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Interação entre Hb B2 e Hb S

Interaction between Hb B2 and Hb S

Resumos

As hemoglobinopatias e talassemias constituem as afecções genéticas mais comuns, apresentando-se, na maioria dos casos, em heterozigose. Diante da diversidade de hemoglobinas variantes encontrada na população brasileira, metodologias específicas e complementares para um diagnóstico laboratorial preciso, capaz de elucidar possíveis interações entre estas variantes genéticas, são necessárias. Este relato de caso descreve a interação entre hemoglobina B2 e a hemoglobina S em um indivíduo do sexo feminino, caucasoide, proveniente da região Sudeste do Brasil, identificada por meio de técnicas eletroforéticas em diferentes pH, cromatografia líquida de alta performance e PCR- RFLP. Visto que a hemoglobina B2 coelui com a hemoglobina S na análise cromatográfica e dificilmente é visualizada em eletroforese pH alcalino, devido à sua baixa concentração, justifica-se a necessidade da associação de testes laboratoriais, inclusive moleculares, na rotina do diagnóstico de hemoglobinas para a correta identificação do perfil de hemoglobinas do indivíduo e real frequência na população brasileira. Rev. Bras. Hematol. Hemoter.

Hemoglobinas anormais; hemoglobinopatias; diagnóstico


Hemoglobinopathies and thalassemias are the most common genetic diseases, and in most cases, present as heterozygous. Due to the diversity of hemoglobin variants, specific and complementary methodologies are necessary for a precise laboratorial diagnosis, able to elucidate possible interactions between genetic polymorphisms. This case report describes an interaction between hemoglobin B2 and hemoglobin S in a Caucasian woman from the southeastern region of Brazil. This interaction was identified by electrophoresis in different pHs, high performance liquid chromatography and PCR-RFLP. As hemoglobin B2 is eluted in the same window as hemoglobin S in automatic HPLC systems and is hardly seen in alkaline electrophoresis due to its low concentration, the association must be confirmed using additional laboratorial tests, including molecular biology techniques. These tests should be included in the routine practice of hemoglobinopathy diagnosis in order to correctly identify hemoglobin variants and to know the real frequency of these mutations in the Brazilian population. Rev. Bras. Hematol. Hemoter.

Abnormal hemoglobin; hemoglobinopathies; diagnosis


Interação entre Hb B2 e Hb S

Interaction between Hb B2 and Hb S

Natália FerreiraI; Paula J. A. ZamaroII; Claudia R. Bonini-DomingosIII

ILaboratório de Hemoglobinas e Genética das Doenças Hematológicas - LHGDH, vinculado à Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de São José do Rio Preto-SP. Bióloga. Unesp/Ibilce. Laboratório de Hemoglobinas e Genética das Doenças Hematológicas (LHGDH)

IILaboratório de Hemoglobinas e Genética das Doenças Hematológicas - LHGDH, vinculado à Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de São José do Rio Preto-SP. Médica geneticista. Pesquisadora vinculada ao LHGDH - Unesp - São José do Rio Preto-SP

IIILaboratório de Hemoglobinas e Genética das Doenças Hematológicas - LHGDH, vinculado à Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de São José do Rio Preto-SP. Médica geneticista. Responsável pelo LHGDH - Unesp - São José do Rio Preto-SP

Correspondência Correspondência: Claudia Regina Bonini-Domingos Laboratório de Hemoglobinas e Genética das Doenças Hematológicas - LHGDH. Rua Cristóvão Colombo, 2265, Jardim Nazareth 15054-000 - São José do Rio Preto-SP - Brasil Tel.: (55 17) 3221-2392; Fax: (55 17) 3221-2390 E-mail: claudiabonini@yahoo.com.br

RESUMO

As hemoglobinopatias e talassemias constituem as afecções genéticas mais comuns, apresentando-se, na maioria dos casos, em heterozigose. Diante da diversidade de hemoglobinas variantes encontrada na população brasileira, metodologias específicas e complementares para um diagnóstico laboratorial preciso, capaz de elucidar possíveis interações entre estas variantes genéticas, são necessárias. Este relato de caso descreve a interação entre hemoglobina B2 e a hemoglobina S em um indivíduo do sexo feminino, caucasoide, proveniente da região Sudeste do Brasil, identificada por meio de técnicas eletroforéticas em diferentes pH, cromatografia líquida de alta performance e PCR- RFLP. Visto que a hemoglobina B2 coelui com a hemoglobina S na análise cromatográfica e dificilmente é visualizada em eletroforese pH alcalino, devido à sua baixa concentração, justifica-se a necessidade da associação de testes laboratoriais, inclusive moleculares, na rotina do diagnóstico de hemoglobinas para a correta identificação do perfil de hemoglobinas do indivíduo e real frequência na população brasileira. Rev. Bras. Hematol. Hemoter.

