Open-access Centésimo número da Revista Brasileira de História

Chegamos ao final de 2025 alcançando marcos particularmente significativos para a Revista Brasileira de História (RBH). Concluímos o v. 45 com a publicação de dois dossiês de grande relevância e rigor acadêmico, Fronteiras Digitais da Historiografia e História das Mulheres nas Relações Internacionais no Século XX, que reafirmam o compromisso da RBH com a renovação temática, metodológica e interpretativa do campo. Esta edição assinala também o início dos trabalhos da nova gestão, iniciada em agosto, que assume a condução do periódico com profunda consciência da responsabilidade de dar continuidade à trajetória de excelência construída pelas colegas e pelos colegas que nos antecederam. Recebemos essa missão com honra, entusiasmo e senso de compromisso público. O Conselho Editorial eleito para este ciclo reúne pesquisadoras e pesquisadores altamente qualificados, cuja dedicação cotidiana tem sido fundamental para o fortalecimento das práticas editoriais e para a manutenção do elevado padrão acadêmico da revista. É um privilégio contar com a parceria de um grupo tão competente e comprometido com o aprimoramento permanente da RBH.

Cabe registrar, de modo especial, a competência, a gentileza e a generosidade da professora Sônia Meneses, editora da gestão que se encerrou. Sua colaboração foi - e continua sendo - decisiva para que pudéssemos nos familiarizar rapidamente com os fluxos e desafios da rotina editorial, nos indicando as dificuldades a serem enfrentadas e sugerindo caminhos possíveis. Neste primeiro editorial da nova gestão, queremos também agradecer e reconhecer o trabalho de todas e todos que garantem o funcionamento cotidiano da RBH. Destacamos, em particular, a atuação de nosso assistente editorial, Marcus Vinícius, cujo zelo, competência e comprometimento sustentam uma parte substancial das atividades editoriais e contribuem de maneira inestimável para a qualidade do periódico.

A publicação do centésimo número da RBH constitui não apenas a celebração da longevidade de um periódico acadêmico, mas um acontecimento historiográfico em si. Criada em 1980, no âmbito da Associação Nacional de História (ANPUH), durante a gestão da professora Alice Piffer Canabrava (FEA-USP), teve seu primeiro número lançado em 1981, já na gestão do professor José Ribeiro Júnior. Desde sua criação, a RBH assumiu a dupla tarefa de divulgar os resultados mais expressivos da pesquisa histórica, servindo como referência para a evolução do debate historiográfico nacional e para o fortalecimento da circulação do conhecimento histórico no circuito internacional. A reunião que deu origem à sua criação ocorreu na residência da professora Alice Piffer Canabrava (FEA-USP), primeira diretora responsável pela revista e uma das mais importantes historiadoras do país, referência nos estudos sobre história econômica no período colonial, que teve destacada atuação no processo de institucionalização da pesquisa acadêmica, participando ativamente das diretorias da Associação Nacional de História desde sua fundação, em 1961, chegando à presidência da associação no biênio 1979-1981. Foi idealizada com o intuito se substituir os anais da associação, publicados até 1978.

No editorial da primeira edição da revista, Alice Canabrava destacava que o lançamento da Revista Brasileira de História, justamente no ano em que a ANPUH completava duas décadas de existência, era um fato “auspicioso”, destacando que a revista se dedicaria não apenas à divulgação de “artigos originais sobre pesquisas de História ou de seu interesse”, mas também “à atualização permanente com respeito à bibliografia histórica” e também a um “noticiário” que visava “tornar mais conhecida a atividade dos Núcleos Regionais, dar maior visibilidade aos conclaves de História realizados no país e no exterior e outros assuntos de interesse”. A revista adotava uma periodicidade semestral e distribuição gratuita entre os associados. Canabrava também destacava as dificuldades na manutenção de um periódico “destinado a um público especializado”, mas acreditando no “idealismo dos professores, idealismo nutrido por trabalho incansável” (Canabrava, 1981, p. 9).

Podemos considerar que foi justamente em função do idealismo e da dedicação de editoras e editores, autoras e autores, pareceristas, revisores, assessores e de todas as diretorias da ANPUH que a revista não apenas conseguiu se manter em funcionamento por mais de quarenta anos como também se consolidou como um dos mais importantes periódicos na área de História. Esse gesto fundador ecoa concepções como as de Pierre Nora, para quem instituições e artefatos intelectuais funcionam como “lugares de memória”. Neste sentido, a RBH pode ser considerada um lugar de memória da historiografia brasileira. Para os associados mais antigos, a lembrança de receber o volume da Revista Brasileira de História permanece com o saudosismo de relembrar a ansiedade em saborear aquele volume recém-chegado.

