Ficções de si: a escrita entre línguas-culturas

Self-fictions: writing among languages-cultures

Marluza T. da Rosa Sobre o autor

Resumo:

Neste artigo, propomo-nos a indagar sobre o papel da escrita no aprendizado de línguas estrangeiras e na construção de uma imagem de si em uma língua outra. Para tanto, analisamos excertos da produção textual de aprendizes de português como língua estrangeira, realizada durante o ano letivo de 2013-2014. Inseridos no domínio da Linguística Aplicada, ancoramos esta discussão no cruzamento entre os estudos do discurso, da psicanálise e da desconstrução, entendendo que a escrita na língua do outro não só (d)enuncia o imaginário acerca do estrangeiro, mas também funciona como espelho para uma constituição identitária múltipla e em constante transformação. Os fragmentos analisados permitem-nos afirmar que é possível escrever(-se) para além da estaticidade que, muitas vezes, impera nas atividades de escrita escolares/acadêmicas, o que contribui para a (re)inscrição de si, afetada pela presença constante do outro, enquanto multiplicidade irredutível a uma única língua-cultura.

Palavras-chave:
encontros linguísticos; escrita; ensino de línguas

Abstract:

This paper aim to call into question the role of writing in the foreign language learning process and in the construction of 'self' in another language. To achieve this goal, we analyzed texts written by Portuguese learners, which were produced during the school year of 2013-2014. Inserted in the Applied Linguistics field, this discussion is grounded on the theoretical intersection among discourse, psychoanalysis, and deconstruction studies, and understands that writing in another language not only (de)(an)nounces representations of the foreigner, but also works as a mirror for a multiple identity construction, which is in constant transformation. The data allowed us to state that it is possible to write oneself beyond the stativity that often prevails in school / academic writing activities, which contributes to the (re)inscription of 'self', affected by the constant presence of the other, as an irreducible multiplicity to a single language-culture.

Keywords:
linguistic encounters; writing; language learning

1 Considerações iniciais

Não posso mais escrever de maneira monolingüe. O que quero dizer é que deporto e desarrumo minha língua, não elaborando sínteses, mas sim através de aberturas lingüísticas que me permitem conceber as relações das línguas entre si em nossos dias, na superfície da terra - relações de dominação, de convivência, de absorção, de opressão, de erosão, de tangência, etc. - como em um imensodrama, em uma imensa tragédia de que minha língua não pode ficar isenta e salva. E, por conseguinte, não posso escrever minha língua de maneira monolingüe; escrevo-a na presença dessa tragédia, na presença desse drama (GLISSANT, 2001/2005, p. 49-50).

Com essas palavras - que poeticamente descrevem o turbilhão de línguas em meio ao qual o sujeito contemporâneo se constitui -, Édouard Glissant, escritor e crítico literário, reflete sobre a escritura. Em meio a tais condições, como escrever, de onde escrever, em qual língua, já que o movimento entre línguas carrega em si os desarranjos de uma subjetividade deslocada? Como assumir como minha a língua do outro? Não se pode escrever de maneira monolíngue, reiteradamente, soa, por um lado, como o sintoma de um mal-estar, de uma falta de pertencimento: não estou mais em minha língua, ou melhor, não há mais (se se pode dizer que algum dia houve)minha língua, única, intocada, inalterável, mastodas as línguas que, na relação estabelecida entre si, fazem-se presentes em meu dizer. Por outro lado, essa repetição soa como uma palavra de ordem: não se deve escrever de maneira monolíngue, pois, como não sou imune às transformações desencadeadas pela mobilidade, não posso escrever de fora dessas "relações de dominação, de convivência, de absorção, de opressão, de erosão, de tangência".

É da constituição de uma escrita de si no movimento e no contato entre línguas que trata esta reflexão, desenvolvida a partir de uma releitura de nossa dissertação de mestrado, na qual tratamos dos efeitos de sentido constituídos acerca da noção de língua pelo sujeito pesquisador da linguagem (DA ROSA, 2009DA ROSA, M. T. (2009). Entre uma língua e outra: desdobramentos das designações língua materna e língua estrangeira no discurso do sujeito pesquisador da linguagem. 2009. Dissertação (Mestrado em Letras) - Centro de Artes e Letras, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 134 p. ). Naquele estudo, partimos da conjetura de que os modos de designar a língua - tais como língua materna, língua estrangeira, língua de origem, língua de adoção, dentre outros -, colocados em funcionamento em artigos acadêmicos pertencentes ao domínio das ciências da linguagem, são também influenciados pela identificação do pesquisador com as línguas por entre as quais se desloca. Assim, defendemos que, pelo modo de designar a língua, torna-se possível tratar da formulação/circulação de um discurso constituído em e por um entre-lugar, ou seja, um lugar intervalar onde as línguas se imbricam na constituição do sujeito (CORACINI, 2007CORACINI, M. J. (2007). A celebração do outro. Campinas: Mercado de Letras.).

É em torno da possibilidade de refletirmos sobre a relação entre línguas-culturas como determinante nessa constituição que discorreremos neste texto. Para tanto, o gesto de leitura que aqui desenvolvemos remonta à problemática que concerne à relação do sujeito com a(s) língua(s), mas também ao envolvimento com a escrita em um ambiente de aprendizagem formal: espaço cerceador, já que se deve escrever e se inserir em uma ordem de discurso, mas, ao mesmo tempo, espaço que potencializa uma escrita de si, a qual, por sua vez, pode mobilizar aspectos da subjetividade. Tendo em vista, contudo, que a relação do sujeito com as línguas não se restringe tão somente ao âmbito escolar, no qual uma simples distinção entre língua materna e língua estrangeira bastaria para estabelecer limites entre as línguas, para colocar cada uma em seu compartimento, interessa-nos revisitar a pergunta já formulada porPrieur (2006PRIEUR, J-. M. (2008). La vie : un récit en quête de narrateur. In: RICOEUR, P. Écrits et conférences I: autour de la psychanalyse., Paris: Éditions du Seuil p. 257-276.a, p. 485): "como aquele que escreve dá forma a seu desejo de escrever a partir de sua própria existência e de uma amarração íntima à ou às línguas nas quais escreve?"1 1 " Comment celui qui écrit donne-t-il forme à son désir d'écrire, à partir de sa propre existence et d'un nouage intime à la ou aux langues dans lesquelles il écrit ? ". As traduções de todas as citações que figuram em nota de rodapé são nossas. . Abordaremos, primeiramente, a questão da escrita, para, então, adentrarmos nos meandros dessa escrita de si.

2 De uma escritura rizomática entre línguas-culturas

Para indagarmos sobre o papel da escrita no aprendizado de línguas estrangeiras e, mais pontualmente, na constituição de uma imagem de si em uma língua outra, não podemos nos abster de sinalizar o vínculo entre essa problemática e a noção de discurso, seja como feixe de práticas discursivas, como o define Foucault (1969/2009)FOUCAULT, M. (1969/2009). A arqueologia do saber. Trad. Luiz Felipe Baeta Neves. Rio de Janeiro: Forense Universitária., seja como laço social, segundo Lacan (1974LACAN, J. (1974). Télévision. Paris: Seuil.). Esse é um ponto incontornável, posto que o discurso, nesse viés, é marcado pela heterogeneidade, enquanto lugar de estranhamento, de conflito e de constituição de si mesmo com o (e como) outro. Tais considerações exercem um papel importante para esta discussão, pois, quando tratamos de contatos linguísticos, o que ressoa é esse modo de constituição subjetiva em um interstício, ou seja, em um entremeio.

A noção de interlíngua tem sido constantemente utilizada nos contextos de ensino-aprendizagem para tratar dessa relação. Contudo, devemos permanecer atentos para que essa forma de abordagem, apesar de aparentemente aberta à inter-relação linguística, não reduza o múltiplo ao dual, ao tratar de um intervalo que seria apenas um entre dois. A esse respeito, concordamos com Prieur (2006PRIEUR, J-. M. (2006b). Contact de langues et positions subjectives. Langage et société. n. 116, p. 111-118.b) quando o autor destaca que todo ser falante é constitutivamente um sujeito multilíngue, inscrito em uma lógica plural de falares, dialetos, estilos familiares ou formais, o que nos impõe a contingência de pensar para além de uma ordem binária: não se trata de tentar se comunicar entre duas línguas, mas de tomar uma posição e produzir sentidos na relação com ao menos duas línguas. Tal perspectiva não só possibilita que se compreenda esse processo como não sendo meramente cognitivo, em que seria possível "dominar" conscientemente dois ou diversos sistemas, mas também permite que se analise a própria materialidade linguística, a partir de sua dimensão social, cultural, histórica e subjetiva. Sendo assim, defendemos que esse espaço entre, esse interstício, não consiste em uma "fase", em que o aprendiz "ainda não se desprendeu da língua chamada materna" (DA ROSA, 2009DA ROSA, M. T. (2009). Entre uma língua e outra: desdobramentos das designações língua materna e língua estrangeira no discurso do sujeito pesquisador da linguagem. 2009. Dissertação (Mestrado em Letras) - Centro de Artes e Letras, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 134 p. , p. 44), fase em que esta exerceria uma "interferência" prejudicial na aprendizagem da língua estrangeira, nos moldes de uma perspectiva que, segundo Coracini (2007CORACINI, M. J. (2007). A celebração do outro. Campinas: Mercado de Letras., p. 145), apontaria "para a possibilidade de numerar as línguas, estudando a aquisição de uma (ou mais línguas) como algo passível de ser descrito, analisado, objetificado, categorizado".

