Maria de Lourdes Monaco Janotti, professora emérita aposentada da Universidade de São Paulo (USP), é referência das mais significativas nos estudos sobre história política e historiografia. Participou ativamente da Associação Brasileira de História Oral e da Associação Nacional de História, tendo ocupado o cargo de editora da Revista Brasileira de História entre 1993 e 1995. No que concerne à sua produção, destacam-se os seguintes livros: João Francisco Lisboa: jornalista e historiador (1977), Os subversivos da República (1986), A Balaiada (2005), A história na política, a política na história (2006).
Maria de Lourdes Monaco Janotti, retired professor emeritus at the University of São Paulo (USP), is one of the most significant references in studies on political history and historiography. She was an active member of the Brazilian Oral History Association and the National History Association, having served as editor of the Revista Brasileira de História between 1993 and 1995. Her most notable publications include the following books: João Francisco Lisboa: jornalista e historiador (1977), Os subversivos da República (1986), A Balaiada (2005), A história na política, a política na história (2006).
TANIA REGINA DE LUCA é professora titular do Departamento de História da Unesp/Assis e pesquisadora Produtividade 1A do CNPq. Publicou capítulos, artigos e organizou diversas coletâneas sobre história da imprensa e dos intelectuais. Dentre seus livros, citem-se: Práticas de pesquisa em História (2020), A Ilustração (1884-1892): circulação de textos e imagens entre Paris, Lisboa e Rio de Janeiro (2018), Leituras, projetos e (re)vista(s) do Brasil (1916-1944) (2011) e A Revista do Brasil: um diagnóstico para a (N)ação (2001). Coordenou o Fórum Nacional de Programas de Pós-graduação em História da ANPUH (2007/2009 e 2015/2017), foi segunda tesoureira da entidade (2001/2003), vice-presidente (2013-2015) e editora da Revista Brasileira de História (1997-1999).
TANIA REGINA DE LUCA is a full professor in the History Department at Unesp/Assis and a CNPq Productivity 1A researcher. She has published chapters and articles and organized several collections on the history of the press and intellectuals. Among her books are: Práticas de pesquisa em História (2020), A Ilustração (1884-1892): circulação de textos e imagens entre Paris, Lisboa e Rio de Janeiro (2018), Leituras, projetos e (re)vista(s) do Brasil (1916-1944) (2011) e A Revista do Brasil: um diagnóstico para a (N)ação (2001). She coordinated the ANPUH National Forum of Graduate Programs in History (2007/2009 and 2015/2017), was the organization’s second treasurer (2001/2003), vice president (2013-2015), and editor of the Revista Brasileira de História (1997-1999).
A entrevista que segue integra uma série organizada pela atual gestão da Revista Brasileira de História, sob a coordenação do professor César Augusto Queirós, dedicada a registrar a memória editorial da revista por meio de conversas com professores e professoras que contribuíram para sua consolidação ao longo de quatro décadas. A iniciativa busca revisitar os bastidores de um dos mais importantes periódicos acadêmicos do país, refletindo sobre o papel coletivo da RBH na formação da historiografia brasileira contemporânea. Ao longo de sua trajetória, a Revista Brasileira de História contou com muitos editores, posto por vezes ocupado por professores que já tinham carreira consolidada no âmbito acadêmico e, mais raramente, por jovens doutores, em estágio inicial do percurso profissional, tal como se constata na conversa entre Maria de Lourdes Janotti e aquela que foi sua orientanda de mestrado e doutorado na USP, Tania Regina de Luca.
