Como o ortopedista brasileiro trata entorse lateral aguda do tornozelo?

How does the brazilian orthopedic surgeon treat acute lateral ankle sprain?

Paulo Santoro Belangero Marcel Jun Sugawara Tamaoki Gilberto Yoshinobu Nakama Marcus Vinicius Shoiti Rodrigo Vick Fernandes Gomes João Carlos Belloti Sobre os autores

Resumos

OBJETIVO: A entorse lateral aguda do tornozelo (ELAT) é uma afecção frequente cujo tratamento ainda não se encontra totalmente estabelecido. O objetivo do estudo foi verificar a conduta do médico ortopedista brasileiro (incluindo residentes) em relação ao diagnóstico, classificação, tratamento e complicações da entorse lateral aguda do tornozelo (ELAT). MÉTODOS: Um questionário de múltipla escolha foi elaborado com objetivo de abordar os principais aspectos do tratamento da ELAT. O questionário foi veiculado na página eletrônica oficial da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, no período de 15 de junho a 1º de agosto de 2004. RESULTADOS: Foram incluídos para análise um total de 444 questionários. Os resultados demonstraram concordância da maioria dos entrevistados em relação aos seguintes aspectos: 90,8% utilizam alguma classificação para nortear o tratamento da entorse; 59% classificam a ELAT com segurança; 63,7% utilizam imobilização rígida nas lesões ligamentares completas; 60,6% utilizam medicação anti-inflamatória na ruptura ligamentar parcial; 75,9% relataram que a dor residual é a complicação mais frequente. Não houve consenso quanto ao método de imobilização da ELAT parcial visto que imobilização e tratamento funcional foram escolhidos com a mesma frequência (47%). Não houve diferenças significativas entre as respostas dos residentes e a dos ortopedistas (p = 0,81). CONCLUSÕES: Os ortopedistas e residentes em ortopedia do Brasil têm dificuldade em classificar a ELAT e não há consenso quanto à melhor opção para a ELAT parcial.

Ligamentos Laterais do Tornozelo; Entorses e Distensões; Avaliação em Saúde


OBJECTIVE: Acute lateral ankle sprain (ALAS) is one of the most common injuries, the treatment of which has yet to be firmly established. The purpose of this study was to determine the Brazilian Orthopaedic Surgeon's behavior in relation to diagnosis, classification, treatment and complications of the Acute Lateral Ankle Sprain. METHODS: A multiple choice questionnaire was developed which addressed the main aspects related to the treatmentof acute lateral ankle sprains (ALAS). The questionnaire was made available from June 15 to August 1, 2004, at the Official site of the Brazilian Society of Orthopedics and Traumatology. RESULTS: 444 questionnaires were included in the analysis. The results showed agreement among most of those interviewed in the following regards: 90.8% use some classification to guide treatment of the sprain; 59% classify the ankle sprain with certainty; 63.7% use the immobilization in cases of totally ruptured ligaments; 60.6% use anti-inflammatory medication in partial ligament ruptures; 75.9% reported that residual pain was the most frequent complication. There was no consensus regarding treatment of partial ALAS, as immobilization and functional treatment were chosen with the same frequency (47% each). There was no significant difference between the answers of residents and orthopedists. CONCLUSIONS: Orthopedic surgeons and orthopedic residents in Brazil have difficulty classifying ALAS and there is no consensus about the best therapeutic option for partial ALAS.

Lateral Ligament; Ankle; Sprains and Strains; Health Evaluation


ARTIGO ORIGINAL

Como o ortopedista brasileiro trata entorse lateral aguda do tornozelo?

How does the brazilian orthopedic surgeon treat acute lateral ankle sprain?

