Gostaria de iniciar este texto registrando minha satisfação em estarmos festejando a publicação do centésimo número da Revista Brasileira de História, que, desde sua criação, em 1981, é um importante canal de divulgação da produção de professores e historiadores brasileiros. Atingir esse número representa ter percorrido um longo percurso, que totaliza 44 anos de publicações ininterruptas.
Em 1961, foi criada a Associação Nacional de Professores de História (Anpuh), por ocasião da realização do I Encontro de Professores Universitários de História em Marília, com o objetivo de promover o intercâmbio entre professores e universidades. Desde a sua origem, esse foi um padrão para suas congêneres que estavam sendo surgindo nas demais faculdades de filosofia do país.
Suprindo o vácuo deixado após o fim da publicação dos Anais dos Simpósios da Anpuh, que até 1978 divulgava os trabalhos ali apresentados, foi lançado o primeiro número da Revista Brasileira de História, sintonizada com o princípio do intercâmbio entre professores e universidades. De acordo com a apresentação da professora Alice Canabrava, sua primeira editora, uma parte do periódico deveria dar publicidade a artigos originais sobre pesquisas de História ou de seu interesse. A atualização permanente com respeito à bibliografia histórica seria objeto de outra seção. Foi considerada, de início, especialmente a produção dos periódicos consagrados à História, nacionais e estrangeiros, no sentido de proporcionar aos professores e pesquisadores uma contribuição que viesse a suprir a carência das bibliotecas universitárias. Essa informação bibliográfica deveria ser ampliada para divulgar também comentários de obras históricas. Finalmente, o “Noticiário” deveria tornar mais conhecida a atividade dos Núcleos Regionais, “dar maior publicidade aos conclaves de História realizados no país e no exterior e a outros assuntos de interesse para os que militavam no campo da História” (Canabrava, 1981, p. 9). Assim, a nova publicação veio ao encontro das conquistas no campo científico e da necessidade de sua divulgação.
Participar desse momento comemorativo me remete a outro contexto igualmente de comemoração: o ano de 2011, ocasião em que a Anpuh completou 50 anos, e a revista, 30. As comemorações são momentos importantes e nos permitem revisitar conjunturas, transformações e desafios enfrentados. Assim, podemos perceber que, ao longo de sua trajetória, a estrutura da RBH variou bastante. Somente a partir do seu sexto número passou a ter volumes temáticos, e os artigos publicados podiam variar entre quatro e oito. Se o número de artigos era relativamente pequeno, o de seções era muito expressivo, englobando textos sobre documentos, resenhas, questões didáticas, ensino, debates ou polêmicas e, especialmente, notícias, que parecia ser o carro chefe da revista, podendo atingir até dez notas. Nos anos seguintes, o número de artigos publicados cresceu de forma significativa, chegando, em alguns casos, a totalizar 12. Ganhou também relevância a divulgação de resenhas de obras historiográficas, que podiam chegar a cinco, num único número. Diferentemente, entrevistas com personalidades da área não eram uma prioridade, podendo ser localizado apenas um depoimento, de Gérard Monnier (Coli; Marques, 1987-1988).
Nos seus primeiros 15 anos, a revista era apenas impressa e, ainda que seus números apresentassem temas, não havia uma organização interna em torno de dossiês temáticos. Mudanças significativas puderam ser sentidas a partir de 1997, quando os números temáticos passaram a ser divididos em artigos de dossiê e avulsos, além das resenhas, que, embora em menor número, permaneceram como um espaço de divulgação da produção historiográfica do país.
Mas é a partir dos números 33, “Biografia e Biografias”, e 34, “Travessias e Migrações”, que se consolida uma nova estrutura da RBH e sua publicação digital. Essa mudança, pode-se supor, estava articulada com o ingresso na Plataforma Scielo, que prescrevia uma série de normas para que um periódico pudesse ser incorporado. Esse momento, com a adoção do formato também digital, representou a abertura de novas possibilidades, ampliando significativamente a consulta e o acesso à Revista Brasileira de História.
Nessa nova fase, a estrutura da revista também passou por mudanças, rareando as inúmeras seções que marcaram seus primeiros anos, migrando para uma apresentação apenas de artigos integrantes do dossiê e avulsos e resenhas. Eventualmente publicaram-se textos de homenagens e duas entrevistas com Jacob Gorender e o historiador francês Alan Corbin.