Se o rigor da RBH em relação à análise dos artigos submetidos sempre foi a marca da publicação que, desde a sua fundação, contou com a revisão por pares e sistema duplo cego, outros aspectos conheceram alterações significativas, em sintonia com novidades tecnológicas, que deram origem a outras formas de gerenciamento da publicação e difusão dos exemplares. Assim, o sistema eletrônico de submissão e de avaliação dos artigos substituiu o recebimento seja no suporte papel, tal como ocorria nos momentos iniciais da revista, seja, posteriormente, via e-mail. A impressão dos exemplares e sua distribuição aos associados da ANPUH implicavam em custos significativos com papel, gráfica e correios, prática que acabou por ser abandonada em vista do convite do Scielo para que a revista integrasse o portal, o que ocorreu em um momento em que a prática de disponibilização em acesso livre ainda era novidade, tanto que deu margem a inquietações acerca do impacto da mudança no número de filiados. O diálogo entre as ex-editoras evidencia o quanto, em poucos anos, as práticas editoriais relativas às publicações acadêmicas conheceram alterações das mais significativas.
Tania de Luca: Boa tarde, Dilu. É um prazer revê-la. Pena que seja à distância.
Maria de Lourdes Janotti: Realmente, é um prazer estar com você. O encontro entre duas editoras permite uma reflexão sobre a trajetória e os avanços da Revista Brasileira de História, evidenciando como a colaboração e o comprometimento foram essenciais ao longo dessa caminhada.
A iniciativa do professor César Augusto Queirós, de celebrar a publicação do centésimo número revista, é louvável, pois valoriza o empenho de todos que participaram do fortalecimento e da consolidação do periódico. Ser, atualmente, uma revista Qualis A1 atesta a excelência e o prestígio alcançados. Nesse cenário, sua contribuição e o esforço coletivo foram decisivos para o êxito da revista.
Tania de Luca: Você sabe que, quando recebi o e-mail do professor César, fui consultar os números da revista e constatei que ingressei no conselho da RBH quando você foi editora, de 1993 a 1995, anos nos quais foram publicados os números 27, 28, 29 e 30. E, depois que você foi editora, o cargo foi ocupado, entre 1995 e 1997, pela professora Laima Mesgravis. Eu continuei no conselho editorial e acabei por substitui-la na direção no biênio seguinte, 1997-1999. E, quando eu saí - Dilu, veja, eu fui consultar os exemplares para refrescar a memória -, quem entrou foi outra ex-orientanda sua, a professora, minha colega na Unesp, Teresa Malatian, que dirigiu a revista no interregno de 1999 a 2001, período em que permaneci no Conselho Consultivo.
Então, é interessante observar os processos sucessórios na revista. Eu acho que seria importante se você pudesse puxar pela memória e comentar o contexto em que você assumiu a RBH, após a gestão da professora Vera Ferlini. Para os que irão nos ler ou ouvir, é muito importante poder contar com seu depoimento.
Maria de Lourdes Janotti: Eu também fiz a mesma pesquisa que você, Tania. Olhei, primeiramente, a inclusão de dossiês em números da RBH. Foi uma inovação excelente feita por sua sugestão. Realmente, o nosso trabalho na ANPUH, nos congressos, e a participação nas reuniões, fez com que assumíssemos, durante um tempo, a publicação da revista. Não esqueçamos que o papel do Professor Holien Gonçalves Bezerra, como presidente da ANPUH, foi essencial para nosso trabalho. Outra pessoa que sempre nos ajudou, principalmente na busca de financiamentos, foi a Professora Sylvia Bassetto.
Quando começamos em 1993, encontramos muitos artigos acumulados, alguns aprovados, outros precisando de pareceres. Conseguimos colocar todo esse material em dia e editamos quatro volumes para manter a periodização da revista. Também foi difícil encontrar subvenções: tivemos que pedir auxílio aos Núcleos Regionais, que nos atenderam prontamente.
Enfrentamos muitos imprevistos, dentre eles organizar o acervo da Revista, no qual faltavam vários números. Se você se lembra, os membros do Conselho editorial até doaram exemplares que possuíam. Nessa organização e na implementação das publicações, sua colaboração sempre foi intensa. Tivemos um Conselho atuante e competente que nos possibilitou, ao terminar nossa gestão, entregar à Professora Laima Mesgravis uma revista rigorosamente em dia.
