Open-access Os computadores, a internet e o futuro da história

Computers, Internet, and the Future of History

ROSENZWEIG, Roy. . Clio conectada: o futuro do passado na era digital. Tradução de Gil, Luis Reyes. . 1ª Ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2022.

O livro Clio conectada: o futuro do passado na era digital, do historiador norte-americano Roy Rosenzweig, fundador do Center for History and New Media da George Mason University1 - considerado um dos primeiros centros de pesquisa no mundo dedicados ao estudo da história digital -, chega ao Brasil com mais de uma década de atraso. Os textos reunidos nesse livro recuperam a efervescência da fase inicial dos debates em torno das relações entre a história e o mundo digital que emergiram na década de 1990. Embora tenha sido publicado nos Estados Unidos em 2011, o livro reúne textos que foram publicados originalmente entre os anos de 1994 e 2006, período em que os computadores e a internet somente haviam começado a ser plenamente incorporados ao cotidiano dos historiadores. A tradução tardia do livro revela, por sua vez, o crescente interesse que a história digital desperta entre os historiadores brasileiros.

Dos onze capítulos do livro, o autor Roy Rosenzweig figura como coautor em seis deles. Há também uma introdução, escrita por Anthony Grafton, que apresenta uma rápida trajetória da vida acadêmica de Rosenzweig, o que permite retraçar o seu engajamento e pioneirismo nos debates que aproximam tecnologia, internet e história pública. Em seu conjunto, todos os textos do livro se dedicam a interpelar o surgimento, o impacto, as transformações e as tendências do uso dos computadores e da internet na prática da história e, tal como o título do livro explicita, o futuro do passado na era digital. Dentre suas obras voltadas para esse campo de estudo destaca-se Digital History: A Guide to Gathering, Preserving, and Presenting the Past on the Web, publicado em coautoria com Daniel Cohen no ano de 2006.

No primeiro capítulo, intitulado “Escassez ou abundância? A preservação do passado”, Rosenzweig discute como os avanços tecnológicos fragilizam os registros históricos digitais, sobretudo quando inexistem políticas de preservação para o futuro. A superprodução desses registros no presente teria criado um paradigma que obriga os historiadores a migrarem “de uma cultura da escassez para uma da abundância” (Rosenzweig, 2022, p. 41). O problema dessa abundância é que não havia então - como hoje tampouco há - projetos para garantir que os dados digitais do presente, que porventura venham a se transformar em fontes históricas, permaneçam acessíveis no futuro. Nesse sentido, o autor indica a necessidade de uma mudança na formação dos historiadores para que consigam analisar registros históricos digitais em série, e que também assumam a “preservação do passado como uma responsabilidade pública” (Rosenzweig, 2022, p. 42).

Logo a seguir, no capítulo escrito com Daniel Cohen, “Rede de mentiras? O conhecimento histórico na internet”, são resgatadas algumas impressões dos historiadores da década de 1990, especificamente daqueles mais céticos em relação à utilidade da internet para o estudo da história. Em contraposição, os autores se alinham à posição defendida pelos cientistas da computação, que, a seu ver, reconheceriam o potencial da internet para propiciar uma “transcrição cada vez mais precisa do conhecimento humano” (Rosenzweig, 2022, p. 87). Postulando seu próprio contraponto aos procedimentos tradicionais da história, os autores criticam a busca de sentido e de sua manifestação exclusivamente por meio da prosa e apelam ao emprego e à incorporação também das linguagens numéricas e algorítmicas. Enquanto “cientistas da computação usam tecnologias digitais para encontrar rapidamente padrões significativos e com frequência sem intervenção humana”, os “cientistas humanos acreditam que suas disciplinas requerem uma mente humana para discernir e descrever esse sentido” (Rosenzweig, 2022, p. 87). Desenvolvida no texto, essa oposição também se apoiou no H-bot, um buscador de fatos históricos desenvolvido por Cohen. Embora já descontinuado, as análises sobre o H-bot mostraram que as respostas fornecidas, quando erradas, não o eram por causa da inexistência da informação correta na web, e sim por conta da limitação do software. Em certa medida, essa discussão pode contribuir para pensarmos as possíveis relações da história digital com as linguagens de programação e os algoritmos que estruturam as ferramentas digitais contemporâneas.