Defender a existência de uma (má) interferência linguística, além de escamotear aspectos singulares que apontam para o investimento subjetivo dos falantes, reduz o que se considera "linguístico" ao plano tão somente formal ou gramatical. Ora, essa visão, por um lado, não se sustentaria, pois falar uma língua não se restringe ao âmbito cognitivo, consciente e racionalmente calculado, tampouco consiste em uma relação polarizada, mas múltipla e inumerável, uma vez que estão em jogo aspectos sócio-histórico-culturais, como já mencionamos, e não sistemas linguísticos descarnados. Por outro lado, essa abordagem não sustentaria (ou limitaria em muito) "um pensamento da descontinuidade, da flutuação, da multiplicidade" (PRIEUR, 2006PRIEUR, J-. M. (2006b). Contact de langues et positions subjectives. Langage et société. n. 116, p. 111-118.b, p. 115), em consonância com o momento contemporâneo. É por essa razão que afirmamos que a produção de sentidos, nesse processo, possui um caráter de rizoma, nos termos de Deleuze e Guattari (1980/1995)DELEUZE, G; GUATTARI, F. (1980/1995). Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia1. Trad. Aurélio Guerra Neto e Celia Costa. Rio de Janeiro: Editora 34. , no qual as línguas e as culturas assumem valores pelas relações que estabelecem entre si; relações estas que tendem para várias direções, caracterizando uma cartografia, na qual espaço e tempo se suspendem ou se abrem ao questionamento.

É também nesse (du)elo entre línguas-culturas que se pode tomar a noção de identidade, posto que esta não se afirma apenas pela diferença - sou idêntico a mim mesmo por ser diferente do outro, externo a mim -, mas pela ida ao encontro desse outro. Identidade rizoma, segundo Glissant (2001/2005, p. 28)GLISSANT, E. (2001/2005). Introdução a uma poética da diversidade. Trad. Enilce Albergaria Rocha. Juiz de Fora: Editora UFJF. , que nos coloca frente a um dilema: "como ser si mesmo sem fechar-se ao outro, e como abrir-se ao outro sem perder-se a si mesmo?". O que marca uma possível resposta a esse impasse é a insistência em uma poética e em uma política da relação, no sentido de compreender que, se há uma identidade possível, ela só pode se dar a partir do outro e do caminho que se faz para encontrá-lo. Falar e escrever ou, de forma mais ampla e intrínseca, inserir-se na linguagem, implica estar impregnado pelos outros e pelo Outro (enquanto amplitude da cultura, da inscrição social, mas também do inconsciente). Desse modo, talvez seja mais profícuo pensarmos nessa simbiose identitária nos termos de uma relação ou de um encontro, tanto como convergência, tal como o encontro entre rios, quanto como "dupla-captura" (DELEUZE e PARNET, 1996/1998), e não de umcontato linguístico. Além disso, pensar em uma relação, que envolve tanto atração quanto repulsão, permite evocar as relações de poder-saber enquanto constitutivas do sujeito sócio-histórico, tal como o desenvolve Foucault (1969/2009); poder este que é, ao mesmo tempo, cerceador e produtivo. Sendo assim, a escolha por pensar a questão identitária pelo viés da convergência e da dupla-captura pode potencializar a problematização de fenômenos "que vêm misturar estas fronteiras, aqueles que as ultrapassam deixando assim aparecer o seu artifício histórico, isto é, as relações de força que aí se concentram", como o quer Derrida (1996/2001, p. 21). Essas relações permitem-nos remontar ao excerto de Glissant (2001/2005), tomado como mote deste estudo, dados seus desdobramentos "de dominação, de convivência, de absorção, de opressão, de erosão, de tangência", tendendo para uma multiplicidade incontornável.

Tal pluralidade se deve ao movimento que tem marcado nossa sociedade e que não se restringe apenas à facilidade de nos deslocarmos fisicamente, mas também à possibilidade de interagirmos constantemente, devido ao desenvolvimento de novas formas de comunicação, principalmente ligadas à Internet. Contudo, salientamos que esse movimento não é uma condição sine qua non de um pensamento plural, pois toda língua é marcada pela diversidade de falares, pelo atravessamento de outras línguas, o que leva Prieur (2006PRIEUR, J-. M. (2006b). Contact de langues et positions subjectives. Langage et société. n. 116, p. 111-118.b, p. 111) a assegurar que "não é língua se não for língua-mista, não é subjetividade se não for compósita"2 2 " il n'est pas de langue qui ne soit une langue-mixte, il n'est pas de subjectivité qui ne soit composite ". . Heterogêneos, sujeito e língua são marcados pelo outro (presente enquantoalteridade/heterogeneidade), o que os torna irredutíveis ao um/uno. Efeitos dessa não-unidade podem ser apontados na relação que se estabelece com a escrita na/da língua estrangeira, pois, segundo Rocha (2005ROCHA, E. A. (2005). Prefácio. In: GLISSANT, E.. Introdução a uma poética da diversidade Trad. Enilce Albergaria Rocha., Juiz de Fora: Editora UFJF p. 9-11., p. 11), essas "transformações do espaço-tempo e das realidades culturais, bem como os deslocamentos e aserrâncias tornam-se constitutivos de sua própria escrita".

Se explorarmos o que a autora designa como "própria escrita", podemos pensar em uma escrita característica de alguém, mas também que caracteriza alguém, uma vez que, se o sujeito é constituído nas e pelas línguas por entre as quais transita, é também a escrita de si, a maneira de escrever e de se inscrever nas línguas, que será modificada. Nesse sentido, sua "própria escrita" já funciona como uma escritura, nas palavras de Coracini (2007CORACINI, M. J. (2007). A celebração do outro. Campinas: Mercado de Letras., p. 127), "inscrição do sujeito (híbrido) numa língua que é, como ele, sempre híbrida, que é sempre do outro e sempre a sua". Nesse sentido, tanto a reflexão de Derrida (1996/2001) sobre sua própria condição à beira das línguas - já que a única língua que ousa chamar de sua é o francês, a língua do colonizador, do outro, portanto -, quanto seus diálogos com Roudinesco em torno da problemática da herança (DERRIDA e ROUDINESCO, 2001DERRIDA, J. (1996/2001). O monolinguismo do outro ou a prótese de origem Trad. Fernanda Bernardo. Porto: Campo das Letras Editores S. A./2004DERRIDA, J. ; ROUDINESCO, E. (2001/2004). De que amanhã... Trad. André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.), são esclarecedores, pois falar uma língua não diz respeito apenas ao âmbito linguístico. Falar uma língua, como uma herança, implica a não passividade, a decisão de, ao mesmo tempo, aceitar e transformar o que se herda, em uma busca constante por se apropriar do inapropriável. Em função disso, é que nunca se está em casa em uma língua, é-se sempre estrangeiro, "sempre exilado", no dizer de Coracini (2007, p. 48), para quem,

toda língua é estrangeira, na medida em que provoca em nós estranhamentos, e toda língua é materna, na medida em que nela nos inscrevemos, em que ela se faz ninho, lar, lugar de repouso e de aconchego; ou melhor, toda língua é materna e estrangeira ao mesmo tempo (CORACINI, 2007CORACINI, M. J. (2007). A celebração do outro. Campinas: Mercado de Letras., p. 48).