Examinei os exemplares que editamos, em especial um número chamado “Espaço Plural”, porque não havia maneira de aglutinar temas tão diversos. No “Espaço Plural”, pusemos em dia tudo o que estava atrasado. Ficou um volume enorme, alguns conselheiros achavam melhor fazer dois números, mas não tínhamos financiamento para isso. Um número muito especial foi o 27, intitulado “Brasil de 1954 a 1969”, publicado em 1994, no qual já havia uma temática concisa que reunia artigos sobre o período ditatorial. Sobre o tema apresentamos, conjuntamente, trabalhos em diversos Simpósios.
Tania de Luca: Não formava um dossiê, não é, Dilu?
Maria de Lourdes Janotti: Não, de jeito nenhum. Não formava.
Tania de Luca: Contrariamente ao número anterior, que foi muito interessante, contemplando o período 1954-1964 - assim como os outros números que você editou, dedicados à questão das representações e à historiografia, disciplina que você lecionou por longos anos -, “Espaço Plural” realmente foi uma invenção criativa para dar conta da demanda qualificada que aguardava publicação, porque a revista, que sem dúvida é uma das publicações mais importantes da área de História, sempre recebeu muitos artigos. Some-se o fato do crescimento da área, com a criação de novos programas de pós-graduação, o que ensejou a multiplicação de produção de alto nível.
Maria de Lourdes Janotti: Foi o que pudemos fazer para atualizar a periodização. Precisávamos também pagar algumas dívidas da Revista, e não podíamos mais pedir financiamento ao CNPq, então, recorremos aos recursos da própria ANPUH. Tania, como foi a questão do financiamento em sua gestão?
Tania de Luca: Dilu, eu acho que o financiamento sempre foi, pelo menos na nossa época, um dos grandes desafios. Toda vez que o CNPq lançou editais específicos para publicações acadêmicas, a RBH concorreu e foi contemplada, mas nem sempre os editais existiram e, por vezes, o montante recebido se mostrou insuficiente para arcar com os custos da revista. Vale destacar que a ANPUH sempre aportou recursos para que a periodicidade não fosse comprometida
Era outro momento, porque a revista era impressa e, além desse custo, havia as despesas com a revisão dos textos em português e em inglês, a diagramação, pagar o papel - me lembro que comprávamos papel! - e os serviços da gráfica. Outro problema era a distribuição, porque cada exemplar físico era empacotado e mandado para a residência dos sócios. Temia-se que, caso a revista atrasasse - e, portanto, não fosse enviada pontualmente aos sócios -, a receita da entidade seria comprometida. Então, esse era um problema real. O recebimento da anuidade estava muito atrelado à existência física da revista e ao fato de os sócios da ANPUH a receberem. Você se lembra disso, Dilu?
Maria de Lourdes Janotti: Eu me lembro perfeitamente quando você, de forma assertiva, propôs que a revista fosse online. Houve, naquele momento, uma reação das pessoas: Como vai ser online? Gosto do papel, eu quero tê-la na mão. Mas sua proposta foi acatada. Naquele mesmo momento, você também propôs que a revista História Oral fosse online. Você usou a bandeira da modernidade e conseguiu implementar a solução.
Tania de Luca: Dilu, foi bom você tocar nesse assunto, porque talvez hoje o que estamos dizendo não faça sentido para os nascidos no século XXI. De fato, no período em que participei da revista, o conselho editorial se reunia presencialmente. Acredito que essa já não seja mais a prática vigente. Havia colegas de São Paulo, a exemplo da Ilana Blaj, de saudosa memória - aliás, há um número da revista que é dedicado a ela -, mas também integrantes que vinham do Rio Grande do Sul, do Rio de Janeiro, de Pernambuco, de Goiás e de outros estados. É óbvio que era dispendioso reunir essas pessoas e, muitas vezes, eram os núcleos que pagavam o deslocamento de seus filiados para que as reuniões se realizassem.
