Suicídio em adolescentes no Brasil: problema de saúde publica?

Suicide among adolescents in Brazil: public health problem?

CARTA AOS EDITORES

Suicídio em adolescentes no Brasil: problema de saúde publica?

Suicide among adolescents in Brazil: public health problem?

Caro Editor,

Em artigo recém publicado, "Ideação suicida em adolescentes de 11 a 15 anos: prevalência e fatores associados", Souza et al. abordaram um assunto muito importante sobre a prevalência (14,1%) e fatores associados à ideação suicida entre adolescentes, tais como ser do gênero feminino (principalmente as jovens com vida sexual ativa), sofrer de provável problema mental e uso de substâncias psicoativas1. Esta publicação nos leva a considerar algumas questões de saúde pública.

A primeira questão refere-se à necessidade de conhecimento atualizado e sistematizado sobre a frequência de ideação suicida, a frequência das tentativas de suicídio e, por fim, o número de suicídios completos. A cidade de São Paulo tem 1.628.589 jovens entre 10 e 19 anos, sugerindo uma prevalência de 2/100.000 casos de suicídio nessa população, com maior concentração de suicídio completo entre 15 e 19 anos e com métodos mais violentos (Tabela 1). Porém, não dispomos de dados sobre as tentativas de suicídio, o que seria necessário para delinearmos um cenário mais preciso acerca do risco dessa população e assim estabelecer os planos de ação visando à prevenção.

O segundo aspecto é o reduzido número de pesquisas sobre o desenvolvimento dos transtornos mentais desde a infância e a busca de uma nova metodologia para identificar transtornos mentais e sintomas precoces na população infantil2. Nesse sentido, seria fundamental que a Psiquiatria buscasse critérios para a definição de casos "com risco", desenvolvendo metodologias que identificassem estes indivíduos e realizassem intervenções antes de a doença se manifestar, com o objetivo de impedir o seu aparecimento, ou atenuar a sua forma de apresentação2. Apenas com esses estudos poderíamos ter conhecimento de quantos e quais sujeitos desse universo de 14% da população1 jovem necessita de ações preventivas.

Por fim, apesar dos avanços metodológicos, o Brasil carece de pesquisas epidemiológicas consistentes, que considerem a especificidade de fatores regionais e/ou culturais na proteção ou risco à saúde mental de crianças e jovens3. Soma-se a essa carência a falta de psiquiatras da infância e adolescência no Brasil4. A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda um psiquiatra infantil de período integral para 30.000 crianças e adolescentes. Os psiquiatras infantis no Brasil atendem uma população 20 vezes maior do que a preconizada4. Apesar de não termos dados epidemiológicos fidedignos sobre tentativas, pensamento/intenção e suicídio completo, a literatura sugere que a taxa de tentativas de suicídio nesta população seja 100 vezes a frequência de casos completos5. Estes são quadros considerados graves e pressionam a demanda assistencial, acarretando, muitas vezes, a desassistência à população infanto-juvenil, principalmente nos casos de transtornos mentais severos4.

Assim, seria fundamental conscientizar os responsáveis pelas políticas educacionais e de saúde da necessidade urgente da ampliação do número de novos profissionais4 e discutir as políticas públicas em saúde mental para esta população, incluindo a necessidade de expansão da rede de serviços de saúde mental infantil e juvenil e sua articulação efetiva com outros setores públicos dedicados ao cuidado da infância e adolescência3.

Sonia Maria Motta Palma, Helena Maria Calil

Departamento de Psicobiologia, Universidade Federal de São

Paulo (UNIFESP), São Paulo, SP, Brasil

Marcos Tomanik Mercadante

Departamento de Psiquiatria, Universidade Federal de São

Paulo (UNIFESP), São Paulo, SP, Brasil

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  • 1. Souza LD, Silva RA, Jansen K, Kuhn RP, Horta BL, Pinheiro RT. Suicidal ideation in adolescents aged 11 to 15 years: prevalence and associated factors. Rev Bras Psiquiatr 2010;32(1):37-41.
  • 2. Miguel EC, Mercadante MT, Grisi S, Rohde LA. The national science and technology institute in child and adolescence developmental psychiatry: a new paradigm for Brazilian psychiatry focused on our children and their future. Rev Bras Psiquiatr 2009;31(2):85-8.
  • 3. Couto MC, Duarte CS, Delgado PG. Child mental health and Public Health in Brazil: current situation and challenges. Rev Bras Psiquiatr 2008;30(4):390-8.
  • 4. Moraes C, Abujadi C, Ciasca SM, Moura-Ribeiro MV. Brazilian child and adolescent psychiatrists task force. Rev Bras Psiquiatr 2008;30(3):294-5.
  • 5. Roesler J, Petcoff M, Azam A, Westberg S, Kinde M, Crosby A. Nonfatal suicide attempts and other self-inflicted harm. Beltrami County youths, 2002-2006. Minn Med. 2009;92(8):53-5.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    26 Abr 2011
  • Data do Fascículo
    Mar 2011
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