Em diversos estudos que têm se voltado para essa questão, a compreensão do desconforto e do mal-estar frente à(s) língua(s) tem ganhado mais ênfase do que a simples análise valorativa dos erros do aprendiz, principalmente a partir da ancoragem psicanalítica, desde O estranho freudiano (1919/1976)FREUD, S. (1919/1976). O estranho. In: FREUD, S. Obras completas. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. 17. Trad. J. Salomão. Rio de Janeiro: Imago, p. 85-125. ao Estrangeiros para nós mesmos, de Kristeva (1988/1994)KRISTEVA, J. (1988/1994). Estrangeiros para nós mesmos. Trad. Maria Carlota Gomes. Rio de Janeiro: Rocco., ou a O luto da origem3 3 Le deuil de l'origine. , de Robin (2003ROBIN, R. (2003). Le deuil de l'origine. Paris : Éditions Kimé.). Contudo, se toda língua é materna e estrangeira, a experiência de saber-poder decorrente do encontro com outras línguas pode não ser sempre vivenciada como um mal-estar paralisante, mas como uma possibilidade de outra ficção de si-mesmo ou da criação de outro si-mesmo. No âmbito da escritura, enquanto inscrição de si, mas também como risco de perda, de morte, de finitude, esses duplos possíveis podem ganhar contornos,

pois de uma língua à outra podem-se inventar 'pontes verbais', laços, articulações de uma rede associativa que opera através de palavras, fonemas, assonâncias ou homofonias. Podem-se criar um 'espaço aberto' e uma subjetividade ou uma trans-subjetividade a serem vividos na passagem, na travessia, e que, na angústia ou no gozo da mudança de corpo e de língua, veem suas fronteiras questionadas4 4 Tradução adaptada de " parce que d'une langue à l'autre peuvent s'inventer des 'ponts verbaux', des liens, des articulations, ceux d'un réseau associatif opérant à travers mots, phénomènes, assonances ou homophonies. Il peut être création d'un 'espace ouvert', et d'une subjectivité ou d'une trans-subjectivité à vivre dans le passage, la traversée, et qui, dans l'angoisse ou la jouissance du changement de corps et de langue, voit ses frontières questionnées ". (PRIEUR, 2006PRIEUR, J-. M. (2006b). Contact de langues et positions subjectives. Langage et société. n. 116, p. 111-118.b, p. 116).

Experimentaremos essa possibilidade de reinvenção com o auxílio da noção de identidade narrativa, formulada por Ricoeur (1990RICOEUR, P. (1990). Soi-même comme un autre. Paris: Éditions du Seuil.; 2008), a qual não se caracteriza pura e simplesmente pela criação de uma personagem para agir em uma história, mas pelo modo como essa personagem (se) significa no tempo e no enredo narrativo, bem como pela forma como buscamos compreender nossa própria subjetividade com base nas narrativas que nossa cultura oferece. Constituímo-nos, construindo fantasias de nós mesmos, de modo que, se nossa identidade está em constante transformação, esta se mostra em uma dialética, constitutiva da própria noção de identidade, entre idem (a mesmidade, o idêntico) e ipse (a alteridade, o outro de - ou que não seja - si mesmo), entre concordância e discordância, reunidas em uma narrativa que se configura como uma "síntese do heterogêneo", nos termos de Ricoeur, para quem "o que chamamos de subjetividade não é nem uma sequência incoerente de acontecimentos nem uma substancialidade imutável, inacessível ao devir"5 5 " ce que nous appelons la subjectivité n'est ni une suite incohérente d'événements ni une substantialité immuable inaccessible au devenir ". (RICOEUR, 2008, p. 274). Assim, mesmo que não sejamos os autores da nossa vida, somos os narradores de nossa história, sendo essa dimensão narrativa o que caracteriza uma vida, no sentido biológico do termo, como vida humana, ainda em conformidade com o autor.

Consequentemente, se aceitarmos que é diante do outro, na relação com traços de pessoas, textos, autores, personagens com os quais nos identificamos que compreendemos e construímos a nós mesmos, é possível afirmarmos que um acontecimento análogo também tem lugar/acontece em outras línguas, que nos proporcionam o confronto com outras culturas e outras narrativas. Mais ainda, temos a possibilidade de mesclar essas culturas e essas narrativas de modo a criar esse espaço aberto, essa subjetividade a ser vivenciada na travessia, de que trata Prieur (2006PRIEUR, J-. M. (2006b). Contact de langues et positions subjectives. Langage et société. n. 116, p. 111-118.b), desterritorializando-nos e reterritorializando-nos, criando um território nosso, nosso lugar, compreendendo nosso pequeno drama subjetivo e situando-nos nessa "imensa tragédia" de que não saímos indenes.

Contudo, a noção de identidade narrativa implica ainda uma outra dimensão, uma outra cena, diríamos psicanaliticamente, pois, de acordo com Ricoeur (2008, p. 271), "a história de uma vida procede de histórias não contadas e recalcadas em direção a histórias efetivas que o sujeito poderia assumir e sustentar como constitutivas de sua identidade pessoal"6 6 " l'histoire d'une vie procède d'histoires non racontées et refoulées en direction d'histoires effectives que le sujet pourrait prendre en charge et tenir pour constitutives de son identité personnelle ". . Histórias efetivas que, talvez, sejam mais aceitáveis, mais de acordo com dada cultura, dada época de uma sociedade. Se o que o autor chama de identidade pessoal é aquela história contada, a partir da junção de acontecimentos diversos em um todo coerente, o que faríamos com as histórias não contadas ou mal contadas? É sabido que a língua estrangeira pode consistir em uma válvula de escape para estas, como já apontaram pesquisadores que se voltam para o estudo de grandes escritores, os quais só escreveram sobre determinados temas tabus, sobre determinados afetos, afetados pela/na "língua do outro", tais como Kafka, Beckett, Joyce e Artaud7 7 A esse respeito, conferir Prieur (2006a) e Deleuze e Parnet (1996/1998). . O principal exemplo, dentre os nossos, são os heterônimos de Fernando Pessoa e seus poemas escritos nas línguas inglesa e francesa.

Essa identidade narrativa se constitui, portanto, dialeticamente, no espaço intervalar entre uma tentativa de estabilização identitária e o constante movimento. Ela é um ponto de apoio subjetivo, uma tábua de salvação ou, então, uma linha de fuga. Todavia, não é evidente que se possa, por meio da escritura na e pela língua estrangeira, refletir sobre si mesmo ou se dizer. A própria escolha por uma ou outra língua não é dada conscientemente. Tampouco é evidente que tal compreensão narrativa de nós mesmos tenha lugar nem na chamada língua materna, pois estamos imersos e ocupados em viver e narrar essa ficção que é nossa realidade, já que ambas se imbricam, interpenetram-se, como pontua Coracini (2007CORACINI, M. J. (2007). A celebração do outro. Campinas: Mercado de Letras.).

É fundamental destacar, nesse sentido, que, mesmo quando não pensamos construir uma personagem, mesmo quando tentamos falar do que acreditamos ser nós mesmos, em nossa mais pura essência, construímos uma personagem, produzimos uma ficção. Foi o que já afirmamos ao analisar um corpus bastante distinto do que será aqui discutido, a saber, o dizer de estudantes sobre seu processo de formação para a pesquisa científica, em que foi mobilizado um imaginário sobre a ciência e sobre o pesquisador ou o cientista (DA ROSA, 2013DA ROSA, M. T. (2013). O discurso universitário-científico na contemporaneidade: marcas e implicações na constituição identitária do pesquisador em formação. Tese (Doutorado em Linguística Aplicada) Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 251p.). Nesse caso, embora falando da ciência e do cientista, o que, supostamente, distanciava-se do eu (pois os pesquisadores em formação não se viam como pesquisadores nem como cientistas, acreditando estarem longe de uma Ciência com maiúscula, já que só estudavam e faziam pesquisa), era também uma ficção de si que se construía nessa relação. É o que nos permite assegurar, juntamente com Foucault (1979/2010, p. 34)FOUCAULT, M. (1979/2010). Microfísica do Poder. Organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal., que nossa identidade é apenas "uma máscara, é apenas uma paródia: o plural a habita, almas inumeráveis nela disputam; os sistemas se entrecruzam e se dominam uns aos outros".

Somos, portanto, jogos de máscara que se potencializam no encontro com novas línguas e outras culturas. E não poderia ser de outro modo, pois a imagem de si, supostamente una e estável, constitui-se como parte de uma fantasia. Porém, antes que se possa pensar no caráter descartável dessas faces ou na possibilidade de facilmente intercambiarmos umas e outras a nosso bel prazer, salientamos que elas nos constituem como "almas", retomando o termo foucaultiano, o que não nos deixa esquecer de sua dimensão inapreensível.

O que o multilinguismo permite, assim, não é a troca de identidade, a aquisição de uma nova máscara, mas a incorporação, no sentido de fazer corpo, de outras marcas, traços diferentes, mas também semelhantes aos que já considerávamos "nossos". Logo, como concebe Deleuze, em entrevista com Parnet, "o multilingüismo não é apenas a posse de vários sistemas, sendo cada um homogêneo em si mesmo; é, antes de tudo, a linha de fuga ou de variação que afeta cada sistema impedindo-o de ser homogêneo" (DELEUZE e PARNET, 1996/1998, p. 12). Consequentemente, é também o que impede a constituição homogênea da subjetividade.

Leremos os excertos apresentados a seguir de modo a compreender esse dinamismo que marca a relação entre línguas-culturas. O que buscamos, nessa visada, não é formular conclusões a respeito dos quatro estudantes autores das narrativas analisadas, mas interpretá-las como uma possibilidade de reflexão sobre a constituição identitária, por meio da escritura, no encontro linguístico.