Tampouco existia a submissão de textos via plataforma. Cada artigo era objeto de discussão acerca da sua adequação ao perfil da revista, de debate sobre quais seriam os colegas mais indicados para emitir pareceres. Passávamos o dia todo na sede da ANPUH. Havia a discussão dos pareceres recebidos, sua pertinência e, tal como hoje, a solicitação a outro colega que avaliasse, quando não havia consenso. É claro que o procedimento não é diferente hoje. A prática é a vigente em toda revista acadêmica. A questão é que não havia mediação por meios eletrônicos.
Eu era editora quando a ANPUH recebeu o convite da FAPESP - que, junto com a Bireme (Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde), estava criando o Scielo. Foi organizada uma reunião na sede da FAPESP com os editores de publicações acadêmicas e participei em nome da RBH. Explicaram o lançamento do portal. O diretor da FAPESP e os demais participantes então se esforçaram para explicar o que agora é evidente, ou seja, que, em futuro não distante, as revistas acadêmicas não seriam mais impressas, todas migrariam para o formato digital. Eles argumentavam, mas era muito difícil, sobretudo para os representantes das humanidades, aceitarem, naquele momento, que a previsão se tornaria realidade. Afinal, até hoje, pelo menos nós, que nascemos no século passado, continuamos amando o papel.
Maria de Lourdes Janotti: É verdade.
Tania de Luca: O Scielo estava sendo criado e a RBH era convidada para integrar a coleção. Tive que apresentar a proposta para a diretoria da ANPUH, esclarecendo que a revista ficaria online e poderia ser acessada por qualquer pessoa. É importante destacar que, a despeito de a proposta, não sem relutância, ter sido aceita, a revista continuou a ser impressa. Pode-se ler, no número 37, a informação de que a publicação poderia ser acessada pelo endereço eletrônico do Scielo, o que, de saída, não implicou na decisão de renunciar à impressão.
Maria de Lourdes Janotti: Exatamente. Havia nesse número uma novidade: o dossiê sobre Infância e Adolescência. Nessa época, você colaborou com a FAPESP. Lembro bem de que havia reuniões sobre como ia ser colocada a RBH na plataforma. O Departamento de História da FFLCH tinha, também, uma revista, chamada Revista de História, cuja produção era feita na gráfica da Faculdade, e enviada pelos Correios - era o modelo da época. Hoje ela também é online. Que bom; a tecnologia auxiliou muito a divulgar a produção acadêmica.
Trabalhamos em diversas revistas ao mesmo tempo. Uma delas foi a revista História Oral. Você ainda publicou, juntamente com o Professor Antonio Celso Ferreira e com a Professora Zilda Iokoi, Encontros com a História: percursos históricos e historiográficos de São Paulo (2001). Essa publicação continuou?
Tania de Luca: Dilu, de fato, tratou-se de um livro que reuniu contribuições apresentadas no Encontro Regional da ANPUH-SP, realizado em Assis. As principais apresentações foram publicadas nesse livro, com selo da Editora Unesp.
Maria de Lourdes Janotti: O trabalho desenvolvido esteve diretamente relacionado com três importantes instituições: a UNESP, a FAPESP e a ANPUH. Cada uma dessas parcerias contribuiu, de forma significativa, para o andamento e os resultados das atividades realizadas.
Tania de Luca: Isso mesmo.
Maria de Lourdes Janotti: Nossa revista divulgava trabalhos apresentados nos encontros nacionais e regionais, conferências, mesas-redondas, apresentações individuais ou em simpósios temáticos. Além disso, também incluía resenhas de obras relevantes e notícias sobre as atividades dos Núcleos da ANPUH.
Um dos volumes de destaque foi intitulado “História na Política e a Política na História”, que reuniu textos elaborados pelo nosso Grupo de política. Essa edição permitiu ampliar o debate sobre a relação entre história e política, dando visibilidade ao trabalho desenvolvido pelos integrantes do grupo.