No terceiro capítulo, também escrito com Daniel Cohen e intitulado “Wikipédia: a história pode ser feita em código aberto?”, são apresentados detalhadamente os projetos que antecederam a Wikipédia, a maior enciclopédia colaborativa da atualidade e a “mais importante aplicação dos princípios do movimento de software livre e de código aberto dentro do mundo da produção cultural” (Rosenzweig, 2022, p. 116). Os autores também ressaltam que essa é “a maior obra online escrita sobre história, a mais amplamente lida obra de história digital e a mais importante fonte histórica gratuita” (Rosenzweig, 2022, p. 117). Contudo, destacam que é com reticência que os historiadores veem a qualidade dos materiais e conteúdos históricos disponibilizados na web, e é por isso mesmo que “temos a responsabilidade de tornar disponíveis online fontes de informação melhores” (Rosenzweig, 2022, p. 150). Além disso, os autores propõem que os historiadores se dediquem à história aberta e pública para democratizar o acesso a esse conhecimento, que geralmente não é produzido para o grande público.

Escrito em coautoria com Steve Brier, o quarto capítulo, “Historiadores e hipertexto: é mais do que uma moda?”, debate as novas mídias que surgiam na época, com destaque para o então revolucionário CD-ROM. Embora capaz de armazenar e apresentar conteúdos interativos e fontes históricas, essa mídia despertava a preocupação com uma possível sobreposição de apelos visuais em detrimento do ato da leitura dos registros textuais. Por outro lado, os autores destacam também o potencial para alcançar um público mais amplo, bem como a possibilidade de disponibilizar fontes históricas que apenas poderiam ser consultadas pelos estudantes diretamente nos arquivos e bibliotecas. Não obstante o CD-ROM já estar atualmente em desuso, o hipertexto segue reinante. A preocupação com as práticas de leitura e pesquisa histórica nos suportes digitais pode se valer de praticamente todos os argumentos e contra-argumentos arrolados pelos autores.

O capítulo seguinte, intitulado “Reconectar a sala de aula de História e Estudos Sociais: necessidades, parâmetros, perigos e propostas”, escrito em coautoria com Randy Bass, se inicia com a retomada de algumas previsões catastróficas que acompanharam o surgimento de certas tecnologias até a primeira década do século XXI - como, por exemplo, possíveis doenças transmitidas pelo telefone. Além disso, destaca sobretudo as profundas transformações incitadas pelos computadores e pela internet. A questão que norteia o texto trata da hipótese de a tecnologia ser a solução para uma “aprendizagem ativa e de pensamento crítico” (Rosenzweig, 2022, p. 185). Nesse sentido, são apresentados três modelos que, ao ver dos autores, seriam os mais eficazes no emprego da tecnologia digital no ensino: a aprendizagem baseada em pesquisa; a junção entre a leitura e a escrita por meio de interação online; e, por fim, a publicização do trabalho que as alunas e os alunos realizam nos formatos compatíveis com as novas mídias. Os autores afirmam que o “poder do ambiente digital para projetos desse tipo vem não só de sua natureza pública, mas também das capacidades das ferramentas eletrônicas de representar o conhecimento de maneiras não lineares e por meio de múltiplas mídias e múltiplas vozes” (Rosenzweig, 2022, p. 195). Contudo, os desdobramentos dessa expectativa se confrontam hoje em dia com uma série de problemas que se tornaram mais evidentes posteriormente em decorrência da sobreposição dos suportes digitais, em detrimento dos suportes mais tradicionais. Neste cenário, revisitar essa discussão é crucial para acompanharmos as futuras tendências de produção e distribuição de conteúdos no campo da disciplina histórica.

