Open-access Escritas com o corpo: um estudo comparativo entre O parque das irmãs magníficas, de Camila Sosa Villada e E se eu fosse Puta, de Amara Moira

Written with the body: A comparative study between O parque das irmãs magníficas, by Camila Sosa Villada and E se eu fosse puta, by Amara Moira

RESUMO

O objetivo deste trabalho é realizar um estudo comparativo entre as obras O parque das irmãs magníficas, da argentina Camila Sosa Villada, e E se eu fosse puta, da brasileira Amara Moira. Para tanto, metodologicamente, o estudo se baseará em entrevistas das autoras, outras obras literárias e artigos de jornais e revistas por elas produzidos e escritos de pensadoras/ativistas travestis, como Lohana Berkins e Marlene Wayar, na teoria queer e nas postulações da decolonialidade. As autoras, que se identificam como travestis, constroem duas narrativas literárias autoficcionais em que há uma junção habilidosa de ficção e realidade. Ali há histórias que são contadas por sujeitas que historicamente se viram excluídas da sociedade somente por serem quem são. Trata-se de escritas de quem não aceita mais ser silenciada, de quem quer falar por si mesma, gestos políticos de resistência e memória, que nos convidam a pensar sobre questões sociais e políticas em relação às travestis, assim como sobre novos modos do fazer literário a partir de novas sujeitas e olhares.

PALAVRAS-CHAVE:
Narrativas trans/travestis; literatura contemporânea; corpo; identidades

ABSTRACT

The objective of this work is to conduct a comparative study between the works O parque das irmãs magníficas, by Argentine author Camila Sosa Villada, and E se eu fosse puta, by Brazilian author Amara Moira. Methodologically, the study will be based on interviews with the authors, their other literary works, as well as newspaper and magazine articles they have produced and writings by trans activists and thinkers such as Lohana Berkins and Marlene Wayar, queer theory, and decolonial postulations. The authors, who identify as travestis (a Latin American gender identity), construct two autofictional literary narratives that skillfully blend fiction and reality. These stories are told by individuals who have historically been excluded from society simply for being who they are. These writings are from those who no longer accept being silenced, who want to speak for themselves, and are political gestures of resistance and memory. They invite us to reflect on social and political issues concerning travestis, as well as on new modes of literary creation from new subjects and perspectives.

KEYWORDS:
Trans/transvestite narratives; contemporary literature; body; identities

Duas histórias, um convite à leitura e à reflexão

Não posso evitar escrever sobre a violência, porque escrevo coisas que vivi (Sosa Villada, 2022).1

Camila Sosa Villada e Amara Moira são duas travestis latino-americanas que vem se destacando no campo literário através de suas produções. Enquanto a primeira é argentina, a segunda é brasileira. E as duas escrevem suas obras a partir das histórias que viveram, das realidades que vivenciam(ram), do que leram e do que ouviram. Como destaca a travesti, pensadora e ativista argentina Lohana Berkins (2012, p. 221), “Creo que las travestis tenemos una historia para contar y para hacer. Es decir, tenemos experiencias en primera persona para contraponer a los discursos que han circulado sobre nosotras”. Através de seus escritos, as duas autoras narram uma nova história na qual não mais são definidas e classificadas; agora elas falam por si.

A partir das obras O ´parque das irmãs magníficas (2021), de Sosa Villada, e E se eu fosse puta (2018), de Amara Moira, as escritoras contam suas narrativas de cunho autoficional nas quais relatam um pouco de suas vivências travestis. Enquanto a obra de Camila possui um direto diálogo com o realismo mágico latino-americano com uma linguagem muito mais poética, misturando realidade e ficção, Amara explora com uma linguagem mais direta a realidade vivida durante um período de prostituição. Sendo assim, o objetivo principal deste ensaio é realizar um estudo comparativo entre as duas obras mencionadas acima. Para tanto, me basearei em entrevistas das autoras, em outras obras literárias e artigos de jornais e revistas por ela produzidas, em escritos de pensadoras/ativistas travestis, como Lohana Berkins e Marlene Wayar, na teoria queer e nas postulações da decolonialidade.

Camila Sosa Villada é, sem dúvidas, uma das vozes mais proeminentes na literatura latino-americana. Ela ganhou reconhecimento fora da Argentina com o romance Las Malas (2019) - que foi traduzido para mais de 10 línguas e que no Brasil, publicado em 2021, recebeu o título O parque das irmãs magníficas -, com o qual ganhou os prêmios Soror Juana Inés de la Cruz (2020), Finestres de Narrativa (2020) e El Grand Prix 2021 de l’Héroine Madame Figaro. Sua escrita é construída através da mistura de realidade e ficção com uma boa pitada de autoficção, estabelecendo um forte diálogo com noções de binariedade e cisgeneridade, a partir não somente do próprio corpo, mas também da escrita que por si só transgride e questiona normas e valores heterocentrados.

Especificamente no romance O parque das irmãs magníficas (2021), com que trabalho no presente ensaio, a história é narrada em primeira pessoa pela persona(gem) Camila e conta sobre sua vida, que é dividida entre os estudos e a norma durante o dia e a prostituição e as transgressões noturnas. Na história, a personagem principal se prostitui no parque Sarmiento, em Córdoba, e ali é acolhida por um grupo de travestis, com o qual forma uma família a quem ela carinhosamente chama “manada”. Na sua maioria, as personagens não são aceitas por seus familiares de sangue e, tampouco, pela sociedade, o que as faz buscar na prostituição um meio de sobrevivência, talvez o único - sempre com violências à espreita. Como diz Lohana Berkins (2012, p. 224), excluídas de instituições como família, escola e mercado de trabalho, a prostituição se constitui como a única fonte de dinheiro, uma estratégia de sobrevivência e um dos escassos espaços de reconhecimento da identidade travesti como possibilidade de ser no mundo.

À noite, o parque e a casa de Tia Encarna (a travesti mais velha, tida por todas como uma mãe) são os espaços que o grupo pode frequentar. À falta de luz, a sombra das árvores acolhe aquelas que a sociedade violenta: “Não gostamos de sair de dia porque as senhoras da alta sociedade, as senhoras de penteado feito no cabelereiro e cardigã fino, denunciam-nos por escândalo” (Sosa Villada, 2021, p. 111). Penso que a escrita de Camila Villada se trata também de escrever uma história pouco contada, a história de sujeitas excluídas dos discursos oficiais, das capas de revistas, das casas das pessoas comuns, sendo obrigadas a (sobre)viver nas sombras, nas margens. Por isso, concordo com Katarzyna Moszczyńska-Dürst (2021, p. 2010) quando ela diz que “para empezar, cabe destacar que del libro [Las Malas] se desprende un fuerte compromiso ético y político que se nutre del deseo de preservar la memoria del colectivo”, o coletivo travesti.

A história desenrolada em O parque das irmãs magníficas (2021) é marcada por inúmeras violências (violações, agressões, suicídios) do início ao fim, simbólicas, psicológicas, físicas, familiares e sociais. E isso, como aponta o trecho de epígrafe deste trabalho, revela um traço comum da escritura de Camila Villada: escrever sobre o que se viveu, no caso de uma travesti, indubitavelmente é escrever sobre violência, sobretudo a partir de vivência em um espaço social heterocentrado, machista, opressor e lgbtqia+fóbico. E isso me recorda o que diz José Javier Maristany (2022, p. 70) acerca de Carnes Tolendas2: “El potencial político y de denuncia de la obra consiste, precisamente, en poner en evidencia la huella de las narrativas en los cuerpos marginalizados desde el orden socio-racial y sexo-genérico”.

Assim como Camila Villada, no Brasil, em 2018, Amara Moira publica E se eu fosse puta, livro narrado em primeira pessoa pela narradora persona(gem) cuja linguagem adotada aproxima-se muito mais do que conhecemos por relato, através do qual ela conta acerca de cenas e questionamentos advindos da prostituição por ela vivenciados. Trata-se de uma obra que goza de menos prestígio do que a de Sosa Villada em relação aos prêmios recebidos e à recepção internacional, uma vez que foi traduzida para três idiomas - o que, meu ver, mostra uma crescente atenção que a obra recebe. Também como uma espécie de autoficção, Moira questiona a cisheterogeneidade a partir do próprio corpo, das vivências da rua, do medo e da tensão. A autora, que se identifica como travesti, constrói uma obra literária que tensiona as normas estabelecidas. Como ela mesmo diz (Moira, 2018, p. 9) em “A título de justificativa”:

Como é que se cita um livro desses na mídia, como é que na televisão? Houve reclamações, houve sim, gentes e mais gentes que queriam conhecer o livro e que ou não tinham coragem de comprá-lo (muitos chegaram a roubar, tal a vontade de ler e a vergonha de passar no Caixa, ou de carregá-lo em público no metrô, ônibus (teve quem tratou de encaderná-lo, vê se pode), ou até de o deixar nas prateleiras da sala […].

Trata-se de um livro que, como nos fala a autora, gera medo e desejo, uma narrativa que escancara a hipocrisia de uma sociedade em que o pai de família, “machão”, frequenta a zona para transar com as travestis, enquanto na vida social as condena. Nessa obra também há muito de violência física, psíquica e social utilizadas contra as travestis. O potencial político de questionamento de valores heterocentrados encontra-se com a denúncia das condições de tratamento a que mulheres trans e travestis são colocadas em nosso país, ainda mais agravante se forem putas. Indianare Siqueira, no prefácio à obra, diz-nos o seguinte:

Eu sempre falava: ser travesti tudo bem, puta jamais. E quando saí de casa, justamente com todas as minhas qualificações profissionais, como chef de cozinha, cozinheira, pizzaiola, etc., ninguém me dava trabalho. Eu teria que sobreviver de alguma maneira, né? Sim, eu dormi na rua, tudo, tudo, tudo, até ir enfim para a prostituição. Encontrei nas prostitutas justamente uma acolhida, nas travestis prostitutas uma grande acolhida. (Siqueira, 2018, p. 13).

A passagem acima revela como mulheres trans e travestis ainda são marginalizadas, sendo que muitas vezes (senão a maioria), ao assumirem suas verdadeiras identidades, elas têm como única opção de sobrevivência a prostituição, por mais bem qualificadas que forem em diversas profissões. A partir da fala de Indianare Siqueira, estabeleço um paralelo direto com O parque das irmãs magníficas (2021), no que diz respeito ao modo acolhedor como as travestis que se prostituíam no parque Sarmiento receberam Camila - que ali fora parar após procurar o que ela chama de “zonas mais vermelhas” nas quais se prostituir. Entre as travestis estava uma mulher cis chamada Laura que, ao ver Camila, vai até ela:

Pergunta o meu nome. Pergunta se tenho xoxota e comprime os olhos, apura a córnea para descobrir minha filiação. Quando confesso que sou travesti, ela me abraça, levando-me quase arrastada até o centro do grupo e me apresenta. A chuva de gracejos e provocações é a maneira de dar boas-vindas. […]. Naquela mesma noite, a noite que me aceitaram no grupo, a noite do meu batizado, por compaixão, porque não podiam acreditar como eu podía ser tão pequena […]. (Sosa Villada, 2021, p. 74).

Ana Galego Cuiñas (2022) destaca que a verdadeira protagonista da obra de Sosa Villada é a comunidade trans/travesti, a “manada” que acolheu Camila e se fez, para ela, uma verdadeira família. E nesse contexto “la idea de familia se resignifique en este colectivo marginal para articular una verdadera transcomunidad” (Cuiñas, 2022, p. 80). Eram todas irmãs, com exceção de Tia Encarna, a matriarca do clã, a mãe, aquela que acolhia todas em sua casa, dava-lhes conselhos, protegiam-nas da violência, socorria as feridas, etc. Entre elas, havia regras próprias de convivência em uma comunidade que se pensava coletivamente. Vejamos a seguir o que nos diz a narradora:

Desde que pisei pela primeira vez na casa de Tia Encarna pensei que lá era o paraíso, acostumada como estava a ocultar sempre minha verdadeira identidade nas pensões onde vivia, sofrendo como uma cachorra com o pinto estrangulado em calcinhas sempre de um número menor. Naquela casinha rosa, por outro lado, as travestis passeavam nuas pelo quintal que transbordava de plantas e falava-se com toda naturalidade das consequências do óleo de silicone, sonhos inconfessáveis eram confessados entre risos, viam-se os hematomas das noites de guerra, o mate com a bomba manchada de batom, o cecê de sovaco misturado com perfume, as novelas brasileiras sempre na televisão, as lembranças de infâncias dizimadas que deixavam os corações expostos como recém-nascidos sob a geada (Sosa Villada, 2021, p. 116).

Também em E se eu fosse puta (2018) há uma irmandade entre as travestis e demais sujeitas que se prostituem. Juntas, elas se protegem, se ajudam, dão dicas umas às outras, como pode-se perceber na passagem a seguir em que a narradora fala acerca do sexo oral sem camisinha que ela costumava fazer com seus clientes no início do período em que começou a se prostituir: “[...] eu levar pito da vó, a sabedoria em pessoa ali daquelas bandas, por estar me arriscando dessa forma - ‘HIV é difícil no oral, mas sífilis é batata, viu?’, ela disse como puxão de orelhas)” (Moira, 2018, p. 89-90). Em outra passagem, ao sair do que ela nomeia de “área de segurança”, a narradora revela mais uma vez como o grupo se protege: “[...] primeira vez que me arrisco pra fora da área de segurança - o nosso reduto travesti do bairro, lugar onde, se uma grita por ajuda, todas vão para cima” (Moira, 2018, p. 79).

Pensando nas duas obras selecionadas como corpus do presente ensaio, bem como nas duas autoras, escrever a partir de um local socialmente marginalizado, subalternizado dentro da ordem socio-racial e sexo-genérico é transgressor, revolucionário. Por isso, a escrita de Camila Villada e Amara Moira tocam-me enquanto membro da comunidade LGBT+. Trata-se de um devenir escritura, balançar as estruturas e caminhos também literários, os quais estiveram (e de algum modo estão sendo abertos à força) aos sujeitos que fogem ao padrão binário, cisbranco e heterocentrado. Amara Moira, ao falar a respeito da produção literária trans e travesti, nos diz:

Com essas obras pioneiras estamos fazendo história, escrevendo-nos na história e, de alguma forma, também ensinando à literatura seu melhor propósito: não o de perpetuar estruturas de poder nem de reproduzir narrativas que engessam, aprisionam grupos inteiros à margem da sociedade, justificando opressões, mas sim de questionar essa sociedade mesma e a lógica desumanizante imposta a todo e qualquer alguém que não seja homem cis branco heterossexual cristão das classes dominantes (Moira, 2017, s.p).

Ao ouvir Amara Moira, recordo-me de uma entrevista de 2020 realizada por Javier Sinay com Camila Sosa Villada. Quando ele pergunta a respeito de qual seria a oportunidade da literatura trans, o que essa literatura poderia dar ao mundo que ninguém mais poderia oferecer, Camila responde:

La oportunidad no es para lo que escriben las travestis. La oportunidad es para ustedes. La oportunidad es para la literatura. [...] Por lo pronto, ustedes tienen la oportunidad de leer algo inesperado, sobre mundos inesperados y conocimientos que nunca se imaginaron. Aprovechen.3

A palavra é, pois, possibilidade de dizer, de intervir na história, de reconstruir memórias, de romper com um sistema opressor e desigual; ela é potência de e para transformação. Por isso, o discurso literário produzido por sujeitas e sujeitos subalternizados tem função de trazer à tona, de desvelar o que a sociedade por séculos buscou apagar, esconder, negar existência. Travestis, transsexuais e pessoas que fogem ao padrão branco-cis-heteronormativo de um modo geral, foram historicamente invisibilizados e desumanizados por meio de inúmeros processos de exclusão e silenciamento.

Cabe destacar a reflexão que Ana Gallego Cuiñas (2022) faz acerca do próprio cânone literário enquanto outro espaço de exclusão - que sublinho aqui: daqueles que fogem ao padrão branco-hetero-cis centrado. Conforme a autora, o que conhecemos como cânone - as obras literárias consagradas - é baseado e escolhido com base nos valores do Norte - os quais são coloniais, patriarcais e mesocráticos -, cujos agentes e instituições definem o valor das próprias produções literárias e do que consideram ser periférica. Cuiñas fala sobre a escrita de Sosa Villada e pode ser estendido a Amara Moira, sobretudo quando ela revela que a escrita dessas sujeitas, a partir do olhar de alguém oprimido socialmente, gera um discurso dissidente cuja insubordinação as coloca no epicentro do sistema literário latino-americano. Ambas narram a reivindicação de identidades transfeministas e emancipadas, nas quais arte e vida se misturam, evidenciando uma estreita relação entre estética, política e vida (Cuiñas, 2022).

Quando pensamos em escritas literárias produzidas por travestis, não podemos deixar de ressaltar também que, na América Latina, em que pessoa LGBTQIA+ são sistematicamente violentadas, as pessoas nomeadas por essa sigla são consideradas abjetas e, quanto mais se distanciam do que hegemonicamente é posto como homem-mulher-cis-hetero-padrão-branco e das classes sociais com maior poder aquisitivo, mais violência a elas é dirigida. Isto é, sofrem o que Lélia Gonzalez (2020) chama de triplo caráter de discriminação: o étnico, o sexual e/ou de gênero e o de classe.

As travestis, transexuais e transgêneros, ao serem invisibilizadas, socialmente não existem e, se não existem, são desumanizadas, despojadas de possibilidades de ser, de criar conhecimentos, de compartilhar nossas diversidades de desejos e de corpos. Butler (2017, p. 47) destaca que há uma regulação binária da sexualidade a qual “suprime a multiplicidade subversiva de uma sexualidade que rompe as hegemonias heterossexual, reprodutiva”. E, com a emergência das sujeitas cujo gêneros e sexualidades não se conformam às normas de gênero pelas quais pessoas são definidas pelo sistema heterocêntrico, a própria noção de pessoa passa a ser questionada. A forma como a sociedade lida com isso é desumanizando aquelas que fogem a esse padrão imposto. E isso é passível se ser observado nas duas obras analisadas neste ensaio.

Em O parque das irmãs magníficas (2021) são muitas as passagens em que a narradora retrata a maneira como as travestis são desumanizadas pela sociedade e pelas instituições que deveriam não só protege-las (polícia) como também acolher a todas as pessoas sem nenhuma distinção (escola, medicina): “Ninguém nomeia as travestis, salvo nós mesmas. O resto das pessoas ignora o nosso nome, usa o mesmo para todas: veados” (Sosa Villada, 2021, p. 75), ou ainda em “Começou a temporada de caça. O bairro inteiro nos persegue. Querem a matança das travestis” (Sosa Villada, 2021, p. 166).

Butler (2017, p. 193-194) ressalta que as imagens corporais que não se encaixam nos gêneros hegemônicos, e aqui acrescentamos a sexualidade padrão cis-hétero, ficam fora do humano “constituem a rigor o domínio do desumanizado e do abjeto, em contraposição ao qual o próprio ser humano estabelece”. Esses sujeitos são relacionados ao perigo e à poluição: “o ‘abjeto’ designa aquilo que foi expelido do corpo, descartado como excremento, tornado literalmente ‘Outro’. Parece uma expulsão de elementos estranhos, mas é precisamente através dessa expulsão que o estranho se estabelece” (Butler, 2017, p. 230). Para Maria Lugones (2020, p. 57) “toda forma de controle do sexo, da subjetividade, da autoridade e do trabalho existe em conexão com a colonialidade”.

Como consequência dessa desumanização a que as travestis são vítimas da sociedade, em grande parte das vezes o único espaço que as acolhe é a rua/noite, uma vez que ao frequentarem espaços públicos, sobretudo durante o dia, elas são hostilizadas, violentadas. E isso é apresentado no romance de Sosa Villada, quando a narradora relata que quando está em uma farmácia - nessa época ela vivia uma vida dupla, podendo viver sua identidade somente durante a noite - uma travesti adentra no espaço “com a intenção de passar o mais inadvertida possível”, no entanto, “Ela nota os risinhos de lado, os cochichos, e se incomoda. Baixa a cabeça, coloca os fones de ouvido e se põe a esperar” (Sosa Villada, 2021, p. 136). Como consequência, essa travesti, cansada e acuada, vai embora sem comprar o que precisa. E Camila relembra as palavras de Tia Encarna: “Somos como um entardecer sem óculos de sol [...]. Nosso fulgor cega, ofusca aqueles que olham para nós e os assusta” (Sosa Villada, 2021, p. 137).

Amara Moira (2018) também narra em sua obra o desconforto que sente ao andar na rua e isso causado pelos olhares, risos de pessoas travestisfóbicas que lhe julgam apenas por ser ela mesma:

Gosto de andar por aí de cabeça baixa, sem ter que enfrentar olhares e imaginar o que estão pensando ao me ver. Se as pessoas riem, faço todo esforço para acreditar que deve ser por piada ou uma coisa engraçada que lhes ocorreu. [...] Mas tem vezes que a sincronia da minha passagem com esse riso soa estranha demais, me deixa insegura, agride. (Moira, 2018, p. 31).

Tanto em O parque das irmãs magníficas (2021) quanto em E se eu fosse puta (2018), a rua e a noite são espaços possíveis de existência: “A noite é a porta aberta ao mundo onde tudo é possível. Existem coisas que não podem acontecer à luz do dia” (Sosa Villada, 2021, p. 61), e ainda, “Não gostamos de sair de dia porque não estamos acostumadas, porque é impossível se acostumar ao espartilho dos seus estatutos” (Sosa Villada, 2021, p. 112). A noite, a rua e o parque as acolhem e as irmanam: “Era já nove quando fui pra rua (escuridão: só assim me sinto à vontade [...]” (Moira, 2018, p. 71). Como reflete Lohana Berkins (2012, p. 227), a rua tem um papel muito importante na vida e nas identidades travestis: “Es en este ámbito donde aprendemos a ser y donde nos desarrollamos como travestis[...]”. Para a ativista, a rua é um cenário de construção das identidades daquelas que foram expulsas dos espaços públicos, sendo um local em que se criam vínculos e alianças com outros e outras, mobiliza-se politicamente.

A outras exclusões sociais e familiares as travestis são submetidas na América Latina. Como já citado anteriormente, Lohana Berkins (2012, p. 224) revela que as condições de existência travesti na América Latina estão marcadas pela exclusão dessas sujeitas do sistema educativo formal e do mercado de trabalho, e acredito que essa supressão advenha também pelo modo como a sociedade as desumaniza. Amara Moira, ao refletir em sua obra sobre ser puta, traz uma reflexão acerca da falta de oportunidades educacionais e de trabalho a que as travestis são submetidas: “E puta, mas como?! Mas sem por quê?! Sem ‘mas. Puta porque puta, puta porque ‘quem sabe um dia’. Já viu travesti professora, advogada, cientista, médica?” (Moira, 2018, p. 32).

Travestis desumanizadas e excluídas da sociedade, muitas só encontram na prostituição uma forma de existir e sobreviver: “Ser travesti já nos torna tabu, daí a maioria ainda encontra na prostituição a única forma de subsistência (e sabemos que seremos consideradas putas mesmo as poucas de nós que escaparem ao trabalho sexual)” (Moira, 2018, p. 176). Aquelas que sobrevivem são obrigadas a viver uma vida muitas vezes precária: “A transfobia nos exclui, a prostituição nos abraça e a putafobia amplia a exclusão a que já estamos sujeitas só por meramente existir” (Moira, 2018, p. 176).

Se em Se eu fosse puta (2018) há passagens e reflexões sobre as exclusões sociais a que são submetidas as travestis, também em O parque das irmãs magníficas (2021) há a exclusão em várias camadas, mas muito me chamou atenção a que ocorreu no espaço escolar, a outra da própria família e, por fim, a perpetrada por policiais, os quais deveriam proteger e zelar todas as pessoas sem nenhum tipo de discriminação.

Após Tia Encarna adotar uma criança que estava abandonada no parque Sarmiento - depois nomeada de Brilho nos Olhos -, as travestis do bando vivenciam uma época de flores por um tempo. Nesse período, uma delas, a Tucu, matriculou-se no Ensino Médio. No entanto, apesar da esperança e do desejo de estudar, “a trataram tão mal na escola em que se matriculou que, depois do primeiro dia de aula, apareceu chorando no Parque e se pôs a gritar que, naquela noite, ia trepar sem camisinha até cansar, pois nada mais importava” (Sosa Villada, 2021, p. 33). Lohana Berkins ressalta a exclusão das travestis do sistema educativo, apontando que as condições hostis a que meninas e adolescentes travestis são assujeitadas na escola condicionam de forma severa as possibilidades que elas terão em relação a inclusão social e a um emprego de qualidade. Na obra de Sosa Villada, somente a narradora continua seus estudos, mas para isso tem que esconder sua identidade travesti durante o dia - período em que frequenta a faculdade -, podendo se mostrar totalmente apenas à noite, longe de um espaço educativo formal:

E a outra vida. A vida branca, a vida diurna, intrometida no mundo dos heterossexuais de pele clara e costumes respeitáveis. A vida universitária, que acontecia de costas para a noite. [...] Ir ao supermercado, ir às aulas, ir até mesmo a festas em que era inconcebível a existência travesti. (Sosa Villada, 2021, p. 120).

A travesti, ativista e psicóloga Marlene Wayar (2021, p. 89), ao refletir acerca da adoção por pessoas que fogem à heteronormatividade, sublinha o espaço escolar enquanto um lugar que treina homens para violentar “à femininidade e a toda marica, torta, trava, chegando até ao crime de ódio”. Por isso é preciso refletir a respeito de quais escolas podem ser frequentadas por “nossos meninos e meninas, porque sabemos quais escolas cometem atrocidades. Violam. Maltratam. Educam com uma pedagogia da micropolítica do gotejamento permanente de treinar homens para nos violentar”. Trata-se de um espaço que fecha portas, que violenta, que discrimina pessoas que fogem ao cis-hetero-branco normatismo.

Quanto aos espaços de exclusão, é importante ressaltar o espaço familiar. Na obra de Sosa Villada em análise, há muitas passagens em que a própria narradora fala da sua própria família como um dos primeiros lugares de violência. E isso é também extensivo a outras, como é o caso da travesti Patrícia, que fugiu da própria família aos 14 anos para poder viver a sua vida e identidade: “Chamava-se Patrícia, embora todas a chamassem de A Manca, A Noia, O Louco. [...] fugiu de casa para sempre. Tinha catorze anos, seus pais a desprezavam porque era maricas[...]” (Sosa Villada, 2021, p. 155).

Marlene Wayar (2021, p. 89) conta-nos que “Entre oito e treze anos, assumimos nossa identidade, e então a casa hetero-cis-patriarcal nos expulsa”. A família, que teoricamente deveria ser local de cuidado, acolhimento e amor com suas crianças não o é em caso dessa criança não se enquadrar no padrão heterossexista. Para nós, membros da comunidade LGBTQIA+, isso, infelizmente, é uma realidade assombrosa. São inúmeros os casos em que desde a tenra idade, por apresentar trejeitos, modos de falar, desejos em relação a roupas, etc., a criança sofre ameaças, violência e repressão. Camila relembra esse tipo de vivência ao rememorar um episódio de sua infância:

Um dia, estou numa reunião familiar e meu pai diz: “Se tivesse um filho veado ou viciado, eu o mataria. Pra que ter um filho assim?”, pergunta a todos à mesa. E todos concordam, dizem simsimsim, para que ter um filho assim. Minha mãe também concorda com ele. Eu, que entendo tudo o que é tecido ao redor da minha feminilidade, entendo a sua ameaça. (Sosa Villada, 2021, p. 87).

É cruel, dura e injusta a vida de quem tem medo de ser si mesma. O amor, quando é ofertado, é feito como esmola, como culpa. Essa questão familiar nos mostra que “Podemos dizer-lhes que fracassaram tremendamente em sua paterno-maternidade e que criaram um Estado-nação que negligencia a paternidade ou a maternidade como responsabilidade social” (Wayar, 2021, p. 89). O amor incondicional familiar, cristão, hetero, cis e branco exige que o sujeito LGBTQIA+ se anule para recebê-lo ou que saia (seja expulso) de casa em busca de viver a sua própria vida. No que diz respeito às travestis, Wayar (2021, p. 89) destaca que “entre 8 e 13 anos de idade, somos expulsas para a prostituição para continuarmos vivas”.

Lohana Berkins (2012) nos ajuda a refletir acerca dessa questão quando destaca que na América Latina a travestilidade é assumida em idades jovens. Em sociedades que criminalizam a identidade travesti, ocorre frequentemente a perda de lugar, dos vínculos familiares. As travestis jovens se veem obrigadas a abandonar seus povos e suas cidades em busca de lugares menos hostis, geralmente “el anonimato de la gran ciudad que les permite fortalecer su subjetividad y otros vínculos sociales que las reconozcan y también un mercado de prostitución más próspero que el del pueblo o la ciudad de crianza” (Berkins, 2012, p. 225). Berkins ainda destaca que, além de tudo, é nas grandes cidades que as travestis conseguem oportunidades e recursos para intervir em seus corpos mesmo que seja em situações de risco e ilegalidade.

A narradora de O parque das irmãs magníficas (2021), enquanto não saiu de seu povoado, se viu forçada a manter sua identidade travesti às escondidas de seus familiares para não sofrer nenhuma espécie de represália ou violência. Como ela conta, “no princípio, eu me travestia na casa de alguma amiga que, escondida dos pais, permitia-me a magia de converter-me em mim mesma” (Sosa Villada, 2021, p. 62). Com o tempo, devido à proporção que sua travestilidade foi tomando em seu pequeno povoado, nenhuma amiga a deixou mais se transformar em suas casas. Por isso, Camila se viu obrigada a ocupar uma construção abandonada que havia em sua cidade: “quando ninguém me via, colava no meu palácio de tijolos sem reboco e começava a me converter em Camila” (Sosa Villada, 2021, p. 63).

Ali mesmo, ainda adolescente, a narradora começa a sentir hostilidades e violências por parte das pessoas e se seus próprios colegas. Como ela relata, raramente era cumprimentada por conhecidos, as amigas sumiam quando a viam: “[...] o resto me empurrava quando avançava entre eles, um esticava o pé para eu tropeçar, outro queimava meu vestido com cigarro, mas eu seguia em frente, em sintonia com meu mundo [...]” (Sosa Villada, 2021, p. 64).

Essa clandestinidade a que fora obrigada a (sobre)viver enquanto vivia em seu povoado, de certa forma, tem como consequência o primeiro relato de violência sexual sofrido por Camila. Certa noite, ao retornar para casa, ela percebe que estava sendo seguida por um carro da polícia e, quando interpelada por eles pela primeira vez, ela abriu o portão de uma residência qualquer, entrou e lá ficou até ver o carro da polícia sumir. E ela diz “O terror de imaginar meu pai na porta de casa, enquanto eu descia da viatura num vestido feito à mão com as cortinas que haviam desaparecido misteriosamente” (Sosa Villada, 2021, p. 65).

Assim que a viatura desaparece, ela retoma o caminho que fazia anteriormente até que se depara com os mesmos policiais novamente. Nesse momento, um policial demonstra saber quem ela é ao afirmar que é filha do Sosa e que vão levá-la para a delegacia. Além disso, ele a interpela “- Teu pai não sabe que você anda vestida desse jeito? Respondi que não. - Bom, vamos ter que contar para ele. Não se pode andar assim, é uma contravenção. Eu comecei a chorar” (Sosa Villada, 2021, p. 66).

Em vez de levá-la para a delegacia, os policiais seguiram em direção ao rio do vilarejo. Como Camila revela: “Naquela noite, debutei, com dois policiais e um civil que, eu suspeito, também era policial. Fiz sexo com eles por terror do castigo do meu pai”, e, como consequência, “Naquela semana, no colégio, movimentei-me como uma alma que tivesse perdido seus laços com o aqui e o agora. Quase não podia caminhar, em parte pela dor, com os músculos dilacerados [...]” (Sosa Villada, 2021, p. 67).

Essa violação sofrida por Camila abre brechas para discutirmos acerca da violência policial, daqueles sujeitos(as) que deveriam proteger, cuidar e zelar pelo bem-estar de toda a população, sem discriminação. É impossível refletir acerca da violência exercida por agentes públicos sem questionar o próprio poder público em si. Lohana Berkins (2021, p. 226) nos fala acerca da criminalização da identidade travesti: “Me refiero al control de algunas poblaciones, entre ellas la travesti, que efectúa el Estado a través de edictos policiales, códigos contravencionales, códigos de faltas, todas éstas regulaciones inconstitucionales que sirven para la persecución policial de grupos sociales específicos”. O Estado, ao fazer isso, restringe o acesso de determinados grupos ao espaço público, inclusive a própria transitação pela rua, e isso “es especialmente grave porque la calle es uno de los pocos recursos con los que contamos como colectivo” (Berkins, 2021, p. 227).

Como consequência dessa política de Estado, os seus agentes policiais ganham poder para perseguir as travestis impunemente. Como observado na passagem anterior, em que se relata o estupro de Camila por policiais, inclusive, utilizando uma viatura e vestimentas, pode-se perceber o modo como suas forças atuam e são retratadas no Parque das irmãs magníficas (2021): “[...] a perseguição policial não nos dá respiro” (Sosa Villada, 2021, p. 178). Dentre as várias cenas de abuso policial presentes na obra, destaco a que se segue: “O policial que tinha urinado na cara de María, a Muda, de pistola na mão, dizendo que, se ela não dissesse o nome dele, descarregaria todo o tambor na cabeça dela e na de todas as que servíamos de testemunha” (Sosa Villada, 2021, p. 145).

E, como consequência das inúmeras perseguições, as travestis da manada se viram obrigadas a deixar o parque, sobretudo quando o poder público decidiu iluminá-lo: “Os jornais e a televisão diziam que, com a nova iluminação do Parque, acabariam a delinquência e a prostituição. Para mim, sempre pareceu que nos viam como baratas: bastou acender a luz para que todas saíssemos correndo” (Sosa Villada, 2021, p. 178).

Em E se eu fosse puta (2018), a violência exercida pelo Estado e pela sociedade, que, por sua parte, gera uma espécie de subalternização das travestis sobre a qual vimos refletido na obra de Sosa Villada, também nos escritos de Amara Moira, ela não se sente segura/confortável em sair pelas ruas durante o dia, em frequentar os espaços sociais, possui pouquíssima chance de se sentir segura ao acionar a polícia em caso de violência, sofre abusos psicológicos e sexuais, por exemplo. Há uma passagem em que a narradora conta a respeito de um de seus programas e de como foi violentada sexualmente pela primeira vez:

Eu só queria ir embora, ele só queria mais uma. Tentei fugir, ele forçou a barra. Pela primeira vez nos três programas que fizemos, ele pouco se lixou pra minha vontade: pegou minha cabeça e arredou até o seu pau, eu sem vontade alguma de chupar, só querendo ir pra casa. Ele não disse nada, nem precisou, mas tava na cara que se sentia no direito de forçar uminha a mais, “tô pagando”. (Moira, 2018, p. 56).

Assim como Camila, a narradora de Sosa Villada é violada e não tem a quem recorrer para denunciar seus abusadores, o mesmo acontece com a narradora de Amara Moira, que vive o que ela chama de “minha primeira violência sexual” (Moira, 2018, p. 57). Ela se viu forçada a realizar o ato sexual contra vontade, de modo que “sinalizar sofrimento não foi o bastante para evitar que ele continuasse e, hoje, na verdade, me parece até que ele se excitou mais [...]” (Moira, 2018, p. 57). As duas autoras nos convidam a refletir sobre o porquê algumas vidas valem mais do que outras, o porquê algumas pessoas devem ser protegidas/amparadas/acompanhadas enquanto outras devem ser completamente ignoradas em suas existências.

Considerações finais

O título deste trabalho fala do corpo, da escrita exercida com a corporalidade pelas duas autoras escolhidas, Camila Sosa Villada e Amara Moira. E durante o trabalho todo falamos dele, uma vez que é suporte de gênero, sexualidade, raça e classe social. Através do corpo sujeitos são considerados menos ou mais humanos por se conformarem, ou não, à corporeidade cis-hetero-branca e quais consequências quem foge desse padrão sofre apenas por ser ela/ela mesmo(a). As duas obras nos convidam a refletir sobre como o direito de existir, de ser amado, de estudar, de trabalhar, de viver uma vida plena e digna não é estendido a todas as pessoas que vivem na sociedade, no caso das duas autoras, em sociedades latino-americanas do sul. Como nos diz mais uma vez Lohana Berkins (2012, p. 227):

Las travestis no pretendemos imponer nuestros valores y perspectivas, sino que exigimos la libertad y las condiciones materiales para vivir vidas gratificantes y plenas de derecho. Para ser ciudadanas necesitamos gozar de las mismas libertades en el espacio público de que disfrutan las personas que son consideradas respetables.

Não se trata de forma alguma de criminalizar ou moralizar a prostituição e sim de lutar para que as travestis possam ter escolhas, para que possam ser professoras, médicas, advogadas, jornalistas, o que desejarem, ou seja, de viver vidas gratificantes e plenas de direitos, nas quais não haja mais medo de se ser quem é. Amara Moira reflete acerca dessa questão quando fala sobre sua transição: “Tantos anos retardando a transição, no armário toda, temendo até mesmo pôr para fora a pontinha dos pés” (Moira, 2018, p. 32), e isso porque “meu medo era, antes, a violência da exclusão, me ver pária da noite pro dia, tratada feito lixo, perder família, amigos, círculo social [...]” (Moira, 2018, p. 33). Já foi dito anteriormente neste ensaio que aquelas que se assumem travestis ainda jovens, em sua maioria, logo são excluídas do seio familiar e demais formas de convívio social. Não há como se falar em literatura produzida por travestis sem pensar no corpo, sobretudo na América Latina em que “es la expectativa de vivir pocos años que acompaña a la mayoría de las travestis (una perspectiva muy ajustada a la realidad, por cierto)” (Berkins, 2012, p. 226).