3 A escrit(ur)a nos meandros do entre-lugar

O objeto de análise deste estudo foi constituído a partir de uma atividade de produção escrita feita por estudantes universitários, falantes de francês e de espanhol, iniciantes no curso de português como língua estrangeira, em uma instituição francesa de ensino superior8 8 Na instituição em questão, a disciplina de língua portuguesa integra, por um lado, o quadro de cursos oferecidos pelo Departamento de Estudos Transversais, destinados a todos os estudantes interessados, e, por outro, a grade de disciplinas ofertadas pelo Departamento de Línguas, com foco na formação em Estudos Hispânicos. O fato de a língua portuguesa ser uma das línguas estrangeiras exigidas pelo curso (sendo as outras opções o Latim e o Catalão) faz com que a maioria dos alunos de português esteja em preparação para a atuação como professores de língua espanhola. , durante o ano letivo de 2013-2014. Nem todos os estudantes participantes do curso de português eram de nacionalidade francesa, mas todos eram falantes de francês. Com relação ao espanhol, alguns alunos provinham de famílias mistas - franco-colombiana, por exemplo - outros, nascidos em países hispânicos, fizeram sua formação básica em liceus franceses nesses países e estavam na França para cursarem o ensino superior. Acreditamos ser impossível precisar, apenas com base na nacionalidade ou no local de nascimento, qual(is) seria(m) a(s) língua(s) materna(s) dos participantes e qual(is) língua(s) lhe(s) seria(m) estrangeira(s), tampouco é esse nosso objetivo. Outra pesquisa precisaria ser desenvolvida com esse propósito específico, pois, para além da descendência (nascimento pelo sangue) e da nacionalidade dos participantes (nascimento pelo solo), é do nascimento pela língua, segundo Derrida (1996/2001), que tratamos aqui.

A proposta de escrita que desencadeou as narrativas tinha como título "(Auto)biografia" e incitava os estudantes a escrever sobre si mesmos ou sobre uma personagem fictícia. Em ambos os casos, deveria haver uma breve descrição dessa personagem, bem como uma ordem narrativa que compreendesse, passado, presente e futuro. Desse modo, salientamos que a produção escrita não se deu de forma totalmente livre, mas circunscrita à proposta apresentada, a qual visava que fossem "colocados em prática" os conteúdos programáticos trabalhados ao longo do ano. Algumas formalidades escolares, tais como esta, ainda se mantêm, cerceando e, ao mesmo tempo, constituindo tanto alunos quanto professores.

Trata-se, portanto, de uma escrita inscrita na ordem do discurso escolar-acadêmico. Contudo, tal determinação não anula a emergência de traços subjetivos e de faíscas das línguas-culturas que se entrechocam nessa constituição, pois, apesar de, nos excertos aqui analisados, os estudantes optarem pela invenção de uma personagem, é de si que tratam. Essa (con)fusão é sugerida pelo próprio título da proposta de escrita, o que torna, talvez, mais consciente esse falar de si, mas que não invalida a reflexão sobre a constituição subjetiva no encontro linguístico, já que não acreditamos na suposta transparência da linguagem nem no domínio (maîtrise) das línguas, que possibilitariam dizer exatamente aquilo que se quer e ser lido da mesma forma.

O primeiro dos quatro excertos escolhidos para esta análise foi extraído da narrativa de Maria9 9 Os excertos são apresentados tal como foram escritos, sem a intervenção/correção da professora. Atribuímos apenas nomes fictícios para identificar cada um dos participantes. , a cuja personagem é dado o nome de Ana.

R1) No deserto de Atacama, o deserto mais árido do mundo, nasceu uma criatura, ninguém sabe como ou por que, chamada Ana. Aqueles que a viram, disseram que era pretinha, alta, com olhos grandes e escuros. Depois de seu nascimento, ela caminhou o deserto todo, procurando encontrar gente com quem viver (e, sobretudo, algo para jantar). Quando finalmente encontrou um pequeno povoado, uma corajosa mulher a adotou. Até sua morte, Ana foi considerada a filha do medo, e a preferida da cinco irmãos (Maria).

Nascida em um deserto, uma personagem vaga sozinha, até encontrar um povoado e alguém que a adote e a alimente. Embora imaginário, esse lugar é atrelado, pelo nome próprio, ao deserto de Atacama, no Chile, em uma possível tentativa de desterritorialização da narrativa, da personagem fictícia e, por que não, de si mesma. Enquanto aprendiz de língua portuguesa do Brasil, falante de espanhol latino-americano, nascida no México, mas vivendo na França, Maria reterritorializa sua história em uma América já distante e (re)inventada. Trata-se de um primeiro deslocamento, não em termos físicos, mas simbólicos, possibilitado pela escrita.

Se considerássemos apenas os níveis lexical, sintático e gramatical, haveria poucas marcas de uma real imbricação linguística. Todavia, o aspecto que mais nos chama a atenção é o que atrela língua, cultura e identidade no cenário da história: um deserto, o "mais árido do mundo", no qual nasce a personagem feminina. O tom literário da narrativa, assim como a evocação da aridez e da própria imagem do deserto, não permite que desconsideremos seu caráter metafórico, principalmente se tomarmos esta como uma das primeiras escrit(ur)as na língua estranha: o vazio, a dificuldade, a ausência de interlocutores, são indícios que apontam para além de uma ficção descarnada, pois marcam o processo de constituição (o nascimento) de uma identidade narrativa. O relato desse nascimento não se refere necessariamente ao encontro com a língua portuguesa, visto que Maria já havia vivenciado outros encontros, na condição de sujeito "bilíngue" ou, diríamos, multilíngue. É nesse sentido que o deserto imaginado e imaginário pode estar em qualquer espaço-tempo, dizendo da subjetividade de quem (se) escreve de uma maneira não monolíngue; mais, ainda, pode ser quem (se) escreve.

Notamos que não há uma razão evidente para o nascimento dessa "criatura" ("ninguém sabe como ou por que") ou, talvez, haja, mas seja externa à narração: a demanda, vinda do outro/Outro, para que uma escrita se produza e para que a personagem seja criada. Nesse âmbito narrativo, podemos pensar tanto na construção de um narrador-personagem que conta sua própria história em terceira pessoa, quanto na disjunção entre um narrador onisciente (e criador) e a personagem (sua criatura, que pode não ser humana). Sendo assim, mais do que uma invenção de Maria, Ana, a personagem, poderia ser um de seus duplos, uma das combinações que a habitam, uma das possibilidades de ser si-mesma, sendo outra. É por essa razão também que entendemos que a referência ao deserto está situada menos física do que subjetivamente. Segundo Deleuze, no diálogo com Parnet, "o deserto, a experimentação sobre si mesmo é nossa única identidade, nossa única chance para todas as combinações que nos habitam" (DELEUZE e PARNET, 1996/1998, p. 19). Apesar de, no seio da ficção, os traços físicos de Ana serem mobilizados ("pretinha, alta, com olhos grandes e escuros"), conferindo maior verossimilhança ao relato (e atendendo à solicitação da proposta de escrita), estes constroem novamente a imagem de um duplo, já que Ana é também o nome de uma colega de classe com as mesmas características físicas da personagem e de Maria. Assim, Deleuze continua:

Nós somos desertos, mas povoados de tribos, de faunas e floras. Passamos nosso tempo a arrumar essas tribos, a dispô-las de outro modo, a eliminar algumas delas, a fazer prosperar outras. E todos esses povoados, todas essas multidões não impedem o deserto, que é nossa própria ascese; ao contrário, elas o habitam, passam por ele, sobre ele (DELEUZE e PARNET, 1996/1998, p. 19)DELEUZE, G; PARNET, C. (1996/1998). Diálogos. Trad. Eloisa Ribeiro. São Paulo: Editora Escuta. .

Por meio das palavras do autor, é possível compreender melhor essa narrativa alegórica em torno do deserto (de si), bem como da busca constante, interminável, que move o sujeito em direção ao outro e à procura de um lugar ("ela caminhou o deserto todo, procurando encontrar gente com quem viver"). Não é insignificante o fato de a narrativa começar pela delimitação de um cenário inóspito ou pouco acolhedor, pois, nos termos de Prasse (1997PRASSE, J. (1997). O desejo das línguas estrangeiras. Revista Internacional. Rio de Janeiro. Ano 1, n. 1, p. 63-73., p. 71), o desejo das línguas estrangeiras, (da língua) do outro, está diretamente relacionado a essa busca, vista como uma "inquietação de não estar no lugar necessário, de não poder encontrar seu próprio lugar na língua materna". A autora se refere, nessa passagem, à leitura psicanalítica lacaniana a propósito da designação língua materna, que se caracterizaria por um traço negativo, já que é nessa língua que se instituem os interditos, diferentemente das línguas estrangeiras, nas quais haveria uma liberdade maior. Contudo, como enfatiza Coracini (2007CORACINI, M. J. (2007). A celebração do outro. Campinas: Mercado de Letras., p. 119), "não se pode defender a exclusividade de um espaço para o maternal ou para o estrangeiro", pois nenhuma língua é pura. Todas as línguas, assim como todo sujeito, retomando os termos de Deleuze já citados, são habitados e atravessados por outros, por multidões.

