Osteomielite aguda do escafóide: relato de caso

Osteomyelitis of the scaphoid: a case report

Frederico Barra de Moraes Mário Yoshihide Kuwae Emanoel de Oliveira Akemi Kasahara Omi Freitas Fernanda Barboza de Oliveira Gustavo Barboza de Oliveira Juliana Cabral Nunes Sobre os autores

Resumos

Relata-se um raro caso de osteomielite aguda do escafóide em punho esquerdo, por Staphylococcus aureus, em homem de 53 anos de idade, paraplégico, sem causa inicial aparente. O tratamento realizado foi baseado em antibioticoterapia venosa específica e drenagem cirúrgica, com bom resultado funcional após seis meses.

Ossos do carpo; Osso escafóide; Doenças ósseas infecciosas; Osteomielite; Relatos de casos


The authors report a rare case of acute osteomyelitis of the scaphoid bone in the left wrist, due to Staphylococcus aureus, in a 53 year-old paraplegic man without an apparent initial cause. The treatment used was based in specific venous therapy with antibiotics and surgical draining, with good functional result after six months.

Carpal bones; Scaphoid bone; Bone diseases, infectious; Osteomyelitis; Case reports


RELATO DE CASO

Osteomielite aguda do escafóide: relato de caso* Endereço para correspondência: Av. T-4, nº 1.140, apto. 403, Ed. Lago das Brisas - Setor Bueno 74230-050 - Goiânia (GO) Fax: 3285-2222/celular: 9611-4050 E-mail: frederico_barra@yahoo.com.br

Osteomyelitis of the scaphoid: a case report

Frederico Barra de MoraesI; Mário Yoshihide KuwaeII; Emanoel de OliveiraIII; Akemi Kasahara Omi FreitasIII; Fernanda Barboza de OliveiraIV; Gustavo Barboza de OliveiraIV; Juliana Cabral NunesIV

IMestre, Professor Substituto de Ortopedia do Departamento de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás - UFG - Goiânia (GO), Brasil

IIChefe do Grupo de Mão e Microcirurgia do Departamento de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás - UFG - Goiânia (GO), Brasil

IIIOrtopedista do Departamento de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás - UFG - Goiânia (GO), Brasil

IVEstagiário da Liga do Trauma do Departamento de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás - UFG - Goiânia (GO), Brasil

Endereço para correspondência Endereço para correspondência: Av. T-4, nº 1.140, apto. 403, Ed. Lago das Brisas - Setor Bueno 74230-050 - Goiânia (GO) Fax: 3285-2222/celular: 9611-4050 E-mail: frederico_barra@yahoo.com.br

RESUMO

Relata-se um raro caso de osteomielite aguda do escafóide em punho esquerdo, por Staphylococcus aureus, em homem de 53 anos de idade, paraplégico, sem causa inicial aparente. O tratamento realizado foi baseado em antibioticoterapia venosa específica e drenagem cirúrgica, com bom resultado funcional após seis meses.

Descritores: Ossos do carpo/patologia; Osso escafóide/patologia; Doenças ósseas infecciosas; Osteomielite; Relatos de casos [Tipo de publicação]

ABSTRACT

The authors report a rare case of acute osteomyelitis of the scaphoid bone in the left wrist, due to Staphylococcus aureus, in a 53 year-old paraplegic man without an apparent initial cause. The treatment used was based in specific venous therapy with antibiotics and surgical draining, with good functional result after six months.

Keywords: Carpal bones/pathology; Scaphoid bone/pathology ; Bone diseases, infectious; Osteomyelitis; Case reports [Publicaton type]

INTRODUÇÃO

A osteomielite do escafóide é um evento muito raro. Pode estar associada ao cateterismo prolongado da artéria radial(1), a lesões infectadas no punho(2), a cirurgias com implantes metálicos (pseudartrose ou instabilidades do escafóide)(3), a mordida de gato(4), ou ser de origem desconhecida(5). O caso relatado apresenta paciente com osteomielite aguda do escafóide por Staphylococcus aureus, em que o tratamento realizado foi antibioticoterapia venosa e drenagem cirúrgica.

