagem de Porto Alegre, em 1950, no estado do Rio Grande do Sul, além da Escola de Enfermagem da Universidade da Bahia, em Salvador, com atuação direta de Miss Ella “atendendo ao pedido do Reitor” (Carvalho, 1992, p. 41).
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2
A nova orientação profissional espelhou a construção da Escola de Enfermagem da Bahia, com importante atuação de Maria Ivete Ribeiro de Oliveira, aluna da EEFMUSP por meio do “sistema de filiação”; da Escola de Enfermagem da Universidade do Amazonas - EEAM, com Josephina de Melo, nascida em Barbados, Caribe; da histórica Escola de Enfermagem Alfredo Pinto - EEAP, atualmente Escola de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UNIRIO, com Lydia das Dores Mata, nascida em Belém, Pará, do mesmo modo que Wanda de Aguiar Horta, egressa que alcançou pioneiramente a Livre Docência na EEUSP, em 1974, e o título de Professora Titular, em 1977, todas Bolsistas SESP. Nessa transição, Taka Oguisso, aluna do primeiro curso de pós-graduação da EEFMUSP, foi contratada como professora e atuou no ICN junto à América Latina e à África (Secaf; Costa, 2007; Souza Campos; Oguisso, 2013).




Fonte:
Fonte: Centro Histórico-Cultural da Enfermagem Ibero-Americana (
Fonte: Biblioteca da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (