Drusa de nervo ótico associada à estafiloma peripapilar congênito

Maurílio Roriz Dias Wagner Ghirelli Sobre os autores

Resumo

Nós descrevemos uma rara associação entre estafiloma peripapilar congênito e drusa de disco óptico em uma mulher de 47 anos de idade e visão normal.

Descritores:
Drusas do disco óptico; Doenças da esclera; Retina; Ultrassonografia; Estafiloma peripapilar congênito; Retinografia; Autofluorescência

Abstract

We described a rare association between peripapillary staphyloma and optic disk drusen in a woman with 47 years old and normal vision.

Keywords:
Optic disk drusen; Scleral diseases; Retina; Ultrasonography; Congenital peripapillary staphyloma; Retinography; Autofluorescence

Introdução

As drusas de disco óptico são depósitos acelulares localizados tanto intracelularmente quanto extracelularmente, descritas pela primeira vez por Muller em 1858. (11 Chang MY, Pineles SL. Optic disk drusen in children. Surv Ophthalmol. 2016; 61(6):745-58.,22 Muller H. Anatomische beitrage zur ophthalmologie. Arch F Ophthalmol. 1858;4:363-88.) As drusas de disco óptico ocorrem em 3,4 a 24 por 1000 habitantes e são bilaterais em aproximadamente 75%. (33 Auw-Haedrich C, Staubach F, Witschel H. Optic disk drusen in children. Surv Ophthalmol. 2002;47(6):515-32.) Comumente assintomáticas, podem cursar com deterioração do campo visual periférico e complicações como neovascularização coroidal, neuropatia óptica isquêmica anterior, oclusão de artéria central da retina, oclusão de veia central da retina, neovascularização subretiniana e hemorragias retinianas. (33 Auw-Haedrich C, Staubach F, Witschel H. Optic disk drusen in children. Surv Ophthalmol. 2002;47(6):515-32.)

As drusas de nervo óptico já foram descritas ocorrendo associadas a aneurisma da artéria oftálmica, hamartoma astrocítico, atrofia girata, corioretinopatia de Birdshot, síndrome de Cacchi-Ricci, cegueira noturna congênita, distrofia macular familiar, glaucoma, nanoftalmos, retinopatia serosa peripapilar central, atrofia retinocoroidal paravenosa pigmentada e córnea espessa. (33 Auw-Haedrich C, Staubach F, Witschel H. Optic disk drusen in children. Surv Ophthalmol. 2002;47(6):515-32.) Neste artigo descreveremos um caso de drusa de nervo óptico associada à estafiloma peripapilar (condição na qual um afinamento ecleral peripapilar se torna ectásico. (44 Curtin BJ. The posterior staphyloma of pathologic myopia. Trans Am Ophthalmol Soc. 1977;75:67-86.) É fartamente descrita a relação do estafiloma com miopia patológica, havendo incidência de 23% de estafiloma em pacientes com miopia patológica, (55 Verkicharla PK, Ohno-Matsui, Saw SM. Current and predicted demographics of high myopia and an update of its associated pathological changes. Ophthalmic Physiol Opt. 2015;35(5):465-75.) porém é esta a primeira descrição de drusa de nervo óptco associada a estafiloma em paciente sem miopia patológica.

Relato de Caso

Paciente do sexo feminino, 47 anos, branca, auxiliar de limpeza, compareceu ao consultório queixando-se de dificuldade para leitura há dois meses. A acuidade visual era 20\20 (sem correção) bilateral, não havia alterações em ambos olhos à biomicroscopia anterior, pressão intraocular de 15mmHg em olho direito e 14mmHg em olho esquerdo, mapeamento de retina em olho direito sem alterações e mapeamento de retina em olho esquerdo com presença de drusas de nervo óptico e estafiloma peripapilar sem outras alterações (Figura 1). Foram realizados angiofluoresceinografia (Figura 2), ultrassonografia ocular (Figura 3) e campimetria visual 24.2 Humphfrey (Figura 4). A angiofluoresceinografia demonstrou áreas autofluorescentes antes da injeção endovenosa do contraste, a ultrassonografia demonstrou calcificação e a campimetria demonstrou aumento da mancha cega sendo todos esses achados próprios desta afecção. (33 Auw-Haedrich C, Staubach F, Witschel H. Optic disk drusen in children. Surv Ophthalmol. 2002;47(6):515-32.)