Tania de Luca: Dilu, eu acho que era outro tempo, porque tínhamos que fazer as coisas no papel. Hoje é tudo online. É outro padrão de difusão das informações e do conhecimento, com consequências metodológicas e epistemológicas importantes para o fazer historiográfico. Assim, é compreensível que, na Assembleia Geral, quando se apresentou a proposta do Scielo, as pessoas ficaram preocupadas, imaginando que a ANPUH seria prejudicada se a revista deixasse de ser impressa. Tanto que, por muito tempo, a revista estava no Scielo e, como disse, seguia sendo produzida em papel. Até que, finalmente, os colegas entenderam que não tinha mais sentido, fosse do ponto de vista econômico, fosse em termos da difusão do conteúdo e do número potencial de leitores, continuar imprimindo e distribuindo a revista. Você vê, eram revistas com 400 páginas. Há que se considerar o peso e o custo do envio por correio. No final, os organizadores do evento na Fapesp tinham razão: as revistas acadêmicas impressas desapareceram. Eu acho que esses aspectos da trajetória da RBH são relevantes, pois evidenciam o quanto o mundo das publicações científicas mudou radicalmente em poucos anos. Agora, estar no Scielo agrega legitimidade e se transformou num selo de qualidade. Mas não foi fácil aceitar a mudança.
Outro avanço foi a política de publicar a revista (se não inteira, pelo menos parte dela) em inglês, o que permite difundir a reflexão historiográfica brasileira - que não é de menor importância em âmbito internacional - para outros leitores. Agora, se você tem um artigo aprovado na RBH, ele é disponibilizado, o que torna mais imediata a divulgação de resultados de pesquisa. Acho que não é exagero afirmar que a edição científica, tal como conhecemos, desapareceu, já não existe mais.
Maria de Lourdes Janotti: Mas os conteúdos de qualidade da revista não desapareceram. Vi as revistas que você editou, com sugestivos dossiês como “Infância e Adolescência”, “Ensino da História”, “Novos Problemas”, “Do Império de Portugal ao Império do Brasil”, “Arte, Linguagens”. Além dos dossiês, seguiam-se artigos que não faziam parte do dossiê. Examinando esses números seus e meus, percebo a alta qualidade da maioria dos textos. São de historiadores, hoje muito conhecidos, que escreviam artigos sobre suas pesquisas. Eu vejo isso como referências do passado para que, hoje, com novas perspectivas, a RBH tenha obtido um grau de excelência.
Tania de Luca: Dilu, eu acho que esses dossiês foram importantes. Um pouco antes dos números que eu editei, houve um dossiê também bastante interessante, organizado pela professora Laima Mesgravis, intitulado “Travessia e Migrações”. Eu acho que, para a revista, essa prática dos dossiês é muito importante porque, de fato, os dossiês fornecem elementos para pensarmos a própria produção historiográfica, bem como indicam quais eram/são os problemas historiográficos em um determinado momento.
Cabe notar que, atualmente, há dissertações de mestrado e teses de doutoramento que têm por objeto a Revista Brasileira de História, bem como os Simpósios Nacionais e Regionais da ANPUH. Não é raro que a temática tratada na revista dialogue com as problemáticas propostas nos encontros e, obviamente, nada disso é fruto do acaso.
Especificamente em relação à infância e à adolescência que você mencionou, a questão não interessava apenas aos colegas brasileiros - como indica o artigo de James Woodward, hoje professor universitário com carreira consolidada, cujo artigo versou sobre Moncorvo Filho. Publicamos também o trabalho da professora Esmeralda Blanco, de saudosa memória, cujas pesquisas sobre o assunto foram fundamentais, para citar apenas dois dos artigos que integram o dossiê.
Não podemos nos esquecer de que, muitas vezes, a sugestão dos dossiês vinha da comunidade, do próprio conselho editorial ou de colegas do conselho consultivo que, naquela época, era formado por representantes dos diferentes núcleos da ANPUH. Eu acho que, com as reuniões online, perde-se um pouco da vivacidade das discussões, que ocorriam no café, durante o almoço. Muitas vezes, as ideias eram fruto dessas conversas informais, das intensas trocas e da sociabilidade que os encontros presenciais propiciam. Pode-se argumentar que a reunião que fazemos é igualmente rica, o que não deixa de ser verdade. Porém, uma vez terminado o nosso tempo, desligamos o google Meet e cada um vai tratar de seus afazeres. Não quero aqui parecer saudosista, mas o funcionamento era certamente de outra ordem.