No capítulo seguinte, “As potencialidades do hipertexto para as revistas acadêmicas”, Rosenzweig explora as possibilidades dessas mesmas mídias eletrônicas para as publicações científicas. O texto se inicia com a observação de que “se você colocar a American Historical Review de 1889 junto a sua edição atual, do final de 1999, constatará que há uma continuidade tranquilizadora” (Rosenzweig, 2022, p. 205). Isso quer dizer que a estrutura e o formato da revista não teriam passado por transformações significativas. O formato tradicional das revistas de história contrasta com o potencial das novas mídias digitais, sobretudo com a possibilidade de conectar o texto às fontes citadas no trabalho ou assistir ao trecho de um filme citado no artigo, em lugar de apenas ver impressa uma captura de tela. Nas revistas de história não se oferece ao leitor a possibilidade de “interagir com a evidência” (Rosenzweig, 2022, p. 209).

Intitulado “A produção acadêmica de história deveria ser livre?”, o sétimo capítulo apresenta uma discussão sobre as estratégias adotadas nos EUA em relação à publicação de trabalhos acadêmicos na internet. Rosenzweig menciona os exemplos das grandes editoras que cobram tanto dos autores pela publicação quanto dos leitores pelo acesso. Entre as alternativas contempladas na época, havia ao menos seis soluções possíveis: a primeira seria o “autoarquivamento”, ou seja, embora o acesso ao site original continuasse a ser bloqueado por uma barreira onerosa, os “próprios acadêmicos podem tornar seu trabalho disponível gratuitamente” (Rosenzweig, 2022, p. 220); a segunda seria simplesmente “cobrar do autor” e deixar o acesso livre para os leitores; a terceira seria o “acesso protelado”, o que implicava adiar a disponibilidade da obra em repositórios de livre acesso; no quarto modelo, um “acesso parcial” colocaria à disposição apenas uma parcela das publicações, liberando, por exemplo, os artigos e bloqueando o acesso às resenhas; a quinta solução seria a de “revistas exclusivamente eletrônicas”, o que amortizaria os custos para se manter um periódico científico ao restringir sua publicação ao formato eletrônico, o que possivelmente representaria a melhor estratégia para a ampla disseminação do conhecimento científico; a sexta e última solução contemplaria a “cooperação com bibliotecas”, modelo no qual o acesso dos leitores seria aberto, com a intenção de reduzir os custos de manutenção e circulação física do acervo das bibliotecas, ou então assegurar que “grandes bibliotecas de pesquisa garantiriam apoio de longo prazo a revistas de sociedades em troca de uma promessa de taxas de assinatura reduzidas e controladas” (Rosenzweig, 2022, p. 223).

Escrito com Daniel Cohen, “Coletar história online” é o oitavo capítulo e tem por objetivo apresentar formas de “como usar a nova tecnologia da internet a serviço da velha prática de coletar e preservar o passado” (Rosenzweig, 2022, p. 226). O exemplo utilizado pelos autores é o já conhecido arquivamento das postagens sobre o 11 de setembro, nos EUA (The September 11 Digital Archive, 2025): “Se tivessem tomado a decisão de salvar aquelas páginas da web meses depois e não no prazo de poucas horas, muitas já teriam desaparecido no éter digital” (Rosenzweig, 2022, p. 227). Os autores afirmam que é possível utilizarmos a internet não apenas para arquivar as histórias que já nasceram digitais, mas também para ampliar o público e até mesmo envolver as pessoas no ato de enviar fontes históricas que originalmente não são digitais, tais como fotos e vídeos. Além disso, acredita-se que essa característica da web permita que grupos marginalizados possam demarcar um território online, que consequentemente acabaria se tornando um espaço mais democrático que os arquivos físicos convencionais.

O nono capítulo, “Admirável mundo novo ou beco sem saída? A história norte-americana na World Wide Web”, foi escrito com Michael O’Malley e apresenta uma série de textos que propuseram “uma avaliação preliminar das possibilidades e limitações, das seduções e dos perigos, da World Wide Web, para aqueles que se dedicam a apresentar, ensinar e aprender a história norte-americana” (Rosenzweig, 2022, p. 269). Expõe os caminhos que serviam na época para encontrar a história na internet, destacando, entre outros, o site Yahoo, que era então o maior diretório de busca. A transposição para o digital não era vista pelos autores como uma mudança radical ou de paradigma, mas simplesmente como uma forma mais ágil de se acessar aquilo que já existia. Atualmente, as mudanças na forma com que nos relacionamos com o digital se tornaram muito mais profundas e aquilo que vivenciamos no cotidiano destoa das expectativas daquela época. Não obstante, a discussão presente neste capítulo se mostra oportuna para retraçarmos tanto os primórdios desse movimento de levar o conhecimento histórico para a internet, tal como aconteceu com os acervos dos museus, quanto todo o potencial imaginado que esse passado digital teria a oferecer aos estudantes de história.

