Revisão histórica e do quadro clínico sobre síndrome de Asperger

CARTA AOS EDITORES

Revisão histórica e do quadro clínico sobre síndrome de Asperger

Vanessa Kelven Buraneli Ortiz; Clizeide Luzia da Costa Aguiar; Maria Eloísa F D'Antino

Universidade Presbiteriana Mackenzie

Sr. Editor,

Indivíduos com síndrome de Asperger (SA)1 apresentam prejuízos qualitativos na interação social e padrões restritos de interesse, porém geralmente não apresentam atraso na aquisição da linguagem. O conjunto desses sintomas resulta em prejuízos significativos no funcionamento e ocupação social,1 como recentemente apresentado em artigo da RBP.

As intrigantes alterações da sociabilidade que esses indivíduos apresentam têm tido suas bases estudadas por métodos que avaliam a varredura visual (eye-tracking) frente a estímulos sociais e não sociais.2 Uma hipótese muito estudada considera que o olhar adequado nos olhos do interlocutor permite uma inferência sobre o estado mental do outro. Essa habilidade, somada a outras capacidades, parecem dar subsídios para o que tem sido denominado Teoria da Mente – (ToM).3 Isso parece ser verdade, uma vez que crianças com catarata congênita operadas após o primeiro ano de vida têm seu desempenho comprometido nos testes que medem a ToM quando avaliadas ao final da infância.4

Não perceber o estado mental do outro impede que se antecipe ações e reações que fazem parte da construção da interação. Indivíduos com SA acabam tendo um desempenho social prejudicado devido a esse déficit na capacidade antecipatória.

Os custos sociais que essa falta de habilidade determina é elevado, uma vez que essas pessoas não têm seu potencial otimizado e, muitas vezes, acabam não conseguindo atingir uma condição de independência. Incapazes de gerar renda, passam a pertencer a uma camada social improdutiva, portanto, mais dispendiosa para a própria sociedade. Se devidamente atendidos em suas necessidades especiais, poderíamos ter um contingente de indivíduos com SA capacitados para diversas funções produtivas. Na atualidade, já temos recursos metodológicos para dar a essas pessoas uma educação de qualidade, capaz de atender às necessidades e demandas específicas.

No Brasil, a ABRA (Associação Brasileira de Autismo) não tem dados sobre o que está sendo realizado com essas crianças. Embora a AMA (Associação de Amigos do Autista) informe que a tendência seja a inclusão dessas crianças, o número que este órgão apresenta é relativamente pequeno, num total de sete crianças freqüentando o ensino regular na cidade de São Paulo. Resta saber o que está ocorrendo com o imenso contingente dessas crianças. É temerário que elas não estejam sendo identificadas e diagnosticadas, impedindo o estabelecimento de intervenções adequadas.

Além disso, baseado no conhecimento atual, entende-se que a simples freqüência dessa criança no meio escolar não atende às demandas específicas de cada uma delas. Por exemplo, as inabilidades sociais que essas crianças apresentam – como a ingenuidade – podem impedir o desempenho acadêmico caso não sejam devidamente entendidas e atendidas. Os prejuízos observados nas funções executivas comprometem o estabelecimento de estratégias, o que também pode prejudicar a escolarização. Hoje, sabe-se que essas dificuldades podem ser corrigidas ou compensadas quando precocemente detectadas.

Referências

1. Klin A. Asperger syndrome: an update. Rev Bras de Psiquiatr. 2003;25(2):103-9.

2. Klin A, Jones W, Schultz R, Volkmar F, Cohen D. Defining and Quantifying the Social Phenotype in Autism. Am J Psychiatry. 2002;159:895-908.

3. Siegal M, Varley R. Neural Systems Involved in "Theory of Mind". Nature Reviews/Neurocience. 2002;3:463-71.

4. Le Grand R, Mondloch CJ, Maurer D, Brent HP. Neuroperception early visual experience and face processing. Nature. 2001;410:890.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Fev 2005
  • Data do Fascículo
    Set 2004
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