Paulo Santoro BelangeroI; Marcel Jun Sugawara TamaokiII; Gilberto Yoshinobu NakamaIII; Marcus Vinicius ShoitiIV; Rodrigo Vick Fernandes GomesIV; João Carlos BellotiV

IResidente de segundo ano do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Universidade Federal de São Paulo

IIMédico Ortopedista do Setor de Ombro e Cotovelo do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Universidade Federal de São Paulo

IIIMédico Ortopedista do Setor de Joelho do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Universidade Federal de São Paulo

IVEx-Residente do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Universidade Federal de São Paulo

VProfessor Doutor do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Universidade Federal de São Paulo

Correspondência

RESUMO

OBJETIVO: A entorse lateral aguda do tornozelo (ELAT) é uma afecção frequente cujo tratamento ainda não se encontra totalmente estabelecido. O objetivo do estudo foi verificar a conduta do médico ortopedista brasileiro (incluindo residentes) em relação ao diagnóstico, classificação, tratamento e complicações da entorse lateral aguda do tornozelo (ELAT).

MÉTODOS: Um questionário de múltipla escolha foi elaborado com objetivo de abordar os principais aspectos do tratamento da ELAT. O questionário foi veiculado na página eletrônica oficial da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, no período de 15 de junho a 1º de agosto de 2004.

RESULTADOS: Foram incluídos para análise um total de 444 questionários. Os resultados demonstraram concordância da maioria dos entrevistados em relação aos seguintes aspectos: 90,8% utilizam alguma classificação para nortear o tratamento da entorse; 59% classificam a ELAT com segurança; 63,7% utilizam imobilização rígida nas lesões ligamentares completas; 60,6% utilizam medicação anti-inflamatória na ruptura ligamentar parcial; 75,9% relataram que a dor residual é a complicação mais frequente. Não houve consenso quanto ao método de imobilização da ELAT parcial visto que imobilização e tratamento funcional foram escolhidos com a mesma frequência (47%). Não houve diferenças significativas entre as respostas dos residentes e a dos ortopedistas (p = 0,81).

CONCLUSÕES: Os ortopedistas e residentes em ortopedia do Brasil têm dificuldade em classificar a ELAT e não há consenso quanto à melhor opção para a ELAT parcial.

Descritores - Ligamentos Laterais do Tornozelo; Entorses e Distensões; Avaliação em Saúde

ABSTRACT

OBJECTIVE: Acute lateral ankle sprain (ALAS) is one of the most common injuries, the treatment of which has yet to be firmly established. The purpose of this study was to determine the Brazilian Orthopaedic Surgeon's behavior in relation to diagnosis, classification, treatment and complications of the Acute Lateral Ankle Sprain.

METHODS: A multiple choice questionnaire was developed which addressed the main aspects related to the treatmentof acute lateral ankle sprains (ALAS). The questionnaire was made available from June 15 to August 1, 2004, at the Official site of the Brazilian Society of Orthopedics and Traumatology.

RESULTS: 444 questionnaires were included in the analysis. The results showed agreement among most of those interviewed in the following regards: 90.8% use some classification to guide treatment of the sprain; 59% classify the ankle sprain with certainty; 63.7% use the immobilization in cases of totally ruptured ligaments; 60.6% use anti-inflammatory medication in partial ligament ruptures; 75.9% reported that residual pain was the most frequent complication. There was no consensus regarding treatment of partial ALAS, as immobilization and functional treatment were chosen with the same frequency (47% each). There was no significant difference between the answers of residents and orthopedists.

CONCLUSIONS: Orthopedic surgeons and orthopedic residents in Brazil have difficulty classifying ALAS and there is no consensus about the best therapeutic option for partial ALAS.

Keywords - Lateral Ligament, Ankle; Sprains and Strains; Health Evaluation

INTRODUÇÃO

O termo entorse é definido como uma lesão ligamentar traumática sofrida por uma articulação, devido a um movimento súbito que não chega a ocasionar luxação(1). Estima-se que ocorra uma entorse lateral aguda do tornozelo (ELAT) a cada 10.000 pessoas por dia, sendo esta uma das lesões mais comuns do sistema musculoesquelético e também uma das mais comuns no esporte(2).