O capítulo intitulado “Magos, burocratas, guerreiros e hackers: escrever a história da internet”, o décimo da coletânea, parte do princípio de que “a maioria dos historiadores se sentirá obrigada a considerar o surgimento da internet como um aspecto central da vida cotidiana” (Rosenzweig, 2022, p. 301). Surge elencada uma série de pesquisas, abarcando perspectivas biográficas, burocráticas (institucionais), ideológicas e sociais com o intuito de compreender a criação dessa tecnologia na década de 1960. Como contraponto, Rosenzweig afirma que os futuros estudos sobre a história da internet deveriam unir “estudos biográficos e institucionais com uma história social e cultural plenamente contextualizada”, tanto durante a Guerra Fria quanto no movimento antiguerra e contracultural (Rosenzweig, 2022, p. 302). Compreender a fertilidade desse contexto permitiria acompanhar o desenvolvimento e as tendências da internet do futuro, que poderá vir a ser aberta ou fechada em sua configuração, ou seja, uma internet democrática, tanto em sua regulamentação para o livre uso quanto no acesso ao seu conteúdo, ou uma internet opaca, que limitaria e centralizaria o acesso aos dados.

É nesse contexto que chegamos, por fim, ao último capítulo, “A estrada para Xanadu: caminhos públicos e privados para a web de história”, no qual Rosenzweig apresenta “algumas das tendências gerais no crescimento da web de história” (Rosenzweig, 2022, p. 343). As reflexões ali desenvolvidas, além de plenamente atuais, são ainda agravadas pelo vertiginoso crescimento da internet e, consequentemente, das fontes históricas digitais. Embora esse crescimento aparente seja aberto, público e acessível a todos os historiadores, o fato é que há uma gigantesca concentração de dados nas mãos de poucas empresas de tecnologia. Em decorrência, os historiadores deveriam problematizar as condições dessa modalidade de preservação e questionar os limites de acesso ao passado digital.

Desde que a história passou a se fazer (também) por meios digitais, esse debate sobre o caráter público ou privado da internet permanece em constante discussão. Seu crescimento exponencial encobre o fato de que, na maior parte, os dados não são acessíveis, nem sequer públicos. Isso levanta uma série de problemas tão fundamentais quanto incontornáveis para o trabalho histórico, tais como a questão do acesso que teremos ou não a uma imensa, mas, ainda assim, limitada quantidade de dados do passado, ou então as disputas em torno da legitimidade e da autoridade sobre essas fontes. Quem as ordena? Sob quais critérios? Quem as disponibiliza? A quem é permitido acessá-las?

O que nos leva adiante é discutir a noção de uma internet aberta e pública, indispensável para o pleno desenvolvimento do conhecimento histórico. Por tudo isso, Clio conectada: o futuro do passado na era digital é um livro indispensável aos historiadores que se dedicam a estudar a história que é feita, registrada ou distribuída por meio dos suportes digitais, ou seja, a história como a vivemos hoje.

REFERÊNCIAS

  • COHEN, Daniel J.; ROSENZWEIG, Roy. Digital History: A Guide to Gathering, Preserving, and Presenting the Past on the Web. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2006.
  • ROSENZWEIG, Roy. Clio conectada: o futuro do passado na era digital. Tradução de Luis Reyes Gil. 1ª Ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2022.
  • ROY ROSENZWEIG CENTER for History and New Media. [s.d.]. Disponível em: Disponível em: https://rrchnm.org/ Acesso em: 16 out. 2024.
    » https://rrchnm.org/
  • THE SEPTEMBER 11 DIGITAL ARCHIVE. 2025. Disponível em: Disponível em: https://911digital archive.org/ Acesso em: 16 out. 2024.
    » https://911digital archive.org/

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    19 Set 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    15 Nov 2024
  • Aceito
    20 Jun 2025
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