Maria de Lourdes Janotti: Nós criamos laços com muitos professores e instituições além das universidades estaduais. Os encontros eram muito bons porque conversávamos com as pessoas e trocávamos experiências de pesquisa. Hoje em dia, isso já está mais limitado. Até congressos internacionais são online. E isso é uma pena, porque perdemos momentos preciosos nos quais se solidificavam amizades. Creio que esse companheirismo é responsável para que até hoje eu possa manter informalmente um grupo de política com antigos e novos integrantes. Fazemos uma reunião a cada quinze dias discutindo um livro, um artigo, no qual seus trabalhos são sempre lembrados. Acho que temos possibilidades de nos encontrarmos de outras formas e de criar condições para isso. Conseguimos criar um grupo que discute filmes com conteúdo histórico. Dele fazem parte professoras que foram ligadas à revista, como Maria Lígia Coelho Prado, Maria Helena Capelato, Suely de Queiroz, Teresa Malatian, entre outras.
Tania de Luca: Dilu que interessante os nomes que você evocou! Quando fui editora, entre os membros do Conselho Editorial estavam as professoras Maria Helena Capelato, Maria Lígia Coelho Prado, Marcos Antonio da Silva, Suely Robles Reis Queiroz, Teresa Malatian. Adicione-se a professora Ismênia de Lima Martins, do Rio de Janeiro, o Antônio Paulo Rezende, lá de Pernambuco, a Lucia de Almeida Neves, de Minas Gerais, o Holien Gonçalves Bezerra, que tinha sido presidente da ANPUH. Nesse sentido, o conselho editorial reunia pessoas de enorme representatividade no campo historiográfico. Naquele momento específico - falamos dos anos de 1997 a 1999 -, esses colegas estavam ativos, fosse na graduação e ou na pós-graduação. Editar a revista também era uma forma de aprendizagem e de convivência acadêmica das mais ricas. Posteriormente, Teresa Malatian foi editora, cargo, em seguida, ocupado por Maria Lígia Prado. Se você tiver em conta que eu defendi o doutorado em 1996, sob sua orientação, enfrentei um grande desafio acadêmico ao assumir em 1997 a direção da revista. Eu, recém-doutora, estava diante desse conselho editorial.
Maria de Lourdes Janotti: Não, não. Você poderia ser mais jovem que as outras pessoas, mas isso não quer dizer que fosse menos valorizada, pois sempre teve reconhecida representatividade. Você fez o mestrado intitulado O mutualismo em São Paulo: o sonho do futuro assegurado (1996), tema pouco estudado. Foi muito citada, nesse momento, em trabalhos sobre a classe operária. Depois, você fez um doutoramento sobre a Revista do Brasil, com material importante e inédito. Daí para frente, você se dedicou ao estudo de diversos tipos de publicações no Brasil e no exterior. Como vê, tenho acompanhado sua trajetória.
Acho que, nesse período, compreendemos melhor a importância das revistas acadêmicas para a projeção da produção dos programas de pós-graduação e, assim, para a promoção de maior integração entre historiadores de todo o país.
Tania de Luca: Para mim, foi um desafio enorme. A revista recebia e segue recebendo artigos de todo o Brasil, e o editor tem a responsabilidade de não apenas dirigir os trabalhos, mas de redigir as introduções de cada número. Claro que eu já conhecia os procedimento da revista, já tinha participado do conselho com você e com a professora Laima. Obviamente, os professores da USP eram familiares, as professoras Maria Ligia e Maria Helena integraram minha banca de doutorado. Porém, sentar-se na ponta da mesa e dirigir essas pessoas é outra coisa, e devo dizer que todos os colegas foram generosos e me ajudaram a desempenhar a tarefa que, se saiu a contento, muito deve à participação ativa de cada um deles. Assim, posso dizer que muito devo à RBH. Outro desafio foi defender, na Assembleia Geral, a entrada no Scielo. Muitos achavam que a revista acessível gratuitamente a todos representaria o fim da ANPUH, porém, acabamos por aprovar a entrada na coleção. Da perspectiva da história da cultura, vê-se que a existência de novas tecnologias não altera, de imediato, a percepção tradicional, e a própria ANPUH relutou para deixar de imprimir e enviar a revista em papel - isso num momento em que a RBH já estava disponível online. Não é simples mudar rotinas de há muito estabelecidas.