Apesar desta elevada frequência, o diagnóstico e a conduta na ELAT representam ainda um desafio(3) já que a avaliação da gravidade da lesão é difícil de ser estabelecida de forma definitiva no momento inicial do trauma(3,4). Nesse cenário, o manejo da ELAT ainda é motivo de divergências verificadas em diversas publicações recentes(4-11). Também a longo prazo, diversos estudos têm salientado um número preocupante de complicações incluindo entorses recidivantes, instabilidade do tornozelo e dor residual após a primeira entorse(2,3,6,12-14). Isso amplifica a importância socioeconômica na ELAT, pois pode interferir aguda e cronicamente na vida profissional e social do indivíduo(3,6,9,10 ).

Nos últimos cinco anos, um número considerável de estudos randomizados e controlados, bem como revisões sistemáticas, foram ou estão sendo desenvolvidos(8,12,15-20); tendo como foco a melhor terapêutica para as lesões de partes moles do tornozelo, incluindo a ELAT(6,7,9,10). No entanto, vários autores afirmam que há ainda limitação metodológica dos estudos clínicos sobre a conduta na ELAT, por problemas metodológicos (número amostral, heterogeneidade dos métodos de tratamento ou por falta de padronização dos desfechos finais do tratamento)(2,9). Kerkhoffs et al(18); em revisão sistemática sobre imobilização funcional versus imobilização rígida e em 2006 em revisão sobre tratamento cirúrgico versus o tratamento conservador em entorse aguda do tornozelo, salientaram o número muito restrito de estudos de qualidade metodológica adequada para definir evidência de tratamento. Estudo recente comparando quatro métodos de tratamento para a entorse grave do tornozelo foi publicado(19); mas seus resultados também foram criticados(20,21).

Considerando-se então a frequência e a importância socioeconômica da ELAT, e as divergências da literatura, a avaliação do conhecimento e da conduta dos profissionais médicos que conduzem essa lesão é relevante tanto para se dimensionar a necessidade da discussão do tema em reuniões científicas como também para orientar ensaios clínicos futuros.

Diante do exposto conduzimos este estudo psicométrico com o objetivo primário de responder à seguinte questão: como os ortopedistas brasileiros tratam a ELAT? O objetivo secundário foi avaliar se a condução do tratamento da ELAT varia entre as categorias de profissionais estudadas.

MATERIAL E MÉTODOS

Este é um estudo descritivo. Foi elaborado um questionário (Anexo 1) com seis perguntas objetivas de múltipla escolha, que abordaram os principais aspectos relacionados ao diagnóstico, classificação, tratamento e complicações da ELAT. O questionário foi avaliado e validado pela Comissão de Ensino Continuado da SBOT e disponibilizado durante o período de 15 de junho a 1º de agosto de 2004, pelo Portal Oficial da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (www.sbot.org.br), incluindo residentes de programa de residência em ortopedia e traumatologia e para médicos ortopedistas que atuam no Brasil. O cadastro foi programado para que somente os formulários totalmente preenchidos fossem aceitos e para que cada participante pudesse enviar apenas uma vez o questionário (dessa maneira não tivemos perdas amostrais). Para sanar qualquer dúvida ou problema dos participantes, foi disponibilizado o endereço eletrônico de dois pesquisadores. A terminologia utilizada no questionário foi definida antes que o entrevistado respondesse às perguntas.

ANÁLISE ESTATÍSTICA

A análise estatística foi realizada com a prova Q de Cochran, pelo teste de Kruskal Wallis, Mann-Whitney e Qui-quadrado para distribuição de categorias, considerando-se como valor crítico p < 0,05. Para avaliar a adequação da amostra, considerou-se uma possibilidade de concordância nas respostas de 60%, um erro de estimativa máximo de 5% e um universo de 10.000 ortopedistas. Desta forma o valor mínimo amostral seria de 369 participantes.