RELATO DO CASO

Paciente SAP, masculino, 53 anos de idade, lesado medular há quatro anos devido a acidente motociclístico, com traumatismo medular torácico T8-T9, inicialmente ASIA 0, e com tratamento e reabilitação ASIA 3, que apresenta bexiga neurogênica e realiza cateterismo vesical intermitente de 4/4 horas. É independente, dirige carro adaptado e locomove-se em cadeira de rodas. Não apresenta outras co-morbidades.

Referiu que há cerca de duas semanas iniciou quadro de dor e limitação funcional do punho esquerdo, de aparecimento súbito, não relacionado a trauma, em topografia correspondente a escafóide, sem outras alterações locais ou sistêmicas. Foi atendido em pronto-socorro ortopédico, apresentando radiografias de punho sem alterações aparentes, sendo então diagnosticada como contusão do punho pelo excesso de esforço na cadeira de rodas e durante a fisioterapia, sendo-lhe prescrita imobilização por luva gessada por sete dias e antiinflamatórios. Procurou outro serviço após sete dias, com queixa de piora da dor, do edema e da limitação funcional, sem outros sinais ou sintomas. Radiografias do punho mostraram pequena área de reabsorção óssea no segmento distal do corpo do escafóide, sendo então diagnosticada fratura do mesmo; prescrita imobilização gessada para escafóide e analgésicos. Após três dias de uso do gesso, o paciente retornou com piora da dor, do edema e agora apresentando leve flogose dorsal no punho e volar na topografia do escafóide, com exame radiológico mantendo a mesma imagem, sendo então diagnosticada celulite, após retirada do aparelho gessado. Foram prescritos cefalexina, antiinflamatórios e analgésicos.

Após três dias, o paciente procurou o Hospital de Clínicas de Goiânia da UFG, apresentando dor intensa mesmo com o uso dos medicamentos, piora da flogose, e derrame articular, além de febre e queda do estado geral (figura 1).


Não apresentava lesões abertas de pele ou déficit neurovascular. Nas radiografias do punho observamos a mesma lesão osteolítica, sem características de fratura (figura 2). A ressonância magnética (RM) ponderada em T1 mostrou destruição restrita ao pólo distal do escafóide, sem comprometimento total do osso (figuras 3A e 3B). Solicitado hemograma, que evidenciou 13.000 leucócitos com desvio à esquerda e velocidade de hemossedimentação de 60mm na primeira hora. Baseado no quadro clínico-radiológico, foi feita hipótese de osteomielite aguda do escafóide.



Foi realizada punção articular, com saída de pus, e a bacterioscopia revelou presença de vários cocos isolados, dispostos aos pares e cachos gram-positivos na amostra examinada. Em decorrência, foi realizada artrotomia do punho, desbridamento, limpeza cirúrgica e curetagem do escafóide. No ato cirúrgico foi observada lesão erosiva dos rebordos do escafóide. O antibiótico utilizado foi ciprofloxacino, 400mg EV, 12/12h, por 14 dias, conforme orientação do Serviço de Infectologia, com base na bacterioscopia, cultura e antibiograma, que mostraram Staphylococcus aureus não-resistente (exceto beta-lactamase positiva para penicilina e ampicilina). Após alta, continuou antibioticoterapia com cefalexina, 500mg VO, 6/6h, por mais duas semanas.

Após seis meses, o paciente apresentava-se sem recidiva da infecção, sem dor e com amplitude de movimento do punho normal. Na radiografia observamos reabsorção da porção mais distal do escafóide (figura 4).


DISCUSSÃO

A osteomielite do escafóide é muito rara, estando associada na maioria dos casos com o cateterismo da artéria radial(1), uma vez que a maior parte da irrigação desse osso se dá por ramos da artéria radial(6-7). Esse risco aumenta significativamente quando o cateter é deixado por mais de quatro dias(8). Para se evitar essa complicação, o cateterismo da artéria deve ser feito com técnica asséptica adequada, por poucos dias e após o teste de Allen, para verificar como está o fluxo arterial(8).