Figura 1
Estafiloma peripapilar e drusas de nervo óptico.
Figura 2
Áreas autofluorescentes características de drusas do nervo óptico.
Figura 3
Presença de estafiloma peripapilar e lesão hiperecogênica com sombra acústica (seta branca) própria de drusas de nervo óptico
Figura 4
Campo visual de OE com aumento de mancha cega característico de drusa de nervo óptico.

Discussão

O estafiloma peripapilar pertence ao grupo das anomalias congênitas da papila, é extremamente rara e diferencia-se do estafiloma papilar da alta miopia, pois a refração encontrada nas congênitas é uma leve miopia. (66 Brodsky MC. Congenital optic disk anomalies. Surv Ophthalmol. 1994;39(2):89-112.)

Segundo nosso conhecimento, essa é a primeira descrição da associação do estafiloma peripapilar e a drusa do nervo óptico. Chama atenção nesse caso a drusa ser unilateral, ou seja, somente do lado afetado pelo estafiloma de maneira que a questão anatômica parece ter tido relação com o aparecimento das drusas.

A predisposição anatômica é uma das hipóteses para a patogenia das drusas. (33 Auw-Haedrich C, Staubach F, Witschel H. Optic disk drusen in children. Surv Ophthalmol. 2002;47(6):515-32.) A primeira consideração seria a presença de um túnel escleral pequeno na cabeça do nervo óptico. A segunda, a alteração vascular na saída da papila que traria transudação de proteína, a alteração vascular foi observada no nosso caso. (33 Auw-Haedrich C, Staubach F, Witschel H. Optic disk drusen in children. Surv Ophthalmol. 2002;47(6):515-32.)

Outro fato a ser considerado nas alterações anatômicas é a existências de movimentos contráteis no estafiloma peripapilar que pode estar relacionado a diferença entre a pressão intraocular e a do líquor ou contração dos músculos oculares. (77 Cao XS, Peng XY, You QS, Jiang LB, Jamas JB. Congenital contractile peripapillary staphyloma with rhegmatogenicus retinal detachment. Retin Cases Brief Rep. 2016; Sept 23. [Epub ahead of print])

Em conclusão, este caso demonstra uma associação raríssima, mas com o avanço nas técnicas de diagnóstico por imagem, talvez a presença de drusas de nervo óptico em estafiloma peripapilar congênito poderá ser mais diagnosticada.

  • Este trabalho foi realizado no Centro de Oftalmologia Tadeu Cvintal, São Paulo, SP, Brasil

References

  • 1
    Chang MY, Pineles SL. Optic disk drusen in children. Surv Ophthalmol. 2016; 61(6):745-58.
  • 2
    Muller H. Anatomische beitrage zur ophthalmologie. Arch F Ophthalmol. 1858;4:363-88.
  • 3
    Auw-Haedrich C, Staubach F, Witschel H. Optic disk drusen in children. Surv Ophthalmol. 2002;47(6):515-32.
  • 4
    Curtin BJ. The posterior staphyloma of pathologic myopia. Trans Am Ophthalmol Soc. 1977;75:67-86.
  • 5
    Verkicharla PK, Ohno-Matsui, Saw SM. Current and predicted demographics of high myopia and an update of its associated pathological changes. Ophthalmic Physiol Opt. 2015;35(5):465-75.
  • 6
    Brodsky MC. Congenital optic disk anomalies. Surv Ophthalmol. 1994;39(2):89-112.
  • 7
    Cao XS, Peng XY, You QS, Jiang LB, Jamas JB. Congenital contractile peripapillary staphyloma with rhegmatogenicus retinal detachment. Retin Cases Brief Rep. 2016; Sept 23. [Epub ahead of print]

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    May-Jun 2018

Histórico

  • Recebido
    23 Maio 2017
  • Aceito
    21 Out 2017
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