RESULTADOS

Um total de 444 profissionais preencheram completamente o questionário e compuseram a amostra para análise, sendo 173 (39%) ortopedistas gerais (O), 108 (24,3%) residentes de ortopedia e traumatologia (R), 109 (24,5%) especialistas em medicina e cirurgia do pé ou em trauma ortopédico ou em traumatologia esportiva (OE) e 54 (12,2%) incluídos como ortopedistas de outras especialidades (OOE).

Os resultados sobre o conhecimento de alguma classificação e sua utilização para guiar o tratamento (Tabela 1). Verificamos que 90,8% utilizam alguma classificação para nortear seu tratamento, mas somente 59% têm segurança ao classificar a ELAT.

Não houve diferença significativa entre as respostas dessas duas questões e a qualificação do profissional (Kruskal Wallis; p = 0,28 e p = 0,47, respectivamente para as questões 1 e 2).

As respostas sobre a indicação terapêutica e tempo de tratamento para a ELAT com lesão ligamentar parcial mostraram que não há consenso, visto que igual número de participantes sugeriu a imobilização funcional (47,0%) e a imobilização rígida (47,1%) como as intervenções mais utilizadas (Qui-quadrado, p = 0,84). Como a questão admitia duas opções terapêuticas, a fisioterapia foi a segunda modalidade terapêutica sugerida incluindo 30,4% das respostas.

Quanto ao melhor método de tratamento para a ELAT com lesão ligamentar total, a imobilização rígida foi o método mais utilizado (63,7%), seguida pela cirurgia (40,5%), fisioterapia (24,3%) e imobilização funcional (16,2%).

Houve diferença estatisticamente significativa entre a qualificação do profissional e o tipo de indicação terapêutica para o tratamento da ELAT parcial (Kruskal Wallis, p = 0,001). A diferença ocorreu no grupo de ortopedista de outras especialidades (OOE) com todas as outras categorias (prova U de Mann-Witney, OOE vs. O, p = 0,000; OOE vs. R, p = 0,001; e OOE vs. E, p = 0,000), e a diferença esteve na maior frequência de indicação de imobilização funcional neste grupo de profissional em relação aos outros três grupos (Figura 1). Para o tratamento da ELAT total, não houve diferença significativa entre os profissionais (Kruskal Wallis, p = 0,11).


Nas figuras abaixo, são apresentadas as respostas sobre o tempo de tratamento na ELAT parcial e total (Figura 2).


Pode-se observar que o tempo de tratamento para a lesão parcial em até duas semanas incluiu 55,5% das respostas e o tratamento até quatro semanas incluiu 91% das respostas, sendo a média de 2,96 ±1,39 semanas. Para a lesão total, o tempo de tratamento de até quatro semanas incluiu 64% das respostas e o tratamento de até seis semanas incluiu 95% das respostas, sendo a média de 4,1 ± 1,79 semanas. O tempo de tratamento foi significativamente mais longo para a ELAT total em relação à parcial (prova U de Mann Witney, p = 0,00), e não houve diferença significativa neste aspecto em relação à qualificação do profissional (Kruskal Wallis, p = 0,23).

A medicação anti-inflamatória foi significativamente mais utilizada na ruptura ligamentar parcial (60,6%) do que na total (39%) (prova U de Mann Witney, p = 0,00). Não houve diferença nestas indicações entre a qualificação profissional dos entrevistados (Kruskal Wallis, p = 0,71; p = 0,46).

Dor residual foi a complicação mais frequente (75%) da ELAT, seguida de entorse recidivante (43,5%) e instabilidade (34,5%). Edema (25%), incapacidade parcial ou total para as atividades prévias (11,5%), lesão condral (5,6%) e trombose venosa profunda (0,2%) foram menos relatadas. Não houve diferença significativa desses dados em relação à qualificação do profissional (Kruskal Wallis, p = 0,71).