Outro momento de mudança se concretizou em 2009, a partir do n. 59, quando a Revista Brasileira de História optou pela supressão dos números impressos, produzindo apenas a edição exclusivamente digital, além de sua versão em inglês. Esse novo formato, no entanto, mantinha o compromisso de dar continuidade à linha editorial dos números anteriores, bem como o seu engajamento aos princípios democráticos e contra o arbítrio e a repressão ao longo das décadas de 1960 e 1970, ao mesmo tempo em que enfrentava os desafios que se apresentam nesse novo século.
Como editora da RBH, exerci o cargo durante dois mandatos, de 2009 a 2013, coordenei as transformações importantes na trajetória da revista, aprovadas em resolução da Assembleia Geral da Anpuh, realizada em Fortaleza, em julho de 2009. Adotar esse novo formato representou, na época, motivo de preocupações e resistências. Nossa tradição historiográfica de valorização dos textos e arquivos em papel nos fez temerosos de abandonar esses suportes da escrita.
No entanto, as aceleradas transformações sofridas pelo mercado editorial já indicavam uma tendência crescente à digitalização dos periódicos. A publicação eletrônica poderia viabilizar a utilização da tecnologia com vistas ao enriquecimento da produção historiográfica, ou seja, contar com a possibilidade de uma escrita da história que vai além das palavras e passa a compor narrativas com imagens, hipertextos, ambientes em 3D e tudo mais que o suporte digital pudesse oferecer ao pesquisador. Tal mudança tinha ainda por objetivo a internacionalização da produção historiográfica brasileira, além da diminuição dos custos e das dificuldades logísticas para o armazenamento e a distribuição.
Aprovadas as novas mudanças, era preciso, então, implementá-las. Contar com o apoio dos dois presidentes da Anpuh, Durval Muniz (2009-2011) e Benito Schmidt (2011-2013), com os quais partilhei meus mandatos, foi fundamental. A inciativa de abandonar o processo de impressão, a despeito de algumas resistências, avançou rápido. Em primeiro lugar, trazia uma economia significativa, pois os gastos com gráfica e envio pelo correio deixaram de existir. Com essa diminuição dos custos, a RBH também pôde implementar algumas mudanças que se expressaram no aumento do número de artigos publicados e na introdução, de maneira mais regular, da publicação de entrevistas com grandes nomes da historiografia, tais como Fernando Catroga, Bartolomeu Clavero, Cristian Delacroix, François Dosse, Eugenia Meyer e Jean Sirinelli, Patrick Maning e Eric Forner.
Merece também ser destacado o grande esforço depreendido visando à publicação da versão em inglês da revista. No período de 2009-2014 foram publicados nove números com versões em português e inglês: “História e Historiadores”, “História, Educação e Interdisciplinaridade”, “Comemorações”, “Festas”, “Igreja e Estado”, “Trabalho e Trabalhadores”, “História e Demandas Sociais”, “Inclusão/Exclusão” e “Golpes e Ditaduras”.
Essa iniciativa provocou, na comunidade de historiadores e cientistas sociais, um grande interesse em publicar na RBH, e a cada número aumentava o volume de contribuições para avaliação. Pode-se mencionar, por exemplo, o aumento de 226% no volume de textos recebidos do ano de 2009 para 2010, quando a revista se tornou em inglês e exclusivamente digital. Essa nova busca da produção historiográfica brasileira por canais para internacionalização indicou o sucesso desse empreendimento, sintonizado com o processo de expansão dos programas de pós-graduação brasileiros ao longo dessas primeiras décadas do século XXI.
No entanto, esse empreendimento enfrentou também grandes dificuldades de processar o grande volume de contribuições recebidas em duas línguas e garantir a publicação concomitante de ambas as versões, o que acabou levando ao encerramento da experiência já na gestão seguinte.
Outras mudanças e inovações estavam por vir e, a partir de 2016, a RBH ampliou sua periodicidade para três números anuais, o que iria atender às demandas represadas de artigos de qualidade recebidos, bem como as orientações do Scielo, no intuito de garantir um alto padrão editorial e o acesso aberto para a produção científica brasileira.
Nos anos seguintes, a RBH continuou seu percurso de sucesso, garantindo sua periodicidade, escolhendo temas instigantes, organizando novos dossiês e cumprindo sua missão de divulgar e promover o debate historiográfico em sintonia com as lutas sociais no país.
Comemorar o centésimo número da RBH é uma oportunidade de revisitar sua trajetória e de demonstrar sua contribuição para a formação do campo da História como disciplina e para a própria história das instituições de ensino e pesquisa no Brasil.
Declaração de disponibilidade de dados:
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.