Palavras-chave: Hemoglobinas anormais; hemoglobinopatias; diagnóstico.

ABSTRACT

Hemoglobinopathies and thalassemias are the most common genetic diseases, and in most cases, present as heterozygous. Due to the diversity of hemoglobin variants, specific and complementary methodologies are necessary for a precise laboratorial diagnosis, able to elucidate possible interactions between genetic polymorphisms. This case report describes an interaction between hemoglobin B2 and hemoglobin S in a Caucasian woman from the southeastern region of Brazil. This interaction was identified by electrophoresis in different pHs, high performance liquid chromatography and PCR-RFLP. As hemoglobin B2 is eluted in the same window as hemoglobin S in automatic HPLC systems and is hardly seen in alkaline electrophoresis due to its low concentration, the association must be confirmed using additional laboratorial tests, including molecular biology techniques. These tests should be included in the routine practice of hemoglobinopathy diagnosis in order to correctly identify hemoglobin variants and to know the real frequency of these mutations in the Brazilian population. Rev. Bras. Hematol. Hemoter.

Key words: Abnormal hemoglobin; hemoglobinopathies; diagnosis.

Introdução

As hemoglobinas (Hb) variantes apresentam estrutura química diferente da Hb normal e são resultantes de mutações em bases nitrogenadas, que podem levar à substituição de aminoácidos nas globinas alfa, beta, delta ou gama.1 Atualmente existem mais de 1.010 variantes de hemoglobinas já descritas,2 (disponível em <http://globin.cse.psu.edu/) e algumas com consequências fisiopatológicas ao portador.

A Hb S é uma variante resultante da substituição de um ácido glutâmico (Glu) por uma valina (Val) na posição 6 da cadeia beta. O resultado de uma mutação pontual no DNA é responsável por modificações na estabilidade e solubilidade da molécula de Hb e consequente falcização dos eritrócitos, quando expostos à baixa concentração de oxigênio, acidose ou desidratação. Os estados heterozigotos geralmente apresentam cerca de 40% de Hb S (α2A β2S), sendo o restante representado por moléculas de hemoglobina normais (α2Aβ2A). Os portadores dessa condição têm pouca tendência ao afoiçamento das hemácias, exceto em condições de grave hipóxia. Nos homozigotos com a quase totalidade de Hb S, observa-se um quadro clínico de anemia hemolítica crônica de intensidade variável e dependente de fatores genéticos e ambientais.5

A Hb B22A δ2B) é uma variante de cadeia delta, resultante da substituição de uma glicina (Gly) por uma arginina (Arg) na posição 16 da cadeia delta.6 Na presença desta variante, os valores de Hb A22A δ2A) apresentam-se reduzidos devido à produção de cadeias globínicas delta mutante. As variantes de globina delta não estão associadas a manifestações clínicas significativas, devido ao baixo nível de produção dessas cadeias e de seu conteúdo total nos eritrócitos.3,4 Devem, no entanto, ser caracterizadas nos testes laboratoriais de rotina diagnóstica para sua adequada identificação, contribuindo assim para o conhecimento das relações antropológicas em nosso país, por meio de sua origem étnica.