Em setembro de 1983, a revista anunciava uma nova fase: considerando a necessidade de atingir um maior público e as crescentes dificuldades financeiras em manter uma tiragem restrita a 500 exemplares, a diretoria da associação decidiu ampliar a tiragem para cerca de dois mil exemplares e comercializar os exemplares excedentes nas livrarias. Tais reformulações foram propostas pelo Conselho da Redação da RBH, formado pelos professores Edgar Salvadori de Decca, José Jobson de Andrade Arruda e Marcos Antônio da Silva. A revista ainda reestruturava o ordenamento de seus textos e iniciava uma fase marcada pela organização de números temáticos, com chamadas para que os associados da ANPUH e demais pesquisadores enviassem seus trabalhos. Nesta edição, apresentava um dossiê temático intitulado “À luta, trabalhadores!”, com textos de Peter Linebaugh, Edgar de Decca entre outros (Revista Brasileira de História, 1983).

A Revista nasce em um contexto marcado pelo processo de abertura política e pela lenta e complexa transição rumo à redemocratização do país, momento em que diversos setores da sociedade brasileira expressavam anseios vigorosos de participação, revisão crítica do passado e reconstrução institucional. Trata-se de um período em que se adensam os debates sobre os direitos sociais e as lutas dos movimentos sociais. Neste contexto, o surgimento da RBH representou não apenas a criação de um espaço editorial comprometido com a pesquisa histórica, mas também a realização de um projeto coletivo de historiadoras e historiadores. No ano de 1994, tendo a professora Maria de Lourdes Janotti como editora responsável, a revista publicou o número temático com o título Brasil 1954-1964, propondo-se a realizar um “balanço reflexivo sobre a historicidade das forças sociais da época” (Conselho Editorial, 1994a, p. 2). Nas edições seguintes, a revista passou a buscar uma abrangência mais “plural”, como se percebe no título da edição n. 28, denominada “Espaço Plural”. No editorial, o Conselho Editorial deixava clara essa mudança, ao informar que a revista “deixou de ser exclusivamente restrita a uma única temática, assumindo um novo perfil que pretende expressar, de forma mais abrangente, diferentes tendências da produção de nossos associados e de colaboradores estrangeiros” (Conselho Editorial, 1994b).

Desde seus primeiros números, a RBH representou um ponto de inflexão na historiografia nacional, ao promover a aproximação entre a produção brasileira e os debates internacionais que então ganhavam centralidade nas universidades europeias e norte-americanas. A revista tornou-se um canal privilegiado de circulação de novos temas, abordagens e metodologias, contribuindo para ampliar o repertório da disciplina no Brasil. Ao mesmo tempo, abriu espaço para temas historicamente invisibilizados ou marginalizados nos currículos e nas agendas de pesquisa - a exemplo de História Social do Trabalho, História das Mulheres, História Indígena, História da Escravidão, História da Ditadura Militar, entre outros -, incorporando sujeitos, experiências e conflitos sociais pouco contemplados pela historiografia tradicional.

Nos anos 1990, a RBH passou por um processo de profissionalização fundamental. A expansão dos programas de pós-graduação - acompanhando o crescimento da universidade pública brasileira - demandou revistas com padrões editoriais mais rigorosos. A institucionalização da avaliação cega por pares, a formalização de diretrizes editoriais e a consolidação dos dossiês temáticos transformaram a RBH em referência nacional. O ingresso no SciELO ocorre a partir do v. 17, n. 34, no ano de 1997, durante a gestão da professora Tania Regina de Lucca, representando um marco decisivo para a revista. O acesso aberto ampliou a circulação internacional e democratizou o acesso ao conhecimento histórico. Na apresentação do n. 36, o Conselho Editorial alertava para os novos desafios enfrentados pela revista, com a ampliação da demanda pela publicação de textos e as dificuldades financeiras que a acompanhavam ao longo destas décadas

Ao longo dos anos, a Revista Brasileira de História ganhou projeção nacional, tendo publicado artigos que enriquecem nossa cultura historiográfica, alargam os horizontes desta produção, contribuem para redefinir seus sentidos. Se, por um lado, este fato expressa tanto a vitalidade da pesquisa histórica brasileira quanto o reconhecimento da RBH na comunidade científica; por outro, a grande quantidade de artigos que a revista tem recebido ocasionou um desmesurado aumento no número de páginas, colocando um novo desafio para o Conselho Editorial, ainda mais agravado pela diminuição das verbas provenientes das agências financiadoras (Conselho Editorial, 1998).