Nesse relato, entretanto, não é anódino o encontro, depois de tanto se errar, com uma mãe adotiva ("uma corajosa mulher a adotou") e, se continuarmos a explorar a narração como gênese ficcional da inscrição em uma língua estranha, essa imagem pode nos remeter não à língua estrangeira como língua sem interdições, mas àilusão de um espaço de familiaridade finalmente achado, uma ilusão de pertencimento, de se sentir em casa, embora se saiba ser sempre "considerada a filha do medo", o que aponta para um mal-estar, uma insegurança que não deixará de se fazer presente até sua morte.

O sintagma "filha do medo", que não deixa de funcionar em consonância com a narrativa, principalmente por se tratar de uma "criatura", que só foi adotada por uma mulher "corajosa", poderia ser considerado um "erro" causado pela distração ou pela dita interferência de outra(s) língua(s). Poderíamos conjeturar que o que Maria "quis dizer" tenha sido que Ana foi considerada a filha do meio e a preferida dentre os cinco irmãos. Seria mais "lógico", poderíamos argumentar. Contudo, parece-nos também mais difícil sustentar tal interpretação (afirmando que, em espanhol, meio escreve-se medio e medo, miedo, de modo que Maria poderia ter-se confundido, por exemplo. Em francês, peur e milieu não possuem nenhuma aproximação com o português).

Para além do que se teria querido dizer, o que analisamos é o que se diz. E o sintagma em questão, além de presentificar a equivocidade10 10 Nos estudos do discurso, permeados pela abordagem psicanalítica, "equívoco" e "equivocidade" são noções constituídas por esse cruzamento teórico. A afirmação de que um dizer é equívoco (e, por vezes, de que a própria língua é equívoca) não está atrelada a uma escolha e/ou a uma intencionalidade do falante/enunciador (ao fato de ter se enganado/se equivocado ou de ter escolhido falar/escrever de um modo e não de outro). A equivocidade diz respeito à possibilidade que um termo, uma expressão ou uma proposição possui de apontar para efeitos de sentido outros, diversos e até contraditórios (noções como "deslize" e "deriva" também são empregadas, menos como sinônimos de "erro" do que como "abertura a interpretações"). constitutiva de toda língua - enquanto possibilidade de mal-entendidos, de ambiguidades, de falhas, de lapsos, de produção e de desestabilização de sentidos -, também autoriza uma interpretação direcionada a traços do falar de si. Se, como argumenta Ricoeur (2008), uma história também é feita de histórias não contadas ou recalcadas, é significativo pensar que esse dizer (que aproxima familiar e estranho, filha e medo) tenha se produzido na língua dita estrangeira, em que, como colocamos anteriormente, determinados afetos, talvez silenciados na chamada língua materna, podem, enfim, mesmo que por um deslize, ter lugar. Embora não seja evidente que se possa falar de si na língua do outro, esta é uma possibilidade, já que em toda língua há um espaço-tempo para o materno e para o estrangeiro. Em outros termos e em conformidade com o pensamento de Deleuze e Guattari (1980/1995), podemos dizer que há um devir-materna e um devir-estrangeira em toda língua. A esse respeito, vejamos o excerto seguinte,

R2) No fundo do mar nasceu Vanda uma menina abandonada por o céu. Foi durante uma grande tempestade que saiu da espuma uma criança minúscula azul e vermelha. [...] Ela vivia sola em sua ilha [...] Cuando se cansava, deitava-se nas raízes dum arvore embalada por seus ramos e dormia até amanhecer. Umas vezes ficava acordada durante a noite toda conversando com as estrelas e com os espiritus dos outros planetas (Taís).

Talvez, uma das formas de se reescrever o pensamento da multiplicidade, ou a impossibilidade de se escrever de maneira monolíngue, seja a célebre passagem de John Donne, que abre um dos textos de Hemingway (1940/1976)HEMINGWAY, E. (1940/1976). Por quem os sinos dobram. Trad. Monteiro Lobato. São Paulo: Companhia Editora Nacional.: "nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra". Na ficção de Taís, ecoam essas palavras, pois, apesar de a personagem viver sozinha, é de uma simbiose quase cósmica que se trata em sua gênese e em sua identificação com a natureza e os astros. Além disso, ressoa em sua poética a existência mítica de personagens da literatura argentina - o que aponta para a constituição de uma identidade desterritorializada, não-europeia -, como O gaúcho Martín Fierro, sujeito lírico do poema épico de mesmo nome, que afirma:

Nasci como nasce o peixe nas profundezas do mar;

[...]

como essas aves tão belas, que saltam de rama em rama, no trevo preparo a cama e me cubro com as estrelas (MEIRELES, 1948MEIRELES, C. Martin Fierro: explicação e protesto do homem desamparado. Correio da manhã. Rio de Janeiro, 07 de novembro de 1948. Disponível em: Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=089842_05&pagfis=44216&pesq=&url=http://memoria.bn.br/docreader# . Acesso em: 19 out. 2015.
http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/H...
, s. p.).

Notamos várias semelhanças entre o poema e a narrativa de Taís, bem como entre esta e a história criada por Maria, no excerto anterior, tanto no que concerne ao cenário inicial, de vazio e abandono aparentes, quanto na constituição da personagem, que está só. A recorrência da temática da solidão é um elemento significativo para tratarmos de uma constituição subjetiva entre línguas-culturas, em que, ao mesmo tempo em que se está em um lugar, não se tem lugar.

De modo análogo ao excerto formulado por Maria, em que o nascimento, ou a criação de uma identidade, dá-se em meio à aridez, nesse excerto, a gênese ocorre "durante uma grande tempestade", o que também não é irrelevante, como imagem metafórica, em se tratando do contato e, frequentemente, do conflito com a língua do outro. Além disso, a atmosfera narrativa que envolve as personagens é semelhante e obedece à mesma lógica: primeiramente, ambas estão sós (em meio ao deserto ou à tempestade), mas acabam por achar um lugar, ao qual, no entanto, não pertencem. Ana é uma "criatura" adotada por uma mulher em um "pequeno povoado", diferente de seu local de nascimento, mas, talvez, ainda desértico. Já Vanda, apesar de ser acolhida em um cenário menos inóspito, pois encontra abrigo e aconchego em uma ilha, é uma menina sendo cuidada e ninada por uma árvore. Em ambas as histórias, permanecem características que nos possibilitam compreender a constituição do estrangeiro como "relacionada ao não-pertencimento e à estranheza, destacando o fato de a estrangeiridade concernir a uma dimensão da exterioridade, definida enquanto alteridade" (DA ROSA, 2009DA ROSA, M. T. (2009). Entre uma língua e outra: desdobramentos das designações língua materna e língua estrangeira no discurso do sujeito pesquisador da linguagem. 2009. Dissertação (Mestrado em Letras) - Centro de Artes e Letras, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 134 p. , p. 75). Não é difícil, percebermos, nesse caso, a associação entre a árvore e a mãe adotiva do primeiro relato, de modo que, se tomarmos o cenário como uma forma de remissão ao lugar e à língua do outro, em ambos os textos esse espaço é visivelmente distante e imaginário, representando a ilusão do estar em casa, utopia do estrangeiro enquanto ser errante.

Ademais, a referência a um espaço físico "exótico" e isolado, tanto no primeiro excerto, quanto no segundo, aponta para a escrita como possibilidade de dar contornos e sentidos para essa constituição intervalar (sem lugar definido), além de funcionar como uma linha de fuga, analogamente à utopia do "novo mundo", representado como o Eldorado ou o país da Cocanha na época das grandes navegações. Ficção, portanto, dos outros, de seu lugar, "da maneira como gozam os outros", nos termos de Prasse (1997PRASSE, J. (1997). O desejo das línguas estrangeiras. Revista Internacional. Rio de Janeiro. Ano 1, n. 1, p. 63-73., p. 71), e desejo de estar nesse espaço-tempo. A esse respeito, em ambas as narrativas, além do isolamento espacial, há uma espécie de suspensão do tempo ou de retorno a um tempo primitivo, principalmente no caso da história de Taís, que remonta, em seu nascimento, também ao antigo mito indiano sobre a origem do mundo, que a explica pela condensação "das águas do mar primordial, batidas pelos deuses criadores" ( GINZBURG, 1976/2006, p. 103)GINZBURG, C. (1976/2006). O queijo e os vermes. Trad. Maria Betânia Amoroso e José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras..