Maria de Lourdes Janotti: Isso é o mais difícil. Mas deu certo. Finalmente conseguimos. Eu tenho um orgulho incrível da ANPUH e dessa Revista. Desejo ao César uma gestão muito feliz, e espero que essas recordações talvez ajudem a se fazer uma história da revista. Cada número tinha uma capa diferente, motivo de discussões no Conselho. Algumas bonitas, com obras de artistas que aludiam ao conteúdo. Depois, foi lançada a ideia de usar um padrão único e apenas informar o número do exemplar, para seguir uma tendência internacional. As nossas revistas são agora relíquias da Revista Brasileira de História, porque cada uma delas tem uma cara, tem uma fisionomia, tem uma estampa.
Tania de Luca: Dilu, esse ponto que você está levantando é muito interessante. É preciso destacar a importância da revista para a ANPUH e o suporte que a entidade sempre deu à publicação, expressa não só nos aportes financeiros, mas na disponibilização de um funcionário para tocar o dia a dia da RBH. Na minha época - acho que na sua, também -, a Vanessa Della Torre era quem nos secretariava, uma pessoa muito comprometida e competente.
Outro aspecto que nos preocupava, você lembrou bem disso, era escolher a capa. Por exemplo, a capa do número 36, nós tivemos que negociar com a artista plástica Regina Silveira, o que foi possível graças à intervenção do professor, hoje infelizmente falecido, Marcos Antônio da Silva, da USP, membro do conselho editorial. Ele foi um dos que sugeriu o dossiê “Ensino de História: Novos Problemas”. A Regina nos permitiu reproduzir a obra na capa, o que foi importante, pois é possível estabelecer claro diálogo com o dossiê “Do Império Português ao Império do Brasil”.
Escolher as capas consumia um bom tempo, não é, Dilu? Porque o desafio era concatenar imagem e conteúdo. Assim, outro exemplo é o dossiê “Artes e Linguagens”. Escolhemos uma obra de arte que remetesse à temática. O mesmo se deu com o número sobre “Infância e Adolescência”. Nós discutíamos bastante com o conselho para chegarmos a um bom resultado. Sem nos esquecermos da questão dos direitos autorais, além do desafio em termos acadêmicos, havia custos - as capas eram coloridas, havia orelhas - e era preciso decidir o que e quem se responsabilizaria pelas tarefas. Considero esse ponto que você levanta bem interessante, pois, se por um lado você uniformiza, por outro, as escolhas das capas era um desafio bem interessante, que demandava reflexão.
Maria de Lourdes Janotti: Quando não tínhamos mais dinheiro, com tristeza desistíamos de colocar uma bela capa. Foi o caso da revista Espaço Plural, que só tem na capa escrito o seu título.
Tania de Luca: E você vê, Dilu, que começaram a desaparecer as orelhas, porque custavam. A gramatura do papel também se alterou. Para perceber essas questões, é preciso pegar a revista na mão. Não se percebem esses detalhes na digitalização. É importante ter em conta as dificuldades que a revista enfrentou, e talvez a sua tenha sido uma das gestões mais complexas nesse sentido.
Maria de Lourdes Janotti: O número 27, “Representações”, não teve “orelhas”.
Tania de Luca: Porque não havia dinheiro.
Maria de Lourdes Janotti: Mas é natural. Agora, com essa estandardização da revista, não há mais esse grande problema. É claro que há gastos para diagramar, revisar etc. Creio que tudo ficou mais facilitado. Mudou para o bem, não mudou para o mal. A única coisa problemática é a falta de convivência entre as pessoas. Isso é terrível.