Nos anos seguintes, esta diversificação temática e epistemológica continuou sendo uma marca da revista, que se dedicou a explorar e acolher campos que passaram a ter vigoroso destaque, tais como história indígena, história ambiental, história das emoções, história global, história da ciência e história do tempo presente. Ao alcançar sua quinquagésima edição, o editorial da revista comemorava “sua importância sedimentada na área e suas contribuições para a produção historiográfica” (Conselho Editorial, 2005, p. 7). Mesmo tendo ingressado no SciELO, em 1997, a RBH manteve por anos a tradição de publicar a sua edição física, enviada por correio para seus associados. Em 2009, em virtude de decisão tomada na Assembleia Geral da ANPUH, realizada em Fortaleza, em julho daquele ano, a RBH publicou seus últimos números impressos e, a partir do v. 30, lançado em 2010, deu início a uma nova fase, na qual a publicação passou a ser exclusivamente digital. No editorial do último número impresso da revista, já na gestão da professora Marieta de Moraes Ferreira, o Conselho Editorial explicava essas mudanças:

Adotar esse formato representa uma nova etapa na história da RBH. Nossa tradição historiográfica de valorização dos textos e arquivos em papel nos faz temerosos desses novos suportes da escrita. No entanto, as aceleradas transformações sofridas pelo mercado editorial na atualidade implicam uma tendência crescente à digitalização dos periódicos (Conselho Editorial, 2009, p. 257).

Mais recentemente, em meio à pandemia de COVID19 e diante de um cenário de profundas ameaças à democracia, da ascensão da pós-verdade, do negacionismo e das disputas políticas pela memória, a RBH assumiu, de forma corajosa e altiva, papel explícito de defesa da ciência histórica, como demonstra a publicação do dossiê Negacionismos e usos da História (Valim; Avelar; Bevernage, 2021). No editorial do n. 84, escrito em plena pandemia, tendo o emblemático título “Publicar em defesa da ciência e da democracia”, o então editor Valdei Araujo destacava o agravamento do “cenário hostil de ataques à ciência e à historiografia” e denunciava, de forma corajosa: “os ataques do atual governo federal aos historiadores, às humanidades e às ciências de modo geral não só continuam como vêm se aprofundando de modo assustador” (Araujo, 2020, p. 7).

O centésimo número da RBH é, portanto, mais do que uma celebração: é compromisso ético, político e intelectual. É ato de afirmação da disciplina histórica e resultado do trabalho de gerações de historiadoras e historiadores que não apenas construíram essa revista, mas consolidaram a disciplina histórica neste país. É o resultado da crença de que as revistas acadêmicas desempenham papel fundamental na defesa da ciência, e de que o conhecimento histórico é um bem público. Nesses quarenta e quatro anos, a RBH manteve um compromisso ético e intelectual com as responsabilidades de seu tempo, assumindo com coragem e determinação posições firmes diante de crises institucionais, de ameaças à democracia e de investidas contra a produção do conhecimento científico. Neste sentido, a RBH tem demonstrado, ao longo de sua trajetória, um compromisso inequívoco com a defesa dos princípios basilares da pesquisa histórica, sustentando, de modo coerente, uma abordagem crítica e autônoma em defesa da pluralidade interpretativa e da justiça social.

Neste sentido, em sua centésima edição, a revista busca celebrar parte desta trajetória ao trazer para este número entrevistas e depoimentos de ex-editoras e editores, pessoas que contribuíram firmemente com os princípios éticos e profissionais destacados ao longo deste breve editorial e presentes em toda a trajetória do periódico. Infelizmente, não foi possível contemplar todas as pessoas que contribuíram com a revista neste número: são muitas, e algumas delas já nos deixaram. No entanto, gostaríamos de deixar registrado nosso reconhecimento e nossa gratidão a todos que dedicaram um pouco de seu suor e de seu tempo para a criação, consolidação e constante aprimoramento da Revista Brasileira de História. Essa conquista é de toda a comunidade historiadora!!!

Referências

  • ARAUJO, Valdei. Editorial: Publicar em defesa da ciência e da democracia. Revista Brasileira de História, v. 40, n. 84, pp. 7-9, 2020.
  • CANABRAVA, Alice. A Associação dos Professores Universitários de História. Revista Brasileira de História, v. 1, n. 1, pp. 1-11, 1981.
  • CONSELHO EDITORIAL. Apresentação. Revista Brasileira de História, v. 14, n. 27, pp. 1-2, 1994a.
  • CONSELHO EDITORIAL. Apresentação. Revista Brasileira de História, v. 14, n. 28, pp. 1, 1994b.
  • CONSELHO EDITORIAL. Apresentação. Revista Brasileira de História, v. 18, n. 36, [n.p.], 1998.
  • CONSELHO EDITORIAL. Apresentação. Revista Brasileira de História, v. 25, n. 50, pp. 7-8, 2005.
  • CONSELHO EDITORIAL. Apresentação. Revista Brasileira de História, v. 29, n. 58, pp. 257-258, 2009.
  • Revista Brasileira de História, v. 3, n. 6, set. 1983.
  • VALIM, Patrícia; AVELAR, Alexandre de Sá; BEVERNAGE, Berber. Apresentação: Negacionismo: História, Historiografia e Perspectivas de Pesquisa. Revista Brasileira de História, v. 41, n. 87, pp. 13-36, 2021.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    26 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    2025
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