Qualidade de vida na depressão pós-parto na adolescência

Quality of life in postpartum depressed adolescents

CARTA AOS EDITORES

Qualidade de vida na depressão pós-parto na adolescência

Quality of life in postpartum depressed adolescents

Sr. Editor,

A depressão pós-parto (DPP) é um problema de saúde pública que afeta a saúde da mãe e o desenvolvimento do recém-nascido, ocorrendo entre 4 e 20 semanas após o parto, com prevalência situada entre 10 e 20% em amostras não selecionadas de puérperas.1

A DPP tem sido considerada um dos maiores problemas da maternidade na adolescência, acometendo até uma em cada duas mães adolescentes.2 Apesar disso, é ainda pouco investigada em nosso meio.

A gravidez na adolescência é um problema de caráter social. É mais freqüente em classes sociais menos favorecidas e acarreta conseqüências biopsicossociais negativas,2 favorecendo o surgimento da DPP e podendo ocasionar índices reduzidos da qualidade de vida (QV).3,4 No entanto, importa ressaltar que existe um subgrupo de mulheres com maior vulnerabilidade genética aos eventos pós-parto (notadamente aquelas com história pessoal e/ou familiar de transtornos de humor), não guardando relação com fatores sociais.

Diante desse panorama, em 2006 foi realizada uma dissertação no Mestrado em Hebiatria da Universidade de Pernambuco, com objetivo de investigar a ocorrência da DPP em 177 puérperas adolescentes da rede pública de saúde da cidade do Recife-PE e de avaliar a QV dessas pacientes.5 Para diagnóstico da depressão, utilizou-se a Postpartum Depression Screening Scale (PDSS),1 e para a QV, a SF-36. O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Pernambuco. As adolescentes com idade igual ou superior a 18 anos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e as menores de 18 anos tiveram o documento assinado por um responsável.

A idade média das adolescentes entrevistadas foi de 17 anos (14-20 anos); 88 (49,7%) tinham o ensino fundamental incompleto e 53 (30%) haviam concluído o ensino fundamental. Em sua maioria, 128 (72,3%) relataram renda per capita familiar de até um salário mínimo. As 177 adolescentes foram entrevistadas entre a sexta e vigésima semanas de pós-parto, tendo sido encontrada DPP em 61 (34,5%).

As puérperas com DPP apresentaram maior número de gestações (p = 0,018) e partos (p = 0,01), consumiram mais substâncias lícitas (p = 0,001) e ilícitas (p = 0,001) e alimentaram menos o recém-nascido com aleitamento exclusivo (p = 0,02). Não houve diferença estatisticamente significante no tocante aos aspectos sociodemográficos em ambos os grupos de puérperas.

Em relação à QV, observaram-se, nas adolescentes com DPP, os piores escores em todas as subescalas da SF-36, sendo as diferenças estatisticamente significantes nos domínios: saúde mental (p = 0,001), vitalidade (p = 0,001), estado geral de saúde (p = 0,003), aspectos sociais (p = 0,033) e capacidade funcional (p = 0,010).

De maneira semelhante, Rojas et al.correlacionaram a gravidade da depressão com a QV em 159 mulheres com DPP.3 A escala de QV utilizada foi a SF-36 e a de DPP, a Edinburgh Postpartum Depression Scale (EPDS). Os resultados mostraram relevante comprometimento nos aspectos emocionais, físicos e vitalidade da SF-36 nas puérperas com DPP, comparadas com as não deprimidas. Da Costa et al. avaliaram 93 mulheres com DPP e também observaram comprometimento em cinco dos oito domínios da SF-36: limitação por aspectos físicos, emocionais, saúde mental, aspectos sociais e vitalidade.4

Os resultados permitem afirmar que na amostra de adolescentes puérperas da rede pública de saúde da cidade do Recife-PE, avaliada por meio de um instrumento de screening, observou-se uma prevalência importante de depressão e que os índices de QV nesse subgrupo foram piores, sugerindo haver uma relação entre DPP e QV.

Diante do exposto, torna-se fundamental que pesquisas nesta área sejam realizadas, com inclusão de escalas de QV e a verificação das variáveis envolvidas.

Edilene Maria da Silva Barbosa

Faculdade de Enfermagem Nossa Senhora

das Graças (FENSG), Recife (PE), Brasil

Kátia Petribú, Maria Helena de Araújo Mariano,

Moacir de Novaes Lima Ferreira, Araken Almeida

Faculdade de Ciências Médicas e

Hospital Universitário Osvaldo Cruz,

Universidade de Pernambuco (UPE),

Recife (PE), Brasil

Financiamento: Inexistente

Conflito de interesses: Inexistente

  • 1. Cantilino A. Tradução para o português e estudo de validação da Postpartum Depression Scale na população brasileira [dissertação]. Recife: Universidade Federal de Pernambuco; 2003.
  • 2. Figueiredo B. Maternidade na adolescência: conseqüências e trajetórias desenvolvimentais. Ana Psicol. 2000;4(8):485-98.
  • 3. Rojas G, Fritsch R, Solis J, Gonzalez M, Guajardo V, Araya R. Calidad de vida de mujeres deprimidas en el posparto. Rev Med Chil. 2006;134(6):713-20.
  • 4. Da Costa D, Dritsa M, Rippen N, Lowensteyn I, Khalife S. Health-related quality of life in postpartum depressed women. Arch Womens Ment Health. 2006;9(2):95-102.
  • 5. Barbosa EM, Silva MC, Silva MR, Montenegro MC, Petribu K. Depressão pós-parto na adolescência: um problema relevante? Rev Saude Publica. 2006;40(5):935-7.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Mar 2008
  • Data do Fascículo
    Mar 2008
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