Essa busca pela origem, por um lado, pode ser interpretada como uma tentativa de retorno às raízes (que, inclusive, aparecem no dizer de Taís), o que remete ao mito da língua materna, à ilusão de um "doce falar natural" (DECROSSE, 1989DECROSSE, A. (1989). Um mito histórico, a língua materna. In: BOUTET, J.; VERMES, G. (Orgs.). Multilingüismo. Trad. Tania Alkmim. Campinas: Editora da Unicamp, p. 19-27.), primeiro e puro. Por outro lado, pode se referir à instauração de uma "nova origem" (também mítica, também ilusória, como sabemos ser toda origem), um outro nascimento, por meio do contato com outras línguas-culturas, que carregam consigo a possibilidade de criação de um outro lugar. Nesse sentido, segundo Prieur (2006PRIEUR, J-. M. (2006b). Contact de langues et positions subjectives. Langage et société. n. 116, p. 111-118.a, p. 485), "a escritura aparece, então, como um espaço de tensão e de reencontro entre línguas diferentes, espaço no interior do qual o escritor vai achar'sua língua', sua linha própria, única, de invenção e de criação"11 11 " L'écriture apparaît alors comme un espace de tension et de rencontre entre des langues différentes, espace à l'intérieur duquel l'écrivain vatrouver " sa langue ", sa ligne propre, unique d'invention et de création " .

Na ficção construída por Taís, outro aspecto relevante é o fato de que a personagem, algumas vezes, "ficava acordada durante a noite toda conversando com as estrelas e com os espiritus dos outros planetas". Em que língua, perguntamos, ocorreria tal conversação? A história de uma menina só, que conversa com interlocutores peculiares, evoca Gratok, de Robin (1995ROBIN, R. (1995). Gratok, langue de vie et langue de mort. Meta. v. 40, n. 3, p. 482-487.), e o caso da pequena menina judia, que inventou uma língua para falar com seu ursinho de pelúcia (o próprio Gratok), uma vez que não podia falar o iídiche, porque era proibido, nem o francês, porque seu sotaque denunciaria sua estrangeiridade. Já ao fim de Gratok, a autora se pergunta, questão que acreditamos ser possível relacionar à língua de Taís ou de sua personagem: "em qual língua ela tinha lhe falado durante tanto tempo, tantas horas, tantos anos? [...] Ela deve ter inventado uma língua [...] A língua de Gratok era a língua dos sonhos" 12 12 " dans quelle langue lui avait-elle donc parle durant si longtemps, tant d'heures et tant d'années? [...] Elle avait dû inventer une langue [...] La langue de Gratok c'était la langue des rêves ". (ROBIN, 1995ROBIN, R. (1995). Gratok, langue de vie et langue de mort. Meta. v. 40, n. 3, p. 482-487., p. 486-487).

É, portanto, a possibilidade de criar uma língua própria, um idioma, diríamos, como Derrida (1996/2001), e outra fantasia de si mesmo e do outro que o contato com diferentes línguas potencializa. Contudo, como bem relembra Coracini (2007CORACINI, M. J. (2007). A celebração do outro. Campinas: Mercado de Letras., p. 131), "só é possível falar de uma língua depois de ter criado 'ficções' adequadas, úteis, no jogo da necessidade e da impossibilidade de apropriação". Vejamos a história criada por Lucia,

R3) Esta história é a história duma bolinha. Ninguém sabe de onde vem nem de onde saiu. Simplesmente, esteve aí um dia e nunca foi embora. A princípio, era uma bolinha pequenina, muito, muito pequenina. Nem se via a cor dela. Era um ponto, um pó que andava por aí. No início, a vila toda estava muito surpresa com aquela bolinha. Sobre tudo, porque era tão pequena. Mas com o tempo, se acostumaram a ela. Além do mais, começaram a amá-la. E amarela era sua cor. Amarela como areia, como um pedaço do sol, como a terra argilosa mato-grossense na que surgiu esta história. Mas disso, a gente se deu conta depois quando ela começou a crescer, claro. A primeira vez que se viu sua cor foi numa noite de março [...] Cri-cri, cristal: como o canto dos grilos e das rãs que orquestravam seu andar noturno. E a bolinha passou a chamar-se Cris (Lucia).

A criação de uma personagem pouco verossímil e de uma narrativa que tende para o aspecto surrealista em alguns momentos, pode nos auxiliar a compreender esse (du)elo entre a necessidade e a impossibilidade de apropriação da língua, impossibilidade de construir uma narração de si mesmo. A personagem é apenas uma forma que aparece de repente, pequena e insignificante ("pequenina, muito, muito pequenina"), como um ponto ou um pó. Poderíamos dizer que pequena é também a estatura física de quem a descreveu, mas o que importa? Há, pela narrativa, a invenção de um corpo, assim como nos excertos anteriores (não nos esqueçamos de que Vanda, a personagem criada por Taís, era uma menina azul e vermelha e não sabemos se a criatura inventada por Maria era um ser humano). Em um primeiro momento, não lhe é dado um nome próprio, já que é só depois, no desenrolar da narrativa, que a bolinha será chamada de Cris, em um deslocamento (de pó, grão de areia a cristal) significativo, para pensarmos sobre a identidade narrativa, já que nesta, como pontuamos anteriormente, ancora-se a tentativa de compreendermos nossa subjetividade, espelhados nas narrativas que nossa cultura oferece. A história em questão traz vestígios de uma memória discursiva na qual habitam outras metamorfoses: a de um belo cisne que já fora patinho feio, a de uma princesa que era limpadora de chaminés, a de um sapo que se transforma em príncipe, por que não uma bolinha que passa a ser cristal?

Diferentemente das narrativas comentadas anteriormente, nas quais as personagens já são nomeadas quando de seu nascimento, é a partir do contato com os outros (habitantes da "vila", possivelmente) que a referida bolinha passa a ter nome. Contudo, é pela onomatopeia, pelo barulho, feito como uma lalação na língua e no lugar do outro, que esse nome lhe vem. Esse uso da onomatopeia pode ser lido, nos termos de Prieur (2006PRIEUR, J-. M. (2006a). Des écrivains en contact de langues. Études de linguistique appliquée. n. 144, pp. 485-492. Disponível em: Disponível em: http://www.cairn.info/revue-ela-2006-4-page-485.htm . Acesso em: 28 out. 2014.
http://www.cairn.info/revue-ela-2006-4-p...
b), como uma das formas de se estabelecer pontes, laços, associações com a outra língua por parte da estudante. Além disso, se concordarmos com Melman (1992MELMAN, C. (1992). Imigrantes: incidências subjetivas das mudanças de língua e país. Trad. Rosane Pereira. São Paulo: Escuta. ) que "em toda fala há o canto", que a língua estrangeira nos atrai pela sonoridade, pela música, sendo a musicalidade da língua (dita) materna "o que recusamos abandonar" ao falarmos uma língua estrangeira, podemos entender por que ésó depois que Cris, orquestrada pelo "cantodos grilos e das rãs", passa a existir (já que nomear-se é dar-se uma existência) nesse outro lugar. "Isto poderia querer dizer que um dos elementos que asseguram a identidade daquele que fala uma língua é ligado à música? Por que não?" (MELMAN, 1992MELMAN, C. (1992). Imigrantes: incidências subjetivas das mudanças de língua e país. Trad. Rosane Pereira. São Paulo: Escuta. , p. 52).

Ainda em torno desse canto, destacamos o jogo significante (audível por um ouvido brasileiro não purista, embora não formulado na escrita), no fragmento: "começaram a amá-la. E amarela era sua cor. Amarela como areia", no qual "amá-la", gramaticalmente adequado, evoca a oralidade despreocupada de "amar ela", condensado e repetido em "amarela". É impossível explorarmos todos os efeitos de sentido que transbordam (d)o amor à cor amarela, causados pela brincadeira que saboreia o coaxar e o cricrilar da língua alheia como uma forma de trazê-la para si, de inventar uma ponte "na angústia e no gozo da mudança de corpo e de língua", como enfatizou Prieur (2006PRIEUR, J-. M. (2006b). Contact de langues et positions subjectives. Langage et société. n. 116, p. 111-118.b, p. 116) em passagem já citada.

Porém, a narrativa pode ser explorada também como (im)possibilidade de o estranho (o intruso, o forasteiro) ser visto, aceito e valorizado pelo outro, pois é somente depois que "começaram a amá-la" que se percebe sua cor, bem como a analogia a um "pedaço de sol" e a um cristal. O deslocamento, então, de pó a pedaço de sol, de areia a cristal, é dado pela inserção nesse outro lugar, passado o estranhamento inicial causado pela aparição repentina da personagem. Esse estranhamento, como todo contato com um elemento externo, produz surpresa (que pode ser tanto positiva, quanto negativa), a qual vai sendo substituída pelo acostumar-se com e pelo amar. Segundo Freud (1919/1976, p. 277), "podemos dizer que aquilo que é novo pode tornar-se facilmente assustador e estranho; algumas novidades são assustadoras, mas de modo algum todas elas. Algo tem de ser acrescentado ao que é novo e não familiar, para torná-lo estranho". Nesse caso, notamos que a personagem é feita da mesma "terra argilosa" da história e, portanto, pertence a ela como elemento estranho-interno, estabelecendo uma relação de extimidade, que é a que sustenta o lugar do estrangeiro.