DISCUSSÃO

Foram encontrados na revisão de literatura dois estudos tendo como objetivo avaliar quais eram os métodos de tratamento mais utilizados nas entorses graves do tornozelo, um realizado no Reino Unido(22) e o outro com foco na adequação à conduta fisioterápica realizado na Holanda em 2006(23). Não foram encontrados estudos com essa finalidade na literatura nacional.

Do ponto de vista socioeconômico, devemos entender a ELAT como uma doença frequente, debilitante e onerosa. Utilizando o valor aproximado de uma ELAT para cada 10.000 pessoas/dia(2); podemos extrapolar que na cidade de São Paulo (população estimada em cerca de 10 milhões de indivíduos, IBGE-2007) ocorram diariamente 1.000 entorses laterais do tornozelo. Como cerca da metade da população está na faixa economicamente ativa (entre 20 e 65 anos), surgiriam 500 casos novos entre trabalhadores por dia (IBGE CITIE). De acordo com os dados do presente estudo, pelo menos a metade dos pacientes seria tratada com imobilização rígida, o que impediria suas atividades laborais durante a imobilização. Supondo que eles permanecessem apenas 14 dias sem trabalhar (1.750 faltas/dia), ao final de um ano, totalizariam cerca de 1.277.500 dias não trabalhados. Considerando o valor médio do salário do trabalhador paulistano de R$ 818,00 (Governo Federal - Programa Fome Zero), esse período de afastamento resultaria em um custo anual de aproximadamente 34 milhões de reais. Estas cifras indicam a necessidade de uma padronização de conduta, preferencialmente com base na eficácia, custo e segurança do tratamento.

A definição precisa da gravidade da ELAT é difícil de ser realizada na primeira avaliação(2,4,21,24). Isto implica na decisão da terapêutica inicial, que, na maioria das vezes, é baseada em critérios não uniformes na literatura. Em 2009, Lamb et al(19) usaram o critério "inabilidade para andar por três dias" para classificar a ELAT como grave, ao passo que, de acordo com outros autores, o critério ouro seria o encontro de anormalidades no exame físico realizado cinco dias após a entorse(21,24). Desta forma, é ainda válida a observação de Bernett e Schirmann(25); que salientam que os parâmetros utilizados nas classificações disponíveis são anatômicos e de pouca aplicabilidade clínica. Essas considerações podem justificar o resultado paradoxal em nosso estudo, de que mais de 90% dos ortopedistas utilizam uma classificação no diagnóstico, porém somente 57% destes a utilizam para nortear o tratamento.

Embora os resultados sobre as opções de tratamento para a ELAT total tenham sido mais definidos (60% na imobilização rígida e 40% no tratamento cirúrgico), as opções para o tratamento da ELAT parcial foram claramente indefinidas (47% de opção tanto para a imobilização funcional quanto para a rígida). Essa variabilidade de condutas na ELAT também foi observada em estudo semelhante realizado no Reino Unido(22). Esses resultados podem ser interpretados como adequados à falta de consenso que se observa na literatura a respeito. Kerkhoffs et al(18); em revisão sistemática sobre imobilização funcional versus imobilização rígida em entorses agudas do tornozelo, observaram que, embora houvesse vários aspectos favoráveis à imobilização funcional, as conclusões deveriam ser interpretadas com cautela, pois não se mantiveram quando foram excluídos os estudos de pior qualidade metodológica.

