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Esquizofrenia: dois enfoques complementares

Livros

Esquizofrenia: dois enfoques complementares

Projeto Fênix - Associação Pró-Saúde Mental. 1999. São Paulo: Lemos Editorial & Gráficos. 69 páginas. ISBN 85-7450-020-8

A esquizofrenia ainda gera muitas dúvidas, angústias e preconceitos em seus portadores, familiares, amigos e em toda a sociedade. Mesmo profissionais da área de saúde mental sentem-se freqüentemente impactar frente a um diagnóstico de esquizofrenia, devido a sua evolução, tantas vezes de difícil manejo, e às implicações decorrentes de sua freqüente cronicidade. Esse livro inaugura a Série Psicopedagógica do Projeto Fênix, que pretende publicar literatura sobre doenças mentais em uma linguagem acessível ao público leigo, utilizando informações científicas atualizadas.

Para aqueles que ainda não conhecem, o Projeto Fênix é uma entidade civil sem fins lucrativos, dirigida por portadores de doenças mentais e seus familiares. Tem como objetivo defender os direitos dos portadores de doenças mentais e buscar facilitar a recuperação e ressocialização dos mesmos por meio do fomento de grupos de auto-ajuda. Além disso, procura promover a atualização da comunidade pela divulgação de informações científicas sobre as doenças mentais.

Os "dois enfoques complementares", citados no título do livro, são de psiquiatras com larga experiência no campo da esquizofrenia e do diretor presidente do Projeto Fênix. Reúne, portanto, dois pontos de vista de fato complementares: o daqueles que se dedicam a estudar e tratar a esquizofrenia, e o daqueles que convivem com ela. Inicialmente os dois médicos abordam informações gerais bastante completas sobre o que é doença, seus sintomas, diagnóstico, causas e evolução, passando ainda por diagnósticos diferenciais, complicações e sinais de recaída. Combinando dados científicos com exemplos, fornecem informações fundamentais para a melhor compreensão do quadro. Os principais sintomas, por exemplo, são descritos um a um em linguagem clara: "O autismo é a volta para si mesmo, passando a pessoa a viver dentro de um mundo próprio fantasioso, 'desligada' do mundo exterior que a rodeia."

Um segundo item compreende vários pontos relativos ao tratamento da esquizofrenia. Começa com o tratamento medicamentoso, abordando os antipsicóticos, as indicações para as fases aguda e de remissão, os efeitos colaterais dos medicamentos e o uso dos antidepressivos e da eletroconvulsoterapia. Também aqui, a clareza da apresentação não prejudica o acesso às informações científicas. Numa segunda parte do item referente ao tratamento, são descritas as principais abordagens psicossociais. Cada uma é descrita rapidamente, destacando-se os objetivos pretendidos com a sua indicação. Os trabalhos voltados ao paciente e aos familiares - psicoterapia, terapia ocupacional, acompanhamento terapêutico e orientação familiar - são abordados do ponto de vista da integração do portador aos grupos sociais com os quais se relaciona. Essa mesma visão está presente nos itens referentes à abordagem psicossocial em instituições (internação, hospital-dia, centros de convivência) e grupos de auto-ajuda, além de pensões e oficinas de trabalho protegidas - dois recursos de extrema importância, porém ainda muito pouco disponíveis em nossa realidade.

As conclusões desse primeiro enfoque são apresentadas na interessante forma de perguntas e respostas, contemplando boa parte das mais freqüentes dúvidas que familiares e público leigo em geral têm em relação à esquizofrenia.

O segundo enfoque apresentado é o dos grupos de auto-ajuda. Escrito em primeira pessoa, aborda com clareza e maturidade o ponto de vista dos portadores de distúrbios psiquiátricos. Mostra como conviver não somente com uma doença crônica, mas também com o tratamento, com os profissionais e com o sistema de saúde, buscando atingir juntos (portadores e profissionais da área) a mesma meta: o controle da doença e a ampliação da qualidade de vida dos doentes. A diferença entre os conceitos de tratamento, recuperação e ressocialização é enfocada em um dos itens dessa parte do livro, demonstrando como essas fases devem ser entrelaçadas para que tal meta seja atingida.

Também a importância da superação da negação da doença, vencendo os preconceitos, é apresentada como fundamental para o bom desenvolvimento do tratamento, sendo esse um dos pontos essenciais dos "passos para a recuperação" propostos pelos grupos de Psicóticos Anônimos. Somente a aceitação pode conduzir à mudança. Mas para que isso aconteça, é preciso, antes de qualquer coisa, que o diagnóstico seja corretamente definido e claramente apresentado para o paciente. Aqui a experiência pessoal do autor é de grande valia para todos que desejam compreender melhor a doença. O direito essencial de acesso às informações referentes ao diagnóstico e ao tratamento é destacado, assim como a importância da individualização quanto às características peculiares de cada um e de sua relação com os grupos aos quais pertence. Em "Postura perante os tratamentos", Luiz Barros aborda não somente o direito às informações e ao consentimento quanto às condutas, mas também a importante questão do vínculo terapêutico e do apoio aos familiares. Em seguida, apresenta os "Passos para a recuperação dos grupos de psicóticos anônimos", que à semelhança de outros grupos de auto-ajuda, devem ser diariamente assumidos para que a verdadeira recuperação se desenvolva.

A situação atual dos direitos dos portadores de doenças mentais, em relação à nossa Constituição e aos projetos que tramitam no Congresso, é apresentada ressaltando-se sua importância e a atuação do Projeto Fênix.

Finalmente, algumas perguntas freqüentemente realizadas por familiares e pacientes são respondidas, agora na perspectiva daqueles que convivem com a doença e com o tratamento, e valiosos "toques" para a identificação do mau atendimento são apresentados. É muito bem-vinda e oportuna a Série Psicopedagógica do Projeto Fênix, que deverá ser um instrumento de grande utilidade para o público leigo e para os profissionais de saúde mental.

Ana Cristina Belizia Schlithler

Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental da Santa Casa de São Paulo

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Out 2000
  • Data do Fascículo
    Mar 2000
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