Outras causas foram relacionadas como lesões de partes moles infectadas no punho, cirurgias com implantes, mordidas de gato e casos sem origem aparente. Os agentes mais comumente encontrados são Staphylococcus aureus(5,9), mas outros, como Serratia marcescens(1) e Mycobacterium kansaii(2), também podem ser encontrados.

O quadro clínico é semelhante ao de qualquer osteomielite, com sinais flogísticos locais e sistêmicos. Os exames radiológicos devem ser avaliados com muito cuidado, pois as radiografias podem ser normais até a segunda semana, simular fratura ou pseudartrose do escafóide. O exame com maior sensibilidade e especificidade é a RM do punho, que poderá inclusive determinar o tipo de tratamento.

Se a osteomielite do escafóide estiver restrita a uma porção do osso, ou ocorrer em crianças, o tratamento de escolha é drenagem cirúrgica e antibioticoterapia venosa adequada, o que leva a bom resultado funcional a longo prazo e regeneração do osso(8). Entretanto, quando todo o osso é destruído, a ressecção do escafóide é indicada para erradicar a infecção, devendo-se estar prevenido para possível futura cirurgia de artrodese no carpo ou carpectomia proximal, pois com o passar dos anos ocorre a migração proximal do captato(8).

  • Endereço para correspondência:
    Av. T-4, nº 1.140, apto. 403, Ed. Lago das Brisas - Setor Bueno
    74230-050 - Goiânia (GO)
    Fax: 3285-2222/celular: 9611-4050
    E-mail:
  • Recebido em 3/6/08.

    Aprovado para publicação em 15/8/08.

    * Trabalho realizado no Departamento de Ortopedia/Traumatologia (DOT) - Hospital das Clínicas (HC)/Faculdade de Medicina Universidade Federal de Goiás (UFG).

    • 1. Knutson EL, Levy CS, Curtin JA, Allen H, Gunther SF. Hematogenous Serratia marcescens osteomyelitis of the carpal scaphoid from an indwelling radial artery catheter. J Hand Surg [Am]. 1982;7(4):395-7.
    • 2. Minkin BI, Mills CL, Bullock DW, Burke FD. Mycobacterium kansaii osteomyelitis of the scaphoid. J Hand Surg [Am]. 1987; 12(6):1092-4.
    • 3. Kleinman WB, Carroll C. Scapho-trapezio trapezoid arthrodesis for treatment of chronic static and dynamic scapho-lunate instability: a 10-year perspective on pitfalls and complications. J Hand Surg [Am]. 1990;15(3):408-14.
    • 4. Pechter EA, Miller TA. Severe osteomyelitis of the wrist following a cat bite. Hand. 1983;15(3):242-5.
    • 5. Seimon LP, Stram RA. Staphylococcal osteomyelitis of the carpal scaphoid. J Pediatr Orthop. 1984;4(1):123-5.
    • 6. Gelberman RH, Mennon J. The vascularity of the scaphoid bone. J Hand Surg [Am]. 1980;5(5):508-13.
    • 7. Taleisnik J, Kelly PJ. The extraosseous and intraosseous blood supply of the scaphoid bone. J Bone Joint Surg Am. 1966;48(6): 1125-37.
    • 8. Baek GH, Chung MS. Methicillin-resistant Staphyilococcus aureus osteomyelitis of the scaphoid from a catheter in the radial artery. J Bone Joint Surg Br. 2002;84(2):273-4.
    • 9. Monsell FP, McVie JL, Smith RB. Osteomyelitis of the scaphoid with sequestration of the primary ossification centre. J Hand Surg [Br]. 1998;23(3):422-4.

    Endereço para correspondência: Av. T-4, nº 1.140, apto. 403, Ed. Lago das Brisas - Setor Bueno 74230-050 - Goiânia (GO) Fax: 3285-2222/celular: 9611-4050 E-mail: frederico_barra@yahoo.com.br

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      29 Set 2008
    • Data do Fascículo
      Ago 2008

    Histórico

    • Aceito
      15 Ago 2008
    • Recebido
      03 Jun 2008
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