Tania de Luca: Outros tempos...
Maria de Lourdes Janotti: A produção RBH enfrentou diversos desafios ao longo do tempo. No entanto, é possível observar que o período marcado por obstáculos significativos terminou. Essa mudança indica que os problemas recorrentes foram superados ou minimizados, proporcionando um cenário mais favorável para o desenvolvimento e a continuidade das atividades relacionadas à RBH.
Tania de Luca: Só para completar, veja como a sua gestão foi financeiramente muito difícil, porque as capas são mais simples, sem as orelhas. Posteriormente, em outros números, elas voltam. A ANPUH enfrentou, muitas vezes, problemas de financiamento, em função da escassez de recursos das agências de fomento. Daí a importância de se levar em conta a materialidade, que pode revelar outros aspectos não explicitados no conteúdo. De fato, atuam como janelas que revelam os bastidores, razão pela qual não se constituem em detalhes de menor importância. Ao ter em mãos diferentes exemplares da revista, vê-se que, se o conteúdo é sempre da mais alta qualidade, os aspectos materiais podem apresentar alterações significativas, indícios da situação financeira não propriamente da ANPUH, mas das dificuldades enfrentadas pelas agências.
Consultando os exemplares que você editou, vê-se que não há menção ao CNPq, porque o CNPq não os financiou. De outra parte, quando você foi editora, há propaganda de outras revistas, caso de Estudos Econômicos e Estudos Avançados, uma estratégia para angariar alguma ajuda financeira.
Maria de Lourdes Janotti: Durante o processo, foi necessário adotar diversas estratégias, Tania. A inserção de anúncios de revistas acadêmicas foi um dos passos tomados para viabilizar a publicação. Recebemos apoio financeiro, fator essencial, uma vez que a revista apresentava inúmeras dificuldades. Foi preciso enfrentar e solucionar cada problema especificamente.
Tania, adorei falar com você.
Tania de Luca: Eu também, Dilu, foi ótimo.
Maria de Lourdes Janotti: César, desejo que você tenha uma gestão de sucesso e que a RBH não precise passar por momentos tão difíceis. Um grande abraço a todos. Tania, gostei imensamente de encontrá-la.
Tania de Luca: Igualmente, Dilu. Um beijo para você e votos de muito sucesso ao César como editor da RBH.
Declaração de disponibilidade de dados:
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.
REFERÊNCIA
- FERREIRA, Antonio Celso; DE LUCA, Tania Regina; IOKOI, Zilda Grícoli. Encontros com a História: percursos históricos e historiográficos de São Paulo. São Paulo: Editora da Unesp; FAPESP; ANPUH/SP, 2001.
- JANOTTI, Maria de Lourdes Mônaco. A Balaiada. São Paulo: Brasiliense, 2005.
- JANOTTI, Maria de Lourdes Mônaco. João Francisco Lisboa: jornalista e historiador. São Paulo: Ática, 1977.
- JANOTTI, Maria de Lourdes Mônaco. Os subversivos da República. São Paulo: Brasiliense , 1986.
- LUCA, Tania Regina de. A Ilustração (1884-1892): circulação de textos e imagens entre Paris, Lisboa e Rio de Janeiro. São Paulo: Editora Unesp, 2018.
- LUCA, Tania Regina de. Leituras, projetos e (re)vista(s) do Brasil (1916-1944). São Paulo: Editora Unesp , 2011.
- LUCA, Tania R. de. O sonho do futuro assegurado: o mutualismo em São Paulo. São Paulo: Editora Contexto, 1990.
- LUCA, Tania Regina de. Práticas de pesquisa em História. São Paulo: Contexto, 2020.
- LUCA, Tania Regina de. A Revista do Brasil: um diagnóstico para a (N)ação. São Paulo: Editora Unesp , 2001.
- OLIVEIRA, Cecília Helena de Salles; PRADO, Maria Ligia Coelho; JANOTTI, Maria de Lourdes Mônaco (Orgs.). A história na política, a política na história. São Paulo: Alameda, 2006.
