Primeiros relatos sobre doenças mentais em nativos brasileiros: as descrições de Von Martius (1844)

First reports of mental disorders of Brazilian natives: descriptions by Von Martius (1844)

Paulo Dalgalarrondo

Memória

Primeiros relatos sobre doenças mentais em nativos brasileiros: as descrições de Von Martius (1844)

First reports of mental disorders of Brazilian natives: descriptions by Von Martius (1844)

Doenças Mentaes

"Os selvagens brasileiros rarissimamente são sujeitos às doenças mentais. Suas idéias apáticas, mania melancólica, inteligência circunscrita, em relação a tudo que diz respeito à mais alta e requintada vida espiritual, explica porque lhes são estranhas as alienações da psique, que entre nós provêm das extremadas emoções e das imaginações mórbidas.

Se excluímos o delírio passageiro da embriaguez, a raiva do ciúme ou do ódio, quase não existe paixão que possa levar o índio a um desarranjo mental. Porém, muita vez, se notam: demência e idiotia, provavelmente conseqüências de traumatismos graves ou de doenças internas que evolveram desfavoravelmente. A única doença mental de que ouvi falar deveria ser comparada com a licantropia, isto é, com a alienação, na qual o indivíduo, fora de si de raiva, corre ao ar livre, imita a voz e os modos do cão ou do lobo, transformando-se em lobisomem.

O índio, pálido, taciturno, interiorizado, com o olhar fixo e incerto, vagueia ou se isola de todo o convívio. Uma tarde, depois do sol posto, repentinamente irrompe nele uma sede insaciável de sangue humano (Pyâ-ayba, em tupi), com todos os sinais de uma raiva extravagante. Corre desabaladamente pela aldeia, e quem quer que o encontre se expõe a ser atacado; uivando se dirige para os lugares onde há cadáveres enterrados, revolve a terra, deita-se no chão ou involuntariamente vagueia pelos ermos. Este mal se repete durante 8 a 14 dias e termina por completo abatimento, ou se transforma em febre.

Este fato se pode observar, epidemicamente, nos homens e nas mulheres, e isto principalmente depois de contínua licenciosidade, embriaguez, danças, e excitações de outra natureza. Os índios acreditam que a feitiçaria seja causadora disto. Os missionários consideram sempre necessário separar logo os doentes da sociedade, para que o mal não se alastre mais."

Inercia das Funcções Vitaes

"Os colonizadores e fazendeiros que empregam os índios como criados ou escravos nos trabalhos de suas fazendas, trazidos por expedições belicosas ou pacíficas, os chamados - descimentos, podem muito bem dar testemunho desta grande prostração, desta carência de energias das funções nutritivas, principalmente, nos lugares onde faltam ao índio os encantos da alma e em que se vê sujeito a um modo de viver, de todo contrário ao que levava anteriormente.

Poucas semanas bastam para reduzir o índio mais robusto a um esqueleto, levando-o fatalmente à morte, se não voltar pela própria vontade, pelo auxílio dos companheiros ou, raras vezes também, pelos cuidados humanitários do patrão, à sua primitiva liberdade nas matas.

Essa rápida decadência da nutrição sempre se realiza sob a influência de profunda melancolia e isto com razão é mencionado, como prova do grande domínio que têm as influências psíquicas sobre o índio. Julgamos poder atribuir como causa disto, a debilidade do seu sistema plástico(nutritivo e metabólico).

O que dizemos torna-se ainda mais evidente, quando comparamos os brasis com os negros, em idênticas circunstâncias, isto é, sob a influência do sofrimento denominado - Banzo, tão conhecido dos possuidores de escravos. Essa nostalgia manifesta-se também nos negros, por um profundo abatimento que na maioria dos casos acaba com a morte.

Enquanto o índio quase não exterioriza o que se passa no seu íntimo, e trabalha, se bem que sempre só, embora mandado, parecendo ter-se tornado um autômato que não tem outra idéia senão talvez fugir. No banzo do negro, se reflete uma excitação extraordinária de todas as sensações, que se acham em relação com seu estado de espírito. Este desgraçado se entrega então, inteiramente, e com prazer, a suas tristes idéias; à lembrança do passado que a cada instante se lhe apresenta revestida das mais vivas cores pela exaltação da imaginação, o extasia; abastem-se de todo e qualquer alimento, e parece querer com estas torturas, dar mais realce ao seu lento e horrendo suicídio. Apesar disto, porém, o negro resiste mais do que o índio aos estragos produzidos por esses sentimentos dolorosos; arrasta, por muitos meses, lânguida existência, até que, por fim, uma repentina hidropisia ou tuberculose galopante o arrebata a vida torturada, que ele parece sentir mais do que o aborígene da América."

Von Martius, CFP. Natureza, doenças, medicina e remédios dos indios. São Paulo (SP):

Companhia Editora Nacional, 1939.

Paulo Dalgalarrondo

Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jun 2000
  • Data do Fascículo
    Mar 1999
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