Com relação à comparação do tratamento cirúrgico versus o não cirúrgico, mesmo a confecção de estudos randomizados e controlados(8,12,15-20) ou de revisões sistemáticas(6,7,9,10) não levaram à conclusão sobre qual o melhor método de tratamento da ELAT. As duas mais recentes revisões de Kerkhoffs et al(2) e a de Jones(9) comparando o tratamento cirúrgico versus o conservador têm resultados contraditórios. No primeiro, os autores sugerem uma diferença estatisticamente favorável ao tratamento cirúrgico, enquanto a segunda conclui pela imobilização funcional. No entanto, em ambos os estudos, é salientada a falta de convicção dos resultados pela limitação metodológica dos estudos incluídos. Já o estudo de Lamb et al(19) sugere que a imobilização rígida (gesso por 10 dias a partir do terceiro dia de lesão) foi melhor quanto à qualidade de vida e tempo de dor, embora os resultados tenham sido criticados tanto pela falta de um maior controle sob as outras formas de tratamento(21) como pelo critério de seleção dos casos que não considerou o exame tardio do tornozelo como método ideal para a seleção dos casos(24).

No tratamento das ELAT parciais, a segunda modalidade mais escolhida foram os anti-inflamatórios não hormonais (AINH). Em revisão recente, há indícios de que essas medicações possam melhorar a função articular e acelerar a cura da lesão, porém não apresentam diminuição da dor e do edema(11).

Os resultados acerca do tempo de tratamento foram homogêneos, com a maioria variando entre quatro e seis semanas, sendo significantemente maior nos casos de lesão total dos ligamentos. Esses dados corroboram a prática comum diária dos pronto-socorros, mas apesar desse "consenso tácito", não foram encontrados dados consistentes na literatura sobre esse assunto(26).

Na avaliação das complicações mais frequentes, a maioria dos ortopedistas indicou a dor residual (75%) e, em seguida, as entorses recidivantes (43,5%) e a instabilidade (34,5%). Alguns estudos recentes avaliaram a evolução a curto e longo prazos da ELAT (anos após) e mostraram que, após um ano ou até três anos após o trauma, há elevada prevalência de dor (33% a 43%), recorrência da entorse (3% a 34%) e impossibilidade de andar por distância maior que uma milha (1,6 km)(6,13,14). Dessa forma, os resultados do presente estudo são congruentes quanto aos tipos de complicações encontradas na evolução da ELAT.

Alguns aspectos merecem ser relevados diante da análise dos nossos dados. Por se tratar de estudo envolvendo questionário que demanda evocação da memória, esses podem ser super/subestimados, além de terem sido obtidos via internet, o que é fonte de viés de seleção. Fato que conta como fator diminuidor deste viés é o significante número amostral. É importante salientar que estes achados refletem a opinião dos ortopedistas e não significam que sejam um guia para o tratamento.

CONCLUSÕES

Os dados desse estudo mostraram que os ortopedistas brasileiros encontram dificuldade em classificar a ELAT (apenas 57% o fazem com segurança). Divergem quanto à melhor opção terapêutica, nas parciais (47% utilizam imobilização funcional e 47,1% rígida); porém, concordam em relação às lesões totais (63,7% indicam imobilização funcional e 40,5% cirurgia). Os ortopedistas brasileiros consideram a dor como a principal complicação da ELAT (75%) e concordam sobre o tempo de imobilização da ELAT parcial e total.

Implicações para futuras pesquisas

Há necessidade de estudos de qualidade para desenvolvimento de um guia para o manejo uniforme destas lesões. O desenvolvimento de uma classificação objetiva, reprodutível e com aplicação clínica na entorse lateral aguda do tornozelo, deve ser foco de pesquisas futuras.

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    Trabalho realizado no Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Universidade Federal de São Paulo.

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    Anexo 1

    Correspondência: Rua Estado de Israel, 345, ap. 131, Edifício Orquídea 04022-001 - São Paulo, SP E-mail - psbelangero@yahoo.com.br

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      06 Dez 2010
    • Data do Fascículo
      2010
    Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia Al. Lorena, 427 14º andar, 01424-000 São Paulo - SP - Brasil, Tel.: 55 11 2137-5400 - São Paulo - SP - Brazil
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