No que concerne à gênese da personagem, a memória a que se recorre é a do mito cristão-católico da criação do homem, vindo do pó, da terra que, nesse caso, é situada em um Brasil imaginário, "mato-grossense"; um Brasil poetizado por Manoel deBarros (2000BARROS, M. de. (2000). Ensaios Fotográficos. Rio de Janeiro: Record.), talvez, com seus grilos e rãs: "o grilo feridava o silêncio", diz o poeta, "como o canto dos grilos e das rãs que orquestravam seu andar noturno", diz a poética narrada de Lucia. Assim, concebendo a identidade como um jogo de máscaras, conforme dito anteriormente, podemos afirmar que, nessas narrativas que interpretamos como alegóricas, "é o próprio autor que se disfarçou de narrador e que carrega a máscara de seus múltiplos personagens e, entre todos estes, a da voz narrativa dominante que conta a história que lemos"13 13 " c'est l'auteur qui s'est lui-même déguisé en narrateur et qui porte le masque de ses multiples personnages et, parmi tous ceux-ci, celui de la voix narrative dominante qui raconte l'histoire que nous lisons ". (RICOEUR, 2008, p. 275).

Como nas histórias anteriores, o tempo da narrativa de Lucia é suspenso, como o tempo mítico da criação, como o tempo-espaço do mito do estrangeiro. Para encerrarmos este breve percurso exploratório, observemos a escrita de Jean, a seguir.

R4) Na floresta amazônica, num tempo imemorial [...] nasci o herói dessa historia. Esse herói extraordinário tinha a particularidade, sabe Deus quão esquisito, de ter uma forma dum menino ordinário. Não pode-se dizer que ele era bonito. Na sua cara, que era bem branca, dia a dia se ampliou uma nariz que já era fino e longe quando nasci. Essa proeminência era enquadrada por dois olhos minúsculos que pareciam como dois esferas pretas. Sua cabeça estava em cima dum corpo magro cujos membros se estendiam ate o ridículo. Quando ele tinha dez anos, foi recolhido pelo tribo dos Tupinambas. Porque era branco, lhe deram o nome do ultimo explorador que comeram, Oedipus. Desde esse momento, Oedipus tinha uma infância alegra e despreocupada. Lhe gostava correr na praia e pescar. Sua vida era ritmada por prazeres simples. Mas quando entrou na adolescencia, as coisas se complicaram. Porque seu fisico nao era incrível, para nao dizer mais, as meninas sistematicamente fugiram quando lhe viam (Jean).

No que concerne ao plano linguístico, o excerto em questão é representativo da imbricação entre línguas, pois, na escrita em português, irrompem fagulhas de outras línguas, tanto no aspecto estrutural - como em "Lhe gostava correr na praia e pescar" -, quanto lexical - como em "ter a forma dum meninoordinário", na qual ressoa o adjetivo ordinaire(comum), em francês, ou em "tinha uma infância alegra e despreocupada", na qual o adjetivo, invariável em português, é grafado no feminino. Além disso, apontamos a escrita como representação fonética atrelada à oralidade do próprio português em "nasci o herói dessa historia". Tais aspectos, contudo, não são os únicos indicativos desse encontro, pois, como defendemos, as línguas carregam consigo redes de imagens que, por sua vez, remontam a culturas, e é para tal encadeamento que atentamos.

A narrativa de Jean é construída em tom mítico, como se pode perceber nas primeiras linhas, relatando o nascimento de um "herói extraordinário" que, contraditoriamente, assume a forma de um menino comum. Nesse relato, o que chama a atenção, assim como em R1 e R2, é a utilização do elemento estrangeiro, "exótico", por um lado, na criação do cenário onde é inserida a personagem: seu pertencimento à floresta amazônica, o que pode estar ligado ao imaginário de Brasil, metonimicamente representado pela Amazônia ou pela floresta, de modo geral; por outro, na referência a sua adoção por uma tribo, os Tupinambás, e suas atividades de lazer, pescar e correr na praia (porque, afinal, não se pode falar do Brasil sem se falar das praias, mesmo que a história se passe na floresta). Apesar de não ter sido sugerido que a história devesse acontecer no Brasil ou em qualquer país específico, três, dos quatro estudantes, localizaram espacialmente sua história, o que indicia a tentativa de saída de um território e movimento em direção ao outro, ao estrangeiro.

Em linhas gerais, a história da acolhida de um menino branco por uma tribo indígena ("foi recolhido pelo tribo dos Tupinambas"), também pode ser interpretada, como vimos fazendo, como uma metaforização do encontro e da inscrição em uma língua outra, estranha e, por que não, "selvagem", o que se justifica pela alusão à antropofagia ("o nome do ultimo explorador que comeram"). Notemos, também, que o nome próprio dado à personagem é o mesmo de alguém que foi devorado, sinalizando que ela talvez viesse a ter o mesmo fim do explorador anterior: ser deglutida e, assim, incorporada à (ou ao corpo da) tribo. Imbricada a essa narrativa, há uma descrição física da personagem, a qual, pode-se dizer, possui traços marcadamente "europeus": nariz fino e longo ("longe"), cara bem branca (cara pálida, que evoca também o contraste entre a pele do índio e a do branco nos filmes de faroeste). Atendendo também à solicitação de fornecer outras características que fossem além da descrição física, Jean acrescenta que o menino não era bonito, que seus membros se estendiam "até o ridículo" (em uma avaliação negativa do corpo considerado muito magro), que teve uma infância alegre e despreocupada, cuja tranquilidade veio a ser perturbada na adolescência, pois, não sendo belo, não atraía as meninas, mas, pelo contrário, afastava-as.

Trata-se, como vimos sinalizando, de uma identidade narrativa que se atrela a uma ficção de si, marcada, segundo Pietroluongo (2001PIETROLUONGO, M. A. (2001). O estrangeiro de mim. Gragoatá. Niterói: EDUFF, n. 11, p.193-206.), na imagem de um "estrangeiro de si", a qual decorreria da transferência de um sentimento de estranheza, já vivenciado em uma língua, para a outra, chamada estrangeira. A autora argumenta que, no encontro com essa outra língua, "a experiência do não-saber, do tatear, do fragmento, da falha, da opacidade ganha toda sua consistência" (PIETROLUONGO, 2001PIETROLUONGO, M. A. (2001). O estrangeiro de mim. Gragoatá. Niterói: EDUFF, n. 11, p.193-206., p. 197). Essa hipótese de um falar de si pela língua outra não indica que esse narrar-se é intencional ou proposital, mas sim que é pela opacidade, nessa esfera de incerteza diante da língua, seja materna, seja estrangeira, que os sentidos se constituem. Podemos experimentar esses efeitos pela análise da frase: "na sua cara, que era bem branca, dia a dia se ampliou uma nariz que já era fino e longe quando nasci", na qual o verbo nascer está conjugado em primeira e não em terceira pessoa. Pode-se, não sem alguma razão, afirmar que se trata apenas de um erro gramatical, natural na escrita de um estudante iniciante, sem nenhuma influência para além de sua necessidade de correção. Contudo, o efeito de sentido que aí se produz, para além da distração e da falha na conjugação verbal, é o de um dizer que se configura, de forma subjacente, sempre em primeira pessoa. Isso não significa que a primeira pessoa sejaa forma da manifestação subjetiva por excelência, ou seja, que o sujeito esteja presente se e somente se for utilizada a primeira pessoa, mas sim que a presença de um "eu", ainda que equívoca, aponta para a construção de uma imagem de si que ganha contornos de/na personagem.

Essa descrição contrasta com o início da história, deslocando-a de um "tempo imemorial" para uma época e uma cultura/mentalidade que nos parecem contemporâneas, marcadas na avaliação do corpo como ligado aos problemas de autoafirmação na adolescência. Esse deslocamento denuncia a introdução de um elemento estranho, porque estrangeiro, no relato, o que coincide com a metáfora da inserção da/na língua estrangeira de que entendemos se tratar nesse dizer. Como se pode facilmente imaginar, essa pode ser uma descrição pessoal de Jean: branco, olhos pretos ("olhos minúsculos que pareciam como dois esferas pretas"), nariz fino, corpo magro. Porém, no enredo, estamos diante da construção (do nascimento na/pela língua) de um Édipo adolescente, vivendo na floresta amazônica, o que, por mais incongruente que possa parecer, além de adequado ao que foi solicitado pela professora, é singular enquanto reinterpretação do mito (tanto o de Sófocles, quanto o do país estrangeiro) e do fato de a língua do outro ser lugar de muitas possibilidades e poucas interdições.