Relato de Caso

Indivíduo do sexo feminino, caucasoide, 37 anos de idade, proveniente da cidade de São Paulo, com anemia microcítica e hipocrômica a esclarecer, foi encaminhado para pesquisa de hemoglobinopatias, tendo em vista que o perfil de ferro apresentava-se normal e outras causas de anemia haviam sido afastadas, conforme histórico clínico. Inicialmente, realizaram-se os testes clássicos para detecção de hemoglobinas variantes, como eletroforese em acetato de celulose em pH alcalino e eletroforese de diferenciação em ágar fosfato em pH ácido, bem como a análise cromatográfica pela cromatografia líquida de alta performance, HPLC, em sistema automatizado Variant (Bio-Rad), segundo protocolo estabelecido e descrito na literatura.7 Nessa investigação inicial, a fração correspondente à Hb S foi visualizada em eletroforese em pH alcalino e ácido, e uma diminuição na Hb A2 foi evidenciada. Na presença de Hb A2 diminuída em eletroforese, é conduta do laboratório realizar nova eletroforese, com uma macro aplicação, visando a visualização de possível fração compatível com a Hb B2, migrando abaixo da Hb A2 na posição das anidrases, o que pode ser confirmado nesse caso. O cromatograma exibiu um perfil característico de Hb AS com porcentagem de Hb S igual a 41,3 % e tempo de retenção RT de 4.56 minutos. No entanto, a confirmação da Hb B2 não foi possível, pois esta elui na mesma janela da Hb S no sistema automatizado utilizado.

Posteriormente, foram realizados os testes específicos para a confirmação do perfil de Hb inicialmente observado. Essas análises compreenderam as eletroforeses de cadeias polipeptídicas, em pH alcalino e ácido, e a análise molecular dos mutantes de globina por PCR-RFLP.7 Na eletroforese de cadeias polipeptídicas em pH alcalino houve separação da b globina mutante, em posição similar a beta S, mas não da delta mutante. Somente as análises moleculares por PCR-RFLP para Hb S e para Hb B2 comprovaram a heterozigose para ambas as variantes, determinando o perfil de Hb AS associada à Hb B2, conforme inicialmente suspeitado no resultado da eletroforese em pH alcalino.

Discussão

A presença de variantes de hemoglobina de origem africana na população brasileira, como a Hb B2 e a Hb S, resultam da imigração forçada de negros africanos para nosso país e refletem a miscigenação característica do Brasil. O gene δ globina está localizado próximo ao gene β globina, no braço curto do cromossomo 11 e, devido a esta proximidade, existe uma baixa probabilidade de recombinação entre eles, com uma alta probabilidade de serem herdados juntos, levando à ocorrência de variantes estruturais de cadeia delta e beta em conjunto,3,4 como a interação entre Hb B2 e Hb S.

A Hb B2, inicialmente identificada como Hb A2', é uma variante silenciosa de cadeia delta globina, tem frequência de 9,2% em bantus sul-africanos e, entre 1% a 3% em afroamericanos.6 Torres et al. relataram a frequência de 1% dessa variante em caucasoides da região amazônica brasileira.8

Segundo a literatura, dados hematológicos da dupla heterozigose entre Hb S e Hb B2, não evidenciam a presença de anemia.2,3,9 Nesse caso em especial, a presença de anemia microcítica e hipocrômica deverá continuar a ser investigada.

A identificação dessa interação exigiu a realização de testes complementares para a confirmação diagnóstica. A necessidade da associação de diversas metodologias para a determinação do perfil de Hb na população brasileira é importante, visto que a utilização de um ou outro método isoladamente pode fornecer um laudo equivocado. Nessas situações, a análise molecular por PCR-RFLP deixa de ser um teste complementar e torna-se conclusivo na determinação do perfil de mutantes de globina.

Apesar da interação entre Hb S e Hb B2 não representar quadro clínico significativo, a pesquisa e caracterização dessas variantes é importante para o conhecimento da diversidade de hemoglobinas na população brasileira, altamente miscigenada.

Recebido: 09/05/2008

Aceito após modificações: 02/07/2009

Suporte Financeiro: Fapesp e CNPq.

Avaliação: Editor e dois revisores externos

Conflito de interesse: sem conflito de interesse

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  • 8. Torres FR, Ondei LS, Zamaro PJA, Machado R, Bonini-Domingos CR. Identificação de Hb AB2 em dois caucasianos da região amazônica por procedimentos eletroforéticos e cromatográficos. Rev Bras Hematol Hemoter. 2005;27(2):138-47.
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  • Correspondência:
    Claudia Regina Bonini-Domingos
    Laboratório de Hemoglobinas e Genética das Doenças Hematológicas - LHGDH.
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  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      19 Mar 2010
    • Data do Fascículo
      Fev 2010

    Histórico

    • Recebido
      09 Maio 2008
    • Aceito
      02 Jul 2009
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