Este documento está relacionado com:

Open-access Sustentabilidade de Periódicos: Desafios ao Acesso Aberto

Journal Sustainability: Challenges for Open Access

A Revista Brasileira de História (RBH), assim como outros periódicos na área de ciências humanas, enfrenta um momento decisivo em que a sustentabilidade das revistas científicas se entrelaça com as demandas da ciência aberta. A ciência aberta busca tornar a pesquisa científica mais acessível, transparente e colaborativa, democratizando o conhecimento e permitindo que autores, pesquisadores e leitores, independentemente de sua afiliação institucional ou localização geográfica, tenham acesso irrestrito à produção do conhecimento. No entanto, esse processo exige transformações profundas no modo como as revistas operam e se financiam, levantando a questão fundamental: “quem paga os custos do Acesso Aberto?”, como destacado pela historiadora Andrea Slemian no editorial da RBH (Slemian, 2023).

Essas mudanças têm sido especialmente desafiadoras devido à necessidade de equilibrar os custos crescentes com a garantia de acesso aberto e gratuito, frente à pouca disponibilidade de recursos públicos para a editoração de periódicos científicos que dependem exclusivamente desses aportes para sua manutenção. A demora e os constantes desencontros de informações quanto ao último edital do CNPq em 2024 alarmaram a comunidade de editores, especialmente na área de humanas, que depende de financiamentos públicos e editais de fomento para sua existência. A RBH, mantida exclusivamente por associações científicas sem fins lucrativos como a ANPUH, exemplifica essa realidade. A crescente demanda por recursos contrasta com o congelamento ou a redução dos financiamentos, como visto no edital do CNPq, que manteve inalterados os recursos da última chamada.

Conforme apontado pelo Comitê Consultivo da Coleção SciELO Brasil (2024), o Brasil tem mostrado uma importante representação na comunicação de pesquisas:

O Brasil teve nas últimas décadas uma destacada evolução na comunicação de pesquisas indexadas. Segundo o índice OpenAlex que se caracteriza por ampla cobertura, o Brasil ocupa o décimo lugar na produção científica mundial, com aproximadamente 150 mil artigos publicados em 2023. Já o índice Scopus de referência de indicadores de produção científica, o Brasil ocupa o 14º lugar com pouco mais de 75 mil artigos. Uma parte importante desses artigos é publicada por periódicos do Brasil (Morais, 2024).

É importante ressaltar ainda que, quanto mais aumentam os custos e exigências das publicações, menos recursos têm sido disponibilizados para esse fim. Conforme apontamos acima, o próprio edital do CNPq manteve os mesmos recursos da última chamada1. Deste modo, o crescimento da produção científica não tem sido acompanhado por um investimento proporcional na editoração. Se transição para a ciência aberta é essencial para a democratização do conhecimento, permitindo que pesquisadores, estudantes e o público em geral tenham acesso livre às pesquisas, é basilar o reconhecimento da necessidade de mais investimentos para a comunicação e a divulgação científica.

Considerando que essa democratização tem custos significativos, desde a revisão e editoração até a manutenção de plataformas digitais e a atualização constante dos indexadores, como comunidade científica precisamos encontrar novas alternativas de financiamento que, ao mesmo tempo em que garantam publicação, acesso e circulação do conhecimento, assegurem estratégias de sustentabilidade dos periódicos.

Diante desse cenário, é imprescindível que universidades e órgãos de fomento à pesquisa, como a CAPES, o CNPq e as FAPs estaduais, adotem um papel mais ativo e estratégico para a reflexão quanto aos processos de sustentabilidade dos periódicos diante do atual cenário, uma vez que o financiamento adequado e contínuo dessas instituições é vital para manter a qualidade e a acessibilidade das publicações científicas. Além disso, é necessário um esforço conjunto para promover a valorização das revistas nacionais, reconhecendo a importância do trabalho editorial no contexto global. Segundo Fabiano Couto Corrêa da Silva e Lúcia da Silveira (2019, p. 11), precisamos construir uma ética de produção e difusão do conhecimento, que:

[...] Pode contribuir para contrabalançar as desigualdades em termos de concentração de informação, conhecimento e capital. A adoção de informação aberta como política universal para a promoção de conhecimento, de modo a contribuir para o desenvolvimento da humanidade, para a criatividade, a inovação, a formação de memórias coletivas e diversos imaginários, deve fazer parte das prioridades do Brasil e de suas regiões.

Neste volume, damos seguimento à nossa publicação contínua com estudos que exploram uma diversidade de temas históricos e culturais, evidenciando conexões interdisciplinares e a complexidade das relações sociais em diferentes temporalidades e espaços. Entre os temas abordados estão a relação entre tratados e capitulações entre a coroa espanhola e representantes indígenas na América do Sul, a loucura e a monomania em personagens literários, a imprensa e a representação racial no Brasil, e a representação da branquitude na imaginação indígena, revelando múltiplas formas de violência e racismo. Esses, dentre outros estudos, oferecem contribuições instigantes e diversificadas para o campo da história.

REFERÊNCIAS

  • 1
    Na chamada CNPq n. 12/2022, o valor de aporte era de 3 milhões. Na chamada 2023/2024, o valor foi de 6 milhões. Considerando que não houve esse edital em 2023, o valor destinado, na média, permaneceu inalterado.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    26 Ago 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Corrigido
    15 Maio 2025
location_on
Associação Nacional de História - ANPUH Av. Professor Lineu Prestes, 338, Cidade Universitária, Caixa Postal 8105, 05508-900 São Paulo SP Brazil, Tel. / Fax: +55 11 3091-3047 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: rbh@anpuh.org
rss_feed Stay informed of issues for this journal through your RSS reader
Go to top Report error