Não é aleatória, no entanto, a escolha desse nome próprio (com sua grafia "original" em latim ou em francês, por ser intraduzível?), pois, mesmo no senso-comum, reconhece-se a sina de Édipo, que, ao fugir de seu destino, o de matar o pai e unir-se à mãe, acaba por encontrá-lo. Na abordagem psicanalítica, contudo, o mito de Édipo se refere menos à morte do pai do que à interdição da mãe, o que resulta no fato de a designação língua materna, por exemplo, não ser compreendida como a língua da mãe, mas, ao contrário, como "aquela na qual não se alcança a mãe (o conforto, a familiaridade), tal língua se configura como a língua do interdito e, por isso, língua do desejo" (DA ROSA, 2009DA ROSA, M. T. (2009). Entre uma língua e outra: desdobramentos das designações língua materna e língua estrangeira no discurso do sujeito pesquisador da linguagem. 2009. Dissertação (Mestrado em Letras) - Centro de Artes e Letras, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 134 p. , p. 69).

Assim, se tomada enquanto língua do desejo, inalcançável, toda língua é materna, inclusive a estrangeira e, analogamente, se concebida como língua que faz retornar o que era há muito tempo conhecido, mas esquecido (FREUD, 1919/1976), levando a pensar o sujeito em sua própria alteridade, toda língua é estrangeira, inclusive a chamada língua materna. É por essa razão que entendemos que o encontro com línguas estrangeiras potencializa não só (o retorno de) um estranhamento, mas a possibilidade de outra ficção de si, já que, de acordo com Kristeva (1988/1994),

estranhamente, o estrangeiro habita em nós: ele é a face oculta da nossa identidade, o espaço que arruína a nossa morada [...] o estrangeiro começa quando surge a consciência de minha diferença e termina quando nos reconhecemos todos estrangeiros (KRISTEVA, 1988/1994, p. 09).

4 Considerações finais

Nos excertos aqui apresentados, o lugar intervalar entre línguas-culturas resignifica a atividade de criação narrativa para além dos limites da escrita escolar, excedendo também uma imagem de si e/ou contribuindo para que esta assuma outros contornos. Entendemos, por meio da abordagem dessa escritura, que o papel da escrita, na confluência entre línguas, consiste em possibilitar uma prática criativa um pouco menos atrelada às amarras com as quais lidamos corriqueiramente. Contudo, como é possível depreendermos pelas condições de produção em que tal prática se deu, nunca escreveremos do lado fora desse grande texto que é a língua-cultura que ousamos chamar de nossa. Apesar disso, podemos (nos) escrever a partir de um pensamento múltiplo, afetados pela presença de outros, deportando ou desarrumando a(s) língua(s).

Essa é uma reflexão válida para qualquer prática de escrita, independentemente de estar ou não inserida em um contexto de discussão concernente ao contato linguístico propriamente dito. Escrever é experienciar e experimentar a língua, experimentar os sentidos, jogar/brincar com ambos, da forma mais livre que conseguirmos, pois, em simbiose com o pensamento "raiz única", que admite apenas um sentido como possível e verdadeiro, funcionam uma língua e uma escrita engessadas. Sem dúvida, situar-se nas margens não parece ser uma tarefa fácil, mas, como nos indicam as narrativas apresentadas, também não deve ser impossível.

Sendo assim, o gesto de leitura que desenvolvemos encaminhou-nos a remontar dizeres que se relacionam em torno da problemática que concerne à relação do sujeito com a(s) língua(s)-cultura(s). Tais dizeres auxiliaram-nos a refletir, ainda que brevemente, sobre o movimento que tem marcado a constituição da subjetividade contemporaneamente. Mobilidade e multiplicidade que nos toma e nos reconfigura, redefinindo nosso dizer em meio ao drama de que falava Glissant, no excerto introdutório a esta reflexão.

Em meio a essas condições, a noção de interlíngua, como um estágio de aprendizagem a ser superado, parece não abarcar, em toda sua complexidade, o movimento de sujeitos e de sentidos. Pelo contrário, enquanto etapa, parece estar condenada a representar a estaticidade com que as línguas são forçadamente ensinadas (aprendidas?) nos ambientes de ensino. Como conter em uma etapa o fluir de sentidos que oser/estar entre proporciona? Como falar de interferência, quando se está em um turbilhão de línguas, do qual "minha língua não pode ficar isenta e salva" (retomando novamente o dizer de Glissant)?

"Não posso escrever minha língua de maneira monolingüe", como repete o autor, referido na abertura deste artigo, leva-nos a pensar que é preciso estar entre, escrever entre, significar entre. Afirmações que, por sua vez, remontam às palavras de Deleuze, em seus Diálogos: "É preciso ir mais longe: fazer com que o encontro com as relações penetre e corrompa tudo, mine o ser, faça-o vacilar. Substituir o E ao É. A e B" (DELEUZE e PARNET, 1996/1998, p. 70). Sendo assim, seguimos no rastro dessa relação, buscando substituir oe ao consagrado ou da lógica binária e opositiva, ao é do pensamento essencialista que fixa e define a identidade, procurando considerar os desdobramentos do mesmo como diferente (idem e ipse), a fim de compreendermos a estrangeiridade da língua materna, a multiplicidade das línguas estrangeiras, das línguas-mistas que povoam a indecidibilidade do ser e do estar entreao-menos-dois.

Referências bibliográficas

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  • 1
    " Comment celui qui écrit donne-t-il forme à son désir d'écrire, à partir de sa propre existence et d'un nouage intime à la ou aux langues dans lesquelles il écrit ? ". As traduções de todas as citações que figuram em nota de rodapé são nossas.
  • 2
    " il n'est pas de langue qui ne soit une langue-mixte, il n'est pas de subjectivité qui ne soit composite ".
  • 3
    Le deuil de l'origine.
  • 4
    Tradução adaptada de " parce que d'une langue à l'autre peuvent s'inventer des 'ponts verbaux', des liens, des articulations, ceux d'un réseau associatif opérant à travers mots, phénomènes, assonances ou homophonies. Il peut être création d'un 'espace ouvert', et d'une subjectivité ou d'une trans-subjectivité à vivre dans le passage, la traversée, et qui, dans l'angoisse ou la jouissance du changement de corps et de langue, voit ses frontières questionnées ".
  • 5
    " ce que nous appelons la subjectivité n'est ni une suite incohérente d'événements ni une substantialité immuable inaccessible au devenir ".
  • 6
    " l'histoire d'une vie procède d'histoires non racontées et refoulées en direction d'histoires effectives que le sujet pourrait prendre en charge et tenir pour constitutives de son identité personnelle ".
  • 7
    A esse respeito, conferir Prieur (2006a)PRIEUR, J-. M. (2006a). Des écrivains en contact de langues. Études de linguistique appliquée. n. 144, pp. 485-492. Disponível em: Disponível em: http://www.cairn.info/revue-ela-2006-4-page-485.htm . Acesso em: 28 out. 2014.
    http://www.cairn.info/revue-ela-2006-4-p...
    e Deleuze e Parnet (1996/1998).
  • 8
    Na instituição em questão, a disciplina de língua portuguesa integra, por um lado, o quadro de cursos oferecidos pelo Departamento de Estudos Transversais, destinados a todos os estudantes interessados, e, por outro, a grade de disciplinas ofertadas pelo Departamento de Línguas, com foco na formação em Estudos Hispânicos. O fato de a língua portuguesa ser uma das línguas estrangeiras exigidas pelo curso (sendo as outras opções o Latim e o Catalão) faz com que a maioria dos alunos de português esteja em preparação para a atuação como professores de língua espanhola.
  • 9
    Os excertos são apresentados tal como foram escritos, sem a intervenção/correção da professora. Atribuímos apenas nomes fictícios para identificar cada um dos participantes.
  • 10
    Nos estudos do discurso, permeados pela abordagem psicanalítica, "equívoco" e "equivocidade" são noções constituídas por esse cruzamento teórico. A afirmação de que um dizer é equívoco (e, por vezes, de que a própria língua é equívoca) não está atrelada a uma escolha e/ou a uma intencionalidade do falante/enunciador (ao fato de ter se enganado/se equivocado ou de ter escolhido falar/escrever de um modo e não de outro). A equivocidade diz respeito à possibilidade que um termo, uma expressão ou uma proposição possui de apontar para efeitos de sentido outros, diversos e até contraditórios (noções como "deslize" e "deriva" também são empregadas, menos como sinônimos de "erro" do que como "abertura a interpretações").
  • 11
    " L'écriture apparaît alors comme un espace de tension et de rencontre entre des langues différentes, espace à l'intérieur duquel l'écrivain vatrouver " sa langue ", sa ligne propre, unique d'invention et de création "
  • 12
    " dans quelle langue lui avait-elle donc parle durant si longtemps, tant d'heures et tant d'années? [...] Elle avait dû inventer une langue [...] La langue de Gratok c'était la langue des rêves ".
  • 13
    " c'est l'auteur qui s'est lui-même déguisé en narrateur et qui porte le masque de ses multiples personnages et, parmi tous ceux-ci, celui de la voix narrative dominante qui raconte l'histoire que nous lisons ".

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Dez 2015
  • Data do Fascículo
    Jan-Mar 2016

Histórico

  • Recebido
    12 Ago 2015
  • Aceito
    11 Nov 2015
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