Esse corpo que sofre na carne as dores e violências somente por ser quem é, é um corpo de batalha, ativo, que constrói seus próprios espaços a partir de lutas políticas. Dessa forma, cabe destacar que as duas obras aqui comparadas possuem um compromisso ético e político cujo desejo principal é contar a sua própria história, preservar uma memória coletiva de um grupo que ainda hoje luta para sobreviver e para não mais ser invisibilizado. Como nos diz Yanara Valdevenito Araya (2022, p. 7),

La divulgación literaria de subjetividades travestis se presenta como una necesidad primaria para poder subsistir en un sistema cis-heteronormativo. El discurso travesti en la literatura latinoamericana contemporánea se presenta como una voz contestataria que cuestiona los constructos sexo-genéricos que impone y naturaliza la hegemonía.

Em ambas as obras, o corpo e a literatura fogem e se libertam do que Ana Cuiñas (2022) nomeia de construções culturais hegemônicas. Em entrevista4 a Mário Alberto Medrano, realizada em 2021, Camila Sosa Villada fala sobre a sua própria escrita como uma transgressão, ela diz: “yo soy una escritora que está ejerciendo la escritura sin título, sin permiso, lo que sí he hecho es escribir con el viento en contra, bajo la lluvia, bajo la tormenta, y aun así no he dejado de hacerlo, incluso cuando no tenía ni tiempo ni dinero, y tenía que hacer otras cosas para ganarme la vida”. São escritas que desestabilizam a binariedade, a oposição homem e mulher, a cisgeneridade, o discurso biológico acerca do corpo. Textos que, feitos sem permissão, transgridem normas sociais e literárias, contribuindo para pensarmos em questões sociais e políticas em relação às travestis, mas também sobre novos modos de se fazer literatura a partir do sul.

Referências

  • ARAYA, Yanara Valdevenito. El poder de la transparencia y el arte del deslumbramiento: Cuerpo, subversión y resistencia travesti en Las Malas de Camila Sosa Villada. 45 f. Tesis (Licenciatura en Letras) - Universidad de Chile, Santiago, 2022. Disponible en: https://repositorio.uchile.cl/handle/2250/193342 Acesso em: 07 mar. 2024.
    » https://repositorio.uchile.cl/handle/2250/193342
  • BERKINS, Lohana. Travestis: una identidade política. In: BERKINS, Lohana. Pensando los feminismos en Bolívia La Paz: Conexión fondo de emancipación, 2012. p. 221-228. Série Foros
  • BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. 13 ed. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2017.
  • CUIÑAS, Ana Gallego. Contra el canon: la narrativa de vanguardia de Camila Sosa Villada. Telar, p. 69-87, 2022.
  • GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Organização de Flávio Rios e Márcia Lima. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
  • LUGONES, Maria. Colonialidade e gênero. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque (org.). Pensamento feminista hoje: perspectivais decoloniais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020. p. 52-83.
  • MAYER, Gabriela. Direito à ficção. Camila Sosa Villada provoca novos usos das palavras para naturalizar encontros e identidades. Quatro cinco um, n. 65, 2022. Disponible en: https://www.quatrocincoum.com.br/resenhas/literatura/direito-a-ficcao Acesso em 14 dez, 2023
    » https://www.quatrocincoum.com.br/resenhas/literatura/direito-a-ficcao
  • MARISTANY, José. La llegada a la trans/escritura: Camila Sosa Villada y la narrativa vivencial travesti. Visitas al Patio, v. 16, n. 1, p. 67-85, 2022.
  • MOIRA, Amara. Apresentação. In: TERECRUZI, Alex; et al. Antologia Trans: 30 poetas trans, travestis e não-binários. São Paulo: Transformação, 2017, s.p.
  • MOIRA, Amara. E se eu fosse puta São Paulo: Hoo Editora, 2018.
  • MOSZCZYŃSKA-DURST, Katarzyna. Entre la crisis de lo humano, la autoficción trand(fuga) y el “arte queer del fracasso”: Las Malas de Camila Sosa Villada. Pasavento: Revista de estúdios hispânicos v. IX, n. 2, p. 309-322, 2021.
  • SOSA VILLADA, Camila. O parque das irmãs magníficas Tradução Joca Reiners Terron. São Paulo: Planeta, 2021.
  • SINAY, Javier. Camila Sosa Villada: “La travesti que se gestó en mí, se gestó en el cuerpo de una escritora”. Entrevista a Camila Sosa Villada. Redacíon periodismo humano 2020. Disponible en: https://www.redaccion.com.ar/camila-sosa-villada-la-travesti-que-se-gesto-en-mi-se-gesto-en-el-cuerpo-de-una-escritora/ Acesso em: 20 fev. 2024
    » https://www.redaccion.com.ar/camila-sosa-villada-la-travesti-que-se-gesto-en-mi-se-gesto-en-el-cuerpo-de-una-escritora/
  • 1
    Entrevista realizada por Gabriela Mayer (2022)
  • 2
    Carnes Tolendas. Retrato escénico de uma Travesti. Peça teatral estreada em 2009, dirigida por María Palácios, para a qual Camila Sosa Villada foi convidada a atuar. A própria história de vida da atriz aparece como foco da peça entremeada com textos de Frederico García Lorca.
  • 3
    Entrevista realizada por Javier Sinay (2022)
  • 4
    Entrevista realizada por Mário Alberto Medrano: https://www.sinembargo.mx/09-01-2021/3921504 (Fonte consultada 07/03/2024)

Editado por

  • Editora-Chefe:
    Cássia Maria Bezerra do Nascimento
  • Editora Executiva:
    Rachel Esteves Lima
  • Editora Executiva:
    Anderson Bastos Martins, Cássia Dolores Costa Lopes, Jorge Hernán Yerro

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    16 Dez 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    15 Mar 2024
  • Aceito
    19 Maio 2024
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